Netflix viaja no tempo com A Gente Se Vê Ontem

por Marcelo Seabra

Muito mais próximo do drama que da ficção-científica, A Gente Se Vê Ontem (See You Yesterday, 2019) é uma nova produção Netflix que traz ar fresco a um subgênero bem famoso: o das viagens no tempo. Com um elenco jovem que ainda vai chamar muita atenção, o longa marca a estreia do estudante de Cinema Stefon Bristol na direção, depois de realizar curtas e colaborar com outros nomes, dentre os quais se destaca o de Spike Lee.

Bristol diz que seus filmes favoritos são Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) e De Volta Para o Futuro (Back to the Future, 1985). Por isso, não é por acidente que A Gente Se Vê Ontem parece ser a mistura deles, trazendo conceitos ligados a espaço e tempo numa mistura interessante com temas como racismo e violência policial. Para que a referência fique ainda mais clara, temos uma participação mais do que especial logo no início da obra.

Novamente vivendo os papéis do curta homônimo de 2017, Eden Duncan-Smith e Dante Crichlow têm a chance de desenvolverem as aventuras de CJ Walker e Sebastian. Eles são melhores amigos que passam o tempo fora da escola desenvolvendo pesquisas científicas para vencerem uma importante competição e ganharem bolsas de estudo em institutos renomados. No centro da pesquisa da dupla está a possibilidade de viajar no tempo, e eles já fizeram mais de cem testes quando os conhecemos.

Uma atitude acertada, que outros filmes recentes também tiveram, é não se aprofundar muito nas teorias científicas, mas usá-las como ponto de partida para algo muito mais profundo. Bristol e sua co-roteirista, Fredrica Bailey, estão mais interessados em enfocar o círculo de violência que envolve as populações negras nos Estados Unidos, algo que segue na linha do mentor de Bristol, ninguém menos que Spike Lee (diretor e roteirista de Faça a Coisa Certa). Lee, inclusive, é produtor do longa.

Desenvolvendo as ideias que apresentaram no curta, a dupla faz com que CJ e Sebastian consigam voltar no tempo e, frente a uma tragédia, contemplem a possibilidade de mudar os rumos da história. É interessante perceber que o passado – e as questões que ele levanta – se torna um caminho bem mais atrativo que o futuro. Nos preocupamos mais com o que conhecemos, e não com o que ainda não aconteceu. E, assim, nos vemos torcendo pelos amigos, e o clima do filme, que começou bem-humorado, vai ficando tenso, em rumos que são de fato surpreendentes.

Nesse desenvolvimento, há pontos negativos a se levantar. O caldo entorna quando não se respeita as regras criadas. Como o roteiro obviamente segue os conceitos apresentados em De Volta para o Futuro, percebemos falhas gritantes. Para não entrar em detalhes, cito apenas um folheto e um velório como pontos principais. Se um não faz muita diferença, o outro é essencial para a trama. Fica parecendo que os realizadores não encontraram outra forma de chegar onde precisavam e precisaram fazer vista grossa para algo que qualquer fã de Marty McFly sabe há anos.

As situações que envolvem viagens no tempo ocupam o Cinema e a TV há anos, e é claro que não há uma resposta definitiva. Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019) trouxe outra vertente que foge um pouco, mas a mais difundida acaba sendo a do Efeito Borboleta. A Gente Se Vê Ontem segue por aí até dar uma grande derrapada. E nos leva a um final que pode ser facilmente interpretado como preguiçoso. Há um conceito por trás, claro, mas ele pode não satisfazer a todos.

Bristol conduz seus atores

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Este também é um romance adolescente

por Marcelo Seabra

Mais um romance água com açúcar para adolescentes a chegar aos cinemas, O Sol Também É uma Estrela (The Sun Is Also a Star, 2019) tem seu diferencial na tentativa de mostrar seus protagonistas como pessoas inteligentes e engajadas, apesar da pouca idade, e na crítica ao movimento contra a imigração que os Estados Unidos vivem (e o mundo). Esses dois objetivos se perdem em diálogos decoradinhos e pretensiosos, coincidências mirabolantes e situações inverossímeis, contando apenas com o carisma do casal para se segurar.

A primeira coisa que causa estranheza é o título. Ele é explicado na trama, ok, mas não deixa de ser pré-fabricado e complicado de guardar. O livro que serviu como base, de mesmo título, é bem elogiado e muito vendido, e tem algo de autobiográfico. A autora, Nicola Yoon, não viveu as dificuldades retratadas, mas também é jamaicana e o marido, coreano. Ela é a responsável pelo livro que originou outro romance adolescente igualmente besta: Tudo e Todas as Coisas (Everything, Everything, 2017). A duas histórias têm muito em comum e o resultado é igualmente desastroso.

O Sol Também É uma Estrela nos apresenta a Natasha Kingsley (Yara Shahidi, de séries como Black-ish e Grown-ish), uma jamaicana que vive em Nova York há nove anos e vive seu último dia na cidade. Ela será obrigada, junto da família, a voltar a seu país de origem, mesmo que tenha construído sua vida nos EUA. Nesse dia tão tumultuado, ela cruza o caminho de Daniel Bae (Charles Melton, de Riverdale) e chama a atenção do rapaz – a razão é estapafúrdia! Quando os dois têm a chance de conversar, após coincidências que bem podem ser o destino agindo (!!!), descobrem que são perfis opostos. Enquanto ele é um romântico incorrigível, ela é pragmática e não acredita no amor. Ganha uma mariola molhada quem acertar o que acontece.

A cidade de Nova York se torna uma personagem, com a fotografia de Autumn Durald (de Teen Spirit, 2018) passeando por prédios, parques e ruas. Em suas andanças, o casal passa por várias paisagens e marcos interessantes, e fica clara a questão da família de ilegais morar bem longe do centro. Os coreanos, por serem legais, parecem ter um pouco mais de tranquilidade, mas ainda assim são sempre vistos como “de fora”. Mesmo tendo nascido lá. Com o presidente deles falando sempre mal de quem não é “americano puro” (como se isso existisse), é louvável que um filme levante essa peteca.

O problema é que a boa intenção da história cai por terra com soluções simplistas para situações que parecem ser complexas. Tudo o que envolve o advogado vivido por John Leguizamo (de John Wick 2, 2017), por exemplo, é absurdo, a começar pela forma como ele entra no quadro. E a preocupação de dar um pouco de profundidade para nos dois principais, já que todos os coadjuvantes parecem um poço de estereótipos. Shahidi e Melton têm sorrisos muito bonitos, mas o texto que sai de suas bocas não ajuda nada. Sem exageros, foi fácil ver gente dormindo ao olhar em volta no cinema. E era uma pré-estreia para convidados!

Os atores ajudam, mas o texto os trai

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Novo Cemitério Maldito segue outros caminhos

por Marcelo Seabra

Um livro lançado em 1983. Uma adaptação para o Cinema em 1989. Era necessário realizar outra versão? Não. Havia outras obras do autor para adaptar? Sim. O filme de 89 é bom? Sim! E é fiel à fonte? Sim. Mesmo com essas respostas, foram adiante e já é possível conferir na telona o novo Cemitério Maldito (Pet Sematary, 2019), releitura do clássico de Stephen King que busca desesperadamente se afastar da primeira versão. O resultado é uma mistura paradoxal e fraca de uma lenta construção de clima, abandonado sem aviso prévio, com uma dependência de sustos fáceis.

Um problema que costuma acometer reboots de super-heróis é a necessidade que os realizadores sentem de fazer tudo diferente. Caso contrário, não se justificaria uma nova produção. O Homem-Aranha, por exemplo, teve a trilogia de Sam Raimi e, num intervalo curto, apareceu em uma nova aventura que mais uma vez trouxe a origem dele. Com essas liberdades, cada vez mais se afastam da fonte. Uma adaptação entre mídias diferentes não precisa e nem deve ser literal, ajustes são bem-vindos. Mas devem funcionar a favor da obra, e não acabar com o sentido por trás dela.

É comum ver na internet gente desmerecendo o Cemitério Maldito de 89, que de fato tinha um orçamento baixo. Mas o longa de Mary Lambert está longe de ser ruim. Além de boas atuações, em especial do saudoso Fred Gwynne, tem um roteiro bem amarrado que traduz maravilhosamente as ideias presentes no livro. Ah, importante mencionar que o próprio Stephen King fez a adaptação. E, com os Ramones na trilha, não tem como errar. Eles inclusive compuseram o fantástico tema homônimo, que imediatamente ganhou vida independente do filme.

Com US$21 milhões para usar no remake, a dupla Kevin Kölsch e Dennis Widmyer poderia ir bem mais longe. Os diretores têm experiência no gênero, com vários curtas e um longa de estreia, e o responsável por reescrever a história, Matt Greenberg, foi o roteirista de 1408 (2007), também derivado de King. A versão final do roteiro é assinada por Jeff Buhler – que este ano trabalhou em outra refilmagem, a de Alucinações do Passado (1990). Os temas abordados por King, como a morte e a culpa, ainda estão lá, mas de maneira muito superficial e forçada.

Se no elenco não tem gente tão famosa, talento não falta. Jason Clarke já mostrou seu valor, como em Mudbound (2017), e Amy Seimetz (de Alien: Covenant, 2017) cumpre sua obrigação a contento. Com os dois, o casal de protagonistas está bem defendido. John Lithgow faz qualquer coisa com excelência: do drama (como em O Amor É Estranho, 2014) ao suspense (o Trinity de Dexter), passando pela comédia (How I Met Your Mother), para ficar em exemplos mais recentes. E a menina Jeté Laurence (de Boneco de Neve, 2017) consegue ir aos extremos que seu papel exige, completando o núcleo principal.

Para quem não conhece, o livro (O Cemitério, no Brasil) nos apresenta aos Creeds no momento em que eles decidem deixar a correria da cidade grande e se mudam para a pequena Ludlow (próxima de Derry, de It, 2017). O Dr. Louis (Clarke) assume a enfermaria da faculdade local, o que lhe permite mais tempo com a esposa, Rachel, e os filhos, Ellie (Laurence) e Gage. Ele logo faz amizade com o vizinho, Jud (Lithgow), que o apresenta a um antigo cemitério indígena capaz de trazer os mortos de volta.

Ao contrário do longa de 89, que fez alterações pontuais no andamento da história, o de 2019 parte dessa premissa para desenvolver algo diferente. Há uma grande simplificação, excluindo personagens e situações, e os chamados jump scares (sustos gratuitos, que dependem de uma montagem rápida) se proliferam. A trilha, discreta no início, vai se tornando cada vez mais invasiva e incômoda, exatamente o contrário do que deveria fazer.

Algo que chama a atenção positivamente é a fotografia de Laurie Rose (de Operação Overlord, 2018). Ela parte de tomadas gerais, apresentando bem o ambiente, para closes que parecem querer demonstrar o estado de espírito dos personagens. Mas o roteiro desequilibrado não permite que eles se desenvolvam decentemente, e o que é pior: ele cria regras, as apresenta e não se importa em descartá-las na primeira oportunidade. Quem conhece o livro nota uma pressa enorme, é como se o roteirista tivesse listado momentos a apresentar e fosse riscando-os, numa urgência de cumprir a lista.

Como o meio desse Cemitério Maldito vai rapidamente mostrando suas diferenças para com o livro, como o trailer irresponsavelmente adianta, podemos pressupor que o final será ainda mais distante. E a sensação que ele deixa, de tão absurdo e vazio, é de que os diretores queriam chocar a qualquer custo, mesmo que isso custasse qualquer lógica desenvolvida até então. A música-tema dos Ramones, regravada de forma genérica, reflete a falta de propósito do filme. Com tanto livro de King ainda “virgem”, não dá para entender a ânsia de sempre se voltar nos mesmos. E, com a bilheteria que tem sido alcançada, uma sequência vem aí.

“Louis, às vezes o original é melhor!”

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Netflix oferece duas chances para conhecer Dirty John

por Marcelo Seabra

Procurando por amor, Debra Newell, divorciada e mãe de quatro, encontra pela internet um sujeito que parecia o pacote completo: 55 anos, médico, ligado à família, frequentador de uma igreja. Alguém bem-sucedido que viria para somar. “Por que não tentar e conhecê-lo?”, ela pensou. Depois de um primeiro encontro com uma conclusão desastrosa, ela acabou dando a ele outra chance e logo se envolveram de tal forma que não demoraram a se casar. O único problema nisso tudo é o fato de John Meehan ser um psicopata.

Quem não conhece o caso tem duas oportunidades de se inteirar, ambas distribuídas pela Netflix. Uma minissérie foi lançada nos Estados Unidos em novembro de 2018 e logo chegou a outros países, contando todos os detalhes do caso. Paralelamente, a rede NBC produziu um documentário para a TV sem romantizar nada, trazendo “a verdadeira história”. O interessante é perceber que as duas produções têm, entre seus realizadores, o jornal L.A. Times, que foi onde a história surgiu.

Em 2016, o premiado repórter Christopher Goffard tinha uma vaga ideia do que havia acontecido e procurou Debra. A partir daí, começou a juntar as peças, lançou as reportagens no jornal e acabou criando um podcast. Dividido em seis partes, o podcast teve mais de 10 milhões de downloads nas primeiras seis semanas de lançamento, tamanho o interesse que atraiu. Goffard foi consultor no documentário e na série, trazendo veracidade a ambos, mas a segunda toma leves liberdades dramáticas.

Estrelada por Connie Britton (de American Horror Story) e Eric Bana (de Rei Arthur, 2017), Dirty John: O Golpe do Amor (2018) constrói bem a personagem de Debra para na sequência introduzir John, daí em diante dividindo seu foco entre os dois. Bana está muito bem como o galante médico que se revela um predador viciado em remédios e mentiras. Mas quem rouba o show é Britton (abaixo, à esquerda), merecidamente indicada ao Globo de Ouro pelo trabalho. É agoniante acompanhar a jornada de Debra (abaixo, à direita), que busca basicamente o mesmo que todos nós: um companheiro, alguém para dividir suas alegrias e tristezas.

Mas Debra não foi a primeira vítima de John. Episódio após episódio, conhecemos o quadro completo, com direito a flashbacks para apresentar a família Meehan, além das outras mulheres que caíram na mesma armadilha. Algumas participações especiais, como Shea Whigham (de Vice, 2018) e Alan Ruck (o eterno Cameron de Curtindo a Vida Adoidado, 1986), são um adicional interessante, e temos ainda no elenco principal Juno Temple (de Roda Gigante, 2017) e Julia Garner (de Ozark), as duas fazendo um bom trabalho como as filhas mimadas de Debra.

Com quase 90 minutos, o documentário Dirty John, The Dirty Truth (2019) segue a mesma trilha, mas trazendo quem de fato viveu aquela experiência traumática. Alguns dos envolvidos optaram por não aparecerem, como a filha mais velha de Debra – na obra ficcional, ela teve até o nome alterado. Mas dá para entender bem o que houve. Só não é possível, em momento algum, saber o que se passa na cabeça de John. Ele emendava uma mentira na outra e, quando se sentia acuado, atacava.

Ver a verdadeira Debra enfrentando corajosamente as câmeras dá um aperto no peito. Ela mesma diz que se expõe dessa forma para dar forças a outras que podem estar passando por algo similar. Goffard (acima), criador das fontes das duas obras, aparece dando depoimentos, juntando as partes e preenchendo lacunas. E que figura antipática é Goffard! Com caras e bocas, como se fosse a atração principal, ele narra sua parte dos fatos de maneira bem blasé.

Ao compararmos as duas atrações, percebemos como foi fiel a criadora da ficção, Alexandra Cunningham (produtora de séries como Aquarius e Desperate Housewives). O fato de os oito episódios terem o mesmo diretor, Jeffrey Reiner (de The Affair e Fargo), mantém uma mesma linha por todo o andamento, com uma montagem ágil que vai e volta no tempo. Quem acompanha séries e gosta de manter o suspense deve conferir primeiro os episódios. Mas não deixa de ser interessante emendar com o documentário.

John e Debra se casando, antes de tudo ruir

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Bumblebee é a salvação dos Transformers

por Marcelo Seabra

Não está de todo errado quem correu de ver Bumblebee (2018) nos cinemas. Afinal, trata-se de um derivado (ou spin off) da modorrenta franquia Transformers, aquela bagunça visual comandada com mão de ferro por Michael Bay. Dá para deixar qualquer um desconfiado. Mas a decisão de focar esse episódio no simpático Fusca, com diretor e roteirista frescos, sem os vícios dos longas anteriores, deu um resultado bem razoável. Se não é uma obra de arte, ao menos passa longe da chatice esperada e vale uma espiada em serviços de streaming.

A premissa coloca os Transformers em guerra em seu planeta-natal, e os Auto-Bots estão levando um coro dos Decepticons. Por isso, o líder dos mocinhos, Optimus Prime, encarrega o jovem B-127 de verificar se a Terra daria condições a eles para se reagruparem e organizarem um contra-ataque. Aqui, o robô vai passar por poucas e boas, fará amizade com uma terráquea e vai acabar ganhando o apelido que carregou dali em diante: Bumblebee.

No papel que basicamente foi de Shia LaBeouf no filme de 2007, temos agora Hailee Steinfeld. Com saudades do pai, ela não se encaixa na nova estrutura familiar, com mãe, irmão e padrasto, e acredita que ter um carro resolveria muitos de seus problemas. Numa oficina de bairro, onde consegue peças para consertar um Corvette antigo, ela descobre um Fusca (ou Beetle) estacionado e consegue fazê-lo funcionar. Daí para descobrir que seu novo carro é na verdade um robô alienígena fugitivo é um pulo.

Steinfeld, cujo talento já foi comprovado em trabalhos como Bravura Indômita (True Grit, 2010) e Quase 18 (The Edge of Seventeen, 2016) segura bem a personagem, por mais maluco que seja o cenário. Ela tem um bom timing cômico e é igualmente competente nos momentos mais dramáticos. John Cena (de Na Mira do Atirador, 2017 – abaixo) é bem mais engessado, mas o militar que ele vive não exige muito. O outro destaque é Jorge Lendeborg Jr. (de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, 2017), que forma uma dupla afiada com Steinfeld. No elenco humano, não temos mais participações especiais, como é costume na franquia, mas elas aparecem entre os dubladores dos robôs. Dylan O’Brien, Justin Theroux e Angela Bassett são as principais novidades.

Bay, que assina Bumblebee apenas como produtor, passou o comando para Travis Knight, um experiente animador que traz no currículo Coraline (2009), ParaNorman (2012), Os Boxtrolls (2014) e a direção de Kubo e as Cordas Mágicas (2016). Duas indicações ao Oscar de Melhor Animação (por Boxtrolls e Kubo) devem ter lhe dado moral para assumir um projeto dessa magnitude, e ele se mostra mais apto que Bay, entregando cenas mais fáceis de digerir e uma montagem menos frenético. Apesar de ser responsável pelo terrível Paixão Obsessiva (Unforgettable, 2017), aqui a roteirista Christina Hodson acertou bem o tom, explorando o carisma de seu robô principal e alternando vários sentimentos ao longo de quase duas horas.

Um expediente que sempre funciona é contar com músicas amadas pelo mundo. Como a trama se passa em 1987, medalhões desse filão desfilam, como Bon Jovi, Duran Duran, A-ha, Simple Minds e muitos outros. O destaque da trilha fica para The Smiths, que parece ser a banda favorita da garota. Morrissey, o líder dos Smiths, se comunicava muito bem com adolescentes, daí a preferência. Somando-se todos esses elementos, temos um resultado acima da média, que deu dinheiro suficiente nas bilheterias para garantir uma sequência. Mas não esperem muito: o produtor Lorenzo di Bonaventura disse que pretende aproximar o segundo da franquia original, demonstrando não aprender com os próprios erros.

Uma bela imagem, com um quê de O Gigante de Ferro

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ReMastered mira em Robert Johnson

por Marcelo Seabra

Quem acha que o “clube dos 27” era composto apenas por Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix não sabe da missa a metade. O primeiro músico famoso a morrer aos 27 foi Robert Johnson, e a sua morte é só um dos muitos mistérios que o envolvem. O novo episódio da série de documentários ReMastered traz exatamente essa personalidade: Devil at the Crossroads – A Robert Johnson Story (2019) costura o que se sabe desse cantor, violonista e compositor que influenciou todo nome minimamente famoso do mundo do blues, rock e adjacências.

A série ReMastered, criada por Jeff e Michael Zimbalist, busca trazer luz sobre fatos desconhecidos ligados a músicos, geralmente relacionados a mortes ou atentados. Até então, entre várias produções bacanas, a mais interessante era As Duas Mortes de Sam Cooke, sobre o cenário claramente armado que tirou desse mundo um grande cantor, que ainda por cima tinha uma ótima visão de como ajudaria outros negros, como ele, a se realizarem artística e profissionalmente. Outras envolvem nomes igualmente famosos, como Johnny Cash e Bob Marley, e há um outro bem menos conhecido, mas tão marcante quanto: a Miami Showband, banda irlandesa atacada com uma bomba em sua van.

A bola da vez é Robert Johnson. Ele era descrito como um músico jovem, inexperiente e ruim de serviço. Sua música espantava o público e colegas veteranos faziam pouco dele. Depois de um sumiço de mais de um ano, ele reaparece e deixa todos de boca aberta, tamanha é a sua competência. Elementos como esse alimentaram a história de que ele teria ido a uma encruzilhada na área rural do Mississippi fazer um pacto com o diabo. E ele, que não era bobo, punha lenha nessa fogueira, dando corda a essa fama.

É importante ressaltar outro fato que alguns depoimentos levantam: a rixa que existia entre os bares, que atraiam os maridos, e as igrejas, que levavam as esposas. Por estarem perdendo seu público, os pastores diziam que a música tocada nesses “antros” era do capeta, e as esposas passaram a criticar os maridos por isso. Esse talvez seja o maior mérito da série ReMastered: dar um panorama da época, falar de costumes, situando o público. Esse era o mundo em que Johnson estava inserido. O sul racista dos Estados Unidos, onde um negro era enforcado apenas por capricho de outros cidadãos de bem.

O biografado teve sua vida marcada por fatos importantes, tragédias, inclusive, que podem tê-lo tornado mais amargo e, finalmente, arrogante, como é descrito. Não há filmagens de Johnson e vemos apenas duas fotos. Sua personalidade é formada pelas falas dos convidados, e os que o conheceram trazem histórias interessantes. Sua influência fica muito marcada nas falas de gente como Keith Richards e Eric Clapton, e sua importância para a música é clara. Seu jeito de tocar o violão fazia parecer que eram dois instrumentos, com uma riqueza de sons. Até hoje, ele é fonte de inspiração.

Disponível na Netflix, o episódio é curto, com apenas 48 minutos. Mas o interesse que desperta é inversamente proporcional. Mesmo trazendo tudo o que se sabe sobre Johnson, inclusive com participações de historiadores e especialistas, Devil at the Crossroads só consegue atiçar ainda mais o mito. A metáfora da encruzilhada é óbvia: todos chegamos em um ponto da vida em que devemos tomar uma decisão. Robert decidiu se dedicar à música e virou uma lenda. Ou teria de fato feito um pacto com o tinhoso, tomando o caminho mais fácil? Nunca saberemos. Mas as questões que o documentário levanta são muito ricas.

Keith Richards é um dos influenciados por Johnson

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Ultimato conclui a saga dos Vingadores – sem spoilers

por Marcelo Seabra

Ao longo de 11 anos, a Marvel criou e fortaleceu seu universo cinematográfico, jogando no mercado 21 filmes estrelados por seus super-heróis. Muitas vezes, com uns participando do filme dos outros, já que estão todos na mesma casa. Com Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019), chegou o momento de os irmãos Russo concluírem esse arco de histórias, trazendo as consequências do que vimos em Guerra Infinita (2018). O que só poderia resultar no filme mais grandioso do estúdio.

A discussão de qual seria o melhor filme desse universo vai sempre passar pelos personagens favoritos. Existe uma divisão entre os fãs, que escolhem ser do time do Homem de Ferro ou do Capitão América. Essa dualidade foi reforçada em Capitão América: Guerra Civil (2016), mas os dois acabaram chegando a um meio termo. É fácil fazer as pazes quando uma ameaça maior planeja acabar com 50% da vida existente.

Alguns pontos interessantes da trama de Ultimato não serão tratados para que não se estrague a experiência do espectador. O que se pode dizer, sem riscos, é que o tempo de cena de cada herói é bem equilibrado, valorizando até os menos importantes. Em três horas de duração, fica fácil tirar uns minutinhos para cada um. Afinal, temos atores caros ali, e o salário tem que se justificar. Mas, acima do cinismo ligado aos valores envolvidos, nota-se um grande respeito com o fã, já que o roteiro inteligente e intrincado segue uma lógica facilmente vista numa revista em quadrinhos. E a diversidade está mais presente que em qualquer outro.

Ao longo desses 11 anos, tivemos episódios que flertaram com diferentes gêneros e subgêneros, da espionagem ao “filme de roubo”, passando pela aventura pura e simples, aquelas que te fazem torcer, temer e até chorar. Ultimato tem momentos em várias dessas áreas, misturando muita coisa que vimos antes e as levando além, aumentando o grau de intensidade. Ele faz uma homenagem a tudo o que foi construído, inclusive com referências a outras obras, e tem a coragem de ir adiante, não apenas reciclando. Às vezes, os planos ficam um pouco confusos, mas nada que já não tenhamos visto nesse universo.

O elenco, assim como a equipe de produção, demonstra uma familiaridade muito grande com seus personagens, com os elementos tratados e entre si. Estamos vendo uma família, com seus altos e baixos, suas brigas e reconciliações. Tudo é muito familiar para o público também, que já sabe o que esperar. E é exatamente essa proximidade que nos faz temer pelo destino daqueles que seguimos há mais de uma década. Uma das grandes perguntas que todos se fazem, ainda antes da sessão, é: quem vai morrer?

A questão de quem fica e quem vai é, sim, um dos grandes segredos de Ultimato. Daí a preocupação de todos com os famigerados spoilers. Mas, mesmo tendo algum desses segredos estragados, o filme ainda é extremamente divertido, fazendo o nerd mais rabugento se sentir uma criança. E não estranhe se algumas lágrimas rolarem. Várias vezes. E a marcante trilha de Alan Silvestri segue trazendo arrepios à coluna.

Kevin Feige levou o elenco a várias estreias pelo mundo

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Drama finlandês forma um belo quadro

por Marcelo Seabra

Chega aos cinemas essa semana mais um exemplo de idoso ranzinza com problemas familiares. O tipo que Clint Eastwood encarna tão bem dessa vez aparece em uma produção que a Cineart foi na Finlândia buscar para nós. O Último Lance (Tuntematon Mestari, 2018) é um drama que mistura negócios, relações familiares e um choque de gerações entre um avô que perde vendas para a internet e seu neto antenado, que usa o Google como um bom detetive. E isso dá uma mistura interessante.

A exemplo de A Mula (The Mule, 2018), para ficar no longa mais recente de Eastwood, esta nova atração nos cinemas tem como protagonista um senhor em seus 80 anos, distante da filha e neto, que se dedicou ao trabalho de uma vida e hoje vê a clientela secar. Com dificuldade de se adaptar aos novos tempos, o Sr. Olavi (Heikki Nousiainen) entende que fechar sua loja de obras de arte é inevitável. Mas ele se depara com um quadro misterioso e quer ter a satisfação de arrematar algo uma última vez, numa tentativa de lucrar e garantir a aposentadoria.

O jovem neto de Olavi está passando do limite entre rebelde e malfeitor. Otto (Amos Brotherus) precisa entregar um relatório de estágio de alguma empresa e, por ter sido pego roubando, ninguém o aceita. O último recurso é tentar o avô que ele mal conheceu, que poderia recebê-lo em sua loja e assinar o tal relatório. Desde o início, essa relação será marcada por altos e baixos, e acabamos conhecendo a mãe de Otto, Lea (Pirjo Lonka), uma mulher sofrida que se vira para criá-lo sozinha sem poder contar nem com o ex-marido, nem com o pai.

Passeando por Helsinki, a câmera de Tuomo Hutri nos dá uma impressão de que a capital está deixando Olavi pra trás, uma parte antiga sendo tomada pela modernidade. Hutri tem no currículo o trabalho mais famoso do diretor Klaus Härö, que também contou com a roteirista Anna Heinämaa: o elogiado O Esgrimista, de 2015. Härö evita sentimentalismos baratos e o roteiro bem amarrado de Heinämaa nos permite conhecer o suficiente dos personagens para nos importarmos com eles, e querer dar uma surra em um certo representante da casa de leilões.

A música de Matti Bye, que evoca grandes nomes do passado, dá o tom em diferentes momentos, das notas mais discretas às mais majestosas. E o elenco, famoso em sua Finlândia natal, é bem afinado e honra o texto. O Último Lance não é exatamente inovador, chocante, nem mesmo otimista. As peças simplesmente se encaixam. É uma boa forma de se gastar uns cem minutos, acompanhando personagens tridimensionais que rapidamente captam sua atenção.

A relação entre eles é o coração do filme

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Atrizes são as forças de Duas Rainhas

por Marcelo Seabra

Deixado em segundo plano devido às parcas indicações na temporada de premiações, Duas Rainhas (Mary Queen of Scots, 2018) acabou demorando a chegar ao Brasil. Com dois importantes papéis femininos, o longa dá espaço para duas atrizes brilharem: Saoirse Ronan e Margot Robbie, que vivem respectivamente as rainhas da Escócia e da Inglaterra. Entre acertos e tropeços, o resultado acaba ficando no meio do caminho, sem empolgar ninguém.

Um problema que costuma acometer produções de época inspiradas em fatos amplamente divulgados é a falta de veracidade. Filmes não são cunhados para serem aulas de História e os realizadores acabam tomando decisões visando atingir maior dramaticidade. Mas daí a mudar o que aconteceu deliberadamente e não tirar disso uma obra grandiosa não se justifica. O roteiro de Beau Willimon (de Tudo Pelo Poder, 2011) toma certas liberdades em relação ao livro em que se baseia, de John Guy, fugindo dos fatos, e acaba abraçando o mundo, o que seria melhor desenvolvido numa série (como House of Cards, também escrita por Willimon).

O título nacional também não ajuda. O filme enfoca especificamente Mary (Ronan, de Ladybird, 2017), que volta da França ao ficar viúva para assumir o trono da Escócia que é seu por direito. Ao ser coroada, Mary dispara os alarmes na Inglaterra, onde sua prima Elizabeth (Robbie, de Eu, Tonya, 2017) governa com mão de ferro e uma pequena dose de paranóia, já que todos poderiam estar conspirando contra ela. Nasce entre as duas um misto de admiração, carinho e rivalidade, e a única base histórica para o livro e o roteiro são as cartas trocadas entre elas.

O próprio filme acaba se perdendo de seu propósito inicial, tirando o foco de Mary e correndo para Elizabeth, tendo dificuldade para se alternar entre as duas. A causa principal defendida acaba sendo o feminismo, já que a culpa dos conflitos e das inimizades é dos homens que cercavam as rainhas e as aconselhavam – um dos principais é interpretado por um diabólico Guy Pearce (de The Rover, 2014). Um diálogo, inclusive, deixa esse machismo vigente bem claro, quando um conselheiro de um lado diz ao do outro algo como “Como deixamos isso acontecer?”, questionando como deixaram mulheres serem as pessoas mais poderosas daqueles países.

São muitos pontos levantados e Willimon tem dificuldade de tratar todos. A experiência anterior da diretora Josie Rourke fica clara em algumas passagens: o teatro. Fazendo aqui sua estréia no Cinema, Rourke cria momentos típicos dos palcos, algo que às vezes funciona, colocando força nos diálogos, e em outras vezes parece pequeno, subaproveitando as possibilidades quer o Cinema oferece. Em sua maior parte, Duas Rainhas enche os olhos com seu apuro técnico. Todos os recursos visuais funcionam, da maquiagem aos figurinos, passando pela bela fotografia. Tudo isso pontuado pela interessante trilha sonora de Max Richter (da série The Leftovers).

A falta de foco de Willimon ainda tem outra conseqüência desastrosa: ele tenta amarrar tantas pontas que parece sem tempo para terminar de uma forma apropriada. O fim é apressado, se amarrando de qualquer jeito ao início desnecessário, que de cara mostrou ao espectador o que acontecerá. Se você não conhecia a história real, teria a chance de ser surpreendido, mas o filme lhe rouba isso. As críticas ao mau uso da religião, personificada pelo personagem do ótimo David Tennant (de Jessica Jones), são mais um elemento em meio a tantos, todos mal aproveitados.

Margot Robbie e Saoirse Ronan lançam o filme em Nova York em novembro de 2018

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Super-Homem espanhol chega à Netflix

por Marcelo Seabra

Com tantos super-heróis chegando ao Cinema, era de se estranhar não haver mais paródias, já que elas costumam acompanhar modismos. A Netflix acaba de contribuir com essa causa disponibilizando uma produção que fez grande sucesso nas salas da Espanha. Superlópez (2018) é uma comédia despretensiosa que estreou em seu país no final no último novembro e emplacou a segunda maior bilheteria do ano de uma produção nacional.

A engraçada proposta de ter um Super-Homem espanhol surgiu em 1973 nas mãos do quadrinista Jan, nome artístico de Juan López Fernández. O personagem foi criado para uma tirinha cheia de humor e duplos sentidos e foi muito bem recebida, ganhando mais espaço e mais coadjuvantes. Em 2003, foi feito um curta de animação com ele, e era questão de tempo até termos uma versão de carne e osso.

No Cinema, Superlópez ganhou o rosto de Dani Rovira, com Julián López, Alexandra Jiménez e Maribel Verdú nos papéis principais. Juan nasceu em outro planeta, de um experimento científico, e antes que caísse nas mãos do ditador de Chitón (gíria local para “cala a boca”), é despachado pelos pais para a Terra, mais especificamente os Estados Unidos – destino que parece óbvio, eles reforçam. Mas um acidente de percurso o desvia para Barcelona, onde ele cresce disfarçando seus poderes extraordinários e levando uma pacata vida de escritório.

Em apenas um dia, o colega de Juan, Jaime (López), o apresenta à nova colaboradora, Luisa (Jiménez), e nosso herói para um trem desgovernado, o que chama a atenção da mídia. Outra que presta atenção é Ágata Muller (Verdú), a filha do tal ditador que seguiu Juan e esperou todos esses anos para levá-lo de volta e orgulhar o pai. A partir daí, temos situações engraçadas, leves, que chegam até a fazer piada com o fato de se tratar de uma produção espanhola, já que não há heróis no país.

Também são exploradas as características mais peculiares dos super-heróis dos quadrinhos, como eles terem um uniforme e a troca sempre ocorrer rapidamente. O diretor, Javier Ruiz Caldera, tem experiência com paródias (como Anacleto: Agente Secreto, de 2015), e seus roteiristas, Diego San José e Borja Cobeaga, sabem bem conduzir as coisas, dando ênfase ao que julgam importante e deixando o resto de lado. As filmografias deles envolvem vários projetos em comum, o que explica a cumplicidade entre eles.

O elenco é todo bem afiado, com destaque para os cômicos pais adotivos de Juan, vividos por Gracia Olayo e Pedro Casablanc, e para o ditador General Skorba (Ferran Rañé), um vilão sempre muito educado. Sem precisar de efeitos especiais caros ou nomes de grande apelo no elenco, Superlópez consegue divertir por uma hora e meia mantendo um bom nível nas piadas e situações, brincando e ao mesmo tempo homenageando suas fontes. E isso já é mais que a maioria das comédias de Hollywood conseguem.

A equipe celebra a estreia nos cinemas espanhóis

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