
Na próxima semana, pretendo, vou discorrer sobre mais um carnaval bem curtido na minha existência. Gosto e sempre gostei, desde as matinês infantis passando pelos bailes nos amplos e suntuosos salões do Grande Hotel de Araxá (roubatilhado da Bia, minha ex), até escolas de samba e atualmente pelas ruas dessa nossa Belo Horizonte. Assim como o natal me visto de Papai Noel, nos dias de momo – ano a ano -, repito as mesmas fantasias guardadas ao longo dos tempos. Tem jovem que me olha espantado no meio daquela muvuca e alguns até reagem e acreditam me agredir. “Olha lá o velho no meio da folia”. Isso é para semana que vem, hoje vou falar do mais puro sentimento que possuímos. Nostalgia!
Outro dia saí de casa para comprar um cobre leito e um jogo de toalha. Antes, por alguma razão, passei na casa da minha irmã que mora próximo e na prosa sobre saudades dos tempos vividos, ela me presenteou com jogos de toalhas que pertenceram à mamãe. Além da economia, a conversa se estendeu e ela lembrou de uma calçadeira que papai usava e era muito vistosa. Feita com casco de tartaruga (foto acima). Isso tem mais de 50 anos. Essa peça é minha desde a morte dele e ela nem sabia. Uso todos os dias para calçar e proteger meu sapatênis. Daí de volta para casa, fiz fotos daquela singela peça de valor inestimado, muito mais que o bom produto. E entrei em transe com nossos tempos aninhados com mamãe e papai. A dor mais dura dessas perdas, mais que o momento da separação física é o desmonte da casa onde vivemos os primeiros tempos das nossas vidas. As meninas, minhas irmãs todas coroas e até hoje assim as chamo, que comandaram essa operação.

Acho que fui o mais contemplado. Morando sozinho tem décadas remontei minha moradia com jogo de sala e de jantar, geladeira e fogão, só desfazendo dessas peças antigas e de longa durabilidade quando me mudei tem pouco mais de dois anos. Meu espaço caiu pela metade e tudo aquilo era enorme. Com limites tive de desfazer desses bens de utilidade doméstica por outros de tamanho melhor adequado. A modesta casa dos nossos pais, aos padrões de hoje, seria uma imensidão. Sei que viajei e até hoje passeio por toda aquela amplidão que parecia pequeninha. Eram sete quartos, quatro na parte principal e três ao fundo; três banheiros, dois e um; sala de visita, duas de jantar, alpendre (quem sabe o que é isso?), uma cozinha imensa com dispensa e uma ampla varanda, além de garagem (estacionamento) para três carros (só tínha uma caminhonete) e um pequeno espaço de quintal. Acredito que moro hoje numa extensão que seria a soma da cozinha e varanda.
E, nesse passeio sentimental, estou revivendo cada pedacinho da casa em Araxá. Aqui comigo, além da calçadeira tem muita coisa daquela divisão. No meu quarto um cabideiro para deixar roupa que vou seguir usando no dia seguinte com suporte para sapato. No quarto de trabalho (atelier, onde faço meu home office – disse só para provocar – naquela época seria chamado de doido), bem à vista uma máquina de datilografia que foi dele. Junto dela uma máquina fotográfica, que não é familiar (presente sensível de pessoa querida), mas tanto antiga quanto e faz parte desse acervo de saudosismo. Abro o armário e lá está um sobretudo, usado por papai quando fez o serviço militar. Noutro armário uma colcha de crochê, mamãe deu uma peça para cada dos oito filhos. Deve pesar – sei lá – em torno de dez quilos. E na sala, apesar dos móveis que tive de desfazer, aprecio uma linda cristaleira que era muito bem cuidada pela mamãe (terceira foto). Dentro dela e noutros armários peças antigas como xícaras (do casamento deles) e outros utensílios que foram da casa dos nossos pais.

Em ato contínuo invadindo cada casa de cada irmã ou irmão, vou deparando com outras peças da nossa história de vida. Quase todas, inclusive a minha, com um quadro da fazenda, hoje no chão e derrubada pela ação do tempo. Num dos irmãos – já ausente e a cunhada de portas abertas – um enorme relógio (nem tão grande como parecia) que passou da vovó para o papai. No outro uma cadeira de balanço que passou também de mão em mão – vovó e papai – antes de chegar até ele. Na casa, hoje imaginária, de uma irmã que já faleceu quadros/molduras (foto intermediária: meus pais com o cabideiro e o sobretudo) e outro relógio de parede que batia de meia em meia hora (era um saco durante a noite). Com essa mana era o aconchego que aprendeu com mamãe. Foi nosso esteio pela continuidade daqueles tempos.
E tem muito mais. Quando vou a Araxá, ao entrar na casa de uma das irmãs, faço lanche numa mesa enorme e cheia de cadeiras que foram da sala de jantar maior daquela mansãozinha e uma cristaleira que era da fazenda. Na outra, além de cadeira de balanço (faz questão de assentar e repetir jeito e gestos da mamãe), ainda uma escrivaninha que além de ter sido do papai me acompanhou durante todo meu período de repúblicas em BH. E uma cristaleira. Tudo isso muito bem restaurado. Nas duas outras irmãs que não moram em Araxá também tem o cheiro e rastro daquela ocasião. Mais uma cristaleira, a velha gostava, na sala para alimentar a saudade. E na última, uma peça emblemática, trata-se de uma arca imensa onde eram guardadas cobertores e mantas quando o frio encerrava seu período. Hoje faz frio e calor todos os dias. Vale registrar que os utensílios e roupas de banho e de cama foram irmãmente bem distribuídos. Por isso ganhei o reforço de toalha que me valeu essas lembranças com a marca usada “CAJ”, de Carlos de Ávila Junior que a Maria do Rosário Ávila ostentava com muito orgulho.
Semana que vem falo de carnavalizar
*imagens: arquivo pessoal
Recordar é viver!
Delícia de texto! Parabéns!
Que texto maravilhoso,guardo de recordação um pedacinho da Dona Maria na padaria fazendo seus biscoitos de polvilho doce ,polvilho azedo e outras quitandas;panos branquinhos sobre as formas .Inesquecível a camionete do seu pai,adorava a paciência e o carinho de levar e buscar sua mãe ,muita riqueza em nossas vidas na outrora pacata Araxá.Adorei a lembrança.
Bom Dia, Eduardo de Ávila! Parabéns pelos escritos! Adornados de respeito a ancestralidade . Honrar pai e mãe é um princípio vital que deveria transcender gerações. Acredito que as recordações familiares moldam parte da nossa conduta. Abraços Fraternos, Patrícia Lechtman.
TEXTO MARAVILHOSO! VOLTEI NO MEU TEMPO… QUE SAUDADES!!! ABRAÇO
Adorei seu escrito sua maninha mais velha
Boa tarde, Dudu! Seu texto me fez recordar minha infância e adolescência lá na Princesa da Zona da Mata. Que delícia que era, a liberdade que tínhamos na rua, os amigos de todas as cores sem que eles se sentissem discriminados. Ao contrário, chamá-los por algum apelido era uma forma de amizade, companheirismo e acolhimento. Estes eram ensinamentos de meus pais e avós que passei para meus filhos. Abs
Eduardo, cada dia mais inspirado ao nos compartilhar lembranças de sua vida em Araxá. Fiquei emocionada ao ler. Grata.
Caríssimo Eduardo ! Abraço saudoso ! Embarquei no seu texto e viagei … Como nosso passado é rico e carregado de belas recordações !!! Parabéns!!!
Que texto lindo! Como o escolhi, caro Eduardo, como uma das minhas utopias de escritor, peço-lhe licença e luz para escrever, via Facebook, um texto sobre a nossa casa e a nossa família, lá de São Gonçalo do Rio Abaixo. Assim que tomar forma, enviarei para você pontuar se devo continuar caminhando. Abraço saudoso e gratidão por tudo.
“Não li, mas já gostei”. A frase não é minha, sim do “tio Hélio” lá do Araxá.