Glen Powell escreve o Manual Prático da Vingança Lucrativa

É possível achar na internet comentários sobre como Hollywood tenta enfiar Glen Powell goela abaixo do público. A bilheteria de O Sobrevivente (The Running Man, 2025) ficou bem abaixo do esperado e deu prejuízo. O outro filme estrelado pelo ator recentemente mal foi comentado, pode-se dizer que ninguém ouviu falar. Outro fracasso de bilheteria. No entanto, ao contrário da fraca adaptação de Stephen King, Manual Prático da Vingança Lucrativa (How to Make a Killing, 2026) é bem amarrado e divertido, e merece ser notado.

Powell é uma figura simpática cujos personagens invariavelmente têm pequenas falhas de caráter que são facilmente desculpadas. Você olha para ele em Todos Menos Você (2023) e pensa: é um safado mulherengo, mas tem um bom coração. Ou em Twisters (2024) e pensa: é um aproveitador ambicioso… Mas tem um bom coração. E assim em diante. Em Manual Prático, acompanhamos os percalços pelos quais a mãe dele passa, e ele próprio também,e logo desculpamos alguns assassinatos. Basta ele sorrir.

Conhecemos Beckett Redfellow no corredor da morte, esperando pela execução. Ele começa a contar sua história para o padre que o visita e descobrimos que ele é o herdeiro de uma família bilhardária, mas o patriarca (Ed Harris) deserda a mãe do rapaz logo que ela fica grávida. Aí, a jovem mimada é forçada a dar seus pulos e logo chegamos ao presente, com Beckett adulto pensando em como faria para herdar o que é dele por direito.

O que se segue é um filme que mescla bem uma trama de crimes planejados e humor, mantendo tudo leve, ligeiramente exagerado. Escrita por John Patton Ford, a história é inspirada em uma comédia de humor negro britânica de 1949, As Oito Vítimas (Kind Hearts and Coronets), que tinha Sir Alec “Obi-Wan” Guiness vivendo todos os parentes. Atualizando o cenário, Ford foca sua crítica nos ricos que vivem no luxo não gerando nada para a sociedade, apenas esbanjando em vidas vazias. E sobra espaço para uma pequena espetada nesses pastores midiáticos que arrecadam milhões pregando.

Ford passou por um longo martírio para conseguir realizar seu primeiro filme, o elogiado Emily, A Criminosa (Emily the Criminal, 2022), e aqui não foi diferente. O elenco mudou bastante, com a saída de Shia Lebouf e Mel Gibson, e até o título original, Rothchild, foi alterado para Huntington até chegar ao final. Ford, antes apenas roteirista, acabou assumindo a direção e conseguiu realizar seu projeto que vinha tentando desde 2014.

Além de Powell, o projeto conseguiu outros nomes interessantes para o elenco. Ed Harris faz uma participação rápida, mas impactante, como o avô de Beckett. O sumido Topher Grace, de That 70’s Show, aparece, e Jessica Henwick e Bill Camp têm papéis mais relevantes. Quem chama a atenção, no entanto, é Margaret Qualley (acima), que desde A Substância (The Substance, 2024) rouba a cena sempre que está nela. Todos estão muito bem em seus papéis e funcionam juntos. Se o nome de Powell não é o suficiente para te atrair a assistir, escolha um desses outros.

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Demolidor renasce no MCU

Depois de três elogiadas temporadas produzidas para a Netflix, a série do Demolidor foi inexplicavelmente cancelada. Fãs no mundo todo ficaram chateados e acabaram sendo responsáveis por um dos grandes momentos nos cinemas que exibiam Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (Spider-Man: No Way Home, 2021): aplaudiram de pé quando o atribulado Peter Parker contrata um certo advogado cego para representá-lo. Ali, ficou comprovado que o Demolidor de Charlie Cox voltaria a atacar.

E o título da nova série não poderia ser mais simbólico: Demolidor: Renascido (Daredevil: Born Again), mas a história infelizmente passa longe da saga homônima dos quadrinhos de Frank Miller e David Mazzucchelli. Ainda assim, teve uma bela primeira temporada, de nove episódios, e chega agora à segunda, mais uma vez exibida pelo Disney+.

Matt Murdock (Cox) ficou um ano sem desempenhar suas atividades de vigilante após um evento traumático, seguindo como advogado. Ao ver seu grande rival, o milionário Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), se tornar o prefeito de Nova York, ele jura que o acompanhará de perto, para pegar qualquer deslize. Isso logo acontece e temos Murdock de volta ao consagrado uniforme – agora, mais escuro.

A segunda temporada começa com a caça da equipe antivigilantes de Fisk quente, procurando pelo Demolidor, enquanto outros foram capturados e não têm direito a um julgamento, visitas ou qualquer direito humano. Basicamente como acontecia na Ditadura brasileira, ou com o ICE norte-americano de hoje: um time acima da lei, que pode tudo. A crítica a práticas ditatoriais/fascistas é bem clara, direcionada a Trumps, Bolsonaros, Len Pens, Mileis, Netanyahus, Orbáns e outros filhotes de Hitler por aí. Fisk faz parte desse grupo.

Ajudam a engrossar o caldo coadjuvantes interessantes, como o ambicioso Daniel Blake (Michael Gandolfini) e a dúbia psicóloga Heather Glenn (Margarita Levieva), e até participações especiais, como o Justiceiro de Jon Bernthal na primeira e, na segunda, Matthew Lillard (acima) e Lili Taylor, além de uma heroína já conhecida da Netflix. Personagens menos conhecidos do Universo Marvel, como o Tigre Branco (Kamar de los Reyes) e o Espadachim (Tony Dalton), surgem como piscadelas aos fãs das HQs, além do consagrado Mercenário de Wilson Bethel.

Intrigas políticas, cenas bem coreografadas de lutas e o risco real que os personagens correm de morrer tornam as coisas mais divertidas. A temporada dois está apenas começando e deve reservar mais surpresas ao longo de seus oito episódios. O novo showrunner, Dario Scardapane, e os principais diretores dos episódios, Justin Benson e Aaron Moorehead, conhecem o MCU o suficiente para manter a atração atrativa para os fãs e os não iniciados.

D’Onofrio, Levieva e Cox lançaram a nova temporada em evento em Nova York

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Kevin Williamson comanda o sétimo Pânico

Chegamos ao sétimo Pânico (Scream 7, 2026), e muitos se perguntam: como? Ainda tem adolescentes para morrer em Woodsboro? A resposta, pelo visto, é: sempre. As duas atrizes principais, Neve Campbell e Courteney Cox, estão lá, com algumas adições, como de costume. A tentativa de renovar o elenco, no quinto filme, não deu muito certo e seguimos com a programação normal. E, na cadeira de diretor, além de ser um dos roteiristas, temos Kevin Williamson, que escreveu os dois primeiros filmes. O que, infelizmente, não é garantia de qualidade.

O primeiro Pânico (Scream, 1996) foi tão marcante que originou uma franquia longeva. O segundo (1997) veio a toque de caixa, para aproveitar o sucesso do segundo, e tudo levava a crer que seria uma bomba. Repetindo a dobradinha Wes Craven na direção e Kevin Williamson no roteiro, surpreendentemente foi quase tão bom quanto o anterior. O sucesso da sequência garantiu o fechamento de uma trilogia (2000), já com outro roteirista, e Craven não segurou as pontas. Esse, sim, foi bem ruim, e demorou 11 anos para o diretor aceitar voltar àquele universo, novamente com Williamson. O que se mostrou outro erro e foi a despedida de Craven, que partiu em 2015.

Depois dessas duas tentativas malsucedidas, era de se esperar que iam deixar aqueles personagens em paz. Mas os executivos do Cinema estão sempre buscando uns dólares e contrataram Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett para ocuparem o lugar de Craven. Com a pretensão de começar do zero, lançaram Pânico (Scream, 2022), sem número, mesmo sendo o quinto. Boa arrecadação e críticas animadoras garantiram a dupla em mais um exercício de metalinguagem, piadinhas e sangue, deixando claro que a fórmula estava bem gasta.

Willliamson deve ter pensado que, se alguém era capaz de revisitar aqueles personagens, era ele, o criador. Isso já havia dado errado no quarto e agora dá errado no sétimo, mostrando que o público não tem vergonha na cara. Mesmo sabendo que tem tudo para ser ruim, assiste (e tem gente que ainda perde tempo escrevendo a respeito). Pânico 7 já começa parecendo estar no piloto automático, e segue assim por quase duas horas. Neve Campbell faz uma Sidney madura, durona e cansada. Não a deixam viver em paz com a filha (Isabel May) e o marido (Joel McHale), o delegado da cidade (surpresa!).

Depois de levarem a trama a Nova York, a bola da vez é a pequena Pine Grove, Indiana, onde Sidney foi morar. Lá, temos uma nova fauna, com diversos adolescentes que podem passar de suspeitos a vítimas em segundos. É engraçado como cada personagem é apresentado fazendo expressões ou perguntas que o deixam como assassino em potencial, e a brincadeira é tentar acertar quem seria o novo Ghostface. O problema aqui é que ninguém se importa. Quando chega a revelação, o choque é pelos motivos errados.

Depois de requentarem o falecido Billy Loomis (Skeet Ulrich), Williamson traz de volta Stu Macher (Matthew Lillard), o outro assassino do primeiro filme. O esquema de pirâmide segue firme, com a trama fazendo autorreferências que te exigem ter visto os episódios anteriores para não boiar. Enquanto as mortes vão acontecendo, você olha o relógio e tenta calcular quanto tempo ainda falta para acabar. E quanto tempo vai demorar para fazerem um novo Pânico, já que este sétimo foi o que mais faturou em toda a série, tendo chegado perto dos 200 milhões de dólares nas bilheterias pelo mundo.

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Peaky Blinders voltam com um filme

Quatro anos após a (inconclusiva) conclusão da sexta e última temporada, com a ascensão do nazismo mundo afora, temos mais uma história com os Peaky Blinders (2013-2022), com a volta do oscarizado Cillian Murphy como o protagonista. E praticamente só ele, já que muitos integrantes do elenco principal ficaram de fora, o que a trama justifica – e facilita a compreensão para quem não conhecia a série. Todas as peças acabam bem encaixadas pelo criador e roteirista da atração, Steven Knight, mas O Homem Imortal (The Immortal Man, 2026) mistura uma certa melancolia a uma sensação de correria. Afinal, quem estava acostumado a ver as histórias se desenrolarem por vários episódios reencontrou Tommy Shelby na Netflix por meros 112 minutos.

Tratado como Tom por seu fiel escudeiro Johnny Dogs (Packy Lee), Shelby vive isolado em uma de suas propriedades no interior, distante de sua Birmingham, assombrado por seus muitos entes queridos levados pela violência que o cercava. Ele quer acreditar que colocar aquelas histórias no papel pode silenciar os fantasmas de sua cabeça, mas seus traumas vêm da época em que serviu na Primeira Guerra e só pioraram desde então.

É assim que reencontramos o lendário Tommy Shelby, um gângster com quem apenas um desavisado ousaria bater de frente. Ou alguém com um grupo muito poderoso por trás, caso do agente nazista inglês John Beckett, vivido por Tim Roth (o Abominável da Marvel – acima). O ator veterano é um dos novos nomes a aparecerem nesse universo. Rebecca Ferguson (a mãe de Paul Atreides na franquia Duna) vive a cigana que tentará levar Tommy de volta às ruas de Birmingham para ajudar seu filho mais velho, Duke, na pele do astro onipresente Barry Keoghan (de Saltburn, 2023). Diz a lenda que Murphy ligou para convidar Keoghan para ser “seu filho” no dia dos pais.

O toque fantasioso da trama, envolvendo espíritos, não deveria ser surpresa para ninguém, já que os ciganos Romani sempre tiveram um pé no sobrenatural. No entanto, nada disso precisa ser levado muito a sério, podendo não passar de sentimentos manifestados visualmente. Ou truques, pura e simplesmente. E a parte real é inspirada na chamada Operação Bernhard, idealizada pelos nazistas alemães, que visava desestabilizar a economia britânica ao jogar milhares de libras falsas no mercado (e inspirou o longa Os Falsários, 2007). Afinal, Peaky Blinders sempre gostou de borrar a fronteira entre os livros de História e a ficção.

Além de trazer Murphy e Knight, O Homem Imortal conta com Tom Harper na direção, papel que ele desempenhou na primeira temporada da série. A caracterização, figurino, design de produção, cenários e demais elementos de cena são fidedignos como sempre, ambientando muito bem a história de Knight. Soluções fáceis para problemas complicados já haviam aparecido na série, notadamente na temporada quatro, e acabam enfraquecendo a impressão que o filme deixa. Ainda assim, é ótimo reencontrar aqueles velhos amigos. O produtor inclusive já revelou em entrevistas que duas novas temporadas de Peaky Blinders serão lançadas em breve, levando adiante as aventuras de Duke Shelby.

Keoghan lidera o futuro dos Peaky Blinders

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Oscar 2026 – Indicados e Previsões

É chegado o momento de mais uma festa dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), mais conhecidos como os Oscars. Com apresentação pelo segundo ano seguido de Conan O’Brien, esta 98ª edição tem nada menos que cinco indicações para o Brasil: quatro para O Agente Secreto, longa extremamente premiado de Kleber Mendonça Filho, e uma para Sonhos de Trem, produção americana que conta com o nosso Adolpho Veloso como Diretor de Fotografia.

A produção recordista de indicações não só desse ano, mas da história da cerimônia, é Pecadores, com 16, e pode ser responsável por algumas surpresas da noite. A presença de profissionais negros é a maior já registrada, o que finalmente mostra alguma mudança na Academia. É a primeira vez que teremos a categoria chamada Casting, que pode ser chamada em português de Seleção de Elenco. O Agente Secreto entrou nessa também, além de Filme, Filme Internacional e Ator Principal, com Wagner Moura com grandes chances contra o favorito Thimotée Chalamet, o sempre fantástico Leonardo DiCaprio, o veterano Ethan Hawke e o surpreendente Michael B. Jordan, que pode passar na frente de todo mundo.

Abaixo, como de costume, você confere a lista de indicados por categoria, com links para as críticas disponíveis no Pipoqueiro. O número 1 em frente indica o meu palpite para o vencedor e o número 2 indica aquele que eu gostaria que ganhasse. Se os dois coincidirem, terá apenas um X.

Melhor Filme

Bugonia

F1

Frankenstein

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Marty Supreme

Uma Batalha Após a Outra – 1

O Agente Secreto – 2

Valor Sentimental

Pecadores

Sonhos de Trem

 

Direção

Chloé Zhao – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Josh Safdie – Marty Supreme

Paul Thomas Anderson – Uma Batalha Após a Outra – 1

Joachim Trier – Valor Sentimental – 2

Ryan Coogler – Pecadores

 

Atriz Principal

Jessie Buckley – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet – 1

Rose Byrne – Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Kate Hudson – Song Sung Blue – Um Sonho a Dois

Renate Reinsve – Valor Sentimental – 2

Emma Stone – Bugonia

 

Ator Principal

Timothée Chalamet – Marty Supreme

Leonardo DiCaprio – Uma Batalha Após a Outra

Ethan Hawke – Blue Moon

Michael B. Jordan – Pecadores – 1

Wagner Moura – O Agente Secreto – 2

 

Atriz Coadjuvante

Elle Fanning – Valor Sentimental

Inga Ibsdotter Lilleaas – Valor Sentimental – 2

Amy Madigan – A Hora do Mal – 1

Wunmi Mosaku – Pecadores

Teyana Taylor – Uma Batalha Após a Outra

 

Ator Coadjuvante

Benicio Del Toro – Uma Batalha Após a Outra

Jacob Elordi – Frankenstein

Delroy Lindo – Pecadores

Sean Penn – Uma Batalha Após a Outra – 1

Stellan Skarsgård – Valor Sentimental – 2

 

Fotografia

Pecadores

Uma Batalha Após a Outra – 1

Sonhos de Trem – 2

Frankenstein

Marty Supreme

 

Efeitos Visuais

Avatar: Fogo e Cinzas – 1

F1

Jurassic World: Recomeço

O Ônibus Perdido

Pecadores – 2

 

Animação

Guerreiras do K-Pop – X

Zootopia 2

Arco

Elio

A Pequena Amélie

 

Som

F1 – 1

Frankenstein

Uma Batalha Após a Outra

Pecadores – 2

Sirât

 

Montagem

F1

Marty Supreme

Uma Batalha Após a Outra – X

Valor Sentimental

Pecadores

 

Documentário

The Alabama Solution

Embaixo da Luz de Neon

Cutting Through Rocks

Um Zé Ninguém Contra Putin

A Vizinha Perfeita – X

 

Direção de Arte

Frankenstein – 1

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Marty Supreme

Uma Batalha Após a Outra

Pecadores – 2

 

Canção Original

Dear Me – de Diane Warren: Relentless

Golden – de Guerreiras do K-Pop – X

I Lied to You – de Pecadores

Sweet Dreams of Joy – de Viva Verdi!

Train Dreams – de  Sonhos de Trem

 

Filme Internacional

Foi Apenas um Acidente – França

O Agente Secreto – Brasil – 2

Valor Sentimental – Noruega – 1

A Voz de Hind Rajab – Tunísia

Sirât – Espanha

 

Figurino

Avatar: Fogo e cinzas

Frankenstein – 1

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Marty Supreme

Pecadores – 2

 

Seleção de Elenco

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Marty Supreme

Uma Batalha Após a Outra

O Agente Secreto – 2

Pecadores – 1

 

Roteiro Original

Blue Moon

Foi Apenas um Acidente

Marty Supreme

Valor Sentimental

Pecadores – X

 

Roteiro Adaptado

Uma Batalha Após a Outra – 1

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet – 2

Bugonia

Sonhos de Trem

Frankenstein

 

Curta-Metragem

Butcher’s Stain

A Friend of Dorothy

Jane Austen’s Period Drama

The Singers – 1

Two People Exchanging Saliva

 

Animação em Curta-Metragem

Butterfly

Forevergreen

The Girl Who Cried Pearls – 1

Retirement Plan

The Three Sisters

 

Documentário em Curta-Metragem

All the Empty Rooms – 1

Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud

Children No More: Were and Are Gone

The Devil Is Busy

Perfectly a Strangeness

 

Trilha Sonora Original

Bugonia

Frankenstein

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Uma Batalha Após a Outra

Pecadores – X

 

Maquiagem e Cabelo

Frankenstein – 1

Kokuho

Pecadores

Coração de Lutador

A Meia-Irmã Feia – 2

Uma Batalha Após a Outra deve levar o prêmio principal da noite

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Pacote do Oscar 2026 – 2

Marty Supreme – Indicado a 9 Oscars (Incluindo Filme, Diretor e Ator Principal)

Thimotée Chalamet entrou numa jornada para vencer um Oscar que parece dominar todas as suas escolhas profissionais. Marty Supreme é mais um trabalho dele que grita ambição, mas é apenas chato. Tudo acontece o tempo todo, todos gritam sem parar e ações vão se sucedendo, levando não se sabe a onde. Para quem conhece a obra do diretor Josh Safdie, basta dizer que é um Bom Comportamento (Good Time, 2017) bem piorado e com um protagonista (e ator) muito mais prepotente.

A subtrama envolvendo Gwyneth Paltrow é tão rasa quanto a interpretação da atriz. O diretor e corroteirista Safdie achou que bastava jogar num caldeirão um tanto de situações exageradas e sem nexo, dar a entender que se trata da cinebiografia de alguém real e acelerar a velocidade para não dar tempo para o público parar para pensar. Não a toa, o longa teve 11 indicações ao Bafta e não levou nada. O que pode se repetir no Oscar.

A Hora do Mal (Weapons) – Indicado a 1 Oscar (Atriz Coadjuvante)

Um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos, A Hora do Mal acompanha o desaparecimento, ao mesmo tempo, de 17 alunos de uma mesma sala na escola. Vídeos de câmeras de segurança mostram essas crianças abrindo as portas de suas casas e saindo correndo em direção ao escuro. Conhecemos os principais envolvidos no mistério, como a professora da turma (Julia Garner), o pai de um dos meninos (Josh Brolin) e o diretor da escola (Benedict Wong), enquanto montamos o quebra-cabeças.

Apenas Amy Madigan, irreconhecível, foi indicada ao Oscar, já que o gênero não costuma ser lembrado em premiações. O roteiro original e a direção de Zach Cregger, o responsável pelo chocante Noites Brutais (Barbarian, 2022), são dignos de aplausos, e devem continuar garantindo a ele muitos trabalhos. As histórias vão sendo apresentadas e, em algum momento, se juntam, levando a uma conclusão bem satisfatória.

Sonhos de Trem (Train Dreams) – Indicado a 4 Oscars (incluindo Filme e Fotografia, para o brasileiro Adolpho Veloso)

Contemplativo, com um ritmo deliberadamente lento, o longa reflete sobre a passagem do tempo, a evolução tecnológica e a chegada do “progresso”, com o protagonista pulando de uma obra para outra, indo onde o trabalho o leva. Robert (Joel Edgerton) cresce sem lar e sem um propósito, encontrando uma direção ao se casar com Gladys (Felicity Jones). O longa acompanha décadas da vida de Robert, que vai a vários lugares e conhece diversas pessoas, sendo assombrado por situações vividas.

Indicado ao Globo de Ouro, Edgerton dá a força apropriada ao personagem, fazendo parecer que a vida está passando por ele, e só se movimenta quando necessário. A fotografia, trabalho do nosso Adolpho Veloso, chama mais a atenção, já tendo levado alguns prêmios e indicações. É ela que ajuda a definir o olhar poético do longa

A Meia-Irmã Feia (Den stygge stesøsteren, 2025) – Indicado a 1 Oscar (Maquiagem e Cabelo)

Inspirada pelo conto de fadas de Cinderella, a diretora e roteirista norueguesa Emilie Blichfeldt faz sua estreia em um longa-metragem com a suposta história de meia-irmã da Princesa Disney. Já sabemos como termina, mas não imaginamos como será o desenrolar. Adicionando informações que não conhecíamos (porque não existiam), Blichfeldt faz um filme ligeiramente nojento e bem criativo. Diversão boa para aqueles com estômagos mais fortes.

A intérprete da protagonista, Lea Myren, traz bastante simpatia para sua Elvira, e conseguimos entender um pouco de seu ponto de vista. Sua mãe se casa com um viúvo cuja filha, Agnes (Thea Sofie Loch Næss), é tida como linda e atrai toda a atenção masculina. Obcecada em chamar a atenção do príncipe, Elvira parte para esforços por melhorias físicas, o que joga o filme no subgênero “body horror”. Inspirada por extremos como o mestre desse filão, David Cronenberg, e o diretor de pornografia Walerian Borowczyk, passando por Julia Ducournau, Blichfeldt cria uma boa expectativa para seus próximos trabalhos.

A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor, 2025) – Indicado a 1 Oscar (Documentário)

“Eu sou a vizinha perfeita”, gaba-se a senhora que fica brigando com as crianças que brincam na rua. Usando principalmente imagens captadas pelas câmeras dos policiais que respondiam aos inúmeros chamados de Susan Lorincz, Geeta Gandbhir constrói um documentário bem editado, que segue a história cronologicamente e vai levando o público numa crescente tensão até que o conflito exploda.

Todos os policiais são calmos e bem humorados, talvez por saberem estarem sendo filmados (ou por serem bons seres humanos), e conseguimos acompanhar o caso perfeitamente pelas filmagens. Algumas boas discussões são levantadas, como aquela acerca do funcionamento da lei de legítima defesa nos EUA. Temos, aqui, uma das grandes vilãs do Cinema de 2025. Pena que seja real.

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A Voz de Hind Rajab é uma denúncia crua sobre o genocídio em Gaza

Dramatizar tragédias não é novidade no cinema. Muitos filmes já fizeram isso. Quase todos eles finalizam com as fotos das pessoas, cenas reais ou nomes dos envolvidos para trazer o espectador à realidade que a dramatização pode afastar. A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab, 2025) até faz isso, mas não só. Indicado da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o longa de Kaouther Ben Hania mostra algumas horas do dia do Crescente Vermelho na Palestina.

Em poucos minutos, a diretora mostra parte da operação, do responsável por atender telefonemas de socorro à psicóloga que orienta e dá suporte aos voluntários, passando pelo responsável pela logística e a gerente dos operadores. Um dos casos é de uma garota de seis anos, Hind Rajab, presa em um carro com parentes mortos após o exército israelense metralhar o veículo.

O resgate está a apenas 8 minutos do local onde Hind se encontra. O problema é que eles não podem mandar ninguém lá até o aval do próprio exército de Israel para liberar a rota. O grupo de operações então se encontra em um cerco administrativo enquanto lidam com a criança no telefone. Em outras palavras: presos em uma burocracia em meio à guerra.

Seria apenas mais uma dramatização de casos reais, algo que filmes como O Culpado (The Guilty, 2018 – 2021) já fizeram: pessoas atendendo telefonemas e tudo o que elas podem fazer é mexer pauzinhos burocráticos enquanto falam em telefones. A Voz de Hind Rajab vai além: trata de um caso real e utiliza o áudio original da criança ao longo da dramatização. Se o clima tenso poderia ser criado apenas nas atuações, o espectador sente o desespero do atendimento que pouco pode fazer de um modo ainda mais próximo.

O filme se encaixa perfeitamente no que se convencionou a chamar de “docudrama”: dramatizações de casos reais e com recursos que todo o tempo o espectador é trazido à tona da dura realidade em Gaza e do absurdo que é o sítio imposto por Israel. Além dos áudios reais, a diretora ainda utiliza imagens reais dos operadores, num engenhoso enquadramento de celulares filmando a cena enquanto a tela mostra as pessoas reais no antendimento original.

A Voz de Hind Rajab não é um filme fácil e requer preparo do espectador para assisti-lo. Afinal, trata de Gaza e de um drama real vivido por uma criança, algo sensível para muita gente. Por outro lado, mostra que por trás de todo número ou novas notícias do cerco de Israel a Gaza, tem uma história muito pior. Tem gente sendo exterminada: mães, pais, crianças e até mesmo voluntários. Um final que não tem muito o que esconder e que, infelizmente, está acontecendo.

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Pacote do Oscar 2026

Bugonia – Indicado a 4 Oscars (Filme, Trilha Sonora Original, Atriz Principal e Roteiro Adaptado)

A nova parceria entre o diretor Yorgos Lanthimos e sua musa Emma Stone é mais estranha que a média, com uma pitada de comentário social. Há, não só nos Estados Unidos, muitas pessoas que acreditam em teorias malucas e vivem como se elas fossem influenciar suas vidas. Uma dessas sandices é de que há uma raça alienígena entre nós, em cargos e posições importantes, e é nisso que aposta o personagem do ótimo Jesse Plemons (de Tipos de Gentileza, 2024, de Lanthimos). Ele sequestra uma CEO (Stone) de uma empresa rica para evitar que a raça dela destrua a Terra.

Os diálogos são afiados e os duelos travados entre Stone e Plemons são divertidos, deixando de fundo a crítica a esses malucos que acreditam que estrelas de Hollywood bebem sangue para se manterem jovens, Elvis está vivo numa fazenda e assim por diante. Todo um cenário interessante montado ao longo do filme é jogado fora por um roteiro preguiçoso, que escolhe uma saída fácil e burra. Na busca por mostrar o quanto é diferentão, Lanthimos passou da conta e errou o alvo.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You) – Indicado a 1 Oscar (Atriz Principal)

Linda tem uma filha cuja doença nunca fica clara, mas sabemos que demanda muito da mãe. O apartamento da família teve uma infiltração, abriu-se um buraco e ela não consegue resolver as coisas com o senhorio. O marido tem um emprego que o mantém longe por longos períodos, o que o impede de ajudar. E a relação com seu psicólogo é complicada, já que os dois trabalham juntos, o que os faz participar da vida um do outro mais do que deveriam.

O filme busca colocar o público no mesmo ponto de vista da protagonista, o que dá um nervoso danado. E a ótima atuação de Rose Byrne, vencedora em Berlim, é a cereja do bolo, mostrando Linda como uma pessoa normal, crível, por quem logo criamos empatia. A diretora e roteirista Mary Bronstein levou 17 anos para ocupar as funções novamente, desde seu promissor Yeast (2008), e devemos torcer para que não demore tanto a atacar novamente.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet – Indicado a 8 Oscars (incluindo Filme, Direção, Atriz e Roteiro Adaptado)

Em março de 2020, quando o mundo parava frente à pandemia de COVID-19, chegava às livrarias o livro de Maggie O’Farrell que requentava um mito antigo: o de que Shakespeare teria escrito seu Hamlet inspirado pela morte de seu filho, Hamnet, vitimado pela peste bubônica. É bom esclarecer que trata-se de uma ficção, a começar da suposição de que o bardo inglês escreveria histórias com bases autobiográficas – sem mencionar os aspectos espirituais/fantasiosos da trama. Mas deve-se reforçar que o filme que adapta esse livro é de fato muito bem realizado e conta com duas atuações grandiosas, com Jesse Buckley e Paul Mescal vivendo o casal Shakespeare.

Quando o longa começa, conhecemos as duas famílias e acompanhamos os filhos, Agnes e William, se apaixonarem e constituírem seu próprio núcleo. Enquanto Agnes, retratada quase como uma bruxa (boa), prefere viver na natureza do campo, Shakespeare sabe que sua vida está onde o público está, e se divide entre sua casa e a cidade. O filme não é bem sobre o que acontece, mas o como. Muitos fatos já são conhecidos, outros são supostos ou deliberadamente inventados pelo roteiro, assinado por O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, mas tudo se encaixa de forma satisfatória e deve arrancar umas boas lágrimas.

Valor Sentimental (Affeksjonsverdi) – Indicado a 9 Oscars (incluindo Filme, Filme Internacional, Direção e Atriz Principal)

Um pai idoso, desses gênios difíceis que a arte tanto conhece e representa, reencontra as filhas no velório da ex-mulher e tem a chance de se reaproximar pela arte. Vencedor do Grande Prêmio em Cannes e ovacionado por espantosos 15 minutos, o longa de Joachim Trier o revela um diretor e roteirista (com Eskil Vogt) maduro, que sabe como tratar de temas espinhosos sem melodrama e sem apontar dedos. Evitando excessos para os dois lados, Trier conseguiu um raro equilíbrio, e não a toa vem sendo lembrado em festivais mundo afora.

A ótima Renate Reinsve, descoberta por todos no fantástico agridoce A Pior Pessoa do Mundo (2021, também de Trier), faz a filha atriz do famoso diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgard). Enquanto ela segue fazendo peças prestigiadas de teatro, ele busca seu novo trabalho, que poderia reerguer sua carreira. As várias camadas vão sendo reveladas e descobrimos que relações familiares não são preto no branco: as zonas cinzas ocupam muitos espaços. Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning também estão muito bem, completando as quatro atuações indicadas pela Academia.

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois – Indicado a 1 Oscar (Atriz Principal)

É muito interessante visitar o submundo americano dos imitadores de cantores, aqueles que ganham a vida em circuitos de restaurantes e cassinos homenageando seus ídolos, vestindo-se e cantando como eles. Michael Imperioli, por exemplo, faz um Buddy Holly excelente. É nesse cenário que conhecemos Mike “Lightning” Sardina (Hugh Jackman), um sujeito que sabe que não é compositor, muito menos um sex symbol, mas gosta de entreter as pessoas cantando. Cansado de atender demandas como astros com os quais ele não se identifica, ele parte para um projeto novo, um tributo a Neil Diamond, cantor tão castigado no cinema que milagrosamente liberou o uso de suas músicas. O acompanha a também cantora e tecladista Claire “Thunder” Sardina (Kate Hudson), uma fã antiga com quem ele recentemente se casou.

Sempre uma figura simpática, Jackman convence como o artista de segunda linha (ou terceira) que busca seus sonhos, de preferência sem ter que abaixar a cabeça para ninguém. Por alguma razão, todos gostavam dele e davam novas chances, mesmo quando ele tinha seus estrelismos. Hudson rouba a cena como a outra metade do casal, mostrando ainda ter suas fichas fora das comédias românticas bobinhas. Craig Brewer, diretor e roteirista (ao lado de Greg Khos), era a pessoa certa para o projeto, tendo trabalhado em diversos videoclipes e outros filmes com temática musical, como Ritmo de Um Sonho (2005).

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O Agente Secreto leva o Brasil ao Oscar falando de memória

A ditadura é um assunto caro ao Brasil e ao brasileiro. Se, por um lado, a justiça esqueceu de julgar os envolvidos no regime entre 1964 e 1985, a história não. E O Agente Secreto (2025), mais recente filme de Kleber Mendonça Filho, ajuda contando de um outro modo esse período sombrio.

O longa se passa em um Recife de 1977 mergulhado no carnaval, que alegra sua população e é usado pelos agentes repressores para ocultar as barbáries que cometiam. É nesse contexto e embrenhado nele que Marcelo (Wagner Moura) retorna, mas ainda aparentemente fugindo de algo.

Instalado na pensão de Dona Sebastiana (Tânia Maria), Marcelo se encontra com outras pessoas que precisam fugir ou ao menos se esconder de algo que, no começo do filme, não fica exatamente claro o que é. Em algum momento dos mais de 2h40min de duração, descobrimos que Marcelo, na verdade, é Armando. Um professor com um atrito do passado com alguém de influência no regime que, por conta disso, é perseguido por dois matadores enviados de São Paulo.

É com essa breve sinopse que o filme acontece e onde Kleber Mendonça pode distribuir suas já características marcas. Uma delas é a ótima caracterização da Recife dos anos 70, um trabalho minucioso que nesse ponto lembra seu trabalho anterior, o documentário Retratos Fantasmas (2023).

O cinema, bem como na obra antecessora, é uma espécie de personagem do próprio filme e, a la Tarantino, Kleber sopra cinefilia, enchendo a tela de referências da sétima arte, como o filme Tubarão que de um modo engenhoso se mistura ao imaginário do animal fortemente presente na costa pernambucana. Imaginário que também é trabalhado por Kleber com a Perna Cabeluda. A lenda recifense aqui se mistura com a denúncia dos ocorridos naquela época que, de certo modo, eram omitidos dos jornais locais.

Essa miscelânea de Kleber cria um roteiro que, mesmo com tantas abas abertas, não parece pesar o navegador do filme. Pelo contrário, tudo é construído com calma. Tanto que é possível entender quem reclame dos longos minutos que o filme demora a acontecer e a desenvolver suas tramas. A principal delas é a recuperação da memória de um tempo difícil de recuperar. Armando/Marcelo é uma pessoa que ficou no passado e que pouco se sabe sobre o seu fim, bem como o de sua mãe – algo que ele procura saber melhor no filme – ou mesmo de sua esposa, vivida por Alice Carvalho.

Kleber mostra essa dificuldade em recontar e entender essas histórias “desaparecidas” pela ditadura na figura de duas pesquisadoras que surgem em cenas com cortes bruscos, jogando o filme em um presente opaco e sem a mesma textura do período do filme. Essa quebra e o final mais uma vez trazem justificativas para quem não gostou do filme. Propositalmente Kleber interrompe a narrativa e nos lembra que o final de Armando/Marcelo não é conhecido. E talvez, nunca será mesmo.

Com uma ótima campanha nos Estados Unidos e muita pirraça, O Agente Secreto colocou o Brasil mais uma vez no Oscar. Dessa vez, em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator com Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco, para Gabriel Domingues.

O personagem central, que parece feito sob medida para ele, é vivido por Wagner Moura com muita competência, de modo a justificar sua indicação ao Oscar. Outra que ocupa a tela de carisma e personalidade é Tânia Maria (acima), que não teve campanha para Oscar, mas ganhou o imaginário brasileiro.

A seu modo, Kleber coloca toda textura nacional, em especial a do Recife, na roda de conversa da indústria cinematográfica. E o Brasil conhece outras teias da ditadura, que não agiu apenas no porão do DOI-CODI, mas também no cotidiano pelo país todo. Seja pela burocracia, pela omissão ou mesmo em “pernas cabeludas” que aterrorizaram pessoas então marginalizadas.

Kleber dirige Wagner em cena de O Agente Secreto

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Personagem menor da Marvel ganha série simpática

Chegando discretamente ao catálogo da Disney+ e sem o barulho típico das grandes apostas do estúdio, Magnum (ou Wonder Man, no original) se apresenta como uma dessas anomalias curiosas do Universo Marvel que parecem pedir menos devoção e mais curiosidade. A série parte de um conceito quase metalinguístico, acompanhando um herói que transita entre a indústria do entretenimento e o espetáculo super-heroico, e encontra aí um tom mais leve, irônico e autoconsciente. Em vez de vender urgência apocalíptica, prefere observar os bastidores, os egos e as engrenagens de um mundo onde salvar o dia é apenas mais um papel a ser interpretado.

Nos quadrinhos, Simon Williams sempre foi um personagem sem lugar. Criado nos anos 60, surgiu como vilão, morreu cedo, voltou à vida e acabou se tornando um Vingador pouco convencional, com uma carreira paralela como ator em Hollywood. Chamado lá fora de Wonder Man, chegou ao Brasil como Magnum. A Marvel nunca soube exatamente o que fazer com ele, e talvez por isso mesmo tenha se permitido arriscar mais agora na TV, sob o selo supostamente mais pé no chão Spotlight (o mesmo de Echo e Demolidor: Renascido). Magnum entende essa natureza errática e faz dela um trunfo: em vez de tentar encaixar o personagem à força em uma mitologia rígida, assume sua instabilidade como identidade, algo raro em um estúdio acostumado a personagens moldados para franquias.

A história funciona justamente por ser modesta em ambição e precisa em foco. Ao acompanhar Simon tentando se firmar como ator enquanto lida com superpoderes secretos e um passado mal resolvido, a série encontra conflitos reconhecíveis, ainda que embalados por elementos fantásticos. O roteiro sabe equilibrar humor e melancolia, usando o ambiente de estúdios, audições e produções decadentes como espelho de um herói que não sabe muito bem quem é quando as câmeras se apagam. É um conflito pequeno, mas honesto, e por isso mesmo eficaz.

Yahya Abdul-Mateen II ( o vilão do Aquaman da DC) sustenta a série com uma performance cheia de nuances, alternando carisma, insegurança e um certo cansaço existencial que combina com o personagem. Ele entende que Simon Williams não é um herói confiante, mas alguém constantemente em teste, e testando os outros. Ao seu lado, Sir Ben Kingsley surge quase como um presente tardio ao público. Reabilitado depois da recepção negativa de Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013), ele retoma Trevor Slattery com um prazer visível, transformando o personagem em um mentor patético e fascinante. A dinâmica entre os dois, baseada em vaidade, afeto torto e oportunismo, é o coração da série.

O que realmente diferencia Magnum do restante do Universo Marvel é sua recusa em parecer essencial. Não há ganchos desesperados para o próximo grande evento, nem a sensação de que cada diálogo carrega implicações cósmicas. A série se permite ser uma comédia dramática com superpoderes, quase um comentário lateral sobre o próprio MCU. Ainda assim, Simon Williams se encaixaria com facilidade nesse universo justamente por ser um corpo estranho, alguém que poderia circular entre Vingadores e produções B de Hollywood sem jamais se sentir totalmente pertencente a nenhum dos dois mundos.

Por trás da série estão Destin Daniel Cretton, diretor de Shang-Chi (2021), e Andrew Guest, produtor da série do Gavião Arqueiro. Duas figuras experientes dos estúdios Marvel que trazem referências claras à sátira da indústria do entretenimento e a narrativas mais íntimas, menos preocupadas com pirotecnia. Há ecos de comédias amargas sobre fama, fracasso e identidade, filtradas pelo verniz Marvel. Se o futuro reserva uma expansão desse mundo ou se Simon Williams fica por aqui, ainda é cedo para dizer. Ao menos por enquanto, Magnum prova que ainda há espaço no estúdio para histórias de gente que não quer salvar o mundo, apenas conseguir pequenas vitórias e sobreviver ao dia a dia.

O personagem Simon Williams, como era originalmente nos quadrinhos

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