Tigres e basquete movimentam a Netflix

por Arthur Abu

A Máfia dos Tigres (Tiger King, 2020) e Arremesso Final (The Last Dance, 2020) são produções originais Netflix lançadas nesse período de isolamento social já disponíveis no catálogo do serviço. Duas minisséries documentais, com altos índices de audiência, mas conteúdos muito distintos.

A Máfia dos Tigres

“Não é todo dia que um dono de zoológico é preso por encomendar um assassinato.” “Tem mais tigres presos nos EUA do que na natureza do mundo todo”. “Amantes de animais são loucos, totalmente loucos”. Assim anuncia o trailer de A Máfia dos Tigres, originalmente Tiger King: Murder, Mayhem and Madness.

A figura central é Joe Exotic, dono de zoológico, pseudo-cantor, apresentador de TV, entre outras coisas, que almeja se tornar uma celebridade a qualquer custo. Joe vive rodeado de animais selvagens, entre eles centenas de tigres. Existem ainda outros que compartilham desse estilo de vida exótico, como sua inimiga mortal, a ativista Carole Baskin, e o “guru” Doc Antle.

É de se imaginar que alguém que vive à margem da lei gostaria de manter pelo menos alguma discrição, mas as filmagens são tão extensas e, de situações às vezes tão ridículas, que é possível questionar a veracidade do que é retratado. O excesso de material e de depoimentos deixa a montagem um pouco confusa quanto à linha temporal e tenta induzir o espectador a certas insinuações. Vale dizer que vários dos protagonistas se sentiram enganados com o resultado final, assinado pelos diretores Eric Goode e Rebecca Chaiklin.

Quem se interessa por obras do gênero true crime, como Making a Murderer (2015), terá um prato cheio. Não faltam teorias e casos mal resolvidos, cultos com exploração sexual, tráfico de drogas e pessoas e acontecimentos bizarros.

É bem difícil sentir empatia pelos protagonistas humanos. O que prende é a curiosidade de saber até onde o circo vai. E vai longe. Mas, antes do fim, o espectador já está anestesiado e não se choca mais tão facilmente. A série perde o gás e o final é um pouco decepcionante, os animais acabam esquecidos no meio de tantas desavenças, tanto pelas personalidades excêntricas quanto pelo próprio espectador.

Arremesso Final

“Quem era Jimi Hendrix? Era o Michael Jordan da guitarra elétrica”. Uma fala que não dá para esquecer, de um filme do qual já nem me lembro mais. Como alguém que cresceu na década de 90, sei muito bem quem era Michael Jordan: assisti a Space Jam (1996) nos cinemas, tive um boné dos Chicago Bulls, nos treinos de educação física tentava ser o primeiro a falar “Eu sou Michael Jordan”.

Arremesso Final conta de forma bem detalhada o que aconteceu dentro e fora das quadras na era Michael Jordan, a era da supremacia dos Chicago Bulls no final do século XX. Temos depoimentos de vários ex-jogadores, jornalistas, donos de clubes, escritores, familiares e até do ex-presidente Barack Obama.

Assim como em A Máfia dos Tigres, o conteúdo é bem extenso e intimista. Mas é montado de uma maneira muito mais organizada: a narrativa vai e volta constantemente, tratando simultaneamente de acontecimentos em anos e às vezes décadas distintos, criando expectativa e tensão em cada época retratada.

Em Arremesso Final (ou A Última Dança, título original que se refere à temporada de 97-98), o time que já era cinco vezes campeão estava à beira de uma reformulação de elenco. Uma estratégia da diretoria e do gerente geral, Jerome Krauser, em uma época em que parecia inconcebível mexer em time que está ganhando. De uma maneira um pouco injusta, Krauser é retratado como o antagonista da história, pois até os adversários mais vorazes dos Bulls têm a chance de mostrar a sua versão, mas ele já era falecido antes da produção do documentário e fica sem seu direito de resposta, apesar de um ou outro sair em sua defesa.

Há um esforço para contar a história restante de outros membros do time, em especial Scottie Pippen, o polêmico Dennis Rodman e o técnico Phil Jackson. Mas os holofotes sempre acabam apontados para Jordan. Isso dá uma leve impressão de como se sentiam todos os jogadores da NBA da época: mesmo em seus melhores momentos, eles eram sempre coadjuvantes, dentro e fora das quadras.

Todos os 10 episódios já estão disponíveis na Netflix. Para grandes fãs de NBA e de Jordan, talvez seja uma boa experiência maratonar os episódios, um atrás do outro, e sentir uma fração da intensidade e pressão pela qual o astro vivia – e correr o risco de depois colocar o nome no filho de “Maicon Diordan”. Para os nem tão fãs, ainda sim é uma obra muito bem contada. O diretor Jason Hehir faz um belo tributo ao Chicago Bulls e ao maior astro da história da NBA.

Rodman, Jordan e Pippen na vitoriosa temporada dos Bulls

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Polanski reconta o caso Dreyfus

por Marcelo Seabra

Provas parcas e circunstanciais foram o suficiente para condenar um oficial francês ao exílio. Com o fim do julgamento, tudo volta ao normal e o sentimento de justiça feita deixa a sociedade feliz e satisfeita. E não se fala mais nisso. E se, de repente, outras evidências indicassem o contrário? Seria interessante reabrir um caso fechado com tamanho sucesso? Esse é o ponto de partida de O Oficial e o Espião (J’Accuse, 2019), premiado longa do diretor Roman Polanski.

Conhecido como “o caso Dreyfus”, o imbróglio francês já foi relatado em livros e filmes e ganha agora uma nova versão, extremamente bem produzida e atuada. Polanski repete a dobradinha com o escritor Robert Harris que funcionou muito bem em O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, 2010), com roteiro dos dois baseando-se num livro de Harris. Nos papéis principais, duas referências do país: Jean Dujardin (de O Lobo de Wall Street, 2013) e Louis Garrel (de Adoráveis Mulheres, 2019), ambos muito competentes.

Dujardin vive o Coronel Picquart, um sujeito comum que, apesar de estar na alta hierarquia do Exército, tem seus pecados. Ele mantém um romance duradouro com uma mulher casada (Emmanuelle Seigner, de Baseado em Fatos Reais, 2018) e também não vê judeus com bons olhos, preconceito frequente em seu meio. A diferença é que ele não se deixa levar apenas por seus valores, as provas fazem diferença. E Garrel, na pele de Alfred Dreyfus, faz um tipo irritante, nada simpático, o que certamente ajuda na forma como o veem. Não gostar de uma pessoa é o suficiente para condená-la?

Além dos nomes já citados, temos ainda Mathieu Amalric e Vincent Perez (ambos de No Portal da Eternidade, 2018) reforçando o elenco, além de uma ponta do próprio Polanski. A reconstituição de época, da urbana Paris à Ilha do Diabo, para onde mandavam os expatriados (inclusive o conhecido Papillon), é impecável, tudo pontuado pela elegante trilha de Alexandre Desplat (de Kursk, 2018). Os figurinos, cabelos e bigodes são bem realistas, e não faltam as celebridades da virada do século, como o escritor Émile Zola (André Marcon).

Polanski não só trabalha com vários colaboradores usuais, como a esposa, Seigner, mas também com uma trama que ele conhecia bem. Harris escreveu o livro por influência do diretor, que sempre foi fascinado pelo Caso Dreyfus. Apesar de toda a excelência que cerca a produção, Polanski ainda é um fugitivo, condenado por estupro, o que faz com que muitos se manifestem contra ele e seus trabalhos. Na premiação do César, no último janeiro, O Oficial e o Espião recebeu 12 indicações, o máximo possível, e levou três prêmios, entre eles o de Melhor Diretor. Poucas palmas foram ouvidas.

Dois vencedores do Oscar: Polanski dirige Dujardin

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Band of Brothers traz o melhor da HBO

por Alexandre Costa

Uma das melhores e mais premiadas séries do gênero de guerra, Band of Brothers (2001), está disponível na HBO para todos assistirem, sem necessidade de ter cadastro ou assinatura no canal. A série, que tem na produção a grande dupla Steven Spielberg e Tom Hanks (que também dirige o 5° episódio), conta a história da 101° Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos, a Easy Company, durante a Segunda Guerra Mundial.

Baseada no livro de Stephen E. Ambrose, a série traz a perspectiva de vários personagens, se revezando. É uma superprodução de 10 episódios que narram a jornada eletrizante e angustiante da Companhia E, desde o seu treinamento ainda nos EUA à Europa, começando pelo Dia D até a rendição completa das potências do Eixo.

Em cada episódio, temos depoimentos de alguns veteranos da Easy Company, que mostram o verdadeiro inferno a que foram submetidos e ao qual conseguiram sobreviver. Para os amantes do gênero, a série é simplesmente perfeita. Uma produção impecável, com cenários de tirar o fôlego e batalhas extremamente reais, que te mostram um pouco da realidade de quem teve que lutar na Segunda Guerra Mundial.

As parcerias Spielberg e Hanks mostram sempre que eles não entram no jogo para brincar. Além de Band of Brothers, Spielberg dirigiu o fenomenal O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), com Hanks no papel principal, e os dois também foram produtores executivos da série The Pacific (2010), mais uma superprodução sobre a segunda guerra, agora no teatro de operações do pacífico, na luta dos EUA contra os japoneses. Resumindo, são as três melhores e mais bem cuidadas produções sobre a Segunda Guerra. Para quem gosta do gênero, são um prato cheio.

Damian Lewis e David Schwimmer são alguns dos nomes famosos do elenco

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Você Nem Imagina atualiza Cyrano na Netflix

por Marcelo Seabra

A peça francesa Cyrano de Bergerac, escrita em 1897 por Edmond Rostand, já teve diversas adaptações para o Cinema, sendo literais ou tomando certas liberdades. Uma nova produção distribuída pela Netflix se afastou o suficiente para nem precisar citar a fonte, mas a inspiração é óbvia. Você Nem Imagina (The Half of It, 2020) leva a trama para uma escola americana, onde um atleta se apaixona e não sabe como conversar com a menina. Até ter a brilhante ideia de pagar outra colega mais esperta para ajudá-lo.

Ellie Chu (Leah Lewis) é a estudante que passa batida pelos demais, mas é notada pelos professores. Inteligente e dedicada, e invariavelmente falida, Ellie faz diversas tarefas escolares para quem paga por isso, podendo ajudar o pai com o dinheiro levantado. Ela chega a fazer seis vezes o mesmo dever, o que exige uma criatividade sobre-humana e a coloca na mira da professora. Paul Munsky (Daniel Diemer) é um jogador de futebol americano bonzinho, mas pouco articulado, que inventa de se apaixonar pela linda Aster Flores (Alexxis Lemire), namorada do popular Trig (Wolfgang Novogratz) e filha do diácono local.

Para conseguir conquistar Aster, Paul pede ajuda a Ellie – e paga por isso. Aí, começa o velho esquema Cyrano, com uma pessoa escrevendo e a outra mostrando a cara. É onde aparece o talento da diretora e roteirista Alice Wu (de Livrando a Cara, 2004), que lida com a situação de forma bem espirituosa. Paul chega a conversar cara a cara com Aster, mas através de mensagens de celular, alegando ser tímido. Aster, muito interessada em cultura geral, pinta e lê livros dos quais Paul nunca ouviu falar, o que Ellie tira de letra.

Brincando com os clichês usuais de escola americana, Wu os subverte habilmente, trocando características entre eles para fugir de obviedades. Quem não tem facilidade com um assunto não é necessariamente burro, tendo aptidão em outra área. Paul, por exemplo, fica perdido em meio a livros e filmes, mas é um cozinheiro de mão cheia. Ellie acha fácil falar por outros, mas tem certa dificuldade quando a envolvida na história é ela própria. E a “inalcançável” Aster nos pega de surpresa ao afirmar ser “apenas uma garota”.

Com sequências sensíveis e momentos engraçados, Você Nem Imagina é uma grata surpresa na programação da Netflix, em meio a bombas inenarráveis despejadas lá todos os meses. O elenco, jovem, conta com filmes obscuros ou episódios pontuais de séries no currículo. Apesar da pouca experiência, mostram maturidade e podem estar no começo de uma carreira memorável. Wu, 16 anos após a primeira incursão, volta a escrever e a dirigir um longa e atinge um resultado bem acima do corriqueiro. É outra que está no caminho certo, atingindo um público mais amplo e marcando um gol no quesito diversidade.

O elenco é simpático e competente

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HBO nos traz Má Educação

por Marcelo Seabra

No último mês de setembro, Má Educação (Bad Education, 2019) teve sua estreia mundial no Festival de Toronto e os direitos de distribuição foram prontamente adquiridos pela HBO. A alta quantia, recorde no evento, logo chamou atenção para o longa e aumentou a expectativa do público.  Com a estreia recente no canal da TV a cabo, já podemos tirar nossas conclusões. Os 17,5 milhões de dólares foram bem gastos? Vários elementos combinados dizem que sim.

Baseado num artigo de Robert Kolker, publicado na revista New York, o roteiro de Mike Makowsky (de Take Me, 2017) nos leva a 2002, em Long Island, onde fica a Roslyn High School. Quarta melhor do país, a escola deve seu status ao superintendente local, Dr. Frank Tassone (Hugh Jackman), um sujeito simpático, boa pinta e admirado por todos. Tassone é a personificação do sucesso e é imediatamente associado a Roslyn, e ele faz questão de cuidar da aparência, preocupado como poucos.

Fazendo o trabalho diário sempre com o auxílio da sua braço direito, Pam Gluckin (Allison Janney), Tassone constantemente está disponível aos alunos e pais, agradando a comunidade como um todo. E não podemos nos esquecer que uma boa escola aumenta o valor dos imóveis na vizinhança, o que agrada o mercado e o chefe da junta escolar, Bob Spicer (Ray Romano), que é também um grande corretor imobiliário. Resumindo: todo o cenário escolar de Roslyn é um caso de sucesso.

Em algum momento, essa fachada de perfeição vai ruir. Um improvável trabalho jornalístico  revela o que seria o maior desvio de verbas do sistema de ensino norte-americano. Uma montagem competente nos apresenta o necessário para rapidamente nos conduzir à conclusão, dando a impressão de o filme ser mais curto que seus 110 minutos. Makowsky fala do que de fato conhece, tendo sido ele próprio aluno de Roslyn e conhecido as figuras retratadas. Nenhum deles teve envolvimento com a produção.

À frente do elenco, Hugh Jackman faz um trabalho excepcional. Em nada, ele lembra seu Wolverine (visto por último em Logan, 2017), estando bem mais magro e lutando contra um leve envelhecimento. Sempre bem vestido, Tassone é um homem de modos requintados, calculados, e Jackman contribui com todo o seu carisma para torná-lo tridimensional. Janney (Oscar por Eu, Tonya, 2017) traz uma determinação agradável, nos fazendo gostar dela mesmo quando suas ações são reprováveis. Romano (de O Irlandês, 2019) completa o trio principal com um jeito manso, quase um tio bonachão, aquele que sempre espera o melhor das pessoas.

Má Educação toca em alguns assuntos muito interessantes. Vemos, por exemplo, o que o excesso de liberdade ao lidar com dinheiro pode fazer com um indivíduo. E a segurança que uma pessoa vaidosa tem naturalmente, se achando mais inteligente que as demais. E é sintomático perceber o quanto pessoas hipócritas apoiam o trabalho jornalístico só até que suas maracutaias sejam descobertas. Esses são alguns dos motivos para conferir o longa. Diretor do elogiado Puro-Sangue (Thoroughbreds, 2017), Cory Finley vai se consolidando como um nome para se acompanhar.

Diretor e roteirista dão uns toques a Hugh Jackman

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Ryan Murphy recria Hollywood na Netflix

por Marcelo Seabra

Trabalhando prioritariamente na televisão, Ryan Murphy tem sucesso há mais de dez anos, criando séries, produzindo, escrevendo e dirigindo episódios. Normalmente, seu foco é no pior lado do ser humano, seja numa escola de adolescentes (Glee, The Politician), seja na sociedade como um todo (como em Pose e Nip/Tuck). Já atacou também no mundo do terror (Scream Queens, American Horror Story). Mas o que dá mais gosto de ver é quando retrata o mundo do entretenimento, o que sempre faz muito bem.

Ao lado do parceiro habitual, Ian Brennan, Murphy assina agora Hollywood, nova produção original da Netflix, já disponível no aplicativo. Ele ajudou a contar histórias reais com grande talento, notadamente O Assassinato de Gianni Versace e Feud, sobre a intriga entre dois grandes nomes do Cinema, Joan Crawford e Bette Davis. Dessa vez, seguindo a escola Tarantino de relatar os fatos, Murphy mistura realidade e ficção para contar o que ele gostaria que tivesse acontecido, e não o que realmente aconteceu, na capital norte-americana da sétima arte no pós Segunda Guerra.

Quando Hollywood começa, tudo indica que será um festival de orgias, traições e todo tipo de putaria. Esse é o tom do primeiro episódio. Uma vez apresentados os personagens, esse choque inicial vai dando lugar a um desenvolvimento bem adequado. É muita gente para acompanhar, mas fica sempre tudo claro. Na tela, eles são, em sua maioria, novatos no mundo do Cinema – e na cidade – que lutam por uma oportunidade, e ela nem sempre aparece no lugar certo. Pode ser, por exemplo, em um posto de gasolina que oferece sexo aos clientes.

De personagens importantes para a trama a pontas, temos nomes bem estabelecidos e iniciantes no elenco. Muitos trabalharam com Murphy antes, como o premiado Darren Criss (de Versace), Dylan McDermott (de American Horror Story), Patti LuPone (de Pose), Joe Mantello (de The Normal Heart, 2014) e David Corenswet (de The Politician). Dentre os rostos mais reconhecíveis, vemos Jim Parsons (o Sheldon de The Big Bang Theory), Mira Sorvino (Oscar de Melhor Atriz por Poderosa Afrodite, 1995), o diretor e ator Rob Reiner (de O Lobo de Wall Street, 2013), Holland Taylor (a mãe dos Harper em Two and a Half Man) e Queen Latifah (de Chicago, 2002).

Junto aos veteranos, Murphy faz uma boa mistura com atores menos experientes, como Laura Harrier (de Infiltrado na Klan, 2018), Jake Picking (de O Dia do Atentado, 2016), Samara Weaving (de Três Anúncios para um Crime, 2017) e o novato Jeremy Pope. As atuações não são perfeitas, tendo um ou outro exagero aqui ou ali, mas tendem a ficar acima da média. Enquanto alguns atores partem do zero em suas composições, outros têm onde buscar inspiração. Picking, por exemplo, vive uma variação de Rock Hudson, enquanto Parsons faz o agente Henry Wilson, a figura vilanesca da série, que realmente existiu.

Em sua maioria, os personagens são combinações de celebridades, alguns com traços facilmente reconhecíveis. É impossível, por exemplo, olhar para McDermott (Ernie – ao lado) e não se lembrar de Clark Gable, com aquele bigode indefectível. E os tipos que compõem a trama são dos mais variados, dando voz a minorias – gays, negros, mulheres – sem transformá-las em estereótipos. Uns tentam ter escrúpulos, outros logo os abandonam, mas sempre com motivações críveis. Bandeiras são levantadas, e a série retrata situações impensáveis para a época, como a possibilidade de um filme ter um casal interracial de protagonistas. A Hollywood dessa ficção teria mudado o mundo definitivamente.

Sem pesar a mão, a atração brinca com situações corriqueiras desse universo, como a definição da estratégia de distribuição de um longa e as lutas em torno de um orçamento estourado. Com uma recriação de época primorosa, entendemos como funcionava a escalação de extras para as produções, ou como eram as leituras de roteiro com o elenco e outros pormenores, sempre com uma trilha sonora grandiosa que ajuda a compor o cenário. Com apenas sete episódios, Murphy marca mais um ponto em sua bem-sucedida carreira, além de homenagear um mundo que conhece bem.

O figurino é um dos elementos que recriam a Hollywood da Era de Ouro

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Crime Sem Saída e Resgate movimentam streamings

por Marcelo Seabra

Dois filmes produzidos pelos irmãos Russo são destaque em serviços de streaming distintos.  E, curiosamente, os protagonistas também são do Universo Marvel, como os Russo, que dirigiram quatro aventuras dos heróis. Crime Sem Saída (21 Bridges, 2019), disponível no Amazon Prime Video, é um longa policial estrelado por Chadwick Boseman, mais conhecido como Pantera Negra. E ninguém menos que o Thor, Chris Hemsworth, lidera o elenco de Resgate (Extraction, 2020), produção original da Netflix.

Quando Crime Sem Saída começa, conhecemos o pequeno Andre, que perde o pai policial para a violência e caba seguindo na mesma profissão. Anos depois, ele é o Detetive Davis (Boseman), sendo investigado internamente por supostamente matar muitos suspeitos. Um assalto a um restaurante fará as atenções mudarem de foco. Oficiais são mortos, uma grande quantidade de drogas é roubada e Davis lidera as investigações.

Em outro lado da cidade, acompanhamos os dois ladrões (acima) tentando conduzir seus negócios. Taylor Kitsch (de Selvagens, 2012) vive o violento Ray, enquanto Michael (Stephan James, de Se a Rua Beale Falasse, 2018) é a parte mais inteligente e meticulosa da dupla. Os dois grupos tomam suas providências e a ilha de Manhattan tem suas 21 pontes impedidas, o que coloca um prazo para o sucesso da polícia. Além das ações que se sucedem, o passar das horas por si só ajuda a aumentar a tensão.

Liderando o elenco, Boseman domina bem a situação e passa segurança como um detetive de polícia. Além de Kitsch e James, temos em destaque J.K. Simmons (o Comissário Gordon da Liga da Justiça), bem equilibrado como um correto homem da lei com um leve desejo de vingança, e Sienna Miller (de Sniper Americano, 2014), uma agente que arrisca sua vida mesmo tendo uma filha esperando em casa. Esses e outros bons atores seguram uma ação praticamente ininterrupta, com boas reviravoltas, que não dá oportunidade para o sono vir.

Com Resgate, o resultado é um tanto irregular. A nova atração da Netflix nos apresenta a um mercenário amargurado (Hemsworth) bem clichê, daqueles que parecem não se importar com risco de morte. Ele pula de um penhasco para cair no mar, ele simplesmente não tem medo. Nessa rotina saída dos “macho movies” dos anos 80, ele é convocado para uma nova missão suicida. Do jeito que ele gosta. Ele e a turma devem ir a Bangladesh resgatar o filho do maior traficante da Índia, sequestrado pelo rival vizinho.

Claro que, chegando lá, eles vão encontrar um exército e voltar vivo não será fácil. Baseado na graphic novel Ciudad, o roteiro de Joe Russo não traz nenhuma novidade, nem uma mínima sacada que diferencie o longa de outras dúzias que são despejadas anualmente no mercado. Por entender que o personagem está no piloto automático, Hemsworth entra no mesmo modo, passando longe do carisma e da energia que vemos nos filmes da Marvel. A expressão do ator parece dizer “me tirem logo daqui”.

Vários momentos de Resgate lembram outros filmes, que já fizeram coisa parecida, de uma maneira bem mais interessante. Cortes rápidos e ritmo frenético tentam esconder a falta de conteúdo ou de lógica, bem ao estilo da escola Michael Bay de dirigir. Sam Hargrave faz sua estreia no comando de um longa e não empolga ninguém. Nem a participação do sempre simpático David Harbour (o novo Hellboy) evita que o público adormeça.

O elenco é um dos pontos fortes de Crime Sem Saída

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Better Call Saul se prepara para a despedida

por Kael Ladislau

Better Call Saul estreou em 2015 embalada pelo sucesso de sua série origem, Breaking Bad, para contar a história de um de seus personagens mais marcantes: o advogado charlatão Saul Goodman (Bob Oderkirk). Hoje, 5 anos e temporadas depois, Peter Gould e, especialmente, Vince Gilligan, criador de ambas séries, podem se orgulhar de ter criado uma obra tão boa quanto a original.

Essa nova temporada mostra o início da jornada de Jimmy McGill como Saul Goodman, depois de um período sem poder advogar. Kim Wexler (Rhea Seehorn), que mesmo abismada com a decisão pelo novo nome do parceiro, permanece ao seu lado como o ponto de juízo dando equilíbrio a um casal tão antagônico.

Do outro lado da história, vemos Mike (Jonathan Banks) cada vez mais envolvido nas operações de Gus Fring (Giancarlo Esposito), sem esquecer de Nacho Varga (Michael Mando) que se vê em meio a um conflito entre Fring e Lalo Salamanca (Tony Dalton).

Os núcleos se encontram

Quem acompanha a série desde o início sabe que uma das coisas que mais incomodava era justamente a separação desses núcleos, cada vez mais independentes um do outro e que, vez ou outra, se encontravam. Na quinta temporada, esses núcleos finalmente se relacionam e encaixam (de maneira magistral, marca constante de Gilligan) os detalhes que vemos em outros anos.

Mais do que um simples encontro entre os núcleos Saul Goodman e do Cartel, vemos uma história que entrega a tensão, a atmosfera e a qualidade da série-mãe. Isso, por mais conhecidos que sejam os finais de alguns dos personagens principais, especificamente aqueles que aparecem em Breaking Bad.

Rhea Seehorn e Lalo são os destaques da temporada

Qualidade é o que não falta nesse quinto ano. A começar por Rhea Seehorn, o que não é nenhuma novidade. Kim é aquela personagem dita coadjuvante que rouba a cena ao longo de toda a temporada, com personalidade, carisma e pulso firme. Neste novo ano, a advogada co-estrela a série a lado do parceiro, se envolvendo e definindo toda a trama.

Outro ponto de atenção é o Lalo Salamanca de Dalton. O personagem, inserido no último ano, não apenas ganha destaque como o protagonismo da vilania da série, escanteando o tenebroso Gustavo Fring. O vilão de Breaking Bad, aliás, está ainda mais sombrio nessa temporada, deixando de lado um certo carisma e simpatia que uma hora ou outra surgia na série original.

Primor em todos os sentidos

O desenvolvimento dos personagens, certamente, merece muitos créditos nessa temporada, mas este não é o único ponto de alta qualidade da série. Gilligan e Gould criaram uma história tensa do início ao fim e criam uma expectativa altíssima para o sexto e último ano de Better Call Saul.

Nos aspectos técnicos, enquadramentos, fotografia, direção… é possível facilmente dizer que o spin-off ultrapassa a original. O roteiro, sempre amarrado, se aprofunda nas particularidades de cada personagem, desde o tormento de Mike com seus atos na quarta temporada, passando pelas motivações de um novo comportamento de Kim, até ao “bom-samaritanismo” de Lalo. Sem, claro, esquecer de Nacho, Gus e do próprio Saul.

O protagonista é desenvolvido para cada vez mais chegarmos ao personagem que conhecemos em Breaking Bad (sempre com uma atuação segura e confortável de Odenkirk). E ele ainda tem muita coisa a resolver até lá. A própria temporada também: o que acontece aos personagens inexistentes no original e o que está por vir ao próprio Saul, então conhecido como Gene Takovic.

A sombra de Breaking Bad foi deixada de lado

Better Call Saul é dita por muitos como uma das melhores séries dessa década e certamente não fica a dever em nada a Breaking Bad. Essa relação, que é inevitável, ajuda a enaltecer a original, realimentando esse universo criado por Gilligan e expandido com outra obra recente, El Camino (2019).

Por outro lado, o spin-off ainda sofre com a negação de fãs mais xiitas da original. Não é de se espantar, até porque, a régua de qualidade estabelecida por Breaking Bad é alta e exigente. Mas, se medida nos mesmos parâmetros que indicam que a série de Walter White está em outro patamar, Better Call Saul chega nesse mesmo nível. E essa quinta temporada prova isso.

Agora, é esperar por 2021 para o desfecho da série. Isso, se não tivermos, mais uma vez, uma prorrogação, como aconteceu com a quinta temporada – e, dessa vez, a pandemia do coronavírus pode contribuir para isso.

A derivada está à altura da original

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A banalidade do mal e a originalidade de Arendt

por Lívia Assis

Filmes que procuraram retratar fatos enfrentam o desafio de serem ou não fiéis ao que realmente ocorreu na história. Ainda que alguns exagerem para efeito dramático, Hannah Arendt – Ideias Que Chocaram o Mundo (2012) não parece cair nessa armadilha. Devido à história e ao passado da personagem principal, o filme parece já entregar qual será o posicionamento de Arendt em relação ao nazismo, tema principal tratado. E é daí que surge a reviravolta.

Com uma montagem ágil e não cansativa, a diretora e corroteirista Margarethe von Trotta (com Pamela Katz) mostra no filme a fase mais estável da vida da filósofa judia (interpretada por Barbara Sukowa, atualmente vista em Hunters). Ela e seu marido, Heinrich Blücher (Axel Milberg, de O Quinto Poder, 2013), se fixam em Nova York, exilados no período da Segunda Guerra. Por meio de uma boa fotografia, ainda que não haja uma trilha sonora para pontuar alguns momentos do filme, o trabalho de Trotta prende o espectador na jornada de Arendt.

Ao invés de abraçar a trajetória de toda uma vida, o filme enfoca um período específico e fundamental para a vida pessoal e acadêmica da filósofa: a sua participação no julgamento de Adolf Eichmann. Ele era tenente-coronel da SS da Alemanha nazista, um dos responsáveis pelo extermínio em massa dos judeus – também conhecido como Holocausto.

As cenas da participação de Hannah no julgamento são mescladas com imagens reais do processo, que ocorreu na cidade de Jerusalém em abril de 1961, tornando o drama ainda mais interessante do ponto de vista histórico e biográfico. Além disso, a narrativa fornece insights sobre o passado da filósofa, visando auxiliar na compreensão da sua postura no julgamento de Eichmann. Entendemos, por exemplo, a presença do também filósofo Martin Heidegger em sua vida.

Indicado para quem procura um filme cuja temática fuja da mesmice de simplesmente colocar os nazistas como vilões e os judeus como vítimas, o drama promove uma reflexão sobre a natureza humana, bem como sobre as motivações, influências e carreira de uma das figuras mais importantes da teoria política. Hannah Arendt procura, antes de qualquer coisa, polemizar a banalidade do mal e o colapso moral preponderante no nazismo.

A obra de Arendt segue atual e instigante

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Escritor tenta negar a História na Netflix

por Marcelo Seabra

Numa época em que alguns acham aceitável negar a gravidade de um vírus que vem matando milhares de pessoas pelo mundo, ou que é questão de opinião se determinado remédio é ou não eficaz contra o tal vírus, um filme como Negação (Denial, 2016) se faz imprescindível. Nele, tomamos conhecimento de um caso judicial que parece ficção e chegou ao fim em 2001. Ele reafirma que apenas ter convicção de algo não prova nada, a não ser talvez a imbecilidade ou falta de caráter de quem insiste em lutar contra os fatos.

Vivida com muita paixão por Rachel Weisz (de A Favorita, 2018), a professora de História Deborah Lipstadt lançou um livro no qual chama um escritor, David Irving, de negador do Holocausto, e usa outros adjetivos não muito lisonjeiros. Isso era uma descrição perfeita para o sujeito, mas ele não gostou da menção e a levou à justiça. Lipstadt se viu em uma situação em que precisava provar o que disse. Ou seja: se Irving mentiu, o Holocausto aconteceu. Seriam necessárias evidências. Por incrível que pareça.

No papel do pretenso historiador, temos o ótimo Timothy Spall (o Churchill de O Discurso do Rei, 2010), uma escolha fantástica da produção. Spall traz a falsa impressão necessária de credibilidade ao personagem, sempre muito amável e cordial, escondendo debaixo desses modos e da erudição uma pessoa odiosa e manipuladora. Ou, como em determinado momento ele é descrito, simplesmente um mentiroso. Afinal, já inventaram termos como pós-verdade e vemos frequentemente falarem em fake news para todo lado. Como o diabo, a mentira tem vários nomes.

Na equipe jurídica que representa Lipstadt, temos dois ótimos atores liderando. Nas práticas jurídicas inglesas de tribunal, há sempre dois advogados envolvidos: o que estrutura toda a parte teórica, no papel, e o que dá voz a tudo a isso. Andrew Scott (de Fleabag) é o solicitor, que é contratado pela professora, e Tom Wilkinson (de Titã, 2018) é o barrister, aquele que teria que olhar na cara de Irving. O escritor ainda se aproveita dessa diferença entre equipes – do lado dele é só ele – para se colocar como o Davi que luta contra Golias, tentando puxar para si a simpatia da opinião pública.

A justificativa de Irving para a ação é o prejuízo financeiro que ele teria tido, já que editores não se interessaram por suas ideias após ele aparecer nos escritos da professora. Ele chega a dizer que, para o público em geral, a definição de negador do Holocausto é como uma comparação com assassino ou pedófilo, o que teria destruído a reputação dele. A questão é que um criminoso como David Irving nunca deveria ter tido espaço para divulgar suas mentiras preconceituosas e sua reputação deveria ser exatamente essa: como a de um assassino ou pedófilo. Afinal, ele tenta reescrever a história tentando expiar e ocultar a culpa dos vilões. Já pensou se tentam fazer isso com a ditadura militar brasileira?

Scott e Wilkinson lideram o time legal

A memória em xeque

por Lívia Assis

Usualmente, um réu se apresenta em um processo contestando a ação pela qual está sendo julgado, apresentando uma defesa. Em Negação, Lipstadt é acusada por defender a verdade, ao passo que o autor da acusação deturpa acontecimentos reais. Esse drama histórico coloca em xeque o tema da memória.

A memória do Holocausto tem um duplo propósito: ao mesmo tempo em que serve como lembrança sobre o então maior crime contra a humanidade já cometido, funciona como mecanismo de construção de uma identidade coletiva entre o povo judeu. Mais do que um filme sobre um julgamento entre o que é moralmente certo ou errado, Negação mostra que negar uma memória coletiva de abrangência global é, acima de tudo, negar o discurso da história de um povo historicamente perseguido.

Fugindo do padrão de filmes com temática nazista-judaica, no qual são apresentadas as visões das vítimas e dos vilões, o drama baseado em fatos inova ao deixar a história falar por si só: as evidências são, em última instância, a verdade não deturpada.

Auschwitz-Birkenau vai sempre assombrar a humanidade

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