Franquia dos dinossauros ganha novo episódio

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

O ser humano, direta ou indiretamente, foi responsável pelo maior número de extinções de espécies animais e vegetais de toda a história registrada apenas no século XX. Fosse pela cobiça, superstições que dizem que o órgão genital ou o pó de ossos de animais selvagens tem propriedades medicinais milagrosas ou simplesmente pela expansão urbana, o fato é que a humanidade não se furta em acabar com espécies inteiras se isso não atrapalha seu progresso. A criação de leis que protegem os direitos dos animais foi um avanço, mas, ainda assim, estamos muito longe de viver em harmonia com os demais seres vivos que nos cercam.

Essa introdução pode parecer apenas propaganda ambientalista. Na verdade, ela se justifica bastante já que a extinção de diversas espécies de animais – ou uma segunda extinção, no caso – é a principal justificativa para a movimentar a história de Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, 2018), que estreia no país no dia 21, mas já tem sessões de pré-estreia pagas. E não faça questão do 3D, que não acrescenta nada.

A história se passa dois anos após os eventos mostrados em Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015). Depois do desastre causado pelo indominus Rex, o parque foi fechado e a Ilha Nublar, sua sede, foi isolada, deixando que os dinossauros que a habitam ficassem por lá vivendo sossegadamente. A ilha, no entanto, tem um vulcão que está prestes a entrar em erupção. Daí se segue o debate: o governo americano deve interferir e ajudar a resgatar os dinossauros presos na ilha, levando-os a uma nova localização para que suas vidas sejam preservadas ou simplesmente deixar que sejam exterminados uma segunda vez por um outro “ato de Deus”?

Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) é uma das pessoas que acredita que os dinossauros merecem uma terceira chance de salvação. Depois de gerenciar o parque destruído no longa anterior, ela agora comanda uma ONG que tem o objetivo de salvar os animais de uma segunda extinção. Seus esforços parecem que serão recompensados quando Eli Mills (Rafe Spall), assistente do bilionário Benjamin Lockwood (James Cromwell), lhe faz uma proposta: ela deve ir até a Ilha Nublar ajudar no resgate de algumas espécies de dinossauros antes que a ilha exploda. Para isso, no entanto, ela precisará se reconectar com Owen Grady (Chris Pratt), o especialista em comportamento de velociraptores e dinossauros em geral que trabalhava no parque. Claro que, como diz o ditado, quando as coisas parecem muito boas para serem verdadeiras é porque tem algo errado. Claire logo descobrirá que nem tudo é como ela imaginava.

Com produção de Steven Spielberg e roteiro de Colin Trevorrow (diretor do longa anterior) e Derek Connolly, Reino Ameaçado é um longa divertido que tenta tocar em uma questão importante: o desequilíbrio ambiental que ocorre quando espécies animais são extintas ou, no caso, introduzidas em um ambiente que não está preparado para recebê-las. Isso, no entanto, é algo que fica mais no segundo plano e questionado principalmente pelo doutor Ian Malcolm (Jeff Goldblum, de volta à franquia – acima). Na superfície, é um longa de ação e isso é tanto seu principal mérito quanto seu maior defeito.

O fato é que, ao chegar no quinto episódio, a franquia dos dinossauros estabeleceu alguns clichês e, infelizmente, não se cansa de repeti-los. Há diversas situações que são muito previsíveis para quem assistiu aos filmes anteriores e isso tira um pouco da diversão. É meio ruim você pensar “ih, daqui a pouco isso acontece” e, exatamente alguns minutos depois, aquilo que você previu aparecer na tela. Há ainda algumas decisões dos roteiristas que reproduzem clichês de filmes de ação em geral, como o fato de um personagem sumir sem explicações e reaparecer justamente quando é mais necessário. Por outro lado, Reino Ameaçado traz novos elementos à franquia e estabelece meios para que ela resista por mais algum tempo, já que o escopo de suas histórias recebe uma bela expansão aqui.

Com relação ao elenco, além de Bryce e Pratt, temos também B. D. Wong repetindo o papel do Dr. Henry Wu, geneticista responsável pela clonagem dos dinossauros, algo que vem fazendo desde o primeiro filme da franquia, em uma performance mais afetada do que as anteriores. Completam o elenco principal Ted Levine, Justice Smith, Daniella Pineda, Geraldine Chaplin e a novata Isabella Sermon. Todos eles fazem seu trabalho de maneira competente, ainda que o Oliver de Pratt se pareça muito com uma versão alternativa do Starlord, personagem vivido por ele no Universo Marvel.

A trilha sonora ficou a cargo de Michael Giacchino e funciona muito bem no filme, sendo grandiosa onde necessário e mais discreta quando o momento exige. Já a direção de J. A. Bayona (de O Impossível, 2012) é competente e, se não reinventa a roda, sabe bem equilibrar os momentos de suspense com a ação desenfreada que marca boa parte do longa, além de tentar evitar os sustos fáceis típicos desse tipo de produção.

Jurassic World: Reino Ameaçado é meio que mais do mesmo. É um longa divertido, cheio de ação, com efeitos visuais muito bem feitos e que, apesar de trazer novos elementos, não se reinventa e usa e abusa dos clichês estabelecidas pela própria franquia desde o primeiro filme, lançado em 1993. Vai agradar os fãs e também aqueles que só querem ter uma boa diversão no cinema.

Pratt apresenta seu colega de elenco

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Mateus Solano enfrenta um mistério romântico

por Marcelo Seabra

Depois de uma pesquisa nada complicada, dá para concluir que a obra do escritor francês Martin Page é bem bacana. Ele parece fugir de fórmulas e convenções de gêneros e criar personagens realmente interessantes. Mas daí a achar que ele pode ser facilmente adaptado para o Cinema é um grande engano. É o que prova Talvez uma História de Amor (2018), longa nacional que chega às telas depois de uma geladeira de três anos e nos presenteia com uma história sem pé nem cabeça.

No papel principal, Mateus Solano (de Em Nome da Lei, 2016) parece fazer o melhor com o texto que tem em mãos. Mas não ajuda o fato de Virgílio simplesmente receber um recado em sua secretária eletrônica de uma pessoa que ele não conhece e ficar obcecado com isso. Aparentemente vítima de um transtorno psicológico que aparece quando é conveniente, Virgílio tem uma rotina impecável, perfeitamente descrita em um post it colado na geladeira. A tal mensagem dá aquela sacudida nessa vidinha e o leva a pensar: “Quem é Clara e por que ela terminou comigo?”

A premissa é interessante e deve levar muita gente às salas. Mas tudo logo se mostra exagerado, com alguns picos de ridículo. Situações loucas como as que acompanhamos até poderiam ser reais, mas não temos elementos que deem base para pensarmos isso. Se fosse um emaranhado de sketches, algumas seriam bem legais, enquanto outras seriam fracas ou até irritantes. Costuradas juntas, não se sustentam. Fica quase um videogame, daqueles em que a fase se repete e o herói é obrigado a insistir em matar o vilão. A diferença é que Virgílio vai encontrando conhecidos, um atrás do outro, sem resultado algum. E fica claro que ele não tem paciência suficiente para ter amigos. No máximo, colegas de trabalho.

A psicóloga vivida por Totia Meireles é obrigada a correr e descobrir a possível causa dessa repentina amnésia do personagem, se é que é isso que aconteceu. A profissional experiente e segura não sabe nada sobre o assunto e vamos descobrindo junto com ela. Enquanto o problema de Virgílio é cercado de mistério, as coisas conseguem se manter minimamente atraentes. À medida em que tudo vai clareando, vai ficando menos interessante, até cansativo. Quase como um primo pobre de Depois de Horas (After Hours, 1985). Temos um desfile de coadjuvantes desnecessários, oportunidade para o diretor Rodrigo Bernardo usar várias celebridades em pontas, como Dani Calabresa e Marco Luque. E as ações do personagem de Paulo Vilhena são incompreensíveis.

As situações que fazem menção ao transtorno de Virgílio, somadas à aparição de um cachorro – cujo único propósito é ser fofinho – nos remetem imediatamente a Melhor É Impossível (As Good As It Gets, 1997). Mas o filme mais recente é sempre inferior aos que lembra. E, se o grande diferencial que Talvez uma História de Amor prometia ter era fugir de regras pré-estipuladas, é exatamente para lá que ele ruma. O final convencional é a cereja do bolo de um filme surreal (no mau sentido) e cansativo.

O diretor (de barba) apresenta seu elenco

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Programa do Pipoqueiro #29

por Marcelo Seabra

No clima do Dia dos Namorados, o Programa do Pipoqueiro traz cinco comédias românticas escritas por Richard Curtis, todas fugindo da esgotada fórmula do gênero, com comentários e os destaques de suas trilhas sonoras. É só apertar o play abaixo e se divertir!

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Cinco comédias para o Dia dos Namorados

por Marcelo Seabra

Para você que quer aproveitar o clima de romance do Dia dos Namorados e assistir a um bom filme, seguem cinco sugestões!

Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill, 1999)

Acaba virando lugar comum colocar Richard Curtis em listas de melhores romances. Afinal, o roteirista parece ser especialista em histórias que cativam pela simpatia e simplicidade, e quase sempre carrega Hugh Grant com ele. Em Um Lugar Chamado Notting Hill (nome completo nacional), o ator vive um livreiro que, num dia como outro qualquer, recebe uma cliente inusitada: uma das maiores atrizes do Cinema americano. Para dar o peso adequado à personagem, poucas seriam mais acertadas que Julia Roberts, que é de fato uma das maiores atrizes do Cinema americano. A história que se desenrola entre os dois é deliciosa de se acompanhar, e ainda tem o bônus de Rhys Ifans, o louco colega de apartamento de Grant. O filme mostra como uma celebridade milionária pode chegar a se relacionar com um ninguém (por assim dizer), e não deixa de ser outra defesa do amor romântico.

Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000)

Um ótimo protagonista criado por Nick Hornby é Rob Gordon, o dono de uma loja de discos que, em meio a muita música boa, resolve relembrar seus cinco piores términos de namoro. É muito interessante acompanhar as reminiscências de Rob, que acaba chegando a conclusões diferentes ao olhar para trás e ver que o que ele lembrava não era exatamente a realidade. Quem nunca teve alguém que, na época, parecia ser o supra sumo da inteligência e estilo, para depois se mostrar apenas uma pessoa pretensiosa e vazia?

Como Rob, John Cusack é uma mistura de bom humor e insegurança que cai como uma luva. E o elenco, que traz um quase desconhecido Jack Black, tem participações de Catherine Zeta-Jones, Joan Cusack, Lili Taylor e um impagável Tim Robbins. O pouco conhecido Todd Louiso completa, com Cusack e Black, o núcleo da loja e, deles, saem diálogos fantásticos. E Black faz uma ótima releitura de Marvin Gaye.

Um Grande Garoto (About a Boy, 2002)

Um dos escritores mais badalados no Cinema, Nick Hornby teve várias histórias adaptadas, além de também escrever roteiros. Um de seus livros de maior sucesso, que virou um ótimo filme, é Um Grande Garoto, a saga de um sujeito que se descreve como uma ilha. Will não precisa de ninguém para tocar sua vidinha metódica, mas cruza o caminho de um garoto que vai invadir seu espaço sem pedir licença. Além de mais um grande papel de Hugh Grant, temos o jovem Nicholas Hoult, que hoje já é um adulto e presença constante na tela grande (como na turma jovem dos X-Men). Cercado por referências pop, de Bon Jovi a Mystikal, passando por uma hilária interpretação de Killing Me Softly, de Roberta Flack, o longa tem uma ótima trilha original de Badly Drawn Boy.

O sucesso de Um Grande Garoto foi tamanho que deu origem a uma série de TV, engraçadinha, mas longe do carisma do filme. Mas a brincadeira com o título se mantém: seria o tal Garoto Marcus, o pequeno intruso, ou Will, um quarentão que se esqueceu de amadurecer?

Simplesmente Amor (Love Actually, 2003)

Quase um clássico, apesar de ser apenas de 2003, Simplesmente Amor é escrito e dirigido por Richard Curtis, lembrado pelo roteiro de Quatro Casamentos e Um Funeral. Comédia romântica das mais leves, ele reúne um elenco britânico brilhante, com pequenas participações de “estrangeiros”, como o nosso Rodrigo Santoro, e conta várias histórias interligadas. Do primeiro ministro da Inglaterra a um simplório ator pornô, passando por um cantor muito irreverente e muita “gente como a gente”, o filme parece ter uma tese a provar: todo mundo precisa de amor, mesmo aqueles que não sabem disso.

O longa fez tanto sucesso e ganhou um lugar cativo na memória de tanta gente que a equipe resolveu se reunir em 2017 e lançar uma espécie de continuação, o Red Nose Day Actually. É um curta de 15 minutos que nos mostra por onde andam aqueles personagens que, em pouco mais de duas horas, aprendemos a gostar.

Questão de Tempo (About Time, 2013)

Misture o consagrado roteirista e diretor Richard Curtis, um casal de atores em perfeita sintonia e viagens no tempo. Pode parecer loucura, mas o resultado dá muito certo. Questão de Tempo não deixa de ser uma comédia romântica, mas vai mais longe ao misturar algumas questões existenciais encontráveis apenas nas melhores ficções científicas. Isso, além de ser mais engraçada que a maioria de seus pares, que geralmente ficam apenas no romance água com açúcar.

Domhnall Gleeson vive um jovem inglês que descobre poder viajar no tempo, dentro de sua própria linha de vida, e alterar o que julgar necessário. Ele só precisa tomar cuidado com o efeito borboleta, já que cada mínima alteração no passado pode ter consequências grandes no futuro. Como todo jovem, ele passa por experiências de crescimento e formação até ir para a cidade grande, Londres, onde vai conhecer a mulher de sua vida – onde entra Rachel McAdams. E ainda temos, de brinde, o grande Bill Nighy, sempre uma ótima figura a se acompanhar.

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Oito Mulheres e Um Segredo é a vez de Debbie Ocean

por Marcelo Seabra

A Warner Bros. conseguiu resolver três problemas numa só tacada. Como fazer para contornar a falta de ideias para arrancar mais dinheiro de uma franquia esgotada, a falta de interesse da equipe original de voltar e ainda atender a uma demanda muito legítima da sociedade de valorizar mais as atrizes, num mercado predominantemente masculino? Criando Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean’s 8, 2018), derivado que está mais para reimaginação do que para algo propriamente novo.

A trilogia de Danny Ocean, que começou com Onze Homens e Um Segredo (Ocean’s 11, 2001), nos apresentou ao personagem de George Clooney, um criminoso carismático e brilhante que reúne uma turma para roubar três cassinos em Las Vegas e, de quebra, reconquistar sua ex-esposa, coincidentemente casada com o responsável pelas casas visadas. O longa era baseado num outro, de 1960, estrelado pelo Rat Pack de Sinatra, e a história foi alterada o suficiente para tornar as duas sessões igualmente agradáveis.

Ambas as sequências (2004-2007) foram bem fracas e mostraram que a fórmula já não daria mais frutos – além de originarem outras obras no mercado, que praticamente imitavam o trabalho do diretor Steven Soderbergh. Quase dez anos depois, Gary Ross (de Jogos Vorazes, 2012) assume a responsabilidade de comandar e escrever (ao lado de Olivia Milch) uma espécie de versão feminina das aventuras de Danny – com Soderbergh como produtor. Agora, temos Debbie Ocean, uma irmã da qual nunca tínhamos ouvido falar. E ela, assim como o falecido irmão, junta uma gangue para um roubo ousado. Só de mulheres. Oito, mais precisamente. Ou sete, já que uma não faz parte do esquema.

Depois de cinco anos na cadeia por ter sido traída por um namorado em um golpe, Debbie Ocean (Sandra Bullock (de Gravidade, 2013) sai com um plano à prova de furos: roubar um colar de diamantes caríssimo na festa do Museu Metropolitano de Arte de Nova York. A Met Gala reúne diversas celebridades, oportunidade para a produção ter incontáveis pontas de famosos (de Katie Holmes a Kardashians) e para a garota fazer seu pé de meia. Mas ela vai precisar de ajuda. Danny tinha Rusty Ryan (Brad Pitt) como braço direito, e Debbie tem Lou (Cate Blanchett, de Thor: Ragnarok, 2017).

As duas vão buscar nomes para tornar a jogada possível. Cada qual com uma habilidade, elas se unem às personagens de Helena Bonham Carter (de Cinderela, 2015), Mindy Kaling (de Uma Dobra no Tempo, 2018), Rihanna (de Bates Motel), Awkwafina e Sarah Paulson (de The Post, 2017). Correndo por fora, temos Anne Hathaway (de Colossal, 2016), que vive uma atriz badalada que será a estrela da festa. Não vale a pena estragar a surpresa das participações especiais, inclusive de gente da franquia original, mas é bom adiantar que o volume é tão grande que acaba cansando. É apenas uma distração. E as insistentes referências a Danny chegam a irritar.

As características principais de Onze Homens aparecem aqui também, numa tentativa clara de Ross de emular o estilo de Soderbergh. As passagens de cenas fluídas, a trilha sonora descolada, as várias camadas da história, as caras de paisagem de personagens que têm total tranquilidade mesmo quando enfrentam a possibilidade de passarem o resto da vida na prisão… Está tudo lá. O que não é ruim. É apenas repetitivo e deve desagradar quem já conhece os longas anteriores. O texto é bem raso, com tudo acontecendo muito facilmente e todos muito bonzinhos e sorridentes. Para quem está chegando agora, talvez a sensação seja diferente, com um resultado positivo. Atrizes do porte de, principalmente, Blanchett e Paulson mereciam mais do que uma mera cópia.

Esses eram os 11 de Danny Ocean

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Cargo e Anon são novidades na Netflix

por Marcelo Seabra

Duas novidades da Netflix tentam reabilitar o crédito da produtora, que andou fazendo e despejando no público muita coisa ruim. Cargo (2017) e Anon (2018) são obras bem cuidadas que trazem rostos familiares e tramas interessantes. Explorando gêneros diferentes, ambas acabam revelando nuances mais profundas do que as vistas num primeiro momento. São filmes que tratam, acima de tudo, da condição humana, explorando as relações entre os personagens em camadas além da superfície.

Expansão do curta homônimo que fez sucesso no YouTube, Cargo segue a mesma cartilha da surpresa nas bilheterias Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018). São duas produções que usam o terror para ir mais longe. Mas, se Um Lugar mantinha alta a tensão, Cargo carrega mais na dose de drama, nos apresentando a um sujeito comum que precisa proteger sua esposa e filha em meio a um apocalipse zumbi. O tema anda mais do que batido, mas o enfoque consegue ser original, se afastando de The Walking Dead e similares.

Mais do que acostumado com o tipo “gente como a gente”, Martin Freeman vive o pai, Andy. Ao mesmo tempo em que faz papéis como Bilbo Bolseiro (na trilogia O Hobbit), John Watson (na série Sherlock) e o Agente Ross (do Universo Marvel), Freeman escolhe tipos absolutamente corriqueiros, como o típico fracassado Lester, de Fargo. Circulando por o que parece ser o outback australiano, Andy precisa superar vários desafios e decisões erradas para que sua filha possa ter um futuro. Tudo muito crível, dentro daquela realidade.

Assim como o que aconteceu com The Babadook (2014), outra produção australiana baseada num curta, Cargo manteve sua essência e cresceu sem parecer enrolação. Mérito dos diretores, Ben Howling e Yolanda Ramke, essa também roteirista. Os dois também assinaram o original e fazem aqui a estreia em um longa. Respeitam as regras que estipulam e trabalham com uma edição ágil. Isso, além de terem escolhido a ótima novata Simone Landers para viver uma personagem importante.

Com uma carreira que se confunde com a ficção-científica, Andrew Niccol ataca novamente. Poucas vezes fora do gênero (como em O Senhor das Armas, 2005), ele parece até prever para onde estamos caminhando (como em O Show de Truman, 1998), mesmo que dê umas viajadas (O Preço do Amanhã, 2011). No fundo, sempre há uma metáfora, algo que vá fazer o público refletir. Não podia ser diferente com Anon, que não chega a ser uma obra-prima (como Gattaca, 1997), mas não é ruim (como Simone, 2002).

Mais uma vez vivendo o tipo durão com o qual está habituado, Clive Owen (de The Knick) é uma espécie de detetive onisciente, já que possui um mecanismo que lhe permite acessar a visão de qualquer cidadão. Nesse futuro, é fácil mostrar para um amigo exatamente o que se viu, e as permissões especiais da divisão de investigação permitem muito mais. As possibilidades desse recurso são muito interessantes, mas até que ponto temos privacidade se alguns conseguem saber tudo o que fazemos?

Em busca de uma segurança utópica, sacrificamos alguns direitos, como ao anonimato. Se hoje, com câmeras da polícia e de portarias de prédios, já conseguimos apontar criminosos e prendê-los, imagine se pudéssemos ver exatamente o que aconteceu? Inclusive, cruzando informações retiradas de todos os envolvidos! O conceito é bem instigante, o mínimo que poderíamos esperar de Niccol.

A trama tem o pontapé inicial dado quando o Detetive Frieland passa por uma pessoa na rua que ele não consegue “escanear”. Coincidentemente, um assassinato é realizado sem que se consiga acessar as lembranças da vítima. É como se o criminoso a tivesse hackeado, tirando seu ponto de vista. Assim, a vítima vê o que o criminoso vê. O que, se você parar um pouco para pensar, deve dar uma agonia gigantesca. O que vemos é a nossa realidade, e esse é um conceito do qual dependemos.

É verdade que a ideia é melhor que a execução, que acaba caindo num lugar comum neo-noir, seguindo uma fórmula mais do que conhecida. Mas não deixa de ser bacana acompanhar o duelo entre Owen e Amanda Seyfried (de O Preço do Amanhã). E qualquer futuro imaginado por Niccol sempre terá apelo. No final, mesmo sem muita tensão ou surpresa, queremos continuar acompanhando aquele universo. Poderia, por exemplo, virar uma série de TV.

Deve ser difícil relaxar com tanta informação!

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Programa do Pipoqueiro #28

por Marcelo Seabra

Esta edição do Programa do Pipoqueiro passeia por várias séries de TV e suas marcantes músicas-tema, de Peter Gunn a Orange Is The New Black. A edição conta com a participação do crítico Lucas Victor. Clique no play abaixo e se divirta!

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Franquia Star Wars conta a origem de Han Solo

por Marcelo Seabra

Intérprete de ao menos três personagens icônicos do Cinema e queridos do público, Harrison Ford viu seu Indiana Jones ganhar uma quarta aventura e Blade Runner ser incomodado na aposentadoria. Nos dois filmes, o ator foi acompanhado por um colega mais novo que poderia dar sequência às franquias. Dessa vez, a providência teve que ser mais drástica e foi convocada uma cara nova para Han Solo: Uma História Star Wars (Solo: A Star Wars Story, 2018), sem a participação de Ford.

A aventura solo de Han (a piadinha é inevitável!) volta a suas origens, quando vivia nas ruas de um planeta sujo e perigoso. Quando entra em conflito com os poderosos locais, ele não vê outra opção que não seja fugir, e aí se inicia a jornada rumo a se tornar o anti-herói que todos conhecemos. São mais de duas horas sem a Força, Darth Vader ou qualquer Skywalker. No papel, é uma ótima ideia, explorando outros cantos de um universo tão rico quanto o de Star Wars. Na tela, torna-se uma aventura corriqueira, que poderia ter qualquer outro personagem ali.

O clima do longa lembra bem o primeiro filme da série, Uma Nova Esperança (1977), uma espécie de faroeste do espaço. Corridas de naves, tiroteios, jogadas políticas, vilões misteriosos… Está tudo lá. Com ênfase no tudo, já que o roteiro busca abraçar um punhado de coisas, soltando várias referências a fatos já estabelecidos. Lawrence Kasdan escreve para a franquia desde O Império Contra-Ataca (1980) e, dessa vez, trouxe o filho, Jonathan Kasdan, numa parceria em que um parece fazer reverência ao cânone enquanto o outro traz ar fresco ao projeto. O diretor, Ron Howard, foi trazido às pressas e dificilmente imprime uma marca às produções que comanda.

No importante papel principal, temos Alden Ehrenreich, jovem que, entre vários papéis, chamou a atenção em Ave, César! (Hail, Caesar!, 2016). A caracterização, do figurino aos trejeitos, é construída com cuidado, tentando ao máximo emular o estilo de Ford. Ehrenreich não tem o charme que Ford exibia em 77, um misto de confiança e destemor, mas é compreensível pela imaturidade de Han. Logo, é uma atuação correta, uma espécie de preparação para o que viria. Por ser mais novo e estar em um contexto bem diferente do que conhecemos, esse Han soa genérico, como um personagem qualquer, um projeto de Flash Gordon.

Ocupando a vaga de mocinha, e uma razoavelmente bem desenvolvida, temos Emilia Clarke, a mãe dos dragões de Game of Thrones. Salvo uma coincidência impensável, daquelas preguiçosas, a relação entre eles é interessante. Qi’ra cavou seu caminho, soube fazer alianças e não teve pudores ao fazer o necessário para sair de casa. Outro que rouba a cena é Donald Glover (de Atlanta), dando vida a um jovem Lando Calrissian, personagem de Billy D. Williams na trilogia original. Lando é uma espécie de modelo que Han vai aperfeiçoar, um poço de auto-confiança que esconde truques bem sujos.

O grupo de coadjuvantes é bacana e reforça o caldo. O ponto negativo de um filme como esse é já termos uma ideia do destino de cada um, por já conhecermos o futuro desse universo. Ainda assim, é sempre bom ver Woody Harrelson (de Três Anúncios, 2017) e Thandie Newton (de Westworld) em cena (acima), vivendo um casal de foras da lei. Uma sacada interessante é ter uma androide consciente de sua importância conclamando os demais a se revoltarem contra o papel de escravos – Phoebe Waller-Bridge (de Crashing) dá vida a ela. E coube ao finlandês Joonas Suotamo vestir a roupa de Chewbacca, função já desempenhada em Os Últimos Jedi (2017). O início da amizade entre Han e Chewie é um pouco forçado, mas acabamos aceitando.

Cada vez mais parecida com o Universo Cinematográfico da Marvel, com vários personagens trançando entre filmes, a franquia Star Wars vai expandindo suas bases e preparando terreno para outros filmes. Fala-se de uma possível origem para Obi-Wan Kenobi. Han Solo deixa algumas pontas. As possibilidades são muitas. E dá para fazer ligações com outras mídias, como livros e animações. Resta esperar que os roteiristas não busquem apenas preencher lacunas, mas criar uma aventura com vida própria que satisfaça o público em suas duas horas.

Chewie não podia faltar!

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Harlan Coben se une à Netflix para Safe

por Marcelo Seabra

Mesmo depois de lançar filmes tão ruins, ou apenas medianos, ainda conseguimos desculpas para conferir os lançamentos originais da Netflix. Ainda bem, ou perderíamos a chance de ver Safe (2018), uma série divertida que causa certa tensão e passa bem rápido. Com apenas oito episódios, o que significa menos enrolação, a atração traz o eterno “Dexter” Michael C. Hall como protagonista de uma história do aclamado Harlan Coben. Essas três características garantem uma espiada.

Quem se propuser a ver o primeiro episódio apenas para ter uma ideia vai descobrir que um leva ao próximo e logo estará no oitavo. A quantidade de reviravoltas e segredos descobertos mantém o interesse do espectador, que se vê perdido quando tudo parecia clarear. A premissa não é exatamente inédita: um pai move montanhas para tentar encontrar a filha que desapareceu após uma festa de arromba. As boas atuações conseguem segurar a mistura da fórmula de Coben com vários clichês, mantendo o resultado acima da média.

Michael C. Hall, precisando de um sucesso desde sua fantástica série Dexter (ok, o final foi bem fraco, mas vale pelas primeiras temporadas), vive um médico lidando com a viuvez precoce que precisa cuidar de suas duas filhas adolescentes. Com um inesperado sotaque britânico, o ator não decepciona – mesmo que seja impossível não ver em cena o psicopata Dexter Morgan. Os dois personagens dividem algumas expressões e trejeitos, mas o Dr. Tom Delaney tem vida própria. E o mais interessante é que, mesmo sendo o protagonista, ele divide os holofotes com seus colegas.

Dentre os ótimos coadjuvantes, os destaques ficam por conta de Marc Warren (de O Procurado, 2008) e Amanda Abbington (de Sherlock – acima). Warren vive o melhor amigo de Tom, um médico que tem uma história bacana e bem desenvolvida. E a Sophie de Abbington é uma sargento de polícia que está na investigação do sumiço da filha de Tom, com quem ela tem um romance. Pete e Sophie são dois de um universo rico, que ainda conta com as famílias Chahal e Marshall, todos com seus dramas e segredos.

O forte de Harlan Coben é escrever tramas que parecem simples num primeiro momento, mas levam à exposição de fatos há muito esquecidos, ou escondidos. Um acontecimento leva a várias revelações que mudam a vida de todos os envolvidos. Divididos entre três diretores, os episódios fluem bem e trazem reviravoltas que tornam impossível não assistir a todos na sequência. À medida em que a série avança, o desaparecimento da menina vai se tornando apenas um de vários mistérios.

Pete ajuda Tom em sua busca desesperada

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Programa do Pipoqueiro #27

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro apresenta a segunda edição especial com as composições de Burt Bacharach, cobrindo do ano de 1965 em diante – com clássicos como Raindrops Keep Falling On My Head e I Say a Little Prayer. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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