Atuações são o forte de Era Uma Vez Um Sonho

Em toda temporada de premiações, temos aqueles filmes medíocres, que não fogem dos piores estereótipos, e que acabam chamando a atenção por algum motivo. Distribuído pela Netflix, o exemplar do momento é Era Uma Vez Um Sonho (Hillbilly Elegy, 2020), que tem toda cara de isca de Oscar. Com atuações fortes e algumas sequências emocionantes, a obra fica a maior parte do tempo onde muitas outras já passaram. E sem metade do brilhantismo.

Com um nome bem famoso na direção, o premiado Ron Howard (de Uma Mente Brilhante, 2002), o longa ainda traz como carro-chefe duas atrizes excelentes até então injustiçadas pela Academia norte-americana. Glenn Close (de A Esposa, 2017) e Amy Adams (de A Chegada, 2016) vivem mãe e filha num drama que deveria exaltar o estilo de vida  de habitantes de estados tidos como caipiras, como Kentucky e Ohio, mas só reforça lugares comuns e dramas familiares frequentemente vistos nos chamados (de forma pejorativa) “filmes da semana da televisão”. Algo como um Álbum de Família (August: Osage County, 2013), que não passou de um irritante agrupamento de celebridades.

O protagonista vem da terceira geração dos Vance, o garoto J.D., que acompanhamos em vários recortes de sua juventude. Quando adulto, na expectativa de conseguir o estágio dos sonhos de qualquer estudante de Direito, ele se vê obrigado a voltar às origens para acudir a mãe. Beverly (Adams) é a trágica vítima do universo: faz todo tipo de burrada e coloca a culpa em quem puder. J.D. Vance é o próprio autor do livro, que aproveita para exorcizar seus demônios.

Vivido por Owen Asztalos e Gabriel Basso (acima) nos dois momentos de sua vida, J.D. é sempre bem representado. Basso pode ser lembrado por Super 8 (2011) ou pela série The Big C e mostra competência, apesar do roteiro colocá-lo em situações mequetrefes. O mesmo que acontece com Close e Adams. Com pouco, elas fazem muito e são a grande atração desse Era Uma Vez Um Sonho. Um toque de maquiagem ajuda com o passar dos anos e cenas nos créditos comprovam o quão perto elas chegaram fisicamente de suas biografadas.

Volta e meia, vemos atrizes lindas se enfeiando, provando que têm muito mais a oferecer que beleza. Foi assim com Charlize Theron em Monster (2003) e Nicole Kidman em As Horas (The Hours, 2002) e parece ser o caso de Adams aqui. Se ela ganhar um Oscar pelo papel, entra no caso de atores que acabam sendo recompensados em papéis menores depois de várias esnobadas, como Leonardo Di Caprio e Denzel Washington. Um Oscar para Amy Adams nunca será desmerecido, mas poderia ter sido por outros trabalhos superiores. E tudo isso vale também para Glenn Glose, que tem boas chances como coadjuvante.

Com pequenos acenos a temas impactantes, o filme ensaia propor determinadas discussões, mas passa reto. O papel do avô, por exemplo, nunca é desenvolvido, não entendemos exatamente qual a importância dele na vida da família. Seria ele o culpado pelas malcriações de Beverly, já que a mimava tanto? E a relação com a esposa, era abusiva ou de descaso? E o paralelo entre deixar a casa numa cidadezinha e ir para a capital e deixar um país como a Índia e ir para os EUA? Fica apenas no vislumbre. A roteirista Vanessa Taylor não se aprofunda e mostra que o sucesso de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) se deve muito mais à direção que a seu roteiro raso e esquemático. E Howard, que já foi capaz de Cocoon (1985), Apollo 13 (1995) e Frost/Nixon (2008), está longe de seus bons trabalhos.

Glenn Close e Amy Adams desde já são nomes fortes nas premiações do ano

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Homevideo | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

O Gambito da Rainha nos apresenta a um fenômeno do xadrez

Ocupando as primeiras posições entre as obras mais vistas na Netflix desde o seu lançamento, O Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit, 2020) é um fenômeno semelhante à sua protagonista. Adaptando um livro tido como difícil, a série conta em sete episódios a história de uma menina órfã que se destacou num mundo prioritariamente masculino: o dos campeonatos de xadrez. E teve, como consultores, duas referências do jogo, para tornar as partidas críveis até para quem é especialista nele.

Publicado em 1983, o livro de Walter Tevis teve seus direitos de adaptação adquiridos pelo produtor Alan Scott em 1992, mesmo ele sabendo se tratar de um material complicado de levar ao Cinema. O ator Heath Ledger (o Coringa de O Cavaleiro das Trevas) pretendia fazer sua estreia como diretor e já estava conversando com Scott, que escreveu uma primeira versão do roteiro. Ledger faleceu em 2008 e o projeto ficou suspenso até a chegada de Scott Frank, vindo dos bem-sucedidos Logan (2017) e Godless (2017).

Juntos, os dois Scotts reescreveram o roteiro e produziram a série, com Scott Frank dirigindo os sete episódios. E Anya Taylor-Joy (atualmente nos cinemas em Os Novos Mutantes, 2020) foi convocada para o complexo papel principal, como uma garota que cresce em um orfanato e aprende a jogar xadrez com o zelador. Dos porões do orfanato para o mundo, Beth Harmon se torna famosa pela facilidade com que derrota todos os nomes estabelecidos, ganhando um espaço até então inédito para uma mulher.

Taylor-Joy e a pequena Isla Johnston se revezam no papel, quando a história vai e volta no tempo, e ambas fazem um ótimo trabalho. A mais velha tem um olhar hipnotizante e uma presença magnética. Taylor-Joy nos leva na jornada de Beth: além de desenvolver seus gostos e preferências, como suas roupas, ela cresce no jogo estudando todas as jogadas conhecidas (como a própria gambito da rainha). O problema de Beth é a grande disposição ao vício, passando de pílulas calmantes para todo tipo de bebida alcóolica.

Com figurinos maravilhosos e cenários detalhistas, a série recria as décadas de 50 e 60, mostrando também o modo de vida da época. Um importante elemento que ajuda a caracterizar os momentos mostrados é a trilha sonora. Além das faixas originais, criadas por Carlos Rafael Rivera (também de Godless), ótimas músicas, de diversas bandas, foram escolhidas, se tornando uma atração à parte. Artistas como Kinks, Monkees, Peggy Lee, Donovan, Martha and the Vandellas, Shocking Blue e muitos outros podem ser ouvidos na série.

Além das duas intérpretes de Beth, O Gambito da Rainha conta com mais atores interessantes. Entre os já estabelecidos, temos Thomas Brodie-Sangster (de Game of Thrones), Harry Melling (de O Diabo de Cada Dia, 2020), Marielle Heller (diretora de Um Lindo Dia na Vizinhança, 2019) e Bill Camp (de The Outsider), que vive o zelador, Sr. Shaibel. Das caras menos conhecidas, os destaques são Jacob Fortune-Lloyd (de Star Wars: A Ascensão Skywalker, 2019 – acima) e a estreante Moses Ingram, uma boa surpresa como a amiga de infância de Beth.

O foco de O Gambito da Rainha é o jogo de xadrez e era necessário ter veracidade nessa área. Por isso, foram contratados para auxiliar a produção o campeão mundial Garry Kasparov e o técnico Bruce Pandolfini. Mas outras discussões importantes surgem na série, usando o xadrez apenas como escada. A questão da dependência química de Beth é o ponto principal, além do papel e do reconhecimento da mulher naquelas décadas. São sete episódios de muito conteúdo.

As meninas da primeira fase também são ótimas

Publicado em Adaptação, Estréias, Indicações, Séries | Com a tag , , , , , , | 4 Comentários

Tenet é o novo espetáculo visual de Nolan

Uma campanha de divulgação enigmática cercou Tenet (2020) por um bom tempo – ainda mais com os adiamentos da estreia devido à pandemia. No fim, concluímos que o título já diz muito sobre o filme: um palíndromo que não esclarece nada e, ao mesmo tempo, parece ser mais complicado do que de fato é. A direção de Christopher Nolan é garantia de um espetáculo visual, mas não necessariamente de um grande filme.

A sensação que temos ao chegar ao cinema sem saber nada sobre o roteiro é a mesma do protagonista quando é envolvido na trama. Propositalmente e sem nenhuma sutileza, ele é reafirmado (e se reafirma) frequentemente como protagonista da história, como se isso já não fosse óbvio. Nolan, também roteirista, parece ter tido uma ideia promissora e criado um início e um fim, tendo alguma dificuldade com o meio.

Começando com uma situação tensa sem relação direta com a história principal, apenas para apresentar o personagem, o filme já se coloca como uma aventura à James Bond. A associação é óbvia e faz parecer que Nolan está afirmando ser capaz de chegar próximo de 007 sem precisar de material baseado na obra de Ian Fleming. Tudo em Tenet  é original e mostra o poder do realizador em Hollywood: qualquer ideia que ele proponha ganha sinal verde e um orçamento polpudo. Seu nome no cartaz é retorno certo.

Uma crítica comumente feita à obra de Nolan é sobre a falta de engajamento emocional junto ao público, e essa característica chega ao ápice em Tenet. Quando mal entendemos o que está acontecendo, fica difícil se importar com alguém. Se, em Interestelar (Interstellar, 2014), o diretor ainda tentou arrancar algumas lágrimas, aqui ele desistiu totalmente. Ao contrário de A Origem (Inception, 2010), que trazia uma subtrama familiar para o Cobb de DiCaprio, permanecemos no escuro quanto ao protagonista.

Segurando as pontas como a atração principal, John David Washington não é surpresa para ninguém. O talento do ator já havia ficado bem claro em Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018) e mais uma vez ele faz um ótimo trabalho. Com tamanha segurança, ele nem de longe segue na sombra do pai famoso, Denzel. E esse acaba sendo um problema para o filme: assim como é com James Bond, nunca ficamos realmente com receio de que algo grave vá acontecer ao personagem. Apenas aguardamos o desenrolar da ação.

Entre figurinhas repetidas e novidades, Nolan convocou um grande time de atores. Dentre as repetições, temos o habitual Michael Caine (o Alfred da trilogia Batman, entre outros), Kenneth Branagh (Dunkirk, 2017) e Martin Donovan (Insônia, 2002). Robert Pattinson (curiosamente, o novo Batman) é o principal entre os novos reforços, e ainda temos Elizabeth Debicki (de As Viúvas, 2018), Himesh Patel (de Yesterday, 2019) e Aaron Taylor-Johnson (de Animais Noturnos, 2016). Com maior ou menor importância para a trama, todos cumprem bem os seus papéis.

Contando com a trilha de Ludwig Göransson (de Pantera Negra, 2018) e a fotografia de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar e Dunkirk), Nolan há muito não tem o que provar tecnicamente. Os efeitos são lindos e críveis, alterando a realidade como a conhecemos, como em A Origem. Só o desenvolvimento da história deixa a desejar, lembrando um pouco a trajetória de M. Night Shyamalan. São duas horas e meia que demoram a passar. Talvez, seja a hora do diretor só dirigir, deixar a escrita para outro. Ou, ao menos, voltar à parceria com o irmão, Jonathan.

Nolan dirige Washington, seu protagonista

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Cinemas reabrem com Novos Mutantes

Com a reabertura dos cinemas, filmes várias vezes adiados estão entrando em cartaz. Esse é o caso de Os Novos Mutantes (The New Mutants, 2020), superprodução Marvel que busca uma abordagem diferente com seus personagens. Com um clima de terror, o longa se afasta das aventuras heroicas de costume, o que é uma inovação muito bem-vinda. O problema é que erra o alvo miseravelmente.

Enquanto Deadpool levou a ação para o lado da comédia e Logan mostrou um drama intimista, Novos Mutantes busca “uma mistura entre Stephen King e John Hughes”, como define o diretor e roteirista Josh Boone. Ele saía do sucesso do romance adolescente A Culpa É das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2014) e levou a ideia aos produtores dos X-Men, Simon Kinberg e Lauren Shuler Donner. Nascia ali a proposta para mais uma trilogia.

Baseado nos quadrinhos de Chris Claremont e Bill Sienkiewicz, o roteiro (coescrito por Knate Lee) reúne cinco jovens mutantes num hospital (a mesma locação usada em Ilha do Medo, 2010). Coordenados pela Dra. Cecilia Reyes (Alice Braga, de A Cabana, 2017), eles devem dominar seus poderes para serem liberados a conviver em sociedade. Todos eles têm um passado de destruição e morte e convivem com a culpa. A terapia da Dra. Reyes visa prepará-los para o mundo.

 

Citando sempre um superior, que todos deduzem ser o Professor Charles Xavier, a doutora vigia os cinco o tempo todo e de cara fica claro para o público que há algo errado. A personagem que conduz o público é Danielle Moonstar (Blu Hunt, da série The Originals), uma garota indígena que teve sua tribo devastada e é acolhida por Reyes. Dani não sabe do que é capaz e guarda uma raiva imensa pela perda do pai e amigos.

Os outros quatro jovens formam um grupo bem distinto. Sempre lembrada por Game of Thrones, a inglesa Maisie Williams vive Rahne Sinclair, uma escocesa religiosa em crise com sua fé. Outro inglês, Charlie Heaton (de Stranger Things), faz um ótimo sotaque caipira do Kentucky como Sam Guthrie. Revelada em A Bruxa (The Witch, 2015) e sucesso do momento em O Gambito da Rainha, a americana Anya Taylor-Joy vive uma mutante russa bem marrenta. Fechando o grupo, temos outro brasileiro (além de Braga), Henry Zaga (de 13 Reasons Why), que faz Roberto da Costa, personagem visto anteriormente na franquia dos X-Men com outro ator.

O elenco é competente e os efeitos especiais são satisfatórios. O problema de Novos Mutantes é a conveniência frequente do roteiro. Quando é necessário, as coisas acontecem de certa forma. Os poderes, por exemplo, são usados quando Boone determina, e em outros momentos os personagens simplesmente optam por sair correndo. Colocar uma única pessoa para cuidar de cinco jovens superpoderosos é a coisa mais estúpida que poderiam fazer, mesmo sendo ela própria uma mutante. Por que Roberto está sempre lavando panelas é algo que nunca entendemos.

Apresentar jovens mutantes que não dominam suas habilidades não é exatamente uma novidade é foi muito bem-feito em Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). É bem possível se divertir com Os Novos Mutantes, algumas sequências são interessantes o suficiente. Se houver continuação, certamente vai perder essa aura de terror, e terá a obrigação de ser melhor. Se ficar só nesse, logo será esquecido. Se é que já não foi.

Anya Taylor-Joy é uma das atrizes mais comentadas do momento

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Longas da Netflix renovam o gênero terror

Com premissas e andamentos completamente diferentes, dois longas de terror chamam a atenção na Netflix e trazem ar fresco ao gênero. Enquanto O Que Ficou Para Trás (His House, 2020) usa a conhecida ideia de casa mal assombrada para construir pouco a pouco um clima opressivo e assustador, Sem Conexão (lesie dzis nie zasnie nikt, 2020) é da escola de Sexta-feira 13, com jovens sendo massacrados em um acampamento. E, mesmo que superficialmente, os dois abordam temas importantes em suas tramas. 

Apesar de produzido no Reino Unido, O Que Ficou Para Trás nos apresenta a dois refugiados da guerra no sul do Sudão. Partindo de um ponto muito sério, cuja discussão é necessária, o diretor e roteirista estreante Remi Weekes conseguiu criar uma história poderosa para personagens, como ele, negros. É bem raro ver filmes de terror estrelados por negros, ainda mais tratando de algo tão atual como a imigração, e Weekes cumpriu bem o seu intento.

Ao fugir do Sudão, o casal Majur é preso na Inglaterra até ter sua situação averiguada e receber asilo. Direcionados à periferia de Londres, eles experimentam o racismo dos vizinhos, mas agradecem a oportunidade de terem uma casa boa e espaçosa. Bol (Sope Dirisu, de Castelo de Areia, 2017) tenta se inserir na cultura local, comprando roupas e indo a um bar para se misturar. Rial (Wunmi Mosaku, das séries Luther e Lovecraft Country) não abandona seus costumes tão facilmente, e a lembrança da filha morta a acompanha bem de perto.

As coisas ficam mais interessantes (para o público) quando a tal assombração aparece e conhecemos melhor as circunstâncias das vidas de Bol e Rial. É um terror que cria situações bem atípicas, coisa rara de se ver, e por isso mesmo muito bem-vindas. É um filme com algo a dizer, com críticas a fazer. O personagem de Matt Smith (que viveu o 11º Doctor Who, entre muitos outros) reclama que o casal tem uma casa maior do que a dele, ele só se esquece de todas as dificuldades pelas quais eles passaram e passam, por viverem num país que não é o deles.

Mais convencional, Sem Conexão parte de uma rápida discussão sobre os efeitos de tecnologia excessiva na vida dos jovens para seguir o bê-a-bá do subgênero conhecido como slasher movie. Apesar das semelhanças com as aventuras de Jason Voorhees no acampamento Crystal Lake, o filme está mais para O Massacre da Serra Elétrica (de 1974 ou a refilmagem). E não deixa de fazer um aceno a Um Lobisomem Americano em Londres (1981), que é nominalmente citado.

Diversos jovens chegam em vários ônibus a um acampamento onde passarão uma semana desconectados, em contato com a natureza, se virando em barracas e com comida enlatada. Eles são divididos em grupos menores e acompanhamos um deles pelo mato. Paralelamente, conhecemos os habitantes de uma casinha humilde. Já dá pra chutar que esses dois núcleos vão se encontrar e muito sangue vai jorrar. Prato cheio pra quem acha esse tipo de filme divertido. E mistura outros elementos que não serão citados aqui para manter a surpresa.

O diretor e roteirista polonês Bartosz M. Kowalski faz uma obra que, ao mesmo tempo em que é original, presta homenagem aos colegas mais famosos. Ele monta um grupo com os seguintes perfis: uma garota traumatizada e destemida; uma outra linda, que costuma ser tida por burra e nem por isso desiste do que quer; um atleta fortinho que é também um youtuber; um nerd que conhece as regras do Cinema de terror (e lembra o Randy de Pânico); e um outro cara que tem uma revelação que explica seu comportamento. Quase um Clube dos Cinco, mas com tripas expostas.

Para quem está lendo, pode parecer besta, mas Sem Conexão é um filme cativante. Ele e O Que Ficou Para Trás têm suas qualidades e, embora bem diferentes, misturam diversão com temas mais sérios. Sem Conexão, produzido na Polônia, ainda aproveita para apontar o absurdo da extrema direita que, até em um país massacrado pela guerra, saúda o nazismo. É mais um motivo para assistir, assim como ao inglês, que tem suas questões sobre imigração e as dificuldades dos refugiados. Ambos provam que aquele que tenta separar arte e política não passa de um tolo.

Em inglês, o título ficou algo como “Ninguém Dorme na Floresta Esta Noite”

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações | Com a tag , , , , , , , , | 1 Comentário

The Undoing é o novo mistério da HBO

The Undoing é mais uma adaptação literária produzida pela HBO, estrelada por Nicole Kidman e escrita por David E. Kelley. Os três repetem a parceria bem-sucedida de Big Little Lies, minissérie que fez tanto sucesso que acabou ganhando uma segunda temporada. Como de costume na TV a cabo, temos a cada semana um novo episódio no horário nobre do canal.

Pelos três primeiros episódios, dá para perceber que a nova atração não pega carona na anterior. Ao invés de uma cidadezinha costeira, temos Nova York, grande metrópole com seus prédios enormes e suas escolas elitistas. Novamente, Kidman é casada com um homem importante, o Dr. Jonathan Fraser (Hugh Grant, de Magnatas do Crime, 2019), e eles têm um filho (vivido por Noah Jupe, de Um Lugar Silencioso, 2018). As semelhanças param por aí.

A série começa nos apresentando à rotina da família. Enquanto o oncologista deixa o filho na escola e segue para o hospital, a psicóloga Grace vai para o consultório atender. Entre as sessões dos clientes, ela consegue tempo para se reunir com outras mães para combinarem eventos beneficentes para arrecadar fundos para uma escola que parece já ter tudo.

Numa dessas reuniões, Grace conhece Elena (a italiana Matilda De Angelis), uma mãe mais jovem e linda que parece deslocada entre as demais dondocas do grupo. A partir daí, desenrola-se um suspense envolvente, muito bem trabalhado pela diretora Susanne Bier – que vem de outro sucesso na TV: O Gerente da Noite (The Night Manager, 2016). Tudo é muito elegante, com figurinos, ambientes e enquadramentos que reforçam o luxo da vida daquela família e seus pares.

Com apenas seis episódios, todos dirigidos por Bier e escritos por Kelley (a partir do livro de Jean Hanff Korelitz), The Undoing segue num ritmo interessante, com muita coisa acontecendo em cada capítulo. Sem entrar em detalhes, pode-se dizer que Grace não tem ideia do que a espera, e a história se torna bem mais interessante que Big Little Lies e não tem os furos e exageros de outro destaque recente, Little Fires Everywhere (2020).

Além dos já citados, o elenco ainda conta com Edgar Ramírez (de Wasp Network, 2019) e o ótimo veterano Donald Sutherland (de Ad Astra, 2019). Liderando esse grupo notável, Kidman está muito bem, como sempre, numa atuação delicada, focada nos detalhes. E ainda canta a música-tema, uma nova versão da clássica Dream a Little Dream of Me. Grant não fica atrás, compondo um sujeito sensível e muito crível. De Angelis (acima) não precisa fazer muito para chamar a atenção, tamanha a sua beleza.

É engraçado como o mau hábito adquirido em serviços de streaming faz o público ficar desacostumado de ter que esperar uma semana por um novo episódio. Resta torcer para que as demais partes de The Undoing sigam pelo mesmo caminho, mantendo o nível do início. Dessa forma, a HBO vai sempre conseguir viciar seus espectadores, e sem precisar gastar a fortuna de um Game of Thrones.

O figurino de The Undoing é um dos pontos altos da série

Publicado em Adaptação, Estréias, Indicações, Séries | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

Conheça a Grateful Dead em Long Strange Trip

Em meados da década de 90, graças a uma coletânea de rock, descobri a banda Grateful Dead. A música era Casey Jones, tida como uma das mais acessíveis aos “não iniciados”. Ou seja: uma faixa mais comercial, curta, menos viajada. Não exatamente o usual, quando se trata deles. Uma série disponível no Amazon Prime Video tem a função de apresentar a trupe a novas gerações, indo muito além de uma narração cronológica. Ela de fato provê uma experiência próxima de uma vivência.

Retirado de um verso de Truckin’, o nome Long Strange Trip, já usado em um filme sobre o guitarrista Bob Weir, agora é usado numa série (2017) de quatro horas de duração, divididas em seis episódios que acompanham as mais de três décadas de existência da banda. Mais do que simplesmente enumerar fatos, a obra recria o clima das épocas visitadas, levando o público para dentro dos shows da banda. Ninguém menos que Martin Scorsese está entre os produtores executivos, além do filho do baterista Bill Kreutzmann, Justin Kreutzmann.

Nos primeiros episódios, conhecemos as figuras que formariam a Grateful Dead e algumas informações curiosas sobre a banda, como a explicação sobre o nome: a expressão (algo como “mortos agradecidos”) foi encontrada na sorte por um deles, Jerry Garcia, num dicionário, e remete aos espíritos que são gratos por terem tido um funeral apropriado. O título pensado originalmente, Warlocks, era usado por outra banda, que também pensou em outro e virou ninguém menos que a Velvet Underground.

Nem só de apresentações e curiosidades é formado Long Strange Trip. Pelo contrário. Ao cobrir um roteiro enxuto (sim, são quatro horas bem aproveitadas), o experiente documentarista Amir Bar-Lev alterna entrevistas atuais com imagens de época, compondo um quadro muito rico que dá uma ideia exata de como era a vida, os shows, os excessos, as perdas e os caminhos seguidos pelos membros. Aqueles ainda vivos dão depoimentos que completam lacunas e relembram os falecidos, como o mítico Ron “Pigpen” McKernan, integrante do chamado “clube dos 27”.

Os “dead heads”, como são chamados os fãs da banda, são um episódio à parte. Literalmente. Há um episódio dedicado a eles. Alguns iam a todos os shows pelos Estados Unidos afora. Outros, por não conseguirem comprar ingresso, ficavam do lado de fora e aproveitavam assim mesmo. A bagunça no entorno das apresentações se tornou impraticável e mostrava o vulto que os músicos tomaram no país. Apesar de não serem tão conhecidos fora (e aqui no Brasil), lá eles eram amados e seguidos como a uma seita, o que os integrantes rechaçavam.

Ainda que várias pessoas passem pela tela e seja muito interessante conhecê-las, Jerry Garcia acaba sendo o mais enfocado, não tem como escapar. Frequentemente indicado como o líder da Grateful Dead, ele corria dessa posição. Carismático como poucos e muito habilidoso nas letras, vocais e guitarras, ele era visto pela mídia como o principal deles e pelos fãs quase como um messias. Membro fundador, Garcia ficou até a sua morte, e os episódios finais da série ficam bem dramáticos exatamente por isso. A fama o mantinha prisioneiro em quartos de hotéis e as drogas, que inicialmente serviam para expandir a mente, passaram a ser uma válvula de escape.

Se é bom escutar um disco da Grateful Dead, um show é muito melhor. Cada um trazia uma sensação, um resultado. Por isso, os fãs se esforçavam para ir a vários deles. Bar-Lev nos leva o mais perto possível dessa experiência. A relação da banda com uma gravadora é mostrada, e não era das melhores. Eles se esmeravam mesmo era no contato com os fãs. E Long Strange Trip deve trazer vários novos. O diretor e sua equipe podem considerar a missão cumprida.

Garcia foi um dos grandes nomes da música norte-americana

Publicado em Estréias, Homevideo, Indicações, Música, Personalidades, Séries | Com a tag , , , , , , , , , , | 2 Comentários

O sotaque e o Cinema de Sean Connery

Aos 90 anos, foi-se um ícone do Cinema. Sir Thomas Sean Connery faleceu enquanto dormia, em sua casa nas Bahamas, onde morou pelas últimas duas décadas. Entre vários papéis marcantes, Connery será sempre lembrado como o primeiro e maior James Bond das telas. Não importa a qualidade dos novos intérpretes do espião, foi o escocês quem criou todo um estilo e uma série de bordões imortais.

Depois de uma curta carreira como fisiculturista, Connery chegou a receber proposta para virar jogador de futebol. Mas já tinha 23 anos, achou que teria que se aposentar em pouco tempo. Preferiu buscar trabalhos como ator e despontou no teatro, começando com pequenos papéis até chegar a protagonista. Depois de trabalhar na televisão, foi participar da seleção para a adaptação da obra de Ian Fleming (abaixo) que trazia um espião inglês envolvido com tramas de destruição nuclear e mulheres lindas e fatais.

Os produtores e mesmo o escritor tinham pessoas diferentes em mente para o papel, mas havia dois problemas principais: os escolhidos não topavam um contrato para vários filmes e o orçamento não comportava grandes estrelas. Depois de muitos testes, toparam Connery, que tinha algo de muito másculo. Diz a lenda que o produtor Albert “Cubby” Broccoli foi persuadido pela esposa, assim como Fleming teria ouvido a opinião da namorada.

Assim, Connery despontou para o estrelato, vivendo Bond em O Satânico Dr. No (Dr. No, 1962) e em outras seis aventuras depois. Entre os filmes, ele conseguia encaixar outros papéis, trabalhando com Alfred Hitchcock em Marnie – Confissões de Uma Ladra (1964) e em histórias de outros grandes escritores, como Agatha Christie (em Assassinato no Expresso Oriente, 1974) e Umberto Eco (em O Nome da Rosa, 1986). Ele ainda foi o pai de outro ícone, Indiana Jones, roubando a cena de Harrison Ford.

Mesmo com muito sucesso no Cinema, sendo Os Intocáveis (The Untouchables, 1987 – acima) provavelmente o mais premiado, o ator não escapou de alguns fiascos. Zardoz (1974) foi dos mais marcantes, mas não arranhou uma carreira que ainda teria grandes longas – até se deparar com a adaptação de quadrinhos A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen, 2003). A produção foi tão conturbada e o fracasso foi tão grande que o ator decidiu se aposentar para não ter que passar por tudo aquilo novamente.

Fugindo da aposentadoria rapidamente, Connery pôde usar sua tão famosa voz grave, com aquele característico sotaque escocês, na animação Sir Billi (2012). Participações importantes foram oferecidas a ele, como o mago Gandalf de O Senhor dos Anéis e o Arquiteto de The Matrix, mas Connery estava desiludido pelos “idiotas fazendo filmes em Hollywood” e recusou até um quarto Indiana Jones. O mito, no entanto, já estava criado e, no coração dos cinéfilos, ele será sempre Bond, James Bond.

Essa deve ser a imagem que vem à mente quando o nome Sean Connery é mencionado

Publicado em Filmes, Indicações, Listas, Notícia, Personalidades | Com a tag , , , , | 1 Comentário

Rebecca ganha nova roupagem, ainda inesquecível

Publicado em 1938, o livro Rebecca, de Daphne Du Maurier, já ganhou várias adaptações para o Cinema e a TV, sendo a primeira delas a mais famosa, dirigida por ninguém menos que Alfred Hitchcock (em 1940) e vencedora dos Oscars de Melhor Filme e Fotografia em preto e branco. Graças à Netflix, a história ganha agora uma nova versão para se comunicar com um público mais jovem. Diga-se de passagem, bem parecida com a clássica.

Rebecca – A Mulher Inesquecível (2020) traz algumas diferenças em relação ao filme de Hitchcock e até ao livro de Du Maurier, mas a trama básica segue a mesma: uma garota de origem humilde conhece um milionário viúvo, eles logo se casam e ela descobre que a memória da falecida segue firme, a assombrando. Enquanto o casal passeia pela Europa, tudo segue às mil maravilhas. Os problemas começam quando chegam à suntuosa mansão do sujeito.

Nos papéis que deram indicações ao Oscar a Laurence Olivier e Joan Fontaine (ambos vencedores por outros trabalhos) em 1941, temos agora Armie Hammer (de Me Chame Pelo Seu Nome, 2017) e Lily James (de Yesterday, 2019), ambos muito bons. Hammer, apesar de americano, dá a pompa inglesa necessária a Maxim de Winter, enquanto James segura bem as mudanças de sua personagem, uma jovem insegura e manipulada. Ela, inclusive, tem um longo rol de heroínas literárias em sua carreira, incluindo Cinderela (2015).

A falta de um nome para a protagonista reforça a falta de identidade dela: além de não gostar de mencionar a família, ela agora se identifica com a do marido, passando a ser apenas a Sra. de Winter. Ela passa de uma mera acompanhante de uma senhora rica (Ann Dowd, de Hereditário, 2018) a esposa de um homem rico. Acompanhamos, no filme, sua jornada rumo a formar uma personalidade. É como ela diz: tudo o que sabe, leu em livros, lhe falta experiência.

A pedra no meio do caminho da nova Sra. de Winter chama-se Sra. Danvers, a governanta de Manderley. A casa enorme demanda vários criados para mantê-la, e é Danvers quem coordena tudo. E é ela também que faz questão de manter o nome Rebecca na boca de todos. As duas tinham uma relação muito próxima e foi Danvers quem mais sentiu a morte de sua patroa.

Assim como fez Judith Anderson na versão de 40, Kristin Scott Thomas (de Tomb Raider, 2018) cria um tipo ameaçador, sempre parece ter algo mais acontecendo além do que podemos ver. Danvers permanece fiel a Rebecca e não aceitará facilmente a nova Sra. de Winter. O filme perde ritmo exatamente quando a personagem aparece menos, deixando de lado o clima de suspense e assumindo um mais de dramalhão.

Em seu primeiro filme americano, Hitchcock ia tomar várias liberdades no roteiro, mas o poderoso produtor David O. Selznick exigiu o máximo de fidelidade possível ao livro. Essa é a mesma opção do diretor Ben Wheatley e seus roteiristas, apesar de vermos algumas pequenas diferenças. Ainda que desacelere no terço final, o resultado é melhor do que muita coisa lançada por aí e se destaca entre as opções oferecidas pela Netflix.

Manderley, a casa dos de Winter, é de fato intimidadora

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações, Refilmagem | Com a tag , , , , , , , | 4 Comentários

Mentira Incondicional e Noturno chegam ao Prime Video

Outubro é mês de assistir a filmes de terror e a produtora Blumhouse aproveitou a data para valorizar a diversidade de diretores que fogem do padrão da grande maioria. Por isso, Jason Blum assinou com a Amazon um contrato que prevê o lançamento de oito filmes, sendo que quatro deles já estão disponíveis no Prime Video. Conheça abaixo dois deles.

Lançado no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 2018, Mentira Incondicional (The Lie, 2018) teve a distribuição garantida pelo projeto Welcome to the Blumhouse. Escrito e dirigido pela canadense Veena Sud, é refilmagem de um longa alemão de 2015 e marca o reencontro de Sud com seus atores na série The Killing: Mireille Enos e Peter Sarsgaard.

Na trama, temos Enos e Sarsgaard como um casal separado, pais de Kayla (Joey King, dos dois A Barraca do Beijo), uma adolescente que vai passar uns dias em um acampamento de ballet. Enquanto o pai a está levando, eles passam por uma amiga dela (Devery Jacobs, de Deuses Americanos) que está esperando o ônibus e oferecem carona. Depois de uma parada no acostamento para banheiro, Britney some e Kayla admite tê-la empurrado em um rio.

A partir daí, sempre em cenários frios e tristes, temos os conflitos do ex-casal na tentativa de proteger a filha de uma possível condenação. Somos levados a crer que a cabeça da menina ficou bagunçada devido ao divórcio dos pais, como se filhos de casais divorciados se tornassem adoráveis psicopatas. Se a premissa já é um tanto absurda, as coisas rapidamente ficam piores, com os adultos tomando as piores decisões possíveis e a garota tendo um comportamento ridículo até para a idade dela.

Sarsgaard e Enos têm boas atuações, assim como os coadjuvantes. Só King é um bocado sabotada pelo roteiro, que a coloca em situações difíceis e complicam o seu trabalho. É uma dura missão compor uma menina tão birrenta e cujo comportamento muda tão drasticamente. O final, que deveria chocar pela sagacidade, é a cereja de um bolo irritante. São 90 minutos sofridos para o público, que custam a passar.

Outra atração no pacote da parceria entre a Blumhouse e a Amazon é Noturno (Nocturne, 2020), que já denuncia sua ligação com a música erudita desde o título. O longa nos apresenta a duas irmãs gêmeas com grande talento ao piano. Por algum motivo, só uma delas tem o devido reconhecimento, e isso não se resume apenas ao instrumento, mas à vida social também. Uma é popular, tem namorado e é disputada pelos professores, enquanto a outra segue na sombra da irmã.

Como as duas não são idênticas, a produção pôde chamar duas atrizes para vivê-las. Ambas são lindas, mas uma delas é tratada como patinho feio. Tirando essa estranheza, o resto do filme funciona bem e constrói uma atmosfera de suspense bem eficiente. Elas estudam e moram em uma conceituada escola de música e o clima é sempre de competição, pressão e tristeza. Ainda mais porque uma colega morreu há pouco.

Vividas com sensibilidade por Sydney Sweeney (de Era Uma Vez Em… Hollywood, 2019) e Madison Iseman (de Annabelle 3, 2019), as duas têm ações e reações que flutuam de acordo com o que acontece à volta delas, nunca caindo em extremos estereotipados. Por mais que cheguem a ter raiva uma da outra, elas têm momentos ternos, quando todo o histórico de cumplicidade delas vem à tona. Até então, eram muito unidas, mas Juliet (Sweeney) se cansou de ser a segunda e resolveu tomar o protagonismo de Vivian (Iseman). Nem que, para isso, precise de uma ajuda sobrenatural…

Como fazem alguns bons filmes de terror, Noturno sugere muito e mostra pouco e ainda deixa um final um pouco em aberto, cabendo interpretações. Não deixa de ser uma estratégia duvidosa, já que joga a resolução para o público, mas funciona bem. Sweeney, cuja personagem na série Euphoria tem uma forte carga sexual, se dá bem também como uma menina tímida, retraída e ressentida. Mérito também da roteirista e diretora estreante Zu Quirke, que faz ótimas escolhas e nos deixa no aguardo por novos trabalhos.

Sydney Sweeney tem uma boa chance para brilhar em Noturno

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações | Com a tag , , , , , , , , , , , , , | 1 Comentário