Novo Rambo enterra o personagem de vez

por Marcelo Seabra

Passada a temporada de Oscar, com vários filmes em destaque, voltamos à programação normal. E eis que me deparo, num serviço de streaming, com a suposta última aventura de Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood, 2019). O personagem, que começou bem nos idos de 1982, deixou de ser um soldado traumatizado e amargurado para virar um psicopata sempre a um passo da explosão de loucura. E continua sendo um exército de um homem só.

A trama do novo longa é complexa: alguém faz mal a John Rambo e ele quer vingança. É, não era tão complexa assim. Ele faz questão de ser chamado de John, como se isso tirasse um peso de suas costas ou afastasse o passado, que está sempre à espreita. E é muito estranho ver um sujeito que já matou tanta gente ser assombrado por vítimas de uma enchente na qual ele obviamente não teve culpa alguma. Uma clara tentativa vazia de dar profundidade a um personagem raso feito um pires.

Se falta profundidade a Rambo, que de repente aparece morando com duas mulheres e em momento algum conseguimos entender a relação entre eles, os bandidos são ridículos. Em uma época de muitas críticas ao presidente norte-americano, que trata imigrantes como bandidos e separa pais de suas crianças, é bem complicado colocarem os mexicanos para serem os vilões. Traficantes de mulheres que sequestram garotas em boates e as levam ao mundo da prostituição e das drogas. Tudo extremamente formulaico. Os antagonistas bem poderiam ter sido americanos.

É triste ver que Sylvester Stallone não aprendeu nada com os episódios anteriores da saga de Rambo. E pior ainda é ver um ator do calibre do espanhol Óscar Jaenada, que já viveu Cantinflas (na cinebiografia de 2014) e o pai de Luis Miguel na série sobre o cantor, restrito a falas ridículas que invariavelmente envolvem as palavras “puta” e “matar”. Os diálogos entre os mexicanos são constrangedores, e o contingente de asseclas parece não ter fim. Outras que passam leve vergonha são Paz Vega (de Não Pare na Pista, 2014) e Adriana Barraza (de Cake, 2014), competentes veteranas com participações mal explicadas.

Coincidentemente, o diretor deste Rambo V chama-se Adrian Grunberg: Adrian era a esposa de Rocky Balboa, outra franquia de Stallone. Grunberg vem de muita experiência como assistente de direção, tendo feito sua estreia na função principal com o divertido Plano de Fuga (Get the Gringo, 2012), um amontoado de tiros e explosões que não se afasta muito do que vemos aqui. Se Plano de Fuga funciona, por outro lado mostra o mesmo problema de Até o Fim: mexicanos são bandidos desalmados que merecem morrer.

Em um clima de nostalgia, Stallone se despede de um ícone que, embora tenha arrecadado uns trocados ao longo dos últimos quase 40 anos, só funcionou mesmo no primeiro filme, adaptado da obra de David Morrell. Do dois em diante, temos a mesma receita repetida. Uma metralhadora de clichês que chega a ser risível quando emula Esqueceram de Mim, com John espalhando armadilhas por sua propriedade. Ao invés de ficar tentando tirar o personagem de cena em alta, Stallone podia se dedicar a novos projetos e aos próximos Rocky – quer dizer, Creed.

O primeiro Rambo é o único satisfatório da franquia

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Jordan e Foxx lutam por justiça

por Marcelo Seabra

O subgênero “filmes revoltantes” acaba de ganhar outro representante. Luta Por Justiça (Just Mercy, 2019) é mais um longa a trazer uma história de preconceito, que escancara o tanto que o racismo é algo comum na sociedade norte-americana, inclusive nas altas esferas do poder municipal. Para esclarecer um crime sem suspeitos e aplacar a opinião pública, basta acusar um negro, trancafiá-lo e perder a chave. E não se trata de algo acontecido nos anos 50 ou 60, auge da Ku Klux Kan: o fato ocorreu há algo em torno de 30 anos atrás.

Voltando do trabalho, Johnny D. vê um bloqueio policial, para e oferece mostrar os documentos. É quando vemos diversas armas apontadas contra ele e um policial doido para ter um motivo para atirar. Conhecemos também o jovem Bryan Stevenson, um estudante de Direito de Harvard que consegue um estágio trabalhando com condenados à morte. Em meio a tantas outras, essas duas figuras vão se encontrar e fazer história.

Representando esse grande encontro, temos Jamie Foxx (Oscar de Melhor Ator por Ray, 2004) e Michael B. Jordan (o novo Creed da franquia Rocky). Os dois atores chegaram a levantar palpites de indicações a Oscars, tamanha a potência de suas interpretações. Isso não se confirmou, mas a verdade é que, além dos interessantes acontecimentos narrados, eles são a grande razão do investimento no ingresso de Luta por Justiça.

O filme, no entanto, se enfraquece por buscar abraçar o mundo. Muitas subtramas são propostas, e o roteiro acaba tentando cobrir mais do que o espectador dá conta de acompanhar. Talvez, funcionasse melhor como série, dando voz a cada personagem e tendo tempo para fechar cada arco, sem precisar de uma legenda esclarecedora ao final. Algo como Olhos Que Condenam (When They See Us, 2019) fez e deu muito certo. Daria para criar antagonistas menos rasos, caso do xerife (Michael Harding) que fala pouco e fica lançando olhares ameaçadores.

Repetindo a dobradinha de O Castelo de Vidro (The Glass Castle, 2017), Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham assinam o roteiro, adaptando o livro do próprio Bryan Stevenson. É claro que a fonte deve trazer diversos dramas que circularam o de Johnny D., que não foi a única vítima de racismo que o advogado conheceu. Mas a adaptação poderia ter sido mais enxuta, o filme não dá conta de acompanhar todos os personagens que apresenta e acaba ficando cansativo. Cretton, também diretor do longa, deveria ter dado mais agilidade a ele, aproveitando melhor a marcante história que tinha em mãos.

Os atores puderam conhecer o verdadeiro Bryan Stevenson

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Adam Sandler ganha polida em Jóias Brutas

por Marcelo Seabra

Se existisse um prêmio para personagem de Cinema mais irritante, certamente o deste ano iria para Howard Ratner, o joalheiro vivido por Adam Sandler em Jóias Brutas (Uncut Gems, 2019). Este é sem dúvida o melhor trabalho da carreira do ator, conhecido por tantas besteiras rasteiras – o que, por isso mesmo, não significa tanto. Mas Sandler realmente encontrou uma forma de superar as caretas usuais e criar algo único, marcante e realista.

Depois de um ótimo resultado com Robert Pattinson, que esteve em Bom Comportamento (Good Times, 2017), os irmãos Safdie emplacaram outra parceria inusitada. Mesmo tendo outros dramas no currículo, Sandler nunca havia abandonado totalmente seus maus hábitos. Nem trabalhar com diretores elogiados como Paul Thomas Anderson (de Embriagado de Amor, 2002) ou Noah Baumbach (de Os Meyerowitz, 2017) em dramas sensíveis fez com que ele parasse de fazer caretas ao tentar demonstrar emoções genuínas. Foi com Benny e Josh Safdie que Sandler chegou lá, compondo um tipo tridimensional que não se cansa de praticar a autossabotagem.

Howard Ratner é o típico sujeito que tira de um lado para colocar no outro, o tal “cobre um santo descobrindo o outro”. Suas jogadas exigem que ele seja um tanto dissimulado, lidando perigosamente com as possibilidades. As apostas que pagam mais são as mais arriscadas, as preferidas dele. E uma é encadeada na outra. Ele frequentemente se pergunta por que as coisas não dão certo para ele. E o culpado por isso é ele e somente ele. Com uma esposa (Idina Menzel, a voz da Elsa de Frozen) e filhos esperando em casa, ele arruma desculpas para ficar com a amante (a estreante Julia Fox) em eventos badalados ou no apartamento que ele mantém para ela.

A grande oportunidade vem quando ele recebe uma pedra preciosa bruta da Etiópia e vê nela a chance de quitar todas as suas dívidas. Se envolvendo com os mais diversos personagens, do agente de um importante jogador de basquete (LaKeith Stanfield, de Death Note, 2017) a um agiota (Eric Bogosian, de Billions) já sem paciência para desculpas, Ratner segue num ritmo acelerado, acompanhado pela câmera de Darius Khondji (de Okja, 2017), que ajuda a nos dar a sensação de que algo grande logo vai acontecer. O corroteirista Ronald Bronstein é também o montador do longa, repetindo com os diretores a parceria de Bom Comportamento, Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What, 2014) e de Go Get Some Rosemary (2009).

Os Safdies rapidamente se estabeleceram como mestres na arte de criar ansiedade no público. Seus trabalhos exalam um senso de urgência e, mesmo que seus protagonistas tenham caráter duvidoso, acabamos torcendo por eles. Além de Ratner ser alguém de quem teríamos distância na vida real, ele causa ainda mais repulsa por ser interpretado por um ator lembrado por papéis bestas em obras canhestras – algumas, inclusive, produzidas pela Netflix, como é o caso aqui. Ou seja: um grande acerto dos irmãos.

Os diretores abraçam seu astro

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Arlequina reúne uma turma de Aves de Rapina

por Marcelo Seabra

Depois de chamar atenção em meio aos criminosos do horroroso Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016), Arlequina seguiu caminho para ter sua aventura solo. Mas ela não está exatamente sozinha em Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, 2020), ganhando a companhia de outras personagens que costumam ser vistas andando por Gotham City. Batman e Coringa não foram convidados para a festa, deixando o protagonismo para estas mulheres que, mesmo diferentes, precisam se unir contra um vilão poderoso.

Margot Robbie, indicada ao Oscar este ano como atriz coadjuvante por O Escândalo (Bombshell, 2019), volta ao papel da namorada do Palhaço do Crime, criada em 1992 por Bruce Timm e Paul Dini para o desenho do Homem-Morcego. Desta vez, no entanto, a briga entre o casal foi feia e Arlequina precisa aprender a se virar sozinha, sem poder contar com seu “pudinzinho”. Mas era a proteção do Coringa que garantia a segurança dela no submundo da cidade. Agora, ela está à própria sorte. Entre seus vários desafetos, está o dono de bar e mafioso Roman Sionis (Ewan McGregor, de Doutor Sono, 2019).

Com várias situações se cruzando, Arlequina percebe que há outras mulheres fugindo de Sionis e que elas deveriam se unir. Nesse meio tempo, conhecemos a misteriosa Caçadora (Mary Elizabeth Winstead, de Projeto Gemini, 2019); a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell, de True Blood); a policial Renee Montoya (Rosie Perez, de A Escolha Perfeita 2, 2016); e a trombadinha Cassandra Cain (Ella Jay Basco, fazendo sua estreia na tela grande). Não temos a oportunidade de conhecer a fundo nenhuma delas. As histórias que ficam mais claras são as de Arlequina, que já conhecíamos, e da Caçadora, e mesmo assim bem por alto.

Fãs dos quadrinhos podem ficar chateados com as muitas mudanças do roteiro em relação à fonte. Sionis, o Máscara Negra, por exemplo, é bem menos ameaçador e mais caricato. Para o filme, funciona bem, e McGregor parece estar se divertindo. Ele é tão espalhafatoso quanto os demais elementos em cena, o que resulta em uma obra bem mais colorida que outras produções da DC. A Gotham mostrada aqui é bem diferente da cidade deprimente de Coringa (Joker, 2019), a fotografia de Matthew Libatique (de Venom, 2018) está mais para o Batman de Joel Schumacher, sempre acompanhada de músicas interessantes que reforçam o poder feminino da obra.

Se o roteiro de Christina Hodson (de Bumblebee, 2018) é raso, a diretora Cathy Yan (de Dead Pigs, 2018) costura bem as sequências e imprime um ritmo ágil ao longa. As coreografias de lutas são bem falsas, com capangas levando um chute na barriga e caindo desacordados, o que se alterna com tiros e explosões que elevam o nível de violência, sempre com aquele ar de mentirinha. Aves de Rapina não chega a ser um Deadpool, o que parecia ser a ideia aqui. Mas é divertido o suficiente e passa longe de um Esquadrão Suicida, o que é uma ótima notícia. E nada impede que cada personagem ganhe sua aventura solo, que vá desenvolvê-las melhor.

Sionis e Victor Zsasz são os vilões aqui

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Oscar 2020 – Indicados e Previsões

por Marcelo Seabra

A entrega dos Oscars, o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), chega este ano à sua 92ª edição. Trazendo novamente polêmicas devido à falta de indicados que não sejam homens brancos, o que deixou de fora grandes nomes, a festa ainda assim conseguiu trazer atenção a grandes produções. São nove os indicados na categoria Melhor Filme, e várias outras produções aparecem em outras categorias

Mais uma vez, não teremos um apresentador, mas vários artistas passando pelo palco, revezando-se entre os prêmios. Na parte musical, além das interpretações das canções indicadas, o grande destaque é a jovem cantora Billie Eilish, além da prestigiada Janelle Monáe. E é essa a graça dos Oscars: celebridades premiando umas às outras e o público acompanhando tudo com grande fascínio.

O recordista em indicações esse ano é Coringa (Joker, 2019), com 11 no total. Uma das barbadas da noite é o prêmio de Melhor Ator para Joaquin Phoenix, que surpreendeu a todos com uma atuação impecável na construção daquele que viria a ser o grande vilão das histórias do Batman. Mas o favorito em duas das categorias principais, Melhor Filme e Melhor Diretor, é 1917 (2019) e seu diretor, Sam Mendes, que pode repetir o feito de 2000, quando levou as duas estatuetas por Beleza Americana (American Beauty, 1999).

A cerimônia será realizada no próximo domingo, 9 de fevereiro, quando o Brasil poderá se sagrar campeão como Melhor Documentário. Segundo os palpites lá fora, as chances de Democracia em Vertigem (2019) não são as melhores, com outros fortes concorrentes à frente. Abaixo, você confere a lista de indicados nas 24 categorias, com links para as críticas disponíveis no Pipoqueiro. O número 1 em frente indica o meu palpite para o vencedor e o número 2 indica aquele que eu gostaria que ganhasse. Se os dois coincidirem, terá apenas um X.

Melhor Filme

O Irlandês – 2
Adoráveis Mulheres
Era Uma Vez em… Hollywood
Parasita
História de um Casamento
1917 – 1
Coringa
Ford vs Ferrari
Jojo Rabbit

Melhor Diretor

Bong Joon-Ho, por Parasita
Martin Scorsese, por O Irlandês – 2
Sam Mendes, por 1917 – 1
Todd Phillips, por Coringa
Quentin Tarantino, por Era Uma Vez em… Hollywood

Melhor Ator 

Antonio Banderas, por Dor e Glória
Leonardo DiCaprio, por Era Uma Vez em… Hollywood
Adam Driver, por História de um Casamento
Joaquin Phoenix, por Coringa – X
Jonathan Pryce, por Dois Papas

Melhor Atriz

Saoirse Ronan, por Adoráveis Mulheres
Charlize Theron, por O Escândalo
Scarlett Johansson, por História de um Casamento – 2
Renée Zellweger, por Judy – Muito além do Arco-Íris – 1
Cynthia Erivo, por Harriet

Melhor Ator Coadjuvante 

Brad Pitt, por Era Uma Vez em… Hollywood – 1
Joe Pesci, por O Irlandês – 2
Al Pacino, por O Irlandês
Anthony Hopkins, por Dois Papas
Tom Hanks, por Um Lindo Dia na Vizinhança

Melhor Atriz Coadjuvante 

Kathy Bates, por O Caso Richard Jewell
Laura Dern, por História de um Casamento – X
Scarlett Johansson, por Jojo Rabbit
Florence Pugh, por Adoráveis Mulheres
Margot Robbie, por O Escândalo

Melhor Roteiro Adaptado

O Irlandês – X
Jojo Rabbit
Coringa
Adoráveis Mulheres
Dois Papas

Melhor Roteiro Original

Entre Facas e Segredos
História de um Casamento
1917
Era Uma Vez em… Hollywood – 1
Parasita – 2

Melhor Filme Internacional

Corpus Christi (Polônia)
Honeyland (Macedônia do Norte)
Os Miseráveis (França)
Dor e Glória (Espanha)
Parasita (Coreia do Sul) – X

Melhor Animação 

Como Treinar o Seu Dragão 3
Perdi Meu Corpo
Klaus – X
Link Perdido
Toy Story 4

Melhor Fotografia 

1917 – X
O Irlandês
O Farol
Coringa
Era Uma Vez em… Hollywood 

Melhor Figurino 

O Irlandês – 2
Jojo Rabbit
Adoráveis Mulheres – 1
Era Uma Vez em… Hollywood
Coringa

Trilha Sonora Original 

Coringa – X
Adoráveis Mulheres
História de Um Casamento
1917
Star Wars: A Ascensão Skywalker

Melhores Efeitos Visuais

Vingadores: Ultimato – X
O Irlandês
O Rei Leão
1917
Star Wars: A Ascensão Skywalker

Melhor Documentário 

Indústria Americana
The Cave
Democracia em Vertigem – 2
Honeyland
For Sama – 1

Melhor Montagem

Ford vs Ferrari – 1
O Irlandês – 2
Jojo Rabbit
Coringa
Parasita

Melhor Canção Original 

I Can’t Let You Throw Yourself Away, de Toy Story 4
(I’m Gonna) Love Me Again, de Rocketman – X
Into The Unknown, de Frozen 2
I’m Standing With You, de Superação – O Milagre da Fé
Stand Up, de Harriet

Melhor Direção de arte 

1917 – 1
O Irlandês – 2
Jojo Rabbit
Parasita
Era Uma Vez em… Hollywood

Melhor Mixagem de Som 

Ad Astra
Ford vs Ferrari – X
Coringa
1917
Era Uma Vez em… Hollywood

Melhor Edição de Som

1917
Coringa
Star Wars: A Ascensão Skywalker
Era Uma Vez em… Hollywood
Ford vs Ferrari – X

Melhor Maquiagem e Penteado 

Malévola: Dona do Mal
1917
O Escândalo – X
Coringa
Judy: Muito Além do Arco-Íris

Melhor Curta-Metragem 

Brotherhood – X
Nefta Footbal Club
The Neighbors’ Window
Saria
A Sister

Melhor Animação em Curta-Metragem

Dcera (Daughter)
Hair Love – X
Kitbull
Memorable
Sister

Melhor Documentário de Curta-Metragem 

In the Absence – X
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
Lifeovertakesme
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

São muitos indicados para uma foto só!

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Tom Hanks emociona como o vizinho Mr. Rogers

por Marcelo Seabra

Muito conhecido nos Estados Unidos, Fred Rogers tinha um programa na televisão voltado para crianças. Ao invés de brincadeiras e competições, ele promovia discussões sobre temas importantes que normalmente não eram levados ao público mais jovem – e, por isso mesmo, marcou muita gente. Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood, 2019) nos leva a esse universo e apresenta um pouco do que Mr. Rogers era em frente e também atrás das câmeras. Basicamente: o mesmo cara legal.

Para nos levar junto nessa jornada, temos Lloyd Vogel (Matthew Rhys, de The Post, 2017, e da série The Americans), um jornalista premiado conhecido e temido pelos textos densos que geralmente expunham os pecados dos envolvidos nas matérias. Ninguém queria ser alvo de um perfil escrito por Vogel, mas Rogers não viu problema. A partir dessa missão, os dois se conhecem e, ao contrário do que esperamos, é Vogel quem vai revelar seus traumas e medos. O personagem é inspirado em Tom Junod, jornalista da revista Esquire que teve sua forma de ver a vida mudada após o encontro com Fred Rogers.

Para viver a personalidade da TV, foi escolhida uma das maiores personalidades do Cinema: o premiado e querido Tom Hanks (também de The Post). Em meio a tantos escândalos na indústria, Hanks mantém sua imagem de bom moço e essa aura imaculada ajuda a criar Rogers, um sujeito que parecia alheio a todo o cinismo e maldade que o cercavam, mas nem por isso ingênuo ou apalermado. Parece ser simplesmente uma escolha de vida: buscar o otimismo e ver o melhor nas pessoas. Mesmo naquelas que já te deixaram na mão.

O roteiro, escrito por Noah Harpster e Micah Fitzerman-Blue (ambos de Malévola: Dona do Mal, 2019), evita sentimentalismos baratos e armadilhas comuns nesse tipo de jornada, quando uma pessoa calejada pela vida começa a ver as coisas de forma mais positiva. Olhando por esse lado, Rogers é um antagonista, já que faz um contraponto a Vogel, levando-o a pensar fora da caixa à qual ele estava acostumado. O próprio Tom Junod atestou isso em entrevistas. O que vemos no filme é ficção, mas a moral da história é a mesma.

É fato que Hanks alcançou um patamar em que é prazeroso até vê-lo lendo a lista telefônica. Ele acaba ficando em segundo plano, já que o filme foca mais em Vogel e sua tarefa, e lamentamos que ele não tenha tanto tempo em cena. Mas Rhys, mesmo que um pouco apagado frente a um gigante, consegue evitar estereótipos e criar uma figura interessante. Os demais coadjuvantes completam um belo quadro. O destaque é Chris Cooper (acima, de Adoráveis Mulheres, 2019), outro ator excelente a quem cabe um papel rico: um pai que errou muito e busca redenção.

Com tanta dor precisando ser curada, seria muito fácil escorregar para o dramalhão. A diretora Marielle Heller (de Poderia Me Perdoar?, 2018) faz um ótimo trabalho mantendo o tom do filme, com momentos engraçados e até contemplativos. Se a sequência de sonho tira o espectador do longa e atrapalha a experiência, outras vão tirar lágrimas facilmente e fazer pensar. As colocações do Mr. Rogers de Hanks vão levar o público a refletir sobre suas vidas e, quem sabe, deixar um sorriso no rosto de cada.

A caracterização ficou ótima

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Jojo Rabbit leva a comédia à guerra

por Marcelo Seabra

Para seguir o nazismo, precisaria ser alguém bem maligno, você pode pensar. Mas sabemos que nazistas não têm chifres ou rabos pontudos – basta ir a qualquer lugar bem movimentado e olhar para os lados. Eles se parecem fisicamente com você. E, também como você, nasceram crianças. A comédia frequentemente é usada para críticas poderosas e é isso que temos em Jojo Rabbit (2019). É através dos olhos de um garotinho de 10 anos que vemos o horror do regime que levou a humanidade à Segunda Grande Guerra.

Ao contrário de A Vida É Bela (La Vita È Bela, 1997), aqui temos o menino totalmente inserido no contexto da guerra. E o diretor e roteirista Taika Waititi (de Thor: Ragnarok, 2017) não ridiculariza Hitler (como Chaplin fez em O Grande Ditador, 1940) ou seus seguidores (como Mel Brooks em Primavera para Hitler, 1967). Ele os mostra como seres humanos que fazem coisas monstruosas e não pensam duas vezes antes de seguirem um pensamento raso e mal construído. Fazia sentido para eles, no contexto em que viviam, e poucos viram necessidade de irem contra. Por isso, chegaram onde chegaram.

Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis) cresce em meio à ascensão nazista e é levado pelo sentimento nacionalista que vê em vizinhos, amigos e parentes. Como deve ter acontecido com milhares de alemães. A diferença é que Jojo tem uma mãe (Scarlett Johansson, de História de um Casamento, 2019) que discretamente ousa ser diferente. Sabemos que nem todos os alemães aderiram, o que não é preciso para que um grupo chegue ao poder. Como muitos jovens impressionáveis, Jojo admira Hitler, mas não é pouco! É a ponto de vê-lo como um amigo imaginário (vivido pelo próprio Waititi). A escolha de colocar uma criança como protagonista é muito acertada, conseguimos ter empatia com ele mesmo sendo o seu pensamento tão torpe. E Davis é uma ótima descoberta.

Grandes diretores, como Spielberg (de 1941: Uma Guerra Muito Louca, 1979), já derraparam ao fazerem comédia com uma guerra. Waititi, partindo do livro de Christine Leunens, demonstra uma sensibilidade ímpar ao tratar as situações que envolvem Jojo, não o poupando, mas mostrando como foi possível para ele aprender com tudo aquilo. Os demais personagens nazistas são um tanto exagerados, mas não podemos afirmar que a realidade não fosse próxima disso. O clima de fábula não impede que o roteiro aponte os absurdos perpetrados pelos seguidores do ditador, algo que um longa pesado como Filhos da Guerra (Europa Europa, 1990) fez bem, mas de outra forma.

Com boas atuações de um elenco que inclui Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant e Thomasin McKenzie, Waititi mostra ser capaz de conduzir produções menores também, sem um orçamento como os dos estúdios Marvel. A recriação da época é bem interessante, nos levando para o período e nos fazendo pensar. Se queremos afastar a besta, não podemos permitir que alguém a alimente. É responsabilidade de todos. Principalmente de quem é responsável por jovens como Jojo, que representam o nosso futuro.

Taika Waititi manda seu recado a Hitler e seguidores

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Robert Eggers surpreende novamente com O Farol

por Marcelo Seabra

Depois do sucesso atingido com A Bruxa (The Witch, 2015), qualquer passo de Robert Eggers seria ansiosamente esperado. E o novo trabalho do diretor e roteirista não decepciona: O Farol (The Lighthouse, 2019) causa tanto estranhamento quanto o longa anterior, talvez até mais. Permeado por influências claras de grandes autores e de mitos gregos, ele ainda conta com duas ótimas atuações para assombrar seu público.

Escrito em parceria com o irmão, Max, Robert nos apresenta a dois zeladores que chegam a uma ilha na Nova Inglaterra para cuidarem de um farol no meio do nada. Eles só têm um ao outro até o dia marcado para a volta do barco que os levará embora. O isolamento, ainda mais em meio a tempestades homéricas, lembra O Iluminado (The Shining, 1980), mas Stephen King não é uma influência aqui. A ideia parte de um conto inacabado de Edgar Allan Poe, mas os Eggers acabaram se afastando do escritor para se aproximarem de H.P. Lovecraft.

Pesadelo é uma boa palavra para descrever O Farol. A belíssima fotografia em preto e branco de Jarin Blaschke (de Shimmer Lake, 2017, e também de A Bruxa) acentua as sombras e aumenta o clima de tensão que surge da relação entre os dois sujeitos. Temos um zelador mais velho e experiente, que atua como chefe; e outro mais novo, que optou pela vaga para mudar de ares e acaba se ocupando das tarefas domésticas, longe do farol propriamente dito. Rapidamente, entrar lá se torna uma obsessão para ele e mais um motivo de atrito entre os dois. E a crescente tensão é inclusive sexual, mas não no sentido erótico: é mais uma disputa de quem manda naquele enorme símbolo fálico, numa metáfora para uma masculinidade frágil.

Ator que dispensa apresentações, Willem Dafoe (de Aquaman, 2018) é uma atração à parte. Seu personagem se alterna entre o profissional exemplar e o alcoólatra irritante, arrumando confusão por qualquer coisa. E sobra para Robert Pattinson (de Bom Comportamento, 2017) aguentá-lo. Ambos se mostraram bem ágeis nos diálogos, usando termos apropriados para a época e para o mar, onde o veterano tem experiência. E o público não demora a se perder, não sabendo o que é realidade e o que pode estar apenas dentro da cabeça deles, o que leva a uma conclusão nada conclusiva.

Como fez em A Bruxa, Eggers parece entregar uma obra fechada, mas te permite interpretar na direção que achar melhor. Vários elementos são usados na costura, dos autores citados ao mito de Prometeu, mais óbvio. Quem gosta de tudo mastigado pode ficar frustrado. Mas, independentemente de qualquer problema encontrado, Dafoe e Pattison sem dúvida valem o ingresso, e têm suas atuações reforçadas pelas belas cenas criadas por Blaschke, merecidamente indicado ao Oscar e a tantos outros prêmios.

O diretor apresenta seu elenco em trajes contemporâneos

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Sam Mendes mira prêmios com 1917

por Marcelo Seabra

Volta e meia, nos deparamos com uma ameaça mais séria de guerra no planeta. Para algumas nações, isso é uma realidade constante, ainda que localmente. Por isso, é importante que o Cinema nos lembre frequentemente dos horrores que já vivemos. Agora, foi a vez do premiado Sam Mendes contar uma história da Primeira Guerra, e o filme acumula mais de 150 indicações a prêmios! 1917 (2019) já chega aos cinemas nacionais comemorando uma arrecadação fantástica pelo mundo.

Com um roteiro aparentemente simples, escrito com sua parceira de Penny Dreadful, Krysty Wilson-Cairns, Mendes tinha uma visão desde o início: o filme seria feito com uma só tomada contínua. O avô do diretor serviu na Guerra como mensageiro e sua função era salvar vidas correndo por terrenos perigosos. Essas histórias deram origem a 1917, longa enxuto em seus 119 minutos que deve seu sucesso também a outro grande nome: Roger Deakins (de Blade Runner 2049, 2017). Foi o lendário diretor de fotografia que ajudou a esconder os cortes e dar a impressão de continuidade.

Não é a primeira vez que somos enganados com esse truque no Cinema. Hitchcock lançou Festim Diabólico (Rope) em 1948 usando uma saída simples: ele fazia seus cortes filmando telas pretas, de onde poderia continuar depois sem ser percebido. Outros usaram recurso parecido, como Birdman (2014), mas Deakins teve outra carta na manga: uma nova tecnologia que permite parar e continuar sem que se perceba a pausa – e nem por isso foi fácil. É importante ressaltar que não se trata apenas de um artifício curioso, um motivo para chamar público. O resultado dá um senso de urgência enorme, passamos pelos apertos vividos pelos personagens junto com eles.

Apesar de um currículo respeitável, os dois protagonistas não são muito conhecidos, tendo feito em sua maioria participações pequenas. Dean-Charles Chapman (acima, à esquerda) era o cantor vizinho do fã de Springsteen em A Música da Minha Vida (Blinded By The Light, 2019), além de ter encarnado o Príncipe Tommen em Game of Thrones. E George McKay (acima, à direita) deve ser reconhecido como o filho mais velho de Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016), além de Orgulho e Esperança (Pride, 2014). Os dois vivem os cabos que precisam atravessar um campo inimigo para levar uma mensagem a outro pelotão inglês.

Chapman e McKay são expressivos na medida certa, deixando transparecer medo e inexperiência, apesar da postura de durões. Pelo fato de todos os envolvidos serem ingleses (fora os inimigos alemães, claro!), temos participações especiais bem interessantes (alguém falou em O Espião Que Sabia Demais?). O trailer estraga a surpresa de algumas, outras prevalecem. Uma infinidade de figurantes completa o elenco, ajudando a recriar a guerra. Deakins aproveita para realizar tomadas de tirar lágrimas dos olhos. Em meio a mortes e lama, há espaço para poesia, o que potencializa o aperto sentido em certos momentos.

Provável vencedor do Oscar de Melhor Filme, com outras nove indicações, 1917 é de fato uma obra muito bonita e pode trazer o segundo prêmio da Academia a Mendes, Melhor Diretor por Beleza Americana (American Beauty, 1999). O montador, Lee Smith, levou a estatueta do careca por nada menos que Dunkirk (2017), outra obra-prima. A trilha discreta de Thomas Newman (de Estrada Sem Lei, 2019) completa o quadro. Com tantos talentos reunidos, não é de se surpreender o resultado. E nem tanto reconhecimento.

Mendes dirige das trincheiras

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Ótimas atrizes são o destaque de O Escândalo

por Marcelo Seabra

Sororidade é um termo que vem do latim e define a importância de mulheres se unirem para serem ouvidas. Vivemos em um mundo machista e, muitas vezes, os piores espécimes masculinos estão em posição de liderança. Por isso, para terem os mesmos direitos e oportunidades, as mulheres deveriam se unir. Este é um dos pontos centrais tratados em O Escândalo (Bombshell, 2019), longa já em cartaz em reconta os fatos ligados ao processo entre funcionárias e o todo-poderoso executivo do canal Fox News.

Roger Ailes foi incumbido pelo dono do império Fox, Rupert Murdoch, de tocar o canal de notícias e, numa análise fria e objetiva, foi muito bem-sucedido. Aumentou em várias vezes a audiência, a fama e o valor de mercado do canal. Mas a que preço? De que forma? É isso que o diretor Jay Roach e o roteirista Charles Randolph escancaram. Ambos tinham experiência em filmes sobre a realidade escandalosa em que vivemos. Roach assinou, entre outros, Recontagem (2008), Virada no Jogo (2012), Os Candidatos (2012) e Trumbo (2015), e Randolph levou o Oscar por escrever A Grande Aposta (2015).

Contando com um elenco dos sonhos, Roach refaz a equipe do Fox News de 2016 e nos leva para dentro das articulações do Partido Republicano antes da eleição que iria colocar Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Charlize Theron (de Atômica, 2017) vive a âncora do canal destacada para mediar o evento, Megyn Kelly. A história de Kelly é uma das três seguidas pelo filme, que também nos apresenta a Gretchen Carlson (Nicole Kidman, de O Pintassilgo, 2019) e Kayla Pospisil (Margot Robbie, de Era Uma Vez em… Hollywood, 2019). O que elas têm em comum, além de trabalharem na mesma empresa? O assédio de Ailes (John Lithgow, de Cemitério Maldito, 2019).

As três atrizes realizam performances impecáveis, complementadas pelo sempre ótimo Lithgow (abaixo). Entre elas não há muitas cenas, mas todas têm embates com ele, o chefão que busca mulheres lindas, com belas e compridas pernas, para colocar no ar. Ailes acreditava que isso chamaria público – mesmo com os homens que assistem ao canal se declarando conservadores, de família, os tais cidadãos de bem. E ele não estava de todo errado, já que a audiência do Fox News cresceu muito sob a gestão dele. A hipocrisia pode ser encontrada no mundo todo.

Com uma montagem ágil, o longa alterna sua atenção entre elas. O roteiro não se importa tanto com as personagens, mas com os fatos ligados à questão do assédio. Nesse ponto, é importante ressaltar a batalha entre Kelly e o contumaz misógino Trump, que direcionou sua base de fãs para infernizar a jornalista. Mais ou menos o que acontece com a família presidencial brasileira e seus desafetos. Além do elenco principal, temos um desfile de gente competente em papéis secundários, como Allison Janney, Kate McKinnon, Connie Britton, Stephen Root, Mark Duplass, Malcolm McDowell e Brigette Lundy-Paine, estrela da série Atypical.

Ailes e Trump são os grandes vilões dentre gente da pior espécie, como são os empregados do Fox News. É triste observar que não havia qualquer tipo de união entre as lindas colegas de trabalho, cada uma muito preocupada com sua própria carreira. Era um olho em si e o outro na concorrência – como no momento em que Carlson vai à sala de Ailes e fica com uma pulga atrás da orelha sobre a presença de Pospisil. Mesmo passando por situações humilhantes, elas só se preocupavam em crescer, defendendo enquanto isso todo tipo de ponto de vista ultrapassado, antiquado, que reforça exatamente o machismo do qual eram vítimas.

Roach e elenco prestigiaram o lançamento do longa

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