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Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

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Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

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Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

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Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

Ah, moço!

Ah, moço! – Pixabay
Rosangela Maluf

Essa é a quarta vez, em menos de uma hora, que abro meu whatsapp e nada.

Vejo o meu gmail e nada. Ansiosa, eu sou sim, e muito! Estou esperando uma mensagem ou um e-mail, sabe. Conheci um carinha numa livraria do shopping. Começamos a conversar, trocamos cartões e ficamos de combinar um café para falar de literatura. Ele também procurava por livros budistas. Pareceu-me gostar de assuntos orientais. Falamos de
Hare Krishna, Dalai Lama, Ganesh, do Tibet e da Índia, essas coisas. Fiquei empolgada, mas fiz de conta que não!

Achei-o um gato, apesar da barriguinha se mostrando sob a camisa Polo. Também, fala verdade, qual homem, na faixa dos quarenta (talvez um pouco mais), não tem um montinho ali, mostrando ser grande tomador de chope? Não sou assim tão exigente. Uma barriguinha não tem importância alguma. Nem a falta de cabelo que ele tentava disfarçar penteando para o lado os fios já um pouco grisalhos.

Volto para o computador. Entram textos, artigos anexos, propagandas disso e daquilo, spans e mais spams e nada do recado que tanto quero receber. Abro e fecho minha caixa de entrada enquanto faço o relatório da reunião de ontem. Dr. Oscar está atacado hoje. Só agora de manhã, já liguei seis vezes para Brasília. A conta de telefone vai dar problemas para ele, mas eu não estou nem aí. Primeiro porque a secretária mesmo, a de verdade, está de licença, com o filho doente. Pediu uma semana de folga. Aí, sobrou para mim, como sempre. 

Me tiraram lá do Departamento Pessoal para vir trabalhar com o Dr. Oscar. Não tenho o que reclamar dele, é educado, cumprimenta a todos, mas é virginiano, um chato! Um chato daqueles de causar arrepios. Tudo minuciosamente organizado, meticulosamente planejado e cuidadosamente executado. Um saco! Não vejo a hora de Letícia voltar. Dia inteirinhozinho, ele chama. Fala pouco pelo interfone, mas adora incomodar a gente. Às vezes, para nada, para pedir um cafezinho, entregar uma folhazinha para xerocar… bobagens!

Olha, a barriguinha não me incomoda, o pouco cabelo também não. Cabelo enroscadinho, não gosto. Raspadinho, só para jogador de futebol e olhe lá. Bonito os seus cabelos lisos. Achei também que ele tinha assim, um sorriso aberto, tipo escancarado. Sabe gente que sorri com os olhos? Achei-o com jeito de gente franca, sincera. Talvez por isso tenha gostado tanto. Gostei mesmo, mas vou esperar que ele me ligue primeiro. Não quero parecer muito interessada, porque você sabe, se eles percebem o menor sinal de vontade, somem no mapa, não dão nem notícia.

O diretor da filial de São Paulo acabou de chegar na Pampulha. Ligou para cá dizendo que o chofer não se encontra no aeroporto. Nem comento com o Dr. Oscar. Bipo seu Alcides e digo para se apressar, o homem já baixou em BH. Abro de novo meu whatsapp e nada. Abro o gmail: novenas, cursos de inglês, viagem para Bariloche, liquidação de sapatos e nada! Também pudera, nem meio dia ainda. Vamos que ele chegou ao trabalho, aquele monte de coisas para resolver, não deve mesmo ter tido tempo. Respiro fundo, bem fundo. Abro a persiana e sorrio para a Serra do Curral, linda, recortando o céu azul de maio

Adivinhe a outra coisa que gostei muito: das mãos dele. Adoro mãos masculinas, daquelas grandes e largas, com unhas quadradas, sabe como? Para mim, passa a impressão de homem forte, decidido, capaz de longas carícias, doces afagos, abraços intensos. Vou esperar mais um pouco, sem ansiedade. Procuro controlar meus ânimos exaltados. Respiro fundo.

Passo uma última olhada na sala de reunião. Chamo a copeira e peço que troque os guardanapos de papel. Dr. Oscar é capaz de ter um infarto se não vir sobre a mesa os guardanapos de linho, impecavelmente brancos. Ajeito o vaso com copos de leite e gipsies, também brancos. Confiro se está tudo ali: as duas garrafas de café, adoçante, os petit fours impecáveis na bandejinha de prata. Os copos perfeitamente limpos, as garrafas de água, limpas e sequinhas!

Sorte minha a Letícia ter-me ensinado tudo, senão nem sei como seria. Por outro lado, desempenhei tão bem o meu papel que acabei ficando como substituta-oficial-da-secretária-mor! Toda vez que ela se ausenta por qualquer motivo, lá vou eu substituí-la. Não mais que dez dias, eu sugiro, tempo para que ela tire suas férias e volte para a chatice do Dr. Oscar.

Dr. Oscar e sua mesa para a reunião das 11h30. E isso lá é hora de reunião? Volto para a telinha do computador. Nenhuma mensagem dele. “Gstaad é uma estação de esqui.” No meu protetor de tela tem uma foto desse lugar. Acho o nome tão lindo. Gstaad. Montanhas imensas cobertas de neve. Lugar de gente muito fina. Férias de inverno. Como serão essas férias? Com todo aquele frio, nem imagino. O telefone toca. Ligação pessoal para o Dr. Oscar. Não posso passar agora. Reunião é sagrada, nem pensar em incomodar. Só em caso de morte, ele diz. O telefone toca de novo. Do banco. Anoto o recado.

Vou ao Xerox buscar as cópias que precisarei para a tarde. Encontro as meninas no café e paro por alguns minutinhos. O telefone toca. Dou uma corrida e volto para atender. Ninguém responde. Saio novamente em direção ao Xerox. Encontro a Lúcia no corredor. Pergunto pelo filho que está morando em Chicago. Ela diz que está bem, mas que morre de saudades. E começa a chorar. Sem saber o que dizer, volto para minha sala à espera do meu-moço-do-sábado-no-shopping. Mas é o Dr. Oscar quem me espera. De novo persigo na telinha a mensagem tão esperada. Que demora! Oito, nove, dez mensagens. Nenhuma que me interesse, quero dizer, nada dele! Daqui a pouco saio para o almoço. O telefone toca outra vez. É a esposa do Dr. Oscar. Desligo e peço para o seu Alcides que passe na academia e a leve em casa!

Ah, moço da livraria, porque você não dá o ar de sua graça? (Suspiro).
Hoje é quinta-feira. Não vejo a hora da Letícia voltar ao escritório. Ando cansada com toda a trabalheira que isso dá – reuniões e mais reuniões. Até briga houve na terça-feira de noitinha. Também, servir uísque em final de reunião, queriam o quê? As pessoas vão se alterando deixando de lado o bom senso e a boa educação. Mas não foi nada sério. (Outro suspiro!)

Agora, me chegam as correspondências, já no final do  dia. Um monte de envelopes brancos, envelopes pardos, envelopes amarelos e azuis do correio, caixinhas de Sedex. Dr. Oscar, não volta ao escritório: reunião fora da empresa. Assim me sobra mais tempo para abrir tudo agora e deixar prontinho sobre a mesa dele. A Serra do Curral continua lá, no mesmo lugar, linda.

Eu já nem estou sorrindo mais. Ando com um bico, deste tamanho. Estou desistindo do moço-da-livraria. Se ele quisesse, já teria ligado, não é? Eu sei, deve ter se desinteressado, ou talvez, nem se interessou. Eu é que fico fantasiando as coisas achando, que só porque trocamos cartões alguma coisa deverá acontecer. A Lucimara tem razão. Vou com muita sede ao pote. Quero tudo a tempo e a hora como se as pessoas não tivessem vontades e desejos, só o que eu sinto é que conta. Paciência. Sou assim, fazer o quê?

O
boy entra em minha sala e me entrega uma cestinha de violetas. Sem cartão, sem nada. Um vasinho roxo, um rosa e um branco. Rodeado de musgos, muito delicado, singelo mesmo. De quem será? Não é meu aniversário, não me lembro de nenhuma data especial. Deixaram na portaria e só deram o meu nome e o andar. Estranho, muito estranho!

Passam-se uns vinte minutos, O telefone toca de novo. Letícia perguntando se gostei das flores. Adorei, eu digo. Desabo como uma montanha de neve, em Gstaad. Por um instante pensei que pudesse ser o moço! Que droga! Que decepção! Mais uma! O telefone toca de novo. Quase seis horas da tarde. Não, Dr. Oscar, nada de importante. Está bem, bom descanso para o senhor. Fico louca para ir embora. Desligo o computador, vou ao banheiro, me arrumo um pouco, pego minhas coisas, desligo o ar-condicionado. O celular toca…

Meu coração salta pela boca. Procuro me sentar para tentar respirar normalmente. Ofegante, deixo sobre a mesa a cestinha de violetas. Obrigada Letícia, muito obrigada pelas flores. Respiro fundo.  – Alô ! Ah, moço, que bom que você ligou. Vou sim, vou correndo agora mesmo para o Café Três Corações me encontrar com você, para falarmos de literatura, é claro!

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