O poder do autoabraço

Eduardo de Ávila

Vou arriscar em tratar de um tema que tenho total desconhecimento teórico, nunca tive curiosidade e tampouco – como agora – cuidado em fazer qualquer leitura ou pesquisa. Portanto, exclusivamente, de sentimentos pessoais e/ou observações ao entorno de fatos e acontecimentos sentidos e observados. Em postagens anteriores, aqui mesmo, trouxe sobre sofrimento na minha adolescência. Atacado covardemente num colégio salesiano, sob um silencio que sugere até conivência de uma falsa rigidez da ocasião, sobrevivi e consegui evitar reações desproporcionais e sequelas na sequência dos meus já bem vividos quase 70 anos. Diria até com certo orgulho, sobrevivente sereno de bullying (isso nem era diagnosticado) que hoje é – em algumas situações – muleta para argumentação jurídica de casos em julgamento.

Tentaram, mas não tiveram êxito, com esse resistente filho de um pequeno produtor rural e uma funcionária pública que completava a renda familiar para criar oito filhos na condição de biscoiteira. Essa sim, situação que seduzia a moçada a fazer trabalho escolar na minha casa, já que sempre eram servidos esses quitutes que dona Maria fazia e muito bem. Também seu Carlos, que além de levar o time da criançada para os jogos na sua velha camionete, ainda abria a porteira da fazenda para bons passeios a cavalo de alguns dos amigos. Isso, indubitavelmente, contribuiu como alento de um menino que na ocasião era mais caladão. Depois, sei disso, abriu a boca e até hoje festeja a resistência. Em todos os campos da vida. Seja pessoal, escolhas políticas e do time do coração.

Pois bem, as agressões pelas escolhas seguem e assim também em outras situações de vida. E, aos poucos, ainda que já experimentando a condição de idoso sempre aprendendo e buscando proteção. O autoabraço foi descoberta recente. E não é só intimo, aprendi – creio que antes dessa minha percepção muitos outros descobriram – a me abraçar buscando proteção. Tenho me flagrado, sistematicamente, com as mãos invertidas sobre os cotovelos. A direta no esquerdo e a outra na direção contrária. Aos poucos fui percebendo que estava me abraçando e ao mesmo tempo usando o antebraço como um escudo protetor. O protetor auricular ajuda bem, mas é quase impossível não ouvir as agressões que nos são desferidas impiedosamente. Olhar de paisagem ajuda, mas não cura o sentimento de tristeza. Enfim, diversas são as situações no dia a dia que pedem socorro e esse abraçar a nós mesmos é o melhor remédio e curativo.

As situações são incontáveis, no caso em duplo sentido, numérica e anunciada. Nesse momento triste que estamos atravessando, onde o poder econômico é o valor para muitos que sonham serem o Elon Musk tupiniquim, chega a ser até divertido para nós assalariados. Já contei aqui. Tem gente, seja jovem ou maduro – vale dizer moleque, marmanjo ou caducando – que se ocupa em avaliar o que sou pela minha vasta barba. Para quem falta pelos no rosto, é compreensível. Seguramente, sem saber nada sobre minha vida e labuta diária, tem na cabecinha frágil – alguns nunca trabalharam -que ela (barba) representa aquilo que desconhecem (falta estudar e ler) e tem medo. Justiça Social para esses fracos passou a ter nome de socialismo, comunismo e outras imbecilidades. É compreensível. Para gente assim, Musk é o modelo que nunca irão passar – nem residualmente – perto mas que alimentam o ódio de classe e fomentam esse comportamento de mentecapto.

Sobre Musk, num comentário do brilhante do Jamil Chade (estive com ele no FliAraxá de 2023, um brasileiro iluminado), antecipa que o riquíssimo senhor da direita internacional está prestes a se tornar o primeiro trilionário de todos os tempos da humanidade. Concomitante os países mais ricos estavam doando cinco bilhões para salvar as florestas do mundo tropical. Obsceno, chamou Chade sobre essa discrepância desse sistema desigual. Pequena parte desses valores seriam suficientes e com sobra para acabar definitivamente com a fome no planeta. Esse é o mundo tão desigual, cantado por Caetano, Gil e Ivete. Todos odiados pela nova classe que faz bullying com os mais pobres, mas que cantam suas canções no banheiro. Abraçando seu próprio corpo envergonhado. E é assim que age essa gente. Seja na rasteira opinião sobre política e até com seus contendores em outros campos, como no de um jogo de futebol.

Sou Atleticano e voto em candidatos que me convençam sobre seus compromissos sociais, sejam de esquerda e até conservadores. Meus votos, nunca são omitidos, mas confesso que depois percebo ter equivocado em uma ou mais opções. Isso não impede em seguir eleitor, abraçando meus erros e me confortando. Esperando, coisa que o lado de lá não sabe fazer, a próxima eleição. Torcendo pelo meu Galo, no ano que conquista títulos e também nas temporadas fracassadas, sem perder a condição de reclamar e cobrar. Seja no futebol ou nas escolhas. Mas, sobretudo, assumindo e abraçado aos meus equívocos e minhas decepções. Sem terceirizar responsabilidades. O meu caminho quem escolhe sou eu. Depois que aprendi a magia do autoabraço, afastando completamente o sentimento de culpa que a vida condena aos fracos. Reagindo sim, ainda que silenciosamente, ao conforto de uma consciência tranquila. Não me entrego à sedução de favores e benesses pessoais. Quando mudar de plano, tomara que ainda esteja longe, vou chegar na nova morada com a consciência leve de ter vivido em paz comigo e resistido a todas as tentações e provocações dessa passagem terrena. Abrace-se! Vem sentir o conforto da auto reciprocidade. Sigamos!

6 comentários sobre “O poder do autoabraço

  1. Bom Dia! Um texto mindfullness! Um texto que merece ser divulgado em série e em larga escala! O autocuidado é um dos pilares do mindfullness! Eduardo, você atingiu seu aprimoramento pessoal, Ético,intelectual e espiritual. Vejo luz em você! Abraços, Patrícia Lechtman.

  2. Grande texto, meu amigo! E no próximo auto-abraço, sinta-se abraçado por mim!
    Aproveitando a resposta do Teobaldo, quero lhe dizer que “texto fantastico”, parabéns e que Deus te abençoe, pois estava precisando de um empurrão ou solavanco, como se fiz lá nu Araxá
    Continue…

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