Eduardo de Ávila
Se tem algo que a mim encanta é viver e conviver com pessoas que me estimulam com sua inteligência. Só de ser aceito entre elas me basta, até porque é sinal que demonstro empatia e procuro aprender com gente que sabe a que veio nessa existência. E, confesso, aproveitei muito mais com essa gente privilegiada que nos 20 anos de bancos escolares. Sem desconsiderar a importância do meu período acadêmico, mas uma boa prosa – antigamente em torno de uma cerveja e nos dias de hoje só água e cafezinho – sempre é um grande aprendizado. Tive o privilégio de desfrutar de pessoas iluminadas, algumas já se foram e outras que ainda estão por aqui, que moldaram e ainda ajudam ao meu pensamento.
Junto a isso, desde lá de trás e de origem rural, ouvia sobre os “veiacos”. Acompanhava meu pai, um pequeno produtor rural – onde se fazia queijo artesanal e depois entregava o leite para a Nestlé (de Ibiá) -, era comum uma vez por ano a venda de garrote (bezerros machos desmamados) para a engorda e posterior corte aos grandes criadores de gado. De dentro do curral na hora do acerto no preço do plantel (coisa de no máximo 50 reses), acompanhava aquela negociação atento. Fechado o negócio, era a hora do cheque à vista ou pré datado, de uma vez ou dividido. Era humilhante ver a imposição do Rei do Gado nessa segunda parte da negociação. “É pegar ou largar”, naqueles tempos de vacas – sentido amplo e literal – magras. Só cabia o pegar o cheque e esperar essa imposição de tempo.
Tenho conhecimento, felizmente não foi o caso do papai, de preenchimento – proposital – desse pagamento onde era emitido cheque com dados errados para ganhar ainda mais tempo. E a quantidade desse título de crédito emitido sem provisão de fundos para sua compensação. Se “ao portador” era pago na boca do caixa a quem se apresentasse; sendo nominal tão e somente ao destinatário, podendo ser endossado (transferido a terceiros com nome e assinatura); cruzado, só podendo ser depositado na conta do favorecido. Essas informações, muito estranhas ao mundo de hoje, eram armas dos “veiacos” para ganhar prazo em tempos de inflação alta. Muito milionário se fez em cima desse tipo de trapaça e que se somam a outras como até hoje é absolutamente normatizado. Refiro aos fraudadores do INSS, sonegadores de impostos e golpistas que estão atrás de uma cortina de fumaça que andam de gravata e paletó.

Que saudade dos batedores de carteira, aqueles que ameaçavam nas ruas, obrigando a ficar atento aos bolsos pela ação ágil e rápida desses delinquentes. Por mais que isso tenha alimentado o preconceito dessa nossa classe média, éramos felizes, agora somos assaltados dentro de casa e sem colocar o pé na rua. Os “veiacos”, desde os engomados associados a facções criminosas, estão por todo o lado. E são muitos e masters. São tão explícitos que se esquecem do básico para seguir no crime. Discrição! Sentem orgasmos pelas colunas sociais, se metem na política (com seu cpf ou em apoio), viram benfeitores e investidores de araque. Resumindo querem visibilidade, reconhecimento e deferência quando passam pelos (des)caminhos que a ambição projetou. Um horror denominado como hipocrisia e ratos de rapina. Via de regra, vitimas de si mesmo, envenenados e intoxicados até a morte moral e/ou física.
E essa ganância por dinheiro, sugere sempre, que esse tipo de gente não possa viver aquilo que a vida oferecesse de melhor. Antes mesmo de serem engaiolados num sistema prisional já estão condenados a viverem trancafiados em sua moradia. Não podem circular impunemente pelas ruas, avenidas e praças da cidade, já que temem o olhar de suas vítimas. Vivem isolados, como se estagiando para o que está lhe reservado no futuro. Até serem enquadrados, os mais eufóricos viram celebridades vazias, seja com a festa de arromba, associação com grupos políticos em defesa do interesse privado (amigos ocasionais e de interesse mútuo), agora com a nova lei da saf até donos de clubes de futebol. Nesse caso é um caminho sem volta. Sem saída mesmo. Ou devolvem para a Associação sem ônus ou irão pagar ad eternum pela aventura. Não sei de um time no mundo que dê lucro. Só prejuízos, sabemos de casos inúmeros de empresários que faliram para salvar seu time do coração. Até quem foi “assaltado” com o dinheiro do jogo. Então, o torcedor que acredita nessa farsa que se prepare.
De volta ao outro lado bom da moeda, reafirmo o quanto é saudável assentar numa mesa de bar ou na cafeteria, podendo prosear sem medo de ser agredido com gente que tem conteúdo. No meu dia a dia, cedinho desfruto de academia e pilates, conversando tão e somente com aqueles que acrescentam. Fazendo ouvidos de mercador aos que falam alto para serem percebidos, defendendo interesses dos veiacos como se fossem desse mundo. Repito no início da noite. Teve uma ocasião que um PR (papo ruim) que não dou ouvidos reclamou que eu precisava conversar com ele, afirmando ser um intelectual. Ouviu o que não imaginava, foi ótimo, avisto esse infeliz sempre mas ela dá volta e atravessa a rua. Fiquei esperto ao fugir de veiaco, preferindo ouvir – apesar da minha idade – quem possa me oferecer e ensinar lições de sabedoria, solidariedade, humanidade e tantas oportunidades que o Criador sugere. Esses sim, considero inteligentes e sábios. Vida que segue!
Boa Tarde Eduardo de Ávila! Texto corajoso! Gostei! Ter coragem para defender a construção de uma sociedade humanista é para poucos. Você inspira o combate aos falaciosos de plantão! Continue escrevendo! O Brasil precisa de jornalistas ousados como você! Abraços Fraternos Patrícia Lechtman.