Obsessão traz fábula de terror

Ainda em cartaz nos cinemas e já disponível para aluguel em streaming, Obsessão (Obsession, 2025) é um grande fenômeno. Tendo custado meros (para os padrões de Hollywood) 750 mil dólares, a arrecadação do longa passou a marca dos 400 milhões. E não foi só esse faturamento astronômico que o diretor e roteirista Curry Barker conseguiu: as críticas têm sido muito positivas, com notas altas em sites especializados e elogios rasgados de figuras conhecidas no meio. E o filme merece tudo isso.

Um rapaz (Michael Johnston, a voz do Nathan de X-Men ‘97) se depara com um objeto que supostamente concede ao portador um desejo, e aprende aí o risco que corre ao ser atendido. Como faziam as fábulas antigamente, ou os chamados “cautionary tales” (algo como “contos preventivos”), o roteiro mostra o que pode acontecer de pior ao se conseguir o que quer. Bear finalmente cai nas graças de sua amiga platônica Nikki (Inde Navarrette, de Superman & Lois), mas as coisas não demoram a desandar.

O baixo orçamento não fica tão evidente, já que o roteiro não exige efeitos ou cenários mirabolantes. As cenas práticas podem causar algum desconforto nos estômagos mais frágeis e a atuação de Navarrette chama a atenção, ela domina bem sentimentos complexos e opostos. Não seria de se admirar se ela logo aparecer em alguma franquia milionária (como os X-Men do MCU), e devem surgir convites para Barker também. Afinal, ele conseguiu o que muitos buscam: ganhar muito gastando pouco.

As coisas não saem exatamente como ele queria…

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Faroeste espacial de Supergirl decepciona

A estreia em longa-metragem do novo universo DC, chefiado por James Gunn e Peter Safran, aconteceu em grande estilo com Superman (2025), uma das estrelas da editora. O planejamento dos produtores, amplamente divulgado, previa a outra kryptoniana chegando na sequência, e tivemos finalmente a estreia de Supergirl (2026). Gunn parece sempre fazer o seu dever de casa, com roteiros que bebem diretamente na fonte, os quadrinhos. Por alguns motivos, dessa vez, a fórmula não foi tão acertada, resultado em um filme morno, que nunca engrena.

Kara Zor-El e seu cachorrinho Krypto foram introduzidos no primeiro filme e ficamos na expectativa por uma aventura só deles. Conhecemos, agora, uma nova personagem, que divide o protagonismo com a heroína: Ruthye, que busca vingança. Nos quadrinhos, a garota, assim como o vilão, só aparece na saga que serve de inspiração para o roteiro. Escrita por Tom King e desenhada pela brasileira Bilquis Evely, Supergirl: A Mulher do Amanhã (2021) foi criada sob forte influência do clássico faroeste Bravura Indômita, livro de 1968 já levado aos cinemas duas vezes (1969 e 2010).

Com uma fiapo de trama e um tom à Mad Max, o roteiro de Ana Nogueira (já trabalhando em Novos Titãs e Mulher-Maravilha) parece sofrer de excesso de referências e padecer da falta de uma identidade própria. Segundo Nogueira, Gunn fez algumas exigências para que a história pudesse caber nesse novo universo cinematográfico, e acabou ficando diferente da revista. Uma dessas mudanças foi a inclusão do Lobo (acima), o mercenário intergalático misteriosamente amado pelos fãs de HQs, criado para ser uma paródia de tipos maus da concorrência, como o Justiceiro e Wolverine. A direção genérica de Craig Gillespie, responsável por bons filmes com personagens femininas, como Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) e Cruella (2021), não ajudou.

No quesito elenco, as escolhas de Gunn e sua turma são impecáveis. Milly Alcock ganhou nome ao estrelar o derivado de Game of Thrones, House of the Dragon, e foi escolhida como a personagem título. Ela faz o que lhe cabe bem, a mocinha que carrega mágoas e não se encaixa, optando por se alienar da realidade. Quem a força de volta é vivida por Eve Ridley (de The Witcher), uma menina doce forçada a enfrentar duros fatos. Como o vilão da vez, Matthias Schoenaerts (de Red Sparrow, 2018 – abaixo) não tem muito o que fazer a não ser matar, roubar e ameaçar. Ele faz o psicopata de plantão do qual não sabemos nada e, francamente, não importa. Na falta de um Lex Luthor, pegaram um qualquer.

E chegamos à maior decepção, que responde por Jason Momoa. Não que o problema seja o ator, que mais uma vez faz ele mesmo, agora sob pesada maquiagem lembrando a banda Kiss – e isso resolve bem o caso. Ele disse em várias entrevistas que, no primeiro contato da DC para que ele vivesse Aquaman, esperava ser convidado para ser o maioral, apelido do Lobo. Ele finalmente chegou onde queria, para ser relevado a coadjuvante de luxo que aparece e some sem causar qualquer impressão. Ele pode até ser promovido a protagonista num futuro próximo, mas aqui foi desperdiçado sem cerimônia.

Como acontece nas HQs, sempre teremos os destaques e as obras insossas. Afinal, não é sempre que temos um Frank Miller ou um Alan Moore escrevendo as histórias. No cinema, algumas produções serão lembradas em anos vindouros, enquanto outras ficarão de curiosidade apenas para os fãs mais dedicados, caso desse road movie espacial. A Supergirl certamente terá a oportunidade de ser reabilitada em um longa melhor, mesmo que como coadjuvante. Como protagonista, infelizmente não foi dessa vez.

Krypto mais uma vez rouba o show

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Dia D é Spielberg em ótima forma

Quando chega aos cinemas um filme novo de Steven Spielberg, dá até vontade de colocar roupa de domingo. Pode-se gostar ou não do resultado, mas nunca duvidamos da qualidade técnica e da competência dos envolvidos, já que o diretor costuma cercar-se dos melhores do ramo. Sendo do drama mais íntimo, como em Os Fabelmans (2022), ao blockbuster frenético, como no novo Dia D (Disclosure Day, 2026), o diretor sempre traz questões interessantes para discussão (a crítica abaixo não tem spoilers).

Como o próprio Spielberg descreveu em entrevista ao IMdB, a história de Dia D começa já no terceiro ato, tendo depois um quarto e um quinto atos. Já encontramos os personagens no meio do caminho e a ação se desenrola quase sem respiro, e vamos aos poucos entendendo o que está acontecendo e o que está por trás das ações deles. Parece confuso, mas não é, e as informações vão sendo reveladas. É exigido um salto de fé do espectador, por se tratar de uma trama com uma conspiração envolvendo alienígenas, e tudo vai fazendo um surpreendente sentido.

No cartaz do filme, vemos Emily Blunt aparecendo como uma peça chave para o mistério de Dia D. A atriz, vista recentemente na (dispensável) continuação de O Diabo Veste Prada, é de longe o maior trunfo do longa, roubando todas as cenas em que aparece. Ela e Josh O’Connor são os protagonistas que caem de paraquedas na perigosa história, que envolve uma organização não governamental liderada por ninguém menos que Colin Firth (o Mark Darcy de Bridget Jones). Causa certo estranhamento ver um ator claramente inglês liderando uma instituição no coração dos EUA, mas isso logo passa. O onipresente Colman Domingo, que conta com inacreditáveis onze trabalhos em dois anos, fecha o elenco principal.

É a primeira vez que Spielberg faz um filme com um ritmo tão acelerado, que se passa em poucas horas, e ele coloca a personagem de Eve Hewson (de Jay Kelly, 2025) como o olhar do espectador.  Além de nos apresentar ao cenário, Jane também traz questões envolvendo religião que engrossam o caldo. Spielberg e seu corroteirista, David Koepp (em sua quinta colaboração), estão mais preocupados com os humanos e as possíveis consequências do que é mostrado para a humanidade. O filme é um grande “e se…?”, tratado de forma quase como se fosse inspirado em fatos, lembrando o que Spielberg fez em The Post (2017) – esse sim, inspirado por uma história real.

As quase duas horas e meia de Dia D passam voando, longe de qualquer possibilidade de enfadonho. Às vias de completar 80 anos (em dezembro), o cineasta se mostra afiado, um dos melhores em atividade, e evita qualquer sentimentalismo duvidoso que possa ter usado em sua carreira. O longa é exemplo do que de melhor o chamado cinemão americano produz e deve marcar presença na próxima temporada de premiações. Indicações para Blunt, Spielberg e o filme não me surpreenderiam.

Spielberg, Koepp e o elenco comemoram o primeiro lugar nas bilheterias americanas

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Baz Luhrmann revive um Elvis épico

Imagens que pareciam condenadas ao esquecimento deram origem a uma mescla de documentário e filme-concerto. Depois de pesquisar muito para seu longa sobre Elvis (2022), Baz Luhrmann reuniu dezenas de caixas de filmagens não utilizadas do Rei do Rock, além de um áudio de 45 minutos do próprio, e partiu para a realização de EPiC: Elvis Presley in Concert (2026), longa que funciona menos como uma biografia convencional e mais como uma tentativa de ressuscitar uma presença.

Construído a partir de filmagens raras, trechos inéditos e gravações recuperadas, o projeto abandona a lógica cronológica tradicional para mergulhar diretamente no palco, transformando a figura de Elvis Presley em espetáculo e memória ao mesmo tempo. O resultado não tenta explicar Elvis, mas coloca-o novamente diante de uma plateia. O foco está principalmente nos anos finais de carreira, quando os cassinos de Las Vegas se tornaram simultaneamente trono e prisão. O filme retorna repetidamente às apresentações no International Hotel e aos longos períodos em que Elvis parecia condenado a repetir a própria mitologia noite após noite, chegando a três apresentações seguidas.

Há algo melancólico nessa escolha. O documentário exibe um artista ainda magnético, capaz de dominar uma multidão com um sorriso torto ou um movimento aparentemente improvisado, mas também sugere o desgaste de alguém solitário, transformado em atração permanente. A câmera encontra momentos de humor, carisma e energia genuína, mas o contexto nunca desaparece completamente: estamos vendo um homem que continua brilhante enquanto lentamente se aproxima do colapso físico que definiria seus últimos anos. Saber o que aconteceria depois torna as coisas mais trágicas.

Duas conclusões emergem com bastante clareza ao longo da montagem. A primeira é que praticamente ninguém envolvido no projeto parece nutrir qualquer simpatia pelo Coronel Tom Parker (que não era coronel e não se chamava Tom Parker). Mesmo quando o documentário evita acusações diretas, a figura do empresário surge constantemente como a força que restringiu possibilidades, impediu turnês internacionais e ajudou a transformar Elvis em uma máquina de apresentações contínuas locais.

A segunda conclusão é mais desconfortável. Ao utilizar gravações em que o próprio cantor comenta sua trajetória, o filme acaba revelando um artista extremamente cuidadoso em evitar posicionamentos públicos sobre temas políticos e sociais mais delicados. Em um período marcado por tensões raciais, movimentos civis e transformações culturais profundas, Elvis aparece como alguém que preferia permanecer dentro da bolha do entretenimento, preservando a própria imagem acima de qualquer engajamento mais explícito. O documentário não insiste nesse ponto, mas é mostrado claramente, impossível de ignorar. Enquanto os Beatles se recusavam a tocar em locais com separação de público, Elvis dizia em entrevistas que seu papel era “só” cantar e tocar.

Tecnicamente, o trabalho impressiona. Luhrmann e sua equipe trabalharam em milhares de horas de material encontrado em arquivos da MGM, restaurando imagens deterioradas e sincronizando filmagens que sequer possuíam áudio original. A qualidade da recuperação é impressionante, especialmente quando o filme alterna registros de palco, bastidores e momentos íntimos sem perder a fluidez. A montagem de Jonathan Redmond encontra ritmo dentro de um material que facilmente poderia parecer apenas uma coletânea de sobras históricas. Já a sonorização moderna evita a armadilha do excesso de limpeza digital e preserva parte da textura analógica daquelas apresentações. E as versões das músicas mostradas, muitas vezes, são diferentes dos registros que conhecemos.

O filme acaba dizendo tanto sobre Elvis quanto sobre o próprio Baz Luhrmann. Depois de transformar a vida do cantor na premiada ópera pop que vimos nos cinemas, o diretor, famoso por seus musicais, retorna agora sem atores, sem reencenações e sem a necessidade de criar espetáculo artificialmente. Ainda assim, sua assinatura permanece em cada corte, em cada clássico remixado e em cada escolha visual.

Luhrmann parece compreender algo que muitos documentários musicais esquecem: às vezes, a melhor forma de contar a história de um ícone não é analisá-lo à exaustão, mas observá-lo atuando. Há uma devoção evidente no projeto, talvez até excessiva em alguns momentos, mas também existe uma convicção rara. EPiC não tenta desmontar o mito. Prefere colocá-lo sob os refletores mais uma vez e permitir que ele continue fazendo aquilo que fazia melhor: seduzir uma plateia inteira enquanto esconde o que realmente sentia.

Elvis mostrou seu carisma intacto até o final

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Charlize Theron tenta sobreviver na natureza selvagem

Em sua segunda semana disponível na Netflix, O Jogo do Predador (Apex, 2026) é o filme mais visto no momento no streaming. Um nome pode ter sido o responsável por chamar tanto público: Charlize Theron, atriz oscarizada em seu segundo trabalho seguido para a Netflix (depois de The Old Guard 2, 2025). O outro nome importante no elenco é o de Taron Egerton, lembrado por viver Elton John em Rocketman (2019). Ou, às vezes, o público só está buscando um bom filme de aventura para se entreter. Nesse caso, talvez fosse melhor esperar pela próxima opção.

Uma pessoa é perseguida em um jogo doentio onde a vitória parece impossível e a derrota significa morrer. Essa é a trama básica O Jogo do Predador e também de O Jogo Mais Perigoso, conto de Richard Connell, lançado em 1924 e ainda hoje tido como um dos melhores de todos os tempos. Uma coisa é certa: é uma das histórias mais adaptadas para várias mídias, incluindo o rádio, com pequenas variações.

Desde a primeira versão para o Cinema, Zaroff, o Caçador de Vidas (The Most Dangerous Game, 1932 – acima), ele foi sendo recontado, às vezes com fidelidade à fonte (como no filme homônimo de 2022), ou com a adição de um alienígena caçador (Predador, 1987, e suas sequências), ou num cenário urbano (O Alvo, 1993), ou mesmo no Brasil (Bacurau, 2019). Na maioria das vezes, sem o crédito devido a Connell.

O Jogo do Predador é mais um a entrar na categoria de adaptações não reconhecidas, e leva o suspense às belas paisagens da Austrália. Depois de um grande trauma, a personagem de Theron não aprende a lição e vai atrás de mais confusão. Viciada em adrenalina, ela está sempre escalando uma montanha, descendo uma correnteza ou enfrentando caipiras mal intencionados. Com algumas alterações no conto original, temos um novo jogo de gato e rato. O problema é a total ausência de tensão. As coisas vão acontecendo, não nos importamos com ninguém ali e o que quer que aconteça, tanto faz.

O lado bom, se é que isso é bom, é que são apenas 95 minutos, a perseguição não se arrasta. Logo chegamos ao final e mais rápido ainda esquecemos o resultado. Theron e Egerton estão corretos em suas composições, mas falta ao diretor islandês Baltasar Kormákur conferir ao filme um pouco da agilidade de A Fera (Beast, 2022), que conseguia deixar o público apreensivo quanto ao destino dos personagens. Não é que O Jogo do Predador seja ruim. É apenas insosso.

Theron e Egerton se enfrentam nas paisagens da Austrália

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The Pitt finaliza sua ótima segunda temporada

Há algo de irônico no fato de uma série sobre exaustão, rotina e urgência ter se tornado uma das produções mais consistentes e comentadas da televisão recente. O fim da segunda temporada de The Pitt confirma essa impressão com uma segurança rara: não se trata apenas de prestígio acumulado em premiações, mas de um reconhecimento sustentado por uma execução que evita atalhos fáceis e prefere construir tensão a partir do que, em outras mãos, seria apenas repetição. Os dias em que as temporadas se passam são escolhidos a dedo e elas duram exatamente a jornada de trabalho da equipe.

A premissa é simples. Acompanhamos o cotidiano de plantonistas em um grande hospital de Pittsburgh, onde cada turno parece condensar uma sucessão de crises que não respeitam ritmo narrativo tradicional. A série entende que o hospital não é apenas cenário, mas um personagem, com seus próprios fluxos, falhas e improvisos. Ao recusar o glamour habitual dos dramas médicos, opta por um retrato mais funcional, quase burocrático, da emergência. É justamente dessa fricção entre rotina e caos que surge sua força. Há uma brincadeira no título: o “Pitt” faz referência à cidade, que é o nome do hospital, mas também a um poço (em inglês), algo que atrai e retém que chega a ele, como se todos ali estivessem presos.

No centro desse sistema está Noah Wyle, o Dr. Robby, liderando o elenco com uma presença que dispensa gestos grandiosos. Há um peso acumulado em sua atuação, algo que remete diretamente ao histórico do ator em ER (a boa e velha série Plantão Médico), mas sem depender dele. Wyle constrói um personagem falho, que não faz esforço pelo protagonismo, mas o assume naturalmente pela responsabilidade de ser o médico encarregado. Ao redor, o elenco funciona como um conjunto afinado, onde os destaques surgem menos por explosões individuais e mais pela capacidade de sustentar o ritmo coletivo. Cada um tem o seu momento, e o público escolhe seus favoritos.

Uma das escolhas mais restritivas, e mais eficazes, da série é manter o olhar quase exclusivamente dentro do hospital. Pouco sabemos da vida pessoal desses personagens fora dali (com raras exceções, como a participação de Brad “Chucky” Dourif), e ainda assim nos importamos com cada um deles. Não há subtramas expansivas, nem tentativas de compensar a falta de contexto com exposição fácil ou diálogos didáticos. O envolvimento nasce do acúmulo de decisões sob pressão, dos silêncios entre atendimentos e da maneira como pequenas escolhas revelam caráter. Um ponto negativo é a excelência constante de todos, que parecem gênios da medicina, incluindo os estudantes e residentes, que sempre têm as respostas e diagnósticos prontos na ponta da língua.

Os pacientes, por sua vez, deixam de ser apenas motores episódicos e passam a integrar o tecido dramático da série, alguns permanecendo por vários episódios. Cada caso carrega um peso próprio, não necessariamente por sua gravidade clínica, mas pelo que provoca na equipe. Há uma inteligência na forma como esses encontros são escritos: sem recorrer a sentimentalismo evidente, a série encontra espaço para construir histórias que começam e terminam em poucos minutos, mas deixam marcas duradouras tanto nos personagens quanto no espectador.

Com o encerramento da segunda temporada, fica claro que The Pitt ainda não atingiu seu limite. Se há uma expectativa para o terceiro ano, ela não vem de ganchos artificiais ou reviravoltas calculadas, mas da confiança de que a série continuará explorando esse equilíbrio delicado entre rotina e urgência. Em um gênero acostumado a inflar suas próprias fórmulas, sua maior qualidade talvez seja justamente saber aonde não ir.

A primeira temporada ganhou cinco Emmys, incluindo Melhor Drama

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Novo documentário de McCartney foca nos Wings

Tanto já foi falado sobre os Beatles que parece que não falta nada. Tudo já foi coberto. No entanto, Paul McCartney: Homem em Fuga (Paul McCartney: Man on the Run, 2025) mostra que ainda havia o que cobrir. O documentário, disponível no Amazon Prime Video, resgata um pouco da história de Paul para narrar a formação e as versões dos Wings. E deixa uma coisa muito clara: não foi ele quem acabou com os Beatles, ao contrário do que muitos têm pensado esses anos todos.

Numa mistura de imagens e vídeos de época e uma narração atual do próprio Paul, também creditado como produtor executivo, o experiente e premiado diretor Morgan Neville (de Lorne e 1975: O Ano do Colapso) nos leva pelos anos que sucederam o fim dos Beatles. O músico conta que se sentiu perdido, já que a banda tinha sido sua vida desde que saiu da escola. Dá para sentir muita sinceridade nos relatos, inclusive nos detalhes mais espinhosos, como o fato dele ter se visto obrigado a processar os colegas para conseguir encerrar legalmente a banda.

Nada mais natural, para Paul, que pensar em uma nova banda. Afinal, ele ficou sem rumo sem o apoio dos colegas e chegou até a pensar que não seria capaz de compor novamente. Após algumas empreitadas solo, reuniu um grupo de músicos excelentes e começou a se testar com os Wings. Para isso, precisava ter ao seu lado a pessoa que lhe era mais importante: Linda, sua esposa. Esse é um ponto que merece atenção no documentário, já que Linda era extremamente criticada à época. Paul deixa muito claro que o apoio da esposa foi essencial para a continuidade de sua carreira musical.

Assim como o casal McCartney, Denny Laine fez parte dos Wings pelos dez anos em que eles atuaram. Membro fundador da The Moody Blues, Laine ficou próximo de Paul e seguiu com eles até o final, inclusive participando de discos solo após. O documentário aproveita para apresentar outros músicos que fizeram parte do grupo, atestando a importância que Paul sempre deu a eles, nunca aceitando que dissessem se tratar da “banda de Paul McCartney”. Eram todos Wings. A relação entre McCartney e Lennon também ganha uns minutos, mostrando como os amigos de infância reataram a amizade, abalada durante algum tempo, e o impacto que o assassinato de um teve no outro.

A estreia de Homem em Fuga (uma brincadeira com a famosa canção Band on the Run) coincide com outros lançamentos dos Wings: uma caixa com um álbum duplo, um livreto e diversas fotos raras; e um livro contando toda a história. Também é imperdível a trilha sonora do documentário, trazendo apenas faixas pós Beatles, com demos, versões alternativas e o primeiro lançamento oficial de Gotta Sing Gotta Dance, música do especial para a TV de Paul.

Paul e Linda isolados na fazenda na Escócia

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Sam Rockwell e voluntários lutam contra a IA

Há um certo risco calculado em tentar fazer humor com um tema que, na prática, já deixou de ser especulativo. Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don’t Die, 2025) chega aos cinemas como uma comédia de ficção científica que olha diretamente para o avanço da inteligência artificial, mas evita o tom alarmista mais comum. Projetando dois futuros, o filme começa um pouco à frente do nosso presente, com a tecnologia mais evoluída que a nossa, mas ainda passível de ajustes de segurança antes que saia do controle.

Desse futuro excessivamente tecnológico e apocalíptico teoricamente vem Sam Rockwell, em um papel que tira proveito de sua habilidade de oscilar entre o cômico e o levemente psicótico. Rockwell sustenta a narrativa com uma naturalidade que impede o filme de se perder em suas próprias ideias, nos mantendo no escuro sobre a possibilidade daquele sujeito realmente vir do futuro, enquanto o elenco ao redor funciona como um conjunto bem escolhido, mais interessado em servir ao ritmo da história do que em disputar atenção. Há uma dinâmica que privilegia o coletivo, algo nem sempre comum em produções com nomes famosos. Destaque para Haley Lu Richardson (revelada em À Beira dos Dezessete, 2016), o casal vivido por Michael Peña e Zazie Beetz e Juno Temple, que volta na quarta temporada de Ted Lasso.

O longa nos apresenta a um homem esquisito, levando o que ele alega ser uma bomba, que entra em uma lanchonete e anuncia: ele vem do futuro e precisa da ajuda de alguns escolhidos. Tudo em torno dele permanece um mistério e, aos poucos, vamos entendendo o quadro. O roteiro evita grandes reviravoltas e aposta em um desenvolvimento progressivo, deixando que o estranhamento surja pela lógica das situações, e logo nos pegamos torcendo por aquele grupo improvável.

Temos aqui um certo retorno. Depois de uma pausa de quase dez anos, quando dirigiu o pouco valorizado A Cura (A Cure for Wellness, 2016), Gore Verbinski consegue imprimir seu estilo, mesmo mantendo uma direção menos exibicionista do que em trabalhos anteriores. O roteiro de Matthew Robinson (criador de A Invenção da Mentira, 2009) contribui para isso ao manter a história dentro de limites claros, sem ceder à tentação de explicar demais ou de transformar cada ideia em um conceito grandioso.

O que sustenta o filme, no entanto, é a forma como ele lida com um tema inevitavelmente sério. A inteligência artificial surge não como uma ameaça imediata, mas como uma presença que se infiltra no cotidiano com uma familiaridade desconfortável. O humor funciona justamente por não forçar a piada: ele nasce da situação, do reconhecimento de comportamentos e da percepção de que o absurdo talvez não esteja tão distante assim. Há uma ironia constante, e contida, que evita tanto a banalização quanto o didatismo.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra não pretende oferecer respostas ou grandes advertências. Seu interesse parece mais modesto (e talvez mais eficaz) ao registrar um momento de transição em que o controle ainda parece humano, mas já começa a escapar das nossas mãos. É um filme que observa mais do que afirma, conduzido por um ator em sintonia com esse tom e por um diretor que volta a demonstrar precisão. Não reinventa o gênero, mas encontra um espaço próprio ao tratar o inevitável com uma dose de cautela e um humor que nunca perde de vista o desconforto.

Diretor e elenco fazem graça no lançamento em Berlim

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Glen Powell escreve o Manual Prático da Vingança Lucrativa

É possível achar na internet comentários sobre como Hollywood tenta enfiar Glen Powell goela abaixo do público. A bilheteria de O Sobrevivente (The Running Man, 2025) ficou bem abaixo do esperado e deu prejuízo. O outro filme estrelado pelo ator recentemente mal foi comentado, pode-se dizer que ninguém ouviu falar. Outro fracasso de bilheteria. No entanto, ao contrário da fraca adaptação de Stephen King, Manual Prático da Vingança Lucrativa (How to Make a Killing, 2026) é bem amarrado e divertido, e merece ser notado.

Powell é uma figura simpática cujos personagens invariavelmente têm pequenas falhas de caráter que são facilmente desculpadas. Você olha para ele em Todos Menos Você (2023) e pensa: é um safado mulherengo, mas tem um bom coração. Ou em Twisters (2024) e pensa: é um aproveitador ambicioso… Mas tem um bom coração. E assim em diante. Em Manual Prático, acompanhamos os percalços pelos quais a mãe dele passa, e ele próprio também,e logo desculpamos alguns assassinatos. Basta ele sorrir.

Conhecemos Beckett Redfellow no corredor da morte, esperando pela execução. Ele começa a contar sua história para o padre que o visita e descobrimos que ele é o herdeiro de uma família bilhardária, mas o patriarca (Ed Harris) deserda a mãe do rapaz logo que ela fica grávida. Aí, a jovem mimada é forçada a dar seus pulos e logo chegamos ao presente, com Beckett adulto pensando em como faria para herdar o que é dele por direito.

O que se segue é um filme que mescla bem uma trama de crimes planejados e humor, mantendo tudo leve, ligeiramente exagerado. Escrita por John Patton Ford, a história é inspirada em uma comédia de humor negro britânica de 1949, As Oito Vítimas (Kind Hearts and Coronets), que tinha Sir Alec “Obi-Wan” Guiness vivendo todos os parentes. Atualizando o cenário, Ford foca sua crítica nos ricos que vivem no luxo não gerando nada para a sociedade, apenas esbanjando em vidas vazias. E sobra espaço para uma pequena espetada nesses pastores midiáticos que arrecadam milhões pregando.

Ford passou por um longo martírio para conseguir realizar seu primeiro filme, o elogiado Emily, A Criminosa (Emily the Criminal, 2022), e aqui não foi diferente. O elenco mudou bastante, com a saída de Shia Lebouf e Mel Gibson, e até o título original, Rothchild, foi alterado para Huntington até chegar ao final. Ford, antes apenas roteirista, acabou assumindo a direção e conseguiu realizar seu projeto que vinha tentando desde 2014.

Além de Powell, o projeto conseguiu outros nomes interessantes para o elenco. Ed Harris faz uma participação rápida, mas impactante, como o avô de Beckett. O sumido Topher Grace, de That 70’s Show, aparece, e Jessica Henwick e Bill Camp têm papéis mais relevantes. Quem chama a atenção, no entanto, é Margaret Qualley (acima), que desde A Substância (The Substance, 2024) rouba a cena sempre que está nela. Todos estão muito bem em seus papéis e funcionam juntos. Se o nome de Powell não é o suficiente para te atrair a assistir, escolha um desses outros.

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Demolidor renasce no MCU

Depois de três elogiadas temporadas produzidas para a Netflix, a série do Demolidor foi inexplicavelmente cancelada. Fãs no mundo todo ficaram chateados e acabaram sendo responsáveis por um dos grandes momentos nos cinemas que exibiam Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (Spider-Man: No Way Home, 2021): aplaudiram de pé quando o atribulado Peter Parker contrata um certo advogado cego para representá-lo. Ali, ficou comprovado que o Demolidor de Charlie Cox voltaria a atacar.

E o título da nova série não poderia ser mais simbólico: Demolidor: Renascido (Daredevil: Born Again), mas a história infelizmente passa longe da saga homônima dos quadrinhos de Frank Miller e David Mazzucchelli. Ainda assim, teve uma bela primeira temporada, de nove episódios, e chega agora à segunda, mais uma vez exibida pelo Disney+.

Matt Murdock (Cox) ficou um ano sem desempenhar suas atividades de vigilante após um evento traumático, seguindo como advogado. Ao ver seu grande rival, o milionário Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), se tornar o prefeito de Nova York, ele jura que o acompanhará de perto, para pegar qualquer deslize. Isso logo acontece e temos Murdock de volta ao consagrado uniforme – agora, mais escuro.

A segunda temporada começa com a caça da equipe antivigilantes de Fisk quente, procurando pelo Demolidor, enquanto outros foram capturados e não têm direito a um julgamento, visitas ou qualquer direito humano. Basicamente como acontecia na Ditadura brasileira, ou com o ICE norte-americano de hoje: um time acima da lei, que pode tudo. A crítica a práticas ditatoriais/fascistas é bem clara, direcionada a Trumps, Bolsonaros, Len Pens, Mileis, Netanyahus, Orbáns e outros filhotes de Hitler por aí. Fisk faz parte desse grupo.

Ajudam a engrossar o caldo coadjuvantes interessantes, como o ambicioso Daniel Blake (Michael Gandolfini) e a dúbia psicóloga Heather Glenn (Margarita Levieva), e até participações especiais, como o Justiceiro de Jon Bernthal na primeira e, na segunda, Matthew Lillard (acima) e Lili Taylor, além de uma heroína já conhecida da Netflix. Personagens menos conhecidos do Universo Marvel, como o Tigre Branco (Kamar de los Reyes) e o Espadachim (Tony Dalton), surgem como piscadelas aos fãs das HQs, além do consagrado Mercenário de Wilson Bethel.

Intrigas políticas, cenas bem coreografadas de lutas e o risco real que os personagens correm de morrer tornam as coisas mais divertidas. A temporada dois está apenas começando e deve reservar mais surpresas ao longo de seus oito episódios. O novo showrunner, Dario Scardapane, e os principais diretores dos episódios, Justin Benson e Aaron Moorehead, conhecem o MCU o suficiente para manter a atração atrativa para os fãs e os não iniciados.

D’Onofrio, Levieva e Cox lançaram a nova temporada em evento em Nova York

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