Jacob Tremblay é um Extraordinário menino comum

por Marcelo Seabra

August Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto de 10 anos de idade que se prepara para ir à escola pela primeira vez. Cercado de cuidados pelos pais, ele fica imaginando como será conviver com outros de faixas etárias variadas, se será aceito, se terá amigos. Resumindo, as preocupações de qualquer um nessa época da vida. O agravante é a deformidade facial que faz com que Auggie seja logo notado em qualquer lugar, o que complica um pouco as agruras usuais. Ele é o protagonista de Extraordinário (Wonder, 2017), longa que ocupa atualmente o primeiro lugar entre as bilheterias nacionais.

Depois de As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012), ninguém tinha dúvida da sensibilidade do diretor e roteirista Stephen Chbosky para tratar de questões relacionadas a amadurecimento, amizade, lealdade, aceitação e outros assuntos relacionados ao crescimento. Adaptando o livro campeão de vendas de R.J. Palacio com mais dois roteiristas, ele acerta novamente o alvo, com uma história delicada que trata seus personagens como seres humanos, como gente que acerta e erra e é capaz de mudar de opinião e comportamento.

Tendo estourado para o mundo com O Quarto de Jack (Room, 2015), Tremblay tem o desafio de ter que atuar com uma maquiagem pesada no rosto, perdendo aquela carinha simpática que ganha o público de cara. E ele mostra grande talento compondo Auggie com gestos comedidos e muita expressão, o suficiente para vermos sob as próteses o que ele está sentindo ou pensando. Numa espécie de mistura de Marcas do Destino (Mask, 1985) e Meninas Malvadas (Mean Girls, 2004), Tremblay tem uma nova chance para brilhar.

A mensagem de bondade e superação está presente, mas numa medida que não deixará ninguém de cara fechada. Vividos por Owen Wilson (de Gênios do Crime, 2016) e Julia Roberts (de Jogo do Dinheiro, 2016), os pais de Auggie abriram mão de muita coisa para cuidar do filho, mas não se mostram amargurados, paranoicos ou mais problemáticos que o normal. Eles têm os pés no chão e entendem o caminho que o pequeno precisa seguir. Por isso, quando completa 10 anos, Auggie deixa de estudar em casa, com a mãe, para começar seu processo de socialização.

Com um garoto que demanda tanta atenção em casa, é de se esperar que a irmã se sinta um tanto deixada de lado. Olivia (Izabela Vidovic, de Supergirl) mostra bem esse sentimento, ao mesmo tempo em que é extremamente compreensiva. Um ponto positivo do longa é mostrar os pontos de vistas de vários envolvidos, até daqueles que julgamos menos importantes num primeiro momento. Se a história de Miranda (Danielle Rose Russell, de Os Originais) não convence e parece desnecessária, a de Jack Will (Noah Jupe, de The Night Manager) comove e mostra que às vezes pisamos na bola para sermos aceitos.

À medida em que a história avança, podemos ouvir a fungação generalizada na sala. Extraordinário é o tipo de filme que consegue facilmente uma reação mais emocionada de seu público, e seu maior trunfo é fazer com que nos apeguemos a Auggie. Todos vão se ver torcendo pelo garotinho, e entendemos que ele também tem seus momentos de xilique, ou exagero. Ao menos, isso é o que parece para quem está de fora. Para ele, naquela idade, é tudo questão de vida ou morte. Se, para um estudante que passa batido, já é tudo muito difícil, imagine para ele, que nasceu para se destacar?

O veterano Mandy Patinkin marca presença como o diretor da escola

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Programa do Pipoqueiro #11

por Marcelo Seabra

Na 11ª edição do Programa do Pipoqueiro, celebramos os 75 anos do lançamento de Casablanca com músicas-tema de clássicos do Cinema, incluindo a imortal As Time Goes By. Isso, além de comentários e críticas de obras atuais. Clique no play abaixo e escute!

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Poirot investiga um novo Assassinato no Expresso Oriente

por Marcelo Seabra

Com a rapidez que certas obras da literatura têm ganhado novas roupagens no Cinema, é de se estranhar que Agatha Christie estivesse intocada por tanto tempo. Eis que Kenneth Branagh, se recuperando de uma sequência de filmes nada memoráveis, como Cinderela (2015) e Operação Sombra: Jack Ryan (2014), assume o comando de um novo Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, 2017), recrutando um elenco de se invejar. E todas as demais peças se encaixam.

A história, mais do que conhecida, acompanha um grupo bem heterogêneo fazendo uma viagem no Expresso Oriente do título quando um assassinato ocorre. Acontece que o maior detetive do mundo está a bordo, e não estamos falando de Sherlock Holmes, muito menos do Batman. Trata-se da mais famosa criação de Christie: o belga Hercule Poirot. Vivido pelo próprio Branagh, ele passa longe de afetações ou arrogância, mas é de fato alguém bem meticuloso, que gosta de tudo no seu devido lugar.

Assim como seu personagem, o diretor se mostra bem detalhista, aproveitando várias oportunidades discretas para construí-lo. Rapidamente, conhecemos bastante de sua personalidade, e o fato de Branagh ser fluente em muitas línguas ajuda muito na composição. Vários intérpretes já tiveram essa missão, como Albert Finney (na adaptação de 1974 do mesmo livro) e Peter Ustinov, este em nada menos que seis ocasiões. Branagh se coloca como um dos melhores e já garante vida nova também a Morte Sobre o Nilo, que Ustinov protagonizou em 1978 e deve ser a próxima aventura de Poirot.

Dentre os passageiros, Johnny Depp se destaca como o detestável Sr. Ratchett. Temos ainda: Michelle Pfeiffer (Sra. Hubbard), Penélope Cruz (Pilar Estravados, uma versão hispânica de Greta Ohlsson), Judi Dench (Princess Dragomiroff), Derek Jacobi (Masterman), Leslie Odom Jr. (Dr. Arbuthnot, uma mistura de dois personagens), Daisy Ridley (Mary Debenham), Lucy Boynton (Condessa Andrenyi), Tom Bateman (Bouc), Manuel Garcia-Rulfo (Biniamino Marquez, uma versão de Antonio Foscarelli), Josh Gad (MacQueen), Marwan Kenzari (Pierre Michel), Sergei Polunin (Conde Andrenyi), Willem Dafoe (Gerhard Hardman) e Olivia Colman (Hildegarde Schmidt).

Pelos personagens acima, pode-se perceber pequenas modificações feitas no original, mas nada que vá causar dano à obra. O elenco está muito bem, de uma forma geral, especialmente Michelle Pfeiffer, que sempre rouba a cena. E a ambientação de época é impecável, assim como as paisagens gélidas que vemos pelas janelas do trem, ou nas elegantes tomadas aéreas que nos mostram o caminho por onde eles estão passando.

O mistério é interessante e prende o espectador até o final. Só vai perder um pouco da emoção quem já conhece a história, pelo livro ou pelas várias versões para o Cinema. Esta, sem dúvida, é das melhores, e deve ser apenas o início de uma franquia de Poirot. Se continuar assim, será bem superior a outras que vemos por aí.

Quem foi?

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Programa do Pipoqueiro #10

por Marcelo Seabra

Na décima edição do Programa do Pipoqueiro, o ano é 2001 e o filme da vez é Donnie Darko, com sua fantástica trilha sonora! E ela vem em boa companhia, além de comentários e críticas dessa e de outras obras. É só clicar no play abaixo!

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Conheça as melhores histórias da Liga da Justiça

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

A Liga da Justiça tem uma longa história nos quadrinhos. Com o lançamento do filme do grupo nos cinemas (cujas críticas você pode ler aqui e aqui), o Pipoqueiro preparou um artigo especial baseado na Liga. Abaixo, listamos as 10 mais importantes histórias estreladas por eles para que você, caso se interesse, conheça mais sobre a trajetória do maior supergrupo da DC Comics.

É importante frisar que esse artigo se foca em histórias prioritariamente estreladas pela Liga da Justiça, por isso, excluímos aquelas onde o grupo teve grande importância, mas não foi o foco principal. Isso explica a ausência na lista abaixo de histórias como Crise nas Infinitas Terras, O Reino do Amanhã, Crise Infinita e outras. Também não as colocamos em qualquer tipo de ranking, a ordem escolhida foi o ano de publicação.

1 – The Brave and the Bold 28 (1960)

Lançado em 1955, The Brave and the Bold foi um dos títulos mais longevos da DC, passando da casa das 200 edições. A edição de número 28, de fevereiro de 1960, se tornaria histórica pois marca a estreia da Liga da Justiça. Então formada por Flash (Barry Allen), Lanterna Verde (Hal Jordan), Mulher-Maravilha, Aquaman, Ajax, Batman e Superman, a história mostra a Liga enfrentando a ameaça de Starro, uma estrela-do-mar alienígena e gigante cujos planos envolviam o domínio da Terra e a escravização de sua população.

Apesar de ser um produto típico da Era de Prata dos quadrinhos, a história vale pelo marco de ter apresentado a Liga da Justiça da América ao público. Clique aqui para ler a história.

A história apresentada em The Brave and The Bold nº 28 foi publicada no Brasil em três ocasiões: em Os Justiceiros nº 12 (Editora Ebal, 1968), Arquivos DC – Liga da Justiça da América (Panini, 2007) e DC Comics – Coleção de Graphic Novels n° 4 (Eaglemoss, 2014).

2 – Justice League of America 9 (1962)

Pouco mais de um ano após sua primeira aparição, em The Brave and The Bold, a Liga da Justiça da América ganhava seu próprio gibi. Na edição de número nove, de fevereiro de 1962, os membros fundadores da Liga, juntamente com Snapper Carr e o Arqueiro Verde, se juntam para celebrar o primeiro aniversário do grupo. Nessa ocasião, os membros fundadores decidem partilhar com Snapper e o Arqueiro como foi que se reuniram pela primeira vez.

De acordo com o relato iniciado por Ajax, há um planeta nas proximidades da Terra chamado Appelax. Lá, quando seu regente foi morto, sete de seus habitantes – todos alienígenas dotados de diferentes poderes – se candidataram ao cargo. Para provar seu valor, eles deveriam vir à Terra, cada um dominar um continente e, formando um exército, guerrear entre si até restar apenas um.

À medida em que os meteoros se aproximaram ou caíram na Terra, cada futuro membro da Liga (à exceção de Batman e Superman) enfrentou e derrotou seu oponente. Ao fim de cada combate, ficaram sabendo de um meteoro que ainda não havia sido “chocado” e partiram para onde ele caíra, sendo capturados pela criatura que saiu dele.

Graças a um esforço em grupo, o quinteto derrotou o alienígena e partiu para achar o sétimo appelaxiano, na Groelândia, e que encontrou sua derrota nas mãos de Batman e Superman. Vendo que o esforço em conjunto fora o que os possibilitara salvar o planeta, os sete heróis decidiram se juntar para formar a Liga da Justiça da América.

Assim como The Brave and the Bold 28, Justice League of America 9 é um produto do seu tempo, ou seja, tem uma trama simples executada de maneira simples com algumas soluções ainda mais simplórias. Mas vale por seu valor histórico, já que estabeleceu uma mitologia que perdurou por bastante tempo na DC e à qual voltaremos mais abaixo.

Curioso? Cliquei aqui e leia a edição (em inglês).

Intitulada simplesmente A Origem da Liga da Justiça, a história acima foi publicada pela última vez no Brasil em Arquivos DC – Liga da Justiça da América (Panini, 2007).

3 – Justice League International (1987)

A Liga da Justiça Internacional foi um gibi da Liga da Justiça que causaria terror aos fãs de Zack Snyder e sua teoria de que os heróis da DC precisam ser sombrios, sorumbáticos e sérios. O título, comandado pelos roteiristas Keith Giffen e J. M. DeMatteis e o desenhista Kevin Maguire, é a antítese de tudo isso, focando-se pesadamente no humor. Com uma formação contando com personagens de terceira linha da DC, à exceção de Batman (formação inicial: Sr. Milagre, Oberon, Canário Negro, Ajax, Capitão Marvel, Besouro Azul, Dra. Luz, Sr. Destino e o Lanterna Verde Guy Gardner), o gibi mostrava o dia a dia dos heróis, que costumavam passar bastante tempo na sede da organização. Alguns, inclusive, moravam lá.

Giffen, DeMatteis e Maguire conseguiam mostrar a Liga tanto em tramas cósmicas como mundanas, sem perder a qualidade de suas histórias. Na mesma edição, a Liga poderia tanto enfrentar um inimigo como Despero quanto problemas com ratos em sua sede; problemas de equipes de mudanças em suas sedes ao redor do mundo ou a ameaça do Sr. Nebulosa, o Decorador de Mundos (uma sátira a Galactus, o Devorador de Mundos da Marvel); lutar contra os Senhores da Ordem ou controlar a fúria de Cueicueicuei, a ilha viva, depois de Besouro Azul e Gladiador Dourado tentarem explora-la turisticamente.

Ao longo do período da dupla Giffen e DeMatteis, outros integrantes entraram no grupo, com destaque para o Gladiador Dourado e a dupla Gelo e Fogo (essa, uma brasileira). Não só isso: o título fez tanto sucesso que gerou dois derivados: a Liga da Justiça Europa (formação inicial: Capitão Átomo, Flash [Wally West], Soviete Supremo, Poderosa, Homem-Elástico [Ralph Dibny], Homem-Animal, Metamorfo e Mulher-Maravilha) e a Liga Antártica. A Liga Europa também tem momentos memoráveis, como a história em que seus membros tentam fazer aulas de francês e acaba, claro, dando tudo errado. Um dos gibis mais criativos dos anos 1980, praticamente toda a fase comandada por Giffen & DeMatteis e derivados vale ser conferida.

Ficou interessado? Então clique aqui para ler o primeiro arco de histórias dessa fase da Liga da Justiça, contendo as sete primeiras edições. Caso também queira conferir do que se trata a Liga da Justiça Europa, clique aqui para ler a primeira edição do grupo.

No Brasil, as histórias da Liga da Justiça Internacional começaram a ser publicadas em Liga da Justiça nº 1 (1989). A revista passaria a se chamar Liga da Justiça Internacional a partir da edição de número 7. A Liga da Justiça Europa fez sua estreia em Superpowers nº 20, de fevereiro de 1991 e, logo após, passou a ter histórias publicadas no gibi da Liga da Justiça Internacional. Finalmente, a Liga da Justiça Antártica teve seu único arco de histórias publicado em Superpowers nº 24, de fevereiro de 1992. Todas essas edições saíram por aqui através da editora Abril Jovem.

4 – JLA – New World Order (1997)

Em 1997, os executivos e editores da DC Comics resolveram que era hora de trazer a Liga da Justiça da América de volta, dessa vez com uma formação contando com os pesos pesados da editora. Coube ao roteirista Grant Morrison comandar o título em sua nova fase.

Intitulado simplesmente JLA, podemos destacar o primeiro arco dessa fase do título: New World Order (Nova Ordem Mundial) foi o pontapé inicial da nova Liga da Justiça da América, que, agora, contava com Ajax, Aquaman, Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash (Wally West) e Lanterna Verde (Kyle Rayner). De cara, a nova formação da Liga precisa encarar o Hyperclan, um grupo de alienígenas superpoderosos que se propõe a salvar o mundo através de ações que afetam a vida da população, transformando desertos em terrenos férteis, apresentando tolerância zero contra criminosos e afins. Os membros da Liga da Justiça, no entanto, desconfiam que algo está errado e sua intuição logo se prova correta.

Nova Ordem Mundial é um marco por diversos motivos. O principal deles é o fato de a trama apresentada por Morrison ter sido utilizada na série animada da Liga da Justiça anos depois, além de ter fortalecido a figura de Batman. Muito da teoria que corre entre os fãs de quadrinhos de que um Batman com tempo para se preparar é invencível se dá graças ao período de Morrison no título.

Nova Ordem Mundial foi publicada nos números 1-4 de JLA (1997) nos EUA e entre julho e outubro de 1998 por aqui, nos números 9-12 de Os Melhores do Mundo (Abril Jovem).

Clique aqui para ler o primeiro número dessa fase da Liga da Justiça.

5 – JLA  – Year One  (1998)

Durante o ano de 1998, Grant Morrison tirou uma licença da JLA. Pelas próximas 12 edições, o roteirista Mark Waid assumiu o barco e decidiu revisitar os primeiros dias da Liga da Justiça da América. Year One (Ano Um) recupera a história mostrada em Justice League of America 9, atualizando-a para a moderna DC Comics. Aqui, a Mulher-Maravilha é substituída pela Canário Negro como membro fundadora da Liga, enquanto Batman e Superman são deixados de lado.

Ano Um é uma história deliciosa para fãs antigos da Liga. Com sua competência de sempre, Mark Waid preenche os espaços deixados entre as histórias anteriores da Liga, mostrando o dia-a-dia não só dos heróis, mas também de suas identidades secretas. Vemos os heróis enfrentando problemas de convivência, a forma como precisam conquistar a confiança não só uns dos outros, mas da opinião pública em geral, sua interação com demais personagens da DC, planos para o futuro (alguns que os leitores já sabem que jamais serão realizados) … Tudo isso enquanto precisam desvendar uma conspiração relacionada ao seu primeiro caso.

JLA: Year One foi publicado entre as edições 20 e 32 de JLA nos EUA e entre os números 21 e 25 de Os Melhores do Mundo (julho-novembro 1999, Editora Abril Jovem). Ela foi republicada em DC Comics – Coleção de Graphic Novels n° 8 e 9 (Eaglemoss, 2016) e você pode ler a primeira história dessa fase da Liga da Justiça aqui.

 6 – JLA  – Tower of Babel (2000)

Nos minutos finais de Capitão América: Guerra Civil (2016), Zemo diz que a melhor forma de destruir um império é por dentro. Dezesseis anos antes, o roteirista Mark Waid já havia se aproveitado desse conceito como base de uma das melhores histórias da Liga da Justiça.

Torre de Babel mostra Batman meio que como um traidor da comunidade heroica à medida em que ele mantém dados relacionados não só a seus inimigos, como a seus aliados. Batman analisou os pontos fortes e fracos de todos os superseres da Terra e, com base nisso, elaborou planos e estratégias para derrotar cada um deles, caso necessário.

Todos os planos do Cavaleiro das Trevas acabam caindo nas mãos de Ra’s Al Ghul, que os utiliza para derrotar a Liga da Justiça de modo que o grupo não interfira em mais um dos seus planos de reduzir a população mundial. O legal de Torre de Babel é a forma criativa que Waid criou para incapacitar cada um dos membros da Liga, que na época contava com Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash (Wally West), Lanterna Verde (Kyle Rayner), Ajax e Homem de Borracha. A forma como a Liga lida não só com Ra’s, como com o próprio Batman, também marcou época no gibi do grupo.

Torre de Babel foi a base para a animação Liga da Justiça: A Legião do Mal. Mas a história foi adaptada de uma maneira tão desleixada que perdeu toda a sua essência. Tower of Babel foi publicada originalmente em JLA 43-46. No Brasil, Torre de Babel saiu em Superman 17 (Abril, 2001) e DC Comics – Coleção de Graphic Novels n° 4 (Eaglemoss, 2014).

7 – Identity Crisis (2004)

Em 2004, a DC Comics convidou o escritor Brad Meltzer, que havia trabalhado no título do Arqueiro Verde no ano anterior, para escrever uma minissérie da Liga da Justiça. O resultado foi Identity Crisis (Crise de Identidade), uma série que explora os limites da moralidade que (alguns dos) membros da Liga da Justiça estariam dispostos a quebrar se isso garantisse que a justiça fosse feita.

A história começa quando Sue Dibny, esposa do Homem-Elástico, é brutalmente assassinada em seu apartamento. Não há sinais de invasão e logo um sem número de vilões é colocado na lista de suspeitos. Não só isso, mas não demora até que familiares e entes queridos de todos os membros da Liga entrem na mira do assassino, deixando toda a comunidade heroica em polvorosa.

Ralph, no entanto, não tem dúvidas de quem assassinou sua esposa e a motivação por trás de seus atos. Ao longo da investigação, alguns segredos sórdidos da maior equipe de heróis do universo DC são desenterrados, e eles não são nada bonitos.

Publicada em sete edições entre junho e dezembro de 2004 nos EUA, Crise de Identidade foi publicada no Brasil através da editora Panini entre setembro de 2005 e março de 2006. Ela foi republicada em um encadernado colecionando toda a série em setembro de 2007. Clique aqui para ler o primeiro número da série.

8 – Justice (2005-2007)

A maioria das pessoas na faixa dos 40 anos foi apresentada aos personagens da DC através do desenho dos Superamigos, que foi produzido entre 1973 e 1985 e ainda ficou na TV por algum tempo após, graças à repetição de seus episódios em canais abertos e à cabo. Na série, os principais heróis da DC – com alguns criados especialmente para a série – enfrentavam diversas ameaças. A principal delas era um conclave de vilões chamada por aqui de a Legião do Mal. Liderada por Lex Luthor, a Legião geralmente tinha planos que envolviam a dominação mundial em tramas bastante simples.

Em 2005, o pintor Alex Ross se juntou ao roteirista Jim Krueger e ao desenhista Doug Braithwaite e juntos criaram Justice (Justiça), uma minissérie em 12 edições bimensais que fez a alegria dos nostálgicos ao recriar os conflitos da Liga da Justiça com a Legião do Mal, ainda que em um ambiente mais sóbrio e sombrio.

Em Justiça, um bando de vilões começa a ter um pesadelo compartilhado no qual mísseis são lançados ao redor do mundo e os membros da Liga da Justiça falham em salvar o planeta de sua destruição, o que deixa apenas o Superman como sobrevivente. Eles resolvem se unir e, com a liderança de Lex Luthor e Brainiac, elaboram um plano para salvar a Terra desse destino. Isso, como não poderia deixar de ser, envolve a eliminação dos principais heróis do planeta. Os heróis, por sua vez, não aceitarão esse destino facilmente.

Justice é uma tremenda viagem nostálgica onde o leitor pode ver os principais heróis que formavam os Superamigos (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Lanterna Verde (Hal Jordan), Flash (Barry Allen), Gavião Negro, Mulher Gavião, Ajax, Arqueiro Verde, Eléktron, Capitão Marvel e outros) enfrentando a clássica Legião do Mal (Lex Luthor, Brainiac, Bizarro, Coringa, Charada, Manta Negra, Capitão Frio, Mulher Leopardo, o Gorila Grood, Giganta, Sinestro, Salomon Grundy e outros) em um conflito de proporções épicas para salvar o mundo. Vale também pela arte de Doug Braithwaite, pintada por Ross.

Justice foi publicada nos EUA entre agosto de 2005 e junho de 2007. No Brasil, ela saiu entre março de 2007 e fevereiro de 2008 de forma serializada e encadernada em 2013, ambas pela Panini. Aqui você pode ler o primeiro número da série.

9 – Justice League – Origin (2011)

Em 2011, a DC Comics passou por mais uma de suas reformulações e reiniciou do zero a cronologia de praticamente todos os seus personagens. A Liga da Justiça não escapou à regra e, em outubro de 2011, a primeira edição da nova série do grupo chegava às lojas, recontando sua origem. Essa história, inclusive, é a que mais faz sentido de se encontrar em um artigo relacionado ao longa metragem da Liga da Justiça, pois o filme usou muito da trama desse arco de histórias em sua concepção.

Origem começa com Batman perseguindo um invasor alienígena (parece familiar?) pelas ruas de Gotham. Batman quer descobrir as razões da presença daquele ser no planeta e ele acha que, de alguma forma, aquela criatura está ligada a outro alienígena que se estabeleceu em Metrópolis. Um tal de Superman.

No meio da perseguição, o Lanterna Verde (Hal Jordan) se mete na briga e a partir daí a história se desenvolve como a maioria das histórias de origem: Batman e Lanterna Verde confrontam o Superman, o Flash entra na briga e logo o quarteto descobre que há uma ameaça planetária que exigirá que trabalhem juntos para deter. Paralelamente, vemos a origem do Ciborgue antes de Aquaman e Mulher-Maravilha também se juntarem à briga.

No fim, é revelado que Darkseid, um dos principais vilões da Liga – e que está cotado para aparecer no segundo filme – é o responsável pelos ataques ao planeta porque quer, como sempre, conquistá-lo e escravizá-lo e cabe à recém-formada união desses heróis detê-lo.

Origem não reinventa a roda. É uma série divertida e cheia de ação, com bons diálogos a cargo de Geoff Johns e arte de Jim Lee. Ela reapresenta os principais heróis da nova DC de maneira competente e chegou mesmo a inspirar o filme da Mulher-Maravilha, já que toda uma sequência do longa, aquela na qual Diana experimenta sorvete pela primeira vez, foi adaptada do terceiro número da série. O primeiro arco da Liga da Justiça da era Novos 52 (título dado pela DC àquela nova fase da editora, já encerrada) chegou a ser adaptado para a telinha sob o nome de Liga da Justiça: Guerra.

Origem foi publicada nos EUA entre outubro de 2011 e março de 2012. No Brasil, foi publicada em Liga da Justiça 1 a 6 (junho a novembro de 2012) e, posteriormente, em edição encadernada em 2015, sempre pela Panini. Clicando aqui você pode ler esse primeiro arco.

10 – Justice League of America – The Nail (1998)

Durante um tempo, a DC Comics teve uma linha de quadrinhos intitulada Elseworlds (no Brasil, Túnel do Tempo), no qual seus principais personagens eram retrabalhados em cenários bem distintos daqueles nos quais os leitores estavam acostumados a vê-los.

Em 1998, o artista Alan Davis se aventurou como escritor e concebeu The Nail (O Prego), uma minissérie em três edições cuja premissa é bem simples: por causa de um prego, Jonathan e Martha Kent não puderam sair de casa em direção a Smallville no momento em que o foguete contendo o jovem Kal-El cruzava os céus do Kansas. Dessa forma, Kal-El nunca se tornaria Clark Kent. A pergunta que Davis tenta responder é: como seria o universo DC sem a presença de seu maior herói?

The Nail apresenta versões de Batman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Ajax, Flash (Barry Allen), Lanterna Verde (Hal Jordan), Eléktron e Mulher Gavião diferentes daquelas da qual os leitores estão acostumados. Mas não só eles: todo o mundo ao redor desses personagens foi retrabalhado de uma maneira bem interessante e Alan Davis conseguiu diversas soluções elegantes para sua trama, a ponto de The Nail, juntamente com Gotham by Gaslight (no Brasil, Gotham: 1889) ser uma das poucas histórias do selo Elseworlds a serem consideradas como clássicas pela DC Comics. Gotham by Gaslight, inclusive, é a próxima animação da WB/DC, prevista para lançamento em janeiro. Já The Nail gerou uma continuação, Another Nail (Outro Prego), mas essa não teve uma repercussão tão boa quanto sua antecessora.

Nos EUA, The Nail foi publicada entre agosto e outubro de 1998. Já no Brasil, ela saiu em três formatos: minissérie em três edições entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003 pela Mythos; em formato encadernado, em 2005, também pela Mythos; e em DC Comics – Coleção de Graphic Novels nº 19, pela Eaglemoss, em 2016. Clicando aqui você pode ler o primeiro número da minissérie.

Ufa. Esperamos que vocês tenham aproveitado esse longo artigo. Comentem o que acharam e deem sugestões caso queiram ver mais artigos desse tipo aqui no Pipoqueiro.

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O Necronomicon chega à TV em Ash vs Evil Dead

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

No final da década de 1970, os então desconhecidos Sam Raimi (da primeira trilogia do Homem-Aranha), roteirista e diretor, e Bruce Campbell (também presente na trilogia do herói aracnídeo e em séries como Burn Notice e Xena), ator, coletaram cerca de US$ 350.000,00 e, em 1981, transformaram esse dinheiro em um filme. Evil Dead (Uma Noite Alucinante ou A Morte do Demônio) gira em torno do Necronomicon Ex-Mortis, um livro vindo da antiga Suméria que, ao ser lido, desperta a fúria de espíritos mortos.

Recém acordados de seu descanso eterno, os fantasmas decidem descontar em cima do grupo de amigos que os despertara, todos habitantes de uma área de mata isolada no estado do Tennesse, nos EUA. Mal sabiam Campbell, Raimi e seu parceiro no crime, o produtor Robert G. Tapert (de séries como Spartacus e Xena), que seu pequeno filme trash não só chegaria a ser uma nova forma de se fazer terror – o popular terrir, que mistura comédia com terror – como também daria origem a um fenômeno cult.

Tendo Ashley J. “Ash” Williams (Campbell) como protagonista, Evil Dead se tornou uma franquia que, se apresenta resultados financeiros modestos, tem lugar cativo entre o público que gosta desse tipo de terror com efeitos visuais práticos e cujo propósito é, prioritariamente, ser divertido. O filme original rendeu duas sequências (Uma Noite Alucinante 2 – 1987 e Uma Noite Alucinante 3: Exército das Trevas – 1992), um remake (Evil Dead: A Morte do Demônio, 2013), uma peça de teatro, diversas séries de quadrinhos publicada nos EUA pela Dynamite Comics e, finalmente, uma série de TV, cortesia do canal Starz (o mesmo responsável por produzir séries como Spartacus e Black Sails).

Estrelada pelo próprio Campbell e dirigida por Raimi, Ash vs Evil Dead tem o propósito de ser uma continuação direta da franquia. Encontramos Ash trinta anos após os eventos do filme original, morando em um parque de trailers, empregado como repositor de estoque em uma loja de conveniência e passando a maior parte de suas noites em bares das redondezas procurando mulheres desesperadas com quem possa passar a noite. Em uma delas, regada a uísque barato e maconha, Ash, no intuito de impressionar a mulher com a qual acha que dividirá a cama naquela noite, acaba por abrir o Necrominicon (que guarda em um baú em seu trailer para evitar que caia em mãos erradas) e ler diversas das partes do livro, despertando novamente os espíritos perigosos que o atormentaram no passado.

Isso faz com que, obviamente, ele se torne alvo deles e só lhe resta uma opção: tirar o pó de sua famosa motosserra e mandar aqueles espíritos demoníacos de volta para o inferno! Para ajudá-lo em sua missão, Ash contará com os préstimos de Pablo Simon Bolivar (Ray Santiago, de Dexter) e Kelly Maxwell (Dana DeLorenzo). Lucy Lawless (a eterna Xena, cujos trabalhos mais recentes incluem Agents of SHIELD e Salem) e Jill Marie Jones (Sleepy Hollow) completam o elenco principal.

Essa é, basicamente, a premissa de Ash vs Evil Dead, série que já teve duas temporadas – com dez episódios cada – veiculada nos EUA e tem sua terceira programada para estrear no dia 25 de fevereiro por lá. Todos os elementos da trilogia inicial estão presentes aqui: o sangue, as tripas voando para todo lado, os sustos, a canastrice de Campbell e a direção precisa de Raimi, que sabe como poucos equilibrar a “nojeira” e a comédia desse tipo de produção. Ou seja, tudo aquilo que os fãs adoram a respeito da franquia. Se esse é o seu caso, pode assistir sem medo. Basta procurar nos serviços on demand da Fox.

Lembra dessa cabana?

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Programa do Pipoqueiro #09

por Marcelo Seabra

Nesta edição, o Programa do Pipoqueiro dá uma geral na trilha das duas temporadas da série Stranger Things, colocando pra tocar as mais legais, além de trazer comentários e críticas sobre outras atrações. É só apertar o play abaixo!

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A Vilã e Boneco de Neve trazem psicopatas insossos

por Marcelo Seabra

Duas estreias da semana ocupam extremos quanto ao andamento, mas se encontram no resultado. Enquanto uma é ágil e acelerada, bagunçando a trama na cabeça do público, a outra é rasa, devagar e enfadonha. O problema é que ambos os extremos são complicados: se uma obra não captura a sua atenção e não te engaja, a outra te perde no andar da carruagem, tamanha é a aparente complexidade.

Se for possível imaginar Pedro Almodóvar dirigindo um longa de ação inspirado em La Femme Nikita (1990), o resultado ficaria bem próximo de A Vilã (Ak-Nyeo, 2017). Com uma contagem de corpos acelerada, o filme mistura uma trama de espionagem com o drama de uma mãe, mas a violência exagerada deixa o público dormente, sem se importar com nenhuma das duas.

Coreografadas como poucas em Hollywood, as cenas de luta dessa produção sul-coreana envolvem todo tipo de golpe e arma branca. Em alguns momentos, você pode esperar por armas de fogo, que resolveriam logo os problemas, mas os envolvidos sacam espadas. A sequência inicial até lembra a famosa cena do corredor de Demolidor, mas elevada à enésima potência. Algo como visto também em Old Boy (2003), mas existe uma explicação para a garota lutar tão bem, ela não aprendeu vendo Bruce Lee na TV.

A Vilã tem muitos acertos. Os exageros criam um clima de fantasia que cai bem, mostrando que aquele universo talvez não seja o nosso, com muitas imagens bonitas. Mas a coisa chega a tal ponto que você já não sabe direito o que está acontecendo, e o pior: não se importa. No fim, as peças se encaixam, tudo é esclarecido e você realmente assistiu a belas cenas de ação. Mas isso não parece ser suficiente no quadro geral, além da sessão ser muito longa. Ou seja: começa bem, mas vai piorando.

Fazendo o contraponto, temos a estreia de Boneco de Neve (The Snowman, 2017), cuja produção tem a capacidade de colocar no papel de um policial alcóolatra de meia idade um ator com físico de super-herói. Ou super-vilão, já que estamos falando de Michael Fassbender (o Magneto dos X-Men) e sua barriga de tanquinho – que eles fazem questão de mostrar. Mas tem muita coisa pior que o problema de caracterização do protagonista para falar nesse filme, e até o próprio diretor já o renegou.

Entrando para a longa lista de cineastas que ficaram extremamente insatisfeitos com um longa que comandaram, como David Fincher em Alien 3 (1992) e David Lynch em Duna (1984), o sueco Tomas Alfredson nem esperou pelo lançamento para se manifestar. Ele afirma que quando assumiu a direção, que seria de Martin Scorsese, veio o sinal verde e tudo teve que ser corrido. Por causa disso, entre 10 e 15% do roteiro não foi filmado, resultando em uma colcha de retalhos faltando pedaços.

O fracasso é uma pena se notarmos que se trata do diretor de Deixa Ela Entrar (2008) e O Espião que Sabia Demais (2011), dois filmes excepcionais. E a história é do festejado escritor Jo Nesbø, cujo livro deu origem a Headhunters (2011), outro resultado muito bom. E o elenco não deixa nada a desejar, apesar de mal aproveitado: além de Fassbender, que parece vítima de uma maldição da bilheteria baixa, temos em cena Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, J.K. Simmons, Toby Jones, Chloë Sevigny, James D’Arcy e um irreconhecível Val Kilmer. A maior parte deles em pontas, o que é inconcebível visto o talento de Sevigny, caso mais gritante.

Fãs do livro de Nesbø gritam aos quatro cantos que a adaptação não faz justiça, que o original é muito melhor. Realmente, não teria como ser pior. Fassbender vive Harry Hole, um grande detetive no passado que hoje vive escornado, bêbado, sendo encontrado facilmente em sarjetas geladas por aí. Praticamente mendigando por um caso para investigar, já que o chefe gosta dele, mas tem juízo para não confiar nele, Hole acaba entrando de carona na investigação de Katrine Bratt (Ferguson). A novata procura por mulheres desaparecidas e encontra uma conexão entre elas.

A sinopse de fato motiva qualquer um a ir ao cinema, imaginando se tratar de um novo Silêncio dos Inocentes (1991) ou algo que o valha. Mas a realização não gera qualquer tipo de suspense, tensão ou mesmo curiosidade. Informações são jogadas, outras são retidas, e simplesmente tudo se resolve. Pronto, fácil assim. O desafio que fica para o espectador é achar justificativa para trechos e personagens do filme, que você não entende porque estavam lá. O Framboesa de Ouro de pior edição estaria garantido, se existisse essa categoria. E este é o fim da carreira cinematográfica de Harry Hole.

Faltam muitas coisas no filme, mas essa figura ridícula está lá

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Justiceiro chega à Netflix com mais profundidade

por Marcelo Seabra

Depois de roubar a cena do Demolidor na segunda temporada da série dele, Frank Castle mostrou merecer uma só para ele. Já estão disponíveis os 13 episódios de Justiceiro (The Punisher, 2017), novo produto da parceria Marvel e Netflix, seguindo os quatro Defensores – solo e juntos. E o novato dá uma surra em alguns dos veteranos, com mais ação, conteúdo e até crítica social.

Em uma inevitável comparação, Justiceiro empata com Demolidor e Jessica Jones, deixando para trás Luke Cage e, mais longe um pouco, Punho de Ferro. Ah, e a reunião deles também. Conhecemos o personagem quando seu caminho cruza o de Matt Murdock, mas agora ele trilha sua própria jornada, sem nenhuma participação especial dos colegas poderosos. Essa foi uma exigência dos produtores, e é estranho ver problemas de grandes proporções em Nova York não atraírem nenhuma outra atenção. Nem a enfermeira Claire (Rosario Dawson) aparece.

Levando uma vida modesta, Castle (Jon Bernthal – acima) assumiu um nome falso, arrumou um emprego e segue no piloto automático, com os mesmos pesadelos de sempre. Com esposa e filhos mortos, ele custa a achar uma razão para continuar, até que uma razão o acha. O contato dele com Micro, nome de código de David Lieberman (Ebon Moss-Bachrach, de Girls), faz a série engrenar. No intuito de modernizar a história, Micro deixa de ser apenas uma fonte de informação e armas para se tornar uma espécie de Edward Snowden, alguém perseguido por saber demais. Mas o hacker não é a única novidade.

Velho conhecido dos fãs dos quadrinhos, Billy Russo (Ben Barnes, de Westworld) é um que aparece, mas tem sua história bastante alterada – como acontece com Micro. A agente Dinah Madani (Amber Rose Revah, de O Dublê do Diabo, 2011) é uma das novatas nesse universo, e se mostrará peça fundamental para a história. Ela não deixa nada a dever a outras mulheres da Marvel na TV, mantendo a tradição do estúdio de fortalecer o cinicamente chamado “sexo frágil”. Outra que dá as cartas é Marion James, a diretora da CIA vivida pela experiente Mary Elizabeth Mastrantonio (de Grimm). Ainda na cota de gente que anda meio sumida, temos C. Thomas Howell (de Ray Donovan) como o chefe de Madani.

Repetindo o papel, Bernthal se mostra bem à vontade. Ele tem reações normais frente às situações, o que nos leva a crer em Frank Castle. Depois de Dolph Lundgren (1989), Thomas Jane (2004) e Ray Stevenson (2008), ele já chega sentando-se na janela, tomando a roupa de caveira para ele. Cada um dos filmes desses intérpretes tem algo de bom, seja na caracterização, seja na ambientação. Bernthal consegue reunir isso, entregando possivelmente sua melhor interpretação, que se soma a um entendimento do personagem por parte dos envolvidos que vai muito além do que vimos antes.

O quadro geral, com várias tramas trançadas, não chega a ser complexo. Basicamente, vamos acompanhar Castle tentar entender exatamente o que houve nos bastidores para que chegassem a executar a família dele. Para isso, ele não poupará tiros, explosões e murros. A boa notícia é que a série não fica nisso. Os personagens são bem tratados, no sentido de terem um bom desenvolvimento – o que levou detratores a acusarem a atração de ser parada, ou de enrolar. Se a duração total poderia ser menor, o mesmo pode ser dito de qualquer outra produção Marvel/Netflix. Mas fazer uma maratona dos 13 episódios é perfeitamente possível, já que há suspense suficiente para prender o espectador.

Um assunto que ganha um bom espaço é a experiência de veteranos de guerra que voltam para casa. Que eles não são valorizados em sua terra natal é unânime, todos compartilham dessa sensação. Mas alguns são mais vitimados que outros, com sintomas severos de estresse pós-traumático. Um antigo amigo de Castle, Curtis Hoyle (Jason R. Moore, de O Aprendiz de Feiticeiro, 2010), organiza um grupo de apoio, onde podemos conhecer a história de alguns desses veteranos. E não falta um reacionário, membro do clube do rifle, para reforçar preconceitos e se aproveitar dos medos dos colegas.

Outro tópico que entra em discussão, mesmo que rapidamente, é o porte de armas por qualquer cidadão. Claro que político nenhum, nos Estados Unidos, defenderia a proibição total, já que ficaria sem votos. Mas o senador propõe que se aumente o controle e se restrinja a entrega da permissão. Essa discussão não poderia vir em melhor momento: o país passou por matanças e tiroteios, mais recentemente em Las Vegas e no Texas, o que acabou atrasando a estreia da série, em respeito aos mortos e feridos.

É interessante ver que Castle e Madani querem a mesma coisa, mas vão buscar de formas completamente diferentes. Enquanto Madani segue as regras e tem a mãe (a ótima Shohreh Aghdashloo, de Star Trek: Sem Fronteiras, 2016) para cutucá-la e tirá-la da zona de conforto, sacudindo suas verdades, Castle só tem o seu senso perturbado de ética. Seu comportamento é tão absurdo que um personagem da série o chama de psicopata, o que ele, claro, não gosta. Mas é fato! Castle é tão desequilibrado quanto suas vítimas. O que talvez seja diferente é a forma de canalizar essa violência.

Para uma produção com algo em torno de 11 horas de duração, muito teria que ser criado ou desenvolvido. Daí as diferenças para as histórias em quadrinhos, o que já era esperado. Se os roteiros acabam caindo em certas conveniências e furos temporais, é pouco o suficiente para passar direto. O criador, Steve Lightfoot (de Hannibal), conseguiu amarrar direitinho o mundo do anti-herói. E Castle ganha tanto tempo em cena quanto o Justiceiro. Pode parecer loucura fazer essa afirmação, já que um é o alter ego do outro. Mas é exatamente o que acontece: a pessoa por trás do colete de caveira é tão protagonista quanto o maníaco assassino.

Bernthal é o quarto a dar corpo ao Justiceiro

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Victoria e Abdul diverte com uma amizade diferente

por Marcelo Seabra

Em 2010, chegou às mãos de um historiador o diário de um certo Abdul Karim, que seria apenas mais um indiano se não fosse um fato curioso: ele passou 14 anos ao lado da Rainha Victoria como seu professor e amigo. Essa é a história retratada em Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha (Victoria and Abdul, 2017), longa que reúne a grande Judi Dench ao diretor Stephen Frears pela terceira vez.

Além de ter vivido no Cinema outras nobres ficcionais e reais, Dench foi a própria Rainha Victoria em Sua Majestade, Mrs. Brown (Mrs. Brown, 1997), filme que retrata a amizade bem próxima da monarca com um serviçal escocês, John Brown (Billy Connolly). Desta vez, encontramos a rainha amuada, anos depois da morte de Brown e de seu marido, Albert. Em 1887, seria comemorado o Jubileu de Ouro, os cinquenta anos de Victoria no poder, e foi quando ela conheceu o novo amigo.

Abdul Karim (Ali Fazal, de Velozes e Furiosos 7, 2015) trabalhava em uma prisão em sua Agra natal registrando os nomes dos coitados. Uma das comemorações do Jubileu era presentear a rainha com uma moeda valiosa, o mohar, como uma espécie de agradecimento por ela ser a Imperatriz da Índia. Claro que isso era arranjado pelos oficiais britânicos, já que nenhum indiano, oprimido pelo Império, iria tomar parte nisso. Karim e Mohammed (Adeel Akhtar, de The Night Manager) são recrutados e passam dois meses num barco para ajudarem a dar à cerimônia realismo.

Chegando no palácio, em meio a tanto luxo, Karim fica encantado pela rainha, e a sua falta de decoro a encanta de volta. Nasce aí uma amizade que incomoda a todos que frequentam a realeza, e entendemos que Victoria está em um ninho de cobras. Seu próprio filho, Bertie (Eddie Izzard (da série Hannibal), a quer declarada incapaz ou morta, para assumir logo o trono. Nesse cenário, um indiano, de uma casta inferior e pele marrom, sofre todo tipo de preconceito. O colega conterrâneo o alerta constantemente, doido para voltar para casa, mas Karim entra cada vez mais naquele universo.

Escolado em produções de época, assim como nas contemporâneas, Frears dirige tudo com muita classe, evitando sentimentalismo e derrapadas no humor, que segue sem exageros. Reconstituições de cenários e figurinos são impecáveis, marcados por uma trilha sonora discreta, tudo combinando. O elenco, prioritariamente inglês (com Michael Gambon como o primeiro-ministro, além do recém falecido Tim Pigott-Smith), está muito bem, e Dench sempre dá show. Ao lado de uma parceira tão competente, Fazal empalidece, e seu personagem segue um caminho perigoso, que o torna um pouco presunçoso, orgulhoso.

Os palacianos fizeram questão de apagar todo e qualquer registro da passagem do indiano, mas um sobrinho dele guardou seu diário. Com o documento histórico em mãos, Shrabani Basu cruzou as informações ali descritas com outras fontes e escreveu o livro que serviu de base para o roteiro de Lee Hall (de Cavalo de Guerra, 2011). Quando avisa se tratar de uma história real, o filme alerta: “a maior parte”. Fica claro que liberdades são tomadas, ou para preencher buracos de registros ou para fins dramáticos. Logo, a obra não deve ser tomada como uma aula de história. Como filme, funciona muito bem.

O real e o filme, muito próximos

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