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Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

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Quero Falar de Fernando

Pixabay
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Parte I
Rosangela Maluf

Eu não entendo nada de vinhos; ou gosto ou não gosto. Independe do país de origem, do tipo da uva, do preço da garrafa. Apenas aprovo os que me agradam ao paladar, mas gostei muito do Follies Touriga. Tomamos duas garrafas e voltamos alegres demais para o hotel. O Bacalhau com Natas estava maravilhoso. Teríamos um tempo pra descansar, dormir um pouco, antes de sairmos para o show de fados. Fizemos amor. Repetimos. Dormimos pouco e descansamos quase nada.

Ainda que estivéssemos hospedados no mesmo hotel, optamos por continuarmos cada um em seu próprio quarto, mas com direito à fugidinhas. No apartamento 601, eu com minha eterna mania de arrumação e ele, no 902, com sua velha e estimada bagunça geral. Assim, tomei um banho demorado, escolhi o único vestido que havia colocado na mala, o único sapato de salto, a única bolsinha de festa – tudo já havia sido usado uma vez, em outro show de fados.

– Pareces uma rainha, ô pá! – Ele disse ao ver-me descendo a escadaria.

– E tu me pareces um rei – digo. Risos, abraço apertado e demorado, beijos.

– Que perfume é esse que “estou a sentir”!

– Segredo, –  respondi. Gostou? Muito ou pouco?

– Sim, muito. E esses olhos? Tão bem maquiados que parecem de uma atriz de cinema.

Risos, mais abraços.

E, mais uma noite memorável, mais um show de fados. Maquiagem borrada de tantas lágrimas. Como o fado me comove! Ao Fernando também. Ele se emociona, mas não tanto; apenas suspiros, nada de choro! Foi assim quando estivemos antes, na Casa de Fados Faia, porém o show dessa noite, na antiga e tradicional Severa, nos arrebatou e fomos tomados por intensa emoção.

A Casa de Fados “A Severa” é uma das mais tradicionais casas de fados de Lisboa. Existe desde 1955 e até hoje pertence à mesma família. A comida deliciosa, bons vinhos, os fados mais tocantes e um ambiente acolhedor e agradável. Diante dos murais, feitos com os tradicionais azulejos azuis e brancos, mais fotos, mais beijos, muitos olhares de ternura e sorrisos, muitos! Conversas românticas, gostosas, cochichos “ao pé d’ouvido”, algumas safadezas dissimuladas. Mais risos, mais beijos. Olhares e sussurros.

E a fadista canta o meu fado preferido que me leva às lágrimas.

…E logo rompi os laços/ Atirei-te p’rós seus braços /Só por essa ninharia/ O que fiz não tem remédio/ Tudo é solidão e tédio/ Não mereço ser feliz.

Poderia descrever todos os nossos dias em Portugal. E foram muitos dias. Dias intensos. Inesquecíveis. Passamos o tempo todo juntos. Muitas afinidades, mesmo gosto, os dois bem humorados, felizes, sem nenhuma preocupação com o futuro ou depois de nossa chegada ao Brasil. Estávamos, os dois, agradecidos pela oportunidade de sermos tão felizes, um ao lado do outro. Só isso.

Muitos museus, inclusive o dos Azulejos que sempre quis conhecer. Os bairros famosos e muito conhecidos. O charme de andar de bonde, passear pela Praça do Comércio, fotografar o Arco da Rua Augusta. Visitar as lojinhas de lembranças e conversar com as atendentes portuguesas, todas loucas pra conhecer o Rio. O Mosteiro dos Jerônimos, a Torre de Belém, a pastelaria de Belém (imperdível); as dezenas de monumentos espalhados pela cidade, as docerias menos famosas, mas não menos deliciosas. E mesmo sem apreciar o moderno, fomos ao MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, um projeto arrojado, audacioso, com design moderno, inaugurado em 2016. Era também a primeira vez para o Fernando. Poucas fotos, muitos abraços, muitos beijos.

Adorava o sotaque português e não perdia uma oportunidade de conversar com os nativos, sempre gentis com os “brazucas”. Foi um garçom do restaurante Gambrinus quem nos sugeriu dar um pulo até Sintra. Lá passamos um dia inteiro e foi mais um passeio maravilhoso.

Sintra fica apenas a 25 km de Lisboa. Bem próximo da capital e com tantos lugares para se conhecer, passa-se lá o dia inteiro retornando no finalzinho da tarde. O Castelo dos Mouros, os palácios da Pena, de Monserrate, da Regaleira, todos muito bonitos, bem cuidados, interessantes. No centro de Sintra compramos lembrancinhas aos montes, ele com uma lista e eu, de memória. Por lá mesmo almoçamos e pela primeira vez em tantos dias resolvemos mergulhar um pouco mais em nossa intimidade. Até então o que nos importava eram aqueles momentos vividos, sem perguntas, sem questionamentos, como se não houvesse amanhã. Era delicioso, forte, intenso e isso nos bastava.

Sim, nós dois tínhamos alguém. Não estávamos apaixonados por esse alguém e, coincidentemente, essa viagem seria para dar um tempo. Ele com a namoradas de três anos e eu com um namoro que ia e voltava, já há mais de um ano. A conversa foi longa, durou o almoço inteiro, a sobremesa e o café. Só falamos disso. Ele pediu a conta, me olhou e disse: – Quero você!

Voltamos calados. Abraçados sem falar nada, nem ele nem eu. Teríamos ainda três dias e três noites em Lisboa. A cada dia programávamos, juntos, o nosso dia seguinte. E assim continuamos até o final da viagem. Sentíamo-nos muito felizes em companhia um do outro. Estávamos alegres por dividir momentos tão ricos e preciosos. Satisfeitos com a cama tão quente, tão boa e tão animada. Íamos registrando em fotos nossos momentos, celebrando com abraços e beijos o nosso encontro tão especial e desejando que a volta ao Brasil não acontecesse tão cedo.

Entretanto, foi preciso voltar. Conosco trouxemos as melhores recordações de uma viagem dos sonhos. De volta à rotina, nós dois colocamos um ponto final em nossos relacionamentos anteriores. Terminamos nossos compromissos e iniciamos novos meses de descobertas. O dia a dia, cada um em seu trabalho, o mundo profissional, não compartilhado. Nos finais de semana grudados, com muitas atividades, um em sua casa e outro, na minha. Tudo normal. Tranquilo, sossegado. Extremamente prazeroso. Uma afinidade de almas, eu diria!

Oito meses depois, numa noite de sexta-feira, ele chegou meio estranho. Muito sério, com a expressão que em nada me lembrava o melhor companheiro–de –viagem–da–minha–vida! Resumiu rapidamente o tempo feliz que passamos juntos, falou da leveza da nossa relação, das nossas incontáveis afinidades, do amor que ele sentia por mim e como lhe fazia bem mergulhar em meus olhos de ameixa em calda. Eu ri, nos beijamos e por longo um tempo estivemos, os dois, aninhados em um abraço apertado.

Imaginei que alguma coisa iria acontecer e não seria boa. A gente sente, pressente. Ele então respirou fundo. Falou da mãe, da irmã, dos sobrinhos, da cunhada, da madrinha que tanto amava e me contou da possibilidade de transferir-se para Lisboa e voltar pra Portugal. Não me assustei. Não chorei. Achei natural que ele sentisse desejo de voltar às suas origens. Lá no fundo, eu gostaria que ele ficasse, junto a mim, pelo resto da minha vida. Mas, achei também que certamente seria melhor pra ele. A maturidade me havia trazido equilíbrio e desapego.

Tivemos ainda oito meses juntos. Felizes, transbordantes de amor. Continuo trabalhando no mesmo escritório de arquitetura. Vivo um dia de cada vez, entre o encantamento e a decepção. Entre as lembranças e o esquecimento.

Continuo esperando que algo de bom nos aconteça, mas não vou tomar nenhuma iniciativa. Vou esperar por mais algum tempo. Vou continuar calma, tranquila, fazendo minha dança circular, tocando flauta doce, respirando profundamente sempre que me sentir mal. Continuar fazendo meditação, tomando meu vinho tinto à noite enquanto leio, antes de dormir.

Continuo ouvindo fados, cantando baixinho e me lembrando dele:

Porque não fui eu capaz / De logo voltar atrás / E desfazer o que fiz? /Agora, quando te vejo/ Suspiro pelo teu beijo /Mas nem pergunto aonde vais/ Chamo baixinho o teu nome/ Na culpa que me consome/ Mas sei que é tarde demais.

Guardadas no celular estão dezenas de fotos, arquivadas para que nunca sejam deletadas. É a esses arquivos que recorro pra matar a saudade que, às vezes, me dói mais do que deveria. Seria mesmo amor? Não saberia dizer como me sinto com o seu total silêncio. Desde que se foi não mais nos falamos. Seria mesmo amor? Raramente uma mensagem. Pouco sei da sua nova vida em terras lusitanas. Nada de fotos, nada de nada. Procuro entendê-lo, mas acho difícil. Entretanto não quero sofrer por isso.

Lamento e me entristeço, mas logo passa. O tempo é senhor da razão, vou esperar. Vou deixar acontecer. O que tiver que ser, será. Se tiver escrito…

E assim tem sido…

*

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