Boas atrizes se envolvem em Um Pequeno Favor

por Marcelo Seabra

Duas mulheres completamente diferentes têm os filhos na mesma escola e esse é o único laço entre elas. Uma amizade surge e, em pouco tempo, elas ficam bem próximas. Ao ponto de uma levar para casa o filho da outra, quando há um compromisso de trabalho que a impede de ir. Esse é o ponto de partida para Um Pequeno Favor (A Simple Favor, 2018), nova mistura de suspense e comédia policial em cartaz nos cinemas.

Com um currículo bem fraco, de Missão Madrinha de Casamento (2011) a Caça-Fantasmas (2016), passando por As Bem-Armadas (2013) e A Espiã Que Sabia de Menos (2015), o diretor Paul Feig conseguiu acertar a mão e teve um resultado bem acima dos trabalhos anteriores. O estilo espertinho continua lá, com uma trilha descolada – com clássicos franceses sessentistas – e passagens de cenas elaboradas, além do humor autodepreciativo das protagonistas, com diálogos rápidos e ácidos.

Nos papéis principais, temos atrizes bem escolhidas, que cumprem bem seus estereótipos. Anna Kendrick (de O Contador, 2016) é a viúva prendada que cuida irritantemente de seu filho e deixa todas as demais mães se sentindo culpadas por não se dedicarem tanto. Por isso, inclusive, é alvo de comentários maliciosos. Já Blake Lively (de Águas Rasas, 2016) é a executiva muito importante e ocupada que parece tratar o filho como parte do trabalho.

O poder do roteiro de explicar sem didatismo é interessante. Baseado no livro de Darcey Bell, o texto de Jessica Sharzer (de American Horror Story) estabelece de cara que Stephanie grava vídeos com dicas variadas para outras mães e está muito preocupada com a amiga, Emily, que desapareceu após uma reunião que se estendeu. À parte da polícia, Stephanie começa a conduzir sua própria investigação, interrogando do marido (Henry Golding, do novo Podres de Ricos) ao chefe (Rupert Friend, de Hitman, 2015) de Emily.

Além dos recursos citados, a montagem ágil também ajuda a tornar a sessão de Um Pequeno Favor agradável, parecendo ter menos que suas quase duas horas de duração. As reviravoltas podem não ser tão inesperadas para quem prestar um pouquinho de atenção, mas não deixam de ser curiosas. Ninguém é exatamente o que parece, todos têm segredos. Pode parecer clichê, e é. Mas, bem utilizado, dá certo.

O diretor apresenta o trio principal

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Escobar chega novamente aos cinemas

por Marcelo Seabra

Com uma história já contada várias vezes, seria difícil trazer algo de novo para os fatos relacionados a Pablo Escobar. O máximo que pode mudar é o ponto de vista, e é isso que o diretor e roteirista Fernando León de Aranoa se propõe a fazer: recontar aquilo tudo que já sabemos pelos olhos da amante do chefão das drogas. Escobar: A Traição (Loving Pablo, 2017), no entanto, gosta muito dele para dar atenção suficiente a ela.

Nos papéis principais, temos um casal de verdade, o que torna a química entre eles palpável. E ajuda serem ótimos atores. Jarvier Bardem (de Mãe, 2017) e Penélope Cruz (de Assassinato no Expresso Oriente, 2017) são os grandes trunfos do longa, e trazem autenticidade por serem nativos do espanhol. O problema é que a língua só é usada em determinados momentos, como quando Escobar usa o consagrado xingo “mal-parido”. Para atingir um público mais amplo, a língua teve que ser o inglês.

Baseado no livro da apresentadora Virginia Vallejo, o roteiro nos leva ao início do caso entre ela e Escobar, e ela logo se deixa tomar pelo fascínio por aquele homem poderoso e dominador. Podemos nos perguntar como aquela mulher independente, forte e popular acabou se apaixonando por um monstro. Claro que o estilo de vida que ele proporcionava a ela era um fator importante. Mas é preciso notar que a personalidade carismática de Escobar mantinha todos orbitando à sua volta.

Se Escobar: A Traição traz um ângulo diferente do visto, por exemplo, em Escobar: Paraíso Perdido (Escobar: Paradise Lost, 2014), não consegue fugir da sombra de Narcos, que conseguiu cobrir todo o período do reinado do sujeito. Com muito mais detalhes e informações, a série monta um quebra-cabeça complexo e bem completo. Fugindo da obrigação de abraçar toda a história, o roteiro do novo filme deixa vários buracos, como no momento em que Pablo está apoiando políticos locais e logo é eleito senador. Os pulos temporais são bem bruscos.

Para situar o espectador, o filme acompanha muito o traficante e deixa aquela que deveria ser a protagonista de lado. De cara, na apresentação do elenco, o nome de Bardem vem na frente do de Cruz, o que já dá uma ideia do que virá. Os penteados e figurinos roubam a cena, e a caracterização de época é bem interessante. Ao narrar as peripécias do bando de criminosos, pouco é novidade, e não há ação ou suspense suficientes para prender a atenção do público. Nesse quesito, é preferível ficar com Feito na América (American Made, 2017). E o título nacional ainda presta um desserviço, levando a crer se tratar de outra coisa.

Eis o casal, sem cabelos, figurino ou prótese

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Quarto da série traz A Primeira Noite de Crime

por Marcelo Seabra

Depois de três filmes que lançaram e desenvolveram uma ideia, o diretor e roteirista James DeMonaco resolveu voltar ao básico. A Primeira Noite de Crime (The First Purge, 2018), como o título deixa claro, nos leva ao início do experimento que permite aos cidadãos cometerem toda sorte de atrocidades durante 12 horas. A trilogia inicial, entre defeitos e acertos, teve um resultado mediano e parecia finalizada. A quarta parte é ainda inferior, deixando no espectador uma sensação bem pior.

O conceito é promissor: um novo partido chega ao poder prometendo resolver o problema da violência crescente nos Estados Unidos. A proposta, conduzida por uma psicóloga, é permitir ao cidadão que extravase suas frustrações e sua necessidade de ferir alguém uma noite por ano. São 12 horas sem serviços de emergência, o pau quebrando nas ruas. Claro que muitos vão se aproveitar para atacar, além de pessoas aleatórias, desafetos, e isso vai desde o pai da namorada (no primeiro filme) até a candidata opositora (no terceiro).

Pela primeira vez, conhecemos membros do New Founding Fathers of America, o partido que petulantemente se propõe a ser os novos peregrinos, os fundadores da América. Eles começam o experimento da Dra. Updale (Marisa Tomei, a nova Tia May do Homem-Aranha) pela Staten Island, uma área fisicamente restrita (por ser uma ilha) e oferecem dinheiro para algumas pessoas avaliadas. A ideia é que os moradores não fujam e certos elementos causem confusão para que a sensação de extravasar realmente aconteça. Só assim o partido poderia considerar o experimento um sucesso.

Como nos filmes anteriores, entramos em dramas específicos de pessoas que se veem no meio da confusão. Dessa vez, no entanto, mais forçados, clichês, como por exemplo o caso mal resolvido de dois ex-amantes, uma ativista da vizinhança (Lex Scott Davis, do novo Superfly) e um traficante de drogas (Y’lan Noel, de Insecure). Ah, e o irmão dela (Joivan Wade, de EastEnders), buscando uma vida melhor, está entrando para o crime.

A fotografia é interessante e reforça o clima de guerra urbana, trabalho do experiente Anastas N. Michos (de Quantico). E esse é o único ponto positivo a ser ressaltado. Marisa Tomei é tão apagada que dá a impressão de que suas melhores cenas devem ter ficado no chão da sala de edição (por assim dizer). DeMonaco segue apenas como roteirista e produtor, deixando o comando para Gerard McMurray, que estreou recentemente na função com Código de Silêncio (Burning Sands, 2017) e não deixa nenhuma marca.

Para quem achava que o terceiro filme iria encerrar a franquia, as surpresas não param: além deste, há um quinto filme em produção, além de uma série para a televisão. Pelo visto, teremos ainda muitas noites de crime. E, infelizmente, isso não está muito longe da realidade, já que a extrema direita cresce mundo afora. E na nossa frente.

Deu o sinal às 7 horas, tranque suas portas

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Venom é apenas mais um filme de super-herói

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Quando apareceu pela primeira vez, em Amazing Spider-Man 300, em 1988, Venom chamou a atenção dos fãs do herói aracnídeo. Ele era, afinal de contas, uma espécie de gêmeo malvado de Peter Parker, trajando o simbionte descoberto pelo herói durante o evento conhecido como “Guerras Secretas”.

Depois daquele primeiro confronto, a Marvel percebeu que as vendas dos quadrinhos do aracnídeo sempre tinham uma alta a cada aparição de Venom. Assim sendo, a editora traçou um plano para explorar aquela marca ao máximo possível. Venom passou de vilão para anti-herói, se aliando algumas vezes ao Homem-Aranha, até herói de fato, já que, só assim, a editora poderia lhe conceder um título-solo.

Foi na tentativa de se aproveitar de todo esse histórico que a Sony decidiu que seria uma boa ideia produzir um longa solo de Venom, o primeiro de uma série de derivados focados nos coadjuvantes/vilões do herói aracnídeo. E o resultado, como se poderia esperar, é um filme divertido, mas nada memorável.

Venom (2018) gira em torno de Eddie Brock (Tom Hardy, de Dunkirk, 2017). Eddie é um daqueles caras cuja vida parece ir muito bem. Ele é um repórter investigativo de sucesso e está prestes a se casar com Annie (Michelle Williams, de Todo o Dinheiro do Mundo, 2017), uma advogada bem sucedida. Tudo parece ir muito bem para Eddie, até que ele comete um erro durante uma entrevista. A atitude de Eddie então detona uma cadeia de eventos que faz com que perca tudo que lhe é mais caro.

Quando tudo parece que não pode piorar, Eddie recebe uma chance de corrigir seu erro e, quem sabe, se redimir perante as pessoas que prejudicou, especialmente Annie. Ao abraçar relutantemente essa chance, ele acaba se unindo ao simbionte Venom e a partir daí as coisas progridem mais ou menos como o esperado em filmes desse gênero.

Venom é um longa de origem e, como em todo filme desse tipo, vemos claramente o protagonista passando por todos os passos que envolvem a jornada do herói. Eddie tem que cumpri-los em pouco menos de 120 minutos e consegue fazê-lo a contento. O filme tem um bom ritmo, um bom balanço entre as cenas de ação e as dramáticas e o Eddie de Tom Hardy quase nos faz sentir uma certa identificação com o personagem.

O problema mesmo se encontra no roteiro. Mesmo o filme tendo um bom ritmo, algumas das passagens parecem meio atropeladas e algumas situações, forçadas. Há algumas soluções preguiçosas, buracos na história e aqueles clichês que já foram usados e abusados em filmes de heróis. Ou mesmo em filmes de ação em geral. Claro, também há algumas sequências que foram claramente escritas apenas para agradar aos fãs do personagem, que, se não incomodam, adicionam mais buracos à trama. E, quando me refiro a buracos, não é coisa do tipo “eu faria diferente”. São coisas que realmente não dão muita liga dentro da história sendo contada.

Apesar disso tudo, o filme tem seus méritos. As sequências de ação foram muito bem coreografadas e o elenco principal (que, além de Hardy e Williams, conta com Riz Ahmed, Jenny Slate, Scott Haze e Peggy Lu) atua de maneira competente. Os efeitos visuais e o CGI estão bem feitos, ainda que algumas das sequências pareçam um pouco escuras, e o visual do protagonista, ainda que não 100% fiel ao original, merece elogios.

Venom é um filme divertido, que entretém o espectador em suas quase duas horas de duração, mas não é nada memorável. Seu maior mérito é nos fazer esquecer a versão horrorosa do personagem que os executivos da Sony obrigaram Sam Raimi a enfiar em Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007). A ideia da Sony é que Venom se torne uma nova franquia. Apesar de ter feito US$ 80 milhões nos Estados Unidos apenas neste fim de semana (um valor acima do obtido por Homem-Formiga e a Vespa, por exemplo), veremos se o filme tem fôlego o suficiente para que o retorno nas bilheterias faça com que a Sony siga em frente com seus planos.

A exemplo de quase todos os filmes de heróis da atualidade, Venom tem duas cenas nos créditos. Uma delas nos dá uma ideia do que viria em uma possível sequência, enquanto que a outra tem um valor diferenciado. Por isso, vale a pena ficar no cinema para esperar por elas.

Hardy e seus coadjuvantes, Williams e Ahmed

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Programa do Pipoqueiro #33

por Marcelo Seabra

A edição 33 do Programa do Pipoqueiro celebra os 50 anos do fatídico 1968, ano de diversas transformações na sociedade e de muita música boa sendo lançada, como Mrs. Robinson, Sunshine of Your Love e Roda Viva. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Desespero paterno marca Buscando…

por Marcelo Seabra

Mais um filme a levar às telas o lado negativo que a internet pode ter, Buscando… (Searching, 2018) o faz de maneira criativa e mais séria – que algumas produções de terror, como Amizade Desfeita (Unfriended, 2014). Tudo é visto através de telas de computador ou celular, o que levou a produção a ter um “diretor de fotografia virtual”. O mais importante a ser ressaltado é que os artifícios tecnológicos são usados para se contar uma boa história, e não apenas para distrair o espectador de algo vazio.

No início da década de 90, um episódio de Os Simpsons (E09S03 – Sábados de Trovão) apontava a falta de conhecimento de Homer sobre seu filho. O pai não conhecia nenhum amigo ou ídolo de Bart, muito menos seus hobbies. Hoje, o que assusta os pais é o que os filhos possam estar fazendo na internet sem que eles saibam. As possibilidades cresceram exponencialmente, e os riscos também. Se não conhecem os amigos dos filhos ou seus passatempos, não conseguem seguir seus passos digitais ou, muito menos, antecipar possíveis ameaças. O que também é muito bem mostrado em Confiar (Trust, 2010).

O pai da vez é David Kim (John Cho, o Sr. Sulu da trilogia Star Trek), um viúvo que enfrenta o fato de ter que viver sozinho quando a filha vai para a faculdade. Eles mantêm contato através de mensagens instantâneas e chamadas de vídeo, uma certa vigilância que o deixa tranquilo quanto ao paradeiro dela. Em sua concepção, David é um bom pai, presente, que tem um papel importante na vida de Margot (a estreante Michelle La em sua fase mais velha). Ele descobre que as coisas podem não ser bem assim quando acorda com chamadas perdidas da filha e não consegue mais contatá-la. Como curiosidade, temos a eterna Grace da série Will & Grace, Debra Messing, em um papel sério e importante.

É impossível não se compadecer do drama de David. Qualquer pessoa que tenha uma mínima ideia do que é ter um filho consegue imaginar o desespero que deve dar ao não conseguir encontrá-lo. A não ser que você seja um comentarista de portal, desses seres nefastos que só entram nos posts de notícias para vomitar preconceito e ódio. O fato de todos terem um celular à mão também não ajuda quando uma pessoa perde o controle. Tudo é filmado e colocado na internet, e invariavelmente vira piada.

No mundo em que vivemos, um pai buscando sua filha facilmente se torna um suspeito de assassinato, mesmo que não se tenha qualquer evidência de que um tenha sido cometido. Não é preciso prova. Basta que muita gente afirme, e se torna verdade. Buscando… aproveita para fazer algumas observações interessantes sobre a nossa sociedade. A estreia do egresso da Google Aneesh Chaganty, coescrita por Sev Ohanian, é bem promissora.

A sumida Debra Messing tem uma participação importante

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“Escrever é divertido e ainda pagam você”

por Marcelo Seabra

Nota: o texto a seguir foi escrito para uma disciplina de faculdade em 2004 e é republicado aqui na ocasião do aniversário de 71 anos de Stephen King. Algumas informações estão desatualizadas, nada foi alterado, mas serve como uma visão geral sobre as adaptações da obra do escritor. Parabéns, Mestre, e obrigado!

Um carcereiro descobre um poder fantástico nas mãos de um prisioneiro prestes a ser executado, mas não consegue provar a inocência dele. Um banqueiro é preso pelo assassinato de sua esposa e do amante dela e passa anos na cadeia, se envolvendo com diversos personagens. Quem imaginaria que estas histórias saíram da cabeça do homem conhecido como Mestre do Terror? Pois Stephen King não se limita a apenas um gênero, qualquer que seja ele.

O cinema parece sempre ser regido por modismos, que podem ser adaptações de quadrinhos, séries de televisão ou obras literárias. Analisando-se este último, pode-se constatar que várias obras de Stephen King estão sendo desenvolvidas para o cinema. Algumas, em estágio avançado; outras, nem tanto. E os produtores sabem que o autor é garantia de retorno financeiro, seu nome no cartaz é um grande atrativo.

King dedica-se ao ofício desde os 12, mas passou por diversos trabalhos quando as coisas iam mal. Abandonada pelo marido em 1949, Nellie Ruth teve que criar, sozinha, seus dois filhos: Stephen, então com dois anos, e David, com quatro. Exerceu várias funções que não exigiam especialização ou estudo, como em uma lavanderia, restaurantes, até como governanta. Em 1967, o jovem escritor conseguiu vender seu primeiro conto para uma revista, e ficou tentando conseguir algo mais.

Depois que, em 1971, se casou, King não conseguia emprego como professor de inglês e teve que colocar seu diploma de lado, conseguindo salários baixos como frentista de posto de gasolina, por exemplo. Sua esposa, Tabitha, foi pelo mesmo caminho que a sogra, produzindo rosquinhas ou passando lençóis em fábricas. As publicações esporádicas não rendiam o suficiente e a família King teve até que pedir o cancelamento de sua linha telefônica.

Foi apenas aos 26 anos que King conseguiu contrato para uma editora publicar um livro seu, de capa dura. Era Carrie, história que havia passado por várias recusas e tinha até ido, literalmente, para o lixo. Tabitha o resgatou e insistiu para que o marido reescrevesse e apresentasse novamente. Uma crítica favorável do jornal The New York Times chamou atenção para o escritor, e os direitos de adaptação de Carrie foram vendidos ao estúdio United Artists.

O filme rendeu uma boa bilheteria e elogios ao diretor Brian De Palma. “Para muitos produtores e diretores, o material que escrevo é muito visual. Eles resolvem filmá-lo achando que não precisam trabalhar duro na construção dos filmes”, sugere King em entrevista à revista SET. O problema, segundo ele, é que as produções focam muito o “momento em que o monstro aparece movimentando suas presas”, não dando muita importância à história.

Vieram, em seguida, outros dois sucessos, também adaptados: A Hora do Vampiro, para a televisão, e O Iluminado, pelas mãos de Stanley Kubrick. Uma curiosidade é o fato de o escritor gostar de fazer aparições à Hitchcock nos filmes baseados em sua obra. Creepshow – Show de Horrores, Cemitério Maldito, A Maldição do Cigano trazem algumas das mais significativas, que fazem os fãs procurá-lo em cena.

Com o nome já consolidado e superexposto, King achou que era hora de publicar histórias diferentes, que pudessem fugir do habitual, que ele queria que chegasse ao seu público. Mas, para evitar mais lançamentos sob sua grife e gozar da liberdade de um desconhecido, ele adotou o pseudônimo Richard Bachman, inventando uma história para este personagem, incluindo uma esposa e até seu falecimento, que ocorreu quando o segredo foi exposto. Com essa alcunha, ele publicou cinco livros “vivo” e um “póstumo”. Uma dessas histórias, de Os Livros de Bachman, deu origem ao filme O Sobrevivente, estrelado por Schwarzenegger e exibido à exaustão na televisão.

Mas as histórias geralmente apontadas pela crítica como as melhores são aquelas que se aproximam mais da realidade, mesmo que apresentem algo incomum, como em A Zona Morta, cujo protagonista passa a prever o futuro após ficar alguns anos em coma. Bryan Singer, por exemplo, dirigiu O Aprendiz antes de entrar para a franquia X-Men. Ou como as histórias citadas no início deste texto, que deram origem aos filmes À Espera de um Milagre e Um Sonho de Liberdade, respectivamente. Segundo o crítico de cinema Pablo Villaça, este último deve se tornar um clássico, com o tempo, ao lado de Casablanca, Cantando na Chuva ou Cidadão Kane.

Já milionário, vivendo em uma mansão vitoriana de 24 cômodos, King continua morando no estado americano do Maine. Muitas de suas histórias, inclusive, se passam lá, em uma cidade inventada. É em Castle Rock que o xerife Alan Pangborn enfrenta o diabo em Trocas Macabras, ou o escritor Thad Beaumont confronta George Stark, sua Metade Negra, por exemplo. Por isso, concorda quando o chamam de regionalista: “Se você viveu toda a sua vida em um lugar e quer escrever a sério, você é quase que obrigado a escrever sobre aquele lugar. Pode-se descobrir fatores universais em qualquer lugar. Mas me afasto de lá de vez em quando”, explica, em uma das várias entrevistas publicadas no livro Dissecando Stephen King. Um de seus dramas mais sensíveis, O Corpo, que deu origem ao filme Conta Comigo, também se passa lá.

Recuperado do acidente de setembro de 1999, quando foi atropelado durante uma caminhada e teve vários ossos quebrados, e de uma pneumonia bem séria no fim de 2003, o escritor mantém sua rotina de trabalho, datilografando algo em torno de duas mil palavras todas as manhãs, ao som de rock. E continua com medo de escuro, mantendo alguma luz de seu quarto acesa durante a noite.

Em pré-produção estão outros vários projetos. O Cadillac de Dolan, primeiro conto do livro Pesadelos e Paisagens Noturnas, já teve vários atores ligados a seu elenco. Atualmente, conta com Christian Slater (Entrevista com o Vampiro) e Wes Bentley (Beleza Americana) nos papéis principais (abaixo). Escrito a quatro mãos, O Talismã é outro a ganhar vida. Marca a amizade entre King e Peter Straub, autor que também frequenta um mundo da fantasia. A dupla já, inclusive, escreveu a sequência, A Casa Negra. A lista ainda inclui um novo Creepshow, Saco de Ossos e Buick 8.

Além desses longas, várias redes americanas de televisão usam as criações do autor para preencherem suas grades de programação, geralmente apresentando, em horário nobre, minisséries com a grife Stephen King. E, já de olho em um lucro extra, elas são compiladas em edições menores, para conquistarem o mercado do vídeo e DVD. Foi assim com A Dança da Morte, O Iluminado (a segunda versão), Jovem Outra Vez, Fenda no Tempo, Rose Red, A Tempestade do Século e o mais recente Desespero. Em 2004, a rede ABC exibiu Kingdom Hospital, série que conta com roteiro do escritor, desenvolvido especialmente para a televisão.

O mais recente longa adaptado da obra de King é O Nevoeiro, conduzido pelo mesmo diretor de Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre, Frank Darabont. Como aconteceu em ambos, William Sadler e Jeffrey DeMunn estão no elenco, que chega reforçado por outros velhos conhecidos das histórias do escritor: Thomas Jane (O Apanhador de Sonhos), Andre Braugher (Salem’s Lot) e Frances Sternhagen (Jovem Outra Vez). Dessa vez, Darabont se envolve com criaturas sobrenaturais, adentrando mais o terror que seu habitual. Mas, apesar dos monstros e sustos, temos interessantes discussões acerca da humanidade, ainda que os personagens sejam menos desenvolvidos, mais estereotipados, parecendo servir apenas para que a história chegue onde se espera. Nada que impeça o longa de ser divertido e digno de ser assistido.

Um Sonho de Liberdade, talvez a melhor das adaptações da obra de King

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Hotel Artemis é ação quase saída de HQ

por Marcelo Seabra

“Uma mistura de um conto de fadas com um filme do Michael Mann”. Assim Drew Pearce define seu Hotel Artemis (2018), sua estreia na direção de um longa. Roteirista e produtor, ele entrega uma obra que tem toda pinta de adaptação de história em quadrinho, mas mais preocupado em acelerar o ritmo do que em contextualizar ou explicar. Não temos muito acesso ao passado dos personagens, mas logo entendemos aonde eles querem chegar.

O Hotel Artemis é, na verdade, um hospital para fugitivos. Toda a sorte de criminosos chega lá buscando tratamento ou socorro imediato, e para isso eles pagam regularmente. Funciona como um clube, e todos mantém a discrição. Quando a história começa, descobrimos um assalto dando errado e somos conduzidos ao hotel pelos irmãos que escaparam do crime. Sherman (Sterling K. Brown, da série This Is Us) carrega o caçula (Brian Tyree Henry, de Atlanta) ferido para lá, onde são recebidos pela Enfermeira (Jodie Foster, de Deus da Carnificina, 2011). Envelhecida por maquiagem, a atriz mostra que continua sendo uma força da natureza em frente às câmeras.

Mesmo com uma placa luminosa na fachada, o hotel é mantido em sigilo pela Enfermeira e seu capanga, Everest (Dave Bautista, de Os Guardiões da Galáxia). Eles resolvem internamente qualquer problema e os hóspedes seguem regras rígidas, como não matar outro hóspede. É revelado que o mandachuva do lugar é um mafioso apelidado de Rei Lobo (Jeff Goldblum, de Jurassic World 2, 2018) e, logo, o próprio aparece, precisando de cuidados. Ele é acompanhado pelo filho (Zachary Quinto, o Spok de Star Trek) e um séquito de marginais.

Os demais hóspedes não demoram a aparecer, fazendo a trama andar. Temos Sofia Boutella (A Múmia de 2017) e Charlie Day (de Férias Frustradas, 2015) completando o elenco principal. Enquanto ele é uma versão mais barata e histriônica de um Sam Rockwell, ela se faz de misteriosa e esconde grande potencial para o mano a mano. Chega, inclusive, a lembrar bastante a Elektra, personagem do universo do Demolidor. E a trama se passa alguns anos a frente, numa Los Angeles tomada por rebeliões, onde a polícia é privada e espanca sem dó e a água custa caro.

Lembrado como roteirista de Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013) e do quinto Missão: Impossível (Rogue Nation, 2015), Pearce tem uma premissa interessante em mãos, e segue quase como um videogame. Muita gente deve sentir falta de algo mais profundo, melhor desenvolvido. Mas a ação não decepciona. O nível de violência, inclusive, cresce bastante, chegando a surpreender quando o sangue espirra. Ele explora bem a estrutura do hotel, onde se passa 90% do filme. A câmera passeia pelos longos corredores e nos dão uma ideia da geografia do lugar.

O bom elenco e o fiapo de trama que dá início a Hotel Artemis causam uma boa impressão que só vai durar caso o público entre nessa viagem de cabeça. O desenrolar, aliado a uma grande dose de violência, pode causar desconforto e afastar parte da audiência. Na pior das hipóteses, Pearce se mostra promissor e deixa alta a expectativa por seu próximo projeto.

Jeff Goldblum é sempre uma figura interessante

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Grande elenco é desperdiçado em brincadeira de criança

por Marcelo Seabra

Amigos de mais de quarenta seguem brincando, um mês por ano, de pega-pega. Sabe aquela brincadeira de “te peguei, está com você”? Pois é, exatamente isso. Desde os nove anos de idade, quando criaram as regras. Moram em estados diferentes, cada um tomou um caminho, mas o reencontro vem sempre na forma do jogo, quando precisam vencer uns aos outros em esperteza. Essa é a trama de Te Peguei (Tag, 2018), longa atualmente em cartaz.

Você pode pensar: “que troço exagerado, ninguém brincaria disso por mais de três décadas”. Mas o argumento é baseado num fato. O que pode ser surpreendente, até assustador. Mas não necessariamente engraçado. E trata-se de uma comédia. Esse é o principal problema da obra: a completa falta de graça. As poucas situações criadas nesse sentido são forçadas e insistem num tipo de humor rasteiro, como piadinhas com maconha.

Com um resultado tão fraco, a conclusão mais óbvia é que temos aqui um grande desperdício de elenco. À frente, Ed Helms repete seu papel de Se Beber, Não Case (The Hangover), o de sujeito certinho, bacana, que se vê fazendo coisas loucas quando pressionado pelas circunstâncias. Jon Hamm, o eterno Don Draper de Mad Men, atualiza o papel de executivo poderoso ao qual está acostumado. Nenhum dos dois recebe muita oportunidade do roteiro – talvez Hamm tenha uma situação melhorzinha na sequência inicial.

Os outros dois amigos, vividos por Hannibal Buress e Jake Johnson, são relegados às tais piadinhas bestas, talvez por serem atores menos estabelecidos. E chegamos a Jeremy Renner, que acaba tendo a menos pior das funções. Brincando com sua persona de herói (estamos falando do Gavião Arqueiro da Marvel), ele até se sai bem como o amigo que nunca foi pego. Exatamente por isso, o mais distante da turma, já que o medo de perder na brincadeira o faz ficar sempre longe.

Numa comédia extremamente masculina, o roteiro até se esforça para valorizar as mulheres que joga na trama, sempre sem sucesso. Temos Isla Fisher, Leslie Bibb, Annabelle Wallis e Rashida Jones como quatro bibelôs, além de uma pequena participação da sumida Nora Dunn. Se já estava tudo indo mal, o final consegue ser ainda pior. Não vamos entrar em detalhes para não estragar nada, mas sempre dá para piorar. Não foi da primeira vez que o estreante Jeff Tomsic causou uma boa impressão. Melhor sorte na próxima.

O casamento era pra ser o ponto alto do filme

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Últimos dias de Tancredo são retratados em O Paciente

por Marcelo Seabra

Em época de eleição, é normal que só se ouça falar sobre política. Essa semana, um episódio famoso da História do Brasil faz o tema chegar também ao Cinema. É a estreia de O Paciente – O Caso Tancredo Neves (2018), longa que reconta os últimos dias daquele que seria o primeiro presidente do país após o fim da ditadura militar. Símbolo de liberdade e retomada de crescimento, Tancredo foi parar num hospital e não saiu com vida.

Com longo histórico de filmes políticos (como O Homem da Capa Preta, Lamarca e Guerra de Canudos, entre outros), o diretor Sérgio Rezende mais uma vez volta sua atenção para um período relevante. Segundo Rezende, em rápidas palavras antes da exibição, Tancredo é um personagem muito importante que poderia ter mudado os rumos do país. Essa admiração é facilmente percebida na obra, que trata o biografado como a única salvação de um povo, a chance ímpar de tirar os militares do poder. O roteiro, assinado por Gustavo Liptzein, adapta o livro homônimo de Luís Mir.

A primeira qualidade a ser ressaltada é o fato de o filme já começar, numa narração do contexto, reforçando que se tratava de uma ditadura militar. Nesses tempos bicudos em que vivemos, é importante deixar isso claro. Daí a importância do Dr. Tancredo – como era chamado. Sentindo dores abdominais há algum tempo, ele vê a situação chegar ao extremo, com todos os médicos em volta recomendando uma cirurgia imediata. A partir desse ponto, temos uma mistura de House of Cards e House. Ou, quem sabe, Grey’s Anatomy, já que são muitos a darem palpites e o drama toma conta. É até mencionado o boato de que ele teria sido alvejado numa missa, o que tem gente acreditando até hoje.

No papel principal, temos um ator inegavelmente competente que, ainda por cima, se parece muito fisicamente com Tancredo. Othon Bastos (de Heleno, 2011), no entanto, tem um quê teatral que transforma todas as suas falas em discursos. Em alguns momentos, essa postura (e impostação de voz) é adequada, mas por vezes passa da conta. Alguns de seus coadjuvantes parecem aderir, soando artificiais, principalmente na primeira sequência, numa conversa em família. Quando a ação se transfere para o hospital, temos chance de ver melhores interpretações, o que contribui muito para o sucesso do projeto.

Entre os médicos, vários nomes merecem menção honrosa: Elcir de Sousa, Otávio Müller, Leonardo Franco, Leonardo Medeiros, Pedro Brício, Paulo Betti (apesar da careca tosca) e Emiliano Queiroz. Eles vivem profissionais da saúde que mais parecem se preocupar com suas reputações que com seu paciente. A briga de egos toma um tempo precioso, algo que Tancredo não tinha. Além desses, outros destaques do elenco são Ester Góes, que faz uma Dona Risoleta refinada e marcante, e Emílio Dantas, o assessor de imprensa do presidente que é quase sempre o último a saber – o que é desesperador para alguém na posição dele.

A reconstituição de época é ótima, como mostra a Brasília (ou Variant II) que serve de táxi, entre outros itens. Algumas figuras em cena podem ser identificadas, como a representação da jornalista Glória Maria. Para dar mais veracidade, Rezende usa também imagens e depoimentos reais, como o do ex-governador Hélio Garcia e de Ulisses Guimarães. E, nos próprios diálogos, percebemos que não pegaram leve. Principalmente com o vice, José Sarney, que caiu de paraquedas apenas por um arranjo político e era execrado por todos os lados. Aécio, o neto abjeto, era apenas um projeto de playboy que nunca chegou tão perto da presidência quanto naqueles dias.

Eis a foto real, do casal e a equipe médica

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