Rosamund Pike se importa muito e dá show de interpretação

Dividindo crítica e público, Eu Me Importo (I Care a Lot, 2020) chegou à programação da Netflix entre elogios e acusações. Trazer Rosamund Pike como uma vilã fria e calculista evoca na hora memórias de Garota Exemplar (Gone Girl, 2014). Mas, aqui, ela é a protagonista que se aproveita da brecha entre Estado e iniciativa privada para explorar idosos. Humor negro do início ao fim, com diversas situações politicamente incorretas e nem um personagem eticamente admirável. Ou seja: uma ótima diversão.

Eu Me Importo acompanha uma personagem completamente canalha, que usa o nome bem construído como uma espécie de assistente social particular para se responsabilizar por clientes idosos que não dão mais conta de cuidar de suas próprias vidas. Ao invés de assegurar os interesses dos clientes, ela trata de vender todas as posses deles e pegar os valores como o salário que ela merece por olhar por eles. E os esquece em alguma clínica ou asilo.

Antes de entrar em detalhes sobre o filme, é necessário esclarecer que não tenho a menor ideia de como funciona essa questão de tutela de incapazes acima de certa idade. Se o que vemos ali é possível, não sei dizer. Se é, é fato que se trata de um buraco gigantesco no cumprimento dos direitos do ser humano. O pé atrás de alguns quanto ao filme pode começar aí. Teria que ser um juiz muito incompetente e um Estado totalmente complacente com a possibilidade real de golpe. Nada disso é impossível, claro.

Os problemas de Marla Grayson (Pike) começam quando ela assume as responsabilidades sobre uma cliente (a ótima Dianne Wiest, de A Mula, 2018) que aparentemente é perfeita: rica e sem parentes para reclamarem herança. Logo, aparece um advogado defendendo a suposta pobrezinha e a vida de Grayson começa a correr riscos. A dela e a da parceira de crime Fran (Eiza González, de Alita, 2019), que a auxilia em todas as etapas do golpe. Até nas pessoais. Todos os envolvidos no esquema passam a correr riscos, como por exemplo a médica responsável pelos atestados falsos (Alicia Witt, da série O Exorcista).

Com a chegada em cena do personagem de Peter Dinklage (o Tyrion de Game of Thrones), nos certificamos de que ninguém ali presta. E reside aí uma das maiores e mais frequentes críticas a Eu Me Importo: não há ninguém para torcer nessa trama, já que todos são criminosos e capazes das jogadas mais baixas. Como se isso fosse razão para dar nota baixa a um filme. Eu, como espectador, quero mais é que o pau quebre e que gere muitas situações interessantes e divertidas. Se não há um único ser íntegro, que eu torça para o roteiro, a montagem, a trilha sonora, o figurino, as interpretações…

Quem assina roteiro e direção de Eu Me Importo é J. Blakeson, responsável pelo também interessante O Desaparecimento de Alice Creed (The Disappearance of Alice Creed, 2009). Os dois longas têm um tom parecido, a cada personagem falta caráter e sobram intenções escondidas. Em Eu Me Importo, no entanto, algumas saídas são fáceis e peças se encaixam com uma tranquilidade questionável. À medida que a trama avança, essas estranhezas vão aparecendo e podem incomodar. Mas segue sendo um prazer ver os talentos de Pike, Dinklage e Wiest em cena até o final, que faz todo sentido.

O show é desses três: Dinklage, Wiest e Pike

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Judas e o Messias Negro é mais uma história forte e revoltante

Já em desenvolvimento há alguns anos, finalmente em 2019 a cinebiografia de Fred Hampton conseguiu sair do papel. O presidente da filial de Illinois do Partido dos Panteras Negras teve uma história muito interessante de luta, militância e traição e era questão de tempo até chegar aos cinemas. Quase que fazendo uma dobradinha tardia com Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7, 2020), chega Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah, 2021).

Assim como no filme de Aaron Sorkin, Judas traz uma história com grande força política ambientada no final da década de 60. Hampton também aparece no outro filme (vivido por Kelvin Harrison Jr.), orientando o colega Pantera Negra Bobby Seale, cofundador do partido. Agora, ganha o protagonismo na pele do ótimo Daniel Kaluuya (de Corra!, 2017), que compõe um personagem calmo, que calcula bem suas ações para evitar reações explosivas e dar um bom exemplo para seus liderados.

Além de Hampton, a outra figura marcante que conhecemos no início do filme é William O’Neal, vivido por LaKeith Stanfield (de Jóias Brutas, 2019). Ladrãozinho de rua, dos mais rasteiros, ele é preso e cooptado pelo FBI para se infiltrar nos Panteras Negras. Stanfield faz um grande dueto com Kaluuya: ambos têm personalidades fortes, sabem se colocar e fazem um trabalho fantástico. Enquanto Hampton é idealista e incorruptível, O’Neal é o sujeito que quer livrar a própria cara não se importando com o que terá que fazer ou sacrificar. Duas pessoas como as que conhecemos pela vida, que conseguem ser amigos apesar de suas diferenças.

Muito objetivo e bem montado, o longa não tem gorduras. O diretor e roteirista Shaka King (de Newlyweeds, 2013) demonstra ter a sensibilidade mais apropriada possível para a história e o teor político. Ele não foi o primeiro envolvido na produção, mas certamente foi uma escolha acertada. Duas ideias para um longa surgiram em paralelo, uma com os irmãos Kenny e Keith Lucas e outra com Will Berson, e os três se uniram a King para irem adiante. Nenhum dos quatro tem muita experiência no Cinema, mas aparentemente eles tinham muita paixão pela projeto, que fica clara na recriação da época e das situações.

Os registros da luta da população negra por seus direitos ganham aqui um grande reforço, ao lado de ótimos filmes recentes como Detroit em Rebelião (2017), Infiltrado na Klan (2018) e Uma Noite em Miami… (2020). Kaluuya já saiu na frente ganhando estatuetas e Judas e o Messias Negro ainda deve causar muito barulho na temporada de premiações. Merecido, por todas as suas qualidades técnicas e por fazer justiça a um grande líder do século XX que teve um fim injusto e violento. Uma tragédia que segue sendo muito atual.

Jesse Plemons representa o FBI

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O “filme do Pelé” chega à Netflix mostrando um rei soberano e com defeitos

Pelé foi incontestavelmente um dos maiores brasileiros do século XX. E o mais novo documentário da Netflix mostra como isso aconteceu, principalmente na seleção brasileira, sem omitir as falhas de uma pessoa que foi símbolo de um país em ascensão.

O documentário Pelé (2021), em seus mais de 1h40, não esconde a predileção em retratar a grandeza de Edson Arantes do Nascimento construída à base de talento e superação, mas suscetível a erros. Por sua importância ao longo de mais de 14 anos na seleção brasileira e participação direta em duas conquistas de Copas do Mundo – mais uma, machucado – Pelé tem sua história contada por ele mesmo e por nomes de peso do futebol, do jornalismo, da música e da política.

Nomes como os dos jogadores Zagallo, Rivelino, Paulo Cézar Caju, dos jornalistas Juca Kfouri, José Trajano, do cantor Gilberto Gil, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e até mesmo um dos responsáveis pela assinatura do Ato Institucional Número 5, Antônio Delfim Netto, ajudam a situar Pelé no mundo em que ele vivia ao longo de sua carreira, quando ele próprio parecia meio inerte. O local nesse mundo, para ser mais específico, era o Brasil.

O documentário se inicia com trechos de glórias do jogador e, num corte seco, mostra Pelé hoje com dificuldades de se manter em pé e com um andador. Quase que o retrato de um Brasil da década de 50, que perdeu a final de uma Copa do Mundo por 2×1 para o Uruguai, em casa, e que causou um grande choque na sociedade, no famigerado episódio conhecido como Maracanazo, aquela final no Maracanã.

Mas não é só. Conforme conhecemos a história de Edson Arantes do Nascimento, vemos que o país estava mudando. As belas imagens daquela época mostram essa evolução até chegar em 58, quando o jovem Pelé, recém-descoberto no Santos, ganha sua primeira Copa do Mundo na Suécia, aos 17 anos, sendo protagonista e responsável por aniquilar a síndrome de vira-latas que assolava o imaginário do brasileiro, como nomeou o escritor Nelson Rodrigues.

Não é de se estranhar que os diretores britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas optem por exaltar Pelé, obviamente por ser o protagonista da obra, da maneira que o fazem. Porém, a história do jogador é grande e magnífica o suficiente e o documentário acaba relevando outros nomes importantes dessa trajetória.

Pelé, ao lado de Manuel Francisco dos Santos (acima), o Mané Garrincha, jogou 30 partidas, com 26 vitórias e quatro empates. Os dois jamais perderam um jogo quando estiveram juntos em campo. Garrincha foi o grande nome da seleção em 62, no bicampeonato no Chile, quando o Rei se lesionou na segunda partida daquela copa.

O documentário sequer cita Garrincha. Pior: dá a entender que Amarildo, substituto de Pelé e importante personagem daquele mundial, foi o grande responsável pela conquista, mostrando um gol seu e logo depois o Brasil levantando a taça. Um esquecimento no mínimo bizarro, bem como pôr o período errado do governo FHC em determinado momento da obra.

O Santos, time que consagrou e foi consagrado por Pelé, também tem sua participação muito tímida. Ainda que seja acertadamente mostrado como o time mais relevante do país na década de 60, o documentário é muito pontual ao falar do clube paulista. Aliás, ainda que fosse realmente o time a ser batido naquela época, o Santos foi superado em alguns momentos, como pelo Cruzeiro de Tostão em 66. E, nisso, o documentário não toca, mostrando, mais uma vez, que Pelé parecia reinar sozinho.

Ainda sobre omissões, o ritmo é apressado ao ponto de o filme suprimir parte da ascensão de Pelé no Santos, mostrando-o sendo apresentado no time e logo depois já partindo rumo à Suécia conquistar a primeira copa. A pressa talvez seja justificada para se dedicar com mais calma à Copa de 70, no tricampeonato da que é chamada de maior seleção de todos os tempos. Essa parte é a que traz as melhores cenas, puro deleite para os fãs do esporte e do audiovisual, com depoimentos de época e imagens belíssimas daquela que foi a primeira copa televisionada em cores no Brasil.

Voltando a falar do Brasil, aliás, a obra não esconde a participação da ditadura militar na escolha dos nomes daqueles que iriam ao México em 70. Aquela sociedade em transformação culmina, em 64, no golpe militar e no terrível período de 21 anos sob esse regime. Pelé, como grande personagem da época, foi cobrado por seus posicionamentos, mas jamais foi contra os militares no poder. O documentário da Netflix não esconde isso, nem mesmo o jogador, que assume que não se importava com isso e que se preocupava (ou parecia se preocupar) apenas com o futebol. Um paralelo justo é feito por Juca Kfouri, entre Pelé e o boxeador Muhammad Ali, que não se omitiu em repreender a política dos EUA e se colocar contra a guerra do Vietnã.

Pelé, como um documentário, pode ser visto como uma obra que registra, de fato, um personagem que foi símbolo de uma época que é mostrada seja pelo viés do futebol, político, cultural ou social – ainda que não tão bem dosados assim. Um merecido registro de alguém que jamais deixou de estar nos holofotes – para o bem ou para o mal.

Peca como uma obra documental ao omitir nomes que são relevantes não só para Pelé, como também outros personagens importantes dessa história: da seleção e do futebol brasileiro. O espectador precisa recorrer a outros registros históricos para reconhecer essas pessoas e sacramentar que sim, Pelé foi gigante, mas não sem outros grandes nomes ao seu lado. O que só aumenta o talento e a dimensão do papel do Rei do Futebol dentro das quatro linhas.

Foto publicada no último Natal mostra Pelé hoje

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Trio premiado se envolve com Os Pequenos Vestígios

É uma máxima entre investigadores criminais que a resolução dos crimes está nos pequenos detalhes. Ou, ao menos, é essa teoria que Os Pequenos Vestígios (The Little Things, 2020) pretende vender. Onde isso aparece no filme, de maneira prática, não sabemos. Baseado em um roteiro escrito nos anos 90, o longa já nasce datado, com a cara de mais uma atração daqueles canais que repetiam sempre os mesmos filmes. E desperdiça um ótimo elenco.

Com três vencedores do Oscar nos papéis principais, parecia que a vida do diretor e roteirista John Lee Hancock seria fácil. Era só deixá-los trabalhar e ter um grande sucesso. Como foi Um Mundo Perfeito (A Perfect World), bem sucedido drama policial escrito por Hancock e lançado em 1993. Logo na sequência, ele escreveu outra história policial, que acabou na gaveta por diversos motivos. Agora, com nomes de peso no elenco, ele conseguiu tirar a ideia do papel. O problema é que, nesse meio tempo, várias obras parecidas foram lançadas.

O primeiro personagem que conhecemos é Joe “Deke” Deacon, um policial veterano numa cidadezinha tranquila que precisa ir buscar provas de um crime na grande Los Angeles. Chegando lá, ele descobre que um caso atual de serial killer pode ter ligação com um antigo caso que investigava e nunca conseguiu concluir. Deke é uma oportunidade para Denzel Washington brilhar – como de costume. Tendo na bagagem um Oscar vivendo um soldado (coadjuvante por Tempo de Glória, 1989) e outro vivendo um detetive (principal por Dia de Treinamento, 2001), isso é o tipo de coisa que o ator faz dormindo.

Os outros dois nomes fortes são os de Jared Leto (de Clube de Compras Dallas, 2013) e de Rami Malek (de Bohemian Rhapsody, 2018), os dois muito competentes dentro das necessidades. Leto se destaca como o suspeito número um, despido de qualquer vaidade e mostrando como ele realmente se preocupa com os detalhes na composição do sujeito. Malek, um tanto quanto afetado, vai ganhando a afeição do público quando entendemos que seu detetive realmente se esforça na investigação, apesar da antipatia inicial.

Uma vez estipulados os pontos positivos de Os Pequenos Vestígios, é preciso apontar os negativos. A cara de anos 90, em parte proposital, deixa o filme com jeito daquela sessão da tarde que já passou mil vezes. E o lugar comum do roteiro reforça isso. O desenrolar da história também não ajuda muito e a conclusão não se sustenta. É daquelas que, quanto mais se pensa a respeito, pior fica. Pior do que pensar “eu já vi isso antes” é concluir que não é bom.

Na direção de atores Hancock não tem muito trabalho

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Tom Hanks espalha pelos EUA os Relatos do Mundo

À primeira vista, a história de Relatos do Mundo (News of the World, 2020) não devia ser das mais atraentes. Uma trama bem simples, previsível e sem muitas emoções. Nas mãos de Paul Greengrass, ela ganha nuances interessantes e tem pontos atuais ressaltados, mesmo sendo um faroeste. E o diretor retoma a parceria com seu protagonista de Capitão Phillips (Captain Phillips, 2013), Tom Hanks.

Vivendo um outro capitão, um militar reformado, Hanks faz toda a diferença no projeto. Um ator do calibre dele era o que o personagem precisava para ficar na dose certa: sem exageros, mas longe de ser cansativo. Ele faz parecer ser fácil. O Capitão Jefferson Kidd vive pulando de cidade em cidade contando as notícias do mundo em troca de algumas moedas. Ele recolhe jornais por onde passa e seleciona as melhores anedotas para suas apresentações.

Em uma dessas cidades, Kidd se vê preso a uma garotinha (a expressiva Helena Zengel) que parece ter ficado órfã, mas tem tios a algumas centenas de quilômetros de distância. Sem saída, o Capitão decide levá-la, atravessando os Estados Unidos numa carroça. Mais um meio de transporte para a lista de Hanks, que parece ter sofrido acidentes em todos eles – até numa nave espacial (em Apollo 13, 1995).

Curiosamente, Hanks vem de outro filme em que viveu um capitão: Greyhound – Na Mira do Inimigo (2020), também distribuído por um serviço de streaming (Apple TV). Relatos do Mundo, que chega ao Brasil pela Netflix, se assemelha a Greyhound por inserir momentos tensos em uma calmaria. Mas Relatos traz uma carga sentimental que não é comum aos filmes de Greengrass, mais lembrado pela ação da franquia de Jason Bourne e o suspense de United 93 (2006). Spielberg seria uma escolha mais óbvia aqui.

Greengrass, no entanto, faz um ótimo trabalho costurando uma colcha impecável. Todas as peças se encaixam e o resultado fica bem acima da média. O livro de Paulette Jiles ganha vida pela rica fotografia de Dariusz Wolski (de A Travessia, 2015), tudo pontuado pela singela trilha de James Newton Howard (da franquia Animais Fantásticos), que lembra muito o instrumental das canções de Johnny Cash. Temos uma boa ideia de como era a vida nos idos de 1870 nos Estados Unidos, pouco após a abolição da escravatura, com um país ainda dividido.

Mesmo com o fim da Guerra da Secessão, ainda havia muita disputa entre os estados e isso dava oportunidade para o surgimento de lideranças armadas locais (mais conhecidas como milícias) e muitas mentiras, usadas para controle da população. As notícias contadas por Kidd traziam um pouco de esclarecimento para as pessoas, alimentando a insipiente noção de democracia da época.

Com vários assuntos pincelados, o roteiro (de Greengrass e Luke Davies) acaba dando mais espaço à questão da comunicação. Kidd leva informação a lugares onde ela não chegaria de outra forma, promovendo ainda um evento social no qual os vizinhos se encontravam. É como se Kidd tivesse o poder de influenciar as pessoas, mas optasse pela verdade. Numa época em que a extrema direita fabrica suas notícias, Greengrass e Hanks parecem se lembrar daquela passagem bíblica que diz que a verdade libertará.

Hanks certamente dá mais profundidade ao personagem que John Wayne daria

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O Tigre Branco e a realidade das castas baixas da Índia

É curioso como certas obras parecem se repetir. Mas, no caso do novo sucesso da Netflix, O Tigre Branco (The White Tiger, 2021), a comparação com outros filmes de sucesso como Quem Quer Ser um Milionário? (2008) e Parasita (2019) não pode ser recriminada. Na verdade, a história desses filmes  acontece na vida real, e acontece muito.

Balram (Adarsh Gourav) é um inteligente e esperto indiano de casta baixa que tenta subir na vida como motorista de uma família da cidade grande. Desde a infância, o personagem é comparado a um Tigre Branco, um raro ser que nasce uma vez a cada geração. O problema é que, no país, as oportunidades são poucas graças à sua estrutura de sociedade. Por isso, O Tigre Branco mostra que, muitas vezes, é preciso quebrar essa estrutura de uma maneira não tão legal.

Balram, no início do longa, já é alguém bem-sucedido. Mas, em flashbacks, acompanhamos sua ascensão desde seu vilarejo até chegar na capital, Nova Deli. E aqui as comparações com as outras duas obras começam a ser ainda mais claras. Se em Quem quer ser um Milionário?, acompanhamos a jornada de um jovem à ascensão social que acontece por um jogo de televisão, aqui Balram encara a vida real sem holofotes de mídia ou qualquer outra coisa. Ele não é um mero motorista. Ele é, antes de tudo, uma pessoa de casta baixa. E isso lhe é caro demais para que sua glória venha por meio de sorte ou sem um esforço a mais.

Por outro lado, a jornada é dura como a da família sul-coreana em Parasita. O que muda é o cenário e os desafios para alguém que nasceu predestinado a estar sempre na miséria sair da sua realidade. Se a família sul-coreana se vale de meios não muito legítimos para isso, Balram não fica atrás. Essas rimas de roteiro, aliadas ainda ao fato de Balram ser motorista, como o pai em Parasita, não são forçadas como poderia se esperar depois do sucesso sul-coreano. É uma via possível em um país que tanto segrega a sua população pobre.

A jornada de Balram não é das mais louváveis – para não dizer NADA louvável –, mas a sua luta e seu instinto de sobrevivência trazem ao espectador aquela torcida mesmo que não merecida por conta dos atos que o personagem acaba cometendo ao longo do filme. Ainda assim, choca ver uma história plausível de alguém que quer subir na vida, mesmo que a vida, ou a sociedade, não dê qualquer chance para isso. Portanto, é preciso se virar.

O Tigre Branco nos lembra que nem tudo na Índia é Gandhi. Se Quem Quer Ser Um Milionário? traz uma improvável e empolgante ascensão social, o novo sucesso da Netflix mostra isso de maneira mais crua e terrível. Bem como Parasita. Os pobres do mundo estão perdendo a paciência. Ainda bem. Mesmo que a duras penas.

Uma ascensão social é ainda mais difícil na Índia

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Carey Mulligan é uma jovem promissora em busca de vingança

Responsável por um dos filmes mais comentados da temporada, que certamente vai receber diversas outras indicações a prêmios, além das que já recebeu, Emerald Fennell chama mais a atenção por trás das câmeras que na frente. Mesmo elogiada como Camilla Parker Bowles na série The Crown, ela está se tornando conhecida pelo talento na direção e roteiro. O título original de seu mais recente trabalho, Promising Young Woman (2020), parece fazer referência a ela mesma. Pena que o título nacional, Bela Vingança, fique num lugar comum de gosto duvidoso. Mas isso não é culpa de Fennell.

Parte de um movimento interessante e necessário de valorização da mulher na sociedade e no Cinema, Promising Young Woman ataca com ainda mais ferocidade que seus colegas (como Pieces of a Woman ou A Assistente) e expõe um tipo que deve aparecer com certa frequência por aí: o abusador conhecido como “cara legal”. O filme dá a entender que muitos homens são bonzinhos por falta de oportunidade de mostrar seu verdadeiro caráter. Ou falta dele. Até mesmo podem ter tido essa oportunidade, mas o fato ficou bem escondido.

Esta crítica não entrará em detalhes da trama (como de costume), por isso ficaremos apenas nas ideias discutidas. Como, por exemplo, o fato de que certas transgressões só ficam impunes pela passividade e até cumplicidade de outros. Várias são as situações que o roteiro apresenta que nos fazem pensar. Você pode não ter cometido o crime, mas era capaz de impedi-lo? Foi apenas mais um a rir e fazer piadinhas? Analisando de perto, sobra culpa para muita gente.

No papel principal, como a promissora jovem mulher do título, temos a versátil Carey Mulligan, que pode conseguir sua segunda indicação ao Oscar (a primeira foi por Educação, 2009, pelo qual levou o BAFTA). Podendo ser vista na Netflix no novo A Escavação (The Dig, 2021), como uma viúva de posses no pré-guerra, Mulligan faz aqui um papel completamente diferente: uma moça aparentemente frágil que guarda muito ódio e é perfeitamente capaz de explodir. Inclusive, o faz sistematicamente.

Como a história inclui vários personagens, alguns com participações rápidas, o elenco do filme é bem sortido. Conta com gente “clássica”, como o guarda sádico de Um Sonho de Liberdade (1994), Clancy Brown, e a “mãe do Stifler” (de American Pie), Jennifer Coolidge, indo a um pessoal mais novo, como Alison Brie (de Vigiados, 2020) e Bo Burnham (de A Noite É Delas, 2017), passando pelo quase cult “McLovin” (de Superbad, 2007), Christopher Mintz-Plasse (acima). Sobra ponta até para Adam Brody (de The O.C.), Molly Shannon (ex-SNL) e Connie Britton (de Dirty John, 2018). Todos bem encaixados, apenas ajudando a contar uma boa história.

A sociedade promove a violência contra a mulher o tempo todo e as instituições não oferecem qualquer auxílio. Esta parece ser a tese oferecida por Fennell, e muito bem defendida. Nem com provas a mulher é ouvida. Ao mesmo tempo, sabemos que o abusador é antes de tudo um covarde, como os trabalhadores que assediam, mas ficam constrangidos caso haja reação da “vítima”. Se filmes como Parasita (2019) mostram que os pobres se cansaram de ser explorados, Promising Young Woman indica que as mulheres devem começar a revidar os constantes ataques que sofrem.

A diretora e sua estrela: duas jovens promissoras

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Lupin abre o ano da Netflix

Primeiro grande fenômeno da Netflix em 2021, Lupin conta a história de Assane Diop (Omar Sy, de Jurassic World, 2015), um homem que adquiriu habilidades quase que de ilusionista e escapista lendo as aventuras de Arsène Lupin, de Maurice Leblanc, uma espécie de Sherlock Holmes francês às avessas.

Diop está em busca de vingança e uma reparação da acusação de roubo que seu pai sofreu em 1995. Para isso, tenta roubar um famoso colar em pleno museu do Louvre. Com 5 episódios nessa primeira parte – com a segunda já anunciada para 2021 ainda – a minissérie é emoldurada por muito mistério, perseguição e truques que, vez ou outra, brincam com a realidade. O que não deve incomodar muito quem se atentar à boa trama em que Diop se envolve.

A história pode ser tranquilamente comparável a outro fenômeno da Netflix, La Casa de Papel, só que é menos novelesca e com uma série de ações que prendem a atenção do espectador sem apelar para velhos clichês como a obra espanhola. O carisma de Omar Sy é o grande trunfo de Lupin. O ator, apesar de reproduzir perfeitamente os estereótipos de um criminoso, encanta com a simpatia que já lhe é peculiar e pela qual é conhecido, principalmente, no longa francês Intocáveis (Intouchables, 2011).

O roteiro, apesar de trazer soluções simples para situações complexas – como a fuga de uma prisão com uma simulação de enforcamento pouco crível – não possui muitos furos, permitindo que quem assista saiba exatamente quais são as motivações do personagem principal sem que se faça muito esforço. A abordagem da vida de Assane é envolvente, mostrando sua relação com a mãe de seu filho e com alguns amigos e personagens ocasionais que tentam ajudar a incriminar os verdadeiros ladrões do colar que seu pai foi acusado de roubar. Os flashbacks, aliás, explicam a relação de Diop com o seu pai e até mesmo com a família para a qual o patriarca trabalhava.

Não é à toa que a minissérie atingirá marcas incríveis nesses primeiros 28 dias desde sua estreia – um feito, aliás, superior ao maior sucesso de 2020 da Netflix, O Gambito da Rainha – segundo o streaming, a série será vista em 70 milhões de lares neste primeiro mês.

Lupin, de uma forma muito sutil, ainda nos traz à tona a realidade dos imigrantes africanos na França. Sem ser panfletária, a série mostra como é “fácil” para um negro se disfarçar quando na verdade as pessoas do país não os notam muito. Uma série que não exige muito do espectador e, talvez, até possa incomodar por exigir tão pouco. Mas que tem seus méritos por um roteiro encaixado, um ator carismático e um suspense que prende. Agora, é esperar pela segunda parte.

A segunda parte estava em produção antes mesmo da estreia da primeira

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Documentário cobre a brilhante carreira dos Bee Gees

Eles escreveram mais de mil músicas, vinte delas tendo chegado ao primeiro lugar das paradas de sucesso. Com um nome simples, Bee Gees (em referência a serem os Irmãos Gibb, “BGs”), eles começaram uma carreira bem-sucedida ainda na década de 60 e Barry segue firme, compondo e cantando pelo mundo. Mesmo que seja muito difícil aceitar que seus irmãos se foram e logo ele, o mais velho, ficou para contar a história.

Essa história é contada no documentário The Bee Gees: How Can You Mend a Broken Heart (2020), que contextualiza muito bem a jornada da banda ao longo dos anos, mostrando os vários gêneros pelos quais passaram, tocando os principais sucessos – muitos deles! – e esclarecendo fatos da biografia deles. Sem tornar ninguém santo, a obra mostra o lado falível dos músicos, com dúvidas e brigas fazendo parte. Mas ressalta que o amor sempre esteve entre eles.

Barry começa observando que nada é a verdade pura, mas a percepção dele. Se os irmãos estivessem vivos, estariam compartilhando as versões deles. Maurice e Robin, os gêmeos, vieram pouco depois e formaram um trio inseparável com o primogênito. Pela intimidade que dividiam, perceberam rapidamente que suas vozes tinham uma grande afinação. E também que haviam nascido para o sucesso, o que não demorariam a atingir.

Com o lado musical aflorado, eles foram aprendendo a tocar instrumentos e seguiram a tendência da década de 60, formando uma banda de rock calcada em guitarras e letras espirituosas. Spicks and Specks chamou a atenção do público e eles assinaram contrato, dando início a uma sucessão de eventos que até eles tinham dificuldade de acreditar. O documentário mostra o caminho que eles seguiram e, ao mesmo tempo, o que acontecia no mundo. Dessa forma, fica fácil entender os rumos.

Entendendo as tendências da música pelo mundo, principalmente Inglaterra e Estados Unidos, compreendemos também as influências sobre o trabalho dos irmãos Gibb. Folk, traços de gospel, houve momentos em que a sonoridade deles foi se transformando, aceitando elementos externos e se modernizando. É comum ouvir de alguns ensandecidos que os Bee Gees teriam “se vendido” na época da Disco Music e do grande sucesso de Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever, 1977). O filme esclarece bem a questão.

A HBO, responsável pela produção do longa, se esmerou ao convidar o experiente Mark Monroe para assinar o roteiro. Ele é o roteirista de filmes elogiados como Ícaro (Icarus, 2017) e A Enseada (The Cove, 2009). Mas a grande surpresa por trás das câmeras é quem assumiu a cadeira de diretor: o lendário produtor Frank Marshall. Nome ligado a grandes franquias do Cinema e parceiro habitual de gente como Steven Spielberg e George Lucas, ele certamente é a causa principal do documentário contar com tantas ótimas fotos e filmagens de arquivo, além das várias celebridades que aparecem.

Hora amados, hora nem tanto, acompanhamos Barry, Maurice e Robin pelos anos, conhecendo também Andy, o irmão mais novo que teve sua própria carreira solo. Vários artistas dividem conosco suas opiniões e apontam o tanto que os Gibb influenciaram gerações seguintes. Outros muitos fizeram sucesso com as canções deles, como Dionne Warwick, Celine Dion e Dolly Parton. A única conclusão possível, ao final de How Can You Mend a Broken Heart, é que a música deles vai continuar sendo executada em rádios e festas e tocando corações, partidos ou não.

O visual Disco marcou a banda, mas eles eram muito versáteis

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Marvel chega à TV com WandaVision

Três episódios assistidos e ainda é difícil definir WandaVision, nova série dos estúdios Marvel veiculada pelo recente serviço de streaming Disney+. Dando início à Fase Quatro do Universo Cinematográfico Marvel, a atração faz referência a diversas obras e nomes e retoma um casal visto nos filmes dos Vingadores, a mutante Wanda Maximoff e o androide Visão. A única coisa que podemos afirmar é que algo está errado naquela realidade.

No primeiro episódio, temos Wanda e Visão vivendo como um casal tradicional num subúrbio norte-americano tentando esconder dos vizinhos o fato de terem poderes sobre-humanos. Com um clima de pastelão inspirado em séries clássicas da TV, como I Love Lucy, temos situações engraçadas, até exageradas. Pela questão dos poderes, lembra também A Feiticeira. Mas essa rotina idílica é constantemente ameaçada por algo que poderia ser descrito como “erros na Matrix”, lembrando do longa de 1999. É como se tudo aquilo fosse criado por alguma inteligência artificial e estivesse sujeito a falhas.

Retomando seus personagens vividos no Cinema, Elizabeth Olsen e Paul Bettany têm uma química ótima que acaba superando a estranheza de ter um casal formado por uma humana e um robô. E o sujeito, ao invés de John ou Bob, se chama Visão. O elenco de apoio ajuda a sustentar aquela realidade, com destaque para Debra Jo Rupp (de Friends e That 70’s Show), Teyonah Parris (de Se a Rua Beale Falasse, 2018) e Kathryn Hahn (de I Know This Much Is True). Muito se tem especulado a respeito da possível participação de outros rostos vistos no UCM, o que não aconteceu até o momento.

A fotografia da série e o uso das cores é bem interessante e lembra os tradicionais quadros do pintor Norman Rockwell, além de fazer um pequeno aceno ao longa Pleasantville (1998). O clima de artificialidade também remete a O Show de Truman (The Truman Show, 1998), o que pode significar que aquilo é uma realidade controlada e monitorada. Esta é a primeira série dentro desse universo compartilhado e deve se comunicar com as próximas, estreladas por outros coadjuvantes dos Vingadores.

Sem entrar em detalhes para não estragar nada, o final do terceiro episódio dá o gancho para o futuro e começa a esclarecer as coisas. Ou as complica mais ainda. Tocar Daydream Believer, dos Monkees, não é acidental, como se tudo fosse um sonho. Serão nove episódios no total, cada um com um custo em torno de US$ 25 milhões, todos escritos pela criadora da atração, Jac Schaeffer (do inédito Viúva Negra), e dirigidos por Matt Shakman (de séries como Game of Thrones). Essas características podem ser garantia de qualidade, mas é bem difícil agradar a todos. Legião (Legion) foi outra série a fugir do óbvio e teve vida curta. Vamos ver como será a aceitação de WandaVision.

O uso das cores é bem interessante

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