Skip to main content
 -
Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

Eduardo de Ávila Eduardo de Ávila

Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

Guilherme Scarpellini Guilherme Scarpellini

Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

Rosangela Maluf Rosangela Maluf

Professora universitária na área de marketing e nas montanhas de Minas lê, escreve e sonha!

Sandra Belchiolina Sandra Belchiolina

Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

Taís Civitarese Taís Civitarese

Pediatra formada pela UFMG. Trabalha com psiquiatria infantil e tem um pendor pela filosofia.

Victória Farias Victória Farias

Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

Recanto das crônicas

Reprodução/GettyImages
Guilherme Scarpellini
scarpellini.gui@gmail.com

Rubem Braga passou três crônicas inteiras atrás de sua borboleta amarela — “Borboleta”, “Borboleta II” e “Borboleta III”, todas elas publicadas no Correio da Manhã, em setembro de 1952 — para, ao cabo da jornada, nada acontecer. Era um pedacinho de delicadeza amarela no céu, que começou roçando os cabelos do Cronista Maior para então sobrevoar as vitrinas e o tráfego de carros, adentrar as escadarias da Biblioteca Nacional, espreitar os namorados na pracinha e, depois… nada acontecer. Como foi perdê-la de vista assim? Três crônicas inteiras que não levaram a lugar nenhum. Mas um lugar nenhum belo, agradável e aconchegante, como uma crônica de Rubem Braga.

Enquanto isso, Antônio Maria, o cronista de Copacabana, encostou-se a um banco de praia ao alvorecer. Viu o homem de roupão que chegava para fazer ginástica. Depois, o banhista gordo, de pernas brancas, que ia cedo à praia a fim de poupar os outros de sua imagem recôndita. Havia ainda o bêbado com a lapela suja de sangue. Será por onde cambaleou a noite inteira? Seriam divagações para outra crônica — ou até mesmo uma novela policialesca, quem sabe? Mas, por ora, bastava a Maria entregar-se às banalidades do “Amanhecer em Copacabana”, e ficou ali vendo tudo acontecer.

Será que ele viu um homem elegante, de queixo largo, e uma mulher alta, de uma brancura europeia, zanzando pelas ruas de Copacabana? O homem era Paulo Mendes Campos, que, de repente, na repartição, pegou a mão de uma gringa e declamou: vou te levar para comer um “Bolinho de feijão”. Mas não havia uma espelunca no Rio que ainda servisse a iguaria. Pois tomaram, ele e a moça, um avião no Santos Dumont, e partiram para aonde ainda se serviam bolinhos de feijão: Belo Horizonte, mais precisamente, na rua da Bahia. Ignácio’s era o nome do bar — será que ainda existe?

Penso que não. Deve haver hoje uma farmácia Araújo no lugar, vez que os botequins, livrarias e cafés sucumbem como a “Morte de uma baleia”, isto é, lentamente, dolorosamente e sob os olhos curiosos de quem vê. Mas não sob os olhos puxadinhos de Clarice Lispector: “não, não fui vê-la: detesto a morte”, eis um trecho de sua crônica em que relembra todas as vezes que morreu em vida. Logo ela, que completa o centenário de seu nascimento a 10 de dezembro próximo e, um dia antes, os antagônicos 43 anos de sua morte.

O que não morre é a sua literatura. Bem como parte das crônicas de outros grandes escritores, tais como Fernando Sabino, Rachel de Queiroz e Otto Lara Resende, que encontra vida perene no recanto mais sagrado da internet, o Portal da Crônica Brasileira.

O escritor Rubem Braga (Divulgação/Biblioteca Parque Villa-Lobos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.