Respeito recíproco com o morador de rua

Eduardo de Ávila

Entre os inúmeros problemas sociais que convivemos, em Belo Horizonte e em todos os redores do mundo, seguramente a questão das pessoas em situação de rua está na linha de frente dessas preocupações. Essa condição que assistimos aqui na capital dos mineiros se normatizou ao longo dos tempos por todas as cidades. Me lembro lá dos meus já distantes tempos de adolescência, mudando do interior para Belo Horizonte e assustado com as pessoas que moravam debaixo do viaduto da Floresta. Eram, talvez, algumas poucas dezenas (chutômetro meu) que contracenavam como numa imagem que só conhecia em filmes americanos.

Era muito confuso na minha cabeça infanto juvenil, vindo de uma realidade distante dessa, presenciar as cenas que via na telona em filmes que havia assistido. No Brooklyn, em Nova Yorque, parecia romântico em meio a tanto glamour na telona dos Cines Brasil e Trianon – lá no Araxá – contrastando com a nova e dura realidade de uma cidade grande. Lá tínhamos os “tipos de rua”, entre tantos me lembro da Solange Doida, do Levindo e do Bacão, que eram alvo da molecagem inocente daquela ocasião. Foi um choque e agora virou uma dura e triste realidade, espalhada por toda a cidade.

São milhares deles nas ruas de Belo Horizonte. Disse acima, situação de rua – não moradores -, já que a via pública não é moradia. Esse é o termo politicamente correto então para essa condição momentânea dessas pessoas. Em poucas oportunidades que tive, não avancei mais pois a realidade é cruel e dilaceradora, pude ouvir relatos sobre as motivações de terem sido atirados para essa situação sub-humana de vida. Me lembro que o ex-prefeito Célio de Castro tentou atacar e buscar dar dignidade a essas pessoas. Depois assumiu o fracasso da missão. Muitos não querem e rejeitam retornar ao convívio familiar.

Sei de casos de separação entre casais, que um deles faz essa opção, em função da falta de trabalho e renda. Também por abuso e violência doméstica, valendo tanto para ela quanto para ele, enganam-se aqueles que generalizam como se a mulher fosse sempre a vítima. Existem, entre eles, acometidos de dependência química, outras questões de saúde mental e mesmo física, ex-presidiários (após cumprir pena) rejeitados pelo meio que viviam antes da condenação. E por aí vai, as políticas de acolhimento que tentam ressocializar tem se mostrado ineficientes e ineficazes. Pior foi a infeliz comparação dessas vitimas de uma sociedade injusta com chiqueiros humanos e carros abandonados. É outra face de tantos problemas sociais que existem e a maneira com que cada bloco vê e reage ao problema social. Refiro à extrema direita. Conservadores estão fora disso.

Tenho dois casos, entre talvez duas dezenas, que acompanhei mais perto. Ali na Getúlio Vargas, entre a praça da Savassi e Alagoas, viveu por algum tempo o Ceará. Entre o trabalho de flanelinha e momentos de completo delírio, oscilava entre tratar bem a alguns (por sorte eu estava nesse grupo) e ameaçar outros. Vez por outra recolhido aos costumes, ele voltava asseado e limpinho. Até que um dia não amanheceu, tendo seu corpo sido rebocado e – provavelmente – depositado numa vala em lugar desconhecido. Foi mais uma vítima dessa sociedade injusta e que ameaça inocentes ao seu jeitode agir e reagir. Inconscientes e inconsequentes.

Atualmente, bem alí pertinho, um novo grupo já está acampado faz tempos. No meio fio de um estabelecimento comercial e assustando fregueses, moradores e transeuntes. Já ameaçaram trabalhadores das proximidades. A insegurança segue incomodando e preocupando. Aí, numa atitude infeliz e isolada, alguém atira da janela objeto em cima das tendas desses moradores transitórios e provisórios. Resultado dessa ação é que todos os moradores da região, incluindo funcionários de condomínios, estão sob a desconfiança do grupo que promete reagir com o rigor e aplicabilidade de decisões do Tribunal próprio dessa Corte. Quem será condenado? Pouco importa se é um inocente e o responsável segue na covardia do seu anonimato. Humanidade ainda que tardia! Só com Justiça Social se resolve todas essas questões, não é com guincho e outros tipos de agressão que vamos conquistar a paz.

6 comentários sobre “Respeito recíproco com o morador de rua

  1. E esse fenômeno social, ou anti-social, que ficava confinado à região central da cidade, portanto, longe de parte da sociedade que se sentia, pela distância, protegida e “impermeabilizada” contra esse desastre, se espalha vertiginosamente para os bairros sob o olhar blasé de quem deveria promover políticas públicas para combatê-lo. Por óbvio, afinal de contas existem interesses pessoais maiores para serem defendidos. Sigamos…

  2. Bom Dia Eduardo de Ávila! Quanta sensibilidade nas palavras! Precisamos perceber que o respeito começa pelo reconhecimento da humanidade no outro, independente da sua condição de vida terrena. Só teremos paz verdadeira quando acreditarmos na justiça social como caminho. Abraços Patrícia Lechtman.

  3. Bem dito: “rua não é moradia”. Então, seus ocupantes em período constante, tornam as ruas de Belo Horizonte, quase intransitáveis para quem tem onde morar. Muito triste tudo isso. Mas, pelo menos Belo Horizonte se iguala a grandes cidades do mundo. Pelo menos podemos orgulhosamente dizer que nesse quesito somos tão grandes como Nova Iorque, Londres, São Francisco, Los Angeles, Tóquio, etc. Mundo afora as ruas, que não são feitas para morar, viram moradias.

  4. É muito triste a situação dessas pessoas em situação de rua. Me causa um sentimento misto de compaixão, impotência e indignação passiva. Quando acordo na madrugada chuvosa, na cama confortável e protegida do lar, penso nessas pessoas e me compadeço, mas novamente confesso, passivamente. Parabéns amigo Eduardo, pela crônica e pela iniciativa de escrever, que por si só, já supera a minha passividade.

  5. Eu conheço um morador de minha querida Viçosa, mais precisamente do distrito de São José do Triunfo, onde também resido, saiu de casa, abandonou o emprego, a família e foi morar nas ruas de Belo Horizonte. Me marcou muito, pois chegamos a trabalhar juntos num posto de combustível aqui do nosso distrito. Ficou pelas ruas de BH até numa confusão com outros na mesma situação de rua tomou uma facada no peito que atingiu seu coração. Socorrido rapidamente e levado para o hospital João XXIII conseguiu sobreviver a facada, está sim foi uma verdadeira facada, não a de Juiz de Fora. Hoje ele reside no distrito, mas ainda não conseguiu largar os vícios. Sigamos 2026!!!

  6. Eduardo, reflexão excelente sobre nossa dura realidade em Belo Horizonte. Sua sensibilidade lembra que todos podemos fazer algo para ajudar. Grata.

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