
A estreia em longa-metragem do novo universo DC, chefiado por James Gunn e Peter Safran, aconteceu em grande estilo com Superman (2025), uma das estrelas da editora. O planejamento dos produtores, amplamente divulgado, previa a outra kryptoniana chegando na sequência, e tivemos finalmente a estreia de Supergirl (2026). Gunn parece sempre fazer o seu dever de casa, com roteiros que bebem diretamente na fonte, os quadrinhos. Por alguns motivos, dessa vez, a fórmula não foi tão acertada, resultado em um filme morno, que nunca engrena.
Kara Zor-El e seu cachorrinho Krypto foram introduzidos no primeiro filme e ficamos na expectativa por uma aventura só deles. Conhecemos, agora, uma nova personagem, que divide o protagonismo com a heroína: Ruthye, que busca vingança. Nos quadrinhos, a garota, assim como o vilão, só aparece na saga que serve de inspiração para o roteiro. Escrita por Tom King e desenhada pela brasileira Bilquis Evely, Supergirl: A Mulher do Amanhã (2021) foi criada sob forte influência do clássico faroeste Bravura Indômita, livro de 1968 já levado aos cinemas duas vezes (1969 e 2010).

Com uma fiapo de trama e um tom à Mad Max, o roteiro de Ana Nogueira (já trabalhando em Novos Titãs e Mulher-Maravilha) parece sofrer de excesso de referências e padecer da falta de uma identidade própria. Segundo Nogueira, Gunn fez algumas exigências para que a história pudesse caber nesse novo universo cinematográfico, e acabou ficando diferente da revista. Uma dessas mudanças foi a inclusão do Lobo (acima), o mercenário intergalático misteriosamente amado pelos fãs de HQs, criado para ser uma paródia de tipos maus da concorrência, como o Justiceiro e Wolverine. A direção genérica de Craig Gillespie, responsável por bons filmes com personagens femininas, como Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) e Cruella (2021), não ajudou.
No quesito elenco, as escolhas de Gunn e sua turma são impecáveis. Milly Alcock ganhou nome ao estrelar o derivado de Game of Thrones, House of the Dragon, e foi escolhida como a personagem título. Ela faz o que lhe cabe bem, a mocinha que carrega mágoas e não se encaixa, optando por se alienar da realidade. Quem a força de volta é vivida por Eve Ridley (de The Witcher), uma menina doce forçada a enfrentar duros fatos. Como o vilão da vez, Matthias Schoenaerts (de Red Sparrow, 2018 – abaixo) não tem muito o que fazer a não ser matar, roubar e ameaçar. Ele faz o psicopata de plantão do qual não sabemos nada e, francamente, não importa. Na falta de um Lex Luthor, pegaram um qualquer.

E chegamos à maior decepção, que responde por Jason Momoa. Não que o problema seja o ator, que mais uma vez faz ele mesmo, agora sob pesada maquiagem lembrando a banda Kiss – e isso resolve bem o caso. Ele disse em várias entrevistas que, no primeiro contato da DC para que ele vivesse Aquaman, esperava ser convidado para ser o maioral, apelido do Lobo. Ele finalmente chegou onde queria, para ser relevado a coadjuvante de luxo que aparece e some sem causar qualquer impressão. Ele pode até ser promovido a protagonista num futuro próximo, mas aqui foi desperdiçado sem cerimônia.
Como acontece nas HQs, sempre teremos os destaques e as obras insossas. Afinal, não é sempre que temos um Frank Miller ou um Alan Moore escrevendo as histórias. No cinema, algumas produções serão lembradas em anos vindouros, enquanto outras ficarão de curiosidade apenas para os fãs mais dedicados, caso desse road movie espacial. A Supergirl certamente terá a oportunidade de ser reabilitada em um longa melhor, mesmo que como coadjuvante. Como protagonista, infelizmente não foi dessa vez.

Krypto mais uma vez rouba o show