Programa do Pipoqueiro #47

por Marcelo Seabra

O Irlandês, novidade na Netflix, é a nona colaboração entre Robert De Niro e Martin Scorsese e o Programa do Pipoqueiro te leva para um passeio por todos esses longas. Confira comentários sem spoilers e músicas das trilhas. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Edward Norton dirige e estrela policial noir

por Marcelo Seabra

Um detetive durão, de coração mole, investiga uma trama que envolve gente poderosa e encontra pela frente uma bela mulher de intenções dúbias. Essa é a sinopse básica das principais histórias clássicas da era de ouro da literatura policial. Autores renomados, como Chandler e Hammet, andaram por esse caminho, e Jonathan Lethem aprendeu bem sua lição. Seu livro Motherless Brooklyn, lançado em 1999, finalmente chega aos cinemas pelas mãos de Edward Norton, que acumula direção, roteiro e produção, além de atuar.

Dez anos depois de adquirir os direitos de adaptação do livro, Norton consegue lançar o filme, chamado no Brasil de Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe, e a insistência valeu a pena. Ele criou uma obra com clima noir, com todos os elementos que o gênero pede: uma mulher misteriosa, um clube de jazz, um político sombrio, capangas bons de briga. No entanto, ele adicionou pontos interessantes que fizeram o resultado se destacar. A política é forte na história, assim como temas como racismo e gentrificação, algo raro de se ver na ficção.

De cara, entendemos que há quatro ajudantes trabalhando no escritório de um detetive, Frank Minna (Bruce Willis, de Vidro, 2019). Dois saem em uma missão que acaba com Minna baleado. Um deles, Lionel (Norton, de Beleza Oculta, 2016), não vai deixar barato e começa a investigar por conta própria o que teria levado o chefe à morte. Os personagens que cruzam seu caminho são bem desenvolvidos, com seus dramas sendo revelados aos poucos. O próprio Lionel é bem curioso: ele tem um problema que o faz ter espasmos, tiques e até a falar coisas impróprias. Hoje, sabemos se tratar da Síndrome de Tourette, mas ele nunca soube.

Outra variação desta para outras histórias mais famosas de detetive é o fato de o chefe ser Minna, e não Lionel. Isso torna Brooklyn praticamente um filme de origem, com o protagonista aprendendo suas lições enquanto apanha da vida (literalmente, inclusive). Norton, sempre um ator de muitas qualidades, não está menos do que ótimo, e traz veracidade a uma doença que não é muito retratada nas telas. Gugu Mbatha-Raw (de Um Homem Entre Gigantes, 2015) também está muito bem, fugindo do estereótipo da dama em perigo. Ela é uma mulher forte que se impõe num mundo machista e racista.

O elenco, que inclui nomes como Alec Baldwin, Willem Dafoe, Bobby Cannavale, Michael Kenneth Williams, Cherry Jones e Leslie Mann, é bem competente. A estilosa fotografia do veterano Dick Pope (de O Ilusionista, 2006, também estrelado por Norton) cria uma ambientação que ajuda a carregar no suspense, além de transformar a cidade de Nova York em um personagem. E isso tudo é perpassado por uma trilha deliciosa composta por Daniel Pemberton (de Yesterday, 2019). A faixa principal foi composta pelo líder do Radiohead, Thom Yorke, e aparece na versão dele e em uma outra, inspirada pelo mestre Miles Davis, com Wynton Marsalis à frente de um grupo brilhante.

A história do livro é contemporânea ao lançamento, mas o roteirista espertamente a transportou para o final da década de 50. Não há problema em fazer uma história de detetives nos dias de hoje, como escritores como Michael Connelly e Lawrence Block provam. Só que a combinação anos 50, jazz e policial noir tem um apelo imbatível. Norton, que dirigiu um longa pela primeira e única vez em 2000 (a comédia Tenha Fé), mostra que domina bem a função. Nada melhor para ele, conhecido pelo gênio difícil, que cuidar de todas as etapas da produção.

Norton e Lethem aprovam os cenários construídos para o longa

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Scorsese convoca elenco dos sonhos para O Irlandês

por Marcelo Seabra

“Fiquei sabendo que você pinta casas”. Assim teria começado a amizade entre Frank Sheeran e Jimmy Hoffa. Pintar casas, no jargão da época, significava matar, espirrar sangue nas paredes. Isso é o que Sheeran contou a seu biógrafo e a frase dá nome ao livro que serviu de fonte para O Irlandês (The Irishman, 2019), longa produzido pela Netflix já disponível no serviço. Se você precisa de um bom motivo para assisti-lo, aqui vão cinco: De Niro, Pacino, Pesci, Keitel e Scorsese. No mínimo.

Com um elenco fabuloso, Martin Scorsese conta a história de um homem que pode ser descrito como uma espécie de Forrest Gump da máfia. Ele parece estar envolvido em todos os eventos criminosos importantes das décadas de 60 a 80, inclusive o desaparecimento do líder sindical Jimmy Hoffa. É importante ressaltar que nada do que vemos é comprovadamente verdade, é a palavra de um criminoso. Nos papéis principais, dois dos melhores atores de todos os tempos: Robert De Niro vive Sheeran, enquanto Al Pacino empresta seus trejeitos a Hoffa. Eles já contracenaram juntos antes (no ótimo Fogo Contra Fogo, 1995, e no fraco As Duas Faces da Lei, 2008), mas este é certamente um ponto mais alto em suas carreiras.

Velho, debilitado e esquecido pela família em um asilo, Sheeran conta sua história para o advogado. Foi à guerra, onde teria matado pela primeira vez. Ao voltar, dirigir um caminhão não pagava o suficiente, e começou a fazer bicos não necessariamente legais. Foi quando conheceu um figurão da máfia, Russell Bufalino (Joe Pesci, colaborador frequente de Scorsese e de De Niro), e entrou para esse mundo. Foi logo apresentado a outro chefão, Angelo Bruno (Harvey Keitel), e ao presidente do sindicato dos caminhoneiros, Jimmy Hoffa. Sheeran, Bufalino e Hoffa são os pilares do longa, mas há vários personagens muito interessantes, assim como seus intérpretes.

Apesar da estranheza dos olhos claros e dos efeitos digitais rejuvenescedores, De Niro (acima) está em um grande momento. O personagem é de poucas palavras, dando a oportunidade ao ator de se expressar de várias formas. E como o seu olhar fala! Pacino (abaixo), conhecido por seus estouros e berros pausados, abusa desses recursos, somando vários outros para compor um quadro rico, desmistificando Hoffa, que teria tomado parte em muita coisa errada. Pesci, como “a voz da sabedoria”, dá sempre a impressão de uma falsa calma, com um vulcão interior pronto a irromper.

O roteiro de Steven Zaillian (de Êxodo, 2014) não é curto, mas é enxuto. Ele aproveita a maioria dos acontecimentos narrados no livro de Charles Brandt e a montagem de Thelma Schoonmaker, brilhante como de costume, dá agilidade suficiente para que as três horas e meia de exibição passem rapidamente. A câmera de Rodrigo Prieto nos dá informações importantes apenas com seus enquadramentos, dispensando diálogos. Há um momento específico, por exemplo, em que a câmera se afasta, deixando um personagem pequeno e “preso” numa espécie de moldura.

Scorsese costuma voltar aos mesmos colaboradores – como Schoonmaker, que trabalha com ele desde 1967. Robbie Robertson, que assina a trilha, é ex-membro da Band, protagonistas de O Último Concerto de Rock (The Last Waltz, 1978), e o músico ainda produziu o longa. Essa familiaridade deve tornar o trabalho mais fácil, simplesmente não conseguimos achar nada fora do lugar.

Além dos tiros, assassinatos e intrigas, O Irlandês fala também de lealdade, de família, de temas caros a mafiosos. Apesar de serem brutamontes violentos, Scorsese vai fundo na mente deles, abordando até a incapacidade de comunicação e de demonstrar afeto, o que mantém uma filha afastada de seu pai. O diretor tem uma carreira variada, com dramas históricos, comédias, documentários. Mas ninguém é melhor ao contar uma história como essa.

Sheeran, Hoffa e Bufalino, na ficção e na vida real

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Longa nos leva de volta a Downton Abbey

por Marcelo Seabra

Poucas pessoas no meio artístico falam do estilo de vida britânico com tanta propriedade quanto Julian Fellowes, o oscarizado roteirista de Gosford Park (2001). Em 2010, ele criou uma série para a televisão que segue por um caminho parecido com o do longa que escreveu. Downton Abbey, em suas seis temporadas e cinco especiais de Natal, acompanhou o dia a dia de uma família de nobres e dos serviçais da enorme casa. No Natal de 2015, os fãs ficaram órfãos, sendo recompensados em 2019 por mais um episódio da saga, agora em longa-metragem e na tela grande.

O novo filme, chamado simplesmente Downton Abbey, nos leva de volta àquele universo com o mesmo clima da televisão. A diferença é o escopo: uma história mais longa, de maior fôlego, com a oportunidade de jogar luz em vários personagens, dando continuidade às jornadas deles. Não se trata de apenas empurrá-los adiante, mas de presentear o público com algumas conclusões. O diretor, Michael Engler, se mostra à vontade, o que se deve a também ter trabalhado na série. O resultado, mais do que satisfatório, atende também os não iniciados, já que é possível acompanhar sem experiência prévia.

Na TV, os Crawleys nos são apresentados a partir de 1912, ano do naufrágio do Titanic. A série segue até o fim de 1925, mostrando os percalços da família e a dificuldade para manter o casarão que dá nome à atração. O filme se passa em 1927, quando uma visita real vai movimentar os habitantes de Downton Abbey. O Conde de Grantham, Robert Crawley (Hugh Bonneville), recebe uma carta do Palácio de Buckingham e os preparativos começam, mobilizando os personagens, cada um dentro de suas atribuições.

Para os fãs mais antigos, é a oportunidade de rever vários rostos conhecidos. Para quem caiu de paraquedas, é a chance de conferir uma obra bem amarrada, com um roteiro muito interessante que explora magnificamente os costumes dos ingleses do entreguerras. Cenários idílicos, figurinos perfeitos e até toques de suspense são bônus para o espectador. Isso tudo além de um elenco fantástico, com nomes como Maggie Smith, Imelda Staunton, Elizabeth McGovern, Michelle Dockery, Jim Carter, Mark Addy e vários outros. E Matthew Goode, que anda muito ocupado, conseguiu apenas fazer uma ponta.

Os diálogos afiados confeccionados por Fellowes trazem, além de tiradas espirituosas distribuídas por toda a sessão, uma discussão muito rica a respeito de expectativas. O tempo todo aparecem situações em que alguém espera algo de alguém, e é criada uma sinuca em que o envolvido fica sem saber o que fazer. Tudo isso, com um sotaque irresistível e pontuado por uma trilha grandiosa. Personagens inteligentes, tridimensionais, nos conduzem por intrigas palacianas entre as várias classes envolvidas. Os ciúmes entre as duas equipes de empregados são impagáveis! Mal podemos esperar por um novo episódio da saga de Downton Abbey.

Nobres e empregados ganham o mesmo destaque

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Mirren e McKellen dão vida à Grande Mentira

por Marcelo Seabra

Ter o encontro de atores do calibre de Helen Mirren e Ian McKellen já deveria valer o preço do ingresso. E vale! Os dois entram em cartaz em A Grande Mentira (The Good Liar, 2019) e o trabalho que vemos é exatamente o esperado: eles são ótimos! Já o filme, nem tanto. Com ações não condizentes com os personagens e os rumos exagerados que a história toma, o resultado perde muita força. Temos mais um caso de livro muito vendido e elogiado que não deu origem a um longa à altura (como O Pintassilgo, 2019).

Depois dos 60, aposentado, o funcionário público Nicholas Searle fez um curso online e realizou seu sonho de virar escritor. O livro vendeu bastante pelo mundo e os direitos foram adquiridos pela Warner. Searle viu sua história ganhar vida com dois ícones do Cinema e o experiente Bill Condon à frente do projeto. Condon, McKellen e o roteirista Jeffrey Hatcher trabalharam juntos em Mr. Holmes (2015), repetindo agora a bem-sucedida parceria – com a grande adição de Mirren.

Em A Grande Mentira, McKellen vive um golpista experiente que vê na viúva interpretada por Mirren uma oportunidade de se aposentar em grande estilo. Arrancando dela tudo o que fosse possível, ele teria tranquilidade em seus últimos dias. Mas, de cara, sabemos que Betty não será uma presa fácil, Roy terá muito trabalho. Para complicar a missão, ainda aparece no caminho um neto de Betty, Stephen (Russell Tovey, de séries como Flash e Years and Years).

Com dois personagens fortes e inteligentes, fica difícil comprar a ideia de que a relação entre eles se desenvolveria da forma como acontece. Com intérpretes desse naipe, a expectativa é maior ainda. Talvez o filme tenha sido mais afobado que o livro, o que tira sua força. Ao chegarmos no final, o sentimento ruim já tomou conta. É uma produção bem cuidada, com uma fotografia correta, um figurino clássico, trilha adequada e locações simples, mas funcionais. Só o que desanima são as atitudes de Roy e Betty, e a sensação que fica é a de desperdício de talentos enormes.

É a primeira colaboração dos velhos amigos no Cinema

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O premiado A Vida Invisível finalmente chega aos cinemas

por Marcelo Seabra

Depois de ter várias indicações a prêmios e levar vários deles, A Vida Invisível (2019) chega aos cinemas já com grande destaque, cercado de expectativa devido ao barulho causado. Com uma trama passada nos anos 50, no Rio de Janeiro, o longa acompanha duas irmãs que são separadas quando jovens e envelhecem sem notícias uma da outra, enquanto sofrem na pele todo o machismo da sociedade de então. Talvez fosse mais adequado que o título viesse no plural, mas a generalização resume melhor o lugar da mulher naquele contexto.

Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) são cúmplices ao driblarem as proibições do pai português (Antônio Fonseca). Uma o tem como tradicional, enquanto a outra usa adjetivos menos respeitosos. A mãe (Flávia Gusmão) não apita e as meninas aprendem desde cedo que terão que lutar muito para realizar seus sonhos. Entre erros e acertos, acompanhamos suas vidas, invisíveis frente o domínio dos homens. A mulher vivia sobre o julgo do pai até se casar, apenas trocando de “senhor”. Quem ousasse sair dessa lógica era tida como uma vergonha para a família.

De uma forma bem crua, o diretor Karim Aïnouz (de Praia do Futuro, 2014) monta um quadro triste, no qual a mulher serve apenas para ser mãe e satisfazer sexualmente o marido. As cenas de sexo, sem qualquer sensualidade, incomodam, e fica claro que foram filmadas com esse propósito. Esse é apenas um dos aspectos com os quais a mulher tem que se acostumar. Não importa se o homem é durão e posicionado (como o pai) ou se é um bobão atrapalhado (como o marido de Eurídice, vivido por Gregório Duvivier): qualquer regra imposta por ele, por mais estúpida ou cruel, vira lei.

Duarte e Stockler, ambas com pouca experiência na televisão, dão shows. Mesmo com um elenco bem equilibrado, elas brilham até nos momentos mais introspectivos – ou principalmente nestes. Duvivier evita construir um estereótipo, mostrando como podemos conviver com pessoas aparentemente bacanas, mas que sufocam as esposas e têm atitudes reprováveis. O experiente Fonseca mostra que existe sim uma grande preocupação do pai pelo bem da família, mas seus conceitos são extremamente distorcidos. O uso de cores saturadas busca trazer a história para o hoje, reforçando sua atualidade, e a bela fotografia urbana de Hélène Louvart cria cenários adequados, de belas paisagens a quartos opressivos.

O início de A Vida Invisível é um pouco arrastado e cansativo. Logo, as coisas começam a andar e a ficarem mais interessantes, fugindo da “cara” de novela para tomar contornos mais sérios e impactantes. A trama prende o espectador, mesmo sendo ligeiramente previsível, porque o que importa aqui não é o destino, mas a jornada. Acompanhar as vidas dessas mulheres fortes – outras cruzam os caminhos das irmãs – é difícil, perceber o papel aos quais elas são relegadas é revoltante. Mais ainda por ser tão real e tão atual. Mais para o final, somos agraciados pela presença de Fernanda Montenegro (acima), que não precisa fazer muito esforço para passar emoção.

O Rio de Janeiro é pano de fundo para a história e a autora do livro que serviu como fonte, Martha Batalha, é pernambucana. No entanto, o lugar, aqui, é o menos importante, todo o Brasil se enquadra. Houve vitórias dos movimentos feministas, claro, podemos notar diferenças entre a sociedade de então e a atual. Mas estamos longe de um ponto ideal, há muito caminho pela frente. A Vida Invisível esfrega essa verdade na nossa cara e está aí o motivo do sucesso mundial que ele tem atingido.

Duarte e Stockler foram a Cannes com o diretor receber o prêmio Um Certo Olhar

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Novo Exterminador do Futuro reúne personagens clássicos

por Marcelo Seabra

Mesmo em cartaz há três semanas e disputando em briga de cachorro grande, O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio (Terminator: Dark Fate, 2019) segue firme entre as maiores bilheterias do Brasil no momento – e no mundo também. Além de ser dirigido por Tim Miller, em alta desde Deadpool (2016), o longa traz outro atrativo: ele reúne Arnold Schwarzenegger e Linda Hamilton, os grandes nomes da franquia.

Sexto filme da série, Destino Sombrio desconsidera os episódios anteriores e retoma a história onde O Julgamento Final (Judgment Day, 1991) parou. No final dele, o exterminador de Schwarzenegger consegue cumprir sua missão de proteger John e Sarah Connor. Eles destroem o T-1000 e tudo leva a crer que a humanidade vai vencer a guerra contra os robôs com a liderança de John. Neste novo capítulo, descobrimos que outro T-800 veio e cumpriu sua programação original, executando John na frente de Sarah.

Sem o jovem Connor, outra pessoa teria que assumir o papel de conduzir homens e mulheres na luta contra a Skynet. E há também outra pessoa que volta ao passado para servir de guarda-costas. Dessa vez, cabe à personagem de Mackenzie Davis (de Tully, 2018) proteger a jovem vivida pela colombiana Natalia Reyes. E Sarah (acima) vai dar um jeito de entrar nessa história. Nada forçado, conseguimos comprar a ideia sem grande esforço.

Por esse ponto de partida, dá para perceber que o filme privilegia as mulheres, bem-vinda prática em alta hoje. E há ainda outro elemento a ser ressaltado: a importância dos mexicanos para a trama. Num país governado por um presidente que discrimina estrangeiros em geral, em especial os vizinhos latinos, é interessante ver um filme norte-americano que os valoriza. O grande vilão, o novo modelo de exterminador REV-9 (Gabriel Luna, de Agentes da SHIELD), é uma espécie de policial texano da fronteira, o que é bem curioso.

Analisando a franquia friamente, percebemos que os dois primeiros longas resolvem bem as questões levantadas. Um terceiro cairia em uma repetição cansativa, e foi o que aconteceu. Não uma ou duas vezes, mas três – que, agora, são relegadas a “universos paralelos”. Quando se fala em viagem no tempo, muitas variáveis podem acontecer, e essa é a desculpa da equipe atual para corrigir erros passados. Essa nova continuação atinge um resultado bem superior ao das anteriores, mas continua sendo dispensável.

Temos boas atuações, em especial a de Hamilton, que se mostra à vontade no papel e dá um destino bem coerente à sua Sarah. Os temas visitados, como as questões mencionadas das mulheres e dos imigrantes, são importantes. E não deixa de ser curioso ver Arnie de volta ao T-800 que o consagrou. Mas era mesmo necessário assistirmos a mais um Exterminador do Futuro?

O bom e velho T-800 enfrenta o REV-9

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Novas Panteras chegam aos cinemas

por Marcelo Seabra

Quem reclama da falta de criatividade do cinemão americano, que requenta tudo o que pode, tem um novo ótimo argumento. A velha prática de transformar séries em longas volta a atacar com As Panteras (Charlie’s Angels, 2019). A atração surgiu como série em 1976 (até 1981), virou dois filmes (2000 e 2003), voltou como série (2011) e agora é de novo um filme. É o típico projeto em que notamos boas intenções por toda parte, e mesmo assim o resultado deixa muito a desejar.

Ocupando a direção pela segunda vez (A Escolha Perfeita 2 é de 2015), Elizabeth Banks (vista em Brightburn, 2019) faz uma obra que ressalta bastante o papel da mulher. Afinal, elas estão para todo lado, à frente e atrás das câmeras. É bem bacana ver uma trama em que os homens são relegados a posições de vilões, sendo retratados como bobos ou, no mínimo, brutos de poucas palavras. E as agentes não deixam nada a dever nas cenas de lutas, perseguições ou qualquer outra situação normalmente ocupada pelo macho de plantão.

Por isso, apesar do visível esforço dos envolvidos, é frustrante ver o produto final. Personagens sem qualquer apelo junto ao público e sem química entre elas, em cenas mal orquestradas e confusas onde as coisas acontecem porque precisam acontecer, ou o roteiro não andaria. Não tudo está perdido: temos boas atuações e algumas piadas até funcionam. Mas, de forma geral, o humor é forçado, principalmente no que diz respeito à agente vivida por Kristen Stewart (de Café Society, 2016), que deveria irritar apenas a séria Jane (Ella Balinska, de The Athena) e consegue muito mais do que isso.

A trama nos mostra de cara que existem muitas Panteras do Charlie, o milionário por trás de uma agência que combate o crime pelo mundo – e é só isso que sabemos. E assim também temos vários Bosleys, o intermediário que orienta as garotas. Com essa brecha, o filme aproveita para homenagear intérpretes que passam pelo universo das Panteras desde o início. Dessa vez, Bosleys metem mais a mão na massa e participam das ações. As agentes Sabina e Jane começam com o pé esquerdo e pouco depois têm outra missão em conjunto. Elas devem proteger uma cientista (Naomi Scott, a princesa de Aladdin, 2019) e investigar as denúncias dela. Fora um cartão de visitas, não sabemos como se deu esse arranjo e como rapidamente todos confiam em todos.

Com esse fiapo de roteiro, Banks cria mais uma trama megalomaníaca falsamente intrincada, daquelas que vão e voltam para parecerem muito elaboradas. Fora ver o tanto que ficou forte o pequeno nerd de Sleepers (1996) e 100 Garotas (100 Girls, 2000), Jonathan Tucker, o filme guarda poucas surpresas. O tal Noah Centineo (acima), que a Netflix tentou transformar em galã com O Date Perfeito (The Perfect Date, 2019), aparece numa ponta bem deslocada, e temos ainda participações de Patrick Stewart (o Professor Xavier dos X-Men clássicos), Djimon Hounsou (o Mago de Shazam, 2019) e Sam Claflin (de Como Eu Era Antes de Você, 2016).

Como na franquia de James Bond, temos cenários bonitos, festas caríssimas e veículos luxuosos. Mas As Panteras não se leva tão a sério, o que gera momentos divertidos. Mas, com tantos defeitos, o público também acaba não o levando a sério. A publicidade enfatiza o fato de a música-tema ser de três cantoras da moda, o que está longe de levar gente às salas. Talvez, passado esse primeiro contato, essa espécie de filme de origem, as agentes tenham mais o que dizer numa próxima aventura. Basta aguardar os resultados da bilheteria para sabermos se elas terão essa oportunidade.

Banks apresenta suas novas Panteras

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Doutor Sono retoma O Iluminado e vai além

por Marcelo Seabra

Pelas últimas décadas, fãs tanto do livro (1977) quanto do filme (1980) O Iluminado (The Shining) podem ter se perguntado: o que teria acontecido com Danny Torrance? Vivido no Cinema magistralmente por Jack Nicholson, Jack Torrance enlouqueceu no Hotel Overlook e tentou matar sua mulher e filho. Um belo dia, o próprio Stephen King, autor da história, se fez a mesma pergunta. Foi quando surgiu Doutor Sono (Doctor Sleep), que agora também ganha sua adaptação. Chegou a hora de novamente acompanharmos Danny e saber o que houve.

Depois de tantos traumas, é fácil compreender que ele cresceu de maneira bem atribulada. Alcoólatra como o pai, Danny não se fixa a nenhum lugar, trabalho ou parceira. O grupo Alcoólatras Anônimos lhe dá algum alento e ele consegue emprego como enfermeiro de doentes terminais. Seu “brilho” (ou iluminação) está enterrado no fundo de sua mente, mesmo que vez ou outra veja algo que mais ninguém vê. Mas não adianta fugir de si mesmo, como ele logo entende, e seu passado volta a bater na porta.

Essa é a trama básica de Doutor Sono, que chega agora aos cinemas pelas hábeis mãos de Mike Flanagan. Tendo realizado Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017) para a Netflix, ele já sabia o tamanho do desafio que é adaptar uma história de Stephen King. Tramas que funcionam bem melhor em palavras que em imagens, conclusões discutíveis e fãs ardorosos e extremistas são alguns dos problemas enfrentados. Agora, levando-se em consideração que se trata da sequência de um novo clássico do Cinema, dirigido por um gênio incontestável, a tarefa fica hercúlea.

Pegando o trabalho de onde Stanley Kubrick (1928-1999) deixou, inclusive usando a mesma logomarca do primeiro, Flanagan tapa possíveis buracos e nos leva ao “presente”, que no caso é 2011. É quando reencontramos Dan, e o diretor aproveita para fazer a alegria dos fãs do filme de 1980. Um exemplo: uma personagem mora numa casa exatamente no número 1980. O escritório onde acontece uma entrevista de emprego foi montado da mesma forma de antes. Parece uma série de piscadelas para o público. As referências variam de discretas a bem escancaradas, algo que Jogador Nº 1 (Ready Player One, 2018) também fez bem.

Mas Flanagan não se contenta apenas em homenagear Kubrick. Ele leva a história além e, como roteirista, tem uma missão complicada: atender tanto os fãs do livro quanto do filme, e há diferenças fundamentais. Talvez resida aí o problema de King com o diretor. Mas é importante deixar clara a maior diferença entre os longas. Enquanto O Iluminado é um drama psicológico com elementos sobrenaturais que vai numa crescente rumo ao terror, Doutor Sono já abraça a fantasia de frente. O tom é bem distinto, o que dá uma identidade ímpar a cada obra. Não se trata de comparar as duas, elas seguem seus caminhos. A trilha sonora, dos Newton Brothers, faz o mesmo: aproveita notas para ir adiante.

Outra questão que logo surge: O Iluminado tinha Jack Nicholson, lembrado até hoje como o psicopata do machado derrubando uma porta. Com a benção de King, Ewan McGregor foi o escolhido para viver Dan adulto. O que não deixa de ser irônico, já que o ator é hoje conhecido pelo grande público por interpretar uma versão mais jovem de outro ícone do Cinema: Obi-Wan Kenobi, de Star Wars. McGregor traz as expressões e as emoções necessárias e atende muito bem o papel, e o mesmo pode-se dizer de sua colega. Rebecca Ferguson (de MIB Internacional, 2019) vai de sexy a ameaçadora em poucos quadros, e lidera com força o bando de vilões.

Por mais que os veteranos façam bem seus papéis, o grande destaque acaba sendo a novata Kyliegh Curran (acima). Como a jovem Abra, inexperiente quanto a suas habilidades, mas extremamente poderosa, ela é responsável por bons momentos no filme.  Sua jornada fará os mais cínicos dizerem que é uma estrutura similar à de uma aventura de super-herói. Mas tem algo aqui que falta à Marvel: um autor. Flanagan imprime sua marca, sempre criando um clima interessante. Seus filmes podem até ser um pouco lentos em sua construção, mas geralmente não decepcionam. E ele gosta de repetir atores com quem trabalhou, e aqui temos Bruce Greenwood, Henry Thomas e Carel Struycken de Jogo Perigoso e Jacob Tremblay de O Sono da Morte (Before I Wake, 2016).

Foi o sucesso de It: A Coisa (2017) que fez com que a Warner Bros. encarasse a produção de Doutor Sono. King está sendo descoberto por novas gerações e a cada ano vários de seus livros ganham vida, alguns pela segunda vez (caso de Cemitério Maldito). Quando não em longa-metragem, como série, como The Outsider, Lisey’s Story, The Dark Tower e The Stand, todas com data de estreia próxima. Lembrando que o escritor lança pelo menos um livro por ano, matéria-prima não vai faltar.

Ferguson é a líder do bando de vampiros de vapor

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Ford desafia Ferrari no mundo das corridas

por Marcelo Seabra

Homens brancos, ricos e orgulhosos disputando quem tem o melhor desempenho. Em poucas palavras, essa é a descrição de Ford vs Ferrari (2019), longa que traz um tour de force entre duas montadoras de carros. Por sorte, o filme vai bem mais longe, respeitando seus personagens e nos permitindo conhecê-los um mínimo para que nos importemos com eles. Apesar de se tratar de dois grupos poderosos, não deixa de ser uma batalha entre Davi e Golias, tema recorrente no Cinema.

No início da década de 60, numa tentativa de alavancar a venda de carros, a Ford Motors decidiu partir para as corridas. Para isso, precisaria derrotar o grande campeão, a Ferrari. Quando viu que não conseguiria resolver a questão apenas com dinheiro, Henry Ford II (Tracy Letts, de The Post, 2017) decidiu contratar um projetista e começar do zero. É aí que entra o ex-campeão Carroll Shelby (Matt Damon, de Suburbicon, 2017), que se une ao piloto e mecânico Ken Miles (Christian Bale, de Vice, 2018) para tentarem construir um carro que vencesse as 24 Horas de Le Mans.

James Mangold é um diretor que parece ter a necessidade de identificar vilões quadrinescos mesmo em dramas reais. Foi assim com o pai de Johnny Cash em Johnny e June (Walk the Line, 2005), é assim com o executivo Leo Beebe (Josh Lucas, de Mark Felt, 2017) nesse filme. Uns closes na cara de mau de um piloto italiano praticamente produzem outro vilão. Mas, ao mesmo tempo, temos Lee Iacocca (Jon Bernthal, o Justiceiro) incentivando a dupla, servindo como contrapeso.

Beebe, além de fazer caras e bocas e participar de algumas cenas revoltantes, é a representação do que acontece quando homens de terno se misturam a algo que deveria ser puro, como o esporte. É sabido por todos que há grande interferência do marketing, ou do chamado mercado, sobre os resultados de campeonatos, desde a escolha de quem disputa. Mas, mesmo esperado, não deixa de causar asco. Ford vs Ferrari vai mais fundo nessa questão, o que o torna mais abrangente que outros do gênero, como Rush (2013).

O básico, que esperamos num filme desse tipo, também está lá: a emoção das corridas. Mesmo para leigos, para quem conhece apenas vagamente o nome Ayrton Senna (que nem é da categoria tratada aqui) ou para quem não sabe nada de corridas (acima, os carros reais), o longa diverte e entretém. Shelby e Miles devem ser conhecidos entre os aficionados, o serve como atrativo extra. Mas os leigos vão apreciar tanto quanto, ainda mais tratando-se de duas ótimas atuações. Damon e Bale (que lembra seu papel em O Vencedor, 2010) têm uma boa química, e o elenco é completado por Caitriona Balfe (de Jogo do Poder, 2016) e Noah Jupe (filho de Damon em Suburbicon), que vivem a família de Miles.

O roteiro, escrito por Jason Keller (de Rota de Fuga, 2013) e reescrito por Jez e John-Henry Butterworth (dupla de No Limite do Amanhã, 2014), consegue evitar certas armadilhas e até surpreende. A fotografia é interessante e funcional, já que consegue nos situar nos lugares por onde a trama passa. E a belíssima trilha sonora, que vai de rocks sessentistas a um jazz estilo Dave Brubeck assinado por Marco Beltrami (de Logan, 2017), completa o quadro. Ford vs Ferrari faz rir e chorar enquanto nos leva por curvas perigosas e retas que pedem uma acelerada.

Os atores deram a largada numa prova em Indianápolis

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