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Corcel 73

Reprodução/GettyImages
Guilherme Scarpellini
scarpellini.gui@gmail.com

Era mais bem tratado que muita gente. Abastecido com gasolina cara, encerado com paninho de estopa, cheirinho no interior, estofados muito bem cuidados e nem uma marquinha de dedos no retrovisor. Não te disse? O Corcel 73 era mesmo mais bem tratado que muita gente.

E ai de quem pedisse para dar uma voltinha. O velho enciumado inclinava a cabeça e devolvia aquele olhar desdenhoso sobre os óculos na ponta do nariz.

— Ele só vai com o dono.

Ia mesmo. Para cima e para baixo nas ruelas da pequena Araxá com o velhinho ao volante. Quanta elegância. Todo mundo parava para ver o Corcel 73 passar. A lataria reluzia feito diamante. Os pneus, tão pretos, pareciam nunca terem tocado o chão. O barulho do motor era um ronco aristocrático. E a fumaça do escapamento subia como depois de uma glamourosa tragada na piteira de um cigarro Hollywood: coisa de cinema.

Porém, consoante a sabedoria popular, quem via cara não via coração. E lá dentro do Corcel 73, atrás do volante, o velho ouvia um zunido irritante, um zum-zum incessante, um grilo falante, que ninguém mais ouvia, só ele, que teimava inarredavelmente:

— É o coração do Corcel 73.

Mandou apertar aqui, encaixar ali, enroscar acolá, e nada. O barulho insistia, aliás, o coração insistia, e palpitava ruidosamente. E o velho só falava naquilo, chegando a cogitar desfazer-se do Corcel 73. Afinal de contas, neste ponto, corria outro ditame popular: carro, quando começa a barulhar, é ferro velho.

Até que um companheiro de bar propôs a solução. Havia um pianista, de ouvido absoluto, que vinha de São Paulo, tendo trabalhado com os netos de Sherlock Holmes, quando de uma estada no velho continente. Era o homem certo para desvendar o mistério do Corcel 73.

O velho despachou um telegrama para São Paulo e, dali a quinze dias, o pianista desembarcava na estância de águas milagrosas de Araxá. Apeou do trem, ajeitou o paletó e foi direto ao assunto, exigindo as chaves do Corcel 73.

— Ele só vai com o dono — teve como resposta.

Pois foram o pianista e o velho pelas ruelas da pequena Araxá — claro, o velho ao volante. Despencaram-se das ladeiras, soltaram-se nas curvas, chacoalharam-se nas lombadas, e nada. Nem um barulhinho. Mas o velho teimava, assegurando ouvir uma zoeira danada, uma tremenda algazarra, quase uma batucada.

Então o pianista propôs a prova de fogo. Pediu ao velho que tomasse a estrada velha do Barreiro. Chão de pedras centenárias, curvas sinuosas, ladeiras perigosas e cascalhos batidos pelos cascos de 100 anos de cavalgadas. Eis o palco perfeito para ouvir os murmúrios do alquebrado Corcel 73.

— Num falei?! — falou o velho, quando o Corcel 73 apontou-se no fim da estrada, batendo as calotas, tremulando o capô e repicando as rodas, conforme os ouvidos do dono. — Uma barulheira só.

— Não ouvi nada — garantiu o outro, estendendo a mão para o velho. — Deixe-me ver os seus óculos.

O pianista sacou uma minúscula chavinha de bolso, deu dois giros singelos nos parafusos das hastes dos óculos, e os entregou de volta ao velho, que já começava a subir estrada velha, com as lentes ajustadas sobre os olhos.

Durante todo o caminho de volta, um tinir sequer foi ouvido. O mistério enfim estava resolvido.

— E carro lá tem coração? — disfarçou o velho.

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