Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes era, como ele próprio brincava, um dos maiores nomes da música popular brasileira. Não só pela extensão de seu nome, mas por uma carreira repleta de sucessos que repercutem até hoje. Belchior foi — e continua sendo — uma figura enigmática na música, e a minissérie Alucinção, lançada pelo Canal Brasil, se propõe a decifrar esse personagem determinante do cancioneiro nacional.

Lançada em quatro episódios semanais, a minissérie já entrega pelo nome a falta de criatividade que a obra atinge: “Alucinação” é o nome do disco mais célebre de Belchior, bem como uma das músicas mais famosas de sua vasta carreira. É pouco inspirado que a minissérie usasse justamente esse nome para biografar o artista cearense.
E os quatro episódios não vão muito além de um vai e vem temporal na vida do cantor. Bem caracterizado, Luiz Carlos Vasconcelos (Carandiru, 2003) é o artista já maduro, na fase em que ele misteriosamente some dos holofotes — motivo pelo qual o pedido “volta, Belchior” foi acrescentado ao vocabulário brasileiro. Já Caian Zattar (ambos acima) faz a fase jovem do cantor, interpretando-o no Ceará entre a sua vida de seminarista e a de estudante de Medicina, chegando à fase em que tenta a vida de músico no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Ainda que essa linha de tempo funcione, mesmo sendo um recurso um tanto quanto saturado, Belchior foi um artista de muitas nuances, sobretudo angústias, e o formato não atinge essa complexidade. Suas letras afiadas retratam uma juventude perdida entre o desconforto da cidade grande, o confronto de gerações e as dificuldades de alguém que pretendia viver de música vindo de longe das grandes capitais do sudeste.

E talvez faltem na obra justamente as canções do artista: por questões de direitos autorais, “Alucinação”, “Sujeito de Sorte”, “Na Hora do Almoço” e “Como Nossos Pais”, entre outras, ficaram de fora da série. A falta das obras não acarreta simplesmente em buracos na sua biografia, mas é como se faltasse um ingrediente fundamental para entender o artista. Os quatro episódios da minissérie não explicam o artista que ela se propôs a decifrar, nem dão a dimensão de quem foi Belchior. Ou mesmo ajudam a orientar sobre a fase da vida em que ele simplesmente sumiu.
Outros episódios de sua vida são pouco explorados: a relação com Elis Regina se resume a dois diálogos; com Vinícius de Moraes, a apenas um. No entanto, o famoso “Pessoal do Ceará” tem participação importante na minissérie: Ednardo, Amelinha e Raimundo Fagner são presenças constantes e conseguem concentrar a influência que tiveram em Belchior.
A briga de Belchior com Fagner é um tanto abrupta, mas muito se deve a versões diferentes de como ela teria ocorrido. De toda forma, ao final dos quatro episódios, o espectador que deseja entender melhor o Antônio Carlos Belchior sai com mais perguntas do que respostas.

O verdadeiro biografado continua um mistério






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Em sua segunda semana disponível na Netflix, O Jogo do Predador (










