
Já havia percebido no final de ano, quando me visto de Papai Noel, que o folego não é mais aquele de outrora. Tenho guardado no armário as vestimentas do bom velhinho e fantasias de carnaval. São as mesmas tem mais de 15 anos. No caso da festa de momo, eventualmente, admito fazer uma ou outra adaptação. Morando sozinho, com rigor no meu dia a dia, essas peças são cuidadosamente lavadas a guardadas para o ano seguinte. Tenho uma auxiliar do lar, dona Ione, muito zelosa e que está comigo tem exatos 18 anos. Gosto de casa organizada, mas não sei lavar um copo, daí ela vem aqui de segunda a sexta e vivo nessa harmonia.
Neste carnaval pulei o sábado, ou melhor não participei nesse dia. Afinal teve jogo do Galo contra o Itabirito ali em Nova Lima. Não perco jogo do meu time por nada, sério nem festa de qualquer natureza. Com isso, só três dias, uma vez que raramente vou no pré ou pós, fui criado e formado com carnaval de sábado até terça-feira. Vou e repito, desde a infância na matinê do Clube Araxá; depois nos salões do Grande Hotel da minha cidade (aquilo sim que era carnaval de verdade, com marchinhas até hoje embalando minha memória); escolas de samba, lá Unidos de São Pedro e em BH Cidade Jardim (num ano que homenageou meu saudoso amigo Roberto Drumond) e até os dias de hoje nessa explosão que Belo Horizonte passou a viver e conviver.

Diga-se, graças a irreverência da população – característica do povo brasileiro – contra a tentativa de impedir a alegria das festas de rei momo. A alegria tem de sobrepor à tristeza. Pessoas tristes ficam fracas e se deixam dominar. O carnaval potencializa a capacidade de suportar à pressão psicológica e tem quem não queira o povo unido e forte. O então prefeito Márcio Lacerda, reaça que se travestiu de progressista, resolveu decretar a morte dos blocos belorizontinos. A reação foi imediata. Nada combinado, apenas de boca em boca, ganhou as ruas da cidade com uma marchinha da resistência. O refrão era “começa com M, termina com ERDA”, e o povo tomou conta das ruas. Resultado foi que – ano a ano – Belo Horizonte se transforma nos dias de carnaval. São milhões de foliões de vários cantos do Brasil e do mundo ocupando as ruas, praças e avenidas da capital brasileira dos bloquinhos. Existem inconvenientes, claro! Mas agita, alegra e movimenta a economia da cidade e mineira.
E é nesse embalo que saio para as ruas. Assim como no caso do Papai Noel, a energia não é mais a mesma dos anos já vividos. Em meio ao carnaval, na medida do possível, uma leiturinha ajuda a preencher o dia. Recebi do bom amigo Luiz Tito – companheiro de D A nos tempos da Milton Campos – um curto e delicioso texto sobre o envelhecimento normal. O autor seria um diretor de Hospital em Pequim, explicando que nossas comorbidades da idade não são doenças e sim sinais dos tempos. A memória fica fraca, mas não é Alzheimer ou demência; os passos mais lentos não são paralisia e sim degeneração muscular que pede exercício físico; a insônia é um ajuste do cérebro ao novo ritmo, tomar sol é o melhor remédio; dores no corpo, nada tem com reumatismo, apenas envelhecimento dos nervos; enfim que o colesterol mais alto não é alarmante e sim defesa e imunidade. E termina com conselhos para viver bem, alertando que “envelhecer não é doença, é um caminho necessário”.

E foi com esse espírito reconfortado que vestia minhas fantasias e tomava rumo ignorado. Sem carro, taxi, uber ou ônibus caminhava obecendo a tolerância das minhas pernas e coluna. Tempos atrás fui na Pampulha, Andradas, Santa Teresa e outros blocos mais distantes. Agora privilegio a região que moro no coração da Savassi. Aprecio mais que as fantasias a alegria contagiosa de gente de todos os gêneros. Ainda que minha geração se assuste com os novos costumes e hábitos, não me ocupo em fiscalizar comportamento de terceiros. Tampouco, como naqueles tempos, em fitar (dizíamos flertar) um olhar feminino. Curto a bateria, tento acompanhar as músicas – hoje desconheço a maioria – e admiro performances dessa gente tão animada. Se saia cedo e ia para longe sem horário para voltar, atualmente só depois de um bom almoço e retorno ainda com o sol quente. Fazendo meu “caminho necessário”.
Entre piadas, provocações e muitas manifestações de gentileza, saio do prédio – agora já não assusto os porteiros, logo que mudei para cá eles estranharam – e vou em busca do barulho que me atrai aos ouvidos. Num dia de presidiário, motivando gente a manifestar ser esse ou aquele caricaturado (nem compensa contar), mas meu negócio era curtir e dançar. Só que tenho limites, então ocorria de ter invertida, como também no dia seguinte com uma túnica de árabe um jovem quis ser engraçado para sua turma e acabou virando chacota no seu grupinho. Provocou com “ô véio!” Respondi “ô invejoso”! Já no dia final, com uma vestimenta menos ostensiva, o velhinho carnavalesco até percebeu estar sendo fitado, mas resistiu a flechada. Até os próximos carnavais. Vida que segue!
*fotos: 1) Xaxá; 2) Junea Drews; 3) Olympio Coutinho
Adorei, Eduardo! A sua saga pelo ” Carná Belo” foi muito boa! Curtiu demais!
Eduardo Ávila, bom dia!
Como é bom viver e relembrar nossas alegrias. Só de sairmos de casa para comemorar (viver), já incomoda muita gente. O melhor é estarmos de bem com nós mesmo! A alegria de viver bem, é contagiante; mas, incomoda muitos incáutos e funéstos. Não devemos nos precocupar; pois, além de sáude, o que precisamos é de amizades.
Assim, continue a nos prestigiar com suas exposições, tanto aqui como no blog do Nosso Temido e Glorioso GALO; principalmente, propagando alegrias, como sempre. Nós sempre pregamos: Mal humor é doença e contagiosa! sai de perto!
Abraços.
Bom Dia Eduardo de Ávila! Parabéns pela felicidade e otimismo. Cultivar a alegria e a socialização promove a saúde física e emocional. A felicidade está diretamente ligada à uma vida social saudável. Abraços Fraternos, Patrícia Lechtman.
Admiro muito a facilidade que tem para se expressar, de maneira simples, genuína, verdadeira e cativante. Parabéns meu amigo! Sempre me delicio com suas crônicas e sou muito grato!
Eduardo, isso é pura alegria e reflexão! Você é um exemplo de que a idade é só um número
Continue curtindo muito!!
Você é um craque!
Eduardo, isso é pura alegria e reflexão! Você é um exemplo de que a idade é só um número
Continue curtindo muito!!
Você é um craque!