Novo Rei Leão é mais uma refilmagem Disney

por Marcelo Seabra

Adaptar Aladdin em live action pode ser uma boa ideia no papel, independente do resultado. Afinal, é só misturar atores e efeitos especiais e voilá! Dumbo já não funcionaria tão bem, já que o protagonista é um elefante voador e expressivo. O estúdio teria que colocar suas fichas em uma criatura de CGI, independente do elenco fantástico contratado. Seguindo essa lógica, fazer um novo O Rei Leão (The Lion King), dentro dessa tendência, seria totalmente descabido. Foi exatamente o que a Disney fez.

O longa de 1994 parece estar no coração de muita gente, tamanho o debate que o anúncio dessa refilmagem gerou. Já dava para saber que haveria quem defendesse o projeto por pura nostalgia, assim como outros seriam detratores por amarem o desenho e julgarem que nunca seria possível se aproximar. O original chegou sem uma sombra, estabeleceu seu terreno do zero, ganhou prêmios e faturou alto nas bilheterias, gerando até sequências. Com tantas releituras Disney enfileiradas, um novo Rei Leão era aposta certa. Mesmo que não faça nenhum sentido chamar isso de live action – é, no máximo, um desenho com uma nova roupagem.

A história, uma das mais shakespearianas do estúdio, é bastante conhecida: o invejoso irmão do rei o mata e faz o jovem príncipe se sentir culpado e fugir. Mas não se pode fugir de seu destino, e Simba aprende, como um Homem-Aranha peludo, que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Isso, apesar dos recém-adquiridos conselheiros flâneurs, que pregam o lema Hakuna Matata, algo como “esqueça seus problemas”. O berço de ouro do leãozinho fica para trás e ele aprende a se virar na floresta interagindo com outros animais. Apesar de tratar de outros temas, não deixa de ter similaridades com Mogli, o Menino Lobo, que curiosamente ganhou um longa em 2016 dirigido pelo mesmo Jon Favreau.

Em evidência desde que comandou os dois primeiros longas do Homem de Ferro (além de viver o segurança e braço direito Happy Hogan), Favreau agora transita por dois dos maiores filões de Hollywood: o de filmes de super-heróis (mais especificamente da Marvel) e dessas novas versões Disney. Apesar de ele ter reunido um elenco notável, é praticamente impossível esquecer a voz, por exemplo, de Jeremy Irons como Scar, o vilão para quem quase torcemos. Com Mufasa, a dificuldade da tarefa era tão óbvia que tiveram que trazer James Earl Jones novamente, certamente uma das vozes mais marcantes do Cinema.

Na nova encarnação principal, como Simba, temos Donald Glover. De talento reconhecido como ator, roteirista, produtor e diretor (conhece Atlanta?), Glover ainda é um cantor premiado (Childish Gambino), o que ajuda na tarefa de estrelar um musical. Para cantar ao seu lado, como a Nala adulta, trouxeram Beyoncé (de Cadillac Records, 2008), fechando um casal tecnicamente impecável. Mas, mais uma vez, o fantasma de 1994 vem assombrar. A trilha sonora também é assinada por Hans Zimmer, que ganhou seu único Oscar em 94. E as músicas, quando não simplesmente reaproveitam as belíssimas composições de Elton John e Tim Rice, não chegam aos pés delas.

Entre os outros nomes mais relevantes, temos o ótimo Chiwetel Ejiofor (de Maria Madalena, 2018) dando vida a Scar, além do apresentador John Oliver (Zazu), Alfre Woodard (de Luke Cage), Keegan-Michael Key e Billy Eichner (ambos de Friends From College) e Seth Rogen (de A Entrevista, 2014 – ao lado), cujo trabalho como Pumbaa ganha mais destaque pelo tino cômico e pela voz inconfundível. Apesar de todo esse esforço, a proposta de tornar os animais o mais reais possível os deixa sem emoções. A falta de cor nos cenários os faz literalmente uma natureza morta que, junto à falta de expressão dos personagens, aproxima o resultado de um documentário do Animal Planet.

Na comparação com o longa de 94, o novo Rei Leão perde de lavada. Se analisado à parte, como obra independente, deve satisfazer. Era possível perceber no público saindo da sala do Multiplex a sensação de dinheiro bem gasto. Principalmente, entre os mais jovens, que estão sendo apresentados a este universo. Para os mais velhos, ficam muitos buracos. Mais do que Irons, Elton ou Matthew Broderick, as maiores faltas são as da espontaneidade e da emoção.

As emoções do desenho de 94 são imbatíveis

Publicado em Adaptação, Animação, Estréias, Filmes, Indicações, Música, Refilmagem | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

Aladdin é o novo live action da Disney

por Marcelo Seabra

A velocidade das adaptações live action de desenhos da Disney tem aumentado drasticamente. Poucos meses depois da estreia de Dumbo (2019) e antes do novo Rei Leão, chega aos cinemas Aladdin (2019), veículo para Will Smith fazer o que mais gosta: aparecer. Felizmente, o ego do astro está mais controlado e temos uma aventura bem correta, que faz bom uso dos efeitos especiais para contar uma história que, antes de mais nada, é sobre amizade.

A escolha de um egípcio para o papel principal mostra a intenção do estúdio de fazer a coisa certa. Com alguém da grandeza de Smith para chamar público, tiveram liberdade para escolher alguém pouco conhecido para viver Aladdin. Com papéis importantes na televisão, como nas séries Jack Ryan e Open Heart, Mena Massoud vem ganhando atenção e teve aqui sua maior oportunidade até agora. Fazendo bem a transição entre os momentos mais dramáticos e engraçados, com uma boa dose de ação, o ator cumpre sua tarefa a contento, como o ladrão de bom coração que se apaixona sem saber que a garota é a filha do sultão.

Com uma importância bem maior do que ser apenas a mocinha em perigo, a princesa Jasmine se mostra uma mulher forte que sabe que daria conta de substituir o pai quando chegasse a hora. A inglesa de ascendência indiana Naomi Scott (de Os 33, 2015) foi outra boa escolha, e não a toa é uma das agentes de Charlie na nova versão das Panteras. Fechando o quarteto principal, temos o holandês Marwan Kenzari (de Assassinato no Expresso Oriente, 2017) como o vilão Jafar, o conselheiro do sultão que tem sede de poder.

De forma geral, a história de Aladdin não traz novidades, tudo o que vemos é o esperado. Mas o roteiro de John August (de Sombras da Noite, 2012) e Guy Ritchie (de Rei Arthur, 2017) guarda algumas surpresas interessantes que enriquecem o material, como a força que Jasmine demonstra ter. Como diretor, Ritchie traz seus maneirismos, como as cenas desaceleradas que usou na franquia de Sherlock Holmes e em O Agente da U.N.C.L.E. (The Man From U.N.C.L.E., 2015), mas não chega a incomodar. Os cenários suntuosos, cheios de cores e detalhes, enchem os olhos. Parece que estamos em um parque da Disney, enquanto Aladdin corre pelas ruas de Agrabah.

No quesito música, tão forte nos desenhos da Disney, o live action não mostra personalidade. As mesmas canções do original, de 1992, com poucas diferenças. Massoud e Scott fazem suas partes, mas criam momentos desinteressantes, deixando os holofotes para Smith. Com um Gênio que parece a versão mais velha e azul do Fresh Prince, o ator/cantor cria os números mais relevantes, fugindo da sombra do grande trabalho que Robin Williams fez antes. E umas danças estilo Bollywood fecham o show.

Quando não está azul, o Gênio funciona melhor

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Laços leva a Turma da Mônica ao Cinema

por Marcelo Seabra

Tendo uma criança na família, aproveite para convidá-la ao cinema e assista a Turma da Mônica: Laços (2019). Não tendo uma criança como desculpa, vá assim mesmo e confira, sem vergonha, a primeira adaptação em live action da turminha. Com um elenco jovem afiado, a produção realiza o sonho de muitos adultos, dando vida a personagens publicados há 60 anos. Por isso, é óbvio que não teremos apenas crianças nas plateias. E haverá um interessante equilíbrio entre risos e lágrimas.

Em setembro de 2009, foram comemorados os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica – inspirada na própria filha do cartunista. No meio dessa festa, foi lançado o álbum MSP 50 – Mauricio de Sousa Por 50 Artistas, reunião de 50 quadrinistas brasileiros que criaram releituras dos personagens. Esse álbum deu tão certo que, além de originar outros dois, levou a uma série de graphic novels, aquelas revistas maiores, de edições melhores e histórias mais longas. Dessas, a segunda foi Laços, criada pelos irmãos Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi.

Além de prêmios – como o HQMix – e duas continuações, Laços ganhou a distinção de ser a primeira história da Turma da Mônica a chegar aos cinemas com atores. O editor indicado ao Oscar Daniel Rezende (por Cidade de Deus, 2002) assumiu a direção, função que desempenhou no ótimo Bingo: O Rei das Manhãs (2017). E o roteiro ficou a cargo de Thiago Dottori (de Os 3, 2011), que tinha a difícil tarefa de fazer crível a amizade daquelas quatro crianças, além de transpor para as telas algo que sempre funcionou muito bem no papel.

Cebolinha e Mônica disputam o papel de protagonista nessa história, com Cascão e Magali dando suporte. Teoricamente, a turma é dela, mas é o sumiço do cachorro dele que dá o pontapé inicial. Os quatro amigos se juntam e saem à procura de Floquinho. A graphic novel reúne muito bem as características principais dessas décadas de aventuras, e é exatamente nas liberdades que toma que o filme peca. Situações como uma participação bem deslocada do Louco (Rodrigo Santoro, de Ben-Hur, 2016), uma troca de olhares insinuante entre os dois principais e uns risos exagerados do quarteto causam certo estranhamento.

Apesar de qualquer possível falha, o roteiro envolve o público na busca e nos vemos torcendo por aquelas crianças, prestando atenção em cada detalhe. Os quatro atores escolhidos, Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira, demonstram não só muito carisma, mas uma química gigantesca entre eles, sinal de uma preparação de elenco eficiente. As ações e reações deles são típicas de crianças e as que estavam assistindo se divertiram horrores, com risadas altas.

Muitas características de Laços não serão percebidas pelo público mais novo. Mas os maiores conseguem perceber uma agilidade na edição, alguns enquadramentos que dizem muito sem precisar de falas, uma trilha sonora eficiente que ajuda a montar a ambientação necessária. O clima atemporal remete diretamente às revistinhas, fazendo com que o bairro do Limoeiro esteja em uma localidade e época impossíveis de serem decifradas. Na caracterização, mudanças foram feitas, claro, mas o espírito, mantido, o que permite a rápida identificação de outros personagens daquele universo – como Titi, Aninha, Jeremias, Xaveco etc.

A exemplo de Stan Lee, nos filmes da Marvel, Mauricio de Sousa faz uma rápida participação na tela, assim como os irmãos Cafaggi. Como os dois também assinam Lições e Lembranças, é fácil apostar em uma sequência para Laços – ou até em uma trilogia. Mauricio e seus milhares de colaboradores, em todas essas décadas, têm diversas histórias para contar. O que não falta é material para mais aventuras dessa turminha nos cinemas.

Mauricio e a verdadeira Mônica apresentam o elenco

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Nacional, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Programa do Pipoqueiro #42

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro visita o universo de Invocação do Mal, que já conta com sete filmes, e traz comentários e músicas dele, com clássicos como Elvis Presley e The Clash! Aperte o play abaixo e divirta-se!

Publicado em Filmes, Homevideo, Indicações, Música, Programa do Pipoqueiro | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Faltam adjetivos pra Homem-Aranha: Longe de Casa

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Fantástico. Espetacular. Sensacional. Todos esses adjetivos fizeram parte de alguma revista mensal do Homem-Aranha nos Estados Unidos. A mais longeva delas é The Amazing Spider-Man, publicada quase que ininterruptamente desde 1963. The Spectacular Spider-Man e The Sensational Spider-Man tiveram vidas mais curtas. Independente disso, o fato é que Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019) poderia ter qualquer um desses adjetivos no seu nome, pois o filme faz mais do que jus a qualquer um deles. Desde 2004, com Homem-Aranha 2, não se via um filme tão bom estrelado pelo Amigão da Vizinhança. Arrisco mesmo a dizer que este, se não supera, pelo menos se equivale à película estrelada por Tobey Maguire.

Peter Parker (Tom Holland), May Parker (Marisa Tomei), MJ (Zendaya), Ned Leeds (Jacob Batallon) e os demais colegas de escola estão de volta após os Vingadores terem desfeito tudo aquilo provocado por Thanos (Josh Brolin) em Vingadores: Ultimato. Alguns meses se passaram e Peter e seus colegas têm uma excursão escolar marcada para a Europa. Peter, claro, não poderia estar mais empolgado, já que essa é a oportunidade perfeita para se declarar para MJ e tirar umas férias das teias. É claro que a aparição de Mysterio (Jake Gyllenhaal, de Velvet Buzzsaw, 2019), um novo herói que precisa da ajuda do Homem-Aranha, fará com que a viagem de Peter seja tudo, menos divertida.

Um dos fatores que tornam Peter Parker um personagem com o qual quase todos nós – adultos, adolescentes e mesmo algumas crianças – empatizamos é como ele trata a questão da responsabilidade. Peter – como a maioria de nós – vive quase que eternamente o dilema entre o que ele quer e o que ele deve fazer. Em um mundo onde Thor, Capitão América e Homem de Ferro não estão mais presentes, essa questão da responsabilidade (“Com grandes poderes….”) se torna ainda maior, especialmente quando Peter Parker tem o legado de Tony Stark para seguir.  Este é o grande mote de Longe de Casa. Peter vai seguir o legado de Stark e se tornar o maior herói de um mundo que precisa desesperadamente dele ou vai simplesmente ignorar suas responsabilidades para ser um adolescente – relativamente, pelo menos – normal?

Esse é um tipo de conflito que afeta todos nós. Quem jamais quis ir se divertir ao invés de estudar para aquela prova, fazer hora extra para terminar algum trabalho ou ter que cuidar de um ente querido que necessita de apoio? Em Longe de Casa, os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers acertam o tom na hora de tratar da questão de uma maneira que fará com que pelo menos a maior parte da plateia se identifique com os dilemas enfrentados pelo Cabeça de Teia.

O longa, no entanto, não é um drama. Muito pelo contrário, é um tremendo filme de ação. Nos quadrinhos, os “poderes” de Mysterio são sua capacidade de criar efeitos especiais/visuais tão realistas que ninguém duvida de que o que está perante seus olhos é um dragão, um monstro ou uma torre desabando. Os hologramas de Mysterio são tão perfeitos que chegam até a enganar o famoso Sentido de Aranha do herói. Isso o torna uma bela escolha para ser transportada para o cinema e o diretor Jon Watts, com sua equipe de efeitos especiais/visuais, fizeram a melhor versão possível do personagem. Não só ele, mas há muito tempo os poderes do próprio Homem-Aranha, especialmente a sua agilidade aracnídea, não eram tão bem explorados em um filme. O moleque pula, gira, desvia, faz acrobacias quase impossíveis como há muito não se via.

Longe de Casa é o último filme da fase Infinity do MCU e faz com que ela seja fechada – com o perdão do clichê – com chave de ouro. Informações que há algum tempo circulam na internet dão conta de que a ideia de Kevin Feige (o chefão do Marvel Studios) é que a Capitã Marvel de Brie Larson seja o principal rosto da nova fase do MCU, substituindo os já consagrados. Se Feige está mesmo empenhado nisso, ele deve urgentemente contratar uma equipe criativa melhor para cuidar dos futuros filmes da heroína e sugerir que Larson faça algumas aulas sobre como criar empatia de seu personagem com o público.  Do contrário, assim como acontece no Universo Marvel dos quadrinhos desde os anos 1960, o principal personagem do MCU será, sem sombra de dúvidas, o Peter Parker/Homem-Aranha de Tom Holland.

Antes de encerrar, aquela dica de sempre: há duas cenas pós-créditos – na verdade, uma no meio deles – em Longe de Casa. Diferentemente do que aconteceu em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, ambas têm bastante importância não só para o próximo filme do aracnídeo, como para o futuro do MCU como um todo.

Holland já é tido por muitos como o melhor Homem-Aranha do Cinema

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

Democracia em Vertigem revisita nossa triste história recente

por Marcelo Seabra

O Brasil passou por tantos percalços políticos nos últimos tempos que era comum ver brincadeiras em redes sociais lamentando a árdua tarefa de professores de História, que teriam que explicar tudo isso para seus alunos. A diretora Petra Costa deu uma grande ajuda nesse sentido, recapitulando os fatos mais importantes e montando o quadro geral. Democracia em Vertigem (2019) é uma obra pessoal, sob o ponto de vista de Petra, e por isso não pode ser descrita como isenta. Mas é extremamente emocional e vai ecoar fundo em parte da população.

O documentário, já disponível na Netflix, começa durante o governo de Dilma Roussef, mostrando um Brasil próspero, herdado de Luís Inácio Lula da Silva. Algumas decisões questionáveis fazem a economia dar algumas derrapadas e a popularidade da primeira presidenta do país cai. É a oportunidade que a oposição precisava para buscar algum elemento e alegar irregularidades. Mas era preciso alguém para articular um golpe a prova de falhas. Um deputado aliado que vira a casaca é a figura ideal – quando Eduardo Cunha entra em cena.

Todos os momentos inacreditáveis que vivemos, com seus personagens e falas marcantes, estão lá. E o melhor: sem nenhuma deturpação canalha, como acontece na série “ficcional” O Mecanismo (2018). O que Temer, Aécio e Jucá disseram saiu de fato das bocas deles. A importância de Sérgio Moro para a atual situação política também fica muito clara, sendo o juiz parcial que os vazamentos do site The Intercept mais do que confirmaram, caso alguém ainda tivesse alguma dúvida. E, correndo por fora, aparece um coadjuvante que mais parece um alívio cômico, se o roteirista tivesse uma mente muito deturpada. Infelizmente, trata-se da realidade e o personagem viria a se eleger o presidente da nação.

É ao mesmo tempo estranho ver retratado nas telas um momento tão recente e público da nossa história, já que vemos muitos documentários tratando de fatos antigos ou distantes, e triste, com a nossa jovem democracia se esvaindo entre nossos dedos. Por se tratar de uma obra com alto teor político, muitos vão se desagradar. Mas em momento algum ela é tendenciosa: o que vemos nas telas são fatos. Inclusive, com críticas aos dois lados, direita e esquerda. As interpretações que vão de cada um. O material cedido por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula, enriquece bastante o longa, somando-se às filmagens de Petra.

Como contou em entrevista à revista Carta Capital, Petra buscava de seus entrevistados uma autocrítica, como ela mesma faz. Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus projetos geralmente são bem pessoais, como seu filme mais famoso, Elena (2012), em que Petra mergulha nas memórias da irmã que viu pela última vez aos sete anos. Em Democracia em Vertigem não foi diferente: a narração da própria diretora e roteirista entrega seus questionamentos e suas verdades, que caem por terra. Concordando-se ou não com ela, acompanhá-la durante esse processo é muito válido.

Petra Costa viu seu filme ser considerado um dos mais importantes de 2019 pelo New York Times

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações, Nacional, Personalidades | Com a tag , , , , , , , | 2 Comentários

Annabelle nos assombra pela terceira vez

por Marcelo Seabra

Como fez recentemente o Homem-Aranha, a boneca do capeta voltou para o lar. Mas só no título nacional, traduzido de forma equivocada. Annabelle Comes Home faz referência à casa dos Warrens, onde ela foi para seu descanso final. Mas ela obviamente dá um jeito de azucrinar novamente. Annabelle 3: De Volta Para Casa (2019) é cronologicamente a conclusão da trilogia, que foi e voltou no tempo nos episódios anteriores, e eles dividem basicamente os mesmos erros e acertos. Com um resultado bem interessante.

Dando a impressão de uma mão forte do produtor James Wan por trás, além de todos os três terem o mesmo roteirista, Gary Dauberman, esta terceira parte segue na mesma linha. Cria-se um ambiente de suspense bastante eficiente e, ao mesmo tempo em que se utilizam de alguns clichês do gênero, pervertem outros, o que resulta numa mistura no mínimo divertida. Se não acrescenta nada, tampouco joga a franquia na lama. O universo criado por Wan segue honrando a relíquia mais macabra dos Warrens, apresentada no primeiro Invocação do Mal (The Conjuring, 2013).

E, por falar no filme que começou toda essa história, aqui temos novamente o casal Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga). Já conhecidos como exorcistas e envolvidos com o oculto, eles atraem a admiração de alguns e o medo de outros. E a filha deles sofre com isso na escola, sofrendo bullying antes do termo bullying existir – ou não era tão popular quanto é hoje. Judy (Mckenna Grace, a versão mais jovem da Capitã Marvel e da Sabrina da série) é um tanto introvertida e tem em sua babá (Madison Iseman, do Jumanji de 2017) sua única amiga.

Quando os pais viajam em missão, Judy fica sozinha com Mary Ellen e parece que será uma noite bem calma. Mas entra em cena uma amiga curiosa da babá, Daniela (Katie Sarife, da série Youth & Consequences), que vai acordar alguns espíritos do mal. Usando Ed e Lorraine apenas como pontapé inicial, o longa foca nesse competente trio feminino. Mais uma vez, temos a ação acontecendo basicamente dentro de uma casa, e cada cômodo é bem explorado. A luz funciona quando é conveniente, e o público vive alguns momentos de tensão quando o museu do oculto dos Warrens ganha vida. Não falta humor, separando bem os momentos, o que leva a um equilíbrio certeiro.

Além de escrever, Dauberman faz sua estreia na direção e emprega bem os recursos que conhece da franquia. Acrescentando algumas ótimas músicas da época, como as das bandas Badfinger e Bread, ele aproveita para apresentar outras figuras sobrenaturais curiosas, deixando brechas para novos filmes. The Crooked Man já está em produção, e não duvido que o Barqueiro vá ganhar sua aventura solo, aumentando esse universo. Só não pode ser ruim como A Freira (The Nun, 2018) ou A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona, 2019).

Eis as quatro protagonistas

Publicado em Estréias, Filmes, Indicações | Com a tag , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sandler e Aniston se reúnem para um Mistério no Mediterrâneo

por Arthur Abu

Adam Sandler estrela mais um filme de Adam Sandler: Mistério no Mediterrâneo (Murder Mystery, 2019). Já já teremos essa categoria nas buscas da Netflix. Essa parceria que pode ter salvado a carreira de Sandler, pois antes de mudar suas estreias para o serviço de streaming, várias das produções do comediante afundaram nas bilheterias no Cinema. Afinal de contas, se for pra assistir às mesmas piadas e à mesma historinha batida, é melhor assistir no sofá de casa. Mas dessa vez, como se trata de um assassinato misterioso, talvez seja um pouco mais difícil prever o final sem assistir.

O filme conta a história do policial de Nova York Nick Spitz (Adam Sandler, de Os Meyerowitz, 2017), frustrado por falhar pela terceira vez no teste de detetive. Ele é casado com Audrey (Jennifer Aniston, de Dumplin’, 2018), uma cabelereira que tem como paixão seus livros de mistério, já que aparentemente o romantismo de seu casamento ficou pra trás. Após um jantar nada romântico de aniversário de casamento, confrontado por Audrey, Nick mente e diz que planejou uma viagem surpresa para a Europa, a lua de mel 15 anos atrasada do casal.

No voo, eles conhecem Charles Cavendish (Luke Evans, de Velozes e Furiosos 8, 2017), um rico aristocrata a caminho de uma festa de família em um luxuoso iate que os convida a se juntarem a ele e sua excêntrica família. No iate, eles conhecem os outros convidados: a atriz Grace (Gemma Arterton, de João e Maria, 2013), Tobias (David Walliams, da série Walliams & Friend), o piloto de corrida Juan Carlos (Luis Geraldo Mendez, de Club de Cuervos), o Maharajah (Adeel Akhtar, de Victoria e Abdul, 2017), o coronel Ulenga (John Kani, de Pantera Negra, 2018), seu guarda costas Sergei (Ólafur Darri Ólafsson, de Animais Fantásticos 2, 2018) e a ex-namorada de Charles, Suzi (Shioli Kutsuna, de Deadpool 2, 2018), que agora está noiva do bilionário Malcolm Quince  (Terence Stamp, de O Lar das Crianças Peculiares, 2016).

Na noite da festa, após um discurso onde expressa todo seu desprezo pelos membros de sua família, se referindo a todos como sanguessugas interessados apenas em seu dinheiro, Malcolm anuncia que sua herança não será dividia e que sua única herdeira será sua jovem noiva. Momentos antes de assinar o testamento, as luzes se apagam e o idoso bilionário é encontrado segundos depois no chão com um punhal cravado no peito.  A morte de Malcolm é apenas o início desse mistério que torna suspeitos Nick e Audrey, os únicos estrangeiros sem ligação alguma com a vítima e sua herança.

O carisma de Sandler e Aniston, que chamou atenção no sucesso de bilheteria Esposa de Mentirinha (Just Go with It, 2011), parece ter dado certo novamente. Mistério no Mediterrâneo se tornou a estreia mais assistida da Netflix. Os protagonistas mantêm uma dinâmica que dá certo, não são mais jovens se conhecendo e criando um romance como nos vários filmes que já estrelaram ao longo das décadas de 90 e 2000. Entra agora a química e experiência de ambos para criar humor em situações mais cotidianas ou mais extravagantes, como uma perseguição em uma Ferrari ao som de Shoot to Thrill, do AC/DC.

Este é mais um de filme de Adam Sandler estrelado por Adam Sandler, com o mesmo personagem imaturo de sempre, contando as mesmas mentiras para não se meter em confusão com sua amada. Erros de continuação grotescos e um roteiro bem preguiçoso, que cria situações muito convenientes para a história seguir em frente. Sandler, que também é produtor do longa, parece não ter chamado nenhum de seus amigos de sempre para papéis coadjuvantes ou figuração, e esse é o real mistério aqui.

A orgulhosa equipe lançou o longa este mês

Publicado em Sem categoria | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

MIB Internacional traz novas possibilidades

por Marcelo Seabra

Do primeiro filme para o segundo, o intervalo foi de cinco anos. Do segundo para o terceiro, dez. Agora, tirou-se uma média: sete anos depois, temos o quarto episódio da franquia MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black: International, 2019). Expandindo o universo que já conhecemos, tomou-se a acertada decisão de partirem para outros personagens, deixando os agentes J e K de lado e abrindo as portas para inclusive outras filiais da agência.

No longa de 1997, tudo era novidade e as bilheterias foram generosas, com uma arrecadação que passou de meio bilhão de dólares. O segundo ficou um pouco abaixo, tendo custado bem mais. E a fórmula se mostrou desgastada, com o alien da semana tentando destruir o mundo e os agentes tendo de impedir. O mau humor de K (Tommy Lee Jones) era balanceado com as piadinhas de J (Will Smith), mas tudo tem um limite. No terceiro, o roteiro nos levou ao passado, com duas versões de K, e sentimos aquela corrente de ar fresco. Mas o caminho para onde ir em seguida era incerto.

Felizmente, outra boa decisão foi tomada: seguir com personagens novos. Afinal, a agência MIB conta com tantos profissionais quanto o alfabeto permitir. E eles não se restringem aos Estados Unidos: nessa nova sequência, conhecemos o escritório de Londres. Molly é uma garotinha que tem contato com uma criatura de outro mundo e, após ver os pais terem a memória apagada, fica obcecada. Quando adulta, vivida por Tessa Thompson (a esposa de Adonis Creed), ela sonha se juntar aos homens de preto que apagam os rastros de vida alienígena.

O destino se cumpre, digamos assim, e Molly se torna a Agente em Experiência M. Para se provar capaz, ela vai para a filial Londres, sob a tutela do Grande T (Liam Neeson, de As Viúvas, 2018), e acaba trabalhando com a estrela local: o galã H (Chris Hemsworth, vulgo Thor). Juntos, M e H encontram uma missão sob medida para eles e acompanhamos uma aventura 100% nova. O que, é claro, traz ainda mais fôlego para a franquia. Muitas referências a outros filmes, como uma ótima e óbvia piada visual usando um martelo, vão deixar cinéfilos animadinhos. Reencontrando-se pós Universo Marvel, Valquíria e Thor mostram mais uma vez uma boa química. Emma Thompson volta ao papel de chefe do escritório americano e temos o acréscimo de Kumail Nanjiani (a voz do pequeno Pawny), Rebecca Ferguson e Rafe Spall.

O comportamento destrambelhado do melhor agente local não condiz com sua fama, isso chega a irritar. E a necessidade de mostrar Hemsworth sem camisa não é compreensível, a não ser que os envolvidos achem que isso é o suficiente para atrair o público feminino. Tirando uma ou outra derrapada, F. Gary Gray (de Velozes e Furiosos 8, 2017) faz um bom trabalho, ao mesmo tempo mantendo o clima dos filmes de Barry Sonnenfeld – até com a mesma fonte nos letreiros – e trazendo novidades, como a valorização do papel da mulher. A discussão do porquê eles serem “homens” de preto não poderia faltar.

Pawny é uma das novidades desse MIB

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Indicações, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Programa do Pipoqueiro #41

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz diversos filmes que parecem ser adaptações de histórias em quadrinhos, mas não são! Além dos comentários e indicações, temos várias músicas saídas das trilhas dessas obras! Aperte o play abaixo e divirta-se!

Publicado em Adaptação, Filmes, Homevideo, Indicações, Listas, Música, Programa do Pipoqueiro, Quadrinhos | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário