Manchester vira personagem em drama premiado

por Marcelo Seabra

Manchester by the sea poster

Um filme sobre nada em especial. Mas, ao mesmo tempo, sobre tudo. Pode parecer contraditório, mas essa é uma boa forma de descrever Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016), drama que chamou bastante atenção em festivais, deu um Globo de Ouro a seu protagonista e promete emplacar algumas indicações no Oscar. O filme engana em sua simplicidade, tratando de temas complexos, e consegue inserir um humor discreto e bem-vindo em meio a momentos mais pesados.

Conduzindo a trama está Casey Affleck, há dez anos atrás indicado ao Oscar como coadjuvante por O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007). Já acostumado ao papel principal (como em Medo da Verdade, 2007), ele vive aqui Lee Chandler, um zelador de um conjunto de prédios que parece se esconder da vida. Bom no que faz, ele se contenta em desentupir pias e privadas, tirar o lixo e atividades similares, mesmo demonstrando potencial para ir além. Seu temperamento não é dos melhores e vez ou outra ele tem problemas de relacionamento com algum morador. Ou por ter arrumado briga no bar próximo. Sozinho em uma Boston cinzenta, ele mora em um quarto cedido pela administradora dos prédios.

Manchester by the sea scene

Em meio a essa mesmice, Lee é surpreendido pela notícia de uma morte em família e precisa voltar a Manchester, onde moram seu irmão (Kyle Chandler, de Bloodline) e o sobrinho (Lucas Hedges, de Moonrise Kingdom, 2012). Entre flashbacks e o presente, acompanhamos os fatos que levaram Lee à situação atual e o que ele faz frente à tragédia que abateu sobre sua família. A montagem ágil de Jennifer Lame (de Cidades de Papel, 2015) não deixa o público perdido e revela as informações quando são necessárias, montando o quadro dos Chandlers. O diretor e roteirista Kenneth Lonergan, originalmente um dramaturgo, tem um texto afiado, diálogos enxutos e consegue passar longe do dramalhão no qual o filme poderia ter caído.

Manchester by the sea HedgesNo elenco, além de Affleck, temos outras presenças fortes. Chandler vive Joe, o irmão de Lee, como um sujeito correto, amoroso e admirado pela comunidade. O ator passa simpatia pelo olhar, assim como entendemos quando há algo errado. Hedges (ao lado), como Patrick, o filho de Joe, também consegue demonstrar várias emoções e completa bem a dinâmica entre os três, o cerne do filme. As duas esposas têm participação importante: Michelle Williams (de Oz: Mágico e Poderoso, 2013) demonstra a competência de sempre nos poucos minutos em que aparece, fazendo a personagem que consegue balançar Lee em seu estupor, dividindo com ele uma cena particularmente emocionante; e Gretchen Mol (de Mozart in the Jungle) é a mãe de Patrick, que retoma contato com o filho depois de colocar a vida em ordem – e se tornar uma estranha para ele.

Outra figura importante a ser mencionada é a própria cidade de Manchester. Contrastando com as nuvens de Boston, ela sempre aparece ensolarada, mesmo no frio, metáfora interessante para a alternação constante entre tristeza e alegria no roteiro, bem como acontece na vida. A fotografia de Jody Lee Lipes (de Descompensada, 2015) reforça essas diferenças e torna a sessão ainda mais prazerosa. Um pouco longo, com seus quase 140 minutos, o filme não se torna cansativo, fechando suas pontas e abrindo outras possibilidades. Como na vida.

Lonergan apresenta seu elenco principal

Lonergan apresenta seu elenco principal

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Elenco fantástico não salva Assassin’s Creed

por Marcelo Seabra

Assassins Creed poster

Depois de nove videogames na cronologia oficial, mais outros tantos derivados, e livros e revistas em quadrinhos, já era hora da Ubisoft lançar seu produto de maior sucesso no Cinema. E eis que surge Assassin’s Creed (2016), aventura que marca a chegada da franquia à tela grande e parte para uma história nova, nos apresentando a personagens inéditos. Mas a preocupação dos realizadores com a fidelidade ao jogo parece tão grande que eles se esquecem que, antes de mais nada, estão fazendo um filme, uma obra que deve existir por si só e deve agradar a todos os públicos, e não apenas àqueles que vão ficar procurando elementos conhecidos e se divertindo com isso.

Para os fãs do jogo, que estão acostumados a “viver” aquelas figuras e criar suas histórias de acordo com os rumos que tomam, deve ser cansativo ficar assistindo a tudo mastigado. E quem não é fã fica se perguntando como o sujeito deu aquele pulão de uma construção enorme e sobreviveu, já que não conhece o recurso do “salto de fé”. Ou não entende pra quê toda hora aparece uma águia sobrevoando e levando a câmera consigo se não sabe o que é a “visão aquilina”. As missões eram geralmente divididas em dois tipos: matar alguém ou recuperar algo. A história do filme, mesmo sendo nova, segue exatamente os passos das antecessoras, com um homem no presente acessando as memórias genéticas de um antepassado e revivendo tudo aquilo na busca por um artefato.

Assassins Creed Animus

O novato, no caso, é Callum Lynch (Michael Fassbender, o Magneto mais jovem dos X-Men), um condenado à morte do qual sabemos pouco. O vemos quando pequeno e logo ele está aguardando sua execução. No entanto, ele é recrutado para um projeto bilionário que busca as memórias genéticas das pessoas, chegando aos antepassados delas para conseguir informações importantes. Aqui, o objetivo é achar a maçã do Éden, aquela do pecado original, que traria a semente para a desobediência civil e permitiria acabar com a violência. Sim, essa é a trama do longa. Nesse ponto, já dá vontade de sair correndo – mesmo que você seja criacionista, é muito difícil comprar essa ideia.

A ingênua cientista Sofia Rikkin (Marion Cotillard, de Era uma Vez em Nova York, 2013) está à frente do projeto, desenvolvendo a tecnologia e o conceito por trás da Animus, máquina que permite a recuperação das informações. Ao ser preso à Animus, Lynch se conecta ao ancestral Aguilar de Nerha e vai parar na Inquisição Espanhola. É quando ele toma conhecimento de um embate milenar: Assassinos contra Templários. E, desde o início, vemos Jeremy Irons (o novo Alfred de Batman vs Superman) onde não deveria, o que deixa claro suas intenções. Ele vive o pai de Sofia, Allan Rikkin, o Templário que controla as indústrias Abstergo, bancadas pela fortuna da classe secreta para descobrir a tal maçã do Éden. E o elenco ainda desperdiça Brendan Gleeson (de No Coração do Mar, 2015) e Charlotte Rampling (de 45 Anos, 2015).

Assassins Creed Cotillard Irons

O diretor, Justin Kurzel, vem do bem sucedido Macbeth (2015), no qual trabalhou com a dupla Fassbender-Cotillard. Um dos roteiristas, Michael Lesslie, também vem de lá. Já os outros dois (Adam Cooper e Bill Collage) são parceiros habituais e respondem por bombas como Convergente (da franquia Divergente) e Carga Explosiva: O Legado (2015). Por mais talentoso que seja o cineasta e seus atores, a falta de um roteiro que preste sempre será sentida. Que o diga Duncan Jones e seu Warcraft (2016), outra adaptação recente de jogo. É impressionante como, com tanta informação jogada na tela, o roteiro escrito a seis mãos ainda seja uma colcha de retalhos. Além de furado, tudo é extremamente previsível, o que acaba com qualquer possibilidade de suspense ou tensão. Várias perguntas surgem na cabeça enquanto a ação se desenrola, quando a trilha sonora altíssima te deixa pensar – cortesia do irmão músico do diretor, Jed Kurzel, muito mais discreto e certeiro em Macbeth.

Para não dizer que tudo em Assassin’s Creed é uma porcaria, sobram os efeitos visuais. Esses, sim, fazem valer os US$ 125 milhões do orçamento. A fotografia de Adam Arkapaw (de A Luz Entre Oceanos, 2016) se mistura bem aos elementos inseridos posteriormente e nos dá imagens impressionantes, que funcionam ainda melhor nas salas IMAX. O tamanho da tela e a profundidade do 3D permitem ver os detalhes da cidade espanhola do século XV, tudo muito rico e criativo. Mas estilo é o que não falta à produção: os personagens caem e lutam como super-herois, sempre com direito a pausas dramáticas. Algo que funcionava, por exemplo, em The Matrix (1999), mas não aqui. Os golpes desferidos e as caretas que os seguem só tornam a falta de sentido do roteiro mais triste. É mais um filme cercado por expectativas, inclusive dos estúdios que bancaram a produção, que deve dar em nada.

O filme é bem fiel à estética do jogo

O filme é bem fiel à estética do jogo

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Globo de Ouro 2017

por Marcelo Seabra

Jimmy Fallon

Neste domingo, 08/01/2017, foi realizada a entrega dos Globos de Ouro de 2017. Com cerimônia apresentada por Jimmy Fallon, o resultado foi o seguinte:

— Cinema

MoonlightMelhor Filme de Drama
*Moonlight
Até o Último Homem
A Qualquer Custo
Lion – Uma Jornada para Casa
Manchester à Beira Mar

Melhor Filme de Comédia ou Musical
*La La Land – Cantando Estações
20th Century Women
Deadpool
Florence: Quem É Esta Mulher?
Sing Street

Melhor Diretor
*Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)
Tom Ford (Animais Noturnos)
Mel Gibson (Até o Último Homem)
Barry Jenkins (Moonlight)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)

Melhor Ator de Drama
*Casey Affleck (Manchester à Beira Mar)
Joel Edgerton (Loving)
Andrew Garfield (Até o Último Homem)
Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
Denzel Washington (Fences)

Isabelle HuppertMelhor Atriz de Drama
*Isabelle Huppert (Elle)
Amy Adams (A Chegada)
Jessica Chastain (Miss Sloane)
Ruth Negga (Loving)
Natalie Portman (Jackie)

Melhor Ator de Comédia ou Musical
*Ryan Gosling (La La Land – Cantando Estações)

Colin Farrell (O Lagosta)
Hugh Grant (Florence: Quem é Esta Mulher? )
Jonah Hill (Cães de Guerra)
Ryan Reynolds (Deadpool)

Melhor Atriz de Comédia
*Emma Stone (La La Land – Cantando Estações)
Annette Bening (20th Century Women)
Lily Collins (Rules Don’t Apply)
Hailee Steinfeld (Quase Dezoito)
Meryl Streep (Florence: Quem é Esta Mulher? )

Melhor Ator Coadjuvante
*Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos)
Mahershala Ali (Moonlight)
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Simon Helberg (Florence: Quem é Esta Mulher?)
Dev Patel (Lion – Uma Jornada Para Casa)

Melhor Atriz Coadjuvante
*Viola Davis (Fences)
Naomie Harris (Moonlight)
Nicole Kidman (Lion – Uma Jornada Para Casa)
Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
Michelle Williams (Manchester à Beira Mar)

Damien ChazelleMelhor Roteiro
*Damien Chazelle (La La Land – Cantando Estações)
Tom Ford (Animais Noturnos)
Barry Jenkins (Moonlight)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira Mar)
Taylor Sheridan (A Qualquer Custo)

Melhor Trilha Sonora Original
*La La Land – Cantando Estações
Moonlight
A Chegada
Lion – Uma Jornada Para Casa
Estrelas Além do Tempo

Melhor Canção
*City of Stars (La La Land – Cantando Estações)
Can’t Stop the Feeling (Trolls)
Faith (Sing – Quem Canta Seus Males Espanta)
Gold (Ouro e Cobiça)
How Far I’ll Go (Moana – Um Mar de Aventuras)

Melhor Filme de Animação
*Zootopia – Essa Cidade é o Bicho
Kubo e as Cordas Mágicas
Moana – Um Mar de Aventuras
Ma vie de Courgette
Sing – Quem Canta Seus Males Espanta

Melhor Filme Estrangeiro
*Elle (França)
Divines (França)
Neruda (Chile)
O Apartamento (Alemanha)
Toni Erdmann (Alemanha)

— Televisão

The Crown

Melhor Série de Drama
*The Crown (acima)
Game of Thrones
Stranger Things
This Is Us
Westworld

Melhor Série de Comédia ou Musical
*Atlanta
Blackish
Mozart in the Jungle
Transparent
Veep

Melhor Minissérie ou Filme para Televisão
*The People vs. O.J. Simpson: American Crime Story
American Crime
The Dresser
The Night Manager
The Night Of

Melhor Ator de Série Dramática
*Billy Bob Thornton (Goliath)
Rami Malek (Mr. Robot)
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Matthew Rhys (The Americans)
Liev Schreiber (Ray Donovan)

Melhor Atriz de Série Dramática
*Claire Foy (The Crown)
Caitriona Balfe (Outlander)
Keri Russell (The Americans)
Winona Ryder (Stranger Things)
Evan Rachel Wood (Westworld)

GloverMelhor Ator de Série de Comédia
*Donald Glover (Atlanta)
Anthony Anderson (Blackish)
Gael Garcia Bernal (Mozart in the Jungle)
Nick Nolte (Graves)
Jeffrey Tambor (Transparent)

Melhor Atriz de Série de Comédia
*Tracee Ellis Ross (Blackish)
Rachel Bloom (Crazy Ex-Girlfriend)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Sarah Jessica Parker (Divorce)
Issa Rae (Insecure)
Gina Rodriguez (Jane the Virgin)

Melhor Ator Coadjuvante em Série Minissérie ou Telefilme
*Hugh Laurie (The Night Manager)
Sterling K. Brown (The People vs. O.J. Simpson)
John Lithgow (The Crown)
Christian Slater (Mr. Robot)
John Travolta (The People vs. O.J. Simpson)

Melhor Atriz Coadjuvante em Série Minissérie ou Telefilme
*Olivia Colman (The Night Manager)
Lena Headey (Game of Thrones)
Chrissy Metz (This Is Us)
Mandy Moore (This Is Us)
Thandie Newton (Westworld)

Melhor Ator de Minissérie ou Filme para Televisão
*Tom Hiddleston (The Night Manager)
Riz Ahmed (The Night Of)
Bryan Cranston (All the Way)
John Turturro (The Night Of)
Courtney B. Vance (The People vs. O.J. Simpson)

Melhor Atriz de Minissérie ou Filme para Televisão
*Sarah Paulson (The People vs. O.J. Simpson)
Felicity Huffman (American Crime)
Riley Keough (The Girlfriend Experience)
Charlotte Rampling (London Spy)
Kerry Washington (Confirmation)

La La Land foi o recordista da noite, com sete prêmios

La La Land foi o recordista da noite, com sete prêmios

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Aaron Eckhart cai na roubada de Dominação

por Marcelo Seabra

Incarnate poster

Duas coisas são incríveis em Dominação (Incarnate, 2016), longa que chega aos cinemas nacionais essa semana. Uma é a presença de Aaron Eckhart como o protagonista. O bom ator já errou feio em suas escolhas, mas nunca com tanta vontade. E a outra é a possibilidade de que essa aberração chegue a ter uma sequência, como mencionado recentemente na mídia estrangeira. Trata-se de um terror dos mais fracos, com uma premissa louca ditada por uma teoria dita científica que vai se adaptando de acordo com a necessidade do roteiro. É difícil prever o que vai acontecer porque é igualmente complicado entender o que está acontecendo.

Eckhart (de Sully, 2016) vive uma espécie de cientista que, há alguns anos, descobriu um talento raro: enquanto dorme, ele consegue entrar na mente de pessoas possuídas e convencê-las a expulsar o demônio. Ele próprio reforça que não se trata de um exorcismo e não há religião alguma envolvida. É como se ele aliasse sua habilidade à ideia de A Origem (Inception, 2009) para, ao invés de plantar uma ideia, ajudar a pessoa contra o capeta. O que ele ganha com isso? Como ele sobrevive e ainda mantém uma equipe de dois? Como ele descobriu esse talento? Essas são apenas algumas das perguntas que podem surgir. E elas permanecerão sem resposta.

Incarnate Eckhart

Quando a bagunça começa, conhecemos o jovem Cameron (David Mazouz, o Bruce Wayne de Gotham). O pai (Matt Nable, de Arrow), alcoólatra, sumiu no mundo após machucá-lo. A mãe (Carice van Houten, de Game of Thrones), assustada, não atende as ligações do ex e correu com o filho para uma vida nova. Acontece de um demônio que passa através do toque (tipo Possuídos, de 1998) se apossar do menino. Quando o tal Dr. Ember concorda com uma enviada do Vaticano (Catalina Sandino Moreno, de O Ano Mais Violento, 2014) e vai ver o menino, confirma suas suspeitas: o demônio é um velho conhecido dele.

Vários detalhes são inseridos na trama principal na tentativa de dar profundidade aos personagens – como a situação entre os pais de Cameron. Mas isso não serve para nada quando se tem um roteiro estapafúrdio que nunca passa perto de fazer sentido. O passado de Ember vai aparecendo aos poucos, e o público se importa cada vez menos. A coisa mais relevante do currículo do roteirista, Ronnie Christensen, é o drama Passageiros (Passengers, o de 2008, não confundir com a estreia da semana), que não é grandes coisas. Com o diretor, Brad Peyton, não é diferente: em meio a sequências insignificantes, vem um Terremoto: A Falha de San Andreas (2015), uma bobagem com The Rock.

Tentando dar um clima de terror de décadas passadas, o filme lembra produções que conseguiram isso, como Sobrenatural (Insidious, 2010), o que apenas o enfraquece mais. Mas o pior em Dominação é a cara de possível franquia que Peyton lhe dá, tentando estabelecer uma mitologia que poderia ter vida longa. Pior que Dominação seria um Dominação 2.

O capeta se manifesta como o câncer negro, de Arquivo X

O capeta se manifesta como o câncer negro de Arquivo X

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Chris Pratt e Jennifer Lawrence vão pro espaço

por Marcelo Seabra

Passengers

A maior estreia no Brasil dessa primeira semana de janeiro traz juntos dois dos protagonistas da Marvel Comics: Chris Pratt (de Guardiões da Galáxia, 2015) e Jennifer Lawrence (a Mística dos X-Men). Com dois fortes status de celebridade no cartaz, a Columbia Pictures conseguiu tirar do papel Passageiros (Passengers, 2016), roteiro de Jon Spaihts (de Dr. Estranho, 2016) que já rodava entre estúdios há dez anos. Ajudou também ter a bordo o diretor do badalado O Jogo da Imitação (The Imitation Game, 2014), Morten Tyldum.

Com grandes filmes de ficção-científica pipocando nas telas (A Chegada em cartaz, Interestelar ainda na memória de todos), chegou o momento para Passageiros. A história acompanha duas pessoas que acordam dentro de uma nave décadas antes do que deveriam. A viagem duraria 120 anos, levando mais de 5000 pessoas adormecidas em cabines para uma colônia distante. Após 30 anos, problemas técnicos despertam Jim (Pratt), e Aurora (Lawrence) logo se junta a ele. Com a companhia apenas do robô-garçom Arthur (Michael Sheen, de Animais Noturnos, 2016), eles pensam no que fazer e acabam achando um problema na nave.

Passengers scene

O roteiro demora uma hora para chegar em algum lugar, e não se trata de um lugar particularmente interessante. Situações éticas são colocadas e nunca tratadas com o devido respeito e o tal problema na nave só aparece para que houvesse algum conflito. E as coisas seguem de forma conveniente, com o diretor em modo genérico. A única cena mais relevante, que causa algum espanto, é vista no trailer e envolve uma piscina sem gravidade. Tyldum, sabendo da beleza de Lawrence, não economiza nas cenas de maiô e explora o corpo dela. Sem um roteiro decente, esse é o único talento da atriz que aparece, com alguns poucos momentos mais iluminados de inteligência ou humor.

Comentar todos os problemas do filme traria um texto repleto de spoilers. Por isso, fica apenas o aviso de que eles são muitos, apesar de não serem listados aqui. A química entre o casal não é das melhores e Pratt se mostra incapaz de dar mais dimensões a seu Jim. Nenhuma questão filosófica é trabalhada, como observamos nos bons longas de ficção-científica, aqueles dos quais a gente se lembra. E Passageiros segue como a nave que leva os dorminhocos ao espaço: em piloto automático.

O diretor levou seus astros à CinemaCon, em Las Vegas

O diretor levou seus astros à CinemaCon, em Las Vegas

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O melhor do Cinema em 2016 – e o pior

por Marcelo Seabra

Hateful Eight Poster

Para o Cinema (entre outros aspectos), 2016 não foi um ano memorável. Tivemos algumas boas opções, mas a contraparte negativa é enorme. Por sorte, passei direto de muita coisa ruim e, infelizmente, não vi tudo de bom. O balanço segue abaixo. Repassando anotações, concluo que 2016 evitou extremos, com poucos ótimos e alguns horríveis. Os medianos e medíocres reinaram, engrossando a coluna do meio.

  • Melhores

Os Oito Odiados

A Chegada

Animais Noturnos

NOCTURNAL ANIMALS

A Grande Aposta

CreedSpotlight

Aquarius

Creed

Ave, César

Capitão Fantástico

A Bruxa

Joker

  • Piores

Esquadrão Suicida

Invasão de PrivacidadeO Vendedor de Sonhos

A Bruxa de Blair

Invasão de Privacidade (I.T., 2016)

Independence Day 2

Tartarugas Ninjas 2

Caçadores de Emoção

Joy

Tirando o Atraso (Dirty Grandpa, 2016)

Dominação

Entre várias bombas, De Niro fez esse Tirando o Atraso

Entre várias bombas, De Niro fez esse Tirando o Atraso

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Surpresas e decepções de 2016

por Marcelo Seabra

The Witch

Por mais que sempre tentemos não criar expectativas sobre novos filmes, basta um trailer, ou uma campanha de marketing mais insistente, para surgir aquela ansiedade. Se o filme é bom, todos ficam satisfeitos e o problema está resolvido – caso de Rogue One (2016), que traz uma carga enorme por ser parte do universo de Star Wars. Mas, se o filme não é bom, é aquela decepção! Não necessariamente o pior do ano, mas um golpe nos espectadores.

Outros projetos parecem ser desenvolvidos na surdina, sem elementos que chamem muito a atenção. Ou, às vezes, são baseados em material não muito querido, do qual se espera pouco. E eles chegam arrebentando, crescendo na propaganda boca a boca e viram inesperados sucessos na temporada.

Abaixo, seguem as cinco maiores surpresas e decepções de 2016, todos com uma rápida explicação do porquê de estarem na lista. Para a crítica completa, clique no título.

Surpresas

A Bruxa (acima) – um dos independentes mais comentados do ano, ganhou prêmios em festivais e começou a chamar a atenção a cada nova cidade aonde chegava. O diretor estreante Robert Eggers cria um clima de tensão e suspense que muito veterano não consegue na história do desaparecimento de um bebê numa floresta, onde mora uma família religiosa extremista.

10Cloverfield

Rua Cloverfield 10 (acima) – com uma ótima trilha e John Goodman num grande momento, o longa prende a atenção do espectador e torce sua percepção, brincando com as coisas que parecem e podem não ser. Seria uma catástrofe ou aquele simpático sujeito é um psicopata que aprisiona pessoas? O mistério durante a produção escondeu os segredos a sete chaves.

The Invitation – outro longa a brincar com a expectativa do público, The Invitation troca os papéis entre os personagens à medida em que avança, nos fazendo duvidar do que está acontecendo. Nunca um jantar foi tão tenso! Produção pequena, chegou timidamente ao Netflix.

Quando as Luzes Se Apagam – o diretor David F. Sandberg conseguiu levar seu curta para o Cinema sem perder força, o que não é comum. Ele desenvolve bem a premissa de terror sobre uma entidade que vive nas sombras e atormenta uma família.

O Homem nas Trevas – depois da elogiada refilmagem de Evil Dead, o diretor Fede Alvarez partiu para um material inédito e simples, sobre um assalto à casa de um cego. As coisas obviamente dão muito erradas e Alvarez explora uma casa e seus cantos como poucos, deixando o público na beirada da cadeira.

Menções Honrosas

Bidget Jones

O Bebê de Bridget Jones (acima) – depois de uma segunda parte ruim e um longo hiato, ninguém esperava nada da pobre Bridget. O humor inteligente e o ótimo timing para comédia dos atores resultaram num divertimento sem restrições.

Ouija: Origem do Mal – um terror, baseado em um jogo, que conta uma história anterior a um outro filme que é bem ruim? Não tinha como dar certo, não é? É aí que desponta o talento do diretor, roteirista e editor Mike Flanagan, que consegue fugir de clichês ao contar a história de uma mãe vidente e suas filhas após o contato com uma tábua Ouija.

Animais Fantásticos e Onde Habitam – quem não é fã de Harry Potter não esperava muita coisa. Quem é, não achava que esse spin off seria à altura da série do bruxo juvenil. Mas a roteirista J.K. Rowling tratou muito bem seu material e vimos uma aventura criativa e divertida, que nos apresenta a uma nova franquia, expandindo o universo de Potter.

Dr. Estranho e Deadpool – quando achávamos que já tínhamos visto tudo em matéria de super-herói, mais especificamente da Marvel, vêm essas duas produções que não são exatamente no padrão. Deadpool traz um humor inédito em um longa desse tipo, fazendo justiça ao personagem, e Dr. Estranho é uma viagem psicodélica construída por vários elementos de qualidade, como diretor, ator, montagem e efeitos visuais.

Decepções

Suicide Squad

Esquadrão Suicida (acima) – ao contrário da Marvel, a DC parece perdida no Cinema, nos fazendo passar raiva com coisas como esse Esquadrão Suicida, que trai as próprias premissas que estabelece. Uma burocrata do governo resolve reunir um grupo de criminosos para combater uma ameaça que acaba surgindo deles mesmos, algo que faria os Power Rangers ficarem envergonhados.

Batman vs Superman – mesmo depois do fraco Homem de Aço, um encontro entre ícones da infância de muita gente joga nas alturas as expectativas. Mas a mão de Zack Snyder foi mais forte e BvsS conseguiu desapontar, resultando num embate vazio e confuso, com vilões ruins e conclusões piores.

O Caçador e a Rainha do Gelo – parecia uma boa ideia se afastar da Branca de Neve e contar uma história à parte, ainda que no mesmo universo. Com três ótimas atrizes, o cenário era melhor ainda. Mas o resultado é uma canseira confusa, que não traz novidade alguma e tenta fazer graça com um humor rasteiro e fora de lugar.

Cafe Society

Café Society (acima) – um elenco fantástico nas mãos do prolífico Woody Allen não necessariamente resulta em algo marcante. Com uma média de um novo filme por ano, o diretor e roteirista é lembrado por ótimas produções, mas as medíocres continuam rondando seu currículo. Assim como a série que lançou esse ano, Crisis in Six Scenes, esse Café Society não chega a lugar nenhum, contando histórias que se encavalam e não se resolvem.

Assassino a Preço Fixo 2 – o dinheiro falou mais alto e uma aventura bacana de 2011 ganhou uma continuação formulaica na qual o protagonista, um assassino do mais alto gabarito, aceita uma missão… por que mesmo? Furado de um lado a outro, o longa não empolga nem mesmo seus atores, que parecem constrangidos e doidos para passarem logo para o próximo projeto.

Menção Desonrosa

A Última Ressaca do Ano – com alguns atores aparentemente engraçados no elenco, era de se esperar ótimas piadas. Mas passamos a sessão toda com aquele projeto de sorriso no rosto, esperando que ele se confirme, mas nada que justifique acontece. A festa de Natal do escritório só consegue produzir violência e situações previsíveis, nada nem perto de engraçado.

Essa festa deu errado de várias formas

Essa festa deu errado de várias formas

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Animação homenageia Batman dos anos 60

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Batman Return of the Caped Crusaders

Batman, série cômica produzida entre 1966 e 1968, foi um fenômeno cultural da época. Apesar de ser odiada por fãs mais modernos, a série foi uma das principais catapultas para a popularidade do futuro Cavaleiro das Trevas. Prova disso é que, nos últimos anos, a DC resolveu revisitar essa versão do personagem em uma série de minisséries em quadrinhos lançados inicialmente em formato digital e, posteriormente, em edições físicas encadernadas. A boa repercussão dessa iniciativa, somada ao fato de as disputas relativas aos direitos sobre a série terem sido resolvidas e permitido que ela fosse lançada em DVD e Blu-Ray, atiçou o interesse da nova geração por essa versão mais leve do herói. Isso fez com que a divisão de animação da Warner Bros. resolvesse lançar uma animação baseada nela e, no mesmo ano do sombrio (e decepcionante) Batman vs Superman, chegou às lojas tupiniquins Batman: O Retorno da Dupla Dinâmica (Batman: Return of the Caped Crusaders, 2016). De cara, fica o aviso: se o único Batman que você considera “o verdadeiro” é aquele estabelecido após a reformulação de Frank Miller ou o que estrelou a trilogia de Chris Nolan, passe longe desse longa.

Batman WestBatman: O Retorno da Dupla Dinâmica é praticamente uma continuação da série camp dos anos 1960, mas com possibilidades que uma série live-action, com um orçamento limitado, não poderia explorar. A animação começa como quase todos os Robin Wardepisódios da série. O milionário Bruce Wayne e seu protegido Dick Grayson (respectivamente dublados pelo Batman e Robin originais, Adam West e Burt Ward) estão na Mansão Wayne acompanhados de seu mordomo Alfred (Steven Weber, de séries como NCIS: New Orleans e Duas Garotas em Apuros) e da tia de Bruce, Harriet (Lynne Marie Stewart, também de Duas Garotas em Apuros), que desconfia da natureza da relação da dupla, quando o telefone vermelho toca. O comissário Gordon (Jim Ward, de Pets: A Vida Secreta dos Bichos, 2016) e o Chefe O’Hara (Thomas Lennon, de Transformers: A Era da Extinção, 2016) precisam da ajuda de Batman e Robin quando descobrem que o Coringa (Jeff Bergman, de Uma Família da Pesada), o Charada (Wally Wingert, também de Uma Família da Pesada), o Pinguim (William Salyers, ator especializado em dublagens de jogos) e a Mulher-Gato (Julie Newmar, reprisando seu papel na série dos anos 1960) se uniram para um plano diabólico que apenas a Dupla Dinâmica pode deter.

A animação segue uma fórmula conhecida dos fãs da série em seu primeiro ato, com Batman e Robin enfrentando os quatro em meio a angulações estranhas de câmera e onomatopéias que explodem na tela – “POU!” “SOC!” e etc -, Batman tentando dar lições de moral no meio das brigas e Robin soltando seus bordões (santo isso, santa aquilo) a todo o tempo. Ao fim dos primeiros vinte minutos, a exemplo do que acontecia na série, Batman e Robin estão presos em uma armadilha excêntrica enquanto o quarteto de vilões se afasta, deixando a Dupla Dinâmica a seu próprio destino. Desnecessário dizer que, a exemplo da série, Batman e Robin conseguem escapar e, daí em diante, a animação toma um rumo relativamente surpreendente, ainda que não se afaste muito da premissa da série original. Apesar do visual de Gotham lembrar muito o de diversas animações de Batman e os cenários não serem tão excêntricos e coloridos, isso não traz nenhum demérito à animação.

Batman: O Retorno da Dupla Dinâmica acaba sendo uma animação leve e divertida que deve despertar a nostalgia dos mais velhos e o interesse da nova geração em ver essa versão do herói. Lançada diretamente para o mercado de homevideo, ela já está disponível no Brasil. Vale a pena dar uma conferida.

Ward e West hoje

Ward e West hoje

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Rogue One é mais Star Wars nos cinemas

por Marcelo Seabra

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Os melhores filmes entre os mais recentes da saga Star Wars seguem sendo aqueles sem a presença de George Lucas. Os diálogos horrendos ficaram para trás e Rogue One: Uma História Star Wars (2016) consegue a proeza de se sustentar sozinho, mesmo sem os personagens clássicos e tendo a tarefa de nos apresentar aos novatos desse rico universo. O longa tem outro compromisso complicado: chegar a um ponto que todos os fãs da série conhecem e, mesmo assim, trazer ar fresco, amarrando a brecha entre as duas trilogias.

Como sabem os iniciados, a trilogia clássica é a intermediária entre a outra já completa e a iniciada com O Despertar da Força (The Force Awakens, 2015). Ou seja: primeiro vieram os episódios IV a VI, depois os de I a III e, só no ano passado, o sétimo. A história de Rogue One corre por fora por não envolver os Skywalkers, Han Solo e companhia, mas não deixa de ter participações especiais – algumas recriadas por computação gráfica. Com argumento de dois conhecidos da franquia, Gary Whitta (roteirista da série Star Wars Rebels) e John Knoll (supervisor de efeitos visuais da trilogia I-III), mas roteiro dos não-iniciados Chris Weitz (de Cinderela, 2015) e Tony Gilroy (dos quatro Bourne), o longa ainda se beneficiou de ter outro olhar “de fora”: o do diretor, Gareth Edwards (de Godzilla, 2014).

Em mãos competentes e “não viciadas”, digamos assim, o filme consegue honrar seus antecessores e caminhar com as próprias pernas. A ótima trilha sonora, do prolífico Michael Giacchino (de dois Star Trek), representa exatamente o que o todo é: inspirada no clássico, rumo ao novo. Os personagens são desenvolvidos o suficiente para entendermos suas motivações e nos importarmos com eles. E a diversidade é bem-vinda: temos uma mulher no posto principal e várias etnias compondo o grupo, com um latino, dois chineses, americanos e europeus, brancos e negros, todos bem misturados. Afinal, se eles têm facilidade para viagens interplanetárias, faz sentido ter esse tanto de gente diferente junto. Grupos de extrema direita norte-americanos não gostaram e propuseram boicote, e os mais de 150 milhões de dólares de arrecadação em três dias mostram que não deu certo.

Rogue One Jyn

Apresentada nos trailers, a protagonista é Jyn Erso (Felicity Jones, de Inferno, 2016 – acima), uma órfã criada pelo líder rebelde Saw Gerrera (Forest Whitaker, de A Chegada, 2016). De tão extrema é a sua posição, Gerrera se afastou da Aliança Rebelde e levou seus seguidores para um planeta afastado. Quando a Aliança descobre que Jyn é, na verdade, filha de um cientista que trabalha em uma grande arma para o Império, decide usá-la para chegar até ele. Diego Luna (de Herança de Sangue, 2016) vive o representante da Aliança que acompanha Jyn e eles lideram um grupo que acaba sendo a esperança de vencer o Imperador e seus asseclas. A palavra esperança, inclusive, é muito bem utilizada, o que dá total sentido ao título do Episódio IV – Uma Nova Esperança (A New Hope, 1977). E a Força aparece como uma religião, mostrando a necessidade do homem de acreditar no sobrenatural para seguir em frente.

Mesmo não seguindo os padrões estéticos da saga, como o letreiro inicial e a mudança de cena com quadros passando, Rogue One se encaixa bem. Cenários criativos não faltam, com diversos planetas e luas, todos devidamente povoados, com comércio e características bem específicas. A questão política aparece provavelmente da forma mais contundente em toda a série. Gerrera é um extremista não tolerado até pelos outros rebeldes, o que seria a representação da desunião das esquerdas de hoje – algo muito presente no Brasil. O Diretor Krennic, vivido pelo sempre excepcional Ben Mendelsohn (de Bloodline – abaixo), parece acreditar cegamente no Império e justifica o uso de violência como meio para a paz, algo que o Terceiro Reich assinaria embaixo. Krennic busca a aprovação do Imperador quase como numa relação pai e filho, tamanha é a sua admiração pela figura. Darth Vader (com a marcante voz de James Earl Jones) deixa de ser um capanga e assume o papel que ganhou nas produções mais recentes: o de braço direito do Imperador, o representante do lado negro da Força.

Rogue One Krennic

É interessante notar que não só o Império tem sua parcela de culpa. O personagem de Luna admite que fez coisas reprováveis em nome da revolução, da causa, o que dá ao filme uma profundidade rara nos blockbusters de hoje. Mads Mikkelsen, que finalmente deixa de lado o papel de vilão (depois de Cassino Royale, Hannibal e Doutor Estranho), vive um sujeito atormentado, o tal cientista cooptado pelo Império a construir uma arma de enormes proporções. A relação entre ele e Krennic também é bem interessante, deixando transparecer uma amizade há muito eclipsada por posições políticas. Só o que nunca poderia mudar é a mira terrível dos Stormtroopers, que não matam ninguém. E, enquanto rebeldes levam vários tiros e continuam na luta, os soldados morrem com uma lufada de vento.

Ainda que não seja perfeito, perdendo força no final, Rogue One consegue um resultado melhor até que O Despertar da Força. O fato de ser tudo novidade trabalha a favor, não entramos com preconceitos e expectativas – o que potencializa a surpresa de uma ótima aventura. Os efeitos especiais tornam tudo possível, até que consigamos distinguir entre os andróides do Império e um reprogramado pela Aliança – graças também à interpretação de Alan Tudyk (de Zootopia, 2016). Misture nesse caldo alguns afagos aos fãs, como a participação de Bail Organa (Jimmy Smits, de The Get Down), e a receita de sucesso estará completa.

Lord Vader continua uma figura indispensável

Lord Vader continua uma figura indispensável

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Eastwood e Hanks recontam o drama de Sully

por Marcelo Seabra

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Enquanto aguardamos a partida do avião, nada pior do que ouvir que os assentos são flutuáveis, em caso de pouso na água. Logo penso: “Prefiro pousar no chão!”. Pois os passageiros do Capitão Chesley “Sully” Sullenberger não tiveram essa opção no voo 1549 da US Airways e foram parar no meio do rio Hudson. O fato, ocorrido em 2009, acaba de chegar aos cinemas em Sully: O Herói do Rio Hudson (Sully, 2016), novo trabalho de Clint Eastwood.

Em 15 de janeiro de 2009, Sully e seu primeiro oficial, Jeffrey Skiles, levavam 155 passageiros, mais tripulação, de Nova York a Charlotte, na Carolina do Norte. Com apenas três minutos no ar, aves vieram na direção contrária e inutilizaram os dois motores, tornando impossível, aos olhos do capitão, se dirigir a qualquer um dos aeroportos mais próximos. A solução foi pousar no Hudson, e ninguém se feriu gravemente. Mesmo tido por todos como herói e saudado em qualquer lugar, Sully e Skiles passaram por uma espécie de julgamento por uma junta que examina se a manobra era realmente necessária.

Baseado no livro de Sully e do jornalista Jeffrey Zaslow, o roteiro do longa foi escrito por Todd Komarnicki, profissional cujo último crédito era o terrível A Estranha Perfeita (Perfect Stranger, 2007). Por algum milagre, deu tudo certo: o roteiro é enxuto, objetivo e crescente em sua tensão. O pouso, como podemos adivinhar, foi rápido e não poderia durar o filme todo, mesmo tendo apenas seus 96 minutos. Por isso, fora um ou outro flashback, a maior parte do filme se concentra no pós. A condução das audiências parece a votação do impeachment que vimos recentemente: algo surreal!

Sully scene

Alguns problemas existem, claro. Aquelas coincidências do jornal sempre começar quando o personagem liga a televisão, por exemplo. O fato de todos serem tão amáveis, parece que Nova York é a cidade dos bonzinhos, é um pouco forçado. As visões e pesadelos tiram o público do filme, o que não é desejável. Mas as duas atuações principais são mais do que suficientes para nos fazer relevar essas coisas menores. Tom Hanks, com seus dois Oscars, quatro Globos de Ouro e trocentos outros prêmios, dispensa apresentações. Ele pilota um avião, responde às perguntas dos investigadores e se exercita pelas ruas com a mesma serenidade. Hanks tem a invejável capacidade de ser um cara comum, mesmo que já o tenhamos visto nos papéis mais variados. Outro que está muito bem é Aaron Eckhart (do Frankenstein de 2014). Nem sempre, suas escolhas são confiáveis (como o Frankenstein de 2014), mas seu trabalho é, e ele é uma ótima dupla para Sully no comando do voo 1549. Só sentimos por Laura Linney (de As Tartarugas Ninja 2, 2016), outra atriz fantástica que não é bem aproveitada.

Tecnicamente, Clint Eastwood continua afiado, e dois fiéis colaboradores têm responsabilidade nisso: o diretor de fotografia Tom Stern e a montadora Blu Murray. O som, principalmente nas sequências envolvendo aviões, também é bem marcante. E os efeitos especiais entram para somar, e não para roubar o show (como no bom Além da Vida, 2010). Eastwood se mostra um diretor muito competente e seguro, e aqui não comete o erro de deixar sua visão política conservadora e radical contaminar o longa (como em Sniper Americano, 2014). Pelo contrário: o bom desenvolvimento dos personagens, algo muito observado em sua obra, está presente – mesmo que, segundo depoimentos recentes de Hanks, o diretor trate seus atores como cavalos.

Eastwood orienta seu astro

Eastwood orienta seu astro

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