Feud leva para a TV famosa briga de Hollywood

por Marcelo Seabra

Batendo recorde de audiência em sua estreia norte-americana, com mais de 5 milhões de espectadores, Feud chegou ao Brasil em 12 de março, na Fox, e já se encaminha para a conclusão. A série, em oito episódios, é construída em torno da eterna disputa entre duas grandes atrizes do Cinema. Bette Davis (Susan Sarandon) era tida como um grande talento, com seus dois Oscars e várias indicações, mas se ressentia de não se achar bonita. Já Joan Crawford (Jessica Lange) tinha sido a “garota mais bonita da América”, mas não se via respeitada como atriz. E ambas, por serem mulheres, se sentiam diminuídas numa Hollywood extremamente machista.

A série nos apresenta às duas quando elas já estavam mais velhas e, por isso, com dificuldade para encontrar papéis. Até que Crawford descobre um livro que imediatamente chama a sua atenção, e procura o amigo cineasta Robert Aldrich (Alfred Molina) para fazerem a adaptação. Para viver as irmãs de O Que Aconteceu com Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962), seria necessário contar com duas estrelas, e começa a luta entre Crawford e Davis (abaixo, o original e a reconstituição). E a história do filme é propícia para as desavenças: duas irmãs que foram famosas, vivendo juntas no ocaso de suas vidas, enquanto uma delas ainda busca uma volta por cima. O tom noir da atração nos deixa apreensivos, esperando que a qualquer momento exploda uma guerra.

O elenco de apoio, que conta com Molina (de O Amor É Estranho, 2014), Judy Davis (de A Vingança Está na Moda, 2015), Stanley Tucci (da franquia Jogos Vorazes) e Catherine Zeta-Jones (de Terapia de Risco, 2013), com pontas de Kathy Bates e Sarah Paulson, é ótimo. Mas o show é de Sarandon (de O Acordo, 2013) e Lange (de American Horror Story), duas atrizes fantásticas que entram muito bem em seus papéis e retratam as nuances de Davis e Crawford, sem atenuar nada. Enquanto Davis era mais transparente e até cruel em suas provocações, nunca fingindo gostar de alguém, Crawford tentava jogar o jogo de Hollywood, sendo amável pela frente e tramando pelas costas.

Depois dos sucessos de Popular, Nip/Tuck, Glee, American Horror Story, Scream Queens e American Crime Story, Ryan Murphy pode se considerar o maior produtor da TV em atividade, e Feud foi mais um grande acerto. Além de uma reconstituição de época impecável, incluindo aí os sets retratados, uma trilha sonora discreta e acertada (que inclui até The End, dos Doors) e roteiros bem amarrados, que situam bem o espectador, a série ainda proporciona discussões importantes. Se a sociedade, de forma geral, já trata mal os mais velhos, o que dizer do mundo do Cinema? “Você tem avó? Ligue para ela”, recomenda uma personagem, apontando a solidão na qual os idosos são deixados. Enquanto homens eram tidos como maduros, mulheres eram esquecidas, relegadas a produções menores quando encontravam trabalho.

Como acontece com Crime e Horror, Feud também é uma antologia, contando histórias diferentes a cada temporada. Por isso, traz o subtítulo Bette and Joan. Para a próxima, Murphy já anunciou que vai acompanhar a família real britânica, mais especificamente o Príncipe Charles e Lady Diana. Sem dúvida, será outro sucesso na carreira do produtor, roteirista e diretor. E Lange e Sarandon devem disputar todos os prêmios que vierem pela frente, com uma diferença fundamental: são amigas.

Davis e Crawford, na Era de Ouro do Cinema

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Paterson é poesia em movimento

por Marcelo Seabra

A poesia presente em nossas vidas fica mais aparente em Paterson (2016), novo trabalho de Jim Jarmusch (de Amantes Eternos, 2013). Fugindo de fórmulas e de grandes emoções, o diretor e roteirista se foca em uma pessoa simples para mostrar como a sensibilidade pode transformar o dia a dia. E como até aquele seu vizinho aparentemente comum pode guardar um grande talento, que vai permanecer oculto se não houver ambição. Talvez por isso, alguns artistas só ganham fama após a morte.

Paterson (Adam Driver, de Star Wars – O Despertar da Força, 2015) divide seu nome com a cidade onde mora, em Nova Jersey. Vai todo dia trabalhar na companhia de trânsito, para a qual dirige o ônibus municipal, e volta no fim do dia para a bela e criativa esposa (Golshifteh Farahani, de Êxodo: Deuses e Reis, 2014). Sai com o cachorro para caminhar, para no bar para um chopp, joga conversa fora e segue para a cama. Mesmo aos finais de semana, acorda cedo e inventa algo para fazer.

Essa rotina aparentemente maçante satisfaz o sujeito, que vive feliz com Laura. A poesia é a válvula de escape que traz mais satisfação à vida dele. É no papel que ele coloca sua emoção, suas observações sobre o mundo. Os poemas transitam entre assuntos, dos mais mundanos aos mais essenciais, e nascem nos lugares mais inusitados, de inspirações corriqueiras, mostrando que não é preciso algo extraordinário acontecer para que o poeta se expresse – algo também visto em Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016). Emily Dickinson, não por coincidência, é das poetisas favoritas de Paterson.

Se pararmos para pensar, a vida do protagonista é uma fantasia. Ele tem uma casa boa, confortável. Não falta nada quanto a alimentação, lazer. Até um cachorro ele tem. A esposa tem condições de se dedicar às paixões dela, como música e cozinhar, e apoia a escrita do marido. Com apenas uma fonte de renda fixa na família, e sendo ela de um emprego não muito valorizado, como o próprio Paterson afirma em determinado momento, é de se estranhar a tranquilidade com que eles vivem. Longe da violência, poluição e correria do mundo real.

Na fotografia do veterano Frederick Elmes (de Amaldiçoado, 2013), a cidade de Paterson passa uma paz inacreditável para os padrões de hoje. Lugares vazios, muito verde e água corrente, de onde Paterson – o homem – tira ideias simples para poemas bem construídos. Driver está no tom exato que o filme demanda, com um olhar sereno e uma postura paciente e compreensiva. Quem ficar à espera de algo grande, espetacular, vai se decepcionar. Paterson – o filme – é sobre as pequenezas da vida, a poesia que se esconde na rotina e só as pessoas de sensibilidade aguçada conseguem ver.

Driver fez até curso para virar motorista licenciado

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Paixão Obsessiva é ruim até no título

por Marcelo Seabra

Depois de uma longa e bem sucedida carreira como produtora, Denise Di Novi resolveu atacar de diretora e sua estreia chega aos cinemas brasileiros essa semana. Só nos resta saber por que raios ela, tão experiente, dirigiria uma bobagem como Paixão Obsessiva (Unforgettable, 2017). A mais batida história da ex que não supera a perda e avacalha os pombinhos ganha nova roupagem e já garante desde já um lugar entre os piores do ano.

Lembrada por um sem número de comediazinhas bobocas, Katherine Heigl (da série Grey’s Anatomy) foi atacar no suspense para dar uma virada na carreira, e só conseguiu provar que não tem outra expressão que não aquele olhar parado de psicopata de butique. Rosario Dawson, ocupada como a enfermeira Claire do Universo Marvel da TV, foi parar nessa furada e é outra que precisamos entender. O triângulo é completo por Geoff Stults (de J. Edgar, 2011), galã genérico que se daria melhor em novelas americanas.

O roteiro de Paixão Obsessiva, escrito por Christina Hodson (de Refém do Medo, 2016) e David Johnson (de Invocação do Mal 2, 2016), consegue ser tão ridículo quanto o título nacional. Julia (Dawson) se muda de cidade para ficar com o noivo (Stults), e vai conviver muito com a filha pequena dele. A ex-mulher (Heigl) do sujeito parece ser perfeita, mas não demora a se mostrar o cão. Julia, recém-saída de uma relação abusiva, sonha em ser feliz para sempre com o bonitão, e por isso sai fazendo uma coisa errada atrás da outra.

Um caso à parte é a maquiagem do longa. Ou não exatamente a maquiagem, que é até boa, mas as consequências das pancadas desferidas. Um ferro batendo na nuca gera tanto hematoma que a pessoa se torna o Duas-Caras do Batman. Uma queda deixa um olho roxo que só um soco bem dado faria. E a marca some em dois tempos, o que é impressionante até para o Wolverine.

Para que um roteiro fraco como esse funcione, precisamos esquecer todos os filmes parecidos que vêm à mente durante a sessão (como Obsessiva, 2009) e aceitar que os personagens vão mudar de atitude – e até de inteligência – conforme a necessidade. Várias situações forçam a barra para que as coisas cheguem onde precisam chegar, como o casal que se senta separado num jantar para permitir que a mulher pense bobagem, a endemoniada aparecer na festa de inauguração de um negócio do ex e por aí vai.

Não se sabe, ao final, o que é pior em Paixão Obsessiva: o roteiro batido e sem suspense algum; a cara de constrangida de Dawson; a expressão congelada de Heigl; ou o resultado das plásticas de Cheryl Ladd, que consegue atuar pior que Heigl, que faz sua filha. A mãe é mais travada que a filha, o que realmente nos faz crer se tratar de uma família. A conclusão não será discutida para não estragar o filme, ou não estragar mais do que a própria equipe já o estragou. Torçamos para que Di Novi tenha melhor sorte na próxima.

Seria um cover da Britney Spears?

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Ficção científica acha Vida em Marte

por Marcelo Seabra

Depois da estreia de duas ficções científicas que ocuparam os extremos quanto à qualidade, chegou a vez de um longa ficar no meio do caminho. Nem tão bom quanto A Chegada (Arrival, 2016), nem ruim como Passageiros (Passengers, 2016), Vida (Life, 2017) tem seus pontos positivos, mas não consegue empolgar como parece tentar. O elenco é bem encaixado e a direção é segura. O roteiro até dá seus pulos, só não chega muito longe.

Repetindo a parceria de Protegendo o Inimigo (Safe House, 2012), o diretor Daniel Espinosa convocou Ryan Reynolds para o elenco. E os roteiristas são ninguém menos que a dupla responsável por Deadpool (2016), sucesso estrelado por Reynolds. Dessa vez, Rhett Reese e Paul Wernick buscaram um tom mais formal, menos descolado. Foram muito felizes ao criar seis personagens com importâncias distintas para o sucesso da missão e com igual peso para a trama. Não conseguiram manter o conteúdo do terceiro ato interessante como o dos dois primeiros, mas não deixa de ser bacana acompanhar essa jornada.

Vida nos apresenta a uma equipe dentro da caríssima Estação Espacial Internacional que examina amostras retiradas do terreno de Marte. No meio de pedras e areia, eles encontram uma forma de vida. Passados a excitação e o alvoroço causados, eles começam a estudar a célula, que cresce numa velocidade assustadora e certamente trará problemas aos astronautas. Os efeitos especiais são exatamente os necessários para fazerem o público acreditar no que está vendo, e tornam certas cenas ainda mais bonitas. E outras, mais aterrorizantes, apesar da trilha sonora insistente e invasiva.

Além de Reynolds, temos no grupo outro nome de peso: Jake Gyllenhaal (de Animais Noturnos, 2016). E há ainda a sueca Rebecca Ferguson, que vem chamando a atenção desde que roubou os holofotes em Missão: Impossível – Nação Secreta (2015). Completam o time a russa Olga Dihovichnaya, o inglês Ariyon Bakare (de Rogue One, 2016) e o japonês Hiroyuki Sanada, que volta ao espaço dez anos depois do superior Sunshine – Alerta Solar (2007). Conhecemos pouco de cada um, mas os atores conseguem dar mais dimensões a eles, além de simpatia e inteligência.

Durante a sessão, é difícil não se lembrar de clássicos do gênero, como a referência óbvia Alien – O Oitavo Passageiro (1979). Ainda mais com um novo episódio da franquia vindo aí (Alien: Covenant, 2017). Por incrível que pareça, Vida ganharia de Alien numa disputa quanto aos personagens. O fato de o roteiro da dupla dividir bem o peso entre eles torna seus futuros imprevisíveis – ao contrário de Ripley (Sigourney Weaver), que é a heroína da série e sempre segue adiante. Mas não chega perto nos quesitos tensão, suspense, nervoso e o que mais sirva para nomear a sensação masoquista que o ícone de Ridley Scott causa em seu público.

Não confundir com esses homônimos

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Five Came Back mostra a importância do Cinema como arma de guerra

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos assistiam aos últimos anos da década de 1930 com apreensão, mas mantinham-se neutros ao conflito na Europa. “Não queremos nos envolver em guerras que não são nossas” era o sentimento geral da nação. Isso, no entanto, mudou em 07 de dezembro de 1941, quando caças japoneses atacaram a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, que praticamente obrigou os americanos a entrarem na Segunda Guerra Mundial. Como convencer o povo americano de que a guerra era justa e deveria ser lutada? A resposta: combater fogo com fogo.

Se o Eixo (o grupo de países formado por Alemanha, Itália, Japão e nações menores) tinha Goebbels e toda a indústria cinematográfica nazista a seu favor, os Aliados, e, especialmente, os Estados Unidos, tinham alguns diretores dispostos a colaborar com o esforço de guerra da única forma que poderiam: fazendo filmes que mostrassem todo o seu horror e criassem uma mobilização da população americana para o conflito, aumentasse o moral das tropas e outras funções. O impacto que esse trabalho teve na vida dos diretores que se dispuseram a fazê-lo é o tema de Five Came Back, minissérie original do Netflix, baseada num livro de Mark Harris, que é uma pérola para qualquer um interessado tanto em Cinema quanto no maior conflito do século XX.

A definição clássica de propaganda diz que é “uma forma intencional e sistemática de persuasão com fins ideológicos, políticos ou comerciais, com a intenção de influenciar as emoções, atitudes, opiniões e ações de grupos de destinatários específicos, através da transmissão controlada de informação parcial (que pode ou não pode ser baseada em fatos), através de meios de comunicação de massas e diretos” (Fonte: Richard Alan Nelson, Glossário de Propaganda nos Estados Unidos, 1996). Na década de 1930, Joseph Goebbels, ministro de propaganda do partido nazista, fez uso, como poucos na História, da propaganda como um instrumento de guerra, na medida em que Hitler moldava seu sonho louco de transformar todo o planeta em um feudo alemão.

A então pungente indústria cinematográfica alemã (acima, O Triunfo da Vontade, de 1935) forneceu ao ministro todos os instrumentos para convencer a população do país da justeza da causa de seu führer e que a concretização de seu sonho poderia fazer a Alemanha retomar o status de potência mundial perdido graças à sua derrota na Primeira Guerra Mundial. Pode parecer pouco, mas a manipulação de Goebbels através do Cinema e do rádio (a televisão ainda não existia) desempenhou um grande papel no que viria a ser a Segunda Guerra Mundial.

Five Came Back acompanha a trajetória de cinco diretores, então consagrados em Hollywood, que se dispuseram a colocar suas carreiras em pausa para prestarem serviços a seu país. Frank Capra, John Ford, William Wyler, John Huston e George Stevens passaram boa parte da guerra (a partir de 1941) fazendo filmes – curta-metragens, em sua maioria, para serem exibidos antes das atrações principais do cinema da época – e seu trabalho causou um grande impacto tanto dentro das forças armadas como no público americano em geral, quando era liberado (pelo menos dois de seus filmes acabaram sendo censurados pelo exército americano. There Be Light, de Stevens, veio a público apenas em 1981). A série explora tanto o trabalho do quinteto no front como também o impacto que isso teve em suas carreiras, especialmente após o fim da guerra. Stevens (abaixo), por exemplo, pode ser considerado um dos principais responsáveis pela condenação de diversos oficiais nazistas por crimes de guerra graças ao seu trabalho em Dachau, campo de concentração perto de Munique onde esteve e passou diversos dias fotografando e filmando tudo o que via.

Um aspecto interessante de Five Came Back é ver como as forças armadas americanas se preocupavam com o conteúdo dos filmes (documentários, ainda que alguns tenham utilizado trechos encenados) e como ele poderia direcionar a percepção do público americano em relação ao inimigo. Ao mesmo tempo em que havia um cuidado em mostrar que Hitler – e não os alemães em geral – era o inimigo a ser odiado, com os japoneses, a princípio, não havia esse cuidado. Outra coisa que chama a atenção na minissérie é a exibição de trechos desses documentários. As imagens colhidas por Stevens em Dachau podem ser particularmente chocantes para aqueles que nunca viram fotos ou documentários da época.

Também é legal ver como a guerra mudou esses homens e fez com que eles produzissem seus melhores trabalhos justamente no pós-guerra. Frank Capra lançou A Felicidade Não Se Compra (ao lado) em 1946 e o filme foi um fracasso na época, mas estourou na época da televisão e hoje é reprisado anualmente na época de Natal nos EUA; William Wyler ganhou dois Oscars durante a guerra, foi ferido em combate, perdeu grande parte de sua audição e fez sua obra-prima, Ben-Hur, em 1959; John Huston ganhou seu primeiro Oscar em 1949 por O Tesouro de Sierra Madre (1948); John Ford, também ferido em combate, fez diversos filmes marcantes pós 1945, tendo Rastros de Ódio (1956) entre eles. Mas nenhum deles foi tão impactado pela guerra como Stevens. Antes um diretor de comédias e filmes leves, George se tornou um excelente diretor dramático no pós-guerra. Um de seus principais filmes, Os Brutos Também Amam, teve trechos mostrados no recente Logan (2017), fazendo bons paralelos com a história do último longa do mutante canadense.

Além de trazer trechos dos filmes produzidos por cada um deles, entrevistas e depoimentos, Five Came Back tem narração de Meryl Streep (de A Dama de Ferro, 2011) e apresentação de cinco grandes diretores do cinema atual: Francis Ford Coppola (da trilogia O Poderoso Chefão), Guillermo del Toro (A Colina Escarlate, 2015), Paul Greengrass (Jason Bourne, 2016), Lawrence Kasdan (roteirista de O Despertar da Força, 2015) e Steven Spielberg (Cavalo de Guerra, 2011). A minissérie é dividida em três episódios, cada um com duração aproximada de 60 minutos. Como bônus, o Netflix também disponibilizou todos os filmes realizados por Capra & cia.

A narração é da inconfundível Meryl Streep

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Netflix levanta polêmica com 13 Reasons Why

por Marcelo Seabra

Ninguém é obrigado a gostar de determinada obra apenas devido à importância do assunto tratado. Pode-se ter essa percepção quando, ao criticar negativamente, você é apedrejado e demonizado por, teoricamente, estar diminuindo o assunto, quando é a obra o alvo das críticas. Esse fenômeno moderno pode ser observado atualmente quanto à série 13 Reasons Why, nova produção do Netflix, já disponível para apreciação. Após uma longa maratona, é possível reafirmar a impressão inicial: de que a série tem problemas em várias instâncias. Sem definir uma ordem de importância, vamos elencar quais seriam essas questões – sem entrar muito em detalhes para não estragar a experiência de quem ainda pretende se aventurar pelos episódios.

Para quem não sabe do que se trata, a série é baseada em um livro bem vendido, de Jay Asher, e nos apresenta a Hannah Baker (Katherine Langford – abaixo), uma estudante colegial que cometeu suicídio. De cara, sabemos que ela morreu, mas, antes, gravou fitas narrando os fatos que a teriam levado àquele ato extremo. Cada lado das sete fitas cassete se refere a uma pessoa que teria contribuído nos infortúnios de Hannah. Vamos ouvindo as gravações junto com Clay Jensen (Dylan Minnette) quando ele recebe a caixa com as fitas.

Há um clichê relacionado ao suicídio que o caracteriza como a solução definitiva para um problema passageiro. É batido, mas não deixa de ser verdadeiro. No caso de Hannah, ganha ainda a conotação de vingança, já que as fitas descrevem – sob o ponto de vista dela, claro – como cada uma das 13 pessoas seria um dos porquês dela ter se matado. Ou foram maus com ela, ou apenas não se importaram o tanto que ela julgava que deveriam. E eis o primeiro problema: glamourizar o suicídio. Ao mostrar Hannah como uma menina inteligente e bonita, mas ligeiramente impopular, a solução à qual ela chega passa automaticamente a ser algo normal, corriqueiro, que pode sim influenciar jovens por aí. E ela passa a reger os movimentos de todos, mesmo morta.

A adolescência é um período complicado para qualquer um e pelo qual todos passamos, ou estamos passando, ou passaremos. Para Hannah, no entanto, as coisas parecem ser um pouco mais difíceis, ou assim a série nos leva a crer. Mais complicado é aceitar que, passando por todos esses percalços, graves o suficiente para levarem a garota a tirar sua própria vida, ela calcularia todo o esquema de gravação e organização das fitas, com mapa e tudo, para só depois chegar às vias de fato. Com uma voz doce e até um senso de humor esporádico, ela vai narrando tudo, já sabendo qual será a conclusão daquele “projeto”.

No mundo todo, 800 mil pessoas morrem anualmente por suicídio, uma média de uma pessoa a cada 40 segundos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (no documento Prevenção do Suicídio – Um Recurso para Conselheiros), problemas domésticos e financeiros podem ser o estopim, mas quase 90% dos casos envolvem indivíduos com perturbações mentais. A impulsividade, que geralmente leva à tentativa, passou longe, o que torna a premissa da série bem difícil de comprar. Hannah não se encaixa em nenhum desses casos, sendo a exceção da exceção.

Em 1774, foi publicado o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther (representado acima), de Goethe, no qual o protagonista envia cartas a um amigo narrando suas desventuras amorosas para, ao final, se suicidar com um tiro. A publicação do livro teria dado início a uma onda de suicídios na Europa usando o mesmo meio que Werther. O personagem deu nome ao Efeito Werther, fenômeno observado quando um indivíduo comete suicídio imitando outro, e essa situação já apareceu em outros casos posteriores. A preocupação com esse efeito é tão grave que a OMS produziu um documento específico de orientação chamado Prevenção do Suicídio: Um Manual para Profissionais da Mídia.

Observando-se o documento da OMS, outra constatação óbvia é que 13 Reasons não segue as orientações de especialistas ao tratar desse assunto tão delicado. Há uma observação especificamente sobre “Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso”. E também “Não informar detalhes específicos do método utilizado”. A série não mostra um beijo entre namorados homens, mas detalha com uma riqueza gráfica como Hannah conseguiu consumar o ato. Um mero aviso no início dos episódios finais não vai evitar que ninguém assista às cenas derradeiras, e não vai evitar um mal exemplo para um público teoricamente mais influenciável. E, infelizmente, já começaram a ser noticiados casos no Brasil de possíveis suicídios influenciados pela série.

Uma vez constatados os problemas éticos (digamos assim), podemos passar à questão da dramaturgia. Da mesma forma que acontece nas séries do Universo Marvel, 13 Reasons Why se desenrola por 13 episódios, sendo que o livro que serviu como base (no Brasil, Os 13 Porquês) tem menos de 300 páginas. Obviamente, isso resulta em muita enrolação e subtramas que não acrescentam nada à trama principal. E, por incrível que pareça, fica a sensação de que vários pontos são melhor desenvolvidos no livro, já que soam um tanto apressados na TV.

Os diálogos são extremamente expositivos, e frequentemente algum personagem pergunta: “Sério?”. Nem eles acreditam na burocracia do roteiro. Outro erro grave é trazer luz a certas questões levantadas nas fitas apenas quando Clay as ouve, sendo que vários alunos já haviam escutado tudo quando as fitas chegam até ele. Se era para escandalizar os colegas, por que isso não aconteceu desde o início? E por que os primeiros alvos não deram um jeito de destruir o material? No penúltimo episódio, vemos que essa é uma preocupação de Clay, mas, a essa altura, por que se preocupar? Se não aconteceu até então…

Sem voltar nas questões éticas envolvidas, cada lado de cada fita narra o envolvimento de Hannah com uma pessoa e a relação desse contato com o suicídio. É óbvio que há, entre essas tais razões, acontecimentos mais sérios e outros quase irrelevantes. E a narrativa coloca todos no mesmo patamar de importância, o que é, no mínimo, cretino, e tira o peso dos piores. É como se cada envolvido tivesse 1/13 avos de culpa. Hannah, que tirou a própria vida, não tem responsabilidade nenhuma.

Outra coisa que dá raiva de pensar: ela traça um plano bem amarrado para culpar todos que considera responsáveis. Os pais dela, que aparentemente não dividem essa culpa, não ganham uma notinha de pé de página. A garota está tão ocupada com seu maligno plano de vingança que não se atenta para o sofrimento que causará nas pessoas que provavelmente são as mais importantes em sua vida. Os pais (abaixo) são mostrados como amorosos e atenciosos, e suas vidas compreensivelmente são muito abaladas pela tragédia.

E, falando em tragédia, há outras, apenas para darem mais motivo a Hannah. E a tentativa do roteiro de trazer algum suspense à trama é pífia e dispensável. Se a proposta era discutir o suicídio juvenil, não era necessário misturar tanta coisa ao caldo, perdendo o foco e causando um sensacionalismo apenas na vã tentativa de prender a atenção do público. E há situações impensáveis, como uma certa escalada, que entram apenas para gastar alguns minutos, o que enfraquece ainda mais o todo.

Alguns pontos poderiam ser positivos, como a hoje tão buscada diversidade cultural entre o elenco, por exemplo. Mas isso não faz diferença alguma para a trama, já que os atores poderiam ter seus personagens trocados sem afetar em nada o andamento da ação. A tentativa de desenvolver melhor alguns personagens acaba irritando, ao invés de ser um bônus, porque sabemos que eles não terão papel algum na resolução da história.

Clay, o protagonista, é amigo de Hannah, e logo entendemos que o sentimento não fica apenas na amizade. Por isso, é importante que acompanhemos as fitas por ele. O problema é ele ter que jogar os fones longe a cada poucos minutos, e dizer que não consegue ouvir, para logo depois continuar a escutar. E as providências que ele acredita serem responsabilidade dele tomar, ele toma antes de ouvir tudo. Ao invés de fazer o que qualquer pessoa provavelmente faria – ouvir tudo o mais rápido possível – ele vai pouquinho por pouquinho. Afinal, a série tem que durar. O jovem Minnette é competente, como vemos em O Homem nas Trevas (Don’t Breathe, 2016), mas a ruindade do roteiro é mais forte.

O elenco, inclusive, é um ponto positivo para a série. A estreante Katherine Langford consegue trazer simpatia para Hannah, mesmo quando suas ações são antipáticas. Os demais nomes entre os mais novos, ninguém muito conhecido, seguram as pontas com tranquilidade. Entre os mais velhos, destaque para Brian d’Arcy James (de Spotlight, cujo diretor, Tom McCarthy, comanda os primeiros episódios) e Kate Walsh (de Private Practice) como os sofridos Bakers, além de Steven Weber (de NCIS: New Orleans) e Derek Luke (de Empire), como o diretor e o conselheiro da escola, respectivamente.

Walsh, curiosamente, foi a mãe de um adolescente muito mais interessante no sensível As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012). Tratando assuntos parecidos, do mesmo universo, este longa consegue chegar muito mais longe e, o mais importante, sem desrespeitar seu público. Ele consegue provar que filmes sobre adolescentes não precisam se focar apenas no público adolescente – e poderiam ser citados aqui outros vários, como Conta Comigo (Stand By Me, 1986) e Goonies (1985). Mesmo porque quando se fala em fazer algo para adolescentes, já há o preconceito de que eles não teriam capacidade de entender ou apreciar uma obra bem feita. É mais uma justificativa porca para a falta de qualidade de 13 Reasons Why.

Nota: para duas análises interessantes sobre a série, confira a crítica do Pablo Villaça, do site Cinema em Cena; e a coluna do jornalista André Trigueiro no site Mundo Sustentável.

O Netflix promoveu uma discussão com a equipe da série

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Velozes e Furiosos chega à oitava aventura

por Marcelo Seabra

Depois daquele começo tímido em 2001, quem diria que a franquia Velozes e Furiosos tomaria esse vulto e chegaria ao seu oitavo episódio (no original, The Fate of the Furious, 2017)? De uma aventura nas ruas com cara de Caçadores de Emoção, os longas se tornaram produções caríssimas que reúnem diversos nomes famosos e têm tramas que fariam inveja a James Bond. Com o desafio de superar a morte de um de seus protagonistas, Paul Walker, a série segue quebrando todas as leis, até a da gravidade.

Falando em quebrar leis, a franquia tem uma máxima desde que Dom Toretto (Vin Diesel) e Brian O’Conner (Walker) se aliaram: a família é sempre o mais importante. Um tanto de gente entrou nessa festa e logo eles se tornaram uma grande família, para não chamar de gangue. Depois da necessária saída de Brian do grupo, agora é Dom quem vai se bandear para o outro lado. O que destrói a única máxima que regia esse universo. É uma ideia muito bacana que, ao ser colocada em prática, facilmente desanda e leva o filme com ela.

A nova história do bando de Dom começa quando ele e Letty (Michelle Rodriguez) estão em lua de mel em Cuba, com todos os estereótipos do país que se tem direito: belas paisagens, uma espécie de rap caribenho com um batidão tocando, bigodudos com cara de mal em conversas suspeitas e trocentas mulheres em trajes mínimos, fazendo a introdução parecer mais um clipe de funk. Parece que o 3D foi projetado para que bundas pulem na cara do espectador. Uma corrida é rapidamente arranjada, já que qualquer problema da humanidade pode ser resolvido assim, e entramos no clima da franquia.

Na sequência, Dom conhece uma mulher misteriosa (vivida por Charlize Theron, de O Caçador e a Rainha do Gelo, 2016 – ao lado) que vai chantageá-lo para que a ajude. O detalhe é que o sujeito vai ter que se virar contra seus parceiros, o que ele faz sem titubear. A partir daí, temos a prova de que Dom é o membro do grupo com mais recursos, já que ele enfrenta todos sozinho, e a trama segue um caminho 100% previsível. O plano da tal Cipher é tão importante que nem ela parece saber exatamente qual é, se limitando a soltar algumas frases de efeito.

Sem Dom à vista, todos ganham espaço, mas quem rouba a cena são os fortões Dwayne “The Rock” Johnson e Jason Statham. E nem o carisma dos dois salva as cenas constrangedoras que somos obrigados a acompanhar, com diálogos mínimos e genéricos, como “Isso não está bom” ou algo assim. Cada personagem parece ter um núcleo, o que torna o todo uma série de filmes menores encaixados – o que facilitou a distância entre Johnson e Diesel, que teriam tido “desavenças filosóficas” durante as filmagens. A facilidade como vilões são aceitos nessa família também é assustadora. Tudo pode ser desculpado e os lados vão mudando. Não duvido que, num próximo filme, uma ameaça maior possa surgir e mais personagens mudem de lado.

As cenas de ação prendem tanto a atenção que dá vontade de olhar no celular se tem alguma novidade nas redes sociais. Acontece tanta destruição gratuita e orquestrada que parece que, a qualquer momento, o Superman vai aparecer. Da mesma forma que o plano de Cipher corre facilmente, por mais absurdo que seja, com hackers invadindo os sistemas de carros e tomando o controle, a família Toretto também vê suas jogadas dando certo. É como se tudo estivesse combinado desde o início, com o vencedor e o perdedor previamente definidos. Cada um cumpre seu papel, sendo o de Tyrese Gibson fazer todo tipo de piada sem graça. É impressionante como raros momentos de humor funcionam, e nenhum deles com Gibson, que só irrita com falas de um menino mimado de 12 anos, como descrito por um colega. E o agente do alto escalão de Kurt Russell, que agora tem um aprendiz (o inexpressivo Scott Eastwood, de Esquadrão Suicida, 2016 – ao lado ), continua sendo o salvador da pátria, que aparece nas horas oportunas com as saídas necessárias.

Com o mesmo Chris Morgan no roteiro, desde o terceiro filme, a novidade é o diretor, o irregular F. Gary Gray (que comandou Diesel em O Vingador, de 2003). Seus antecessores, Justin Lin e James Wan, demonstraram entender melhor a dinâmica de Velozes e Furiosos, abraçando os exageros sem perderem a essência da diversão. Gray tenta fazer um filme pé no chão, como seus trabalhos anteriores, e aí aparece um carro pulando um submarino. É como se Christopher Nolan fizesse um filme do Thor, sem saber exatamente onde ancorá-lo. O resultado seria bem burocrático, como é esse Velozes 8.

Elenco reunido pra foto de família

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Prison Break retorna à TV após sete anos

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers das quatro primeiras temporadas de Prison Break. Portanto, se você não assistiu à série, sugiro que pare a leitura por aqui. Também sugiro que nem assista a essa nova série, já que ela funciona como uma quinta temporada. Se não assistiu às anteriores, ficará completamente perdido. Esteja avisado.

Prison Break é uma série que, se não partiu de uma premissa original, pelo menos utilizou-a de maneira bem criativa. A história começa quando o marginal de quinta categoria Lincoln Burrows (Dominic Purcell, de Legends of Tomorow e The Flash) é preso, acusado do assassinato do irmão da vice-presidente dos Estados Unidos. Lincoln jura ser inocente, ainda que todas as evidências deem como certa sua culpa. A única pessoa que parece acreditar em Lincoln, apesar de não vê-lo há anos, é seu irmão, Michael Scofield (Wentworth Miller, das mesmas séries acima) um bem sucedido engenheiro estrutural que bola um plano que pode ser tão estúpido quanto genial: ele comete um crime com a gravidade exata para enviá-lo para a mesma penitenciária do irmão. Seu objetivo não poderia ser mais claro: escaparem e tentarem provar a inocência de Lincoln. Uma vez lá dentro, ele percebe que as coisas não serão tão fáceis.

Transmitida em 2004, a primeira temporada de Prison Break foi um tremendo sucesso. Os episódios eram muito bem escritos e, geralmente, terminavam com um gancho que fazia com que o espectador ficasse contando os dias para o próximo, especialmente devido aos planos formulados por Michael antes de sua prisão, que se mostravam bastante intrincados e complexos. E esse processo se repetiu até o 22º episódio, que culmina com a fuga dos irmãos e mais meia dúzia de detentos (aliados escolhidos e relutantemente aceitos).

A segunda temporada perdeu um pouco daquele sentido de urgência da primeira, ainda que a situação dos detentos fosse complicada, já que agora o desafio era manter-se em liberdade e, para Lincoln e Michael, desvendar a conspiração que colocou Burrows na cadeia antes que fossem mortos por seus perseguidores. As surpresas com relação à genialidade de Michael continuam a surpreender. Um dos atrativos dessa temporada é a adição de Alex Mahone (William Fichtner, de Crossing Lines) um agente federal que se prova um desafio à altura do gênio de Scofield e que acaba por se tornar um relutante aliado na temporada seguinte.

Aí, aconteceu um imprevisto: os roteiristas de Hollywood entraram em greve. Todas as séries sofreram um impacto negativo com isso, tendo suas temporadas cortadas pela metade ou menos. Prison Break teve 13 episódios nesse ano e mostra uma situação inversa ao primeiro ano, com Michael e alguns de seus aliados presos em uma penitenciária do Panamá, cabendo a Lincoln tentar libertar o irmão. Finalmente, no quarto ano, diversos personagens são recrutados pela Agência de Segurança Nacional dos EUA para ajudar a desvendar uma conspiração envolvendo uma organização chamada simplesmente “A Companhia”. Ao fim da série – que acabou em um episódio duplo no estilo filme para TV – Michael morre, deixando para trás sua namorada grávida, Sara Tancredi (Sarah Wayne Callies, de The Walking Dead), e Lincoln.

Apesar de seus altos e baixos, Prison Break foi uma série de sucesso da Fox e arregimentou um bom número de fãs. Tanto, que seu criador, Paul Scheuring, depois de grande insistência dos agora produtores Miller e Purcell, resolveu retomar sua criação para uma nova temporada de nove episódios. Ela começa sete anos após o término da quarta, quando o assassino Theodore “T-Bag” Bagwell (Robert Knepper, de Jogos Vorazes: A Esperança – o Final, 2015) é libertado da prisão e recebe uma carta sem remetente. No seu interior, apenas uma frase enigmática e uma foto de Scofield. T-Bag fez parte do grupo de prisioneiros que fugiu com os irmãos na primeira temporada. Sem muita demora, ele consegue localizar Lincoln, que voltou à sua vida de crimes, e tenta convencê-lo de que Scofield está preso e precisa de sua ajuda. Relutante a princípio, Lincoln acaba levando essa informação a Sarah, que também tenta dissuadi-lo daquela busca já que, para ela, Michael está morto.

Lincoln, no entanto, acaba descobrindo uma pista na frase escrita na carta, que revela que seu irmão – ou alguém muito parecido com ele – se encontra em uma prisão para presos políticos e violentos no Iêmen, país em uma guerra civil. Para poder entrar no Iêmen sem maiores problemas, Lincoln procura por Benjamin “C-Note” Franklin (Rockmond Dunbar, de séries como The Mentalist e Sons of Anarchy – ao lado), outro ex-condenado. Ex-soldado, C-Note agora trabalha com uma organização muçulmana e, graças a isso, consegue fazer com que Lincoln entre na prisão onde Michael estaria preso. Lá, eles acabam encontrando algo que não esperavam. Contar mais do que isso estragaria as surpresas da temporada.

Ao que tudo indica, essa nova etapa de Prison Break seguirá o mesmo molde de sua primeira. Aparentemente, há toda uma conspiração acontecendo e o fato de Lincoln ter decidido procurar pelo irmão acionou a luz amarela que o torna alvo desse grupo misterioso, que pode ou não ter algo a ver com A Companhia. Todos os elementos que consagraram a série estão ali, inclusive os principais personagens – além dos já citados, Sucre (Amaury Nolasco, de Duro de Matar: Um Bom Dia Para Morrer, 2013) também faz uma ponta e deve ter um papel relevante. Se a série justificará essa volta ou não, só saberemos no final.

A exemplo do que faz com The Walking Dead, a Fox tem transmitido Prison Break simultaneamente com os EUA, que ocorre todas as terças-feiras, às 23h. Vale a pena procurar pelas reprises, caso tenha perdido a estreia. Ou correr atrás da primeira temporada no Netflix, caso você se interesse pelo início da trama.

O elenco principal lançou a nova temporada na San Diego Comic Con

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Veteranos se unem para uma Despedida em Grande Estilo

por Marcelo Seabra

Parece estar em alta uma espécie de subgênero que reúne atores veteranos para um último ato. E deve ser obrigatório, nas especificações desse tipo de filme, contar com Morgan Freeman no elenco. Dessa vez, ele se une a Michael Caine e Alan Arkin para uma Despedida em Grande Estilo (Going in Style, 2017). Só os três já somam quatro Oscars e garantem a diversão, com piadas de um bom nível que entretêm sem ridicularizar ninguém. Mesmo que o andamento seja bem despropositado, com umas soluções muito fáceis.

Se as comédias com amigos são chamadas de “bromance”, essa poderia ser uma “broldmance”, já que são todos veteranos. Se levarmos em consideração os outros longas nessa linha, como Amigos Inseparáveis (Stand Up Guys, 2012) e Última Viagem a Vegas (Last Vegas, 2013), ou mesmo os dois R.E.D., esse acaba tendo um resultado superior. Refilmagem de uma obra homônima de 1979 (ao lado), ele parte do mesmo argumento, mas segue por direções diferentes. Enquanto o original era mais sobre a solidão e a vontade de chacoalhar as coisas na terceira idade, agora o foco é mais econômico, com problemas financeiros servindo de pontapé para o plano.

O roteiro de Theodore Melfi (indicado ao Oscar esse ano por Estrelas Além do Tempo, 2016) nos apresenta a Joe (Caine, de Kingsman, 2014), Willie (Freeman, de Ben-Hur, 2016) e Albert (Arkin, de Argo, 2012), amigos que aproveitam a aposentadoria vivendo sem luxo, mas comendo todos os dias um pedaço de torta. Até o dia em que a empresa onde trabalharam é extinta e suas pensões vão junto. Com um pequeno discurso sobre a maldade do sistema financeiro norte-americano, eles logo decidem assaltar um banco. A boa notícia é que, ao contrário do ótimo A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016), Despedida não se leva a sério. O tom de comédia não iria combinar nada.

Com larga experiência atuando em comédias, Zach Braff (da série Scrubs) assina aqui seu terceiro trabalho no Cinema como diretor. Ele é habilidoso em manter o clima leve, fazendo graça com as situações vividas pelos personagens. E, convenhamos, não deve ser nada difícil tirar boas performances desses monstros. No elenco, ainda temos as presenças ilustres de Christopher Lloyd (mais conhecido como o Doc. Brown de De Volta Para o Futuro) e Ann-Margret (de Ray Donovan), todos bem afiados. Matt Dillon (de Ladrões, 2010) continua num misto de canastrice e carisma como o agente encarregado do caso e John Ortiz (de Kong, 2017), que vive uma espécie de consultor de crimes, trabalha numa loja chamada apropriadamente Cameo (em português, algo como participação especial).

É bem verdade que os personagens parecem viver em outro mundo, sob uma lógica ligeiramente diferente da nossa. Por isso, não é difícil perceber um quê de fábula, o que acaba ajudando o espectador a comprar a ideia do assalto. E anda tão complicado encontrar um filme que proporcione algumas risadas que esse esforço é bem-vindo.

Braff e seus veteranos no lançamento do longa

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Poetisa ganha cinebio Além das Palavras

por Marcelo Seabra

À primeira vista, seria muito difícil levar ao Cinema a vida de uma pessoa marcada muito mais por palavras e sentimentos que por acontecimentos. E essa é a missão que o diretor e roteirista Terence Davies encara em Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016), longa que acompanha a vida de Emily Dickinson, tida como uma das mais proeminentes poetisas da língua inglesa. Sua fama de reclusa procede, como pode-se ver na tela, e conseguimos entender melhor alguns traços de sua personalidade.

O britânico Davies vem de uma elogiada carreira de filmes sensíveis e densos, construídos através de diálogos bem lapidados (como A Essência da Paixão e Amor Profundo). A diferença, aqui, é que o texto de Dickinson permeia as falas, como se ela tivesse ideias para seus poemas em situações cotidianas. Ou se testasse essas ideias com a família antes de escrever. Como a vida dela não foi marcada por grandes eventos, qualquer coisa ganha proporções maiores. Um casamento, morte ou nascimento é causador de reflexões e atritos e pode inspirá-la. Por isso, o título original, “Uma Paixão Silenciosa”, seria bem mais apropriado.

No papel principal, temos Cynthia Nixon, muito lembrada como a Miranda de Sex and the City. A atriz faz um ótimo trabalho nos dois extremos: quando tem muito texto para se expressar e quando não tem nenhum, contando apenas com suas expressões e movimentos. Nixon encarna bem o modo taciturno e o humor crítico e até irônico de Dickinson. Os duelos falados entre ela e a irmã (Jennifer Ehle, de The Fundamentals of Caring, 2016), ou mesmo com a amiga (Catherine Bailey, de The Crown), são de grande presença de espírito. As três, em diferentes níveis, têm em comum a sagacidade, a rapidez de pensamento e um certo pessimismo. Os diálogos com a tia Elizabeth (Annette Badlan) são impagáveis!

Desde o início, entendemos que a família Dickinson tem posses e seus filhos experimentaram os melhores estudos, seguindo o caminho dos pais. Emily, então vivida por Emma Bell (de The Walking Dead), não se encaixa num colégio de freiras e acaba voltando para casa. Esse é um ponto que o filme não deixa claro: se ela, mais velha, se recusa a ir à igreja, como se sente tão tocada pela pregação do Reverendo Wadsworth (Eric Loren)? Lendo a biografia da poetisa, encontramos pontos de discordância, já que ela teria conhecido Wadsworth em uma viagem.

O elenco de Além das Palavras, que ainda conta com Keith Carradine (das séries Dexter e Madam Secretary) e Joanna Bacon como os pais e Duncan Duff como o irmão de Emily, é o grande trunfo do filme. Sempre com um figurino perfeito, Nixon transmite muita segurança e os demais seguem num patamar próximo, o que valoriza muito o texto de Davies. O cenário é, basicamente, a casa da família, o que parece ser uma restrição orçamentária, e isso pode tornar as coisas um pouco enfadonhas. Mas as palavras devem manter o público alerta até o final.

Davies e Nixon lançaram o longa no Festival San Sebastian

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