Brasil na terra da fantasia

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Eu às vezes encaro uns tijolões literários, de muitas páginas e letras miúdas, que levam pouco mais de uma eternidade para ser lidos. Foi assim com “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin. Cinco volumes tão parrudos, que se nos equilibrássemos em cima deles, daria para apertar a ponta do nariz do índio, no alto do edifício Acaiaca — … Continuar lendo Brasil na terra da fantasia

Continho de ficção científica

Guilherme Scarpellinscarpellini.gui@gmail.com Era ainda menino, com os joelhos ralados e o nariz escorrendo, quando Pedrinho começou com essa mania de esconde-esconde. Dava a hora do almoço, e o moleque escondia-se no armário. A mãe dele, coitada, o procurava em todos os cantos, e nada de Pedrinho aparecer. De repente, aparecia — e a marca do chinelo na bunda também. Nem a professora ele perdoava. Uma … Continuar lendo Continho de ficção científica

Pontinho de luz

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Meu sobrinho nasceu em 2020. Isso quer dizer que ele veio a este mundo ao sabor do caos: às pressas, prematuramente e em meio à aflição de médicos e familiares.   Era segunda-feira, com quase um mês de antecedência, quando ele chegou. Um dia antes, a sua mãe deu entrada no hospital com a pressão arterial batendo nas nuvens. O quadro clínico, silencioso … Continuar lendo Pontinho de luz

Recanto das crônicas

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Rubem Braga passou três crônicas inteiras atrás de sua borboleta amarela — “Borboleta”, “Borboleta II” e “Borboleta III”, todas elas publicadas no Correio da Manhã, em setembro de 1952 — para, ao cabo da jornada, nada acontecer. Era um pedacinho de delicadeza amarela no céu, que começou roçando os cabelos do Cronista Maior para então sobrevoar as vitrinas e o tráfego de carros, … Continuar lendo Recanto das crônicas

Caso de polícia

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Vovó Márcia não esperava ninguém quando a campainha tocou. Já se passava das três, e ela ainda tinha de molhar as roseiras, fazer ginástica pelo YouTube, lavar a louça suja na pia e, depois de zanzar pela casa inteira, poderia enfim sentar-se no sofá, quando tricotaria setenta e cinco pares de sapatinhos coloridos para o bisneto, que chega em janeiro. E quem diabos … Continuar lendo Caso de polícia

Escritor da meia-noite

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com O poeta bem disse que ninguém é poeta das oito da manhã às cinco da tarde. Pior sou eu, um cronista da meia-noite às seis da manhã, que costuma dormir neste mesmo horário. O que faz de mim um escritor tão brilhante quanto o desempenho dos candidatos de Jair Bolsonaro no domingo passado. Ainda assim, não desisto de escrever. Ou, quando desisto, o … Continuar lendo Escritor da meia-noite

Corcel 73

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Era mais bem tratado que muita gente. Abastecido com gasolina cara, encerado com paninho de estopa, cheirinho no interior, estofados muito bem cuidados e nem uma marquinha de dedos no retrovisor. Não te disse? O Corcel 73 era mesmo mais bem tratado que muita gente. E ai de quem pedisse para dar uma voltinha. O velho enciumado inclinava a cabeça e devolvia aquele … Continuar lendo Corcel 73

A cachorra Bisteca

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Um continho de terror… Toda quarta-feira era assim: d. Vitória não tinha sossego. Noite de futebol na tevê, Fabiano, o marido beberrão, se esparramava no sofá. Abria a primeira lata de cerveja, estirava as pernas pro alto e enchia a mão de amendoim torrado. Fazia da barriga grande e espalmada a sua mesa de bar. Bisteca, a cachorra aborrecida, via aquilo tudo e … Continuar lendo A cachorra Bisteca

Pressa pra quê?

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Um segundo antes de o sinal pular do amarelo para o vermelho, o homem acelerou. Quase deu com um motoqueiro que, não menos impaciente, já arrancava do outro lado. Foi quando ouvi uma voz mansa se arrastar. Delongou-se no caminho entre a boca do interlocutor e os meus ouvidos, mas chegou, íntegra: — Ter pressa pra quê? Então o autor da questão apareceu … Continuar lendo Pressa pra quê?

A camisa social

Guilherme Scarpelliniscarpellini.gui@gmail.com Depois de uma temporada neste meu cantinho de mundo mais justo e igualitário, onde as roupas velhas são respeitadas, a barba tem direito de crescer e os pés estão livres dos maus-tratos dos meus sapatos apertados, deu-se a hora de encarar a vida perversa como ela é. Eu precisei vestir uma camisa social. Antes de vestir, porém, precisei desenvolver um foguete espacial usando … Continuar lendo A camisa social