Tarantino homenageia Hollywood

por Marcelo Seabra

Toda obra do diretor Quentin Tarantino pode ser descrita como uma homenagem a algo ou a alguém. E ao próprio Cinema. O longa mais recente deixa isso ainda mais claro: Era Uma Vez… em Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019) traz diversas referências a fatos, pessoas e outros filmes. Misturando realidade e ficção, o roteiro de Tarantino visita o fim da década de 60, esmiuçando os costumes da época enquanto acompanha um ator que luta contra o ocaso de sua carreira.

Lembrando Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) em vários momentos, Era Uma Vez usa celebridades reais para construir o universo de seus personagens ficcionais. Dois atores habituados ao diretor trabalham juntos pela primeira vez: Leonardo DiCaprio (de Django Livre, 2012) e Brad Pitt (de Bastardos). Também com destaque, temos Margot Robbie (colega de DiCaprio em O Lobo de Wall Street, 2013), que vive a famosa Sharon Tate, estrela em ascensão nos idos de 1969.

De cara, conhecemos os inseparáveis Rick Dalton (DiCaprio), um ator de televisão que luta para conseguir os bons papéis de outrora, e seu dublê, Cliff Booth (Pitt), que, além de fazer as cenas mais perigosas, é motorista e faz-tudo. Os dois dividem praticamente a mesma rotina, com um deles indo e voltando de gravações de pilotos para a TV sempre com o outro ao volante. Na casa ao lado à de Dalton vive um casal quente: a linda Tate e seu marido Roman Polanski (Rafal Zawierucha), que curtia o sucesso de seu O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968).

Vários são os filmes que usam a expressão Era Uma Vez em seus títulos, acompanhada de um lugar, sendo os mais marcantes os de Sergio Leone, Era Uma Vez no Oeste (1968) e Era Uma Vez na América (1984). Como Leone é sempre lembrado como uma grande influência por Tarantino, nada mais natural que o americano passasse a fazer parte dessa “família”. O italiano é inclusive citado nesse de Hollywood, reverenciado como o maior diretor de faroestes de seu país, informação que sai da boca de ninguém menos que Al Pacino (abaixo), numa pequena participação como um produtor veterano.

Mas não são só Tate, Polanski e Leone que aparecem de alguma forma. Bruce Lee, Steve McQueen, as cantoras do grupo Mamas & Papas, o empresário George Spahn e o maníaco Charles Manson, com seu grupo de desajustados, são outras das personalidades do nosso mundo que marcam presença na tela. E Tarantino deixa muito claro que aquela é a visão que ele tem, não precisando necessariamente espelhar a realidade. Muitos podem se perguntar se Tate realmente fez isso ou aquilo, se ela começava a dançar delirantemente sempre que ouvia uma música. O diretor/roteirista não tem nenhuma obrigação com a História: trata-se de uma história original, de ficção.

A recriação do período e os cenários por onde a câmera nos leva são fantásticos. DiCaprio interage com filmes da época, o tempo de tela de cada um é bem equilibrado e tudo é muito fluido, resultado de uma montagem eficiente. São duas horas e quarenta minutos que passam sem cansar o espectador, que se envolve com o que vê e passa a torcer por eles. A cena entre DiCaprio e a garota Julia Butters é emocionante, um misto entre engraçada e tocante. E ajuda ter as músicas que Tarantino sempre escolhe a dedo, clássicos do rock não tão famosos, mas que se encaixam muito bem com as situações.

Como se ainda precisasse de uma cereja nesse bolo tão cuidadosamente realizado, ainda temos algumas participações muito especiais. Parece que quem trabalhou com o diretor quer voltar e quem não teve a oportunidade a abraça. Depois da estreia nos EUA, algumas polêmicas foram produzidas, como o fato de Robbie ter poucas falas – como se isso fosse exemplo de machismo – e a forma estereotipada como Bruce Lee é retratado. Exagero ou não, nada disso atrapalha a diversão. Tarantino marca outro gol em sua curta carreira.

Diretor e elenco levaram o filme a Cannes em maio

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Hobbs e Shaw ganham um filme só para eles

por Marcelo Seabra

“Ninguém manda em mim”. Esse é o lema repetido à exaustão em Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019), longa estrelado por dois sujeitos musculosos, bons de briga e extremamente infantilizados. As implicâncias entre eles começam engraçadinhas, cansam e passam a irritar em questão de minutos. Esse humor rasteiro e insistente é perpassado por lutas, tiros, explosões e perseguições em todos os tipos de veículos. E o resultado parece dizer: não precisamos de Vin Diesel.

A franquia, iniciada 2001 com Diesel e o falecido Paul Walker, já conta com oito filmes, o nono atualmente em produção, e agora tem um derivado. Desavenças entre os atores levaram os produtores a pensarem numa forma de separar Dwayne “The Rock” Johnson e Diesel, e a solução foi aproveitar a química entre Johnson e Jason Statham. Na nova história, os dois fortões estão em lados opostos da lei e acabam se unindo contra um vilão em comum. Para bater de frente com essa dupla de peso, era necessário alguém à altura, e o escolhido foi Idris Elba (o Heimdall da Marvel).

Para conseguir unir os dois e trazer o terceiro para a cena, a desculpa é personificada por Vanessa Kirby (Missão: Impossível – Efeito Fallout, 2018 – acima). Ela vive a irmã caçula de Deckard Shaw (Statham), uma agente da espionagem inglesa que, para proteger um supervírus das mãos de ladrões, injeta-o em si mesma. Com pouco tempo antes de ser infectada, ela precisa da ajuda de Shaw e Luke Hobbs (Johnson) para vencer o geneticamente modificado Brixton (Elba). Mesmo que os dois personagens do título tenham sido apresentados nos outros episódios de Velozes e Furiosos, aqui conhecemos melhor suas histórias.

Brixton é um assassino que abraçou a causa de uma empresa misteriosa que busca levar o ser humano ao futuro. Só que fará isso matando boa parte da população e mexendo no corpo dos demais, aumentando força e resistência. Questões ambientais, como a exaustão de recursos naturais, são mencionadas apenas para darem lugar à pancadaria. Como em uma aventura de James Bond, vários lugares são visitados, o que permite uma bela fotografia. Todos os personagens vivem com muito luxo – até a mãe presidiária de Shaw (a grande Helen Mirren). Toda essa beleza, de paisagens a cenários fechados e objetos de cena, dão uma sensação de zero risco. Em momento algum, sentimos medo ou apreensão pelo destino de alguém.

Quem acompanha a série já sabe bem o que esperar e é exatamente isso que David Leitch oferece. Responsável por Atômica (Atomic Blonde, 2017) e Deadpool 2 (2018), o diretor já mostrou saber conduzir sequências de ação. Mas, aqui, elas caem numa mesmice, dão até sono. A necessidade de ir além do que foi feito anteriormente cria momentos engraçados, de tão inverossímeis. O roteiro, escrito por Chris Morgan (dos últimos seis longas da franquia) e Drew Pearce (do quinto Missão Impossível, Nação Secreta), respeita a natureza dos personagens, mas fica rodando em torno do que é esperado. Tenta-se aprofundar no quesito família, o grande tema de Velozes e Furiosos, mas só consegue gerar mais piadinhas.

Idris Elba é o vilão da vez, praticamente um ciborgue

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É a vez de Simonal chegar aos cinemas

por Marcelo Seabra

“Ninguém sabe o duro que dei”, dizia Wilson Simonal quando apontavam o sucesso que ele atingiu. A frase era tão usada que aparecia em uma das músicas dele e deu título a um documentário (2009) sobre a vida do cantor. Uma história tão extraordinária estava demorando a ganhar as telas. Em meio a diversas cinebiografias de celebridades da música, tanto internacionais (sobre Elton John, Freddie Mercury ou Motley Crüe) quanto nacionais (sobre Paulo Coelho, Erasmo Carlos, Tim Maia e Elis), chega a estreia de Simonal (2019), longa que acompanha a ascensão e queda do astro.

Aproveitando o casal que já havia funcionado em Faroeste Caboclo (2013), Fabrício Boliveira e Isis Valverde, Simonal tem em seu elenco sua maior força. Boliveira chega perto de reproduzir o carisma de seu personagem, que se dizia o símbolo da pilantragem. Mesmo que os dois não fossem muito parecidos, o ator funciona muito bem no papel, atuando, dançando e dublando com naturalidade. Temos uma amostra do tamanho que Simonal chegou a ter, não só um ótimo intérprete, que parecia roubar para si tudo o que cantava, mas um showman completo, que sabia conduzir o público como poucos.

Valverde entra em cena com destaque, mas perde força à medida e que se torna a esposa padrão, aquela deixada de lado que acaba se tornando deprimida e dependente química. Um problema comum a obras desse tipo é mostrar o artista isolado, como se não houvesse mais ninguém relevante naquele momento, e isso não é observado aqui. Vemos figuras como Carlos Imperial, Miéle, Bôscoli, Elis, Erasmo e Jorge Ben interagindo com Simonal. Mas é só ele que importa, com os demais apenas fazendo pontas, como se os nomes tivessem que ser cortados em uma lista. O dueto com Sarah Vaughan, por exemplo, só serve como pano de fundo.

Os áudios originais de Simonal são usados em diversas cenas, o que nos dá uma dimensão de seu talento vocal. Imagens reais (abaixo) também aparecem, o que causa estranhamento, já que fica muito claro tratar-se de outra pessoa que não Boliveira. De uma forma geral, a montagem é ágil e não deixa buracos cronológicos, ou nada que faça falta. Reflexo da parceria do experiente montador Leonardo Domingues, que faz sua estreia como diretor de um longa, e do igualmente competente Vicente Kubrusly (de À Beira do Caminho, 2012). Tecnicamente, quase tudo se encaixa, como uma ótima reconstituição de época. E a participação de Leandro Hassum (de Chorar de Rir, 2019) como Imperial merece ser ressaltada, ele realmente chama a atenção.

Em certas passagens, parece que o roteiro de Victor Atherino (também de Faroeste) não vai se furtar a cobrir os pecados de seu biografado, arrogante e explosivo. O fato de ele ser mulherengo aparece bem. O problema maior chega mais adiante, num episódio amplamente conhecido e pouco esclarecido: a acusação de ser dedo duro. Simonal se meteu em uma grande enrascada ao afirmar que seu contador estaria roubando-o. O sujeito, pouco tempo depois, foi sequestrado em sua casa por policiais e torturado nas dependências do DOPS. Para tentar se explicar, Simonal dá a entender que seria informante do regime militar. Nunca se soube de ninguém que tivesse sido prejudicado por uma suposta delação dele, mas a má fama pegou e o acompanhou até o fim da vida.

Todo o problema enfrentado poderia ser uma farsa orquestrada por racistas que não suportaram ver um negro, favelado, esfregando na cara da sociedade o enorme sucesso que atingiu? Claro, poderia. Mas bem que tudo poderia ter acontecido devido à estupidez do cantor, que não teria medido as consequências de seus atos. O roteiro faz claramente uma escolha: é melhor mostrar Simonal como ingênuo, até burro, que como mau caráter.

Desde o lançamento do documentário de 2009, observa-se uma espécie de campanha para reabilitar Simonal. Depois do escândalo da relação com a ditadura, ele viu seus shows serem cancelados e outros artistas negarem colaborações. Morreu em 2000, em decorrência do alcoolismo. Ia às apresentações dos filhos, Max de Castro e Simoninha, incógnito, com medo de atrapalhar. Os dois são responsáveis pela direção musical do filme, o que pode ter influenciado no tom brando, neutro da produção. Afinal, a ideia era limpar a barra de Simonal. Só não sabemos se isso é fazer justiça ou criar uma mentira.

Boliveira demonstra muito carisma recriando os momentos de Simonal

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Mais uma obra se debruça sobre Ted Bundy

por Marcelo Seabra

O fascínio que o psicopata Ted Bundy exerce no imaginário norte-americano segue firme, com mais uma obra contando sua história. Entre longas ficcionais, documentários e programas de TV, ele é citado em mais de vinte títulos, e chega aos cinemas essa semana Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019). Trazendo como protagonista a namorada de Bundy, o filme se propõe a trazer um olhar novo sob o personagem, colocando o público no lugar da garota.

Em 1974, quando o conceito de serial killer não era difundido, a polícia começou a observar um padrão em assassinatos e concluiu que várias mortes e sequestros tinham por trás o mesmo criminoso. Episódios circunstanciais, como uma multa de trânsito e um retrato falado, levaram as autoridades a Theodore Robert Bundy, um estudante de Direito carismático, bem apessoado e articulado. Ele namorava Elizabeth Kloepfer (abaixo) e garantia a ela que isso não passava de um mal-entendido. Tudo logo seria esclarecido e eles poderiam se casar.

No entanto, não foi isso o que aconteceu. Evidências levaram a outras acusações e Bundy se viu numa situação bem complicada. E ele nunca deixou de jurar inocência. Liz, acompanhando tudo, torcia para que a injustiça fosse corrigida e ela pudesse ter seu amor de volta. É desse ponto de vista que acompanhamos o desenrolar dos fatos. O roteiro, premiado em 2012 e na geladeira desde então, se baseou no livro de Kloepfer, no qual ela se chama de Liz Kendall. Michael Werwie trabalhou uma década como garçom até que seu roteiro foi comprado, marcando sua estreia na função.

Responsável por um ótimo documentário recente, Joe Berlinger volta seu olhar para Bundy. No início do ano, a Netflix disponibilizou Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy (Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes), quatro episódios que cobrem os fatos ligados ao psicopata. Baseando-se no livro dos jornalistas Stephen G. Michaud e Hugh Aynesworth, ambos produtores da série, Berlinger cobriu tão bem o assunto que acabou assumindo a tarefa de conduzir também a versão ficcional da história. Em 2000, ele lançou A Bruxa de Blair 2, cuja recepção negativa deve tê-lo deixado traumatizado. Fora os dois longas, toda a carreira de Berlinger foi construída com documentários – inclusive sobre a banda Metallica, cujo vocalista, James Hetfield, faz aqui sua estreia como ator.

Para o elenco, o diretor ouviu os fãs de Zac Efron, que vinham se manifestando há tempos. Conhecido pelos bobinhos High School Musical da Disney, Efron tem demonstrado talento em diversos projetos, como no drama Obsessão (Paper Boy, 2012) e na comédia de ação Baywatch (2017). O ator aproveita o pouco de semelhança física que tem com Bundy e recria à perfeição seus olhares e maneirismos. O circo que o sujeito montou em seu julgamento é visto aqui na íntegra, com o ótimo John Malkovich (de Bird Box, 2018) como o juiz à frente do caso.

Fazendo dupla com Efron, temos Lily Collins (de O Mínimo para Viver, 2017) como Liz, uma mãe trabalhadora que parece ter encontrado um cara bacana. Nela, vemos agindo o poder da negação: mesmo que as evidências apontem para Bundy, ela se nega a aceitar, na esperança de que tudo fosse se resolver. É angustiante ver o efeito dessa situação na vida da moça. Ela passa a viver uma espera constante, acompanhando os desdobramentos pela televisão e recebendo ligações delirantes de Bundy. Efron e Collins funcionam bem juntos, dando uma boa ideia do sofrimento dela e do distanciamento da realidade dele.

Além dos já mencionados, o elenco ainda é beneficiado por alguns rostos interessantes, como Kaya Scodelario (de Maze Runner), Angela Sarafyan (de Westworld), Haley Joel Osment (o garoto de O Sexto Sentido, 1999), Jeffrey Donovan (de Bruxa de Blair 2), Brian Geraghty (das séries The Alienist e Ray Donovan) e Jim Parsons (o Sheldon de Big Bang Theory). A recriação dos anos 70 nos leva à época, e cenas reais mostradas nos créditos comprovam o quanto a produção chegou perto da realidade. Não é a obra definitiva sobre Bundy (esta seria Conversando com um Serial Killer), mas nos mostra a história por um lado diferente interessante o suficiente para valer o ingresso.

A recriação é bem fiel

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Novo Rei Leão é mais uma refilmagem Disney

por Marcelo Seabra

Adaptar Aladdin em live action pode ser uma boa ideia no papel, independente do resultado. Afinal, é só misturar atores e efeitos especiais e voilá! Dumbo já não funcionaria tão bem, já que o protagonista é um elefante voador e expressivo. O estúdio teria que colocar suas fichas em uma criatura de CGI, independente do elenco fantástico contratado. Seguindo essa lógica, fazer um novo O Rei Leão (The Lion King), dentro dessa tendência, seria totalmente descabido. Foi exatamente o que a Disney fez.

O longa de 1994 parece estar no coração de muita gente, tamanho o debate que o anúncio dessa refilmagem gerou. Já dava para saber que haveria quem defendesse o projeto por pura nostalgia, assim como outros seriam detratores por amarem o desenho e julgarem que nunca seria possível se aproximar. O original chegou sem uma sombra, estabeleceu seu terreno do zero, ganhou prêmios e faturou alto nas bilheterias, gerando até sequências. Com tantas releituras Disney enfileiradas, um novo Rei Leão era aposta certa. Mesmo que não faça nenhum sentido chamar isso de live action – é, no máximo, um desenho com uma nova roupagem.

A história, uma das mais shakespearianas do estúdio, é bastante conhecida: o invejoso irmão do rei o mata e faz o jovem príncipe se sentir culpado e fugir. Mas não se pode fugir de seu destino, e Simba aprende, como um Homem-Aranha peludo, que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Isso, apesar dos recém-adquiridos conselheiros flâneurs, que pregam o lema Hakuna Matata, algo como “esqueça seus problemas”. O berço de ouro do leãozinho fica para trás e ele aprende a se virar na floresta interagindo com outros animais. Apesar de tratar de outros temas, não deixa de ter similaridades com Mogli, o Menino Lobo, que curiosamente ganhou um longa em 2016 dirigido pelo mesmo Jon Favreau.

Em evidência desde que comandou os dois primeiros longas do Homem de Ferro (além de viver o segurança e braço direito Happy Hogan), Favreau agora transita por dois dos maiores filões de Hollywood: o de filmes de super-heróis (mais especificamente da Marvel) e dessas novas versões Disney. Apesar de ele ter reunido um elenco notável, é praticamente impossível esquecer a voz, por exemplo, de Jeremy Irons como Scar, o vilão para quem quase torcemos. Com Mufasa, a dificuldade da tarefa era tão óbvia que tiveram que trazer James Earl Jones novamente, certamente uma das vozes mais marcantes do Cinema.

Na nova encarnação principal, como Simba, temos Donald Glover. De talento reconhecido como ator, roteirista, produtor e diretor (conhece Atlanta?), Glover ainda é um cantor premiado (Childish Gambino), o que ajuda na tarefa de estrelar um musical. Para cantar ao seu lado, como a Nala adulta, trouxeram Beyoncé (de Cadillac Records, 2008), fechando um casal tecnicamente impecável. Mas, mais uma vez, o fantasma de 1994 vem assombrar. A trilha sonora também é assinada por Hans Zimmer, que ganhou seu único Oscar em 94. E as músicas, quando não simplesmente reaproveitam as belíssimas composições de Elton John e Tim Rice, não chegam aos pés delas.

Entre os outros nomes mais relevantes, temos o ótimo Chiwetel Ejiofor (de Maria Madalena, 2018) dando vida a Scar, além do apresentador John Oliver (Zazu), Alfre Woodard (de Luke Cage), Keegan-Michael Key e Billy Eichner (ambos de Friends From College) e Seth Rogen (de A Entrevista, 2014 – ao lado), cujo trabalho como Pumbaa ganha mais destaque pelo tino cômico e pela voz inconfundível. Apesar de todo esse esforço, a proposta de tornar os animais o mais reais possível os deixa sem emoções. A falta de cor nos cenários os faz literalmente uma natureza morta que, junto à falta de expressão dos personagens, aproxima o resultado de um documentário do Animal Planet.

Na comparação com o longa de 94, o novo Rei Leão perde de lavada. Se analisado à parte, como obra independente, deve satisfazer. Era possível perceber no público saindo da sala do Multiplex a sensação de dinheiro bem gasto. Principalmente, entre os mais jovens, que estão sendo apresentados a este universo. Para os mais velhos, ficam muitos buracos. Mais do que Irons, Elton ou Matthew Broderick, as maiores faltas são as da espontaneidade e da emoção.

As emoções do desenho de 94 são imbatíveis

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Aladdin é o novo live action da Disney

por Marcelo Seabra

A velocidade das adaptações live action de desenhos da Disney tem aumentado drasticamente. Poucos meses depois da estreia de Dumbo (2019) e antes do novo Rei Leão, chega aos cinemas Aladdin (2019), veículo para Will Smith fazer o que mais gosta: aparecer. Felizmente, o ego do astro está mais controlado e temos uma aventura bem correta, que faz bom uso dos efeitos especiais para contar uma história que, antes de mais nada, é sobre amizade.

A escolha de um egípcio para o papel principal mostra a intenção do estúdio de fazer a coisa certa. Com alguém da grandeza de Smith para chamar público, tiveram liberdade para escolher alguém pouco conhecido para viver Aladdin. Com papéis importantes na televisão, como nas séries Jack Ryan e Open Heart, Mena Massoud vem ganhando atenção e teve aqui sua maior oportunidade até agora. Fazendo bem a transição entre os momentos mais dramáticos e engraçados, com uma boa dose de ação, o ator cumpre sua tarefa a contento, como o ladrão de bom coração que se apaixona sem saber que a garota é a filha do sultão.

Com uma importância bem maior do que ser apenas a mocinha em perigo, a princesa Jasmine se mostra uma mulher forte que sabe que daria conta de substituir o pai quando chegasse a hora. A inglesa de ascendência indiana Naomi Scott (de Os 33, 2015) foi outra boa escolha, e não a toa é uma das agentes de Charlie na nova versão das Panteras. Fechando o quarteto principal, temos o holandês Marwan Kenzari (de Assassinato no Expresso Oriente, 2017) como o vilão Jafar, o conselheiro do sultão que tem sede de poder.

De forma geral, a história de Aladdin não traz novidades, tudo o que vemos é o esperado. Mas o roteiro de John August (de Sombras da Noite, 2012) e Guy Ritchie (de Rei Arthur, 2017) guarda algumas surpresas interessantes que enriquecem o material, como a força que Jasmine demonstra ter. Como diretor, Ritchie traz seus maneirismos, como as cenas desaceleradas que usou na franquia de Sherlock Holmes e em O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E., 2015), mas não chega a incomodar. Os cenários suntuosos, cheios de cores e detalhes, enchem os olhos. Parece que estamos em um parque da Disney, enquanto Aladdin corre pelas ruas de Agrabah.

No quesito música, tão forte nos desenhos da Disney, o live action não mostra personalidade. As mesmas canções do original, de 1992, com poucas diferenças. Massoud e Scott fazem suas partes, mas criam momentos desinteressantes, deixando os holofotes para Smith. Com um Gênio que parece a versão mais velha e azul do Fresh Prince, o ator/cantor cria os números mais relevantes, fugindo da sombra do grande trabalho que Robin Williams fez antes. E umas danças estilo Bollywood fecham o show.

Quando não está azul, o Gênio funciona melhor

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Laços leva a Turma da Mônica ao Cinema

por Marcelo Seabra

Tendo uma criança na família, aproveite para convidá-la ao cinema e assista a Turma da Mônica: Laços (2019). Não tendo uma criança como desculpa, vá assim mesmo e confira, sem vergonha, a primeira adaptação em live action da turminha. Com um elenco jovem afiado, a produção realiza o sonho de muitos adultos, dando vida a personagens publicados há 60 anos. Por isso, é óbvio que não teremos apenas crianças nas plateias. E haverá um interessante equilíbrio entre risos e lágrimas.

Em setembro de 2009, foram comemorados os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica – inspirada na própria filha do cartunista. No meio dessa festa, foi lançado o álbum MSP 50 – Mauricio de Sousa Por 50 Artistas, reunião de 50 quadrinistas brasileiros que criaram releituras dos personagens. Esse álbum deu tão certo que, além de originar outros dois, levou a uma série de graphic novels, aquelas revistas maiores, de edições melhores e histórias mais longas. Dessas, a segunda foi Laços, criada pelos irmãos Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi.

Além de prêmios – como o HQMix – e duas continuações, Laços ganhou a distinção de ser a primeira história da Turma da Mônica a chegar aos cinemas com atores. O editor indicado ao Oscar Daniel Rezende (por Cidade de Deus, 2002) assumiu a direção, função que desempenhou no ótimo Bingo: O Rei das Manhãs (2017). E o roteiro ficou a cargo de Thiago Dottori (de Os 3, 2011), que tinha a difícil tarefa de fazer crível a amizade daquelas quatro crianças, além de transpor para as telas algo que sempre funcionou muito bem no papel.

Cebolinha e Mônica disputam o papel de protagonista nessa história, com Cascão e Magali dando suporte. Teoricamente, a turma é dela, mas é o sumiço do cachorro dele que dá o pontapé inicial. Os quatro amigos se juntam e saem à procura de Floquinho. A graphic novel reúne muito bem as características principais dessas décadas de aventuras, e é exatamente nas liberdades que toma que o filme peca. Situações como uma participação bem deslocada do Louco (Rodrigo Santoro, de Ben-Hur, 2016), uma troca de olhares insinuante entre os dois principais e uns risos exagerados do quarteto causam certo estranhamento.

Apesar de qualquer possível falha, o roteiro envolve o público na busca e nos vemos torcendo por aquelas crianças, prestando atenção em cada detalhe. Os quatro atores escolhidos, Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira, demonstram não só muito carisma, mas uma química gigantesca entre eles, sinal de uma preparação de elenco eficiente. As ações e reações deles são típicas de crianças e as que estavam assistindo se divertiram horrores, com risadas altas.

Muitas características de Laços não serão percebidas pelo público mais novo. Mas os maiores conseguem perceber uma agilidade na edição, alguns enquadramentos que dizem muito sem precisar de falas, uma trilha sonora eficiente que ajuda a montar a ambientação necessária. O clima atemporal remete diretamente às revistinhas, fazendo com que o bairro do Limoeiro esteja em uma localidade e época impossíveis de serem decifradas. Na caracterização, mudanças foram feitas, claro, mas o espírito, mantido, o que permite a rápida identificação de outros personagens daquele universo – como Titi, Aninha, Jeremias, Xaveco etc.

A exemplo de Stan Lee, nos filmes da Marvel, Mauricio de Sousa faz uma rápida participação na tela, assim como os irmãos Cafaggi. Como os dois também assinam Lições e Lembranças, é fácil apostar em uma sequência para Laços – ou até em uma trilogia. Mauricio e seus milhares de colaboradores, em todas essas décadas, têm diversas histórias para contar. O que não falta é material para mais aventuras dessa turminha nos cinemas.

Mauricio e a verdadeira Mônica apresentam o elenco

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Programa do Pipoqueiro #42

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro visita o universo de Invocação do Mal, que já conta com sete filmes, e traz comentários e músicas dele, com clássicos como Elvis Presley e The Clash! Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Faltam adjetivos pra Homem-Aranha: Longe de Casa

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Fantástico. Espetacular. Sensacional. Todos esses adjetivos fizeram parte de alguma revista mensal do Homem-Aranha nos Estados Unidos. A mais longeva delas é The Amazing Spider-Man, publicada quase que ininterruptamente desde 1963. The Spectacular Spider-Man e The Sensational Spider-Man tiveram vidas mais curtas. Independente disso, o fato é que Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019) poderia ter qualquer um desses adjetivos no seu nome, pois o filme faz mais do que jus a qualquer um deles. Desde 2004, com Homem-Aranha 2, não se via um filme tão bom estrelado pelo Amigão da Vizinhança. Arrisco mesmo a dizer que este, se não supera, pelo menos se equivale à película estrelada por Tobey Maguire.

Peter Parker (Tom Holland), May Parker (Marisa Tomei), MJ (Zendaya), Ned Leeds (Jacob Batallon) e os demais colegas de escola estão de volta após os Vingadores terem desfeito tudo aquilo provocado por Thanos (Josh Brolin) em Vingadores: Ultimato. Alguns meses se passaram e Peter e seus colegas têm uma excursão escolar marcada para a Europa. Peter, claro, não poderia estar mais empolgado, já que essa é a oportunidade perfeita para se declarar para MJ e tirar umas férias das teias. É claro que a aparição de Mysterio (Jake Gyllenhaal, de Velvet Buzzsaw, 2019), um novo herói que precisa da ajuda do Homem-Aranha, fará com que a viagem de Peter seja tudo, menos divertida.

Um dos fatores que tornam Peter Parker um personagem com o qual quase todos nós – adultos, adolescentes e mesmo algumas crianças – empatizamos é como ele trata a questão da responsabilidade. Peter – como a maioria de nós – vive quase que eternamente o dilema entre o que ele quer e o que ele deve fazer. Em um mundo onde Thor, Capitão América e Homem de Ferro não estão mais presentes, essa questão da responsabilidade (“Com grandes poderes….”) se torna ainda maior, especialmente quando Peter Parker tem o legado de Tony Stark para seguir.  Este é o grande mote de Longe de Casa. Peter vai seguir o legado de Stark e se tornar o maior herói de um mundo que precisa desesperadamente dele ou vai simplesmente ignorar suas responsabilidades para ser um adolescente – relativamente, pelo menos – normal?

Esse é um tipo de conflito que afeta todos nós. Quem jamais quis ir se divertir ao invés de estudar para aquela prova, fazer hora extra para terminar algum trabalho ou ter que cuidar de um ente querido que necessita de apoio? Em Longe de Casa, os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers acertam o tom na hora de tratar da questão de uma maneira que fará com que pelo menos a maior parte da plateia se identifique com os dilemas enfrentados pelo Cabeça de Teia.

O longa, no entanto, não é um drama. Muito pelo contrário, é um tremendo filme de ação. Nos quadrinhos, os “poderes” de Mysterio são sua capacidade de criar efeitos especiais/visuais tão realistas que ninguém duvida de que o que está perante seus olhos é um dragão, um monstro ou uma torre desabando. Os hologramas de Mysterio são tão perfeitos que chegam até a enganar o famoso Sentido de Aranha do herói. Isso o torna uma bela escolha para ser transportada para o cinema e o diretor Jon Watts, com sua equipe de efeitos especiais/visuais, fizeram a melhor versão possível do personagem. Não só ele, mas há muito tempo os poderes do próprio Homem-Aranha, especialmente a sua agilidade aracnídea, não eram tão bem explorados em um filme. O moleque pula, gira, desvia, faz acrobacias quase impossíveis como há muito não se via.

Longe de Casa é o último filme da fase Infinity do MCU e faz com que ela seja fechada – com o perdão do clichê – com chave de ouro. Informações que há algum tempo circulam na internet dão conta de que a ideia de Kevin Feige (o chefão do Marvel Studios) é que a Capitã Marvel de Brie Larson seja o principal rosto da nova fase do MCU, substituindo os já consagrados. Se Feige está mesmo empenhado nisso, ele deve urgentemente contratar uma equipe criativa melhor para cuidar dos futuros filmes da heroína e sugerir que Larson faça algumas aulas sobre como criar empatia de seu personagem com o público.  Do contrário, assim como acontece no Universo Marvel dos quadrinhos desde os anos 1960, o principal personagem do MCU será, sem sombra de dúvidas, o Peter Parker/Homem-Aranha de Tom Holland.

Antes de encerrar, aquela dica de sempre: há duas cenas pós-créditos – na verdade, uma no meio deles – em Longe de Casa. Diferentemente do que aconteceu em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, ambas têm bastante importância não só para o próximo filme do aracnídeo, como para o futuro do MCU como um todo.

Holland já é tido por muitos como o melhor Homem-Aranha do Cinema

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Democracia em Vertigem revisita nossa triste história recente

por Marcelo Seabra

O Brasil passou por tantos percalços políticos nos últimos tempos que era comum ver brincadeiras em redes sociais lamentando a árdua tarefa de professores de História, que teriam que explicar tudo isso para seus alunos. A diretora Petra Costa deu uma grande ajuda nesse sentido, recapitulando os fatos mais importantes e montando o quadro geral. Democracia em Vertigem (2019) é uma obra pessoal, sob o ponto de vista de Petra, e por isso não pode ser descrita como isenta. Mas é extremamente emocional e vai ecoar fundo em parte da população.

O documentário, já disponível na Netflix, começa durante o governo de Dilma Roussef, mostrando um Brasil próspero, herdado de Luís Inácio Lula da Silva. Algumas decisões questionáveis fazem a economia dar algumas derrapadas e a popularidade da primeira presidenta do país cai. É a oportunidade que a oposição precisava para buscar algum elemento e alegar irregularidades. Mas era preciso alguém para articular um golpe a prova de falhas. Um deputado aliado que vira a casaca é a figura ideal – quando Eduardo Cunha entra em cena.

Todos os momentos inacreditáveis que vivemos, com seus personagens e falas marcantes, estão lá. E o melhor: sem nenhuma deturpação canalha, como acontece na série “ficcional” O Mecanismo (2018). O que Temer, Aécio e Jucá disseram saiu de fato das bocas deles. A importância de Sérgio Moro para a atual situação política também fica muito clara, sendo o juiz parcial que os vazamentos do site The Intercept mais do que confirmaram, caso alguém ainda tivesse alguma dúvida. E, correndo por fora, aparece um coadjuvante que mais parece um alívio cômico, se o roteirista tivesse uma mente muito deturpada. Infelizmente, trata-se da realidade e o personagem viria a se eleger o presidente da nação.

É ao mesmo tempo estranho ver retratado nas telas um momento tão recente e público da nossa história, já que vemos muitos documentários tratando de fatos antigos ou distantes, e triste, com a nossa jovem democracia se esvaindo entre nossos dedos. Por se tratar de uma obra com alto teor político, muitos vão se desagradar. Mas em momento algum ela é tendenciosa: o que vemos nas telas são fatos. Inclusive, com críticas aos dois lados, direita e esquerda. As interpretações que vão de cada um. O material cedido por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, enriquece bastante o longa, somando-se às filmagens de Petra.

Como contou em entrevista à revista Carta Capital, Petra buscava de seus entrevistados uma autocrítica, como ela mesma faz. Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus projetos geralmente são bem pessoais, como seu filme mais famoso, Elena (2012), em que Petra mergulha nas memórias da irmã que viu pela última vez aos sete anos. Em Democracia em Vertigem não foi diferente: a narração da própria diretora e roteirista entrega seus questionamentos e suas verdades, que caem por terra. Concordando-se ou não com ela, acompanhá-la durante esse processo é muito válido.

Petra Costa viu seu filme ser considerado um dos mais importantes de 2019 pelo New York Times

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