Nada como uma livraria após a outra

Peter Rossi

Estou chegando ao bairro da Savassi, que tanto me encanta. A ideia é conhecer a nova livraria, com gosto de fruta, que preencheu o vazio da antiga, com nome de Galeria.

O sentimento é misto, a dor por quem foi, a alegria por quem acabou de chegar. Mas essas são as regras da vida, absolutamente mencionadas em qualquer manual, ainda que não escrito.

Me sento num restaurante, a esperar os amigos e emerge uma vontade louca de falar sobre os livros.

Ah! Os livros, ornamentos da alma, guias, mapas, passagens, e tudo mais que o clichê cuidou de eternizar.

Fico a imaginar o mundo sem livros. Como seria? Outras mídias seriam criadas, é claro, como, aliás, já foram. As verdades seriam transitórias sem os livros, cada um narraria o que tinha a dizer conforme o humor e, sobretudo, a conveniência do momento. O livro não, ele eterniza o que o escritor quis dizer. Não tem volta, o que está escrito, está escrito.

O livro fala do amor e não deixa o amor acabar. Fala de saudade e nos remete a tempos que desejamos voltar. Fala da aridez da vida e nos estimula a empertigar a coluna e seguir em frente. Aponta os caminhos, os descaminhos, os atalhos, as ruelas, as vilas, as veredas, todas dentro de nós.

A bem da verdade o escritor não inventa, simplesmente. Ele enxerga com olhos astutos a vida à sua volta. As palavras que seu coração dita e escoam pelos seus dedos sempre existiram. O escritor usa os dedos como pincéis e a vida como tela.

Não falo delirantemente sobre os livros pelo simples prazer que me proporcionam, mas porque sou de fato apaixonado por eles. Amo os livros, como nunca amei na vida. Respiro-os, os abraço. Tenho todos, é uma convicção plena, apenas não chegaram ainda às minhas mãos. Mas vou atrás, procuro visitá-los, tê-los comigo. Acaricio as lombadas, abro e faço tilintar as páginas, com o nariz enfiado entre elas. Os livros usam perfumes os mais diversos, cada um melhor do que o outro.

De fato, o mundo não mereceria estantes se os livros não existissem. Elas, as estantes, foram criadas para eles. Alguns desviam o curso e colocam potes, bibelôs e outras coisas, mas as estantes estão para os livros, como nossos ossos estão para o corpo. São palco, como certa vez o compositor baiano, hoje acadêmico, descreveu.

Os livros merecem holofotes e felizmente, nascemos com dois a iluminar nossa alma com o que ali está escrito. Nossos olhos, faróis na noite e o livro, páginas abertas, a nos deliciar com uma frase atrás da outra. Palavras apinhadas e emocionalmente organizadas, lapidadas na rocha dos sonhos como verdadeiros diamantes.

Continuo aqui, a esperar os amigos com os quais vou ter na nova livraria. Deveriam ser várias, na verdade são poucas. Todas nos centros comerciais, poucas na rua, para deleite dos nossos pés a caminhar sobre as calçadas.

Minha alma se alegra quando, aos sessenta, percebo que os livros resistem durante mais de quinhentos anos. Virão novas tecnologias, mas corações não se inventam, podem até criar válvulas, marca-passos e coisa e tal, mas o coração em si é genuíno. Ainda bem, o coração é quem alberga o livro. São amigos inseparáveis.

Já pensando do fim para o começo, me preocupo com o destino dos meus livros. São tantos! Para onde vão? Quando não mais puder lê-los, quando faltar o oxigênio e meus faróis perderem o brilho, o que fazer com meus amigos? Penso muito sobre isso, confesso que até mais do que imaginava. Já pensei em falar com meus filhos sobre o tema, me falta coragem. O que irão pensar? O velho caduco abraçado aos seus papéis? Mas a dúvida ainda me atormenta. Não posso levá-los fisicamente.

Meu coração se acelera, é chegada a hora de conhecer a nova velha livraria, no mesmo lugar. Olhar as estantes e sentir o cheiro, iluminar as cores, ser feliz, apenas ser feliz.

Pensando na melhor forma de encerrar esse escrito, me vem à mente um poema do poetinha Vinícius de Morais, do qual me permito pegar emprestado alguns versos: livros, como não tê-los? Como não lê-los?

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5 comentários sobre “Nada como uma livraria após a outra

  1. Peter Rossi, grande autor de vários livros, apaixonado pela literatura e desde criança nosso Amigo, vizinho e colega de Clarney, João Carlos( nosso cardiologista) enfim aquela pessoa por quem temos grande consideração. Minha mãe, apos sua morte, foi honrada com seu nome( Ana Carolina) à primeira Biblioteca de Goiabal. Iniciei agradecendo ar sr.Prefeito com as seguintes palavras:” Os livros não mudam o mundo, os livros mudam os homens que mudam o mundo”.Procurei incentivar o público presente à arte de ler, é como isso é importante!

  2. Peter Rossi, Boa noite!
    Gostei muito de seu texto. São palavras que acolhi com ternura, sensibilidade de quem ama os livros.

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