Elvira e a guitarra

Guilherme Scarpellini scarpellini.gui@gmail.com O que os gatos pensam dos seres humanos? São seres limitados em sua miserável existência. Dependem de relógios para não se esquecerem dos compromissos que prefeririam esquecer. Buscam a companhia dos outros para não conviver com eles mesmos. Saem cedo e retornam ao cair da noite. E retornam menores, encurvados e dilacerados. Não bastasse isso, ainda precisam de banho. Que merda é … Continuar lendo Elvira e a guitarra

Pé dormente

Guilherme Scarpellini scarpellini.gui@gmail.com Acordou com o pé dormente. Foi pulando no pé bom até a pia e enxaguou o rosto. Mal havia escovado os dentes e pegou o celular para checar os e-mails. Ao servir o café amargo, já havia olhado outras três vezes. Os primeiros minutos se passaram. Depois, a primeira hora. Então, a segunda… Sem e-mails. Não gostava de manhãs tranquilas. Ao sair … Continuar lendo Pé dormente

Os cinco filhos de dona Branca

Guilherme Scarpellini scarpellini.gui@gmail.com Foi uma vida toda acumulando de tudo. Livros, vasos, fotografias nas prateleiras. Revistas, quadros, velharias nos armários. Móveis por todos os cantos. Coisas em todas as gavetas. Agora que conseguiu vender o mausoléu, onde é que vai enfiar isso tudo? Dona Branca vai se mudar para um apartamento. Quarenta anos atrás, os filhos se amontoavam em volta da mesa. Lilico, Melissa, Tereza, … Continuar lendo Os cinco filhos de dona Branca

Doutor Wanderley, o coveiro e o defunto

Márcio Magno Passos Único médico na cidade, doutor Wanderley acabara de entrar em casa debaixo de um temporal nunca visto. Estava exausto após um dia inteiro de andanças pela zona rural, atendendo o sofrido e carente povo da roça. Médico exemplar e de alto espírito humanista, ele gozava de grande prestígio e respeito de toda a população. Mal esticara as pernas sobre o sofá, tocaram … Continuar lendo Doutor Wanderley, o coveiro e o defunto

O anjo

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Com a reabertura da cidade, um prédio comercial de alto padrão voltou a ficar movimentado. É um entra e sai dos escritórios, consultórios, lojas; e um sobe e desce dos elevadores lotados. Até as escadarias de incêndio estão apinhadas de gente. O problema é justamente este: gente. Em especial, gente que anda por aí sem máscara. Três jovens advogados, que conhecem as leis … Continuar lendo O anjo

Continho de ficção científica

Guilherme Scarpellinscarpellini.gui@gmail.com Era ainda menino, com os joelhos ralados e o nariz escorrendo, quando Pedrinho começou com essa mania de esconde-esconde. Dava a hora do almoço, e o moleque escondia-se no armário. A mãe dele, coitada, o procurava em todos os cantos, e nada de Pedrinho aparecer. De repente, aparecia — e a marca do chinelo na bunda também. Nem a professora ele perdoava. Uma … Continuar lendo Continho de ficção científica

Eu & eu comigo

Rosangela Maluf Faria cinco meses naquela semana!  Um isolamento social severo, o distanciamento recomendado, o uso da insuportável máscara, o álcool gel na bolsa, a higienização das mãos e de tudo o que fosse comprado, antes de ser guardado, já em casa. Nada de amigos, família, abraços, beijos, papos em dia, nada! Acordar às sete horas, o pequeno ritual da manhã e meia hora de … Continuar lendo Eu & eu comigo

Corcel 73

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Era mais bem tratado que muita gente. Abastecido com gasolina cara, encerado com paninho de estopa, cheirinho no interior, estofados muito bem cuidados e nem uma marquinha de dedos no retrovisor. Não te disse? O Corcel 73 era mesmo mais bem tratado que muita gente. E ai de quem pedisse para dar uma voltinha. O velho enciumado inclinava a cabeça e devolvia aquele … Continuar lendo Corcel 73

A cachorra Bisteca

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Um continho de terror… Toda quarta-feira era assim: d. Vitória não tinha sossego. Noite de futebol na tevê, Fabiano, o marido beberrão, se esparramava no sofá. Abria a primeira lata de cerveja, estirava as pernas pro alto e enchia a mão de amendoim torrado. Fazia da barriga grande e espalmada a sua mesa de bar. Bisteca, a cachorra aborrecida, via aquilo tudo e … Continuar lendo A cachorra Bisteca

Um Sintoma Especial

Rosangela Maluf A pandemia já durava cem dias. O mal que conseguira se espalhar pelo mundo todo, fazia com que aqui, em Serra Escura, seus efeitos absurdos e alarmantes se mostrassem ainda mais intensos e diversificados, a cada dia. Num primeiro momento foram todos – especialistas e sem nenhuma especialização – para a televisão, para os jornais e para as redes sociais informar à população … Continuar lendo Um Sintoma Especial