Cinebio de Divaldo vai além do espiritismo

por Daniela Costa

Chegando aos cinemas essa semana, Divaldo – O Mensageiro da Paz (2019) traz à tona questões polêmicas e curiosas sobre a tão falada doutrina espírita. Contudo, apesar do cunho religioso, é uma obra que diz mais sobre a caridade do que de dogmas. A história de vida de um dos mais conceituados médiuns brasileiros, discípulo do lendário Chico Xavier, é contada pelo diretor e roteirista Clóvis Mello sem a pretensão de ser um documentário ou biografia. E muito menos de santificar a figura do professor baiano.

O longa-metragem mostra de forma leve, até cômica, os percalços enfrentados por um garoto que, desde a infância, é atormentado por visões de pessoas mortas. Fenômeno que ninguém conseguia explicar, especialmente por ele pertencer a uma tradicional família católica. Ironicamente, o espírito obsessor que o persegue até a sua fase adulta e quase o leva ao suicídio é de um padre, interpretado por Marcos Veras (de Tudo Acaba em Festa, 2018). Em contrapartida, Joanna de Ângelis (Regiane Alves, de O Menino no Espelho, 2014), sua guia espiritual, é uma freira.

Algumas cenas mostram o quanto a mediunidade pregava peças em Divaldo e até mesmo o colocava em apuros. Um exemplo é quando a avó materna, já desencarnada, chama do lado de fora da casa e exige que o menino avise a sua mãe, Dona Ana, brilhantemente interpretada pela atriz Laila Garin (de 3%), que ela estava ali para lhe falar. Outra cena o traz em conversa animada com o amigo índio que ninguém conseguia ver.

O elenco conta com belas atuações, com destaque para os três Divaldos: o ator mirim João Bravo, que faz a primeira fase do personagem, com toda a sua inocência e espanto diante dos fatos inexplicáveis; o jovem Ghilherme Lobo (de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014), que o representa em sua juventude, quando inaugura a Mansão do Caminho e arranca boas risadas dos telespectadores; e, por fim, o experiente Bruno Garcia (de O Amor Dá Trabalho, 2019 – abaixo), que mostra a fase adulta do médium, período em que lança o seu primeiro livro psicografado.

O cenário do filme é bem realista, gravado em cidades como Itu, Salto, Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Rio de Janeiro e Salvador. Figurino e maquiagem impecáveis mostram o apuro técnico dispensado à obra. Com produção de Raul Doria e Sidney Girão e apoio da Federação Espírita Brasileira, conta com coprodução dos estúdios FOX, as produtoras CINE e Estação Luz Filmes.  O roteiro, que tem como base o livro Divaldo Franco: A trajetória de um dos maiores médiuns de todos os tempos, da autora Ana Landi, também usa fatos e informações de relatos do médium e de obras espíritas de Joanna de Ângelis.

Indo além das questões religiosas, a trama é um exemplo de como a fé transforma e salva vidas. Em 72 anos dedicados ao próximo, e contando, Divaldo Franco já acolheu e abrigou mais de 40 mil crianças e adolescentes. Ao todo, o médium publicou cerca de 285 livros, com mais de 13 milhões de exemplares traduzidos para 19 idiomas. Todo esse trabalho é mostrado claramente, resultando num filme bem amarrado que faz justiça a uma pessoa que, entre erros e acertos, tem um saldo muito positivo.

Lobo posa com o verdadeiro Divaldo Franco

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Nacional, Personalidades | Com a tag , , , , , , , , , | 8 Comentários

Bacurau traz o melhor do Cinema nacional

por Marcelo Seabra

Quando o barulho promocional começou, parecia se tratar de um longa complexo, hermético. Um dos diretores vinha de obras conceituais, reflexivas. E muito elogiadas. Essa mistura, somada à ótima recepção em festivais, fez com que Bacurau (2019) fosse muito aguardado. Só que ele se mostrou bem diferente do esperado. Uma trama simples, objetiva e bastante carregada politicamente. Mesmo tendo sido pensado há anos, sobre um futuro hipotético, o filme se mostra extrema e tristemente atual.

Kleber Mendonça Filho (de O Som ao Redor, 2012, e Aquarius, 2016) se uniu ao parceiro habitual Juliano Dornelles (de O Ateliê da Rua do Brum, 2016) para fazer algo que ele sabe bem como fazer e que é muito necessário para a época em que vivemos: crítica. Tudo em Bacurau é muito claro e direto, com comentários facilmente extraíveis das cenas e situações vividas pelos personagens. Entrar em detalhes pode atrapalhar a experiência da sessão, mas pode-se adiantar que não há nada encriptado ou de difícil entendimento.

O roteiro, também assinado pela dupla de diretores, nos leva à pequena Bacurau, distrito no interior do Recife que amarga uma falta de água. Um caminhão-pipa resolve precariamente o problema e o prefeito se aproveita para aparecer e fazer promessas eleitoreiras. Acompanhamos as vidas dos moradores do povoado até que cheguem os acontecimentos que mudarão as coisas. Não é necessário relatar mais sobre a trama para que fiquem claras as várias críticas que são feitas à nossa sociedade. A ideia era misturar ficção-científica nesse caldo, mas é triste constatar o tanto que o que vemos se aproxima da realidade.

Um diálogo que particularmente bate com força em quem estiver assistindo é travado em inglês, com a participação de brasileiros. A escolha cuidadosa de cada palavra e a violência que se segue nada deixam a dever a um Tarantino. Se o diretor americano se metesse a filmar no nosso nordeste, certamente o resultado seria próximo. A trilha sonora tampouco deixa a desejar, com seus sintetizadores à John Carpenter causando estranheza e estabelecendo o clima.

Dentre vários talentos pouco conhecidos no elenco, tem-se que destacar a participação de Sônia Braga (de Aquarius). A veterana tem um peso natural em frente às câmeras e faz pouco esforço para brilhar. Outro nome famoso é o de Udo Kier (de Pequena Grande Vida, 2017), igualmente competente. Dentre os menos conhecidos, os destaques ficam por conta de Thomas Aquino (de 3%), Barbara Colen (também de Aquarius) e Silvero Pereira (de Serra Pelada, 2013), nomes a se acompanhar.

A trama de Bacurau não é exatamente inédita. Lembra muito um longa de 93, estrelado por figurão do gênero ação cujo penteado é homenageado aqui. Mas, tecnicamente, tudo funciona, e tem muito valor o comentário social que é feito. Kleber e Juliano seguem extremamente relevantes, conseguindo o difícil feito de fazer um filme divertido e, ao mesmo tempo, essencial a quem tem noção do que está acontecendo no mundo, mais especificamente no Brasil. Tudo indica que nosso futuro é trágico, mas não cairemos sem lutar.

Os diretores (esq.) levaram parte do elenco a Cannes e ganharam o Prêmio do Júri

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Nacional | Com a tag , , , , , , , | 1 Comentário

O Clube dos Otários se reencontra para It 2

por Marcelo Seabra

27 anos depois, eis que Pennywise reaparece! Ao menos, na história, porque demorou apenas dois anos para a chegada da sequência de um dos maiores sucessos recentes do Cinema de terror. It: Capítulo Dois (It Chapter Two, 2019) conclui a história do Clube dos Otários, as crianças do primeiro filme, e cobre o restante do livro de Stephen King. Num total de quase três horas, que aproveita muito da fonte e toma também grandes liberdades.

King, que faz uma ponta no filme, esteve próximo da produção e topa brincar com uma velha piada que fazem com ele: a de que ele frequentemente perde a mão ao escrever os finais de seus livros. No filme, é Bill, já crescido, quem tem essa dificuldade. James McAvoy (o Professor X dos X-Men) assume a tarefa de viver o escritor que lidera o grupo quando se reencontram em Derry.

Todos claramente bem-sucedidos e espalhados pelo país, os amigos perderam contato totalmente e até se esqueceram das aventuras vividas em sua cidade natal. É Mike (Isaiah Mustafa, de Caçadores de Sombras), o único que não saiu de Derry, que descobre a terrível verdade: o palhaço assassino está de volta. O Clube dos Otários teria que se reunir para vencê-lo de uma vez por todas. Ele liga para um por um e os convoca, para que a promessa feita com sangue há 27 anos seja cumprida.

De início, o roteiro (novamente escrito por Gary Dauberman) nos apresenta à versão adulta de cada um dos personagens que conhecemos. Além de Bill, que trabalha na adaptação de um livro dele para o Cinema, encontramos Ritchie (Bill Hader, de Barry) bem estabelecido como comediante; Eddie (James Ransone, de Oldboy, 2013) se tornou um analista de riscos; Stanley (Andy Bean, da série do Monstro do Pântano) é sócio em uma empresa de contabilidade; Ben (Jay Ryan, de Top of the Lake) levou a sério sua paixão e se formou arquiteto; e Beverly (Jessica Chastain, de X-Men: Fênix Negra, 2019), a única menina do grupo, cresceu para ser designer de moda.

Apesar de bem de vida, todos os Otários têm seus traumas de infância guardados, influenciando suas vidas adultas. Não se lembram de Pennywise, mas continuam mantendo relações nos moldes das que tinham. Eddie não é mais mandado pela mãe, mas pela esposa (as duas são Molly Atkinson); Bev não é mais abusada pelo pai, mas pelo marido (Will Beinbrink, de Um Estado de Liberdade, 2016); e assim por diante. Flashbacks misturam as linhas temporais, o que torna possível confrontar os dois momentos, a adolescência e a vida adulta, e situa até quem não viu o longa de 2017.

Um dos complicadores desse Capítulo Dois é exatamente ter personagens demais para cobrir. No primeiro, eles viviam aventuras juntos, era só mostrar o grupo. Agora, como estão sempre separados, é preciso acompanhar o que cada um dos sete está fazendo. E ainda temos a volta do bully Henry Bowers (Teach Grant, de Van Helsing) e Pennywise, mais uma vez interpretado com maestria por Bill Skarsgård. São no mínimo oito pessoas em situações diferentes, o que alonga demais a sessão e a torna por vezes cansativa.

Uma crítica feita ao primeiro filme, que para muitos é uma qualidade, é a falta de sustos, e observamos isso novamente. Andy Muschietti é muito habilidoso ao criar tensão, um clima de terror, sem necessariamente assustar o público. O diretor conseguiu o elenco que queria, repetindo com Chastain a dobradinha de Mama (2013), e pelos menos quatro atores já haviam trabalhado juntos: Chastain, McAvoy, Hader e Beinbrink estiveram em Dois Lados do Amor (2014). A familiaridade entre eles se reflete em cena, passando uma sensação real de amizade. E a similaridade física entre as duas versões do mesmo personagem chega a assustar, principalmente nos casos de Richie e Eddie.

Com destaque para as atuações de Skarsgård e Hader, o elenco está muito bem. A cidade mais uma vez é bem explorada, se tornando também um personagem, e a trilha de Benjamin Wallfisch casa bem com as cenas, sem se sobrepor. Todos os elementos parecem bem encaixados. Mas não foi à toa que a versão de It de 1990 havia sido planejada para durar oito horas. Acabaram cortando muitas subtramas e lançando dois episódios de uma hora e meia, o que ficou até mais curto que esses dois filmes juntos. Mas Muschietti e Dauberman optaram por aproveitar muito do material, o que causou uma queda no ritmo e pode levar muitos espectadores a reclamarem.

Os Muschietti (nas pontas) se uniram aos Otários para o lançamento

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Refilmagem | Com a tag , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Programa do Pipoqueiro #43

por Marcelo Seabra

A nova edição do Programa do Pipoqueiro traz comentários – sem spoilers – sobre o filme Yesterday, com músicas de sua trilha e mais algumas curiosidades musicais! Aperte o play abaixo e divirta-se!

 

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Listas, Música, Programa do Pipoqueiro | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Beatles são a atração de Yesterday

por Marcelo Seabra

Alguns filmes dão a impressão de “jogo ganho” de cara, mesmo antes da estreia. É quase uma obrigação gostar deles. Isso, por trazerem consigo elementos amados por todos, como a trilha sonora. Yesterday (2019) tem esse trunfo e vai ainda mais longe: traz, como pano de fundo, os Beatles. Ter um protagonista adorável também ajuda muito. Mas, nem por isso, o longa deixa de nos dar uma sensação de potencial não atingido.

A obra, cuja história foi criada por Jack Barth e Richard Curtis (de Questão de Tempo, 2013), imagina um mundo sem o quarteto de Liverpool, mas uma pessoa manteve suas lembranças. Jack Malik (Himesh Patel, da série EastEnders) é um músico sem sucesso que divide seu tempo entre shows vazios e o trabalho no estoque de um supermercado. Um acidente bizarro faz com que ele acorde sendo a única pessoa que se lembra de John, Paul, George e Ringo. O que permite que ele se apresente como o autor de faixas incomparáveis da música.

Patel é uma grande descoberta, já que ainda não tinha tido uma grande oportunidade no Cinema. Com um jeito bem comum, necessário ao papel, o ator convence como a pessoa que não sabe lidar com a fama repentina, além de lutar contra o fato de estar vivendo uma mentira. Na dobradinha com Patel, temos Lily James (de O Destino de Uma Nação, 2017), igualmente carismática, interpretando uma amiga de infância e principal incentivadora do cantor. Só a relação entre os personagens que não funciona: parece tudo muito forçado e afobado.

Outro problema de Yesterday é o humor – ou a falta dele. Em vários momentos, o roteiro faz alguma graça, e isso só funciona às vezes. Os dois alívios cômicos têm resultados bem diversos: enquanto o roadie Rocky (Joel Fry, de Game of Thrones) dá umas tiradas espirituosas, o pai de Jack (Sanjeev Bhaskar, de Belas Maldições) é sempre inconveniente e exagerado. Não raro, uma piada é jogada de qualquer jeito e nem se aproxima do efeito esperado. O cantor Ed Sheeran é colocado em algumas dessas armadilhas. Ele faz uma participação interessante e cabível e traz para o contexto a empresária vivida pela ótima Kate McKinnon (do reboot de Caça-Fantasmas), a provável melhor personagem dessa história.

Já está ficando frequente ver críticas duras ao diretor Danny Boyle (acima). Começando na tela grande com o surpreendentemente bom Cova Rasa (Shallow Grave, 1994) e seguindo com produções de muitas qualidades, como os dois Trainspotting (1996 e 2017), Boyle se alterna com outras não tão memoráveis, como A Praia (The Beach, 2000) e Em Transe (Trance, 2013). Parte do desagrado demonstrado pela crítica especializada se deve ao falatório em torno do premiado Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008), filme que teria sido superestimado.

Por todos os envolvidos, Yesterday era para ter sido muito superior. O experiente Curtis, roteirista de sucessos como Quatro Casamentos e Um Funeral (Four Weddings and a Funeral, 1994) e Simplesmente Amor (Love Actually, 2003), parece ter ficado com preguiça de desenvolver sua premissa e tomou o caminho mais fácil. Desperdício da simpatia de Patel e James, que se divertem em cena. Ao menos, saímos cantarolando os sucessos dos Beatles que Malik “recria”. Mas o amor pela banda não se transfere ao filme.

O lançamento em Londres contou com os protagonistas e Sheeran

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Música | Com a tag , , , , , | 1 Comentário

Franquia Brinquedo Assassino começa de novo

por Marcelo Seabra

Depois de sete longas e alguns curtas, chegou a hora de reiniciar a franquia do boneco Chucky. O novo Brinquedo Assassino (Child’s Play, 2019) nos apresenta novamente ao garoto que ganha um boneco psicótico, mas a premissa foi bem alterada. Sai o ritual de bruxaria que transfere uma alma ao brinquedo e entra uma crítica à tecnologia. O novo Chucky é apenas um avanço tecnológico mal programado.

No filme de 1988, tínhamos um ladrão sendo encurralado pela polícia. À beira da morte, Charles Lee Ray passou sua alma a um boneco e continuou sua carreira criminosa – sempre com a voz marcante de Brad Dourif. Como a ideia aqui era começar de novo, Dourif não foi envolvido, e ficou de fora também o criador da série, Don Mancini. O novato Tyler Burton Smith assina o roteiro e o norueguês Lars Klevberg (de Morte Instantânea, 2019) assume a cadeira de diretor.

Para fazer a voz de Chucky, substituindo Dourif, teria que ser escalado alguém igualmente memorável. Missão cumprida: o papel ficou com o eterno Luke Skywalker Mark Hamill, que também tem larga experiência como dublador. Gabriel Bateman (de Quando as Luzes Se Apagam, 2016) é o novo Andy Barclay, o garoto que ganha da mãe (Aubrey Plaza, de Legion) o brinquedo que se torna seu melhor e único amigo. Buddi tem vários recursos interessantes e controla todos os demais mecanismos da empresa Kaslan, o que o torna útil, porém perigoso.

O onipresente Brian Tyree Henry (de As Viúvas, 2018) aparece como o vizinho policial de Andy e temos ainda Tim Matheson (de The Affair) numa participação rápida, vivendo o milionário Henry Kaslan, garoto-propaganda de seu império. Um elenco correto com uma história absurda, uma mistura de Christine, o carro assassino de Stephen King, com Blade Runner. Claro que o conceito sempre exigirá que o público entre na brincadeira, mas ficava melhor amarrado quando sabíamos se tratar de um maníaco no corpo de plástico.

Filmes sobre os perigos da tecnologia existem aos montes, esse é apenas mais um. E dos mais exagerados. Mas, numa época em que a boneca Annabelle leva um bom número de espectadores aos cinemas, é uma boa oportunidade para apresentar Chucky às novas gerações – apenas dois anos depois do último filme do personagem. Pode ser o começo de uma nova franquia, secando uma premissa já explorada à exaustão. O que importa é trazer dinheiro aos bolsos dos envolvidos.

O longa de 88 permanece imbatível

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Refilmagem | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Tarantino homenageia Hollywood

por Marcelo Seabra

Toda obra do diretor Quentin Tarantino pode ser descrita como uma homenagem a algo ou a alguém. E ao próprio Cinema. O longa mais recente deixa isso ainda mais claro: Era Uma Vez… em Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019) traz diversas referências a fatos, pessoas e outros filmes. Misturando realidade e ficção, o roteiro de Tarantino visita o fim da década de 60, esmiuçando os costumes da época enquanto acompanha um ator que luta contra o ocaso de sua carreira.

Lembrando Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) em vários momentos, Era Uma Vez usa celebridades reais para construir o universo de seus personagens ficcionais. Dois atores habituados ao diretor trabalham juntos pela primeira vez: Leonardo DiCaprio (de Django Livre, 2012) e Brad Pitt (de Bastardos). Também com destaque, temos Margot Robbie (colega de DiCaprio em O Lobo de Wall Street, 2013), que vive a famosa Sharon Tate, estrela em ascensão nos idos de 1969.

De cara, conhecemos os inseparáveis Rick Dalton (DiCaprio), um ator de televisão que luta para conseguir os bons papéis de outrora, e seu dublê, Cliff Booth (Pitt), que, além de fazer as cenas mais perigosas, é motorista e faz-tudo. Os dois dividem praticamente a mesma rotina, com um deles indo e voltando de gravações de pilotos para a TV sempre com o outro ao volante. Na casa ao lado à de Dalton vive um casal quente: a linda Tate e seu marido, Roman Polanski (Rafal Zawierucha), que curtia o sucesso de seu O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968).

Vários são os filmes que usam a expressão Era Uma Vez em seus títulos, acompanhada de um lugar, sendo os mais marcantes os de Sergio Leone, Era Uma Vez no Oeste (1968) e Era Uma Vez na América (1984). Como Leone é sempre lembrado como uma grande influência por Tarantino, nada mais natural que o americano passasse a fazer parte dessa “família”. O italiano é inclusive citado nesse de Hollywood, reverenciado como o maior diretor de faroestes de seu país, informação que sai da boca de ninguém menos que Al Pacino (abaixo), numa pequena participação como um produtor veterano.

Mas não são só Tate, Polanski e Leone que aparecem de alguma forma. Bruce Lee, Steve McQueen, as cantoras do grupo Mamas & Papas, o empresário George Spahn e o maníaco Charles Manson, com seu grupo de desajustados, são outras das personalidades do nosso mundo que marcam presença na tela. E Tarantino deixa muito claro que aquela é a visão que ele tem, não precisando necessariamente espelhar a realidade. Muitos podem se perguntar se Tate realmente fez isso ou aquilo, se ela começava a dançar delirantemente sempre que ouvia uma música. O diretor/roteirista não tem nenhuma obrigação com a História: trata-se de uma história original, de ficção. “Era uma vez”…

A recriação do período e os cenários por onde a câmera nos leva são fantásticos. DiCaprio interage com filmes da época, o tempo de tela de cada um é bem equilibrado e tudo é muito fluido, resultado de uma montagem eficiente. São duas horas e quarenta minutos que passam sem cansar o espectador, que se envolve com o que vê e passa a torcer por eles. A cena entre DiCaprio e a garota Julia Butters é emocionante, um misto entre engraçada e tocante. E ajuda ter as músicas que Tarantino sempre escolhe a dedo, clássicos do rock não tão famosos, mas que se encaixam muito bem com as situações.

Como se ainda precisasse de uma cereja nesse bolo tão cuidadosamente realizado, ainda temos algumas participações muito especiais. Parece que quem trabalhou com o diretor quer voltar e quem não teve a oportunidade a abraça. Depois da estreia nos EUA, algumas polêmicas foram produzidas, como o fato de Robbie ter poucas falas – como se isso fosse exemplo de machismo – e a forma estereotipada como Bruce Lee é retratado. Exagero ou não, nada disso atrapalha a diversão. Tarantino marca outro gol em sua curta carreira.

Diretor e elenco levaram o filme a Cannes em maio

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , , , , | 6 Comentários

Hobbs e Shaw ganham um filme só para eles

por Marcelo Seabra

“Ninguém manda em mim”. Esse é o lema repetido à exaustão em Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019), longa estrelado por dois sujeitos musculosos, bons de briga e extremamente infantilizados. As implicâncias entre eles começam engraçadinhas, cansam e passam a irritar em questão de minutos. Esse humor rasteiro e insistente é perpassado por lutas, tiros, explosões e perseguições em todos os tipos de veículos. E o resultado parece dizer: não precisamos de Vin Diesel.

A franquia, iniciada 2001 com Diesel e o falecido Paul Walker, já conta com oito filmes, o nono atualmente em produção, e agora tem um derivado. Desavenças entre os atores levaram os produtores a pensarem numa forma de separar Dwayne “The Rock” Johnson e Diesel, e a solução foi aproveitar a química entre Johnson e Jason Statham. Na nova história, os dois fortões estão em lados opostos da lei e acabam se unindo contra um vilão em comum. Para bater de frente com essa dupla de peso, era necessário alguém à altura, e o escolhido foi Idris Elba (o Heimdall da Marvel).

Para conseguir unir os dois e trazer o terceiro para a cena, a desculpa é personificada por Vanessa Kirby (Missão: Impossível – Efeito Fallout, 2018 – acima). Ela vive a irmã caçula de Deckard Shaw (Statham), uma agente da espionagem inglesa que, para proteger um supervírus das mãos de ladrões, injeta-o em si mesma. Com pouco tempo antes de ser infectada, ela precisa da ajuda de Shaw e Luke Hobbs (Johnson) para vencer o geneticamente modificado Brixton (Elba). Mesmo que os dois personagens do título tenham sido apresentados nos outros episódios de Velozes e Furiosos, aqui conhecemos melhor suas histórias.

Brixton é um assassino que abraçou a causa de uma empresa misteriosa que busca levar o ser humano ao futuro. Só que fará isso matando boa parte da população e mexendo no corpo dos demais, aumentando força e resistência. Questões ambientais, como a exaustão de recursos naturais, são mencionadas apenas para darem lugar à pancadaria. Como em uma aventura de James Bond, vários lugares são visitados, o que permite uma bela fotografia. Todos os personagens vivem com muito luxo – até a mãe presidiária de Shaw (a grande Helen Mirren). Toda essa beleza, de paisagens a cenários fechados e objetos de cena, dão uma sensação de zero risco. Em momento algum, sentimos medo ou apreensão pelo destino de alguém.

Quem acompanha a série já sabe bem o que esperar e é exatamente isso que David Leitch oferece. Responsável por Atômica (Atomic Blonde, 2017) e Deadpool 2 (2018), o diretor já mostrou saber conduzir sequências de ação. Mas, aqui, elas caem numa mesmice, dão até sono. A necessidade de ir além do que foi feito anteriormente cria momentos engraçados, de tão inverossímeis. O roteiro, escrito por Chris Morgan (dos últimos seis longas da franquia) e Drew Pearce (do quinto Missão Impossível, Nação Secreta), respeita a natureza dos personagens, mas fica rodando em torno do que é esperado. Tenta-se aprofundar no quesito família, o grande tema de Velozes e Furiosos, mas só consegue gerar mais piadinhas.

Idris Elba é o vilão da vez, praticamente um ciborgue

Publicado em Estréias, Filmes | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

É a vez de Simonal chegar aos cinemas

por Marcelo Seabra

“Ninguém sabe o duro que dei”, dizia Wilson Simonal quando apontavam o sucesso que ele atingiu. A frase era tão usada que aparecia em uma das músicas dele e deu título a um documentário (2009) sobre a vida do cantor. Uma história tão extraordinária estava demorando a ganhar as telas. Em meio a diversas cinebiografias de celebridades da música, tanto internacionais (sobre Elton John, Freddie Mercury ou Motley Crüe) quanto nacionais (sobre Paulo Coelho, Erasmo Carlos, Tim Maia e Elis), chega a estreia de Simonal (2019), longa que acompanha a ascensão e queda do astro.

Aproveitando o casal que já havia funcionado em Faroeste Caboclo (2013), Fabrício Boliveira e Isis Valverde, Simonal tem em seu elenco sua maior força. Boliveira chega perto de reproduzir o carisma de seu personagem, que se dizia o símbolo da pilantragem. Mesmo que os dois não fossem muito parecidos, o ator funciona muito bem no papel, atuando, dançando e dublando com naturalidade. Temos uma amostra do tamanho que Simonal chegou a ter, não só um ótimo intérprete, que parecia roubar para si tudo o que cantava, mas um showman completo, que sabia conduzir o público como poucos.

Valverde entra em cena com destaque, mas perde força à medida e que se torna a esposa padrão, aquela deixada de lado que acaba se tornando deprimida e dependente química. Um problema comum a obras desse tipo é mostrar o artista isolado, como se não houvesse mais ninguém relevante naquele momento, e isso não é observado aqui. Vemos figuras como Carlos Imperial, Miéle, Bôscoli, Elis, Erasmo e Jorge Ben interagindo com Simonal. Mas é só ele que importa, com os demais apenas fazendo pontas, como se os nomes tivessem que ser cortados em uma lista. O dueto com Sarah Vaughan, por exemplo, só serve como pano de fundo.

Os áudios originais de Simonal são usados em diversas cenas, o que nos dá uma dimensão de seu talento vocal. Imagens reais (abaixo) também aparecem, o que causa estranhamento, já que fica muito claro tratar-se de outra pessoa que não Boliveira. De uma forma geral, a montagem é ágil e não deixa buracos cronológicos, ou nada que faça falta. Reflexo da parceria do experiente montador Leonardo Domingues, que faz sua estreia como diretor de um longa, e do igualmente competente Vicente Kubrusly (de À Beira do Caminho, 2012). Tecnicamente, quase tudo se encaixa, como uma ótima reconstituição de época. E a participação de Leandro Hassum (de Chorar de Rir, 2019) como Imperial merece ser ressaltada, ele realmente chama a atenção.

Em certas passagens, parece que o roteiro de Victor Atherino (também de Faroeste) não vai se furtar a cobrir os pecados de seu biografado, arrogante e explosivo. O fato de ele ser mulherengo aparece bem. O problema maior chega mais adiante, num episódio amplamente conhecido e pouco esclarecido: a acusação de ser dedo duro. Simonal se meteu em uma grande enrascada ao afirmar que seu contador estaria roubando-o. O sujeito, pouco tempo depois, foi sequestrado em sua casa por policiais e torturado nas dependências do DOPS. Para tentar se explicar, Simonal dá a entender que seria informante do regime militar. Nunca se soube de ninguém que tivesse sido prejudicado por uma suposta delação dele, mas a má fama pegou e o acompanhou até o fim da vida.

Todo o problema enfrentado poderia ser uma farsa orquestrada por racistas que não suportaram ver um negro, favelado, esfregando na cara da sociedade o enorme sucesso que atingiu? Claro, poderia. Mas bem que tudo poderia ter acontecido devido à estupidez do cantor, que não teria medido as consequências de seus atos. O roteiro faz claramente uma escolha: é melhor mostrar Simonal como ingênuo, até burro, que como mau caráter.

Desde o lançamento do documentário de 2009, observa-se uma espécie de campanha para reabilitar Simonal. Depois do escândalo da relação com a ditadura, ele viu seus shows serem cancelados e outros artistas negarem colaborações. Morreu em 2000, em decorrência do alcoolismo. Ia às apresentações dos filhos, Max de Castro e Simoninha, incógnito, com medo de atrapalhar. Os dois são responsáveis pela direção musical do filme, o que pode ter influenciado no tom brando, neutro da produção. Afinal, a ideia era limpar a barra de Simonal. Só não sabemos se isso é fazer justiça ou criar uma mentira.

Boliveira demonstra muito carisma recriando os momentos de Simonal

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações, Música, Nacional, Personalidades | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Mais uma obra se debruça sobre Ted Bundy

por Marcelo Seabra

O fascínio que o psicopata Ted Bundy exerce no imaginário norte-americano segue firme, com mais uma obra contando sua história. Entre longas ficcionais, documentários e programas de TV, ele é citado em mais de vinte títulos, e chega aos cinemas essa semana Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019). Trazendo como protagonista a namorada de Bundy, o filme se propõe a trazer um olhar novo sob o personagem, colocando o público no lugar da garota.

Em 1974, quando o conceito de serial killer não era difundido, a polícia começou a observar um padrão em assassinatos e concluiu que várias mortes e sequestros tinham por trás o mesmo criminoso. Episódios circunstanciais, como uma multa de trânsito e um retrato falado, levaram as autoridades a Theodore Robert Bundy, um estudante de Direito carismático, bem apessoado e articulado. Ele namorava Elizabeth Kloepfer (abaixo) e garantia a ela que isso não passava de um mal-entendido. Tudo logo seria esclarecido e eles poderiam se casar.

No entanto, não foi isso o que aconteceu. Evidências levaram a outras acusações e Bundy se viu numa situação bem complicada. E ele nunca deixou de jurar inocência. Liz, acompanhando tudo, torcia para que a injustiça fosse corrigida e ela pudesse ter seu amor de volta. É desse ponto de vista que acompanhamos o desenrolar dos fatos. O roteiro, premiado em 2012 e na geladeira desde então, se baseou no livro de Kloepfer, no qual ela se chama de Liz Kendall. Michael Werwie trabalhou uma década como garçom até que seu roteiro foi comprado, marcando sua estreia na função.

Responsável por um ótimo documentário recente, Joe Berlinger volta seu olhar para Bundy. No início do ano, a Netflix disponibilizou Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy (Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes), quatro episódios que cobrem os fatos ligados ao psicopata. Baseando-se no livro dos jornalistas Stephen G. Michaud e Hugh Aynesworth, ambos produtores da série, Berlinger cobriu tão bem o assunto que acabou assumindo a tarefa de conduzir também a versão ficcional da história. Em 2000, ele lançou A Bruxa de Blair 2, cuja recepção negativa deve tê-lo deixado traumatizado. Fora os dois longas, toda a carreira de Berlinger foi construída com documentários – inclusive sobre a banda Metallica, cujo vocalista, James Hetfield, faz aqui sua estreia como ator.

Para o elenco, o diretor ouviu os fãs de Zac Efron, que vinham se manifestando há tempos. Conhecido pelos bobinhos High School Musical da Disney, Efron tem demonstrado talento em diversos projetos, como no drama Obsessão (Paper Boy, 2012) e na comédia de ação Baywatch (2017). O ator aproveita o pouco de semelhança física que tem com Bundy e recria à perfeição seus olhares e maneirismos. O circo que o sujeito montou em seu julgamento é visto aqui na íntegra, com o ótimo John Malkovich (de Bird Box, 2018) como o juiz à frente do caso.

Fazendo dupla com Efron, temos Lily Collins (de O Mínimo para Viver, 2017) como Liz, uma mãe trabalhadora que parece ter encontrado um cara bacana. Nela, vemos agindo o poder da negação: mesmo que as evidências apontem para Bundy, ela se nega a aceitar, na esperança de que tudo fosse se resolver. É angustiante ver o efeito dessa situação na vida da moça. Ela passa a viver uma espera constante, acompanhando os desdobramentos pela televisão e recebendo ligações delirantes de Bundy. Efron e Collins funcionam bem juntos, dando uma boa ideia do sofrimento dela e do distanciamento da realidade dele.

Além dos já mencionados, o elenco ainda é beneficiado por alguns rostos interessantes, como Kaya Scodelario (de Maze Runner), Angela Sarafyan (de Westworld), Haley Joel Osment (o garoto de O Sexto Sentido, 1999), Jeffrey Donovan (de Bruxa de Blair 2), Brian Geraghty (das séries The Alienist e Ray Donovan) e Jim Parsons (o Sheldon de Big Bang Theory). A recriação dos anos 70 nos leva à época, e cenas reais mostradas nos créditos comprovam o quanto a produção chegou perto da realidade. Não é a obra definitiva sobre Bundy (esta seria Conversando com um Serial Killer), mas nos mostra a história por um lado diferente interessante o suficiente para valer o ingresso.

A recriação é bem fiel

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário