Robert Eggers surpreende novamente com O Farol

por Marcelo Seabra

Depois do sucesso atingido com A Bruxa (The Witch, 2015), qualquer passo de Robert Eggers seria ansiosamente esperado. E o novo trabalho do diretor e roteirista não decepciona: O Farol (The Lighthouse, 2019) causa tanto estranhamento quanto o longa anterior, talvez até mais. Permeado por influências claras de grandes autores e de mitos gregos, ele ainda conta com duas ótimas atuações para assombrar seu público.

Escrito em parceria com o irmão, Max, Robert nos apresenta a dois zeladores que chegam a uma ilha na Nova Inglaterra para cuidarem de um farol no meio do nada. Eles só têm um ao outro até o dia marcado para a volta do barco que os levará embora. O isolamento, ainda mais em meio a tempestades homéricas, lembra O Iluminado (The Shining, 1980), mas Stephen King não é uma influência aqui. A ideia parte de um conto inacabado de Edgar Allan Poe, mas os Eggers acabaram se afastando do escritor para se aproximarem de H.P. Lovecraft.

Pesadelo é uma boa palavra para descrever O Farol. A belíssima fotografia em preto e branco de Jarin Blaschke (de Shimmer Lake, 2017, e também de A Bruxa) acentua as sombras e aumenta o clima de tensão que surge da relação entre os dois sujeitos. Temos um zelador mais velho e experiente, que atua como chefe; e outro mais novo, que optou pela vaga para mudar de ares e acaba se ocupando das tarefas domésticas, longe do farol propriamente dito. Rapidamente, entrar lá se torna uma obsessão para ele e mais um motivo de atrito entre os dois. E a crescente tensão é inclusive sexual, mas não no sentido erótico: é mais uma disputa de quem manda naquele enorme símbolo fálico, numa metáfora para uma masculinidade frágil.

Ator que dispensa apresentações, Willem Dafoe (de Aquaman, 2018) é uma atração à parte. Seu personagem se alterna entre o profissional exemplar e o alcoólatra irritante, arrumando confusão por qualquer coisa. E sobra para Robert Pattinson (de Bom Comportamento, 2017) aguentá-lo. Ambos se mostraram bem ágeis nos diálogos, usando termos apropriados para a época e para o mar, onde o veterano tem experiência. E o público não demora a se perder, não sabendo o que é realidade e o que pode estar apenas dentro da cabeça deles, o que leva a uma conclusão nada conclusiva.

Como fez em A Bruxa, Eggers parece entregar uma obra fechada, mas te permite interpretar na direção que achar melhor. Vários elementos são usados na costura, dos autores citados ao mito de Prometeu, mais óbvio. Quem gosta de tudo mastigado pode ficar frustrado. Mas, independentemente de qualquer problema encontrado, Dafoe e Pattison sem dúvida valem o ingresso, e têm suas atuações reforçadas pelas belas cenas criadas por Blaschke, merecidamente indicado ao Oscar e a tantos outros prêmios.

O diretor apresenta seu elenco em trajes contemporâneos

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Sam Mendes mira prêmios com 1917

por Marcelo Seabra

Volta e meia, nos deparamos com uma ameaça mais séria de guerra no planeta. Para algumas nações, isso é uma realidade constante, ainda que localmente. Por isso, é importante que o Cinema nos lembre frequentemente dos horrores que já vivemos. Agora, foi a vez do premiado Sam Mendes contar uma história da Primeira Guerra, e o filme acumula mais de 150 indicações a prêmios! 1917 (2019) já chega aos cinemas nacionais comemorando uma arrecadação fantástica pelo mundo.

Com um roteiro aparentemente simples, escrito com sua parceira de Penny Dreadful, Krysty Wilson-Cairns, Mendes tinha uma visão desde o início: o filme seria feito com uma só tomada contínua. O avô do diretor serviu na Guerra como mensageiro e sua função era salvar vidas correndo por terrenos perigosos. Essas histórias deram origem a 1917, longa enxuto em seus 119 minutos que deve seu sucesso também a outro grande nome: Roger Deakins (de Blade Runner 2049, 2017). Foi o lendário diretor de fotografia que ajudou a esconder os cortes e dar a impressão de continuidade.

Não é a primeira vez que somos enganados com esse truque no Cinema. Hitchcock lançou Festim Diabólico (Rope) em 1948 usando uma saída simples: ele fazia seus cortes filmando telas pretas, de onde poderia continuar depois sem ser percebido. Outros usaram recurso parecido, como Birdman (2014), mas Deakins teve outra carta na manga: uma nova tecnologia que permite parar e continuar sem que se perceba a pausa – e nem por isso foi fácil. É importante ressaltar que não se trata apenas de um artifício curioso, um motivo para chamar público. O resultado dá um senso de urgência enorme, passamos pelos apertos vividos pelos personagens junto com eles.

Apesar de um currículo respeitável, os dois protagonistas não são muito conhecidos, tendo feito em sua maioria participações pequenas. Dean-Charles Chapman (acima, à esquerda) era o cantor vizinho do fã de Springsteen em A Música da Minha Vida (Blinded By The Light, 2019), além de ter encarnado o Príncipe Tommen em Game of Thrones. E George McKay (acima, à direita) deve ser reconhecido como o filho mais velho de Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016), além de Orgulho e Esperança (Pride, 2014). Os dois vivem os cabos que precisam atravessar um campo inimigo para levar uma mensagem a outro pelotão inglês.

Chapman e McKay são expressivos na medida certa, deixando transparecer medo e inexperiência, apesar da postura de durões. Pelo fato de todos os envolvidos serem ingleses (fora os inimigos alemães, claro!), temos participações especiais bem interessantes (alguém falou em O Espião Que Sabia Demais?). O trailer estraga a surpresa de algumas, outras prevalecem. Uma infinidade de figurantes completa o elenco, ajudando a recriar a guerra. Deakins aproveita para realizar tomadas de tirar lágrimas dos olhos. Em meio a mortes e lama, há espaço para poesia, o que potencializa o aperto sentido em certos momentos.

Provável vencedor do Oscar de Melhor Filme, com outras nove indicações, 1917 é de fato uma obra muito bonita e pode trazer o segundo prêmio da Academia a Mendes, Melhor Diretor por Beleza Americana (American Beauty, 1999). O montador, Lee Smith, levou a estatueta do careca por nada menos que Dunkirk (2017), outra obra-prima. A trilha discreta de Thomas Newman (de Estrada Sem Lei, 2019) completa o quadro. Com tantos talentos reunidos, não é de se surpreender o resultado. E nem tanto reconhecimento.

Mendes dirige das trincheiras

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Ótimas atrizes são o destaque de O Escândalo

por Marcelo Seabra

Sororidade é um termo que vem do latim e define a importância de mulheres se unirem para serem ouvidas. Vivemos em um mundo machista e, muitas vezes, os piores espécimes masculinos estão em posição de liderança. Por isso, para terem os mesmos direitos e oportunidades, as mulheres deveriam se unir. Este é um dos pontos centrais tratados em O Escândalo (Bombshell, 2019), longa já em cartaz em reconta os fatos ligados ao processo entre funcionárias e o todo-poderoso executivo do canal Fox News.

Roger Ailes foi incumbido pelo dono do império Fox, Rupert Murdoch, de tocar o canal de notícias e, numa análise fria e objetiva, foi muito bem-sucedido. Aumentou em várias vezes a audiência, a fama e o valor de mercado do canal. Mas a que preço? De que forma? É isso que o diretor Jay Roach e o roteirista Charles Randolph escancaram. Ambos tinham experiência em filmes sobre a realidade escandalosa em que vivemos. Roach assinou, entre outros, Recontagem (2008), Virada no Jogo (2012), Os Candidatos (2012) e Trumbo (2015), e Randolph levou o Oscar por escrever A Grande Aposta (2015).

Contando com um elenco dos sonhos, Roach refaz a equipe do Fox News de 2016 e nos leva para dentro das articulações do Partido Republicano antes da eleição que iria colocar Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Charlize Theron (de Atômica, 2017) vive a âncora do canal destacada para mediar o evento, Megyn Kelly. A história de Kelly é uma das três seguidas pelo filme, que também nos apresenta a Gretchen Carlson (Nicole Kidman, de O Pintassilgo, 2019) e Kayla Pospisil (Margot Robbie, de Era Uma Vez em… Hollywood, 2019). O que elas têm em comum, além de trabalharem na mesma empresa? O assédio de Ailes (John Lithgow, de Cemitério Maldito, 2019).

As três atrizes realizam performances impecáveis, complementadas pelo sempre ótimo Lithgow (abaixo). Entre elas não há muitas cenas, mas todas têm embates com ele, o chefão que busca mulheres lindas, com belas e compridas pernas, para colocar no ar. Ailes acreditava que isso chamaria público – mesmo com os homens que assistem ao canal se declarando conservadores, de família, os tais cidadãos de bem. E ele não estava de todo errado, já que a audiência do Fox News cresceu muito sob a gestão dele. A hipocrisia pode ser encontrada no mundo todo.

Com uma montagem ágil, o longa alterna sua atenção entre elas. O roteiro não se importa tanto com as personagens, mas com os fatos ligados à questão do assédio. Nesse ponto, é importante ressaltar a batalha entre Kelly e o contumaz misógino Trump, que direcionou sua base de fãs para infernizar a jornalista. Mais ou menos o que acontece com a família presidencial brasileira e seus desafetos. Além do elenco principal, temos um desfile de gente competente em papéis secundários, como Allison Janney, Kate McKinnon, Connie Britton, Stephen Root, Mark Duplass, Malcolm McDowell e Brigette Lundy-Paine, estrela da série Atypical.

Ailes e Trump são os grandes vilões dentre gente da pior espécie, como são os empregados do Fox News. É triste observar que não havia qualquer tipo de união entre as lindas colegas de trabalho, cada uma muito preocupada com sua própria carreira. Era um olho em si e o outro na concorrência – como no momento em que Carlson vai à sala de Ailes e fica com uma pulga atrás da orelha sobre a presença de Pospisil. Mesmo passando por situações humilhantes, elas só se preocupavam em crescer, defendendo enquanto isso todo tipo de ponto de vista ultrapassado, antiquado, que reforça exatamente o machismo do qual eram vítimas.

Roach e elenco prestigiaram o lançamento do longa

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Richard Jewell é mais um herói de Eastwood

por Marcelo Seabra

Não é de hoje que Clint Eastwood opta por filmar histórias reais, principalmente de personagens que ele considera heróis da pátria. Se forem injustiçados, então, é um prato cheio. Foi assim com Sully (2016), biografia do piloto que realizou um pouso milagroso para depois ser atacado de todos os lados. E é assim com O Caso Richard Jewell (Richard Jewell, 2019), sobre um outro episódio que ganhou as manchetes há alguns anos. É mais um sujeito cuja saga Eastwood se sentiu compelido a contar.

É importante deixar claro que Eastwood, apesar de muito experiente e de ter obras-primas em seu currículo, não é infalível. Com o Sniper Americano (American Sniper, 2014), o diretor entregou um trabalho tecnicamente impecável, mas altamente discutível ao colocar um psicopata como o modelo do soldado americano. E o mais recente 15h17: Trem Para Paris (15:17 to Paris, 2018) tem ainda mais problemas, a começar por ser chato e enrolar bastante para chegar ao ponto que interessa. A boa notícia é que Jewell não se aproxima desses exemplos negativos. A má é que o longa ainda está longe do brilhantismo de um Gran Torino (2008), ou Sobre Meninos e Lobos (2003), ou Os Imperdoáveis (1992), ou…

Quando o longa começa, conhecemos um sujeito que claramente tem um déficit intelectual. Richard (Paul Walter Hauser, de Infiltrado na Klan, 2017) é totalmente dependente da mãe (Kathy Bates, de Estrada Sem Lei, 2019), que o trata como uma criança, e ele tem uma ideia fixa de ser policial. Sua total falta de jogo de cintura faz com que siga regras ou ordens à risca, o que obviamente lhe trará muitos problemas. Pulando entre empregos, ele consegue uma vaga como um dos muitos seguranças nos Jogos Olímpicos de 1996.

Uma mochila deixada próxima da multidão chama a atenção de Richard, que logo mobiliza a todos para investigarem o objeto. Seu instinto se prova correto: era uma bomba. Após salvar dezenas de vidas, Richard vira celebridade e chama a atenção do FBI. Sem ninguém melhor para incriminar, os agentes passam a investigar o sujeito como se ele próprio houvesse colocado a bomba apenas para virar herói. Para jornalistas atrás de um furo, o personagem Richard Jewell é um prato cheio, e a mídia trata de expô-lo ao máximo.

Com essas duas críticas claras, às autoridades e à mídia, Eastwood constrói um bom filme, mas pesa a mão um tanto ao vilanizar os dois personagens criticados. Jon Hamm, o eterno Don Draper de Mad Men, tenta sair das armadilhas do roteiro, dando alguma simpatia a seu agente do FBI, mas o resultado se alterna entre burro e incompetente. E as coisas ficam ainda piores para a jornalista vivida por Olivia Wilde (da série Vinyl – acima), que representa a escória da profissão. Muitos podem argumentar que há uma forte dose de machismo na construção do roteirista Billy Ray (do mais recente Exterminador do Futuro).

No papel-título, a composição de Hauser é impecável e ele vai, pouco a pouco, gravando seu nome na cabeça do público. Bates como sempre é um espetáculo, merecidamente indicada a diversos prêmios. O vencedor do Oscar Sam Rockwell (por Três Anúncios para um Crime, 2017) tem sucesso ao mudar o tom de seu personagem, um advogado que aparece como um almofadinha e acaba se tornando alguém melhor. Aos mocinhos, cabe uma missão mais fácil, até mais agradável, que a Hamm e Wilde.

Com uma montagem ágil, O Caso Richard Jewell apresenta uma boa reconstituição dos fatos e consegue inserir doses de humor em um assunto pesado. Mesmo passando de duas horas de exibição, não fica cansativo, e demora pouco para começarmos a torcer por Jewell. Num primeiro momento um bobão, ele transparece uma pureza que faz com que o vejamos como a mãe o faz: como uma criança. E sentimos sua frustração e seu desespero em sua jornada para se provar inocente.

Estes são os personagens reais desse drama

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Paulo Gustavo fecha a trilogia de Dona Hermínia

por Marcelo Seabra

Tendo levado milhões aos cinemas e arrecadado o suficiente para estacionar no primeiro lugar das bilheterias nacionais, Dona Hermínia é um inegável fenômeno. O que não fica claro é o porquê. Minha Mãe É Uma Peça 3 (2019) está em cartaz em trocentas salas, com diversas sessões esgotadas, e continua no lugar-comum das comédias padrão Globo Filmes.

Em 2013, Paulo Gustavo levou sua peça de sucesso à tela grande e usou todo o material que tinha. Alguns momentos realmente engraçados se alternavam com comentários espirituosos, evitando repetir preconceitos numa comédia para todos os públicos. Tamanho foi o sucesso que o comediante teve que correr e produzir outro episódio, e a falta de conteúdo ficou muito clara. Com todo o estoque de piadas gasto no primeiro, só sobrou gritaria e palavrões. O segundo filme não tem sequer um bom momento, com situações requentadas e clichês mal amarrados.

Inspirado por sua mãe e sua própria vida, Paulo Gustavo criou a Dona Hermínia, mãe de três que dispara milhares de palavras por segundos. Ela faz observações sarcásticas sobre tudo e todos, em meio a um cotidiano de dona de casa que não tem de fato nada para fazer, já que o trabalho doméstico fica por conta da empregada. A ela, sobra fazer compras no supermercado, sair com as amigas da terceira idade, arrumar confusão com o ex-marido e atazanar os filhos.

Além do filho mais velho, que mora em outro estado e pai de seu único neto, Hermínia tem outros dois que moravam com ela. Nessa terceira parte, tanto Marcelina (Mariana Xavier) quanto Juliano (Rodrigo Pandolfo) já estão se arrumando na vida, cada um em sua casa, e a mãe fica esperando o telefone tocar para ter a oportunidade de se meter nas vidas deles. Com uma grávida e o outro se casando, é um prato cheio para ela.

Com longas tomadas pelo Rio de Janeiro, o filme tem trechos que parecem mais clipes da prefeitura da cidade. E, falando em clipes, as músicas usadas causam momentos constrangedores, com as personagens cantando sem razão. Piadinhas internas não faltam, como as que envolvem o filme Minha Vida em Marte (2018) e o ator Herson Capri, o Carlos Alberto da história. As boas intenções são visíveis, mas resultam em barras forçadas e mais constrangimento. No entanto, as risadas rolam soltas na sessão, bastando a protagonista gritar “Marcelina!” para todos desabarem em risos. Quando ela resolve dar um apelido, então, ouvimos a mesma coisa seis vezes seguidas e todos riem nas seis.

Como há uma série com a Dona Hermínia em desenvolvimento, dá para apostar que uma trilogia foi o suficiente no Cinema. Na televisão, só Deus sabe onde isso vai parar. O lado bom é saber que Paulo Gustavo se sai bem melhor na telinha, em quadros curtos. As chances de um melhor resultado aumentam. O ator e roteirista tem carisma de sobra para gastar e certamente terá vida longa no mundo artístico. Dona Déa Lúcia, a mãe dele, parece mesmo ser uma peça, como vemos nas cenas reservadas ao final. Mas, como personagem de Cinema, já passou da conta faz tempo.

Este é, de longe, o pior momento do filme

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Kursk traz mais uma tragédia real

por Marcelo Seabra

Invariavelmente, as tragédias do mundo são marcadas pela incompetência e pela arrogância humanas. Foi assim com Chernobyl, é assim na devastação atual na Austrália. Outro desses episódios acaba de chegar aos cinemas: Kursk – A Última Missão (2018) narra o acontecido com o submarino russo em 2000. O fato é recente, mas muitos podem não conhecer os pormenores, assim como o final. Por isso, a tensão tende a aumentar à medida em que o oxigênio dos marinheiros diminui.

O elogiado diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, do ótimo A Caça (Jagten, 2012), partiu do livro de Robert Moore, com roteiro de Robert Rodat (de O Resgate do Soldado Ryan, 1998) e do próprio Moore. O best-seller detalha tudo que foi descoberto nas investigações subsequentes ao naufrágio, e fica por conta dos roteiristas imaginar muito do que teria acontecido, lá embaixo e na superfície. Muitos países se envolveram, tentando diminuir o tamanho da tragédia, o que envolveu muita política no episódio. Mas não estranhe ouvir todos falando inglês, como é comum em produções que buscam aceitação pelo mundo.

Conduzindo o espectador pela trama, temos o personagem de Matthias Schoenaerts – que trabalhou com Vinterberg em Longe Deste Insensato Mundo (Far From the Madding Crowd, 2015). Mikhail Averin é admirado e respeitado pelos colegas, e conhecemos uma boa parte deles em um casamento. Dessa forma, o filme traz um pouco de profundidade a cada um deles, mesmo que não dê tempo para mostrar muito. Quando embarcam, já conhecemos o suficiente para torcer por eles, além de sabermos que tudo se trata de uma história real. Como é costume em filmes-catástrofe (um exemplo é o recente Horizonte Profundo, 2016), ficamos na expectativa pelo que já sabemos e pelo desenrolar.

E quem fica em terra também é importante. Como disse o produtor Luc Besson em entrevistas, a ideia era valorizar o lado humano da história. Se a tentativa de fazer sentimentalismo barato com closes na cara do filho de três anos desanima, a participação da esposa torna as coisas mais interessantes. A Léa Seydoux (de Spectre, 2015) não cabe apenas o papel de mocinha chorosa, como vemos por aí. As mulheres que ficaram esperando que seus maridos retornassem foram tratadas com total descaso pelas autoridades da marinha russa, ponto muito importante mostrado. A reunião convocada é um dos grandes momentos de Kursk, mostrando uma mistura de ingenuidade e burrice dos militares de alta patente.

Os outros nomes mais conhecidos do elenco são os de Colin Firth (de Kingsman: O Círculo Dourado, 2017) e do veterano Max von Sydow (de Star Wars: O Despertar da Força, 2015), dois grandes talentos que cumprem bem suas missões. Firth é responsável por um dos momentos mais fortes do longa, enquanto von Sydow personifica alguns dos pecados mencionados acima. Os diálogos entre todos eles são, em sua maioria, bem escritos, evitando exposições desnecessárias. Não importa que não saibamos os detalhes do funcionamento de um submarino, vamos continuar sem saber. Vinterberg mantém as coisas críveis e honra a memória das vítimas, além de deixar claro que autoridades nem sempre sabem o que fazem.

Max von Sydow, o eterno Padre Merrin, marca presença

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Clássico com as irmãs March ganha nova roupagem

por Marcelo Seabra

Já contando com várias adaptações para o Cinema e para a televisão, o livro clássico de Louisa May Alcott ganha nova versão para a telona. Escrito e dirigido por Greta Gerwig, Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019) apresenta a uma nova geração as irmãs March, cada uma com uma personalidade bem distinta. Diferentemente de outros remakes, que chegam sem a menor explicação ou necessidade, esse é um filme que reafirma a força da mulher e o direito delas de escolherem seus destinos.

Em meados do século XIX, quatro irmãs crescem com a mãe, à espera do pai voluntário, e passam por diversas experiências envolvendo a vida doméstica, o trabalho e o amor. Com maior ou menor grau de semelhança entre elas, física e psicológica, as meninas buscam seus caminhos, mesmo que não saibam direito para onde querem ir ou o que fazer. Algumas alterações no original foram feitas para ressaltar o papel da mulher na época e a dificuldade de lutar por seus direitos. Mas o principal está lá: o retrato de vidas até então consideradas pouco importantes, que não costumavam aparecer em publicações.

Tendo celebrado recentemente o sucesso de Lady Bird (2017), Gerwig estava em alta e acabou assumindo também a direção do projeto, além do roteiro. Pensando num primeiro momento em viver a filha principal, Gerwig acabou cedendo aos pedidos da amiga Saoirse Ronan, com quem havia trabalhado em sua estreia na direção, em 2017. Dessa forma, Ronan ficou com o papel de Jo, a mais impetuosa das meninas March, a que sonha em ser independente e se manter escrevendo contos e livros. Katharine Hepburn e Winona Ryder são algumas das atrizes que já encararam essa missão, mas Ronan não fica atrás em talento e força. Indicada ao Oscar três vezes, a jovem tem muita presença de cena.

Como as outras filhas, temos Emma Watson (da franquia Harry Potter e de O Círculo, 2017) como Meg; Florence Pugh (de Midsommar, 2019) como Amy; e Eliza Scanlen (da série Sharp Objects) como Beth, a mais nova e frágil. Amy acaba sendo a que se destaca entre elas, numa ótima composição de Pugh. Ela é a mais tridimensional delas, mostrando várias facetas de um ser humano normal, com momentos de raiva e outros de frustração. A mãe fica por conta de Laura Dern, indicada a prêmios nessa temporada pelo filme do marido de Gerwig, Noah Baumbach: História de Um Casamento (Marriage Story, 2019). Apesar de ter pouco espaço, Dern é sempre ótima. Outro que faz muito com pouco é Chris Cooper (de Sem Proteção, 2012), que rouba cenas como o vizinho rico.

Completando o elenco, temos Timothée Chalamet (também de Lady Bird) como o garoto da casa em frente, que se envolve profundamente com as meninas. Chalamet resolve bem o problema, mesmo que seus personagens não variem muito. Ainda aparecem Bob Odenkirk, Tracy Letts e Louis Garrel, além da irrepreensível Meryl Streep, que consegue passar simpatia para uma tia solteirona cínica e rabugenta. Dá para ver que Gerwig não é boba ao pensar em seus atores, o que deve deixar o trabalho de direção mais focado em outros pontos.

E essa técnica funcionou bem, tudo está bem amarrado. A ótima reconstituição de época é reforçada por uma fotografia linda, responsável por vários momentos marcantes que poderiam ser enquadrados e colocados na parede. E o premiado Alexandre Desplat (de A Forma da Água, 2017) pontua tudo com uma trilha agradável, que vez ou outra aparece com mais destaque, mas tende a se manter discreta. Gerwig acertou mais uma vez – até mais do que no trabalho anterior. E ainda emendou uma dose de metalinguagem, mostrando na prática o que Alcott criticou há dois séculos e permanece atual.

Gerwig apresenta parte de seu elenco num figurino atual

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O melhor do Cinema em 2019

por Marcelo Seabra

O ano de 2019 trouxe coisa boa tanto nos cinemas quanto na TV, com as inevitáveis produções originais Netflix. O serviço de streaming trabalhou com grandes diretores, como Martin Scorsese, e conseguiu elevar seu número de acertos. Os erros sempre foram vários, e continuam sendo. 

Na lista abaixo, confira os dez melhores filmes do ano – basta clicar para ler a crítica completa.

E obrigado por acompanhar O Pipoqueiro por mais um ano!

10- Meu Nome É Dolemite

09- Vice

08- Rocketman

07- Ford vs Ferrari

06- A Vida Invisível

05- Democracia em Vertigem

04- Bacurau

03- Coringa

02- Parasita

01- O Irlandês

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Repescagem 2019: 3/3

por Marcelo Seabra

Nós (Us, 2019)

Muito elogiado por Corra (Get Out, 2017), Jordan Peele criou outro longa de suspense bem elaborado. Sem a carga de crítica ao racismo do anterior, Nós parte logo para a tensão. Uma família vai passar as usuais férias na praia quando descobre que pessoas idênticas a eles vão atrapalhar os planos de tranquilidade. Ao elenco, liderado por Lupita Nyong’o, cabe a difícil missão de interpretar duas versões do mesmo personagem. Mais complicado é comprar a ideia, bem sem pé nem cabeça. Entrando na brincadeira, dá para roer todas as unhas da mão.

Os 3 Infernais (3 From Hell, 2019)

Depois de A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados Pelo Diabo, Rob Zombie havia seguido com a vida e outros projetos. Quase 15 anos depois, o sujeito volta ao clã Firefly para nos contar o que houve com seus personagens dementes. As chances de quem gostou antes gostar agora são grandes, mesmo que este Os 3 Infernais não chegue a lugar nenhum. Um road movie que reencena Horas de Desespero e, em meio a tiros e mortes, nos leva a um final esperado e morno.

Esquadrão 6 (6 Underground, 2019)

As redes sociais ficaram em polvorosa com a estreia na Netflix do novo filme do diretor Michael Bay e a pergunta que fica é: por que? Ele até consegue entregar obras razoáveis, mas a tentação de usar um roteiro ridículo e cortes de cinco segundos é maior. Esquadrão 6 começa sem nexo e, aos 10 minutos de exibição, o espectador já está enjoado e cansado. Chegar ao final é um exercício de paciência que nem o elenco interessante atenua. Ryan Reynolds não acerta um tom para seguir, os demais atores parecem meio perdidos e ninguém acredita nos diálogos que dizem. Mal dá para acreditar que Bay queimou 150 milhões de dólares para isso.

American Son (2019)

Outra bola fora da Netflix, diretamente da Broadway, American Son é mais um trabalho do diretor Kenny Leon a trazer questões relacionadas a racismo. Aqui, Leon prova dois pontos: não se pode acertar sempre; e é possível tratar de um assunto muito sério e errar o alvo. O que começa com uma proposta interessante de discutir as dificuldades de jovens negros na sociedade logo descamba para uma eterna e improvável DR. Além disso, a história vai trazendo elementos novos que desviam os rumos que haviam sido propostos do início. Fica a impressão de que os envolvidos queriam ampliar a discussão e acabaram se perdendo.

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Repescagem 2019: 2/3

por Marcelo Seabra

Entre Facas e Segredos (Knives Out, 2019)

Responsável por um dos melhores episódios da saga Star Wars, o diretor e roteirista Rian Johnson constrói um mistério divertido em torno de uma família. Entre Facas e Segredos começa com o patriarca morto e todos são suspeitos. Um elenco fantástico, que inclui Daniel Craig, Chris Evans, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Toni Collette e Christopher Plummer, e um roteiro que lembra os melhores momentos da escritora Agatha Christie ainda arruma tempo para dar umas cutucadas em questões de lutas de classes e imigrantes. Bom humor e boas viradas vão te prender até o final.

Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York, 2019)

Mesmo em seus momentos menos inspirados, Woody Allen ainda cria obras com bons momentos e personagens mais profundos do que vemos por aí. Um Dia de Chuva em Nova York traz um protagonista quase intragável, a começar pelo nome pretensioso, Gatsby, e o acompanhamos por um fim de semana sem Sol na cidade favorita do diretor. Timothée Chalamet e Elle Fanning estão ótimos como o casal principal e são rodeados por vários intérpretes competentes, num desfile de nomes famosos. A história é bem despretensiosa e tem seus pontos fracos, mas alguns diálogos afiados podem compensar os buracos.

Durante a Tormenta (Durante la Tormenta, 2018)

O sempre interessante diretor e roteirista espanhol Oriol Paulo, criador de Um Contratempo (2016), volta a atacar com um longa intricado, que torce a cabeça do público. A belíssima Adriana Ugarte é a peça principal de Durante a Tormenta, filme que envolve um fenômeno temporal que permite a pessoas em épocas diferentes conversarem. Todas as pontas soltas se amarram em algum momento e ainda conhecemos Chino Darín, filho de Ricardo, além de vermos um papel diferente de Álvaro Morte, o Professor da série A Casa de Papel.

Klaus (2019)

Bem apropriada para o fim do ano, a animação espanhola Klaus propõe uma possibilidade para a origem do Papai Noel. Tudo começa com a chegada de um herdeiro mimado numa ilha isolada e fria dominada por duas famílias que viviam em guerra. Para tentar resolver seus próprios problemas, o riquinho se aproxima de um veterano recluso que produzia brinquedos. Com técnicas mais manuais, o resultado é bonito, além de cativante. Como a Netflix comprou os direitos de distribuição bem no início da produção, essa é a primeira animação original do serviço de streaming.

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