Tim Blake Nelson é Old Henry em belo faroeste

Em 2018, os irmãos Coen mostraram que o gênero faroeste estava vivo e bem com o divertido The Ballad of Buster Scruggs, um compilado de histórias que iam do drama à comédia com facilidade e tinha Tim Blake Nelson no papel título. Em 2021, o ator repete o feito, depois de ter participado de obras diversas (como a fantástica série Watchmen), encabeçado o elenco de outro faroeste que traz seu personagem no título: Old Henry. E, mais uma vez, Blake Nelson marca um belo ponto em sua carreira.

O Henry do título é um velho fazendeiro que cria o filho e tem um cunhado como vizinho. A esposa foi levada pela tuberculose e ele vive uma vidinha pacata cuidando de suas terras e animais. Tudo muda quando eles avistam um cavalo perambulando na linha do horizonte e Henry acaba encontrando o dono dele ferido e inconsciente. Não demora a aparecer mais gente e, com eles, problemas. Uma trama aparentemente simples, mas muito bem construída e, especialmente, bem atuada.

Blake Nelson segura tudo no olhar, na fala e na forma decidida como se posiciona. Envelhecido e com um olho quase fechado, ele deixa claro guardar um passado e sabemos que os forasteiros vão colocar isso tudo para fora. Só não estamos preparados para o que vai ser revelado. Quase dez anos depois de sua estreia como diretor e roteirista, Potsy Ponciroli volta às funções chamando bastante atenção com um longa maduro, bem finalizado e com uma belíssima fotografia (de John Matysiak, parceiro de Ponciroli na série Still the King).

Tim Blake Nelson tem um grande personagem e segura o filme nas costas

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Villeneuve adapta Duna com honras

Publicado em 1965, o livro Duna fez a fama de seu autor, Frank Herbert, ganhou vários prêmios e detém o título de romance de ficção-científica que mais vendeu na história. Por sua trama longa e intrincada, era tido como inadaptável para o Cinema. Em meados da década de 70, o chileno Alejandro Jodorowsky tentou e deu com os burros n’água, originando um elogiado documentário sobre a produção falida. Os direitos foram vendidos e David Lynch, outro cineasta cult, se incumbiu da missão. Apesar de conseguir completá-la, não é um filme ao qual público ou crítica se refiram com carinho ou admiração. Pelo contrário.

Com a moral de ter sido elogiado filmando Blade Runner 2049 (2017), a sequência de um novo clássico amado por multidões, o diretor Denis Villeneuve aceitou a tarefa e começou o desenvolvimento do novo Duna (Dune: Part One, 2021), já em cartaz na tela grande, na pequena (HBO Max) e até disponível em meios piratas. O canadense tem algumas vantagens sobre os nomes que tentaram antes a empreitada: maior orçamento, mais tecnologia e uma maior duração. Ele fechou essa primeira parte em duas horas e 35 minutos bem enxutos, que passam assustadoramente rápido.

A trama mistura política, religião, messianismo, monstros espaciais e batalhas intergalácticas. Basicamente, temos um universo futurista governado por um imperador que planeja manter seu poder por muito tempo. Por isso, vê com maus olhos o fortalecimento da Casa Atreides, uma das famílias nobres que administram os vários feudos nos quais o universo foi dividido. Todos os líderes juram lealdade ao imperador, que por sua vez deve manter a paz e a estabilidade econômica.

Partindo dessa premissa, temos a apresentação do jovem Paul Atreides (Timothée Chalamet, de Adoráveis Mulheres, 2019), preparado pelos pais para ser o futuro da Casa Atreides. Enquanto Jessica (Rebecca Ferguson, de Caminhos da Memória, 2021) o treina espiritualmente, de acordo com a linhagem de feiticeiras à qual pertence, o Duque Leto Atreides (Oscar Isaac, da trilogia Star Wars) o introduz no mesquinho mundo da política interplanetária. A parte física fica com os soldados Duncan Idaho (Jason Momoa, o Aquaman da DC) e Gurney Halleck (Josh Brolin, o Thanos da Marvel), que preparam Paul em duelos de espadas e lutas diversas.

Por temer o crescimento dos Atreides, o imperador os coloca em rota de colisão com a Casa Harkonnen, liderada pelo Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgård, de Chernobyl). Aí tem início a intriga política que marca Duna e prova a atualidade da história. Misturado a esse jogo de interesses, temos a possível predestinação de Paul, que seria uma espécie de salvador da humanidade. Analisando os temas tratados por Herbert, não é difícil afirmar que sua invenção tem bastante influência entre grandes histórias que surgiram depois, de Star Wars a O Poderoso Chefão, passando por Matrix.

Como Villeneuve vem fazendo, tanto a equipe técnica por trás de Duna quanto o elenco à frente das câmeras são impecáveis. Se algum deles pode ter tido desempenho abaixo de excelente em algum momento de suas carreiras, o diretor está lá para garantir nada menos que o máximo. Chalamet, que nem sempre impressiona com seu tipo franzino e comum, aqui tem a energia que Paul demanda, representando bem suas angústias e seus posicionamentos, quando o roteiro o urge. O elenco veterano é mais do que acertado, mesmo em participações menores (como Javier Bardem, de Escobar: A Traição, 2017). Rebecca Ferguson, como tem sido comum, rouba um punhado de cenas nas quais aparece. E Zendaya (da trilogia Homem-Aranha), como Chani, sai dos sonhos de Paul para aparecer na frente dele, nas areias de Arrakis.

Tudo em Duna dá a impressão de um longo desenvolvimento, tudo pensado nos detalhes. O planeta abundante em água e o planeta desértico são igualmente fascinantes, o que é devido a dois elementos muito bem cuidados: a fotografia (de Greig Fraser, de Rogue One, 2016) e os efeitos visuais. A banda sonora também é extremamente acertada, da trilha de Hans Zimmer (de Mulher-Maravilha 1984, 2020) aos efeitos sonoros, cuidadosamente montados para nos levar ao universo apresentado. Nos quesitos técnicos, Duna já é grande candidato aos principais prêmios do Cinema.

Como era de se esperar, o roteiro de Duna, escrito pelo diretor em parceria com Jon Spaihts (de Doutor Estranho, 2016) e Eric Roth (de Nasce Uma Estrela, 2018), dispensa alguns elementos do livro, o que é necessário quando se faz uma adaptação. O que deve ser considerado é que temos uma história coesa, que faz sentido e nos leva pelos mesmos caminhos que a obra original. Fãs mais conservadores vão apontar que “faltou isso ou aquilo”, mas a verdade é que o que importa está lá. Roteiro adaptado é outra categoria em que Duna deve aparecer em premiações. E a expectativa para a parte 2 segue alta.

Cartazes individuais dos personagens principais

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Michael Myers está à solta no novo Halloween

Em 2018, um novo Halloween retomou a saga de Michael Myers desconsiderando praticamente tudo o que havia sido feito antes, fora o longa original. Depois de fugir do sanatório e matar um punhado de vizinhos, Michael havia sido novamente internado. Muito tempo se passou até que, nesse filme mais recente, o diretor David Gordon Green e seus roteiristas providenciaram uma nova fuga, levando o assassino de volta a Haddonfield, onde Laurie Strode o estaria esperando. Jamie Lee Curtis voltou mais uma vez ao papel que a consagrou como a Rainha do Terror (ou Scream Queen).

O filme de 1978 apresentou o cenário, com os personagens criados por John Carpenter e Debra Hill levados à vida com apenas 300 mil dólares. Em 1981, tivemos a sequência direta, com “A Forma” (como se referem ao psicopata) à solta pela cidade matando mais um bocadinho, e a ideia poderia ter morrido ali. No entanto, a franquia Halloween seguiu com vários episódios, uns piores que os outros, inclusive trazendo de volta a personagem de Lee Curtis, já adulta.

Pois Gordon Green esqueceu tudo isso e trouxe Myers de volta em 2018, com um final inconclusivo que deixou uma coisa clara: o mal não havia morrido. Halloween Kills – O Terror Continua (2021) finalmente chega aos cinemas, atrasado pela pandemia, trazendo exatamente o que o desnecessário subtítulo afirma. Como no filme de 81, temos um longa de terror e ação que já começa do meio do caminho, sequência direta daquele de 2018. As duas partes dirigidas por Gordon Green dão sequência à história original de Carpenter e Hill, mas, ao mesmo tempo, a apresenta para novas gerações, deixando cada vez mais tênue a linha entre continuação e reboot.

Com Laurie (Lee Curtis) e o Oficial Hawkins (Will Patton) lutando por suas vidas no hospital, temos a oportunidade de conhecer outros cidadãos de Haddonfield. Ou de reencontrá-los, já que alguns já eram conhecidos em suas versões mirins. O garoto Tommy, de quem Laurie cuidava em 78, cresceu e se tornou Anthony Michael Hall (mais lembrado por O Clube dos Cinco, 1985), e as outras Strode, Karen (Judy Greer) e Allyson (Andi Matichak), também ganham destaque.

Halloween Kills segue a cartilha criada por Carpenter, mostrando menos e sugerindo mais na maior parte do tempo. Não à toa, o cocriador da franquia aparece como produtor executivo, participando de decisões importantes. Clichês bobos, como entrar em uma casa escura e não acender a luz, também estão lá. A facilidade com que Myers sai de certas situações chega a ser revoltante, e isso piora na reta final. A necessidade previamente estipulada de se ter uma terceira parte faz com que o roteiro simplesmente fique burro de um ponto em diante.

Guardadas as devidas proporções, este filme é “O Império Contra-Ataca” do universo de Halloween, com Michael Myers experimentando algo próximo de uma vingança. Todos são uma vítima em potencial, é difícil o espectador se importar com alguém. E o final nos chama de imbecis. Aguardar o próximo filme fica até difícil. Mas, por culpa de Carpenter, Hill e a equipe de 78, já fomos fisgados e aguardamos pacientemente o capítulo final dessa trilogia. Halloween Ends deve chegar no ano que vem e encerrar a história. Ao menos, até o próximo reboot. Ou continuação.

A cidade toda se une contra Michael Myers

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A poderosa bagunça de Maid

Intrigante. Revoltante. Emocionante. Vários são os adjetivos que podem descrever a minissérie Maid, lançada em outubro na Netflix. Baseado no best-seller Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother’s Will to Survive (algo como Faxineira: Trabalho Duro, Salário Baixo e a Vontade de uma Mãe para Sobreviver), de Stephanie Land, a trama é construída principalmente a partir do relacionamento conturbado (diga-se de passagem) de Alex (Margaret Qualley) e Sean (Nick Robinson). Desde o seu lançamento, a série ficou no top 10 da plataforma.

Jovens, imaturos e com uma trajetória familiar semelhante, Alex e Sean se envolveram no início da vida adulta, fazendo com que os planos para a faculdade e uma carreira profissional fossem postergados. Do relacionamento resultou, entre outras coisas, Maddy (Rylea Nevaeh Whittet), uma criança criativa e observadora, que acompanhou a decadência da convivência dos pais a partir dos seus dois anos de idade. Decidida em romper com o ciclo de um relacionamento abusivo, Alex sai do lugar onde mora com Sean visando um melhor futuro para Maddy.

Diferentemente de outras histórias biográficas, Maid constrói a narrativa de cada personagem evidenciando não só os pontos de vista, qualidades e defeitos, mas evitando vilanizá-los. Tudo bem não gostar de todos os personagens, ou mesmo detestar quando algum aparece em cena, mas se tem uma coisa que Maid evidencia com clareza é que cada pessoa tem uma bagagem. E essa bagagem pode ser leve ou pesada demais, a depender da disposição do outro em ajudar a carregá-la.

Ainda que o tema central da série seja a violência doméstica em suas várias formas (psicológicas, físicas etc.), são abarcados também assuntos como maternidade solo, alcoolismo, bipolaridade e pobreza. Alex, ao sair de casa e da relação com Sean, enfrenta dificuldades para manter as condições mínimas de vida para criar Maddy, ou seja, passa a viver sob a linha da pobreza. Ao procurar programas de assistência social e emprego como faxineira, luta para manter a guarda da filha e sobreviver longe dos abusos psicológicos e dos problemas com sua mãe Paula (Andie MacDowell) e seu pai Hank (Billy Burke).

Outro ponto a ser consagrado na série, para além das questões sociais levantadas, é a atuação de Margaret Qualley e Andie MacDowell. Filha e mãe, respectivamente, na vida real, a relação de ambas é transpassada para as telas de forma um tanto quanto natural, e em vários momentos o telespectador é cativado pelas emoções entre elas. Também deve ser pontuada a relação entre Margaret Qualley e Rylea Nevaeh Whittet, que realmente parecem ter desenvolvido uma intimidade – assemelhando-se a uma maternidade real. Alguns veículos de notícia mencionaram que para uma maior proximidade entre as atrizes, Magaret e Rylea passaram bastante tempo juntas antes do início das gravações.

Toda a turbulência em cada episódio faz de Maid uma série cativante e necessária. Necessária por reportar tão bem a realidade de diversas mulheres que passam por abusos diversos e que enfrentam dificuldades para criar seus filho(as) sozinhas. Para quem, assim como eu, não conhecia o livro de Stephanie Land, Maid desperta a curiosidade dos telespectadores para embarcar na obra e vida da autora.

Depois de uma ponta em Era Uma Vez… Em Hollywood, Qualley ganha merecido destaque

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Shyamalan estraga férias familiares em Tempo

O diretor e roteirista M. Night Shyamalan é famoso por seus roteiros intricados e finais surpreendentes. O problema é que essa surpresa não necessariamente é boa. Ao mesmo tempo em que nos deixou de boca aberta com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), fez muita gente passar raiva com Fim dos Tempos (The Happening, 2008), para ficar nos exemplos mais extremos. Tempo (Old, 2021) é a mais nova produção do cineasta e não deve fugir à regra: muitos vão amar, outros tantos vão odiar.

Desde o conceito, Tempo é intrigante: o trailer e o cartaz deixam claro que se trata de uma história passada numa praia onde se envelhece mais rápido. Duas famílias chegam nesse lugar, indicado pelo gerente do resort onde passam férias, e começam a observar o fenômeno da passagem de tempo acelerada. Qual pai ou mãe, numa determinada situação, nunca imaginou como seria se seus pequenos fossem maiores? Pois Shyamalan faz isso acontecer.

Como de costume quando se envolve o nome do diretor, quanto menos se contar sobre a trama, melhor. Em alguns filmes, ele se importa em dar uma explicação, por mais fantástica que seja. Em outros, apenas deixa tudo no ar, mais preocupado com o desenrolar do que com os porquês. Às vezes, não é preciso explicar, basta um salto de fé, como em Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), que acabou dando início a uma trilogia (muito boa, por sinal!).

Uma especialidade de Shyamalan é pegar algo corriqueiro, do dia a dia, e tirar terror da situação. Como em férias num lugar paradisíaco. Em Tempo, ele não parte de um conceito original, mas da graphic novel Sandcastle (ou Castelo de Areia), de Frederik Peeters e Pierre-Oscar Lévy. Ele a adapta e a expande, criando o antes e o depois, além de mexer em alguns personagens. Pode-se gostar ou não dos rumos tomados, mas não dá para negar que o sujeito é criativo. Quanto menos expectativa o público criar, melhor, já que isso costuma ser um problema. Não gostar de uma obra por ela não ter sido o que se imaginou não é justo com ela. E nem com o artista por trás dela.

Por todas as razões listadas, o nome de Shyamalan no cartaz costuma chamar bastante atenção. Mas temos ainda outras figuras interessantes que merecem nota. Em uma das famílias, temos à frente Gael García Bernal (de Wasp Network, 2019) e Vicky Krieps (de Trama Fantasma, 2017), dois atores muito competentes que se passam bem por pessoas comuns, sem uma aura de astros. E Rufus Sewell (de Meu Pai, 2020) consegue construir um personagem rico, mesmo com pouco tempo de cena. O elenco funciona bem, fazendo com que nos importemos com eles. O que aumenta a nossa aflição.

Como de costume, o cineasta faz uma participação: ele é o motorista

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007 de Daniel Craig não tem tempo para morrer

Chega ao final a jornada de Daniel Craig vivendo o espião mais famoso do Cinema. Sem Tempo Para Morrer (No Time to Die, 2021) será a quinta e última aventura do ator como James Bond, com o recorde de 16 anos no papel. Essa história começou em 2006, com Cassino Royale, e Craig já se acha muito velho para se exercitar o suficiente para ficar em forma para todas as cenas de ação. Esse filme foi o que supostamente contou com mais aparições de dublês, mas nada que fique aparente em cena. Só fica claro o sentimento de encerramento.

Na trama, temos um Bond aposentado, vivendo de renda, mas nunca relaxado. Seu passado exige que ele sempre olhe para trás, esperando um ataque surpresa, um antigo desafeto vindo buscar vingança. No entanto, quem aparece é o amigo Felix Leiter (pela terceira vez vivido por Jeffrey Wright), pedindo ajuda em uma missão um tanto suspeita. Em várias situações, os serviços secretos inglês e americano colaboraram, mas essa não é uma delas. Leiter busca capturar um cientista que pode estar criando uma arma poderosa com o envolvimento do MI6, antigo empregador de Bond.

O roteiro tem momentos bem corajosos, como por exemplo quando coloca frente a frente James e Mallory, ou simplesmente M (Ralph Fiennes), e a conversa sai do zero a zero respeitoso para acusações bem sérias. Afinal, o antigo 007 não deve mais satisfações a seu ex-chefe. E, curiosamente, temos uma nova agente 007 (Lashana Lynch, de Capitã Marvel, 2019), que parece ser muito competente e mereceu pegar a licença para matar que estava sobrando. Além dos dois roteiristas tradicionais da série, Neal Purvis e Robert Wade, o longa conta com o diretor contribuindo no texto, Cary Joji Fukunaga (de True Detective), além da ótima Phoebe Waller-Bridge (de Fleabag), que teria sido convidada pelo próprio Craig para trabalhar os diálogos.

Outra que teria entrado no projeto a convite do protagonista é Ana De Armas, que esteve com ele em Entre Facas e Segredos (Knives Out, 2019). Ela é de longe uma das melhores coisas do filme, o único defeito é ter pouco tempo em cena. Mas faz valer cada segundo. Outra atriz importante é Léa Seydoux, que volta como Madeleine Swann, cuja presença no cartaz já deixa clara sua relevância. Talvez seja influência de Waller-Bridge, nunca saberemos, mas Sem Tempo Para Morrer deve ser o episódio menos sexista de James Bond, em todos esses 25. Seydoux tem grande peso para a trama, e logo atrás vêm Lynch, De Armas e Naomie Harris, a Ms. Moneypenny.

É engraçado que, ao mesmo tempo em que as mulheres têm uma presença impactante no longa, os homens são cada vez mais falhos. O próprio Bond é marcado por incertezas, deixando de ser aquela infalível máquina de matar. Mallory, o chefe de todo o serviço de espionagem, faz cagada e espera as consequências – a não ser que Bond consiga jogar tudo para debaixo do tapete. Leiter busca a ajuda do amigo por não conseguir resolver sozinho. O brilhante Q (Ben Whishaw) revela finalmente sua orientação sexual, que ele parecia manter longe do escritório, e o grande gênio do crime, Blofeld (Christoph Waltz), não está exatamente num bom momento. E temos Billy Magnussen (de Aladdin, 2019), um bobo alegre fã de Bond que acaba sendo uma boa adição ao caldo.

Se não mencionei o vilão até agora é porque realmente é algo duro de engolir. Rami Malek ganhou um Oscar como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody (2018), mas é fato que ele se repete demais, suas habilidades como intérprete são bem limitadas. Para quem tem uma mínima lembrança do Silva, de Javier Bardem (de 007 – Operação Skyfall, 2012), fica bem difícil aturar uma figura caricata dessas. E o nome é Lyutsifer Safin, numa tentativa safada de evocar o próprio capeta. O sujeito desenvolve uma arma meticulosa, para matar alvos específicos, mas visa massas. Não dá para entender! Nada do que envolve Safin fica claro.

Outro ponto que sempre chama a atenção em um filme de Bond é a música-tema. Já tivemos canções marcantes que mereciam prêmios, como Live and Let Die, Goldfinger ou A View to a Kill. Mas só Adelle, com Skyfall, levou um Oscar, sendo seguida pelo insosso Sam Smith e sua Writing’s on the Wall, inexplicavelmente também premiada. Para No Time to Die, temos a artista da moda Billie Eilish, que murmura o tema parecendo um gato preso no telhado. Uma franquia que já produziu músicas tão boas não deveria cair em armadilhas assim. O fracasso é tão descarado que os produtores voltam a We Have All the Time in the World, lindo tema secundário gravado por Louis Armstrong para 007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service, 1969), que acaba sendo muito mais marcante.

Algumas falhas de roteiro acabam sendo desculpadas nas mais de duas horas e quarenta minutos no que é o mais longo filme de James Bond. Isso, porque Craig se despede com muita diversão, ainda mais numa tela IMAX e para quem estava afastado dos cinemas há muito tempo. É provável que, até escolherem outro intérprete para o icônico personagem, ficaremos um tempo sem vê-lo nas telas. E Daniel Craig foi uma ótima aposta, se encaixou muito bem. Seguindo a tendência, teremos novos M, Q, Moneypenny, Leiter, Blofeld, o que marca o fim de uma era. E Craig sai como um Bond do porte do já saudoso Sean Connery.

O diretor, o astro e as principais mulheres do elenco

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Prime traz os meninos que mataram os Richthofen

A demanda por filmes e séries sobre crimes verdadeiros vem crescendo e as obras continuam chegando. Isso beneficiou os dois longas baseados no assassinato do casal Richthofen, que já estavam prontos e tiveram o lançamento atrasado pela pandemia. Disponíveis no Amazon Prime Video, A Menina que Matou os Pais (2021) e O Menino que Matou Meus Pais (2021) não deixam a desejar se comparados a produções gringas e retratam fielmente os depoimentos dos acusados. Para quem acompanhou o noticiário na época, não acrescenta muita coisa.

É claro que uma produção sobre uma criatura odiosa como Suzane von Richthofen iria levantar protestos. Mas os Estados Unidos todos os anos lançam algo sobre Ted Bundy e há consumo. E o que dizer de Mindhunter, série que reúne vários psicopatas? O Midas da televisão, Ryan Murphy, se prepara para lançar uma série sobre Jeffrey Dahmer, o canibal de Milwaukee. Logo, a única questão sobre o projeto Richthofen seria definir a abordagem, evitando uma abordagem sensacionalista ou rasa, reduzindo-a a algum papel estereotipado. Como a vítima, por exemplo, a pobre menina rica.

O diretor Maurício Eça (dos dois Carrossel, 2015 e 2016) e os roteiristas Ilana Casoy e Raphael Montes (da recente Bom Dia, Verônica) optaram por filmar duas obras paralelamente e, quando as assistimos, a razão fica óbvia. No tribunal, ao deporem, Suzane e o ex-namorado e cúmplice, Daniel Cravinhos, deram versões conflitantes dos crimes, um tentando jogar a culpa no outro. E é exatamente isso que os longas retratam: baseados nos depoimentos, eles variam de acordo com o que cada um falou. Sem pesar para lado nenhum. O que torna os dois interessantes.

Muito se falou sobre a ordem ideal para se assistir aos filmes, se faria alguma diferença começar por um ou pelo outro. A verdade é que são duas visões, então a ordem é irrelevante. O que pode fazer alguma diferença é a qualidade dos dois e a forma como o público vai recebê-los. Gostando do primeiro que assistir, você se motiva a ver o segundo. Sob essa ótica, o ideal seria começar por O Menino que Matou Meus Pais, que traz a versão de Suzane, que incrimina Daniel. Como obra cinematográfica, é mais instigante, bem escrita e bem encenada.

Em A Menina que Matou os Pais, no qual acompanhamos o depoimento de Daniel Cravinhos, os exageros chegam a incomodar. Eles podem ser resumidos a três pontos: o uso de maconha, o volume de palavrões ditos e a postura dos pais, que se tornam uns alcoólatras sádicos. Essa visão concentra os clichês, mostrando que o uso da droga estava muito frequente (por parte da garota) e usando os palavrões para sujar a imagem de Suzane. O longa inclusive aposta que uma orientação homossexual pesaria contra uma vítima.

No que diz respeito às interpretações, O Menino também ganha exatamente pelos mesmos motivos: o roteiro é mais apurado, os personagens são tridimensionais. Isso dá oportunidade para os atores globais Carla Diaz e Leonardo Bittencourt brilharem, criando personagens mais críveis. Em A Menina, as situações são tão forçadas que o bom trabalho do casal de protagonistas fica apagado. Os demais membros do elenco acompanham essa tendência, principalmente os intérpretes dos Richthofen assassinados: Vera Zimmermman (de Joana e Marcelo, 2002) e Leonardo Medeiros (de Kardec, 2019) mudam radicalmente de comportamento entre as duas versões, obedecendo o que Montes e Casoy escreveram. Os filmes se complementam, mas um é claramente superior ao outro.

Os Cravinhos e Richthofen em foto da época da prisão

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E se o Universo Marvel tomasse outros rumos?

O Universo Marvel sempre contou com linhas de tempo paralelas, versões diferentes de uma mesma realidade. Algo como planetas iguais, com os mesmos habitantes, mas ações e desdobramentos distintos. Assim, numa outra dimensão, Peter Parker poderia ter sido picado, se tornado uma aranha gigante e destruído Nova York. Ou algo assim. Mais cedo ou mais tarde, isso seria explorado nos cinemas. Na verdade, o movimento começou na TV, com Loki e suas variantes. Ou seria com JJJ aparecendo em Homem-Aranha: Longe de Casa (2019)?

Estreou recentemente no Disney+ a série What If…? (nos quadrinhos, chamada O Que Aconteceria Se…?), que explora uma nova possibilidade a cada episódio, todos independentes uns dos outros. E se o militar a receber o soro do super soldado não fosse Steve Rogers? E se determinado vilão tivesse tido a oportunidade de fazer algo diferente? Ele teria sido uma pessoa diferente, com ações diferentes? Mais do que os simples acidentes de percurso, interessam muito mais os episódios que analisam a psique de seus personagens. Ter heróis transformados em zumbis pode ser curioso, mas é muito mais poderoso acompanhar a formação de um caráter.

A grande diferença entre os medalhões da DC, quase ou propriamente semi-deuses, e os heróis falhos e carismáticos da Marvel sempre foi essa linha tênue entre o bem e o mal. Enquanto os primeiros parecem destinados à grandeza, os segundos parecem fazer uma escolha diária. Teriam eles uma disposição à virtude, como dizia Aristóteles? Ou seriam produto do meio, à Rousseau? What If…? faz essa brincadeira, analisando as ações de diferentes protagonistas de acordo com o que os cerca.

Notoriamente arrogante, Stephen Strange virou gente, por assim dizer, quando perdeu a razão de seu sucesso: o uso brilhante das mãos na medicina. Impossibilitado de operar, ele buscou saídas e acabou se tornando o Mago Supremo. Teria sido uma sorte moral? Haveria uma predestinação? Se o acidente dele tivesse causado outros danos, qual seria o desenrolar? Teria o Dr. Estranho se tornado um grande vilão? Da mesma forma que Strange parece ter sido moldado por um acontecimento, Thor se tornou um bravo e honrado guerreiro por ter o contraponto de Loki, o irmão nada confiável que o desafiava frequentemente. E se Thor não tivesse tido um irmão? Como teria sido sua vida – e um possível reinado de Asgard?

Essas são algumas das perguntas que What If…? faz, jogando com a realidade da Marvel no Cinema. Uatu é um personagem que está sendo introduzido nesse universo. Ele faz parte de uma raça antiga chamada de Vigias (vistos rapidamente em Guardiões da Galáxia II, 2017), e essa é exatamente a função dele: vigiar a Terra. Os Vigias fizeram uma promessa de não interferirem nas vidas de seus vigiados, mas os quadrinhos mostram volta e meia exatamente o contrário acontecendo. Na série animada, Uatu faz o que sabe melhor: com a poderosa voz de Jeffrey Wright (de O Pintassilgo, 2019), ele observa e narra as várias dimensões da Terra, as diversas possibilidades que os heróis podem encontrar e pondera a questão: e se…?

Uatu, o vigia da Terra, é o narrador da série

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Candyman volta para assustar gerações mais novas

Lendas só sobrevivem se lembradas. Freddy Krueger está há décadas provando isso. Ao contrário de outros assassinos do cinema de terror, Candyman tem uma história de luta racial e, por isso, um significado muito mais relevante que o da maioria. Lançado na tela grande em 1992, saído das páginas de Clive Barker, o personagem volta a atacar. E a única recomendação possível é: assista a A Lenda de Candyman (Candyman, 2021).

Sem se definir exatamente como uma sequência ou um reboot, o novo filme revisita o universo iniciado em 92 de forma esperta o suficiente para afagar os fãs da franquia ao mesmo tempo em que agrada quem não sabia nada a respeito. Nesse episódio dos anos 90, uma estudante (vivida por Virginia Madsen) toma conhecimento da lenda urbana de um escravo que teria sido morto por ter se apaixonado pela filha do dono das terras. Segundo dizem, ele foi torturado, mutilado e queimado, e ainda recebeu mel no rosto para atrair picadas de abelhas.

Agora, em pleno 2021, um pintor (Yahya Abdul-Mateen II, de Os 7 de Chicago, 2020), tido como promissor, tenta voltar a pintar e começa a visitar um conjunto habitacional pobre há muito abandonado para ter ideias. Os moradores humildes foram retirados para darem lugar a construções mais modernas e caras, num claro exemplo do fenômeno da gentrificação. Mas o lugar guarda histórias que os veteranos de lá carregam, e uma delas é sobre um sujeito que dava balas para as crianças e acabou perseguido.

Dessa forma, a diretora e roteirista Nia DaCosta (de Passando dos Limites, 2018) apresenta a mitologia criada pelo escritor Clive Barker para novas gerações e aproveita para modernizá-la, atualizando a crítica social contida no material. E, porque não dizer, a roteirista (ao lado dos também produtores Jordan Peele e Win Rosenfeld) vai mais longe e amplia esse universo. A tensão segue num crescendo até deixar o público realmente incomodado. Abdul-Mateen II é muito habilidoso ao mostrar a espiral de loucura na qual seu personagem se encontra, com cenas que nos remetem a A Mosca (The Fly, 1986), quando a tragédia se anuncia. Teyonah Parris (de WandaVision) faz par com ele, outra grande atriz que tem muito a oferecer.

O diretor de fotografia John Guleserian (de Questão de Tempo, 2013) aproveita muito bem as paisagens urbanas que capta, com prédios, pichações e becos mal iluminados, chegando a causar uma certa claustrofobia no espectador – acentuada por uma trilha intimista de Robert Aiki Aubrey Lowe (de A Chegada, 2016). Apesar de trazer em destaque o nome do Midas atual Jordan Peele no cartaz, Candyman mostra que temos muito o que esperar da carreira da diretora Nia DaCosta. Peele chama público, mas é DaCosta que garante a qualidade do programa.

Tony Todd, em 1992, e Abdul-Mateen II hoje

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Schumacher: a vida de um dos maiores pilotos da F1 chega à Netflix

O mundo dos esportes é recheado de lendas. No automobilismo, um nome pode ser alçado a esse título com muita facilidade: Michael Schumacher. O piloto de Fórmula 1 está desde 2013 afastado da vida pública graças a um grave acidente de esqui que sofreu no final daquele ano. Desde lá, toda notícia sobre seu estado de saúde e condições físicas é um segredo guardado a sete chaves por sua família. Como se o nome de Schumacher já não fosse suficiente, essa situação elevou ainda mais as expectativas para o documentário da Netflix sobre o piloto.

Lançado no dia 15 de setembro, com o aval da esposa Corinna e dos filhos Mick e Gina-Maria, a obra mostra a carreira do piloto desde os tempos de kart até o seu acidente nas montanhas francesas. Com foco maior em sua entrada para a principal categoria da modalidade, a F1, o documentário mostra o piloto da maneira que o fã desse esporte o conhece: determinado, profissional e bem reservado na vida particular. Mas de maneira bem chapa branca.

Para os brasileiros, a obra já começa bem interessante, mostrando um início da rivalidade com o piloto Ayrton Senna e como o fatal acidente na curva Tamburello, em Ímola, em maio de 1994, moldou o alemão para o futuro. Os depoimentos e imagens da época são bem ricos, com relatos de pessoas que estavam por trás da vitoriosa carreira de Schumi. Os fãs do esporte certamente se sentirão saciados ao se lembrarem de sua passagem vitoriosa pela Benetton, o difícil início na Ferrari e as batalhas épicas envolvendo outros grandes pilotos, como Damon Hill, Mika Häkkinen e David Coulthard.

Aliás, é aí que entram as polêmicas mostradas pelo doc. Interessante ver que os diretores mostram um lado do piloto que muitas vezes não é lembrado: o quanto Schumacher se envolvia em acidentes – muitas vezes causados pela desportividade. A falta de calma em outros lances polêmicos também e retratada, como o embate com David Coulthard em um acidente sob a chuva na Bélgica, em 1998. Schumi perdeu a calma e partiu para cima do piloto rival nos boxes.

Ainda que mostre bem a jornada e os percalços do alemão, quem acompanhou bem a carreira de Schumacher deve sentir falta, principalmente, do período de dominância do piloto na F1. Acontece que o foco do documentário é até o primeiro título dele pela Ferrari – o seu terceiro na carreira. A partir daí, a obra resume sua carreira até a sua primeira aposentadoria, em 2006, e seu retorno em 2010.

Schumacher ganhou sete campeonatos mundiais, e não foi sem grandes polêmicas envolvendo acidentes e troca de posições controversas. Como em 2002, na Áustria, quase que em cima da linha com o brasileiro Rubens Barrichello – o que o documentário não mostra. Aliás, o brasileiro foi determinante para a Ferrari nessa época, ajudando a equipe a dominar o campeonato de construtores. E, claro, por ajudar o alemão, mesmo que indiretamente, nesses outros quatro títulos não visitados pela obra. O fã aqui do Brasil certamente sentirá falta de Rubinho, que aparece apenas em imagens de arquivo – e ainda assim, bem pouco.

O documentário foca, portanto, nos grandes desafios que Michael Schumacher teve em sua carreira na Fórmula 1 e praticamente descarta os momentos em que ele sobrou na categoria. E tenta justificar algumas das dezenas de polêmicas em que se envolveu, ignorando outras. Não deixa de ser, ainda assim, uma bela homenagem a um nome que é quase uma unanimidade no automobilismo mundial.

A vitória na Áustria, com Rubinho deixando o colega passar, não é lembrada

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