A acidez contagiante de Fran Lebowitz e sua relação com NY

Dirigida por Martin Scorsese, a minissérie documental Faz de Conta que NY É uma Cidade (Pretend It’s a City) foi lançada esse mês na Netflix e conta com a escritora norte-americana Fran Lebowitz, que mora em Nova York há mais de 50 anos, apresentando suas diversas críticas à cidade. Com um roteiro aparentemente livre, a minissérie traz memórias e situações vividas por Lebowitz na Big Apple em formato de um bate papo com o próprio diretor.

A escritora e Scorsese compartilham não só a posição de cronistas de Nova York, ainda que o façam de maneiras distintas – ela enquanto comentadora e escritora, ele como cineasta –, mas também uma amizade de longa data que resultou, inclusive, na participação de Lebowitz no filme O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013). A amizade deles fica ainda mais evidente no documentário à medida que Lebowitz relata suas histórias com bastante naturalidade e liberdade, tendo ao lado as incessantes risadas de Scorsese.

Contrária não só às muitas mudanças ocorridas em Nova York, mas também à rapidez delas, Lebowitz critica tanto o custo de vida da cidade quanto o fato de o poder público demonstrar se preocupar mais com os turistas do que com a própria população local. Oscilando entre momentos de entrevistas em formato talk show e cenas vagando pelas ruas da cidade, Scorsese capta as opiniões da escritora sobre diversos assuntos – esporte, arte, música etc. Ainda que Lebowitz apresente excelentes argumentos, em alguns momentos dá-se a entender que somente o seu ponto de vista é o correto. Afinal, ela é a protagonista.

Famosa pela frase “Think before you speak. Read before you think” (“Pense antes de falar. Leia antes de pensar”), a escritora remonta sua trajetória desde a infância até o presente, ressaltando a presença de figuras como Charles Mingus, Toni Morrison, dentre outros. Ainda que seja apresentada como escritora, na minissérie fica evidente que Lebowitz é muito mais conhecida por suas opiniões políticas e sociais do que por seus trabalhos publicados – mesmo porque há décadas ela não lança livros.

Como ela mesmo afirma: “As pessoas frequentemente ficam furiosas comigo porque estou cheia de opiniões”. Nos últimos anos, inclusive, Lebowitz expressou publicamente seu posicionamento contrário a Donald Trump, embora esse não seja um assunto trabalhado na obra. Apesar de todas as queixas sobre a conturbada “cidade que nunca dorme”, fica claro que a escritora não moraria em outro lugar, evidenciando a relação de amor e ódio com Nova York.

O apartamento precisa ser grande, já que a escritora tem uma biblioteca numerosa

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Quatro grandes se encontram em Uma Noite em Miami

Em fevereiro de 1964, quatro amigos se encontraram para comemorar uma grande vitória de um deles. Mais do que uma celebração individual, o evento se torna uma oportunidade para profundas discussões sobre as vidas deles e o papel que desempenhariam na luta do Movimento Negro por direitos civis. Uma Noite em Miami… (One Night in Miami, 2020) é o filme que conta como esse encontro pode ter acontecido.

A produção da Amazon Prime Video marca a estreia da atriz Regina King na direção. Tendo chamado bastante atenção como a protagonista de Watchmen, série pela qual ganhou vários prêmios, King escolheu um texto marcante, que já havia feito sucesso no teatro, para seu debut como diretora. A peça foi adaptada pelo próprio autor, Kemp Powers, que também tem o roteiro de Soul (2020) fazendo sucesso na temporada.

Os quatro amigos em questão eram figuras proeminentes em suas áreas de atuação. Sam Cooke (Leslie Odom Jr., de Assassinato no Expresso Oriente, 2017) era um dos cantores do momento, com várias músicas nas paradas de sucesso e na boca do povo. Cassius Clay (Eli Goree, de Riverdale) tinha acabado de se tornar o campeão do mundo no boxe. Jim Brown (Aldis Hodge, de O Homem Invisível, 2020) era um dos nomes mais quentes do futebol americano. E Malcolm X (Kingsley Ben-Adir, de Peaky Blinders) foi um dos principais ativistas pelos direitos dos negros.

Hoje, sabe-se que os quatro eram investigados pelo FBI como possíveis agitadores sociais. Traduzindo: pessoas que não tolerariam violência contra negros e os incentivaria a um levante. Na época, eles não tinham a certeza de estarem sendo seguidos ou observados. Mas o público certamente os tinha como ídolos, então discrição era recomendada. Por isso, para comemorarem o título de Clay, se reuniram em um quarto de hotel.

Mesmo que mantenha um pouco do tom teatral, é interessante como o roteiro dá destaque a todos eles, tentando sempre se alternar entre os quatro personagens principais. Sem pender para nenhum lado, o filme mostra como a amizade entre eles foi importante para o crescimento de cada um. Por mais famosos ou bem sucedidos, eles tinham suas dúvidas e inseguranças, era importante ter apoio. Cenas pré e pós encontro complementam o que sabemos de cada um e ajudam a aumentar o escopo do filme.

Num ano de tanta violência policial contra negros, com um necessário fortalecimento do movimento “Vidas Negras Importam”, Uma Noite Em Miami… é uma obra importante. Muita gente vai se ver representada na tela, e representatividade importa. Infelizmente, o futuro não guarda coisas boas para os quatro (como você pode ler aqui). Mas, naquela noite, Sam, Cassius, Jim e Malcolm eram apenas irmãos se divertindo, refletindo e reforçando os laços entre eles. E que canção linda é A Change Is Gonna Come!

Foto histórica mostra os personagens reais

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Bridgerton é a nova sensação da Netflix

Lançada no final de dezembro de 2020, Bridgerton é mais uma série da Netflix que merece atenção. Baseada no romance homônimo de Julia Quinn e centrada na realeza britânica, a série inova ao promover várias rupturas quando comparada a outras produções desse filão. Diferentemente do habitual, personagens do elenco principal e mesmo aqueles que remetem a figuras importantes foram interpretados por atrizes e atores negros. Já imaginou duques, duquesas, lordes e ladies e até a própria rainha da Inglaterra negros? Pois é, em Bridgerton, temos!

A trilha sonora também surpreende por trazer hits pops atuais (como Thank U, Next, de Ariana Grande, e Bad Guy, de Billie Eilish, entre outros) em formatos clássicos e em situações um tanto contraditórias – em bailes cujo objetivo era formar casais da realeza, ao fundo temos músicas sobre mulheres em posições de independência, desmistificando estereótipos masculinos.

Outro ponto forte da série é a narrativa dos personagens. Ainda que o casal principal, Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor) e Simon Basset, o Duque de Hastings (Regé-Jean Page), siga o roteiro clássico de qualquer romance, em Bridgerton as trajetórias e dificuldades individuais são devidamente exemplificadas e contrastadas com o peso da sociedade da época, ajudando a compreender mais a personalidade de cada um deles. Isso tudo com uma química enorme entre os atores.

Talvez seja exagerado afirmar que a série traz, ainda (e com peso), pautas feministas. Mas não poderiam ser deixadas de lado a relevância e a força das muitas mulheres presentes em Bridgerton – especialmente a história da personagem Eloise Bridgerton, que tenta de vários modos fugir do padrão “mulher que nasceu para casar-se e procriar”. Para aqueles que procuram uma série com excelente fotografia, figurino, elenco e, claro, que gostam de romance, essa, narrada por Lady Whistledown, é uma boa pedida!

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Streamings oferecem Pieces of a Woman e A Assistente

Assim como o aumento na participação dos dois lados da câmera, a indústria do Cinema tem voltado seu foco para as mulheres também nas histórias que conta. Essa mudança, mais do que bem-vinda, é necessária, e dois frutos chegaram recentemente a serviços de streaming. Na Netflix, temos Pieces of a Woman (2020), longa criado por um casal a partir da dor de um aborto pelo qual passaram. E na Amazon Prime Video, A Assistente (The Assistant, 2019) reflete o movimento Me Too, que vem ajudando vítimas a revelarem os abusos sofridos em relações profissionais de poder.

Originalmente uma peça de teatro, Pieces of a Woman foi escrito pela húngara Kata Wéber como uma espécie de terapia após perder o filho que esperava com o marido e parceiro nas produções, Kornél Mundruczó. Responsável pela adaptação, ela assina o roteiro, enquanto ele dirige. É fácil perceber o clima de teatro que vez ou outra permeia as cenas, que se passam quase sempre em lugares fechados. É bom deixar claro que não se trata de uma história real, apenas parte de uma.

Na tela, temos uma ótima atuação de Vanessa Kirby, inclusive premiada como Melhor Atriz no Festival de Veneza. Ela chamou muita atenção na série The Crown e depois nas aventuras Missão Impossível – Efeito Fallout (2018) e Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw (2019), ganhando aqui uma oportunidade como protagonista. Kirby traz intensidade ao papel e é ela quem ocupa momentos no filme em que absolutamente nada acontece. A primeira meia hora, em especial, demanda muito da atriz.

Se inicialmente parecia que veríamos um drama sobre uma família em vias de ter o primeiro filho, logo temos a intromissão da mãe dela (vivida pela ótima Ellen Burstyn, que pretende ser a mais velha indicada ao Oscar) e entramos em uma longa questão jurídica. O filme perde seu foco e depende totalmente da interpretação de seu forte elenco – além de Kirby e Burstyn, tem também Shia LeBeouf (de Corações de Ferro, 2014), propositalmente colocado para escanteio na divulgação por alegações de má conduta.

O clima de dramalhão teatral é reforçado pela trilha sonora intrusiva, que não facilita as coisas. Pieces of a Woman não chega a ser uma perda de tempo, mas fica entre altos e baixos que enfraquecem o resultado. As opções de câmera são elegantes e criativas, com segmentos longos filmados sem cortes aparentes. O final, que tenta ser poético, não é bem inovador, mas coerente com o que vimos até então.

No streaming da Amazon, temos a estreia de A Assistente (até então, sem legendas em português). A roteirista e diretora Kitty Green faz sua estreia em um longa ficcional, mas ainda fica bem próxima da realidade com uma história que pode muito bem ter acontecido em alguns escritórios em Nova York, Los Angeles, e quem sabe no Rio ou SP. Basta haver uma relação de poder e o lado mais forte abusar da situação.

Julia Garner vive a assistente Jane, uma garota que tem uma grande oportunidade ao entrar para a equipe de um figurão e começar, assim, a trilhar seu próprio caminho rumo à produção de filmes. Dando o sangue no trabalho, Jane chega antes do Sol nascer e é das últimas a irem embora. Mesmo assim, a vemos sendo colocada de lado pelos vários homens à sua volta, que compartilham as fofocas entre si e a deixam de fora.

A diretora é muito habilidosa ao montar o quadro. Com diálogos ágeis em meio a tarefas enfadonhas, entendemos junto com Jane o que está acontecendo. A garota suspeita que o chefe usa as candidatas a estrelas que recebe em sua sala de forma inapropriada. E o pior é ver que todos ali parecem saber o que acontece. É por isso que criminosos como o famoso Harvey Weinstein conseguiram ir longe com o caminho livre para mais assédios e abusos.

Com uma obra mais enxuta que a colega da Netflix, Green consegue dar seu recado em 90 minutos. Garner, lembrada por séries como Ozark e Dirty John, cria uma personagem interessante, dedicada e falível. Assim como Vanessa Kirby, já é cotada para as premiações desse ano. Como as duas são bem novas, oportunidades não faltarão para elas brilharem mais.

Ellen Busrtyn, com quase 90 anos, ainda rouba as cenas

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Netflix recapitula 2020 em falso documentário

É impressionante que, entrando em 2021, exista a necessidade de se apontar alguns óbvios. Como a importância de tomar as vacinas necessárias, o fato de existir racismo em todo lugar e a forma como as redes sociais manipulam seus usuários. Para ajudar a reforçar esses pontos, a Netflix lança o falso documentário 2020 Nunca Mais (Death to 2020, 2020), uma suposta retrospectiva cômica desse ano maldito que finalmente acabou.

Assinada pelo criador da série Black Mirror, Charlie Brooker, com a colega produtora Annabel Jones, a comédia conta com vários redatores para fazer piada com situações aparentemente delicadas, categoria que inclui todas as desgraças pelas quais o mundo passou recentemente. Por incrível que pareça, o nível do texto nunca baixa, não há nada apelativo. O problema é que dificilmente é engraçado.

Apesar de se propor a cobrir o ano todo de acontecimentos, a obra foca boa parte de seus 70 minutos em dois assuntos principais: a pandemia de Covid-19 e as eleições presidenciais norte-americanas. Outros são mostrados mais rapidamente, como o assassinato de George Floyd e o crescimento de movimentos fascistas, a alienação dos aplicativos e os incêndios na Austrália. Tudo sob um ponto de vista mais americano/britânico, mas o presidente brasileiro não deixa de aparecer em uns dois momentos constrangedores.

A falta de graça e as explicações delongadas ficam bem aparentes. Brooker e Jones (acima) conseguiram resultados superiores na outra série que produzem, Screenwipe. Mesmo assim, eles escolhem alguns personagens bem marcantes cujos estereótipos podem ser identificados em várias culturas. Não é difícil encontrar, no Brasil, um jovem antenado como o produtor de conteúdo (entre outras ocupações moderninhas) vivido por Joe Keery (de Stranger Things) ou o historiador que se acha dono da História de Hugh Grant (de The Undoing, ainda mais envelhecido).

Uma personagem muito interessante é a que Cristin Milioti (de Palm Springs, 2020) vive. Uma dona de casa boazinha, que faz tudo pela família, se acha bem informada e tem certeza de que não é racista – ela tem razão em todas as suspeitas que levanta. E não se cansa de passar vergonha. A típica “cidadã de bem” que mora ao lado da sua casa, que você encontra no supermercado ou que é mãe do coleguinha do futebol do seu filho.

Com muita gente boa no elenco, que inclui Samuel L. Jackson (o Nick Fury da Marvel), Lisa Kudrow (de Friends), Leslie Jones (de Caça-Fantasmas, 2016) e até Tracey Ullman como a Rainha da Inglaterra, 2020 Nunca Mais ainda conta com uma inspirada narração de Laurence Fishburne (de A Mula, 2018). Depoimentos certeiros e bem interpretados tentam compensar a falta de humor. Mas o principal problema aqui é claro: quem precisa ver as críticas feitas e os absurdos comentados está ocupado com a cabeça enfiada num buraco, acreditando em qualquer conspiração que aparece na internet.

Um ótimo elenco, isso é fato!

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O melhor do Cinema em 2020

Como sempre, o ano de 2020 trouxe filmes bons e ruins. O diferencial foi a predominância dos serviços de streaming, já que os cinemas ficaram fechados na maior parte do tempo – e frequentá-los ainda demanda cuidados especiais. Além da Netflix, que já vinha se destacando com suas produções originais, o Prime Video da Amazon e o Hulu são outros dois nomes que ganharam projeção.

As maiores produções dos estúdios ficaram na geladeira, aguardando lançamento, enquanto os streamings faziam a festa. Dessa forma, gente graúda migrou para a tela pequena, como Aaron Sorkin e David Fincher, e brasileiros puderam ver os filmes junto com o resto do mundo, de maneira mais ágil.

Na lista abaixo, confira os dez melhores filmes do ano. Quase todos têm crítica disponível no Pipoqueiro, basta clicar para ler. E obrigado pela companhia até aqui!

1- 1917

2- Os 7 de Chicago

3- Jojo Rabbit

4- Um Lindo Dia na Vizinhança

5- Jóias Brutas

6- O Homem Invisível

7- A Vastidão da Noite

8- Má Educação

9- O Oficial e o Espião

10- O Som do Silêncio

Menções Honrosas:

Mank

O Que Ficou Para Trás

– Greyhound

A Voz Suprema do Blues

E os destaques entre as séries:

Fleabag

The Boys

O Gambito da Rainha

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Conheça 5 destaques disponíveis na Amazon Prime

Com tantos filmes chegando aos serviços de streaming, muita coisa boa se perde nas estantes digitais. É preciso ficar de olho tanto nas estreias quanto naqueles menos recentes que só conseguiram distribuição agora. A Amazon Prime Video tem algumas inclusões recentes que merecem uma indicação e O Pipoqueiro traz cinco delas.

Borat: Fita de Cinema Seguinte (Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan, 2020) – engraçadíssimo e acertadamente com maior tom político, esta sequência foi lançada antes das eleições presidenciais dos Estados Unidos, dando a Sacha Baron Cohen a oportunidade de bater bastante nos Republicanos e, mais especificamente, em Donald Trump e no vice, Mike Pence. Dessa vez, ele tem o reforço da búlgara Maria Bakalova, formando uma ótima dupla.

Trancafiado em seu Cazaquistão natal, o repórter Borat ganha uma nova missão nos EUA e uma chance de redenção. Já conhecido pelo grande público, Baron Cohen (mesmo fantasiado) é facilmente reconhecido nas ruas, o que dificulta atingir a naturalidade do primeiro filme. E parece haver mais situações ensaiadas, quando o humor perde um pouco da força. Mas as situações que o ator e roteirista cria são impagáveis, valendo facilmente o seu tempo.

O Mistério de Silver Lake (Under the Silver Lake, 2018) – com um atraso considerável, podemos finalmente conferir o mais recente trabalho do diretor e roteirista David Robert Mitchell, responsável pelo elogiado Corrente do Mal (2014). O protagonista, vivido pelo Homem-Aranha Andrew Garfield, é um pretenso ator que fica obcecado pela bela vizinha  (Riley Keough) pouco antes dela sumir misteriosamente.

Na jornada em busca da moça bonita, o rapaz conhece umas figuras bem estranhas e entra em umas paranoias inacreditáveis. Para alguns, talvez passe da conta, mas o roteiro não deixa de trilhar caminhos interessantes. Com destaque para o que acontece numa mansão, as situações são loucas e criativas num passeio pelos becos e porões de Los Angeles, tudo marcado por uma trilha bacana.

Uncle Frank (2020) – O diretor e roteirista Alan Ball (que escreveu Beleza Americana, 1999) realiza um filme sensível que consegue misturar vários assuntos sem ficar confuso ou sem foco. Começamos acompanhando uma garota, Beth (Sophia Lillis, dos dois It), que cresce tendo o tio Frank (Paul Bettany, o Visão da Marvel) como modelo de pessoa inteligente e sensata. Ao entrar na faculdade, eles passam a conviver mais e ela conhece um outro lado dele.

Mesmo sem ser o objetivo, o filme pinta um quadro rico sobre a vida no interior da Carolina do Sul, uma cidadezinha bem provinciana onde as pessoas tomam conta das vidas umas das outras. Com um ótimo elenco de apoio sem grandes nomes, Ball explora a dinâmica familiar dos Bledsoe desenvolvendo cada personagem de forma sucinta, mas suficiente. Rapidamente, nos envolvemos e torcemos por eles.

I’m Your Woman (2020) – Depois de mostrar seu talento na premiada série Marvelous Mrs. Maisel, Rachel Brosnahan partiu para o Cinema com esse drama criminal sobre uma dona de casa que todos os dias espera pelo marido à noite, sabendo que o sujeito é um criminoso. Num belo dia, ele não volta e o comparsa chega avisando que ela deve pegar o bebê e se esconder.

O filme faz um interessante retrato de uma esposa nos anos 70: não fazia perguntas, não sabia de nada. Só cuidava da casa e esperava, linda, o provedor chegar. Com uma boa dose de violência e um estilo cru, a diretora e roteirista Julia Hart faz uma obra ágil, bem amarrada e tensa. Destaque para Arinzé Kene e Marsha Stephanie Blake (de Olhos Que Condenam), que criam uma ótima química com a protagonista.

O Som do Silêncio (Sound of Metal, 2019) – Depois de ter destaque em séries e filmes, Riz Ahmed (de Venom, 2018) ganha uma grande oportunidade como protagonista e faz bonito. Ele vive um baterista de uma dupla de heavy metal, que ele faz com a esposa (Olivia Cooke, de Jogador Nº1, 2018), que repentinamente se descobre surdo. Tentando manter uma atitude positiva, ele logo se dá conta do tanto que sua vida vai mudar.

Com uma belíssima fotografia e planos elaborados, o filme conta com um desenho de som que nos remete às percepções do personagem enfrentando a surdez. A impressão que temos é a de que todos ali sabem bem do que tratam. E Paul Raci, o principal coadjuvante e mentor de Ahmed na história, é de fato filho de surdos. Além de trazer verdade para a obra, ele rouba cenas como um sujeito de qualidades e defeitos. E o diretor Darius Marder está apenas estreando na função!

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Papai Noel ganha uma versão rabugenta com Mel Gibson

Sempre tem aquele cinéfilo que, chegando o Natal, alega que Duro de Matar (Die Hard, 1988) é seu filme favorito ambientado nessa temporada. Ou mesmo o curta do Lobo de 2002, o Especial Paramilitar de Natal, no qual o Coelhinho da Páscoa encomenda a morte do bom velhinho. Pois 2020 trouxe outra opção que vai entrar nesse filão e deve agradar os fãs de ação: Entre Armas e Brinquedos (Fatman).

Longe do físico que deveria ter (e que o título original reforça), Mel Gibson (de Os Mercenários 3, 2014) é uma versão no mínimo inusitada do Papai Noel. Mal humorado e cansado de tantos anos de trabalho, ele lamenta o fato de tantas crianças no mundo serem malcriadas. Assim, elas não ganham presentes e o subsídio governamental que ele recebe diminui. Com uma verba cada vez menor, fica difícil manter a fábrica e os muitos funcionários trabalhando.

Essa é a premissa de Entre Armas e Brinquedos, título nacional ridículo para Fatman, disponível no Now. Na falta de brinquedos, Chris Cringle se vê obrigado a aceitar a proposta dos militares para produzir armas. E sua linha de produção é extremamente competente, o que leva a uma alta rentabilidade. Essas possíveis discussões sobre capitalismo, militarismo e belicismo nunca são desenvolvidas, apenas correm por fora. Uma vez apresentado o protagonista, conhecemos os demais personagens, que farão a trama andar.

Em outra cidade, entra em cena um garoto rico que tem vários ressentimentos. Ele vive com a avó, que o controla de perto, e não tem qualquer contato com os pais. Para piorar, ganha de Natal um pedaço de carvão – presente destinado às crianças ruins. Acostumado a ser o primeiro em tudo, ele chega a sequestrar e ameaçar a coleguinha que tem um projeto de ciências melhor do que o dele. Está explicado o pedaço de carvão.

Dando vazão à raiva que sente, Billy (Chance Hurstfield, de Bons Meninos, 2019) contrata um assassino profissional para eliminar Chris. O Magrelo, como o matador é conhecido, aceita a tarefa prontamente, tendo ele também seus ressentimentos com o gordo Cringle. Pelos apelidos, já percebemos que os dois estavam destinados a serem antagonistas. Walton Goggins (de Tomb Raider: A Origem, 2018) compõe um vilão metódico, focado, que nunca se desvia de seu alvo.

Temos, então, o quadro de Entre Armas e Brinquedos montado. O Papai Noel de Gibson é um pouco como o Batman de Ben Affleck: um sujeito desiludido, que vê as dificuldades de cumprir sua tarefa e segue lutando. Como se não tivesse problemas o suficiente, ainda precisa lidar com Billy, o Magrelo e os militares. Tudo isso numa fotografia gélida, num lugar não identificado que parece ser o Alasca. A natureza de Chris, que parece ter o fator de cura do Wolverine, nunca fica clara, sendo apenas um dos muitos pontos deixados sem explicação.

Com roteiro e direção dos desconhecidos irmãos Nelms, Eshom e Ian, o longa perde força na segunda metade e tem um final bobinho, não conseguindo corresponder à premissa interessante. Não deixa de ser uma diversão escapista para uma sessão da tarde. Quem gosta de uns tiros, brigas e explosões vai ficar bem satisfeito. E quem sabe esse não é um filme de origem e o Papai Noel vira uma franquia?

Esse é um Papai Noel como você nunca viu

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A Voz Suprema do Blues é palco para Davis e Boseman

Escrita em 1982 por August Wilson, a peça Ma Rainey’s Black Bottom ganhou duas versões na Broadway e agora chega ao Cinema pela Netflix. Chamado no Brasil de A Voz Suprema do Blues (2020), o longa traz um ótimo elenco encabeçado por Viola Davis e o saudoso Chadwick Boseman, em seu último papel. Antes mesmo do lançamento, já se falava em indicações a Oscars para os dois, tamanho o barulho que causaram.

A cantora Ma Rainey, originalmente Gertrude Pridgett, era conhecida como a “Mãe do Blues” e alegava ter inventado o termo blues, quando perguntaram a ela que tipo de música cantava: uma música triste. Cantou com gente famosa, como Louis Armstrong, Tommy Dorsey e Bessie Smith, com quem teve uma relação mais próxima. Entre 1910 e 1920, a demanda por músicos negros cresceu e Ma começou a gravar com a Paramount Records. A peça de Wilson imagina como teria sido a gravação da canção Black Bottom, em dezembro de 1927.

Depois de Theresa Merritt e Whoopy Goldberg no teatro e Mo’Nique num longa da HBO sobre Bessie Smith, é a vez de Viola Davis encarnar a personagem. Vencedora do Oscar por Um Limite Entre Nós (Fences, 2016), também baseado numa peça de Wilson, Davis compõe uma mulher arrogante que parece ter sofrido para chegar na posição de destaque que alcançou. Ma Rainey tem uma banda que a acompanha nas gravações e nas apresentações ao vivo e deixa muito claro que é ela quem manda. A arrogância é claramente um escudo contra uma opressão que vem de todos os lados.

Enquanto a cantora não chega ao estúdio, conhecemos os demais músicos, três veteranos que baixam a cabeça para a líder e um jovem impetuoso que sabe ter um caminho de sucesso à frente. Nesse papel, Boseman, mais lembrado como o Pantera Negra da Marvel, mostra ser um intérprete de grande profundidade. Seu Levee esconde, sob diálogos ágeis e muita vaidade, uma insegurança de quem está sempre se provando e buscando os holofotes.

Por trás da questão musical, que inclui faixas deliciosas, temos uma luta contra o racismo e o machismo. Rainey precisou vencer muitas barreiras, já que o mundo era dominado por homens brancos. Como pode-se presumir, são pontos que permanecem atuais. O dono do estúdio detém os meios de produção e dita as regras. Uma pessoa como Rainey anda no limite: ela se coloca como indispensável, mas sabe que não pode forçar a barra, ou será excluída. Davis mostra isso no olhar. E Levee, ainda com uma longa jornada a trilhar, se acha mais importante do que é aos olhos dos demais. Boseman adota um sorrisinho cínico que lhe cai muito bem.

Com grande dificuldade de evitar uma cara de teatro filmado, que não casa bem com a linguagem cinematográfica, o diretor George C. Wolfe (de A Vida Imortal de Henrietta Lacks, 2017) acerta em fechar uma metragem curta. Em 90 minutos, temos um roteiro objetivo (de Ruben Santigo-Hudson, de Lackawanna Blues, 2005) que dá a devida atenção aos assuntos que pretende abordar. A Voz Suprema do Blues nunca chega a ser cansativo e pega fogo quando Davis e Boseman estão em cena. Uma notável despedida para o ator, uma prova de que ele estava sim rumo à grandeza dos astros do Cinema.

Wolfe dirige seus atores no estúdio dentro do estúdio

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Mulher-Maravilha nos apresenta a 1984

O longa do Super-Homem de 1978, de Richard Donner, segue firme sendo referência entre adaptações de histórias em quadrinhos. Por isso, não há honra maior para outro filme do que ter similaridades com ele. É o que observamos com Mulher-Maravilha 1984 (Wonder Woman 1984, 2020), sequência das aventuras da personagem de William Moulton Marston que andou dividindo a cena com outros heróis da DC. Aqui, ela segue sendo a protagonista isolada, com sua jornada sendo desenvolvida.

A descoberta de um artefato misterioso dá o pontapé inicial para a trama da diretora e roteirista Patty Jenkins (com colaboração no texto de Geoff Johns e Dave Callaham). Seguindo o sucesso de 2017, ela retoma sua Diana Prince (novamente vivida por Gal Gadot) em 1984, décadas após o fim da Primeira Guerra. O mundo dito futurista inclui pochetes, calças de paraquedistas, blazers com ombreiras e penteados chamativos, entre outras estranhezas que preferimos esquecer.

Com muita segurança no papel, Gadot ressurge como a mulher aparentemente perfeita, aquela invejada por outras e cobiçada por outros. Mas Diana não socializa facilmente, ela só sai de seu disfarce de cientista do museu por causas nobres. Dia após dia, ano após ano, ela se sacrifica pela humanidade e não deixa rastros, só rumores. Ninguém sabe quem é a misteriosa figura que previne assaltos e prende malfeitores. E só ela sabe a falta que faz seu eterno amor, Steve Trevor (Chris Pine).

É interessante a facilidade com que o roteiro resolve vários entraves e introduz elementos da mitologia da personagem. Jenkins e seus colegas de roteiro fizeram bem seu dever de casa, seguindo fielmente o cânone da Mulher-Maravilha. A aventura flui bem, salvo alguns excessos. Afinal, é discutível se eram necessários 150 minutos para contar uma história que caberia em menos de duzentas páginas de uma Graphic Novel. Há gorduras visíveis, que seriam facilmente cortadas por alguém sem uma ligação emocional com a editora – Richard Pearson, o montador, também trabalhou em Liga da Justiça (Justice League, 2017).

Como sempre acontece nesse subgênero, os vilões geram expectativa e são responsáveis por boa parte do sucesso da obra. Os escolhidos por Jenkins não decepcionam e são bem desenvolvidos pelo roteiro. Assim como acontece nas hqs, há alguns situações inverossímeis, mas nada que não dê pra relevar no calor do momento. Pedro Pascal (abaixo), gozando de grande sucesso atualmente como The Mandalorian, faz o canastrão Maxwell Lord, um empresário do ramo petrolífero que depende de seu carisma para conseguir parceiros de negócios e aposta no alcance da televisão para atraí-los.

Lembrando um pouco o Professor Aloprado de Jerry Lewis, Kristen Wiig (de Caça-Fantasmas, 2016) é Barbara Minerva, a atrapalhada colega de Diana no museu. Ela é mais uma personagem interessante num filme que valoriza as mulheres e as coloca em primeiro lugar. Da forma como a Mulher-Maravilha é construída, ela fica bem mais interessante que seu colega de editora, o Super-Homem, e funciona igualmente como um símbolo de esperança. Há cenas que remetem diretamente a O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), como que Zack Snyder nos lembrando que ele continua no cargo de produtor. Felizmente, o Sol continua aparecendo, ao contrário da escuridão que Snyder costuma privilegiar.

Acima de tudo, Jenkins nos entrega um filme divertido e focado em seus personagens, todos tratados com respeito. Mas não pense que falta ação, não é o caso. A diretora consegue um bom equilíbrio entre os momentos mais introspectivos e os acelerados. A trilha sonora de Hans Zimmer, mesmo repetindo o tema que já conhecemos, consegue ir além e acrescentar novas notas. E o público sai do cinema esperando pela próxima aventura dos semideuses da DC, torcendo para que Snyder siga apenas como produtor.

Jenkins novamente dirige sua Mulher-Maravilha

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