Idris Elba sai no braço com A Fera

Para tentar se reconectar com as filhas jovens, que o culpam por ter se afastado da esposa quando ela ficou doente, um médico resolve levar as duas para visitar o vilarejo africano onde a falecida nasceu. Esse é o ponto de partida para A Fera (Beast, 2022), novo longa do subgênero drama de sobrevivência a chegar aos cinemas. A boa notícia é que ele trata bem o seu público, com situações interessantes e bem tensas.

Ajuda muito ter o ótimo Idris Elba no elenco. Ele funciona como anti-herói (O Esquadrão Suicida, 2021), herói (o Heimdall de Thor), vítima (Depois Daquela Montanha, 2017) ou vilão (Star Trek: Sem Fronteiras, 2016). Nem sempre acerta na escolha do projeto (A Torre Negra, 2017, ou Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw e Cats, ambos de 2019), já que ninguém é infalível. O importante é que Elba sempre sai ileso, fazendo o seu melhor, por pior que o resto à volta dele seja.

Em A Fera, temos um leão sanguinário mostrando quem manda na região. Os atos dele são exagerados, mas isso não deixa de ser uma alegoria sobre o troco que a natureza dá nos humanos quando é agredida. Geralmente, a vingança não atinge quem supostamente a merece, atinge o primeiro que passar na frente. No caso, o Dr. Nathan, as filhas e o velho amigo vivido pelo sul-africano Sharlto Copley (muito lembrado por Distrito 9, de 2009). Buscando aproveitar ao máximo a viagem, eles fazem passeios por belas paisagens, veem animais exóticos e acabam se deparando com uma fera assassina.

O islandês Baltasar Kormákur já comandou embates entre o homem e a natureza em Evereste (Everest, 2015) e tem aqui um resultado mais bem sucedido. A dupla Jaime Primak Sullivan (história) e Ryan Engle (roteiro) se reúne pela segunda vez nas mesmas funções (depois de Invasão, 2018) e cria uma trama simples, mas bem costurada e que funcionada de maneira bem eficaz. Nada é forçado e até o velho conflito entre pais e filhos é colocado de forma prática e objetiva. O Dr. Nathan só não esperava que, além de enfrentar as filhas, ficaria cara a cara com um baita leão.

É impossível não associar A Fera a outros longas de temáticas similares, como A Sombra e a Escuridão (The Ghost and the Darkness, 1996), sobre leões atacando os trabalhadores de uma construção, ou mesmo A Perseguição (The Grey, 2011), que acompanhava um grupo de petroleiros assombrados por uma matilha de lobos. A trama direta, a atuação de Elba e a química dele com as meninas fazem o filme se destacar na multidão, entretendo o público por seus rápidos 90 minutos. E ainda torna possível discussões sobre a preservação de fauna e flora e, quem sabe, sobre a brevidade da vida, sobre sempre acharmos que vamos ter tempo para consertar erros e como nem sempre isso é possível.

A química entre a família ficcional ajuda muito no sucesso do filme

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Nathan Fielder testa os limites da realidade no audiovisual em O Ensaio

por Vinny Costa

A certa altura do episódio inaugural da série O Ensaio (The Rehearsal), o solitário Kor, um professor do Brooklyn que sempre mentiu para seus amigos intelectuais sobre ter feito um mestrado, não creditado como personagem do programa – característica comum a todos os “atores” que aparecem na série – resume a personalidade de Nathan Fielder ao encontrá-lo pela primeira vez comparando-o a Willy Wonka: “Olha, ele tinha umas atitudes questionáveis, era muito misterioso”. Nathan, então, o interpela em tom ameaçador: “Eu sou o Willy? O vilão da história?”. Kor retruca, desconcertado: “Ele é um vendedor de sonhos, você está realizando o meu”.

Se nas versões de A Fantástica Fábrica de Chocolates, o egocentrismo de Willy Wonka (vivido com brilhantismo nas telas por Gene Wilder e Johnny Depp) faz com que o empresário recrie a realidade a seu ideal excêntrico de doçura em sua idílica indústria, não se importando com o destino das crianças que o visitam, aqui, Fielder recria seu parque pessoal de diversões não menos aterrorizante: o audiovisual. Seu objetivo é “ajudar” pessoas “normais” a recriarem histórias antecipadamente para que possam ter coragem, controlando imprevisibilidades e variantes, para um dia assumirem, a partir dos ensaios feitos com Fielder, as atitudes corretas a serem tomadas na “vida  real”.

O diretor e comediante americano passou a última década testando os discursos sobre o mérito empresarial no choque entre o artificial e o real em seu programa Nathan For You (2013- 2017). Brilhantemente, em O Ensaio, o mesmo Kor, apresentado como um especialista em televisão e aqui representando também o público geral, afirma categoricamente desconhecer o programa, para decepção de Fielder.

Em O Ensaio, o diretor busca questionar o próprio audiovisual em sua era de reality shows. Os programas de realidade, a pretexto de mostrar o mundo real, acabam por criar narrativas tão, ou mais, roteirizadas que as obras de ficção tão características do cinema clássico hollywoodiano.  Esse parece ser o paradoxo que encanta Fielder na construção de sua série: encontrar espontaneidade dentro da arte pensada, encenada e refletida ao mesmo tempo em que a realidade que, a priori, deveria ser espontânea, vai sendo construída como um roteiro arquitetado.

A partir de tal paradoxo, definir uma breve e simples sinopse de O Ensaio é tarefa das mais difíceis. São camadas sobre camadas de roteiro artificial em busca da espontaneidade real que verdadeiramente emociona o espectador, ao mesmo tempo que qualquer reação espontânea dos participantes do projeto moldam e guiam o roteiro a ser, meticulosamente, reconstruído. Não há uma cena em O Ensaio em que não se deva questionar a natureza do que está se vendo, tamanho é o absurdo de suas premissas e dos desdobramentos que se encadeiam na tela.

Nesse sentido, O Ensaio se apresenta, inicialmente, como mais um reality show daqueles a que comumente assistimos ao mudar de canal na televisão e que nos atrai pela premissa de mostrar pessoas e casos reais.  E daí vem o primeiro estranhamento do espectador que assiste ao show na HBO Max e não zapeando pelos milhares de canais da televisão paga: mais do que o que estamos vendo, somos convidados a pensar o porquê de estar assistindo tal show. Logo de início, é como se o espectador estivesse assistindo a algo errado. Como se aquele programa não devesse estar ali.

Ao se iniciar o primeiro episódio, uma câmera com baixa qualidade, trôpega e com tomadas típicas da televisão norte-americana, em busca de foco nos rostos das pessoas reais em um programa de baixo orçamento, aparece na tela do streaming da HBO. A primeira sensação que o espectador tem ao entrar naquele mundo é a de estar assistindo a um programa no canal errado e isso é fundamental para a experiência de estranheza das normas e expectativas do audiovisual que Fielder quer (des)construir. Esse não-lugar da obra perante o que se espera é fundamental para guiar quem assiste no vale de estranheza do que vem a seguir.

O espectador é, então, introduzido ao que está assistindo pela voz em off de Nathan Fielder, Deus ex Machina do show, controlando a narrativa sobre a realidade do que se é autorizado a ver. A personagem Nathan Fielder é um diretor que busca pessoas reais que queiram ensaiar momentos importantes de suas vidas. Ele visa assumir o controle narrativo da vida do sujeito, organizando e controlando tal momento-chave em suas mínimas circunstâncias e apresentando o sucesso ou o infortúnio para todos os que assistem ao programa. Ao mesmo tempo, ele documenta a si mesmo fazendo o programa e o exibe a nós, sempre acrescentando uma camada de realidade dentro da realidade ficcional que constrói.

A questão é que à medida que os episódios avançam, Fielder não se contenta apenas com essa camada que, por si só, já seria interessante e complexa. Fazendo um programa dentro de outro programa sucessivamente, nada do que se vê parece de fato espontâneo, com Fielder controlando todas as narrativas criadas e apresentadas ao público. O expectador vê, assim, a fábrica de chocolates televisiva de Fielder, preso em um mundo onde ele, assim como Wonka, é o único a saber a saída e que, portanto, decide se vai ou não a oferecer, ou quando vai oferecê-la, ao espectador.

Fielder parece entender como ninguém o conceito da filosofia da arte contemporânea, principalmente em Rancière, para quem a arte se faz política não no tema que sugere em seu roteiro, mas, sim na partilha do sensível entre a obra e o espectador. Quando este último abandona a preocupação se o que ele está vendo é real ou ficção, o espectador emancipado, como nomeia Rancière, passa a partilhar a sensibilidade da obra, ao invés de decifrá-la. Em um mundo atual industrial cultural, onde toda obra precisa ser explicada para que o hype sobre ela se perpetue, Fielder convida quem assiste a O Ensaio a se libertar de entender racionalmente se aquilo que se vê foi planejado por um roteiro ou se aquilo a que se assiste foi espontaneamente obtido com, e por, pessoas reais, apenas entregando a humanidade das questões sugeridas pela fronteira da realidade e da ficção onde se está imerso.  Busca-se a experiência artística como dissenso da realidade ao mesmo tempo que nessa supressão de racionalidade, a realidade e a ficção, em comum encontro, faz sentido na experiência de O Ensaio.

Geralmente, pensa-se que uma ficção-cientifica é falsa por ser uma obra inventada por alguém, enquanto um reality show mostra exatamente a realidade. Todavia, a busca pelo real, como vemos hoje nas redes sociais, não tem justamente criado uma vida artificial a ser compartilhada como espontânea? Nesse sentido, não seria a arte, principalmente o audiovisual, com todo o seu metódico planejamento para sair do papel, tão verdadeiro, ou até mais real, que a vida na realidade em plena contemporaneidade? Tais questionamentos norteiam O Ensaio ora como sugestão de Fielder ao público, ora como questão trazida a Fielder pelos atores em cena.

Saber o que é real ou o que é narrativamente construído faz diferença realmente perante uma experiência artística? É preciso entendê-la, ou ainda, que alguém ou algum crítico a explique para que a experiência da arte se faça? Fielder parece perceber que essa é a grande artificialidade que se faz sobre o público contemporâneo: a necessidade de que alguém interprete a partilha do sensível.  Esta partilha, por si só, é a transgressão e, portanto, nela reside a realidade na arte. O que, paradoxalmente, essa crítica faz na busca de estimular que o público acesse a obra é aquilo que não se precisa realizar para a fruição de O Ensaio: a racionalização.

É interessante para o sujeito contemporâneo que alguém narrativamente o conduza ao que assistir. Fielder, ciente disso, também não se abstém de assumir esse papel. Por fim, se o espectador gostar desse texto, fica a questão: gostou porque esta crítica roteirizou seu gosto ou porque espontaneamente partilhou a sensibilidade da obra ao assisti-la? Afinal, existe realidade para fora de algum roteiro ou de alguma narrativa? Seja na arte, ou na vida fora dela, se ela de fato existir, Nathan Fielder parece pensar que não. Afinal, O Ensaio é o seu mundo. Sua fantástica fábrica.

Nathan Fielder vem trabalhando o limite entre a arte e a realidade e chegou ao ápice

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O Predador é caçador e caça em nova aventura

Em 1987, o Cinema viu nascer uma franquia de ação que dá frutos até hoje. Com o então astro em ascensão Arnold Schwarzenegger, O Predador (Predator) nos apresentou a uma raça alienígena que vem para a Terra se aperfeiçoar na arte da caça. Depois de uma sequência não muito bem recebida, houve um longo hiato, e duas tentativas equivocadas de fazer um encontro entre o personagem e o Alien (o oitavo passageiro). Outros dois episódios duvidosos depois e chegamos a O Predador: A Caçada (Prey, 2022), novo longa com o caçador de outro planeta já disponível no Hulu (ou Star+ aqui).

Em meio à tribo Comanche, há 300 anos, um Predador chega e começa seu treinamento, caçando animais e humanos. Naru (Amber Midthunder, de Na Mira do Perigo, 2021) é uma habilidosa rastreadora que pretende se tornar uma caçadora. Seu irmão, Taabe (Dakota Beavers), é o grande guerreiro da tribo e futuro cacique, capaz de capturar um leão. O machismo também impera entre eles e a Naru cabem as tarefas domésticas, e a jovem se rebela frequentemente, indo para a floresta praticar suas habilidades.

Ao encontrar uma cobra esfolada e outras evidências, Naru começa a achar que há algo estranho. Ela suspeita que uma criatura grande e forte esteja rodando o seu povo, mas ninguém acredita nela. A partir daí, o roteiro de Dan Trachtenberg e Patrick Aison é bem sucedido ao criar situações de tensão, colocando membros da tribo em perigo e sempre respeitando o que já sabemos sobre o Predador. As cenas na floresta vão remeter o público ao primeiro filme da franquia, quando o caçador alienígena trucidou todo um esquadrão de militares até cair no mano a mano com Schwarzenegger. Não é necessária experiência prévia com a saga para entender A Caçada, mas enriquece a sessão.

Também diretor do longa, Trachtenberg estreou na função pegando carona em outra franquia e fez bonito: com Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, 2016), ele criou um episódio independente, mas com referências ao anterior, e ainda teve uma sequência, fechando a trilogia Cloverfield. Além de todos os méritos técnicos, da bela fotografia aos ótimos efeitos especiais, Trachtenberg trata os indígenas com muito respeito, observando cuidadosamente os costumes deles e contratando atores de origem similar, o que seria essencial para dar veracidade à trama.

Algumas críticas têm aparecido em fóruns de discussão e postagens sobre A Caçada com relação ao protagonismo feminino, usando palavras cretinas da moda como lacração e chamando a história de feminista, como se isso fosse demérito. Depois de vários heróis homens (Danny Glover é outro exemplo) e filmes que timidamente misturaram os gêneros (Predadores, 2010, e O Predador, 2018), é muito bacana ver uma mudança real, não só de cenário, mas de liderança. E Amber Midthunder funciona muito bem, imediatamente se tornando um nome a se acompanhar. Não seria de se estranhar se ela logo ganhar um papel no Universo Cinematográfico Marvel.

O Predador continua “um filho da mãe feio pra caramba”

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O terror X chega aos cinemas nacionais

Finalmente chega aos cinemas nacionais o longa de terror X – A Marca da Morte (X, 2022), tão elogiado lá fora que já ganhou uma pré-continuação. Depois de alguns adiamentos, o novo trabalho do diretor e roteirista Ti West já está em cartaz e traz uma espécie de homenagem ao Cinema slasher dos anos 70, aqueles filmes com ares de caseiros em que, enquanto uns transavam, outros eram esfolados, decapitados, esfaqueados etc. X segue por esse caminho contando com uma história de fundo bem interessante.

Martin Henderson (da série Virgin River) vive um empreendedor que aluga uma casinha isolada no Texas rural para gravar um filme pornográfico, e sua própria namorada é a estrela. Deixando de lado esse importante detalhe na negociação com o casal de velhinhos, Wayne leva sua trupe e eles logo colocam as mãos à obra. Aí começa uma elaborada trama que envolve sexo, desejo, velhice e muito sangue.

A metalinguagem presente no filme é bem colocada, com a equipe frequentemente discutindo aspectos técnicos do que estão fazendo. Maxine (Mia Goth, de Emma, 2020) quer ser uma estrela e acredita ter a qualidade necessária, o X do título. Bobby-Lynne (Brittany Snow, dos três A Escolha Perfeita) só quer ganhar o suficiente para ter uma vida tranquila ao lado do namorado, o garanhão dos filmes adultos Jackson (Scott Mescudi, o “Kid Cudi”, de Não Olhe Para Cima, 2021). Completam o time o diretor e cinegrafista RJ (Owen Campbell, de Traficantes de Corpos, 2021) e a namorada dele, Lorraine (Jenna Ortega, de Pânico, 2022).

Com uma boa trilha sonora e uma fotografia simples e eficaz, West compõe um filme divertido e tenso. Sabemos mais ou menos o que esperar, mas ainda assim o roteiro consegue surpreender. O pouco que conhecemos dos personagens é o suficiente para nos importarmos com eles e ficarmos apreensivos, esperando pelo pior. Essas características aproximam X do novo clássico O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), o grande inspirador do subgênero slasher.

Outro ponto não menos importante observado nessa obra de West é o moralismo da sociedade norte-americana que o diretor contrapõe à turma do pornô. Na televisão, programas de evangelistas ocupam a programação e tudo é pecado. É uma hipocrisia sem tamanho, um pessoal que prega uma coisa e faz outra, como o casal de velhinhos. Os típicos cidadãos de bem, que escondem suas taras sexuais e se armam até os dentes. West se tornou ainda mais relevante, um nome a se acompanhar.

Jenna Ortega é um dos destaques das novas gerações de atores

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Chris Pratt tem seu momento de Rambo em A Lista Terminal

por Rodrigo “Piolho” Monteiro 

A Lista Terminal (The Terminal List, 2022) é daquelas séries da Amazon Prime que passariam totalmente despercebidas se, no dia em que foi lançada, uma fração da internet não ficasse criticando. Parte desse pessoal reclamou do suposto teor militarista, enquanto outra parte gosta é de implicar com o produtor e protagonista Chris Pratt (o Starlord de Guardiões da Galáxia) muito mais por algumas posições pessoais que ele defende do que por seus atributos como ator. Por causa disso, e porque tinha um tempinho livre, resolvi conferir se as críticas eram justificáveis e – spoiler alert – não eram.

 A Lista Terminal é, basicamente, uma história de vingança com um clima bem oitentista. Quando a série começa, o comandante SEAL (a força especial da marinha americana) James Reece (Pratt) e seu pelotão estão prestes a concluir uma busca de quase dois anos: capturar ou eliminar (o que for mais fácil) um químico responsável por produzir armas para uma organização terrorista baseada na Síria. No entanto, algo dá terrivelmente errado e o pelotão de Reece é massacrado.

De volta aos EUA, o líder e único sobrevivente do grupo percebe que não voltou totalmente ileso da Síria. Alguma coisa está afetando sua memória. Não só isso, mas tudo leva a crer que ele será o único responsabilizado pelo fracasso da missão. Paralelamente, inimigos invisíveis levam o comandante ao limite, o que faz com que ele realize a sua própria investigação a respeito do fracasso da missão.

Com a ajuda do agente da CIA Ben Edwards (Taylor Kitsch, de Crime Sem Saída, 2019) e da repórter investigativa Katie Buranek (Constance Wu, de As Golpistas, 2019), Reece faz descobertas que o levam a criar a lista do título. Ele anota um por um as pessoas que se beneficiaram do massacre de seu pelotão e aqueles responsáveis pela situação miserável em que se encontra. Na medida em que vai colocando os nomes na lista, ele vai eliminando seus alvos, um a um.

Chris Pratt nasceu em 1979. Logo, é seguro dizer que, assim como a maioria dos americanos de sua geração, ele cresceu assistindo a filmes de personagens como John Rambo, John Matrix (Arnold Schwarzenegger em Comando para Matar) ou mesmo John McClane (Duro de Matar). Sendo assim, não surpreende que ele tenha abraçado a oportunidade de viver um personagem parecido. Ainda que Reece fique devendo muito ao trio acima. Ele é pouco dimensional, com a motivação principal de levar o seu conceito de justiça àqueles que lhe causaram mal – e causaram mesmo – sem se preocupar muito com quem fica no seu caminho.

Reece encarna o exército de um homem só consagrado no cinema norte-americano na década de 1980, com todas as suas características quase sobre-humanas, mas pouco de seu carisma. É impressionante ver quão cheio de recursos e quão resistente ele é. Por mais brutal que seja o treinamento dos Navy Seals, é difícil acreditar que uma pessoa real apanhe tanto quanto Reece em certos momentos da série e esteja 100% recuperado pouco depois.

A série é como um filme de ação com quase oito horas de duração. A história é bem simples, as atuações são decentes, os recursos utilizados são bem aproveitados, há alguma escrita preguiçosa aqui e ali e… Só. É o que se pode chamar de série nada, ou seja, não fede nem cheira. Tem seus momentos marcantes, mas, no geral, não é nem um pouco memorável.

O “guardião da galáxia” Chris Pratt é o principal chamariz da série

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Fábio Porchat ataca no Cinema como O Palestrante

O filme chama-se O Palestrante (2022), mas deveria ser O Coach. Ou, no mínimo, o Palestrante de Autoajuda (ou Motivacional, como seria originalmente). Afinal, essa é a crítica que Fábio Porchat e companhia parecem querer fazer. É como se eles dissessem que esse pessoal motivacional que faz palestras genéricas para empresas só enrola e que qualquer um, mesmo pego de surpresa, é capaz de fazer igual ou melhor. Em meio a essa mensagem, se desse para arrancar algumas risadas do público, a missão teria sido cumprida com honras. Não foi.

Quando se diz que alguém é palestrante, pode ser em determinada área, como um médico que fala de um procedimento cirúrgico raro ou inovador ou um administrador que dá dicas para gerir o seu próprio negócio. No caso do filme, um sujeito é contratado para motivar uma equipe de uma pequena empresa. Numa dessas situações que só acontecem na ficção, o tal palestrante tem um problema para chegar e o contador frustrado vivido por Porchat (de A Primeira Tentação de Cristo, 2019) aproveita a oportunidade para fazer algo espontâneo e inusitado. O ímpeto vem quando ele vê a bela Dani Calabresa (de Talvez Uma História de Amor, 2018), cujo carisma faz de sua personagem a mais simpática.

 

 

Assumindo o papel do outro, Guilherme se torna Marcelo e vai passar por todas as situações que podem prever, que constam no manual da troca de identidade no Cinema. O roteiro, de autoria de Porchat e Cláudia Jouvin (do ótimo Morto Não Fala, 2018), tem um ou dois momentos genuinamente engraçados, e você passa o filme inteiro esperando por outros, que nunca chegam. A direção nada inspirada de Marcelo Antunez (de Polícia Federal: A Lei É Para Todos, 2017, e continuações tão ruins quanto este) não agrega coisa nenhuma, qualquer um no lugar teria feito o mesmo. Ou melhor.

Um trio cômico tenta fazer graça e só consegue ficar no constrangimento. Otávio Müller (de O Paciente, 2018) e Paulo Vieira fazem algumas dobradinhas desinteressantes e sobra muito pouco para Miá Mello (companheira de Porchat em Meu Passado Me Condena), completamente desperdiçada. Os veteranos Ernani Moraes (de O Animal Cordial, 2017) e Maria Clara Gueiros (de De Perto Ela Não É Normal, 2020) dão um peso ao elenco, que ainda conta com Antônio Tabet (da turma do Porta dos Fundos) e Rodrigo Pandolfo (muito lembrado como o filho da Dona Hermínia). Tabet vive um tipo miliciano que até consegue ser engraçado, mas perde o tom facilmente.

Quando se fala mal do padrão Globo de comédias, é disso que se está falando. Mesmo que o filme não seja da famigerada produtora, ou que ela tenha apenas um dedo envolvido. Colocar uma participação especial do cantor e ator Evandro Mesquita pode até animar o público, mas não segura toda uma produção – a outra participação nem merece ser citada. Porchat é mais uma figura da comédia brasileira que funciona muito bem na televisão (como na série Homens?), mas não encontrou exatamente o seu lugar no Cinema. Torçamos para que isso aconteça logo.

O terror dos encontros de empresas se torna comédia

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Programa do Pipoqueiro #80 – Indicações Globoplay

O Programa do Pipoqueiro encerra a temporada 2022 com diversas indicações de filmes para ver no streaming Globoplay, uma ótima e variada seleção com participação da Graciela Paciência! Aperte o play abaixo e divirta-se!

Tracklist:

1- Chico Science e Nação Zumbi – Monólogo ao Pé do Ouvido/ Banditismo por uma Questão de Classe

2- Saleka – Remain

3- The Broken Circle Breakdown Bluegrass Band – Wayfaring Stranger

4- Dua Lipa – Physical

5- The Jackson 5 – I Want You Back

6- Ocean – Put Your Hand in the Hand

7- White Lies – Death

8- Donovan – Hurdy Gurdy Man

09- Raul Seixas – Al Capone

10- The Troggs – Evil Woman

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Universos diferentes se encontram em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

De tempos em tempos, temos fenômenos nos cinemas que, por algum motivo, se tornam os lançamentos mais comentados da temporada. Mesmo que não sejam nada excepcionais. O caso mais recente é o de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once, 2022), uma aventura absurda que tem uma roupagem elaborada para uma história bem simples. Bem amarrado e com ótimas atuações, é de fato um filme acima da média, e ainda guarda uma mensagem bonitinha. Só que esse confete todo não se justifica.

A imigrante chinesa Evelyn (Michelle Yeoh, de Podres de Ricos, 2018, que tem um frame aproveitado aqui) segura as pontas tocando a lavanderia da família ao lado do marido bonzinho (Ke Huy Quam, o garotinho de Indiana Jones e o Templo da Perdição, 1984) e da filha (Stephanie Hsu, de Maravilhosa Sra. Maisel), com quem tem grande dificuldade de relacionamento. As contas do negócio não estão fechando e a receita federal está atrás deles, através da auditora vivida por Jamie Lee Curtis (a eterna Laurie de Halloween). Para piorar, o pai de Evelyn (James Hong, de Red, 2022) está chegando da China para visitar.

Quando todas essas situações se juntam, Evelyn ainda descobre que há várias versões dela em universos diferentes e é possível pular de um para o outro. E é isso que uma grande vilã está fazendo, cabendo à pobre Evelyn derrotá-la e salvar o mundo. E nem temos um Dr. Estranho para servir de guia! É aí que o filme dá uma pirada, fazendo com que muitos espectadores tenham achado a proposta inovadora, revolucionária e outros exageros. Quando refletimos um pouco, algumas referências vêm à cabeça, sendo a primeira delas o novo clássico The Matrix (1999), numa espécie de mistura com o Multiverso da Loucura da Marvel.

Da forma como é contada, a história é de fato original, com um peso maior nos laços familiares do que na ação, mérito dos roteiristas e diretores Dan Kwan e Daniel Scheinert, que assinam juntos como Daniels. O trabalho mais famoso deles também era altamente metafórico, o drama Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016). Só que vamos lembrando de várias outras obras, o que enfraquece essa um tanto. E é um bocado longo, passando de duas horas, o que acaba ficando cansativo.

Feitas as devidas ressalvas, é preciso apontar que os universos mostrados são realmente criativos, o que justifica o interesse de tanta gente. As várias versões exaltam o talento do elenco, obrigado a fazer adaptações constantes em seus personagens. O longa está em oitavo lugar entre as maiores bilheterias brasileiras do momento, outro grande sucesso da ascendente distribuidora A24. É bom ver um filme com figuras asiáticas que fogem de estereótipos e permitem uma certa profundidade. Deve ter sido isso também que Ke Huy Quam pensou, para tirá-lo da aposentadoria.

A ex-bond girl Michelle Yeoh tem uma nova oportunidade para lutar e faz bonito

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Programa do Pipoqueiro #79 – Elvis

 O Programa do Pipoqueiro traz vários colaboradores ilustres comentando o filme do Elvis, alternando as falas com as músicas do Rei do Rock. Contamos com Carlos Quintão, Rodrigo James, Karen Lopes, Carvalho de Mendonça, André Katz, Roque, Paulo Bonfim, Mirtes Scalioni e Maristela Bretas. Aperte o play abaixo e divirta-se!

Tracklist:

1- Hound Dog

2- Jailhouse Rock

3- Blue Suede Shoes

4- Tutti Frutti

5- Can’t Help Falling in Love

6- Any Day Now

7- Suspicious Minds

8- In the Ghetto

9- If I Can Dream

10- Viva Las Vegas

11- It’s Only Love

12- Unchained Melody

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O Telefone Preto é adaptação de Joe Hill no Cinema

Além das várias adaptações que chegam todos os anos aos cinemas e à TV da obra de Stephen King, temos também o filho dele atacando nesse filão. Depois dos espaçados Amaldiçoado (Horns, 2013) e Campo do Medo (In The Tall Grass, 2019), chega à telona essa semana O Telefone Preto (The Black Phone, 2022), adaptação do conto que Joe Hill publicou em 2004. O próprio escritor se disse muito feliz com a adaptação, que expandiu um pouco o texto original, mas manteve a essência intacta.

Premiado e há muito desvinculado da fama do pai, Hill criou uma história cativante e inventiva. A semelhança com a clássica It – A Coisa (de King) pode incomodar. Trata-se de um drama sobrenatural sobre um psicopata sequestrando e matando crianças numa cidadezinha. O palhaço assassino milenar dá lugar a um mágico fajuto que roda pela cidade com seu furgão cheio de apetrechos para festas infantis. Esse disfarce acoberta os sequestros e várias crianças vão parar nos avisos de desaparecidos colados nos postes. Capa e botas de chuva e a presença de James Ransone no elenco novamente acenam a It.

Aqui, ao invés de um grupo, temos como protagonistas um casal de irmãos que se preocupam com os desaparecimentos enquanto cuidam das questões diárias, menores, como valentões caçando confusão. Finney (Mason Thames, em seu primeiro filme) e Gwen (Madeleine McGraw, de Homem-Formiga e a Vespa, 2018) se apoiam e aturam um pai violento e alcoólatra (Jeremy Davies, de Deuses Americanos). Gwen tem sonhos premonitórios, como a mãe tinha, e o pai a censura. Os jovens atores, ótimos, são o coração do filme, a química entre eles é inexplicável.

Não convém entrar em detalhes sobre a trama, apenas é bom explicar que o telefone preto do título permite comunicação com os mortos, o que traz uma boa dose de suspense e sustos. E ajuda muito ter, no papel do psicopata, alguém do calibre de Ethan Hawke (de Cavaleiro da Lua), assustador mesmo com o rosto parcialmente coberto. O ator confere camadas ao personagem, que segue regras que ele mesmo criou, o que reforça os distúrbios mentais que ele tem. Correndo por fora, temos outro vilão: o pai abusivo. Davies, de O Resgate do Soldado Ryan (1998) e Helter Skelter (2004), faz um caipira covarde com os pés nas costas, e causa bastante revolta.

Depois de abandonar a direção da sequência de seu Doutor Estranho (2016) por diferenças criativas, Scott Derrickson se viu livre para assumir outro projeto e voltou para o gênero no qual já deu muito certo. Com longas como O Exorcismo de Emily Rose (2005) e A Entidade (2012) no currículo, o diretor acerta novamente contando uma história envolvente, com boa carga dramática e uma tensão crescente. Derrickson também assina o roteiro, ao lado do parceiro habitual C. Robert Cargill, e é produtor.

A julgar pela qualidade de O Telefone Preto, já se criam expectativas por novas adaptações da obra de Hill. Além dos cinemas, ele já teve sucesso na TV, com as séries NOS4A2 (ou Nosferatu) e Locke & Key. Não faltam novas histórias para serem usadas. Só no livro onde Telefone Preto foi publicado, Fantasmas do Século XX, há outros 12 contos. Qualquer dia, teremos uma batalha nas bilheterias entre pai e filho.

Ethan Hawke faz um ótimo e assustador psicopata

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