O espelho e a floresta

Peter Rossi Naquele lugar escuro, o índio Karu corria de um lado para o outro, subia em árvores, caía, mergulhava no rio. Seu mundo era assim, simples assim, uma aquarela verde, com folhas e frutos. Karu dormia sempre ao relento, sempre preferiu dessa maneira. Quando perguntado, apontava para o céu e todos entendiam que ele usava as estrelas como coberta. Depois de um tempo, ninguém … Continuar lendo O espelho e a floresta

O mar e Mariana

Peter Rossi Sílvio e Mariana se conheceram ainda meninos. Um encantamento de olhares. Prometeram estar sempre juntos, viver um com o outro e aquilo que a vida não lhes desse, tratariam de imaginar. Se não visse o luar, desenhariam a lua mais linda no papelão e pregariam em frente à janela. Os dias de sol eram vistos em riscos de giz sobre o passeio. Combinaram … Continuar lendo O mar e Mariana

O lombo da Vani

Peter Rossi Osvaldo e Vânia viviam uma vida simples e feliz. Márcia, a filha única, acabara de se formar em magistério, seria mais uma professora, seguindo a tradição das mulheres da família. Osvaldo, após quarenta anos na Rede Ferroviária Federal, gozava agora de seu merecido descanso. Vânia, a quem todos chamavam de Vani, também se aposentara. Lecionou por mais de trinta anos na rede pública … Continuar lendo O lombo da Vani

A casa

Peter Rossi Num novo momento da vida, me deparei a pensar que precisava ter uma casa diferente, certamente aquela que nunca tive. Queria quintal! Na minha infância sempre corri pelos quintais, atrás dos sonhos, dos cachorros, dos grilos, dos pingos de chuva, da minha meninice, minhas pernas finas e desconexas. Corri atrás de mim! Acho que a casa deveria ter varanda ou, no mínimo, um … Continuar lendo A casa

Tatuagem

Peter Rossi É incrível como as pessoas hoje em dia se rendem às tatuagens. A juventude então! Percebo diversos meninos e meninas completamente rabiscados, às vezes braços inteiros, para não imaginar todos os corpos. E as mensagens são as mais diversas, algumas surreais, outras de paz. As pessoas se vestem de tatuagens. Fazem da pele tela e com o auxílio dos tatuadores de plantão, desenham … Continuar lendo Tatuagem

Com as luzes apagadas

Peter Rossi Jorge e Nanci viviam uma vida espartana, porém feliz. Ele, empregado da distribuidora de energia elétrica, ela uma costureira de mão cheia.  Moravam numa casa alugada, no bairro Calafate. Um pequeno alpendre, alcançado por seis degraus. O chão de vermelhão, muito encerado. Embaixo da porta de entrada um capacho a convidar todos a entrar, advertindo que ali era um lar. Seguia uma sala … Continuar lendo Com as luzes apagadas

Anjo Negro

Peter Rossi Tem gente que não é apenas gente, é anjo. Eles sofrem e pensamos como nós, que não vão aguentar. Mas eles aguentam, afinal têm asas. Quando cansados, dão uma voada e pousam noutro lugar e ali recuperam as forças. O mais engraçado é que os vendo a gente não imagina como são na essência. A nossa tendência, aliás, é minimizar. Nossos olhos são … Continuar lendo Anjo Negro

Abraços

Peter Rossi O menino caminhava pela estradinha de terra. Um sol quente na mochila. Chutava pedras aqui e acolá. Na cabeça a história que a professora dissera em sala de aula sobre o poder do abraço. A importância de abraçar, o que isso representa. Não tinha convicção de ter aprendido qualquer novidade, afinal abraçar era um gesto comum, tão assim … coloquial. Não via naquilo … Continuar lendo Abraços

Sem a prancha

Peter Rossi A gente pensa que vai voar mundo afora. Ilusão pura! A gente não consegue simplesmente porque não sabe aterrissar. Não temos paraquedas, aliás, não temos jeito com mochilas. Quando muito carregamos pastas de alça curta, com as mãos. Imaginamos os jeans como a última volta do relógio da juventude. Não tínhamos GPS, dobrávamos mapas de papel e com riscos de caneta Bic alinhavávamos … Continuar lendo Sem a prancha

Fantasmas

Peter Rossi Todos os dias visitamos nossos fantasmas que, nem sempre estão de bom humor. Às vezes tão perto, esses fantasmas nos assustam. Noutras, nos embalam e convidam a recontar nossas histórias. E de um tom diferente: do final para o começo. O engraçado é que a vida começa todos os dias, e os finais anteriores nunca acontecem. Deve ser porque antes de terminar o … Continuar lendo Fantasmas