O escarnecedor e o enternecido

Eduardo de Ávila

Vivemos, seguramente, os piores tempos de nossas vidas e, quiçá, da humanidade. A polarização destruiu relacionamentos – familiares, vizinhança e de toda ordem – em nome de uma falsa moralidade. Leio e ouço cidadãos que se dizem do bem avaliando e julgando quem pensa diferente, como se esses, entre os quais muitos que amam e até batem continência para a bandeira de um país dominante, tivessem comportamento digno e honrado.

O fato é que a direitização americana, com reflexos em países onde ainda existem cidadãos com síndrome de vira-lata, tornou inevitável o surgimento desses escarnecedores. Repensando, não se trata de (re)aparecimento desse perfil, mas – na verdade – de tirar esses atores da maldade do escafandro, o lugar onde transitavam durante a vida. É um equipamento de mergulho, onde a pessoa respira pelo ar da superfície. Ah, e tem visão limitada.

Muitos desse tipo de brasileiro/american até mudaram para o Tio Sam. A maioria, e até o resultado eleitoral comprova isso (65,48% a 34,52% em 2022), mantém aquela pose de cidadão do bem. Sendo repetitivo, fake cristão e pobre de classe rica, que agora estão vendo seu ídolo – referência ao seu mito tupiniquim – mostrar aos desavisados e inocentes a verdadeira face do projeto reacionário. Lá e em lugar nenhum há espaço para idiotas iludidos. Aprendi ontem e divido, transocial, rico no corpo de pobre.

Por essas e tantas outras, cá da minha janela, enxergando a minha Belo Horizonte, devaneio sobre tantas lembranças da luta e resistência contra essa gente ultrapassada e retrógrada. Praça da Estação, da Rodoviária, Sete, em comícios emocionantes pela volta da democracia. Avenidas Amazonas, Afonso Pena e subir a Rua da Bahia em caminhadas e passeatas pela liberdade. Aqui, bem embaixo de mim, a Avenida do Contorno, tantas vezes abraçada pelas forças de resistência. Boas memórias de quem, batendo na porta dos 70 anos, nunca se curvou ao poder e/ou à chibata. Essa última não experimentei, embora tenha recebido sinais de alcaguetes/valentões da ocasião.

Essa saída do armário, de quem mostrou sua verdadeira faceta depois da ascensão de um despreparado e desqualificado (reacionários são e serão sempre assim) ao poder, ainda circula entre nós, e temos de saber agir e nos defender. Essa gente está por toda parte: na família, no trabalho, no trânsito, e em todo lugar. Ao nosso lado. Não defendo o uso da força, tipo ação e reação, mas também não podemos aceitar passivamente. Descobri, com o tempo, que a melhor maneira de conviver com esse perfil é ignorar suas provocações e arroubos. Ficam furiosos. Tendo, evidentemente, que, na medida do possível, evitar contrariar. Como fazemos com crianças e pessoas especiais: não contrariar e seguir na direção adequada.

São, em sua esmagadora maioria, pessoas escarnecedoras, que se valem da zombaria para se impor e se mostrar superiores. As redes sociais são seu único espaço. São fortes e valentões no teclado. Coisas da insegurança de quem nunca vai amadurecer. Jesus até anunciou: “Bem-aventurado o homem que não anda com pecadores e não se assenta na roda de escarnecedores.” Sigamos nessa passagem de provação pela vida terrena, no campo do enternecimento. Dona Beija, lá do meu Araxá, deixou como legado que “cada um dá o que tem”. O mesmo Jesus ensinou: “Dar a outra face”, para responder à violência sem vingança. Enternecer é ter compaixão, sentir ternura e dar afeto. É o melhor caminho para ser feliz.

4 comentários sobre “O escarnecedor e o enternecido

  1. Texto muito contemporâneo, diria um texto de leitura histórica e filosófica. A maldade sempre existiu, entretanto , na era digital ficou explícito quem é maldade e quem é bondade. Prossiga nesta jornada jornalística ética e pontual. Abraços , Patrícia Lechtman

  2. Um texto de leitura histórica e filosófica. A maldade sempre existiu, entretanto , na era digital ficou explícito quem é maldade e quem é bondade. Prossiga nesta jornada jornalística ética e pontual. Mil Vivas às Transformações Positivas.Abraços , Patrícia Lechtman

  3. Lá em 1983 o Marcelo Hayenna manifestava uma crítica social na canção ‘Carta aos Missionários’ á frente da banda Uns e Outros. Disse ele:
    [•••]”Missionários e missões suicidas
    Crianças matando, crianças inimigas
    generais de todas as nações,fardas
    bonitas,condecorações
    Documentam na nossa história
    O seu rastro sujo de sangue e glória.
    Vindo de todas as partes,indo pra lugar algum
    Assim caminha a raça humana,se devorando um a um”[•••]
    Sigamos,prezado!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *