
Imagens que pareciam condenadas ao esquecimento deram origem a uma mescla de documentário e filme-concerto. Depois de pesquisar muito para seu longa sobre Elvis (2022), Baz Luhrmann reuniu dezenas de caixas de filmagens não utilizadas do Rei do Rock, além de um áudio de 45 minutos do próprio, e partiu para a realização de EPiC: Elvis Presley in Concert (2026), longa que funciona menos como uma biografia convencional e mais como uma tentativa de ressuscitar uma presença.
Construído a partir de filmagens raras, trechos inéditos e gravações recuperadas, o projeto abandona a lógica cronológica tradicional para mergulhar diretamente no palco, transformando a figura de Elvis Presley em espetáculo e memória ao mesmo tempo. O resultado não tenta explicar Elvis, mas coloca-o novamente diante de uma plateia. O foco está principalmente nos anos finais de carreira, quando os cassinos de Las Vegas se tornaram simultaneamente trono e prisão. O filme retorna repetidamente às apresentações no International Hotel e aos longos períodos em que Elvis parecia condenado a repetir a própria mitologia noite após noite, chegando a três apresentações seguidas.

Há algo melancólico nessa escolha. O documentário exibe um artista ainda magnético, capaz de dominar uma multidão com um sorriso torto ou um movimento aparentemente improvisado, mas também sugere o desgaste de alguém solitário, transformado em atração permanente. A câmera encontra momentos de humor, carisma e energia genuína, mas o contexto nunca desaparece completamente: estamos vendo um homem que continua brilhante enquanto lentamente se aproxima do colapso físico que definiria seus últimos anos. Saber o que aconteceria depois torna as coisas mais trágicas.
Duas conclusões emergem com bastante clareza ao longo da montagem. A primeira é que praticamente ninguém envolvido no projeto parece nutrir qualquer simpatia pelo Coronel Tom Parker (que não era coronel e não se chamava Tom Parker). Mesmo quando o documentário evita acusações diretas, a figura do empresário surge constantemente como a força que restringiu possibilidades, impediu turnês internacionais e ajudou a transformar Elvis em uma máquina de apresentações contínuas locais.
A segunda conclusão é mais desconfortável. Ao utilizar gravações em que o próprio cantor comenta sua trajetória, o filme acaba revelando um artista extremamente cuidadoso em evitar posicionamentos públicos sobre temas políticos e sociais mais delicados. Em um período marcado por tensões raciais, movimentos civis e transformações culturais profundas, Elvis aparece como alguém que preferia permanecer dentro da bolha do entretenimento, preservando a própria imagem acima de qualquer engajamento mais explícito. O documentário não insiste nesse ponto, mas é mostrado claramente, impossível de ignorar. Enquanto os Beatles se recusavam a tocar em locais com separação de público, Elvis dizia em entrevistas que seu papel era “só” cantar e tocar.

Tecnicamente, o trabalho impressiona. Luhrmann e sua equipe trabalharam em milhares de horas de material encontrado em arquivos da MGM, restaurando imagens deterioradas e sincronizando filmagens que sequer possuíam áudio original. A qualidade da recuperação é impressionante, especialmente quando o filme alterna registros de palco, bastidores e momentos íntimos sem perder a fluidez. A montagem de Jonathan Redmond encontra ritmo dentro de um material que facilmente poderia parecer apenas uma coletânea de sobras históricas. Já a sonorização moderna evita a armadilha do excesso de limpeza digital e preserva parte da textura analógica daquelas apresentações. E as versões das músicas mostradas, muitas vezes, são diferentes dos registros que conhecemos.
O filme acaba dizendo tanto sobre Elvis quanto sobre o próprio Baz Luhrmann. Depois de transformar a vida do cantor na premiada ópera pop que vimos nos cinemas, o diretor, famoso por seus musicais, retorna agora sem atores, sem reencenações e sem a necessidade de criar espetáculo artificialmente. Ainda assim, sua assinatura permanece em cada corte, em cada clássico remixado e em cada escolha visual.
Luhrmann parece compreender algo que muitos documentários musicais esquecem: às vezes, a melhor forma de contar a história de um ícone não é analisá-lo à exaustão, mas observá-lo atuando. Há uma devoção evidente no projeto, talvez até excessiva em alguns momentos, mas também existe uma convicção rara. EPiC não tenta desmontar o mito. Prefere colocá-lo sob os refletores mais uma vez e permitir que ele continue fazendo aquilo que fazia melhor: seduzir uma plateia inteira enquanto esconde o que realmente sentia.

Elvis mostrou seu carisma intacto até o final
Em sua segunda semana disponível na Netflix, O Jogo do Predador (






























