Fechando o confessionário da Argenita

Eduardo de Ávila

Ainda me reajustando à normalidade dos meus dias, ocorre de acordar imaginando ainda estar no sossego que Argenita me proporcionou no final do ano. Não tem fuso horário, mas meu organismo aderiu talvez a um “confuso horário” de costumes entre o arraial e a cidade grande. Fico com a opção de lá. Deitando em torno de 21hs, acordando desperto logo as seis da manhã com os cantos que descrevi semana passada dos pássaros e galos. Dias atrás ao amanhecer com a impressão de ainda estar por lá, consciente que não, segui de olhos fechados nesse embalo até a primeira freada, seguida de buzina e uma batida, fechando logo depois com a sirene. Que saco!

Às vezes contando sobre aqueles cinco dias, afirmo meu desejo de aposentar e ir morar lá onde foi o cenário da minha infância e parte da adolescência. Quem me ouve e me conhece professa que não consigo me adaptar. Tenho consciência disso, mas não me impede de sonhar. Diziam, quando fui, que ficaria uma noite. Foram quatro. Saí com a sensação que ficaria ainda alguns dias a mais, mas tinha compromissos acertados para a virada do ano em Araxá. Minha cidade foi outro redescobrimento, que mais na frente vou dividir com as/os amigas/os que prestigiam esse espaço semanalmente.

O rio São João, onde tem a cachoeira de Argenita e que atrai turistas da região, corre mansinho e seu som acalma o espírito cansado de tempos sem férias. Seriema, tucano, rolinha carijó, tico tico, João de barro, lavadeira mascarada (valeu Alonso), canário da terra cantaram e encantaram a minha curta temporada na Ginita. Ah! E no embalo do “fogo pago”! E o domesticado, folgado, manso e amansado papagaio que tem horário e locais para alimentar. Delirante! Descubro seresteiros e contadores de estórias, descritas na semana passada, tornando ainda mais romântico esse retorno ao passado. Por sugestão do Paulinho Gontijo adocei e trouxe a goiabada da Jacinta. Queijo da venda da Sônia. Todo dia ajudam a recordar do descanso que me proporcionaram.

Da janela do meu quarto de dormir, a primeira imagem acima era minha vista ao amanhecer. Nuns dias com sol e noutros com uma deliciosa e harmoniosa chuvinha. Librinando e não uma trabuzana, como mencionei e ouvia dos moradores. Fato que nunca observo em BH, presenciei a despedida da lua Nova para Quarto Crescente entre os dias 26 e 27 de dezembro. Mágico! E nos finais dos dias, além da musica no bar da Sônia, com sanfoneiro e pandeirista, apreciava a praça iluminada e enfeitada para o Natal de menos de mil moradores do distrito. Tudo do mesmo jeito, tamanho e traçado daquela época. Não cresceu e nem diminuiu, a mesma praça e agora com bancos que não existiam. E asfalto. Podia tanto ter sido de pedrinhas. O calor da piche impermeabilizante é terrível.

E as prosas tímidas no início se tornaram frequentes, intensas e cheias de boas recordações. A memória parece ter sido reativada e me lembrei de situações apagadas pela distância do tempo. A hospitalidade de todos, teve como ponto de partida a Vera – que me cedeu uma casa e até me ajudou na alimentação -, foi algo inesquecível. Aprecio a simplicidade e, de maneira especial, a irreverência. Neném Bilucha sintetiza essas duas qualidades. Sabe viver bem e sem incomodar ninguém. Entre “banei”, “vazei”, “sartei” e outros do genêro, deixa nas entrelinhas disposição para trabalhar, desde que seja no entorno do arraial. Ir pra longe, nunca!

Até breve Ginita, ou Genita, na verdade Argenita! Sabia que seria legal ficar esses dias nesse desejado descanso, só não imaginava que seria muito maior e melhor que imaginado. Programei retornar em julho, quando acontecem festas tradicionais, mas duas situações me advertiram. A festa tira o sossego que pude vivenciar e correm pela madrugada. Outra. O frio da região nessa ocasião e tão assustador quanto esse calor que estamos convivendo aqui em BH. Sendo assim e para não perder o pique, creio que março ou abril me permita mais uns dias no arraial que marcou meus primeiros tempos de vida. Só conciliar o trabalho, jogos do Galo e disponibilidade da Vera em me ceder de novo aquele sossegado e aconchegante lugar para me acomodar noutra temporada. Hasta breve!

*fotos: arquivo pessoal

10 comentários sobre “Fechando o confessionário da Argenita

  1. Estamos aqui degustando a goiabada presenteada e apreciada como a sua estadia, das muitas que virão, na Argenita.
    Um abraço, Paulinho e Néia.

  2. Bom Dia! Eduardo de Ávila, o contato com a natureza é benéfico para a saúde: mental, social e espiritual. O mundo rural é bálsamo! Abraços Fraternos, Patrícia Lechtman

  3. Acho que a palavra lebrinando só ouvi em minha infância em Dores do Indaiá. Reencontrei em poesia pura…. Saudades demais.
    Hoje sou um pouco filha de Araxá e me encanta passar uns dias lá….

  4. José Alberto de Ávila Pires, Filho de Christovam Ferreira Pires, e Teresa de Ávila Pires. Casaram em dezembro de 1.943 e moraram na Argenita entre 1.945 / 1.949. Ele natural de Ibiá, era Farmaceutico numa época que não tinha as farmácias de hoje. Imagine só… E ela Filha de Carlos de Ávila Neto, nosso saudoso Vovô Carico. Dizem que eu nasci em Araxá, em 30 de janeiro de 1.946… Em 2.026 completo 80 anos de idade… Ainda tenho uma foto de 23 de setembro de 1.946 com a Luzia, minha Babá. Saudades… José Alberto de Ávila Pires.

  5. Boas lembranças, daquelas que a gente fica feliz só de rememorar, aquela que agente nunca esquece. Belo texto, parabéns sempre.
    Um grande beijo no seu coração.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *