Doutor Sono retoma O Iluminado e vai além

por Marcelo Seabra

Pelas últimas décadas, fãs tanto do livro (1977) quanto do filme (1980) O Iluminado (The Shining) podem ter se perguntado: o que teria acontecido com Danny Torrance? Vivido no Cinema magistralmente por Jack Nicholson, Jack Torrance enlouqueceu no Hotel Overlook e tentou matar sua mulher e filho. Um belo dia, o próprio Stephen King, autor da história, se fez a mesma pergunta. Foi quando surgiu Doutor Sono (Doctor Sleep), que agora também ganha sua adaptação. Chegou a hora de novamente acompanharmos Danny e saber o que houve.

Depois de tantos traumas, é fácil compreender que ele cresceu de maneira bem atribulada. Alcoólatra como o pai, Danny não se fixa a nenhum lugar, trabalho ou parceira. O grupo Alcoólatras Anônimos lhe dá algum alento e ele consegue emprego como enfermeiro de doentes terminais. Seu “brilho” (ou iluminação) está enterrado no fundo de sua mente, mesmo que vez ou outra veja algo que mais ninguém vê. Mas não adianta fugir de si mesmo, como ele logo entende, e seu passado volta a bater na porta.

Essa é a trama básica de Doutor Sono, que chega agora aos cinemas pelas hábeis mãos de Mike Flanagan. Tendo realizado Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017) para a Netflix, ele já sabia o tamanho do desafio que é adaptar uma história de Stephen King. Tramas que funcionam bem melhor em palavras que em imagens, conclusões discutíveis e fãs ardorosos e extremistas são alguns dos problemas enfrentados. Agora, levando-se em consideração que se trata da sequência de um novo clássico do Cinema, dirigido por um gênio incontestável, a tarefa fica hercúlea.

Pegando o trabalho de onde Stanley Kubrick (1928-1999) deixou, inclusive usando a mesma logomarca do primeiro, Flanagan tapa possíveis buracos e nos leva ao “presente”, que no caso é 2011. É quando reencontramos Dan, e o diretor aproveita para fazer a alegria dos fãs do filme de 1980. Um exemplo: uma personagem mora numa casa exatamente no número 1980. O escritório onde acontece uma entrevista de emprego foi montado da mesma forma de antes. Parece uma série de piscadelas para o público. As referências variam de discretas a bem escancaradas, algo que Jogador Nº 1 (Ready Player One, 2018) também fez bem.

Mas Flanagan não se contenta apenas em homenagear Kubrick. Ele leva a história além e, como roteirista, tem uma missão complicada: atender tanto os fãs do livro quanto do filme, e há diferenças fundamentais. Talvez resida aí o problema de King com o diretor. Mas é importante deixar clara a maior diferença entre os longas. Enquanto O Iluminado é um drama psicológico com elementos sobrenaturais que vai numa crescente rumo ao terror, Doutor Sono já abraça a fantasia de frente. O tom é bem distinto, o que dá uma identidade ímpar a cada obra. Não se trata de comparar as duas, elas seguem seus caminhos. A trilha sonora, dos Newton Brothers, faz o mesmo: aproveita notas para ir adiante.

Outra questão que logo surge: O Iluminado tinha Jack Nicholson, lembrado até hoje como o psicopata do machado derrubando uma porta. Com a benção de King, Ewan McGregor foi o escolhido para viver Dan adulto. O que não deixa de ser irônico, já que o ator é hoje conhecido pelo grande público por interpretar uma versão mais jovem de outro ícone do Cinema: Obi-Wan Kenobi, de Star Wars. McGregor traz as expressões e as emoções necessárias e atende muito bem o papel, e o mesmo pode-se dizer de sua colega. Rebecca Ferguson (de MIB Internacional, 2019) vai de sexy a ameaçadora em poucos quadros, e lidera com força o bando de vilões.

Por mais que os veteranos façam bem seus papéis, o grande destaque acaba sendo a novata Kyliegh Curran (acima). Como a jovem Abra, inexperiente quanto a suas habilidades, mas extremamente poderosa, ela é responsável por bons momentos no filme.  Sua jornada fará os mais cínicos dizerem que é uma estrutura similar à de uma aventura de super-herói. Mas tem algo aqui que falta à Marvel: um autor. Flanagan imprime sua marca, sempre criando um clima interessante. Seus filmes podem até ser um pouco lentos em sua construção, mas geralmente não decepcionam. E ele gosta de repetir atores com quem trabalhou, e aqui temos Bruce Greenwood, Henry Thomas e Carel Struycken de Jogo Perigoso e Jacob Tremblay de O Sono da Morte (Before I Wake, 2016).

Foi o sucesso de It: A Coisa (2017) que fez com que a Warner Bros. encarasse a produção de Doutor Sono. King está sendo descoberto por novas gerações e a cada ano vários de seus livros ganham vida, alguns pela segunda vez (caso de Cemitério Maldito). Quando não em longa-metragem, como série, como The Outsider, Lisey’s Story, The Dark Tower e The Stand, todas com data de estreia próxima. Lembrando que o escritor lança pelo menos um livro por ano, matéria-prima não vai faltar.

Ferguson é a líder do bando de vampiros de vapor

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Ford desafia Ferrari no mundo das corridas

por Marcelo Seabra

Homens brancos, ricos e orgulhosos disputando quem tem o melhor desempenho. Em poucas palavras, essa é a descrição de Ford vs Ferrari (2019), longa que traz um tour de force entre duas montadoras de carros. Por sorte, o filme vai bem mais longe, respeitando seus personagens e nos permitindo conhecê-los um mínimo para que nos importemos com eles. Apesar de se tratar de dois grupos poderosos, não deixa de ser uma batalha entre Davi e Golias, tema recorrente no Cinema.

No início da década de 60, numa tentativa de alavancar a venda de carros, a Ford Motors decidiu partir para as corridas. Para isso, precisaria derrotar o grande campeão, a Ferrari. Quando viu que não conseguiria resolver a questão apenas com dinheiro, Henry Ford II (Tracy Letts, de The Post, 2017) decidiu contratar um projetista e começar do zero. É aí que entra o ex-campeão Carroll Shelby (Matt Damon, de Suburbicon, 2017), que se une ao piloto e mecânico Ken Miles (Christian Bale, de Vice, 2018) para tentarem construir um carro que vencesse as 24 Horas de Le Mans.

James Mangold é um diretor que parece ter a necessidade de identificar vilões quadrinescos mesmo em dramas reais. Foi assim com o pai de Johnny Cash em Johnny e June (Walk the Line, 2005), é assim com o executivo Leo Beebe (Josh Lucas, de Mark Felt, 2017) nesse filme. Uns closes na cara de mau de um piloto italiano praticamente produzem outro vilão. Mas, ao mesmo tempo, temos Lee Iacocca (Jon Bernthal, o Justiceiro) incentivando a dupla, servindo como contrapeso.

Beebe, além de fazer caras e bocas e participar de algumas cenas revoltantes, é a representação do que acontece quando homens de terno se misturam a algo que deveria ser puro, como o esporte. É sabido por todos que há grande interferência do marketing, ou do chamado mercado, sobre os resultados de campeonatos, desde a escolha de quem disputa. Mas, mesmo esperado, não deixa de causar asco. Ford vs Ferrari vai mais fundo nessa questão, o que o torna mais abrangente que outros do gênero, como Rush (2013).

O básico, que esperamos num filme desse tipo, também está lá: a emoção das corridas. Mesmo para leigos, para quem conhece apenas vagamente o nome Ayrton Senna (que nem é da categoria tratada aqui) ou para quem não sabe nada de corridas (acima, os carros reais), o longa diverte e entretém. Shelby e Miles devem ser conhecidos entre os aficionados, o serve como atrativo extra. Mas os leigos vão apreciar tanto quanto, ainda mais tratando-se de duas ótimas atuações. Damon e Bale (que lembra seu papel em O Vencedor, 2010) têm uma boa química, e o elenco é completado por Caitriona Balfe (de Jogo do Poder, 2016) e Noah Jupe (filho de Damon em Suburbicon), que vivem a família de Miles.

O roteiro, escrito por Jason Keller (de Rota de Fuga, 2013) e reescrito por Jez e John-Henry Butterworth (dupla de No Limite do Amanhã, 2014), consegue evitar certas armadilhas e até surpreende. A fotografia é interessante e funcional, já que consegue nos situar nos lugares por onde a trama passa. E a belíssima trilha sonora, que vai de rocks sessentistas a um jazz estilo Dave Brubeck assinado por Marco Beltrami (de Logan, 2017), completa o quadro. Ford vs Ferrari faz rir e chorar enquanto nos leva por curvas perigosas e retas que pedem uma acelerada.

Os atores deram a largada numa prova em Indianápolis

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A Lavanderia e Dolemite são novidades na Netflix

por Marcelo Seabra

Duas produções recentemente divulgadas na Netflix contam histórias reais. Mas esses são os únicos pontos em comum entre A Lavanderia (The Laundromat, 2019) e Meu Nome É Dolemite (Dolemite Is My Name, 2019). Ah, são duas comédias, claro! Mas seguem por caminhos bem diferentes. E o mesmo acontece com os resultados: enquanto um é muito satisfatório, o outro deixa a desejar.

Seguindo a linha dos filmes do diretor Adam McKay (como A Grande Aposta e Vice), Steven Soderbergh e o roteirista Scott Z. Burns tentam contar uma história pesada de forma leve. É a quarta colaboração entre eles, seguindo O Desinformante! (2009), Contágio (2011) e Terapia de Risco (2013). Além de contar com um elenco dos sonhos, eles inserem bom humor e frequentemente quebram a quarta parede para nos oferecerem explicações. Situar o espectador é necessário, ainda mais se tratando de um caso complexo como o dos Panama Papers.

Em 2015, uma fonte anônima vazou 11,5 milhões de documentos de uma firma sediada no Panamá, a Mossack Fonseca. Detalhado no livro Secrecy World, do premiado jornalista Jake Bernstein, o escândalo revelou que os sócios Jürgen Mossack e Ramón Fonseca ajudaram, por décadas, diversos criminosos a lavarem dinheiro de tudo quanto é negócio escuso, de tráfico de drogas a sequestros, passando por propinas, o que envolveu nossa conhecida Odebrecht.

O roteiro de Burns usa a história de um acidente de barco para tornar claros os macetes usados na hora de registrar empresas. Uma é dona da outra, que tem uma subsidiária e faz parte de um conglomerado e assim por diante, o que torna impossível chegar em um responsável. Através da viúva vivida por Meryl Streep (de The Post, 2017), acabamos chegando em Mossack (Gary Oldman, de O Destino de Uma Nação, 2017) e Fonseca (Antonio Banderas, de Dor e Glória, 2019).

Até uma certa parte, as coisas caminham bem, e ainda temos um desfile de rostos conhecidos, como Jeffrey Wright, Sharon Stone, James Cromwell, David Schwimmer, Matthias Schoenaerts e Robert Patrick. Mas a necessidade de ser engraçadinho trai o roteiro e passa a sensação de que os realizadores não queriam de fato criminalizar Mossack e Fonseca. Eles ficam parecendo dois advogados injustiçados, incriminados por seus clientes maldosos. Os ótimos Oldman e Banderas compõem figuras carismáticas, sedutoras, enquanto Streep faz a vítima incansável, que acaba sendo a chata na luta por seus direitos. Esse quadro nos leva a um final desnecessariamente espertinho, em tom de manifesto.

A outra comédia da Netflix, bem menos ambiciosa e muito mais bem-sucedida, é Meu Nome é Dolemite. O papel caiu como uma luva para Eddie Murphy, que estava há três anos longe do Cinema (Mr. Church é de 2016). Ele aprecia esperar por um papel adequado e o acho: o de Rudy Ray Moore, um sujeito comum que sonhava em ser artista. Tentando a vida como comediante, ele não passa de apresentador da banda do amigo Ben (Craig Robinson, de American Dad!).

As coisas mudam quando, numa jogada bem discutível, ele paga umas biritas para um mendigo da região e anota todas as piadas que ouve. Dando uma apimentada no material, ele cria um personagem, Dolemite, e passa a fazer rimas cômicas. Dolemite se veste como um cafetão, com direito a bengala, e viaja por vários clubes dos Estados Unidos com seu show para maiores. Logo, a atenção de pequenos grupos já não é mais suficiente, Rudy quer virar um astro do Cinema.

Apesar de inexperiente, Moore não é bobo. Ele se cerca de quem tem uma mínima ideia do que faz, como o professor e roteirista Jerry Jones (Keegan-Michael Key, de O Rei Leão, 2019) e o ator D’Urville Martin (Wesley Snipes, de Os Mercenários 3, 2014), além de alguns universitários que ajudam na parte técnica. É interessante descobrir que tudo isso realmente aconteceu e o filme Dolemite (1975) é tão tosco quanto podemos supor. Batalhador, Moore corre atrás e contorna todos os obstáculos, e sempre tentando manter o bom humor.

Enquanto Meu Nome É Dolemite parte dos excluídos que buscam ascensão, A Lavanderia faz o caminho inverso: mostra a derrocada dos poderosos advogados. Não deixa de ser interessante conhecer as duas histórias, ambas muito ricas. Mas Dolemite engaja seu público bem mais. O diretor Craig Brewer tem experiência com dramas de personagens fortes, e normalmente traz questões raciais à discussão, como no ótimo Ritmo de Um Sonho (Hustle and Flow, 2005) e na série Empire. A parceria com Murphy deu tão certo que ele já comanda a sequência do quase clássico Um Príncipe em Nova York.

Esse é o verdadeiro Rudy Ray Moore em cena em Dolemite (1975)

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Programa do Pipoqueiro #46

por Marcelo Seabra

Aproveitando o lançamento de El Camino (2019), o Programa do Pipoqueiro visita a série Breaking Bad, trazendo comentários sobre as temporadas e o melhor da trilha sonora! Esta edição conta com a inestimável participação do jornalista Kael Ladislau. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Projeto Gemini tem Will Smith dobrado

por Marcelo Seabra

Em meio a tantas continuações e adaptações de material pré-existente, é de se louvar quando uma obra original e inovadora chega às telas. Mas fica difícil defendê-la quando se trata de Projeto Gemini (Gemini Man, 2019), um filme que depende muito de seus atributos tecnológicos e acabou deixando o roteiro para segundo plano. Will Smith, o protagonista, costuma ser bastante narcisista, com vários closes e poses, mas desta vez ele foi longe demais: temos dois dele.

Na geladeira desde 1997, o projeto passou por várias mãos e teve diversos astros associados a ele até ir parar no colo de Ang Lee. Vencedor do Oscar duas vezes (por Brokeback Mountain, 2005, e As Aventuras de Pi, 2012), o diretor encarou a missão de realizar um longa no chamado 3D+, com 120 frames por segundo – quando o usual é 24. O problema é que pouquíssimos cinemas no mundo estão devidamente preparados para atender essa demanda. Ou seja: a maior parte do público assistiu com os recursos de sempre, perdendo todo o charme que poderia ter tido.

Se você não tem acesso ao grande chamariz do longa, resta prestar atenção ao roteiro. Aí, as coisas ficam feias. A versão final é assinada por Darren Lemke (de Shazam!, 2019), David Benioff (de Game of Thrones) e Billy Ray (de Operação Overlord, 2018), mas a história criada por Lemke foi mexida por diversos roteiristas. Enquanto a tecnologia era desenvolvida, o roteiro era alterado. Não dá para saber como era num primeiro momento. Mas o que chegou às telas não funciona. Um fiapo bobo de trama, salpicado por diálogos manjados, que nos conduzem a um final mais do que esperado.

Smith, visto recentemente com bronzeado azul em Aladdin (2019), vive o provável melhor assassino do mundo. Capaz de tiros improváveis, Henry Brogan consegue acertar até passageiro de trem em alta velocidade. Mas cai num conto do vigário, elimina quem não devia e o governo entra em seu encalço. Liderada por Clay Verris (Clive Owen, de Anon, 2018 – acima), a agência responsável por caçá-lo conta com um trunfo – que era para ser segredo, mas aparece até no cartaz: eles têm um clone mais jovem de Brogan.

A ideia de se criar um clone levanta várias questões. Brogan não nasceu um exímio matador, ele passou por várias experiências que levaram a isso. Um clone não resolveria nada automaticamente. Se Verris é tão fodão a ponto de treinar alguém tão bem, por que ele próprio não foi no encalço de Brogan? Ou não fez um clone de si mesmo? Para evitar spoilers, fiquemos por aqui nos questionamentos. Mas o filme dá muito pano para manga no quesito “furos absurdos”. Mary Elizabeth Winstead (acima) e Benedict Wong são bons atores, mas suas personagens não acrescentam muita coisa.

Além de desperdiçar os atores, Projeto Gemini é um grande desperdício do diretor. Lee consegue criar umas sequências interessantes, como a da moto. Mas não dá para ir longe com esse arremedo de roteiro. Tudo, da fotografia à trilha, acaba sendo meio genérico. O próprio Smith, que costuma ser ao menos carismático, traz uma cara de cansaço – que cairia bem a Brogan – mas assume essa característica em sua interpretação. Parece que descobriu tardiamente a furada em que se meteu. Para quem acabou de cair no planeta Terra, o filme pode até divertir. Para quem já viu outros três ou quatro, este não funciona.

Smith, veterano e Junior, e os demais membros do elenco

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Malévola volta para mais do mesmo

por Marcelo Seabra

Coringa (Joker, 2019) reinou tranquilamente por três semanas nas bilheterias nacionais, mas sua paz acabou. Roubando o primeiro lugar do Palhaço do Crime, chega Malévola: Dona do Mal (Maleficent: Mistress of Evil, 2019), sequência Disney que retoma a história da Bela Adormecida contada no longa de 2014. Cinco anos separam os filmes, e o tempo não foi gentil. A impressão que fica é que o conteúdo foi gasto no primeiro, deixando muito pouco para o segundo.

Trabalhando num ritmo mais lento, dando espaço para outros interesses, Angelina Jolie volta ao papel da vilã de desenhos animados tentando dar a ela mais profundidade. Agora, Malévola tem algo perto de uma origem, ou ao menos o filme abre espaço para uma. Enquanto descobrimos um pouco sobre o passado dela, encaramos o futuro de Aurora (Elle Fanning). Agora rainha do povo encantado de Moors, ela se reencontra com o Príncipe Phillip (Harris Dickinson, de Mentes Sombrias, 2018) e os dois acertam um casamento que unirá seus povos. Essa é uma notícia que não vai agradar a todos.

Além das maravilhosas protagonistas, temos a adição de Michelle Pfeiffer (de Vingadores: Ultimato, 2019). Como no primeiro filme, as mulheres são fortes e têm um papel importante, não ficando à sombra de homem algum – em geral, eles são todos uns bananas. As personagens de Fanning e Pfeiffer funcionam como antagonistas, enquanto a Malévola de Jolie fica no meio, entre idas e vindas. A história (novamente de Linda Woolverton) parece indecisa ao mostrar o posicionamento da personagem-título. Ela deveria ser uma vilã, mas isso não traria a simpatia do público. A solução encontrada foi destinar a ela várias piadinhas deslocadas, que diminuem consideravelmente sua força.

A Rainha Ingrith (Pfeiffer) tenta esconder suas intenções, mas tudo fica claro nos minutos iniciais, quando ela se estabelece como a vilã. Mesmo ensaiando uma explicação meia-boca, suas motivações são pré-fabricadas, servem apenas para termos uma desculpa para essa aventura. A obra é visualmente estonteante, com criaturas fantásticas e cenários grandiosos. Há uma boa dose de criatividade, mas falta propósito. Os seres, por exemplo, são facilmente substituíveis e, com raras exceções, não têm importância alguma para a trama. Os efeitos especiais são exagerados, causando mais estranhamento que satisfação.

Chega a ser revoltante ver um ator do quilate de Chiwetel Ejiofor (de Maria Madalena, 2018 – acima) desperdiçado, e Ed Skrein (de Alita: Anjo de Combate, 2019) mais uma vez irrita pelas caretas e pela participação rasa. Imelda Staunton, Lesley Manville e Juno Temple voltam a viver as fadinhas engraçadinhas que mais parecem umas senhoras fofoqueiras. Quem ganha mais destaque é Sam Reily, já que o corvo Diaval passa mais tempo em sua forma humana. E a adição mais interessante, mesmo que com pouco destaque em cena, fica por conta de Warwick Davis (de Han Solo, 2018), um duende explorado que trabalha feliz para seus algozes – algo bem atual!

Sem se aprofundar em nenhum dos pontos levantados, Dona do Mal cumpre tabela levantando uns bons dólares para a Disney, mas não chega longe. Jolie tem outros projetos em andamento e não deveria se preocupar em voltar à personagem. Foi bom, foi marcante, mas acabou. Ainda vamos ter que aguentar várias adaptações em live action da Disney, nada mais que a mesma história dos desenhos, mas com atores – ou não, caso de Rei Leão. Mas não duvido que virá por aí um Malévola: A História de Aurora, recontando o clássico de Charles Perrault. Estúdios dificilmente sabem a hora de parar.

O maravilhoso trio principal prestigiou a estreia em Los Angeles

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Programa do Pipoqueiro #45

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz uma viagem por filmes lançados em 1989, que completam 30 anos agora, misturando comentários e músicas bem variadas! Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Zumbilândia ganha sequência tardia e divertida

por Marcelo Seabra

Dez anos depois, o diretor Ruben Fleischer conseguiu reunir os mesmos quatro membros principais de seu Zumbilândia para a continuação. O tempo passado é importante para a trama e não é ignorado: muito pelo contrário. Todos envelheceram e a narração inicial chega até a agradecer quem está assistindo por ter mantido o interesse. Os zumbis evoluíram e as piadas aceleraram, acontecendo uma atrás da outra, geralmente em alto nível. E as relações entre os personagens continuam sendo o foco, o que resulta no ótimo resultado de Zumbilândia: Atire Duas Vezes (Zombieland: Double Tap, 2019).

Nos encontramos novamente com Columbus (Jesse Eisenberg), Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) quando eles estão morando simplesmente na Casa Branca. Com um estilo de vida mais tranquilo, eles ocasionalmente saem para buscar mantimentos e se deparam com as criaturas, que eles dividem em grupos de acordo com as características. Os mais bobos, que se distraem com borboletas, por exemplo, são os Homers. E as referências ao mundo pop não param por aí, das mais eruditas (como o livro clássico Ratos e Homens) às mais óbvias, como The Walking Dead.

O volume de tiradas e piadas é tão grande, com tanta velocidade, que pode ser necessário assistir ao filme duas vezes, o que não é ruim. Seus 100 minutos passam rápido e nos afeiçoamos ainda mais aos nossos velhos conhecidos. Ajuda muito ter os mesmos roteiristas, Paul Wernick e Rhett Reese, que conservaram o espírito do original. E eles ganharam o reforço de Dave Callaham, ninguém menos que o criador da franquia Os Mercenários (The Expendables). Não dá para chutar qual foi exatamente a contribuição dele. Só dá para dizer que o amarrado foi bem feito.

A seleção musical é tão variada quanto bem escolhida. De cara, somos surpreendidos por um Metallica, e a trilha vai do mais cult, como Portishead, ao mais popular, como Dylan e Elvis. E não só os roteiristas e as músicas são novidade: o elenco ganhou ótimas adições. Zoey Deutch (de Tinha Que Ser Ele?, 2016 – acima) rouba várias cenas e há uma dupla que faz o mesmo. Outros nomes interessantes são os de Rosario Dawson (a Claire das séries Marvel), Luke Wilson (de O Estado das Coisas, 2017) e Thomas Middleditch (de Godzilla II, 2019).

É bom lembrar que, apesar de ser aparentemente uma comédia, o universo de Zumbilândia contém uma boa dose de gore, com cabeças explodindo e vísceras dando um alô. Estômagos mais fracos vão evitar algumas passagens. Mas o que importa mesmo é a evolução dos personagens e os laços entre eles, que se fortalecem mesmo que, por fora, mantenham uma imagem de durões. E, aí, ganham ainda mais a simpatia do público, que os conhece o suficiente para se importar e torcer por eles.

Estes eram os personagens em 2009!

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Aaron Paul volta à pele de Jesse Pinkman

por Kael Ladislau

Desde que o AMC exibiu o último episódio de Breaking Bad, fechando a saga de Walter White, passaram-se seis anos. Ainda que a série seja fechada magistralmente, algumas respostas ficaram em aberto. De lá para cá, muitas teorias (algumas estapafúrdias) surgiram. Mas o que ninguém cravou era o fim de Jesse Pinkman, parceiro do professor na produção de metafetamina. E El Camino: A Breaking Bad Film (2019), lançado recentemente pela Netflix, traz de volta o personagem para responder a essas perguntas.

Considerada uma das melhores séries da TV americana, Breaking Bad ainda desperta paixões em fãs. Tanto, que consegue manter uma série derivada – a excelente Better Call Saul. Mesmo que o prequel, que conta a história do advogado charlatão Saul Goodman, traga de volta toda a atmosfera de Breaking Bad, os fãs estavam ávidos para um longa que pudesse falar de Jesse Pinkman, um dos mais queridos da série. El Camino faz isso. Ele apenas não resgata o personagem, contando o fim que ele teve após o confronto de Walter White (Bryan Cranston) com o bando de tio Jack, como traz de volta o ritmo calmo, com cenas de impacto, boas atuações e, claro, alguns rostos conhecidos.

Do elenco, reencarnam algumas figuras carimbadas da série: além de Aaron Paul, como o agora protagonista Jesse Pinkman, vemos ainda Todd (Jesse Plemons, de Vice, 2018), Mike (Jonathan Banks, também de Better Call Saul) e os amigos inseparáveis Badger (Matt Jones, de Brightburn, 2019) e Skinny Pete (Charles Baker, de The Black List). E sim, tem mais gente da série. Todos funcionam muito bem, mesmo depois de tanto tempo do final de Breaking Bad.

É possível perceber ainda algumas características que podem ser chamadas de marcas do criador da série e diretor do filme, Vince Gilligan: os times lapses e as câmeras colocadas em lugares inusitados, dando alguns quadros incríveis. A ambientação do Novo México também está lá: o deserto vasto e vazio e o céu azul rabiscado de aviões em Albuquerque são elementos que não poderiam faltar.

A história em si é simples e não é pecado nenhum dizer que ela é uma extensão da série. Jesse Pinkman sofre o impacto de ter fugido do cativeiro dos nazistas e tenta reconstruir seu destino, depois da fama alcançada ao lado de White. Isso se dá com perseguição da polícia, confronto familiar e muitas lembranças do cativeiro e do tempo que passou ao lado do famoso Heisenberg.

O que Gilligan entrega, portanto, não deve desagradar os fãs, ou mesmo aqueles que apenas assistiram à série. É funcional, a ponto de contar uma história que parte de outra sem estragar a primeira. A maneira como o diretor faz isso é eficiente, com montagens incríveis, como mostrar o para-brisa de um carro em fuga e uma tela de videogame de maneira leve e quase que imperceptível.

El Camino não é nenhum Ozymandias, ou mesmo Felina, os melhores episódios da série, mas não é tampouco o episódio da mosca (Fly, o pior, para o público). É simples, eficiente e não estraga a obra principal. Quem acompanha Vince Gilligan e as competências do elenco talvez sequer teve esse medo. Para os fãs, é um presente verdadeiramente generoso.

Bryan Cranston prestigiou o lançamento do longa dos amigos Aaron Paul e Vince Gilligan

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O Pintassilgo é best seller que chega aos cinemas

por Marcelo Seabra

Quando conhecemos a versão adulta do protagonista de O Pintassilgo (The Goldfinch, 2019), ele se descreve basicamente como uma embalagem agradável ao público, simpático e bem apresentado. Mas sabemos que falta algo por baixo, apenas a superfície está em paz. Isso é exatamente o retrato do filme: esteticamente impecável, mas com um ritmo absolutamente desigual e com buracos enormes em sua trama. A impressão que fica é que teria funcionado de maneira bem mais eficaz como uma série de televisão, com mais tempo.

Elogiado e premiado pelo drama Brooklyn (2015), John Crowley foi o diretor contratado pela Warner para cuidar da adaptação do livro de Donna Tartt que venceu o Pulitzer de ficção em 2014. O roteiro ficou a cargo de Peter Straughan, indicado ao Oscar por O Espião Que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011). Com tantos talentos envolvidos, o resultado só poderia ser fantástico. Na teoria, apenas. Na prática, temos uma obra de duas horas e meia de duração que se arrasta pelas primeiras duas horas e resolve tudo na meia hora final, com direito a várias coincidências e conveniências.

Mexendo desnecessariamente na história de Tartt, o roteiro de Straughan vai e volta no tempo, guardando algumas revelações para o final. Quando elas chegam, o público já está enfarado e não se importa mais. Isso, quando não é algo óbvio, que já sabíamos há tempos e ninguém avisou que era segredo. Perto do fim, algumas subtramas são simplesmente abandonadas, muita coisa fica sem explicação e as questões principais se encaixam tão bem que derrubam qualquer acerto anterior do diretor.

O Pintassilgo do título é um famoso quadro do pintor holandês Carel Fabritius, o favorito da mãe de Theo Decker (Oakes Fegley, de Sem Fôlego, 2017). Enquanto estavam apreciando a obra num museu, acontece um atentado a bomba que faz várias vítimas. Aos 13 anos de idade, Theo se vê órfão e aí começa sua saga. O cartaz do filme, com o menino no ar, dá a impressão de se tratar de um dançarino, o que está longe da realidade. O drama logo dá lugar a uma trama policial bagunçada que só não fica pior devido ao elenco competente. Nicole Kidman, Jeffrey Wright e Sarah Paulson são sempre excelentes, até com um roteiro ruim, e ainda temos Luke Wilson, Finn Wolfhard e Ansel Elgort, como o Theo adulto.

A fotografia, a cargo de ninguém menos que Roger Deakins, é o único ponto memorável de O Pintassilgo. Vencedor do Oscar por Blade Runner 2049 (2017), depois de 13 indicações, Deakins torna tudo mais atraente. Tanto ambientes fechados quanto exteriores resultam em tomadas belíssimas e elegantes, como uma figura que se afasta e sugere um anjo. Mas até isso enfraquece o filme, já que a parte ambientada em Las Vegas deveria parecer muito pior, pesada, deixando o personagem deprimido. O que vemos é um garoto serelepe que ocasionalmente tem problemas familiares sérios, mas que parecem corriqueiros.

As duas versões dos personagens se encontram

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