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Reminiscências que provocam boa nostalgia

Eduardo de Ávila

No final de semana, tragado pela necessidade de uma dura e difícil viagem, tivemos dez horas (cinco cada percurso) de boa prosa sobre família e experiências de um passado já muito distante. Prima, irmã e cunhado, me fizeram companhia até Araxá na despedida de um sobrinho que partiu precocemente para a espiritualidade. A oportunidade sugeriu boas lembranças de muitos que já partiram fazem tempos para a vida eterna.

Um deles, especialmente para a maioria da sobrinhada e netaiada do meu lado materno foi o tio Orlando. Tive o privilégio, que poucos mereceram, de ser seu afilhado. Tê-lo como padrinho, me oportunizou e brindou ainda por ter como madrinha a tia Aída – sua esposa e irmã da minha mãe – que até hoje exerce carinhosamente a função do cargo confiado a ambos. Resumidamente traço abaixo o perfil do meu padrinho.

Engenheiro formado em Ouro Preto, por obrigação familiar, o doutor Orlando – como era tratado – era delicioso e divertido. Todos adoravam aquela figura marcante e enérgica. Fazendeiro e com enormes propriedades de terra, um coronelão mesmo, nunca se valeu dessa condição econômica para se impor aos outros. Ao contrário, na sua fazenda – onde passei algumas férias – almoçávamos na cozinha juntos aos seus “serviçais”, numa “bóia” caprichosamente preparada pelo Clodomiro que cozinhava para a peãozada sob a batuta do capataz Carlindo.

Entre dezenas, talvez até mais de uma centena de lembranças, três situações com tio Orlando me divertiram e trouxeram muitas saudades daquele padrinho que tanto temia e obedecia. Sem medo ou pavor, mas por respeito que hoje virou deboche na geração que seguiu depois desses bons e saudosos tempos. Ele passava por Araxá e me convocava a entrar numa Rural Willys. Só dizia, “vamu ali em Campusarto”. Era até a cidade de Campos Altos onde tinha negócios relacionados a agricultura.

Nos 200 quilômetros de trajeto (ida e volta), arrancava de mim confissões que não fazia em casa. Sonhos e desejos da pré adolescência. Ria e aconselhava. Na volta mandava que engraxasse suas enormes botas, ao final avaliava o meu trabalho e arrancava a maior nota em circulação me presenteando. “Toma e num gasta com porcaria!” Os olhos brilhavam, lá em casa nunca teve semanada ou mesada. Mas por ação dele e outros presentes da infância cheguei a ter um bom número de cabeças de gado na fazenda do papai.

Noutra oportunidade, com seu filho Daniel e o primo Randolfo, lá na sua fazenda Lagoinha, levantávamos cedo para tomar leite no curral. Ao pé da vaca, com açúcar e achocolatado. Era uma caneca de um litrão por dia de cada um dos três robustos garotões. Até que o Clodomiro contou a ele que sempre sobrava um tanto no copão desses gulosos. Ele esperou cada qual pegar sua caneca e ficou ao lado esperando a deglutição. Da metade até o final, ninguém conseguia digerir nada e ele deu a ordem. “A partir de hoje ninguém vai esperdiçar leite aqui nesse curral”.

Mas a situação mais divertida, e muito sofrida, veio resgatada nas doces lembranças da Lagoinha. Éramos vinte ou até mais, entre crianças e adolescentes, disputando para andar a cavalo. A temporada longa, talvez em torno de dez dias ou duas semanas, e a tropa não parecia suficiente para tanta demanda. Ele então organizou um passeio longo com todos capitaneados pelo próprio coronel. Não sei de onde surgiu tantos cavalos, arreios e até para completar alguns forrados com chinil, nesse caso destinado aos machinhos que se achavam mais fortes.

E a cavalgada começou assim que o dia clareou. Destino: Retiro dos Cabritos, que era logo ali – de carro claro – e lá fomos naquela cavalgada meticulosa e ardilosamente armada pelo tio Orlando. Todos cansados, exaustos e nada desse lugar aparecer na nossa visão. Até que depois de algumas horas dessa desgastante andança no lombo da tropa avistamos o sonhado Retiro dos Cabritos. Tudo estava preparado, todos comeram como famintos e o retorno foi anunciado. Fazer todo aquele trajeto de volta era apavorante.

E de lá iniciamos o retorno desejando e imaginando o fim daquela agonia. Já quase escurecendo, “sede à vista” da fazenda Lagoinha. Aliviados e com a parte interna das coxas e bundas esfoladas e avermelhadas a disputa era para a fila do banho. De pijama e lanche feito todos dormiram a noite inteira. No dia seguinte as brincadeiras ficaram dentro de casa e ninguém mais queria saber de passeio num lombo de quatro patas. Saudade do tio Orlando, do Efigênio (agregado da família), vovó Venina e tanta gente daquela infância feliz. Não trocaria tudo isso que vivemos naquele tempo pelo mais moderno celular e tantos instrumentos e ferramentas dos tempos recentes. Vaaapooo!

Blogueiro

View Comments

  • Eduardo, obrigada pelo texto. Suas palavras e lembranças compartilhadas transportam-nos para outro lugar... outra realidade...
    Parabéns!!!

  • Lindas histórias! Guarde sempre as boas lembranças e casos. Suas crônicas aquecem muita gente. Abraços

  • Dudu tive uma infância semelhante a sua, seus casos me remetem a minha Sabinópolis e em especial a Fazenda Santo Antônio.
    Caçula de uma prole de dezoito irmãos, isso mesmo 18, as férias na fazenda ainda eram melhoradas com a presença de primos, amigos, agregados e camaradas. Era uma farra entre cavalgadas, caçadas, pescarias e não faltava também uma boa pelada.
    Ler suas histórias trazem a mim as minhas que se parecem muito com as suas. Escrevo também minhas memórias, qualquer hora compartilho com você.
    Valeu.

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