Entre o delírio da ficção e a realidade

Eduardo de Ávila

Gosto muito de assistir um filme, na telona, sem pipoca e longe de casa onde a todo instante alguma situação faz dar um pause e interromper a sessão. Antes da pandemia eram três a quarto vezes por semana, eventualmente um ou outro justificava até bis, mas depois da gripezinha do (IN)sensível e (IN)feliz não consegui retomar essa rotina. Uma vez por semana, com direito a passar batido, sem entender a razão pessoal dessa mudança de hábito. Já vinha considerando a produção nacional em alto valor, pois agora nos tempos pós aquele sujeito, sigo admirando a indústria cinematográfica brasileira. Nos meus tempos de outrora, os filmes aqui produzidos eram basicamente comédias e pornochanchadas. Raramente alguma produção se destacava como “O Cangaceiro” (anos 50) e “O bandido da luz vermelha” (década de 60), entre poucos outros. Atualmente vem chamando a atenção interna e internacional. Petra Costa e Walter Salles são ídolos de um Brasil da Resistência ao lado de tantas personalidades artísticas e culturais destacadas e reconhecidas pelo mundo.

E foi nesse embalo que domingo, depois de ler tantos elogios pelas redes sociais, fui ver “O último azul”. Nada tão extraordinário quanto as recomendações sugeriam, mas interessante sobre a dura realidade da velhice brasileira. Numa mistura entre ficção e a real condição que famílias e o próprio estado impõem ao idoso, sugere opor e não ceder à vontade de quem explora e quer controlar nossos desejos e destinos. Tem humor e tem drama, nessa segunda condição quando começa a me afetar – como no caso de uma pessoa ao meu lado que quase entra na cena para impedir uma ousadia da “Teresa”, eu me protejo com a fuga de “isso é um filme”. A moça quase desaba em choro com medo de a personagem principal se estrepar de vez na fuga da filha que pouco se lixa para ela e muito aproveita e de ações de governo que condenam o idoso. Chega, senão vira um spoiler.

Daí venho pra casa, como sempre ao sair de uma apresentação – seja filme, show, filarmônica (tem me feito bem), teatro (ainda que raro) e até jogo do meu Galo – curtindo o que vi e tirando o melhor ensinamento para seguir pela vida. Não sei quanto tempo me resta, mas estou sempre reciclando sem perder o rumo que sempre me direcionou ao longo dessas quase sete décadas. Interessante como, seja no caso da personagem desse filme ou outras vivências, a narrativa – ainda que exageradamente imaginária – por mais contraditória com a verdade estão muito próximas. Assim como o amor e o ódio. E vivemos isso diariamente, seja nas pequenas coisas ou mesmo em temas importantes que requerem atenção e reflexão. Sem perder a racionalidade e tampouco desprezar a intuição. Essa é a grande virtude de cada um de nós, perceber e entender os avisos que rondam o nosso entorno para os avanços que a vida pede e exige.

Tenho aqui na minha casa alguns livrinhos que não saem da minha cabeceira. Confessamente preguiçoso para leituras mais longas, que faço sem a frequência ideal, não abandono dois exemplares espirituais. Um eventualmente à noite e outro sistematicamente pela manhã. Me impressiona a precisão de cada recado nos textos. Sempre que algo passa a me incomodar, lá naquelas páginas encontro explicação e até respostas para exercer a paciência. E temos vivido tempos estranhos. Seja próximo, relações pessoais, mesmo no ambiente coletivo das nossas comunidades e pelo mundo. Sem perder os rumos que a vida sempre me conduziu, notadamente nesses tempos de convivência com incertezas da saúde, vou me moldando e dançando conforme a música. Ainda que prefira samba e MPB, convivo bem com muitos outros estilos musicais, evitando (rejeito mesmo) funk e sertanojo universitário. Caipira até que vai bem. Sobre meu estado clínico, vai bem obrigado, me sugerindo mais a mais tolerância. Inegável conflito, mas tem vencido a paciência nas reações. Nem sempre, claro!

Evitando assuntos polêmicos, desde que não seja cutucado (até resisto uma ou duas vezes), falo de Galo com meus parceiros de camisa preta e branca e de política com aqueles que tem o pensamento afinado com o meu. Não envio mensagens para quem diverge, tanto num quanto no outro tema, mas nem sempre sou respeitado. Inclua-se as ferramentas de redes sociais. Na minha rotina, diariamente, passo e convivo com gente que delira e com outros com os pés no chão. Não estou numa e nem outra, daí consigo sobreviver, até em situações que escapam a capacidade do meu entendimento. Queria um final de vida, daqui um bom tempo ainda, como a Teresa desse filme que mencionei no início. Pura aventura para quem a filha não dava a mínima, exceto receber a ajuda do governo, e o estado e trabalho querendo condenar à inutilidade. Por enquanto sigo na meia normalidade ou no responsável delírio com as atividades que me ocupo.

Para fechar essa resenha, mais pra prosa fiada, um relato de metade do meu dia de ontem, segunda-feira. Totalmente refratário, um jurássico confesso, venho por dias lutando para tentar acessar meu ponto/gov. Aquele aplicativo do governo que guarda nossos dados pessoais de tudo, até vacinas fundamentais a sobrevivência, nada que faça virar jacaré. Cansei das tentativas on line, me rumando para a Receita Federal, onde tempos atrás consegui instalar esse pandemônio. Não passei do balcão de informações, depois de duas atendentes me mandaram dirigir ao PSIU ou UAI – que na verdade hoje se chama BH Resolve – lá no centrão. Chegando lá, agora foi o atendente a me informar que a RF manda pra lá, mas tem de ser no INSS. Felizmente era próximo, mas lá tinha uma fila razoavelmente grande. Sem outra alternativa, relaxei e fui esperando – passo a passo – com um sujeito fungando na minha cacunda e reclamando da morosidade. Para não ser contaminado, fiquei com os olhos fixos na tela do celular, ainda que nenhuma mensagem tivesse recebido. Finalmente a moça me atende e me manda de volta para casa com um endereço eletrônico – o mesmo que iniciei essa busca – que seria o único caminho. Fiz, mal e porcamente como antes o mesmo procedimento, agora fico aqui na espera de um milagre. Fosse outros tempos, certamente, nenhum desses teriam escapado de uma boa reação e palavrões. E daqui rio de tudo, já que app é delírio dos tempos dessa nova realidade. Eu que sigo defasado e feliz! Com cinema, música e futebol!

12 comentários sobre “Entre o delírio da ficção e a realidade

  1. Quer me matar, um pouquinho que seja? É só dizer “é só baixar o aplicativo”… brrrrr!!! Ai, que saudade sinto quando o funcionário público me dizia “é só entrar naquela fila que a moça do guichê chama o senhor”… Bons tempos aqueles!

  2. Oi Amigo do Coração ! Mais um texto suave! Com você aprendi que a conexão social é fundamental para a construção de momentos felizes nesta dimensão. Abraços Fraternos. Gratidão Sempre! Patrícia Lechtman.

  3. Também gosto de um filme “no escurinho do cinema”, meu amigo. E costumo ir pelo menos 1 vez por semana. Faz bem. Um abraço, e cuide-se!

  4. Anotei sua dica do filme e já saio na frente municiada pelos seus comentários.
    E vamos que vamos… seguir a vida com sua exemplar leveza.

    1. Muito bom! Seguir sempre em frente. Vai dar tudo certo. Sua pena é leve e nos faz bem. Fraterno abraço e que o Galo vença amanhã!

  5. Boa tarde, Eduardo! Mais uma lindeza de texto, fruto de um Ser diferente, único, phoda, belo, sábio e sensível: Eduardo de Ávila. Que olhar tão suave, alegre e paciente sobre situações tão convidativas a um PQP ou TNC! Confesso que não acompanhava os seus textos, pois, lá nos tempos de ALMG, imaginava que você só escrevia sobre futebol. Parece invenção, mas dias atrás estava no velório do pai de um amigo, quando esse perguntou-me sobre a saúde. Comecei a lamentar, mas ironicamente lembrei-me da energia que o seu texto anterior trouxe-me e contei-lhe como você me ensinou com o seu calvário e ainda me fez sorrir. Ele, também atleticano roxo de preto e branco, já o seguia, há tempos, confessando-me, ainda, ser fã dos belos textos que você nos presenteia. Num momento de dor e despedida, foi o Eduardo de Ávila, o seu maior e melhor amigo, que nos devolveu a alegria e a esperança de que o Sol , aos poucos, voltará a brilhar. Beijo no coração, saúde infinita e paz eterna, menino bom.

    1. Caro, fico muito sensibilizado com sua manifestação. Porém, de coração, não me acho e apenas tento desabafar brincando e ironizando. Ainda que o Galo não sugira no momento. Sigamos!!!

  6. É meu amigo, vc continua o mesmo . De fácil convivência. Só não consigo entender este “azul” que vc foi ver.
    Mas ainda assim estou de olho em vc .

  7. 13/10/25
    É meu amigo, vc continua o mesmo . De fácil convivência. Só não consigo entender este “azul” que vc foi ver.
    Mas ainda assim estou de olho em vc .

  8. 13/10/25
    Afonso Alberto
    Ê meu amigo, vc continua o mesmo. De fácil convivência . Só não entendi como vc foi parar no mundo “AZUL”. ESTOU DE OLHO EM VC.

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