Mentira Incondicional e Noturno chegam ao Prime Video

Outubro é mês de assistir a filmes de terror e a produtora Blumhouse aproveitou a data para valorizar a diversidade de diretores que fogem do padrão da grande maioria. Por isso, Jason Blum assinou com a Amazon um contrato que prevê o lançamento de oito filmes, sendo que quatro deles já estão disponíveis no Prime Video. Conheça abaixo dois deles.

Lançado no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 2018, Mentira Incondicional (The Lie, 2018) teve a distribuição garantida pelo projeto Welcome to the Blumhouse. Escrito e dirigido pela canadense Veena Sud, é refilmagem de um longa alemão de 2015 e marca o reencontro de Sud com seus atores na série The Killing: Mireille Enos e Peter Sarsgaard.

Na trama, temos Enos e Sarsgaard como um casal separado, pais de Kayla (Joey King, dos dois A Barraca do Beijo), uma adolescente que vai passar uns dias em um acampamento de ballet. Enquanto o pai a está levando, eles passam por uma amiga dela (Devery Jacobs, de Deuses Americanos) que está esperando o ônibus e oferecem carona. Depois de uma parada no acostamento para banheiro, Britney some e Kayla admite tê-la empurrado em um rio.

A partir daí, sempre em cenários frios e tristes, temos os conflitos do ex-casal na tentativa de proteger a filha de uma possível condenação. Somos levados a crer que a cabeça da menina ficou bagunçada devido ao divórcio dos pais, como se filhos de casais divorciados se tornassem adoráveis psicopatas. Se a premissa já é um tanto absurda, as coisas rapidamente ficam piores, com os adultos tomando as piores decisões possíveis e a garota tendo um comportamento ridículo até para a idade dela.

Sarsgaard e Enos têm boas atuações, assim como os coadjuvantes. Só King é um bocado sabotada pelo roteiro, que a coloca em situações difíceis e complicam o seu trabalho. É uma dura missão compor uma menina tão birrenta e cujo comportamento muda tão drasticamente. O final, que deveria chocar pela sagacidade, é a cereja de um bolo irritante. São 90 minutos sofridos para o público, que custam a passar.

Outra atração no pacote da parceria entre a Blumhouse e a Amazon é Noturno (Nocturne, 2020), que já denuncia sua ligação com a música erudita desde o título. O longa nos apresenta a duas irmãs gêmeas com grande talento ao piano. Por algum motivo, só uma delas tem o devido reconhecimento, e isso não se resume apenas ao instrumento, mas à vida social também. Uma é popular, tem namorado e é disputada pelos professores, enquanto a outra segue na sombra da irmã.

Como as duas não são idênticas, a produção pôde chamar duas atrizes para vivê-las. Ambas são lindas, mas uma delas é tratada como patinho feio. Tirando essa estranheza, o resto do filme funciona bem e constrói uma atmosfera de suspense bem eficiente. Elas estudam e moram em uma conceituada escola de música e o clima é sempre de competição, pressão e tristeza. Ainda mais porque uma colega morreu há pouco.

Vividas com sensibilidade por Sydney Sweeney (de Era Uma Vez Em… Hollywood, 2019) e Madison Iseman (de Annabelle 3, 2019), as duas têm ações e reações que flutuam de acordo com o que acontece à volta delas, nunca caindo em extremos estereotipados. Por mais que cheguem a ter raiva uma da outra, elas têm momentos ternos, quando todo o histórico de cumplicidade delas vem à tona. Até então, eram muito unidas, mas Juliet (Sweeney) se cansou de ser a segunda e resolveu tomar o protagonismo de Vivian (Iseman). Nem que, para isso, precise de uma ajuda sobrenatural…

Como fazem alguns bons filmes de terror, Noturno sugere muito e mostra pouco e ainda deixa um final um pouco em aberto, cabendo interpretações. Não deixa de ser uma estratégia duvidosa, já que joga a resolução para o público, mas funciona bem. Sweeney, cuja personagem na série Euphoria tem uma forte carga sexual, se dá bem também como uma menina tímida, retraída e ressentida. Mérito também da roteirista e diretora estreante Zu Quirke, que faz ótimas escolhas e nos deixa no aguardo por novos trabalhos.

Sydney Sweeney tem uma boa chance para brilhar em Noturno

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Netflix nos leva ao julgamento dos 7 de Chicago

Entre os grandes vilões do Cinema, já há uma vaga garantida para o juiz Julius Hoffman, e com o diferencial de ele ter realmente existido. Hoffman presidiu o julgamento do caso que agora chega à Netflix numa adaptação fantástica de Aaron Sorkin. Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7, 2020) traz o que o diretor e roteirista faz de melhor: diálogos diretos, inteligentes e enxutos. Nem precisava ter tantos ótimos atores. Ou tratar de assuntos tão atuais.

Em setembro de 1968, a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã seguia firme, jovens eram enviados ao outro país aos milhares e o número de mortos crescia a cada dia. Grupos estudantis e pacifistas iam aproveitar a convenção do Partido Democrata, que escolheria o candidato da próxima eleição à presidência, para fazer uma grande manifestação. A prefeitura de Chicago negou todos os pedidos que recebeu de autorização para marchas, comícios ou qualquer outro tipo de aglomeração.

O único evento que pôde ser realizado oficialmente foi um show habitual no extremo sul do parque Grant, onde 15 mil pessoas se reuniram. De lá, decidiram rumar à convenção, ganhando a adesão de milhares que estavam espalhados em outros atos. A polícia logo se organizou e cercou os manifestantes, partindo para o confronto e agredindo de forma indiscriminada. Muita gente foi machucada e presa ao longo de cinco dias e a conduta desgovernada da polícia ficou comprovada após uma longa investigação.

Com a eleição de Nixon para presidente, o Partido Republicano fez as usuais indicações para cargos de confiança e trocou muita gente. Numa espécie de birra, o novo Procurador Geral reabriu o caso determinado a acusar aqueles que eram tidos como líderes do movimento. Com base num dispositivo legal criado no ano anterior, a Procuradoria conseguiu montar uma acusação contra oito indivíduos que não necessariamente se conheciam ou tinham qualquer contato entre si.

Os supostos crimes seriam cruzar fronteiras estaduais para incitar revoltas, ensinar os manifestantes a produzirem bombas e impedir os policiais de cumprirem seus deveres. Os acusados pertenciam a grupos diferentes e suas personalidades não poderiam ser mais diversas. A única coisa que tinham em comum era o fato de pregarem o fim da guerra. Todos os fatos narrados acima são apresentados rapidamente para que se possa chegar ao tal julgamento do título (original), que ocupa as duas horas do filme.

Ao contrário do que possa parecer, a sessão flui muito bem, ancorada por diálogos interessantes e atuações inspiradas. Sacha Baron Cohen (abaixo), mais lembrado por comédias escrachadas como Borat (2006), se despe de qualquer maneirismo que possa usar e dá vida a Abbie Hoffman, um dos principais acusados. O trabalho do ator inglês está impecável como o hippie americano que sabia bem como entreter plateias, mas falava com muita sinceridade. Desde as primeiras exibições, Cohen já é dado como certo nas principais premiações do Cinema, um reconhecimento muito merecido e que ajudaria a diminuir o estigma que recai em comediantes, de que seriam “apenas comediantes”.

Outra estrela do elenco é o oscarizado Eddie Redmayne (o Newt de Animais Fantásticos), esse sim bem limitado em suas caracterizações. No entanto, Redmayne oferece uma atuação sóbria, correta, reforçando a impressão de que seu personagem se consideraria intelectual e moralmente superior aos demais. Tom Hayden acabou ficando famoso anos depois por se casar com a atriz e ativista Jane Fonda. Redmayne lhe faz justiça e tem certa semelhança física. Só é claramente bem mais velho que seu personagem.

Até então com dois grandes vilões na carreira, o Esqueleto de Mestres do Universo (Masters of the Universe, 1987) e Richard Nixon em Frost/Nixon (2008), Frank Langella tem a difícil missão de tornar crível uma figura que, de tão obtusa e preconceituosa, parece inventada. É curioso ver um juiz, à frente de um julgamento, que parece ter sua opinião formada desde a véspera, e Langella nos faz acreditar piamente que uma pessoa poderia agir daquela forma. Hoje, o que não falta é material de pesquisa para o ator, que tem vários modelos onde se espelhar.

Um ator que parece ter surgido há apenas cinco anos (o que está longe de ser verdade) é Mark Rylance. Com Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015), ele chamou muita atenção, ganhou Oscar e vem escolhendo a dedo seus papéis. Em Os 7 de Chicago, ele é um dos advogados e consegue passar toda a sua indignação em suas expressões. A cada momento que Rylance abre a boca, temos uma aula de interpretação. Ben Shenkman (de Namorados para Sempre, 2010) é competente como o outro advogado de defesa, mas some ao lado de Rylance.

Dentre os demais acusados, temos ainda a presença poderosa de Yahya Abdul-Mateen II (um dos vilões de Aquaman, 2018 – acima, com Rylance) como Bobby Seale, um dos líderes nacionais dos Panteras Negras, que estava em julgamento apenas por ser negro, já que não tinha nada a ver com a questão tratada. Era, inclusive, o oitavo dos sete. A atuação do juiz em relação a Seale é inacreditável e a firmeza de caráter do Pantera Negra foi decisiva para ele. O ator, premiado recentemente por sua participação na minissérie Watchmen, ainda será muito comentado e em breve aparecerá na nova versão de Candyman.

Um elenco que, além dos citados, traz Joseph Gordon-Levitt, Michael Keaton, John Carroll Lynch, Jeremy Strong e Alex Sharp mostra a força que Sorkin tem na indústria cinematográfica. Todos querem ler roteiros escritos por ele, que ganhou muitos prêmios por A Rede Social (The Social Network, 2010) e tem diversos outros trabalhos elogiados, como a série The West Wing. Lembra daquele duelo verbal entre Jack Nicholson e Tom Cruise em Questão de Honra (A Few Good Men, 1992)? Pois é, Aaron Sorkin, em sua estreia no Cinema.

Não fosse pelo ótimo figurino, pareceria que a trama de Os 7 de Chicago era atual. A forma como os fatos são distorcidos, como a verdade é montada por quem está em posição de fazê-lo. Coisas absurdas acontecem, e são ditas, e só resta a quem está em volta ficar pasmo. Ou se manifestar, como alguns fazem, e ser citado por desacato. O circo armado é tão fora da realidade que alguns dos acusados não acreditam que possam de fato ser condenados, e que aquilo trará consequências reais. Esse tipo de situação, que parece louca demais para ser verdade, se não é devidamente combatida, permite que certos ignóbeis cheguem ao poder. E essa é a crítica que Sorkin parece fazer. Nada mais apropriado ao momento.

Langella consegue ser crível e inacreditável ao mesmo tempo

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Guy Ritchie nos apresenta aos Magnatas do Crime

Quem conhece os filmes de Guy Ritchie sabe bem o que esperar de Magnatas do Crime (The Gentlemen, 2019), longa que está disponível para aluguel no Now. O diretor convocou um elenco bem sortido para contar uma história cheia de tiros, drogas, socos e gente caindo das alturas. Violência não falta, e se alterna com cenas das quais rimos de nervoso. Nenhum dos personagens vale nada e ainda assim torcemos por alguns deles, os principais. Mérito de Ritchie e seu estilo rápido de montagem e diálogos.

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998) e Snatch: Porcos e Diamantes (2000) são os primeiros longas assinados por Ritchie. Os elementos que os compõem seguem de uma maneira parecida e o trio se fecha com Rock’n’Rolla (2008). Esses três, mais que os outros, podem ser tidos como a marca registrada do diretor. Magnatas retoma essa fórmula: um roteiro intrincado, assinado pelo próprio Ritchie, onde muita coisa é jogada para o público para, em algum momento, tudo se encaixar.

Encabeçando o elenco, temos Matthew McConaughey (de A Torre Negra, 2017) vivendo algo raro num filme do inglês Ritchie: um protagonista norte-americano. Michael Pearson foi à Inglaterra estudar e acabou aprendendo todos os passos da produção de maconha. Ao contrário dos rapazes de Selvagens (Savages, 2012), que tem uma premissa similar, ele montou um império das drogas e ocasionalmente empregava violência, quando era necessário se impor. Por uma série de fatores, Mickey decide que é hora de parar e vender tudo.

Repetindo alguns atores de trabalhos passados, Ritchie convoca vários de seus compatriotas para contar essa história. Charlie Hunnan (de Rei Arthur, 2017) e Hugh Grant (de O Agente da U.N.C.L.E., 2015) são figurinhas repetidas, e temos ainda Michelle Dockery (de Downton Abbey, 2019), Jeremy Strong (da série Succession), Colin Farrell (de Dumbo, 2019), Henry Golding (de Um Pequeno Favor, 2018) e Eddie Marsan (dos dois Sherlock Holmes de Ritchie). Todos estão muito bem, mas o charme de Grant rouba um pouco da atenção dos demais, e o roteiro permite a ele algumas brincadeiras, como uma referência a O Agente da UNCLE.

Além da trilha instrumental de Christopher Benstead, Magnatas traz várias músicas interessantes ao longo da sessão, fechando com a ótima That’s Entertainment, de The Jam. Este é outro ponto frequente na carreira do diretor. Apresentado para a Miramax originalmente como uma série de TV, o projeto acabou virando um filme e, agora sim, voltará às origens como série, ainda sem data para estrear. Ritchie tem outros dois trabalhos engatilhados, entre eles a sequência de seu Aladdin (2019). O sucesso comercial não é garantido, mas atualmente ele está numa onda boa.

Ritchie comanda McConaughey e Hunnan em cena do filme

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Garotos são a salvação contra os vampiros no Bronx

Mais um produto a alimentar a nostalgia de quem cresceu nos anos 80, Vampiros X O Bronx (Vampires vs. The Bronx, 2020) é uma aventura rápida e divertida. Sempre mantendo um tom bem-humorado, o filme toca em alguns assuntos importantes, de ordem econômica, mas busca apenas entreter. Em menos de 90 minutos, tudo é resolvido de forma satisfatória, sem grandes pretensões, como se fosse um episódio mais longo de uma série como Stranger Things.

Misturando o clima de obras como Os Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987), Os Goonies (The Goonies, 1985) e outras da mesma década, o longa vai direto ao assunto, mostrando que vizinhos indesejáveis chegaram na região e é questão de tempo até a identidade deles ser descoberta. Sob a fachada da imobiliária Murnau, numa clara homenagem ao diretor de Nosferatu (1922), os vampiros estão adquirindo imóveis sob a desculpa de modernizar a vizinhança.

O fenômeno pode ser observado em grandes centros urbanos e chama-se gentrificação. Os valores aumentam, os moradores não conseguem se manter e vão se mudando para a periferia. O antigo salão de cabeleireiro se transforma numa lanchonete chique e, assim, a cara do bairro vai mudando. Os conhecidos entregam os imóveis e os marcos da infância têm um fim. Um deles, para os garotos da trama, é a Bodega do Tony (The Kid Mero, da série Desus & Mero), a lanchonete onde eles se reúnem para jogar videogame.

Miguel, o Prefeitozinho (Jaden Michael, de The Get Down), é o garoto mais conhecido da área, está sempre tentando resolver os problemas alheios e prepara uma festa para arrecadar fundos para ajudar Tony. Ele e os amigos Bobby (Gerald Jones III, também de The Get Down) e Luis (Gregory Diaz IV, de Unbreakable Kimmy Schmidt) se alternam entre suas causas, brincadeiras e as propostas de trabalho do chefe do crime local.

Em meio ao sumiço de conhecidos e à chegada de novos vizinhos bem estranhos, o trio logo deduz o inevitável: são vampiros se alimentando da parcela menos importante da população, daqueles de quem ninguém sentirá falta. As críticas sociais são bem superficiais e rapidamente aparecem os dentuços chupadores de sangue para movimentarem as coisas. A fotografia urbana aproveita bem o bairro, praticamente o tornando um personagem. O responsável, Blake McClure, já havia trabalhado com o diretor Osmany Rodriguez em séries como Saturday Night Live, o que deve facilitar a sintonia.

O roteiro de Blaise Hemingway, baseado numa história do próprio McClure, é enxuto e nem por isso deixa de lado as referências do gênero. O fato de um dos meninos ser aficcionado por terror faz com que ele vá soltando os clichês e o público pode acompanhar, caso não os conheça. Um elemento ou outro é esperado, mas a mistura funciona bem. Ainda temos como bônus a participação de algumas caras conhecidas, como Shea Whigham (de Coringa, 2019), Sarah Gadon (de Castle Rock) e Method Man (do Shaft de 2019). E uma ponta de Zoe “Gamora” Saldana.

Podia ser uma banda de rock, mas são os novos vampiros da vizinhança

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Vigiados é uma boa estreia de Dave Franco

Fazendo sua estreia como diretor, Dave Franco (ator em Nerve, 2016) mostra que está no caminho certo com Vigiados (The Rental, 2020), terror já disponível na Amazon Prime Video. Construindo bem uma atmosfera de tensão, Franco dá uma chacoalhada nos clichês habituais do gênero, fazendo questão de quebrá-los e de oferecer algumas surpresas para o público.

A velha história do fim de semana numa casa afastada sofreu uma boa atualização: dessa vez, temos dois casais alugando uma mansão isolada, com uma praia abaixo e um penhasco no meio. Se o título original só menciona a casa alugada, o nacional deixa claro que há alguém à espreita. Os jogos sexuais também se transformam: não são adolescentes cheios de hormônios, mas um jovem empresário com a esposa e a sócia dele com o namorado, e os dois homens são irmãos com alguns conflitos entre eles.

Logo no início, já entendemos que há uma extrema admiração e carinho entre os sócios. Um vislumbre de xenofobia é percebido e rapidamente se torna uma questão a ser resolvida. E o irmão mais novo e menos responsável desrespeita as regras da casa levando um cachorro. Estes são os elementos que colocarão os acontecimentos em andamento.

A belíssima casa e o cenário paradisíaco em volta são muito bem explorados pela fotografia de Christian Sprenger (das séries Glow e Atlanta). Os cômodos, inclusive, ajudam no suspense e a perverter os clichês. Dos personagens, sabemos apenas o necessário para nos situarmos, e o roteiro brinca com a nossa percepção. Com tantos filmes com uma premissa similar, já chegamos com certas expectativas, e os roteiristas Franco e Joe Swanberg (de Easy) são espertos e jogam com isso.

Do elenco, o destaque é Alison Brie, de séries como Mad Men e Community e esposa do diretor. Ela faz uma personagem aparentemente antipática, mas dá para entender o lado dela e atriz evita estereótipos. O marido é vivido por Dan Stevens, que ainda tenta se encontrar depois de deixar o drama da TV Downton Abbey e a recém-finalizada Legião. No outro casal, temos Sheila Vand (de Operação Fronteira, 2019) e Jeremy Allen White (de Shameless), ambos muito bem em seus papéis.

Personagens inteligentes são sempre bem-vindos, e é interessante acompanhar as reações deles às situações que vão se sucedendo. O final é mais do que satisfatório, deixando o filme acima da média. São 90 minutos divertidos e que fazem pensar, começando pelas dificuldades que quem não é branco, padrão, enfrenta para conseguir contratar serviços. O risco que se corre ao negociar com desconhecidos também é considerável.

Franco e Brie aproveitaram a oportunidade para trabalharem juntos novamente

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Bom Dia, Verônica decepciona já no segundo episódio

Dois nomes famosos na literatura brasileira decidiram se unir e lançar um livro sob um pseudônimo. Foi criada a misteriosa Andrea Killmore, uma ex-policial com a identidade protegida devido a seu passado. A obra que saiu daí, bem vendida e comentada, é Bom Dia, Verônica, cuja adaptação acaba de chegar à Netflix em oito capítulos curtos. Dá para assistir à temporada completa em um domingo e passar o resto da semana com raiva.

O visual da série era promissor. Um elenco competente, uma produção bem cuidada. Por trás da atração, o próprio Raphael Montes, 50% de Andrea Killmore, contando no roteiro com sua colega Ilana Casoy, os outros 50. Com um envolvimento tão grande dos dois, e com a Zola Filmes por trás, era de se esperar algo fiel e inovador. Talvez, arrojado como O Doutrinador (2018), ou descolado como Mandrake. O que temos é uma sequência de situações constrangedoras que fazem o público se arrepender de ter começado.

No primeiro episódio, conhecemos a escrivã da polícia Verônica Torres (Tainá Müller, de Bingo: O Rei das Manhãs, 2017), uma mãe de família tranquila que faz seu trabalho com o máximo de discrição. Isso até uma desconhecida aproveitar uma confusão para pegar uma arma e meter uma bala na própria cabeça. O que levaria uma mulher a se matar, que desespero levaria uma pessoa a um ato tão extremo? Verônica começa a investigar e descobre um golpista que dopa e rouba suas vítimas, que obviamente saem disso humilhadas.

No segundo episódio, uma cena de violência mais gráfica pode afastar os mais sensíveis. Se você insistir, logo verá uma das personagens mais burras da televisão nacional, do tipo que para de carro na frente de um restaurante onde um flagrante – sem a participação dela – está armado para acontecer, prestes a estragar tudo. Daí em diante, é fácil ficar irritado com as coisas que se seguem, personagens se alternando entre momentos de sagacidade e de pura estupidez.

Uma parte da história que é bem construída e pode fazer com que o espectador se motive a continuar é a do casal que vive uma relação perversa de dominação e crime. Camila Morgado (a eterna Olga, 2004) e Eduardo Moscovis (de Corações Sujos, 2011) mais do que convencem como o militar psicopata e a esposa torturada que acaba servindo de cúmplice, mas nunca deixa de ser vítima.

Se esse núcleo parece ter uma profundidade psicológica maior, o resto da história segue no raso de sempre. A protagonista, claro, precisa ter questões mal resolvidas que acabarão numa teia de coincidências bem forçadas e sempre mal explicadas. Tudo acontece por que mesmo? Não sabemos, já que explicações não são o forte da série. Depois de chamar seu público de idiota, Bom Dia, Verônica termina como as piores produções norte-americanas, aquelas que você já critica de antemão, dizendo que nunca assistirá a uma bobagem dessa.

Ilana Casoy e Raphael Montes são os autores

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Conheça o passado da Enfermeira Ratched

Toda uma trilogia de Star Wars foi criada para contar a infância e adolescência de Darth Vader, e o resultado não foi dos melhores. Hannibal Lecter teve sua maldade explicada num longa sofrível. Talvez o Coringa tenha sido uma exceção numa regra que vem valendo há tempos. E, ainda assim, porque os quadrinhos permitem várias interpretações.

Se tem um filão no Cinema e na TV que não deveria ter dado frutos é o do filme/série de origem. Conhecemos um personagem maligno, sedutor ou enigmático de alguma forma, e anos depois alguém resolve contar como ele ou ela chegou lá. É preciso traçar um passado cuidadoso que acabe encontrando-se com a obra canônica de forma harmônica.

Pois chegou a vez da Enfermeira Ratched ter sua vida esmiuçada. “Quem?”, você pode estar pensando. Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cukoo’s Nest) é um dos grandes filmes de 1975 e foi apenas o segundo na história (Lecter está no terceiro) a ganhar os cinco Oscars considerados principais: Melhor Filme (para os produtores Saul Zaentz e Michael Douglas), Melhor Ator (para Jack Nicholson), Melhor Roteiro (no caso, adaptado, para Lawrence Hauben e Bo Goldman), Melhor Diretor (para o grande Milos Forman) e Melhor Atriz (para Louise Fletcher).

Na história (baseada no livro de Ken Kesey), o criminoso vivido por Nicholson consegue ser declarado insano na esperança de ter uma vida mansa no hospício, melhor do que na prisão. E, de fato, ele chega mobilizando os colegas, que são mesmo doentes,  a se rebelarem contra o pulso de ferro da enfermeira-chefe. Mas McMurphy encontrou em Mildred Ratched uma oponente formidável e o duelo entre Nicholson e Fletcher é bonito de se ver. Não a toa, ambos foram muito premiados.

Décadas mais tarde, o produtor Ryan Murphy voltou sua atenção para a personagem e conseguiu sinal verde da Netflix para contar a vida pregressa dela. Depois de The Politician e Hollywood, Ratched é a nova parceria entre os dois nomes de peso. Ao lado de Evan Romansky, Murphy voltou aos anos 40 para nos revelar como a icônica enfermeira chegou à situação na qual a encontramos nos anos 60 de Um Estranho no Ninho.

Parecendo aproveitar cenários e figurinos de Feud e Hollywood, a suntuosa produção traz Sarah Paulson como uma Mildred mais nova, sempre muito elegante e guardando planos que logo nos são revelados. E é rápido mesmo! Velha conhecida de Murphy, das séries American Horror Story e American Crime Story, a atriz está sempre muito acima da média, fazendo o melhor com o que o roteiro lhe dá. O que complica seu trabalho é o tom da história, que insiste em mudar bruscamente.

Digamos que alguém estivesse interessado em conhecer o passado de Ratched. Como retratada por Fletcher, a personagem é extremamente calculista, econômica em seus movimentos e diálogos. Ela inclusive aparece pouco no filme, mas tem uma presença magnética que atrai todos os olhares. Tornar uma figura como essa protagonista já desperdiça seus traços mais marcantes. E o desenvolvimento exigido de Paulson fica sem parâmetro ou referência. Não conseguimos enxergar as duas personagens como uma só.

Quando a série começa, Ratched corresponde ao que podemos esperar: uma pessoa sombria, que usa sorrisos quando necessário e só se aproxima de alguém quando realmente precisa. A manipulação logo começa, com Ratched jogando com as pessoas para atingir seus interesses. Mas em pouco tempo descobrimos qualquer segredo que ela pudesse esconder e ela parece baixar a guarda, criando sentimentos e emoções em determinadas situações.

É nesse ponto que o roteiro, de responsabilidade de Murphy, Romansky, Ian Brennan e Jennifer Salt, derruba o trabalho de Paulson. Ela não consegue seguir um caminho, e isso dá a impressão de que não havia um planejamento – por mais que houvesse. A atriz entrou por poucos minutos em The Post (2017) e, em apenas uma cena, mostrou uma interpretação que profissionais passam a vida tentando alcançar. Fica muito claro que sua missão foi cumprida.

Vivendo o assassino Edmund Tolleson, Finn Wittrock (também de AHS e ACS – abaixo) se sai bem porque, além de ser um bom ator, não tem nenhuma expectativa prévia a cumprir. Seu personagem é novo e não sabemos nada dele. E assim é com os demais, todos criados especialmente para a série. Como de costume nas produções de Murphy, os tipos razoavelmente normais se cruzam com figuras forçadamente complicadas, exageradas, que talvez estivessem melhor encaixadas numa comédia.

Além de nomes menos conhecidos, como Jon Jon Briones (de AHS e ACS), Charlie Carver (de Te Pego na Saída, 2017) e Alice Engler (de Top of the Lake), o elenco traz rostos consagrados. Ninguém menos que Sharon Stone (vista recentemente em A Lavanderia, 2019) dá as caras, além de Cynthia Nixon (de Sex and the City), Judy Davis (de Feud), Amanda Plummer (a Honey Bunny de Pulp Fiction, 1994), Sophie Okonedo (de Hellboy, 2019) e Corey Stoll (de O Primeiro Homem, 2018). Vincent D’Onofrio, o Rei do Crime, merece menção especial pela competência como um político nojento que parece inspirado por um certo ex-governador carioca.

Com tantas atrizes competentes, dá para perceber que o viés feminino é forte na série, e este é um ponto alto. Afinal, temos uma protagonista, e não um. Mas Murphy mostra que, no drama, se sai bem melhor com uma história (quase) real do que com ficção pura. Muitos dos personagens parecem apenas cumprir sua obrigação, desperdiçando grandes intérpretes. Ainda teremos mais uma temporada antes que Ratched conheça McMurphy e as críticas negativas podem fazer com que o produtor repense algumas coisas. A enfermeira voltará a atacar.

Fletcher e Paulson são brilhantes, mas não parece ser a mesma personagem

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Sherlock Holmes ganha uma irmã à sua altura

O mais famoso detetive da literatura mundial dispensa apresentações. Certamente, você já está pensando em Sherlock Holmes. Suas histórias são tão populares que é comum autores contemporâneos criarem em cima do que Conan Doyle escreveu, expandindo seu universo de aventuras. É isso que fez Nancy Springer, que inventou uma irmã mais nova para o personagem. Enola é igualmente brilhante, apesar de ainda adolescente, e seu primeiro longa acaba de chegar à Netflix.

O primeiro dos seis livros escritos por Springer serve de base para o roteiro de Jack Thorne (de Extraordinário, 2017), que corre para apresentar a garota e resolver os primeiros mistérios em duas horas. E a obra é o veículo ideal para Millie Bobby Brown, desvinculando a atriz da série que a revelou, Stranger Things, na qual vive a paranormal Eleven. Em diversos figurinos e visuais, ela mostra versatilidade e simpatia, nos fazendo realmente crer que Enola é bem inteligente e hábil. As quebras da quarta parede atingem o limite do engraçadinho, mas não chegam a cansar, transmitindo os pensamentos dela.

Chamado apenas Enola Holmes (2020), como que começando uma franquia, o filme nos leva aos arredores de Londres, numa enorme mansão onde vivem a garota e sua mãe, vivida por Helena Bonham Carter (de Oito Mulheres e Um Segredo, 2018). Longe de escolas tradicionais, Enola cresce lendo todo tipo de livro, revezando o estudo teórico com lutas e exercícios ao ar livre. Criada para não depender de homem algum, ela é produto do feminismo da mãe, extremamente envolvida na luta por direitos iguais entre os gêneros. O assunto é tocado apenas superficialmente, quando conveniente.

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Enola tem dois irmãos famosos, e sente o peso do sobrenome Holmes. Sherlock (o “Superman” Henry Cavill), o irmão do meio, é muito famoso por ser um exímio detetive. Como é mostrado mais jovem, ele ainda não é tão arrogante e seguro, e Cavill lhe dá um ar mais tímido. E isso se dá muito por causa da relação com o irmão mais velho e ligeiramente antipático, Mycroft (Sam Claflin, de Peaky Blinders e As Panteras, 2019), o primogênito, que acaba representando uma figura paterna. A relação entre os irmãos é bem interessante – mesmo que a diferença de idade entre os atores seja menor e, na verdade, o mais velho seja Cavill.

Pouco depois de conhecermos mãe e filha, a mãe some e o filme engata. Enola terá uma oportunidade de mostrar seus dotes investigativos tendo a maior motivação possível: encontrar a própria mãe. Para chacoalhar as coisas, ela acaba se envolvendo com um caso paralelo: um jovem nobre fugitivo (Louis Partridge, de Paddington 2, 2017). O filme perde um pouco do foco nesse ponto e resiste bravamente a se tornar uma comédia romântica bobinha, mas a ação segue louca pelas ruas de Londres.

No início, por ser protagonizada por uma adolescente, o filme parece que vai seguir por um caminho mais infantilizado. Rapidamente essa percepção é corrigida e acompanhamos uma personagem esperta, realista, que lembra de situações da sua infância para justificar habilidades mostradas (meio como em Quem Quer Ser um Milionário?, 2008). Enola honra o universo de Sherlock e, ao mesmo tempo, evoca uma aura meio Tom Sawyer, aquela coisa de aventura juvenil. A Londres da época é muito bem reconstituída e torna a obra mais atraente.

O elenco inglês segura muito bem Enola Holmes. Além dos já citados, todos adequados, é importante lembrar de Fiona Shaw (de Fleabag), grande veterana que segura bem um papel um pouco esquemático, mas ainda assim crível. Harry Bradbeer, diretor de séries muito elogiadas (como Fleabag e Killing Eve), consegue cobrir o material de forma dinâmica e costura um filme divertido, que consegue superar os problemas cronológicos e a falta de resolução da questão principal. Fica para os próximos!

A quebra da quarta parede chega perto de cansar
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Amor Garantido é nova atração na Netflix

 

Trago de volta a pessoa amada em 03 dias.” “Envie a palavra amor para 482**.” “It’s a match!” O amor pode não ser um produto, mas que existe toda uma indústria à sua volta, existe! E é algo nessa linha que vemos em Amor Garantido (Love, Guaranteed, 2020), a nova comédia romântica original da Netflix, que inclusive está atualmente no Top 10 filmes no Brasil.

Nick Evans (Damon Wayans Jr., de séries como Harry Quebert e New Girl) é um charmoso solteirão que se inscreve em um site de encontros que promete a seus assinantes “amor garantido”. Se sentindo enganado após 986 encontros que não lhe trouxeram amor algum, Nick procura uma advogada, Susan Whitaker (Rachael Leigh Cook, do “clássico” Ela É Demais, 1999), para processar a empresa que enganou não apenas ele, mas centenas de outras pessoas. Inicialmente, Susan reluta em pegar o caso, pois acredita que Nick seja um cafajeste oportunista, mas acaba cedendo devido a suas finanças, que não vão nada bem, apesar de ser uma excelente advogada.

Trata-se de uma comédia romântica nos moldes mais tradicionais, ou seja, recheada de clichês. A trama reúne dois personagens que inicialmente não se dão muito bem, mas que durante caminhadas pelo parque, ou até o carro, descobrem que são mais parecidos do que imaginavam. O cenário da história é a cidade de Seattle, com lindas paisagens e folhagens de outono para criar um clima bem romântico. A trilha sonora com Tiffany parece referenciar a comédias românticas das décadas de 90 e 2000.

Os protagonistas são simpáticos, atraentes e possuem aquelas inseguranças de quem tem medo de se entregar no amor e se machucar. Os coadjuvantes são estereotipados e sem muita profundidade, estão ali apenas como escadinha para as piadas e sacadas dos protagonistas. Tudo é construído para que o público torça pelo casal em destaque e desgoste dos vilões. Eles são obviamente a dona do site, Tamara Taylor (Heather Graham, de Law & Order: True Crime), uma life coach bilionária e totalmente exagerada, e seu advogado, Bill Jones (Jed Reeves, de Feito na América, 2017), que tem nome e risada de vilão de filmes da sessão da tarde.

Nem tudo é problema. Alguns acertos são as referências à aclamada série Friends, a montagem com os encontros fracassados de Nick e o protagonismo de Leigh Cook, que também é produtora do longa. Cook ficou famosa ao estrelar Ela é Demais, mas não havia emplacado nenhum outro grande sucesso após. A direção fica por conta de Mark Steven Johnson, responsável pelos medonhos Demolidor e Motoqueiro Fantasma.

Amor Garantido vai surpreender um total de zero pessoas com sua trama e mesmo com seu desfecho. Desde o começo, a proposta não é contar uma história que ainda não conhecemos. O objetivo é fazer o espectador se identificar com os encontros malsucedidos via aplicativos e com as piadas leves. Assim como no amor, não há garantias, mas não faz mal dar uma chance a essa despretensiosa obra de apenas 90 minutos.

A linda Graham é uma life coach desvairada

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O Dilema das Redes alimenta uma discussão necessária

O assunto do momento é o documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma, 2020), disponível na Netflix. Ele, na verdade, não traz novidades, mas é tão impactante por duas razões: as pessoas que dão depoimentos são os próprios protagonistas da criação e desenvolvimento dos aplicativos mencionados; há uma dramatização simpática (ainda que capenga) que mostra de uma forma simples a profundidade da questão. Ou questões, já que o uso indiscriminado e frequente das redes sociais traz diversas consequências.

O diretor Jeff Orlowski mudou seu foco usual, a natureza, e optou por observar o impacto das redes sociais na sociedade e no nosso comportamento. Crianças e adultos são igualmente atingidos, seja pelos tais algoritmos, seja pelas próprias pessoas com quem se convive. Para quem não está muito ligado no assunto, cabe explicar que os algoritmos são regras criadas na programação dos aplicativos que visam manter o usuário o máximo de tempo conectado, oferecendo conteúdo considerado interessante ou relacionado. Se você viu X, pode ser que goste de Y e assim por diante. Isso também vale para conectar pessoas: se você é amigo de X, deve conhecer Y.

A dramatização, uma espécie de novelinha que mostra na prática as consequências do que é tratado, conta com pelos menos duas caras conhecidas: o jovem Skylar Gisondo (de séries como Santa Clarita Diet  – abaixo) e Vincent Kartheiser (o Pete de Mad Men). Quem mais comove, no entanto, é a garotinha Sophia Hammons, que mostra uma possível causa para um significativo aumento nos números relacionados a casos de depressão e suicídios. Além do problema ligado aos algoritmos, tem também a ilusão que as postagens criam das vidas e aparências ideais. No mundo real, ninguém é perfeito, mas no Instagram um filtro (ou um ângulo) resolve muita coisa.

Partindo do pessoal, o documentário logo chega à sociedade como um todo, mostrando possibilidades que os algoritmos criam ao seguir as preferências dos usuários das redes. Uma pessoa que lê sobre uma teoria da conspiração X acaba chegando a outra Y, tão sem fundamento quanto a anterior. Mas a bolha criada pelo algoritmo logo faz quem não acredita na gravidade de uma pandemia crer também que exista uma rede que trafica crianças e as esconde em subsolos de pizzarias. Daí a repetir que a Terra é plana, que o homem nunca pisou na lua ou que o ataque ao World Trade Center não passou de um jogo de projeções holográficas dos próprios norte-americanos é um pulo.

A manipulação clara que os aplicativos causam pode ser a culpada até pela eleição ou deposição de governos. Como já se tornou comum, o Brasil aparece no meio da retrospectiva feita, nunca mais de forma positiva. Alguns países sofrem com a propagação de mentiras (ou fake news, como preferirem), acabando com a imagem de políticos e privilegiando outros com as invenções mais fantásticas. Quando as pessoas escolhem acreditar, provas não servem para nada. O que está claro e provado pode ser desacreditado, da mesma forma que não é necessário provar o que foi lido na internet. Afinal, se está lá, deve ser verdade.

O Dilema das Redes, como pode-se ver, traz vários pontos positivos e chama a atenção para problemas reais e enormes. “Não estou entendendo bem ou isso é muito grave?”, pergunta um senador norte-americano numa audiência. Tristan Harris (acima), ex-designer do Google, só balança a cabeça, concordando. Ele é um dos muitos profissionais do Vale do Silício que aparecem dando depoimento sobre as questões levantadas. O documentário ganha muito valor ao mostrar o que pensam essas pessoas, que estavam envolvidas com essas ferramentas desde a concepção delas. A preocupação de todos eles, que até alertam e censuram os próprios filhos por saberem da extensão da situação, deixa mais do que clara a gravidade do problema.

É aí que observamos o maior defeito de O Dilema das Redes: colocar como possíveis salvadores da humanidade os mesmos caras que criaram toda essa situação. Depois de ganharem fama e dinheiro, e aproveitarem bastante essa posição, eles criaram uma consciência e decidiram alertar para o mal que ajudaram a parir. Colocar a possibilidade de curtir postagens ou mandar corações era uma tentativa de trazer positividade ao mundo, como eles dizem, e acabou gerando ansiedade em quem não tem likes o suficiente. Serão eles a resolverem essa bucha agora?

Está bem claro que uma solução para todos os pontos levantados pelo documentário não virá de dentro dessa indústria. Figuras como Jaron Lanier já alertam para os malefícios das redes sociais há algum tempo, e escrevem livros inteiros que podem ser resumidos em: não tenham perfis. Enquanto isso, diversos acadêmicos que estudam o fenômeno propõem soluções diferentes. A maioria delas passa pelo simples abandono de técnicas para roubar e armazenar informações, o que vários softwares já fazem. Existem opções de navegadores que não gravam suas visitas ou usam esses dados para tentar te manipular.

Os realizadores de O Dilema das Redes evitam possíveis respostas óbvias, que talvez as grandes empresas de tecnologia não queiram discutir. Escândalos nessa direção tendem a se tornar mais frequentes, como o da Cambridge Analytica (visto em Privacidade Hackeada, 2019), cujas análises teriam praticamente eleito Donald Trump nos Estados Unidos. Esse é outro defeito do documentário: ele aponta casos pelo mundo, mas opta por ignorar aqueles ocorridos dentro de casa. Como filme, ele é bem fraco. Como fonte de informação, vemos o tamanho do buraco no qual nos enfiamos, porém sem indicar saídas. Afinal, como você chegou a assistir a O Dilema das Redes? Foi a Netflix que sugeriu?

A busca de aceitação da garota é algo muito real e assustador

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