Conheça Friends From College, Ozark e Atypical

por Marcelo Seabra

A Netflix segue lançando obras num ritmo maior do que muita gente dá conta de acompanhar. Quando se fala em séries, então, é mais complicado, já que elas exigem mais tempo de dedicação. Talvez por perceber essa dificuldade com relação a tempo, a empresa esteja criando séries mais curtas, com menos episódios. É o caso de três novas atrações, que fogem dos números habituais de episódios: ao invés dos mais de 20 dos canais abertos, ou dos 13 da TV a cabo, elas têm vindo com 10 ou menos. Mesmo assim, é bom saber que não são todas dignas do seu tempo, algumas devem ser abandonadas tão logo se comprove sua chatice.

Para citar de cara a única desse pacote que não merece que seja acompanhada, começamos com Friends From College. Com todos os rápidos 10 episódios dirigidos e três escritos por Nicholas Stoller (que estreou no Cinema com Ressaca de Amor, 2008), a série foi criada por ele e Francesca Delbanco (atriz em Ressaca). E o grande chamariz, usado nas peças publicitárias, é a presença de Cobie Smulders, uma das protagonistas do sucesso How I Met Your Mother. E bem poderia ser Fred Savage, o sumido ator mais conhecido como o Kevin Arnold de Anos Incríveis (ou Wonder Years). Ou mesmo Keegan-Michael Key (de Tinha Que Ser Ele, 2016), que inventou de ser cômico e tenta nos convencer disso.

Como o nome já diz, somos apresentados a ex-colegas de faculdade que costumavam ser muito próximos e a vida tratou de afastá-los. Com a volta do casal principal para a cidade onde os outros moram, os reencontros e festinhas se tornam mais frequentes, o que traz de volta os ranços e ressentimentos de antigamente. Não chega a ser dramática, tampouco é engraçada. Reuniram um bando de personagens enfadonhos, nenhum com carisma suficiente para carregar a atração, e eles não avançam em direção alguma. A vida é curta para seguir algo como Friends From College.

Uma série mais bem sucedida é Ozark, também estrelada por um nome ligado à comédia. Jason Bateman, de Arrested Development e filmes como A Última Ressaca do Ano (2016), parte para algo bem mais sombrio do que costuma fazer. E ajuda muito ter alguém do porte da ótima Laura Linney (de Animais Noturnos, 2016) ao lado, além de um coadjuvante de luxo como Peter Mullan (de Cavalo de Guerra, 2011). O próprio Bateman dirige quatro dos 10 episódios e os criadores são Mark Williams e Bill Dubuque, roteiristas de O Contador (2016).

Nos primeiros minutos de Ozark, descobrimos que o casamento dos Byrde está em frangalhos e Marty ainda tem problemas no trabalho, que é nada menos que lavar dinheiro para um cartel de drogas mexicano. Para evitar um problema maior, como perder a vida, Marty pega os filhos e a esposa e vai para a região do lago de Ozark, onde terá que conseguir negócios de fachada para lavar milhões em tempo recorde. E ele logo descobre os podres que toda cidadezinha parece esconder.

As peças em Ozark são bem encaixadas. Não é nada tão chocante quanto Breaking Bad, ou espetacular quanto Game of Thrones. É uma trama pé no chão, ancorada por um elenco muito equilibrado, que mantém o suspense de tal forma que fica difícil ver um episódio por vez. Apesar de cada um durar quase uma hora, eles passam rápido, e as situações parecem cada vez mais complicadas.

Uma série que consegue ser engraçada sem fazer esforço é a novidade mais recente do serviço de streaming: Atypical. Depois de trazer os holofotes para uma colegial suicida e para uma anoréxica, o próximo tabu que a Netflix enfrenta é o autismo. Mais uma vez aparentemente voltada para o público adolescente, a obra traz uma visão leve sobre a vida de um rapaz diagnosticado dentro do espectro do autismo. Ele tem crises esporádicas, uma mãe dedicada no limite da obsessão e tudo que quer é uma vida normal. Mas o que é ser normal? Esta é uma grande questão a ser trabalhada aqui.

No papel principal, Keir Gilchrist (de Corrente de Mal, 2014) demonstra ter feito seu dever de casa. Ele parece entender bem do assunto, com reações muito naturais e condizentes com a situação. Seus pais são vividos por ninguém menos que a excepcional Jennifer Jason Leigh (de Os Oito Odiados, 2015) e Michael Rapaport (de Sully, 2016), além de um elenco de apoio muito competente. O grande trunfo de Atypical é tratar do assunto de frente, expondo as hipocrisias, as dificuldades e os momentos mais sensíveis. Sam, o tal rapaz autista, só quer ser aceito e passa pelas mesmas situações que qualquer um aos 18 anos, talvez com alguns agravantes. E a série sempre o respeita, e trata com igual consideração os dramas dos outros personagens.

O elenco todo se reuniu para o lançamento de Atypical

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Selton Mello lança O Filme da Minha Vida

por Marcelo Seabra

Nas Serras Gaúchas, um jovem vive as angústias comuns da vida enquanto imagina por onde anda o pai, que se foi. Essa é a trama de O Filme da Minha Vida (2017), novo trabalho de Selton Mello como diretor e roteirista. Mello foi escolhido a dedo pelo escritor Antonio Skármeta para cuidar da adaptação do livro, trazendo a trama para o Brasil, ao invés do Chile do autor. E o resultado é uma obra sensível, esteticamente perfeita e com alguns problemas de roteiro que se tornam maiores quando se pensa mais a respeito.

Seis anos após o elogiado O Palhaço (2011), Mello volta a escrever com seu colaborador, Marcelo Vindicato. E o tom é bem próximo: há uma nostalgia quase palpável. Se o longa anterior fazia uma homenagem ao circo e a seus integrantes, o alvo desse é o próprio Cinema. Mas o assunto é mais abrangente, englobando as relações familiares, os medos da adolescência e o início da vida adulta. E há ainda uma espécie de tributo sentimental ao veterano Rolando Boldrin, que não participava de um longa desde O Tronco, de 1999, e ganha aqui um papel bem simbólico.

Johnny Massaro (ao lado) e Bruna Linzmeyer repetem aqui a dupla de A Frente Fria que a Chuva Traz (2015) e mostram muita química juntos, o que é essencial para que o filme funcione. E, no meio dos dois, surge a belíssima Bia Arantes (de Real, 2017), que vai complicar as coisas um pouco. E, falando em complicado, o pai do protagonista simplesmente desaparece, caindo no mundo e deixando a mãe dele triste e isolada em casa. Os atores que vivem o casal maduro são nada menos que excepcionais: Vincent Cassel (de Jason Bourne, 2016) e Ondina Clais Castilho (que trabalhou com Mello em Sessão de Terapia).

Como Skármeta (que também escreveu O Carteiro e o Poeta) confiou plenamente no diretor, foi dada liberdade para mexer no texto e o caminho seguido pode não ter sido o mais interessante. A primeira coisa que causa estranheza é o narrador ser o próprio Mello, o que dá a entender ser uma versão mais velha de Tony. Mas, aí, Mello aparece como um outro personagem. Mesmo forçando um sotaque gaúcho, reconhecemos a voz do mineiro, o que não faz sentido. E as revelações que vão aparecendo são tão frágeis que, pensando um pouco, acha-se inconsistências que incomodam.

Dois fatores que chamam muito a atenção em O Filme da Minha Vida são a fotografia e a trilha sonora. O excelente Walter Carvalho (de Heleno, 2011) tira o melhor das serras e da cidadezinha onde a história foi filmada, montando um cenário bucólico ideal ao clima do longa. E os exemplares do cancioneiro popular brasileiro substituem os clássicos chilenos do livro, se tornando mais um aspecto divertido. Tantas ótimas características, juntas, quase superam as questões problemáticas do roteiro.

Este é um exemplo de uma bela cena

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A guerra chega ao Planeta dos Macacos

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Depois de ver o surgimento de uma raça de símios inteligentes em Planeta dos Macacos: A  Origem (2011) e que o vírus da gripe símia criado então se disseminou e quase exterminou a raça humana em Planeta dos Macacos: O Confronto (2014), o terceiro capítulo da série dá continuidade a esses eventos. Agora, o confronto entre símios e humanos alcança o status de guerra generalizada.

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, 2017) começa algum tempo depois do que houve em O Confronto. Como essa é uma sequência direta, parece que se passaram apenas poucos dias desde que Cesar (Andy Serkis, de Vingadores: A Era de Ultron, 2015) e seus macacos se refugiaram nas florestas ao redor de São Francisco buscando uma vida pacífica, longe dos humanos. No entanto, na medida em que os fatos são esclarecidos, podemos ver que se passaram diversos meses. Nesse meio tempo, o coronel mencionado em O Confronto, aqui vivido por Woody Harrelson (de True Detective, 2014), empreendeu uma caçada desenfreada contra os símios que, em sua visão, são os responsáveis pela dizimação da humanidade.

Após o primeiro confronto entre humanos e macacos, César decide abandonar sua decisão de apenas se defender dos ataques dos humanos para empreender uma vingança pessoal contra o Coronel. Para isso, ele contará com o apoio de Maurice (Karin Konoval, de séries como Lucifer e Bates Motel), Rocket (Terry Notary, de Kong: A Ilha da Caveira, 2016), o chimpanzé conhecido apenas como Macaco Mau (Steve Zahn, de Os Seis Ridículos, 2015) e a criança humana Nova (Amiah Miller). Contra eles, está o Coronel e uma divisão inteira do exército americano.

Planeta dos Macacos: A Guerra é um filme tecnicamente muito bem feito. A captura de movimentos, que a cada dia melhora, torna a movimentação dos macacos bastante realista e o CGI, no geral, é impecável. Com relação à trama, ela é bastante sombria e, em muitos momentos, soa maniqueísta, colocando os macacos como os injustiçados e os humanos, especialmente o Coronel, como seres movidos apenas pelo sentimento de “é matar ou morrer”.

Ao longo do filme são adicionados alguns tons de cinza, especialmente no que diz respeito às razões do Coronel tomar as atitudes que toma, mas isso não torna seu personagem menos unidimensional. Imagine o Coronel como um oficial nazista responsável por um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e terá uma ideia do que esperar do personagem no longa. Nem mesmo as razões que o Coronel revela motivarem suas atitudes conseguem dar mais profundidade a um personagem que tem a manha de usar óculos escuros de noite e na chuva.

Uma diferença marcante de A Guerra e o Confronto é que aqui o diretor Matt Reeves (mesmo do próximo filme solo do Batman) e seu parceiro no roteiro Mark Bomback (também de O Confronto) acharam por bem inserir um alívio cômico na personagem do Macaco Mau, um chimpanzé diferente daqueles presentes na tribo de César e com os quais nos acostumamos. Infelizmente, talvez devido ao clima geral do longa, essa inclusão parece forçada e fora de lugar. Macaco Mau faz muito pouco como alívio cômico e, apesar de ter sua importância na trama, qualquer personagem com outro tipo de personalidade poderia fazer sua função. Até porque, como dito acima, tudo no longa, com raras exceções, é sombrio e sem esperança tanto para humanos como para, especialmente, os símios e não há lugar para piadas aqui.

Com momentos que remetem ao pior do que a humanidade pode produzir – com diversas referências à Segunda Guerra, inclusive na forma como alguns personagens se comportam –  e alguns easter eggs que trarão alegria aos fãs da série clássica dos anos 1960, Planeta dos Macacos: A Guerra traz muito mais ação do que os anteriores e mantém a qualidade. A falta de sutileza nas referências, como é feito constantemente com Apocalypse Now (1979), pode incomodar os mais atentos. Não é um filme muito profundo nem tampouco deve se tornar um marco do cinema, mas é bem divertido.

Andy Serkis fez novamente a captura de movimentos para Caesar

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Nem trilha descolada salva Em Ritmo de Fuga

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Baby (Ansel Elgort, da série Divergente) é um ás do volante que possui uma condição rara chamada tinido. Isso afeta seus tímpanos, fazendo com que ele escute um zunido de maneira permanente, mais ou menos o que acontece com todos nós após comparecer a um show de música. Devido a isso, Baby utiliza fones de ouvido e escuta música o tempo todo, porque isso o ajudaria a se concentrar melhor. E foi daí que a distribuidora brasileira tirou a inspiração para adaptar o título Baby Driver para Em Ritmo de Fuga (2017).

Quando era adolescente, Baby tinha o hábito de roubar carros e fazer dinheiro com eles. Apesar de isso permitir que ele se tornasse um motorista extremamente hábil, também fez com que cruzasse o caminho de Doc (Kevin Spacey, da série House of Cards). Ao contrário da maioria das pessoas de quem Baby roubou carros, Doc é um gênio criminoso especialista em ações ousadas. Ao se tornar ciente das habilidades de Baby, ele chantageia o garoto. Por um tempo indeterminado, Baby servirá de piloto de fuga das equipes que Doc contrata para seus esquemas – sempre um time diferente – até que sua dívida esteja paga.

Quando o filme começa, Baby está a um trabalho de ficar livre da vida de crimes e da dívida com Doc. Ele tem planos que envolvem arrumar um emprego de verdade e uma garota com quem dividir sua vida. A segunda parte desse plano começa a se formar quando ele conhece Debora (Lilly James, de Cinderela, 2015) em uma lanchonete.

Escrito e dirigido por Edgar Wright (roteirista de As Aventuras de Tintim, 2011, e que, por muito tempo esteve envolvido com o filme do Homem-Formiga), Em Ritmo de Fuga é um filme bastante genérico. As cenas de perseguição, tanto de carro quanto a pé, são muito bem coreografadas e o fato de se usarem efeitos práticos ao invés de CGI ajuda a torná-las mais intensas.

Fora isso, não há nada que se destaque no filme. A maioria dos personagens – o elenco principal se completa com Buddy (Jon Hamm, da série Mad Men), Bats (Jamie Foxx, de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro), Darling (Eiza González, da série Um Drink no Inferno) e  Joseph (C.J. Jones) – é bastante rasa e suas motivações ou não são claras ou mudam de repente, sem muitas explicações. Ou, ainda, são bem unidimensionais, do tipo “eu sou criminoso porque sou criminoso”. Há uma tentativa de dar mais profundidade ao personagem de Baby adicionando eventos traumáticos em sua infância, e mesmo assim isso não ajuda a esclarecer muito sobre sua personalidade.

Um dos grandes atrativos de Em Ritmo de Fuga deveria ser a trilha sonora, que vai do pop ao rock, passando pelo jazz, blues e música clássica. Temos aqui músicas de Queen, James Brown, Ennio Morricone, The Beach Boys, The Commodores, T. Rex, Beck, Blur, R.E.M., Barry White e uma infinidade de outros. O problema é que, numa tentativa de deixar mais clara a dependência de Baby no que diz respeito à música, muitas vezes a trilha sonora é intrusiva. São poucos os momentos no filme em que não há música e isso atrapalha. E também leva a algumas perguntas, sendo a principal delas: se Baby está o tempo todo ouvindo música com fones de ouvidos, incluindo aí as reuniões onde Doc detalha os planos dos crimes que seu time irá cometer, como é que ele ainda assim consegue escutar tudo o que é dito? Nem o melhor leitor labial conseguiria guardar tantos detalhes, especialmente se, além dos fones, usa óculos escuros o tempo todo.

Em Ritmo de Fuga é um daqueles filmes bem genéricos que falham na maioria de seus aspectos. Não é de todo ruim, mas não vale o ingresso.

Wright levou o elenco para o lançamento no Reino Unido

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Christopher Nolan vai à guerra com Dunkirk

por Marcelo Seabra

O desespero. De andar na rua com soldados inimigos à espreita. De pegar um barco sem saber se ele chega ao outro lado. De pilotar um avião com todas as chances apontando para uma morte violenta. Christopher Nolan mais uma vez surpreende o público. Muda para um gênero até então inexplorado por ele, sem magia ou fantasia, e assina uma pérola chamada Dunkirk (2017). Por favor, deem um Oscar a este senhor.

Se até hoje o título de filme com a batalha mais real era de O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), essa época passou. E há uma enorme diferença: no longa de Spielberg, a tal batalha ocupava uma sequência; no de Nolan, é o tempo todo. Sob pontos de vistas diferentes, os acontecimentos são mostrados várias vezes, uma complementando a outra e situando ainda mais o espectador e aumentando a tensão.

Algo que chama a atenção logo de cara é o desenho de som, feito com um cuidado impecável. Ele predomina em boa parte da exibição, casado com uma ótima trilha sonora (de ninguém menos que Hans Zimmer) que sabe se impor assim como praticamente some em alguns momentos. Dessa forma, não precisamos de tantos diálogos, e esse é outro presente do diretor e roteirista. O silêncio preenche bem os espaços deixados, nos levando a acompanhar aqueles jovens que se encontram num conflito do qual não há muitas chances de sair.

Dunquerque (ou Dunkerque) é uma cidade na costa norte da França situada a 10 km da Bélgica e separada da Inglaterra por uns 100 km de mar. Em 1940, ela foi palco de um episódio não muito famoso da Segunda Guerra Mundial. Não convém explicar demais, ou citar o apelido dado por Churchill a esse ocorrido. Basta dizer que franceses e ingleses estavam acuados por alemães e foi dramático. E aterrorizante. E a forma como Nolan orquestra tudo é magnífica, arrancando o melhor de todos os seus colaboradores.

Tido por seus detratores como um realizador frio, dentre outros defeitos, Nolan mostra que sabe ouvir críticas e faz seu trabalho mais emocional. Isso, em menos de 110 minutos. Mesmo que não os conheçamos a fundo, seus personagens logo caem nas graças de todos e nos vemos torcendo por eles. Mesmo porque eles representam qualquer jovem que tenha ido à guerra, tendo voltado ou não. Os atores escolhidos, muitos estreando na tela grande, até se parecem, o que aumenta essa sensação de que eles simbolizam muitos outros. Em um desses papéis, o cantor Harry Styles prova ser bem versátil.

Entre os rostos conhecidos do elenco, o destaque não poderia ir a outro que não o excepcional Mark Rylance (Oscar como coadjuvante em Ponte dos Espiões, 2015 – acima). Ele aproveita bem cada segundo em cena com expressões que nos levam a entender aquele senhor sem esforço algum. Dois vilões de Batman, velhos conhecidos de Nolan, estão muito bem: Tom Hardy (o Bane) e Cillian Murphy (o Espantalho). Há também os oficiais vividos por Kenneth Branagh (de Operação Sombra: Jack Ryan, 2014) e James D’Arcy (de O Destino de Júpiter, 2015), além da voz inconfundível e não creditada de Michael Caine (o Alfred).

Poucas vezes, os horrores da guerra ficaram tão claros e foram tão bem retratados como em Dunkirk. Com um tema sério, e tão caro aos membros mais tradicionais da Academia, não seria difícil que Nolan ganhasse seu primeiro Oscar como Melhor Diretor. E seria muito merecido – é só olhar a carreira dele. A tecnologia IMAX, aliada à bela fotografia de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar, 2014), pode causar uma impressão forte e acobertar falta de conteúdo. Felizmente, não é o caso, e ela só acrescenta.

O terror vem de todos os lados, até de cima

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Netflix retrata a anorexia em O Mínimo para Viver

por Marcelo Seabra

Com uma frequência cada vez maior, a Netflix segue lançando obras interessantes e pautando a crítica. O Mínimo para Viver (To the Bone, 2017) é a novidade mais recente, mostrando com um olhar bem natural a vida de uma jovem com anorexia. Escrito e dirigido pela produtora veterana Marti Noxon, o filme parece ter na equipe alguém que realmente sofreu da doença, tamanha é a naturalidade com que trata o tema. E tem: a própria Noxon, além da protagonista. O problema é a falta de foco, é deixar o assunto de lado e se importar mais com uma historinha romântica meia boca.

Lily Collins, coadjuvante em Okja (2017), também da Netflix, ganha aqui o papel principal como Ellen, uma artista de 20 anos que arrisca seriamente a saúde em busca de uma magreza que nunca é suficiente. Ela parece muito doente, de tão magra, mas sua condição não permite que ela mesma veja isso. A anorexia é mostrada de uma forma bem real, e até leve, com as personagens fazendo piadas – seria Emma Stone gorda ou apenas teria os ossos largos? O tom é bem-vindo, já que um filme dessa natureza poderia ter sido algo triste e intragável, e Collins está muito bem no papel.

A família de Ellen tem suas complicações, com um pai ausente, uma mãe que mudou de estado para viver com a companheira e uma madrasta controladora. O roteiro parece querer explicar a origem da doença da garota, o que não era necessário. Do histórico dela, também sabemos pouco. O que importa, para Noxon, é este momento da jornada, é quando Ellen conhece o Dr. William Beckham, um médico muito disputado, cujos métodos parecem ser nada ortodoxos. No papel, Keanu Reeves (mais conhecido como John Wick) parece tão relaxado que é até difícil ver nele alguém que lida com a vida e possível morte de seus pacientes. Raramente o vemos trabalhando, o que complica entender também a fama de infalível do personagem.

Do meio em diante, Ellen conhece melhor os outros hóspedes da casa para onde o médico a envia, uma espécie de clínica para vítimas de distúrbios alimentares. Cada um se encaixa num estereótipo: tem uma grávida, uma que vomita tudo o que come, uma que vive num mundo de pôneis e por aí vai. As coisas se tornam enfadonhas quando ela se aproxima de um bailarino chato e insistente que se recupera de uma lesão. O ator, Alex Sharp, é um vencedor do prêmio Tony que faz sua estreia no Cinema. Ele mostra grande habilidade, mas o que lhe cabe não é uma tarefa agradável.

O Mínimo para Viver perde o foco e uma oportunidade de se aprofundar em sua protagonista, caindo na cilada dos filmes para a televisão – alcunha negativa de obras de antigamente, aquelas que normalmente vemos na TV aberta em tardes preguiçosas. Noxon e Collins reviveram alguns dos dramas de suas juventudes, mas os vários talentos empregados acabam se perdendo e o resultado não passa do mediano. Isso, sem antes 20poupar a ótima Lili Taylor (de Invocação do Mal, 2013), que passa por uma cena constrangedora de amamentação.

Noxon e Collins lançaram o longa em Sundance

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Michael Bay insiste em um quinto Transformers

por Marcelo Seabra

Chega aos cinemas essa semana a quinta aventura de uma franquia que está completando dez anos de existência. Como continua inexplicavelmente rendendo muito dinheiro, ela não dá sinais de acabar. Transformers: O Último Cavaleiro (Transformers: The Last Knight, 2017) leva a sério a ideia de ir mais longe a cada episódio, com explosões e conflitos de escalas astronômicas. E exagera também nos clichês característicos de Michael Bay e na ininteligibilidade do roteiro, que exige mais paciência que compreensão do espectador.

Lendo a crítica do quarto filme da franquia, quase desisto de assistir ao quinto. E podemos perceber que tudo de ruim que foi visto na aventura anterior se repete aqui: excessos de câmera lenta; um humor insistente e fora de lugar; imagens contraluz e trêmulas; trilha sonora extremamente invasiva; ação impossível de entender; cenas que duram segundos; desenho de som exagerado e altíssimo; combates e destruição que se repetem; e humanos nada críveis e insossos. Isso tudo distribuído em duas horas e meia que mais parecem cinco, de tão cansativas.

Mark Wahlberg volta ao papel do inventor e mecânico Cade Yeager, agora com um draminha de estar afastado da filha por ser um criminoso procurado. Ajudando os autobots, igualmente fora da lei, ele mantém um ferro velho como base de operações. Tanto o herói quanto os robôs  parecem circular tranquilamente, e os militares que os rastreiam não fazem nada a respeito. Quando uma menina totalmente descabida salva uns garotos enxeridos que invadem os destroços de um estádio, Yeager aparece magicamente e a trama tem início.

Com um quê de Prometheus e Covenant, é introduzida uma espécie de deusa que teria criado a raça dos Transformers, e Optimus Prime parte em busca dela. A partir daí, posições ideológicas são alteradas, novos personagens entram na história e a Terra chega perto da destruição. Entre as adições ao elenco, temos como destaque Sir Anthony Hopkins (de Westworld) passando vergonha, algo que se tornou uma constante na carreira do ator, e Tony Hale (de Arrested Development e Veep), um comediante ótimo que é desperdiçado numa conversa sem sentido sobre física e matemática. Stanley Tucci é reaproveitado em outro papel, na introdução do filme que acaba sendo a melhor sequência. Se o quarto voltava aos dinossauros, este vai à era do Rei Arthur.

A mocinha da vez, que não deixa nada a dever à beleza de suas antecessoras, é Laura Haddock (a mãe do Starlord – ao lado), uma acadêmica muito culta num vestido de stripper – como ela é descrita em determinado momento. Esse é outro defeito do roteiro: fazer graça com suas inconsistências e faltas de noção, como se isso as desculpassem. Hopkins, por exemplo, faz pose o tempo todo e acaba sendo descrito como cool. A tal garota do início, vivida por Isabela Moner, chega a responder um sonoro “Eu não sei” quando lhe perguntam o que ela está fazendo no meio da guerra. Ninguém sabe, Isabela.

A experiência de assistir a O Último Cavaleiro pode ser associada a ter uma dor de dente. Ou, mais precisamente, a um tratamento de canal, já que é interminável e doloroso. Por um lado, a boa notícia é que Michael Bay anunciou que este será o último Transformers com ele na direção. Por outro, a ruim é que a franquia deve seguir por mais muitos anos, além de ter derivados sendo escritos nesse momento.

O elenco principal se juntou a Bay no lançamento

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Castlevania vai do jogo para as telas

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Lançado no Japão pela Konami em 1986, Castlevania tornou-se um sucesso mundial e, desde então, gerou mais de 30 jogos com a mesma temática, contando aí continuações diretas ou derivados. Cultuado por pelo menos duas gerações de jogadores, o jogo foi adaptado pela Netflix em formato de animação e, desde 7 de julho, está disponível no serviço de streaming.

A história da franquia é bastante simples e acompanha, basicamente, os Belmont, uma família de caçadores de vampiros em sua luta contra seres das trevas, em especial seu patriarca, Drácula. A série animada não se afasta muito dessa premissa, ainda que comece em um momento equivalente ao terceiro jogo da série.

Usando um estilo de animação que mescla técnicas japonesas e ocidentais, Castlevania começa em 1450, na Wallachia, terra onde o Conde Vlad Dracul, ou simplesmente o Conde Drácula (Graham McTavish, de Creed: Nascido para Lutar, 2015), era uma figura temida por todos, especialmente pela forma como punia seus inimigos. Drácula vivia em isolamento e era deixado em paz por todos, até que uma mulher, Lisa (Emily Swallow, de séries como Supernatural), decide abordá-lo em busca de um conhecimento que apenas o Conde poderia lhe proporcionar. Em troca, ela lhe ensinaria tudo o que pudesse sobre a condição humana.

Vinte cinco anos se passam e Drácula se tornou um viajante, que percorre o mundo para conhecer mais o ser humano. Lisa, graças ao conhecimento obtido com seu agora marido, se tornou uma curandeira das mais competentes. Em uma Europa dominada pela Santa Inquisição, uma mulher dotada de conhecimentos não acessíveis aos homens da Igreja não poderia ser nada senão uma bruxa. Assim, enquanto Drácula está fora, Lisa é capturada, condenada e, sob as ordens do Bispo (Matt Frewer, de O Bom Gigante Amigo, 2016), queimada na fogueira como a bruxa que seria.

Ao voltar a Wallachia e tomar conhecimento do destino de sua esposa, Drácula sai de seu isolamento e dá um ano ao povo do país para fazer as pazes com seu deus antes de liberar o exército do inferno sobre aquela terra. Ao final do prazo, somos apresentados a Trevor Belmont (Richard Armitage, da trilogia O Hobbit), o último descendente de uma família caçadora de monstros que foi excomungada pela Igreja. Trevor, no entanto, é um caçador decadente e se preocupa menos com o flagelo que Drácula infligirá sobre Wallachia, e depois ao resto do mundo, e mais em viver sua vida. Suas preocupações se resumem, basicamente, a comer, dormir, ficar bêbado e começar tudo de novo na próxima cidade. Isso, no entanto, muda quando ele é arrastado para um cenário onde é praticamente forçado a desenferrujar suas habilidades e encarar o exército infernal.

A primeira temporada de Castlevania tem apenas quatro episódios, com cerca de 24 minutos cada. Em conjunto, formam um longa-metragem que serve como um grande prólogo ao universo onde se passam suas histórias. A série alterna bons e maus momentos, o desenvolvimento lento é repentinamente acelerado e há algumas boas sequencias de ação, além de bastante violência e sangue. Cortesia de Warren Ellis, roteirista bastante conhecido dos fãs de quadrinhos e que teve uma de suas principais obras, Red – Aposentados e Perigosos, adaptada para a telona. É dele também a história que serviu de base para o roteiro de Homem de Ferro 3.

Apesar de um diálogo genérico aqui e ali e um belo vacilo dos tradutores da Netflix, que mantêm a ordem religiosa dos Speakers no inglês nos três primeiros episódios e passam a traduzir o termo como os Oradores no quarto, Castlevania é uma série divertida e deve agradar tanto aos fãs do jogo quanto aos de histórias de vampiros. Uma segunda temporada, com oito episódios, já foi encomendada e deve estrear em algum momento de 2018 na programação do serviço.

Era só colocar a ficha e jogar

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Filmes de Julho: Missão Netflix

por Marcelo Seabra

Shimmer Lake

Sabemos que houve um assalto. Algo deu errado. O xerife não está muito feliz, principalmente por saber que o irmão está envolvido. Este fiapo de trama resume uma nova produção distribuída pela Netflix: Shimmer Lake (2017). E há um diferencial muito bem utilizado: a história é contada de trás para frente, dia a dia. Pode parecer mais do mesmo, que outros fizeram isso antes, mas o recurso causa de fato um efeito interessante, trazendo mais suspense sem enganar o espectador.

Aparentemente uma trama policial, o filme surpreende com momentos de humor, resultando num bom equilíbrio. E, ao invés de um interiorano ser mostrado como imbecil, a tarefa cabe aos agentes do FBI. Benjamin Walker (mais conhecido como Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, de 2012) vive o xerife de uma cidadezinha que teve o banco assaltado. Aos poucos, tomamos conhecimento do que houve e as peças vão se encaixando. E Rainn Wilson (de Super, 2010), geralmente lembrado como comediante, está num meio termo que consegue ser incômodo e tenso.

Shimmer Lake traz ainda em seu carismático elenco Ron Livingston e Rob Corddry como os abobados agentes federais e John Michael Higgins, outro sujeito engraçado naturalmente, num papel delicado. Lembrando começos simples (mas nunca menos que brilhantes) como Cães de Aluguel (Tarantino) ou Following (Nolan), podemos encarar essa empreitada como o sinal de uma bela carreira pela frente para o diretor Oren Uziel, que também assina o roteiro.

Fica Comigo

Constrangedor de tão ruim, Fica Comigo (You Get Me, 2017) é daqueles filmes que te fazem pensar como tantas pessoas podem ter caído, juntas, numa furada tão grande. Seriam as contas a pagar no fim do mês? Pior é pensar que muitos, por não terem o costume de abandonar um filme no meio, chegarão ao final da sessão disso. E o suplício se torna maior graças ao elenco insosso, liderado por uma tal Bella Thorne, atriz acostumada com aventuras adolescentes que resolveu mostrar que cresceu.

Numa trama mais do que batida, de menina que fica obcecada por menino, Thorne é a misteriosa garota de fora que chega na cidade magicamente na festa em que Tyler (Taylor John Smith, de American Crime), o namorado perfeito e apaixonado, arruma motivo para brigar com a amada (Halston Sage, de Como Sobreviver a Um Ataque Zumbi, 2015). Num misto de raiva e álcool, ele se entrega à desconhecida e vai se arrepender.

Todos os clichês esperados aparecem. A menina não poderia ser apenas desequilibrada, ela precisou perder o pai – como se isso tornasse as pessoas psicopatas. E a coisa só piora, Holly chega ao cúmulo de tentar matar uma colega por intoxicação apenas devido a um pé atrás. Ao invés de orgulhoso, Tom Ripley, o psicopata de Patricia Highsmith, ficaria com vergonha de tamanha apelação. O diretor, Brent Bonacorso, e o roteirista, Ben Epstein, fazem ambos suas estreias em um longa-metragem, e continuaremos a esperar por algo que preste.

Take Me

Depois de diversas participações em séries e filmes, com raros momentos de protagonismo, Pat Healy (de Pequenos Delitos, 2017) dirige e estrela uma produção dos irmãos Duplass. Take Me (2017), já disponível na Netflix, é uma comédia de humor negro que traz uma premissa esdrúxula: Ray tem uma empresa que simula o sequestro de seus clientes. Por incrível que pareça, os motivos que levam pessoas a contratá-lo são diversos.

Esse não será um bom fim de semana para Ray. Com um novo serviço que vai extrapolar suas habituais oito horas de contrato, ele captura a consultora financeira Anna St. Blair (Taylor Schilling, de Orange Is the New Black). Começa um duelo entre os dois que marca uma das relações mais interessantes entre captor e capturada. Em muitos momentos, ela se mostra mais forte e inteligente que ele, o “profissional”, e a situação atinge níveis surreais.

O também estreante roteirista Mike Makowsky demonstra talento para fazer o público rir de nervoso, além da química entre Healy e Schilling funcionar bem. Em um filme curto, eles conseguem entreter, divertir e levantar algumas questões. O que leva uma pessoa a querer ser sequestrada de mentira? E o que tem na cabeça o sujeito que oferece esse serviço? Dá pra pensar.

Um Contratempo

Passeando perigosamente pelo terreno das facetas escondidas dos personagens, Um Contratempo (Contratiempo, 2016) consegue sair ileso. O espanhol Oriol Paulo (de El Cuerpo, 2012) vira o jogo sem chamar ninguém de idiota, o que é fundamental para o sucesso da empreitada. É óbvio que a trama esconde mais do conhecemos nos primeiros minutos, e o diretor e roteirista é hábil ao conduzir o desenrolar, segurando a tensão até o final.

De cara, conhecemos o bem sucedido e jovem empresário Adrián Doria (Mario Casas, de Os 33, 2015), que precisa lidar com uma possível acusação de assassinato logo quando fecha um contrato milionário que vai lhe garantir tranquilidade financeira. A vítima foi morta em um quarto de hotel do qual aparentemente ninguém saiu ou entrou, e apenas ele estava lá. Cabe a uma advogada veterana (Ana Wagener, de Vulcania, 2015) entender o que houve e provar a inocência de seu cliente.

As peças são colocadas engenhosamente e Um Contratempo se mostra bem mais intricado do que parecia. É outra obra recente disponível na Netflix que vai agradar a fãs de séries como C.S.I. E o elenco principal, completado por Bárbara Lennie (de A Pele que Habito, 2011) e José Coronado (também de El Cuerpo), é bem forte, oferecendo uma ótima variação a quem está acostumado com produções faladas em inglês. E, até onde se sabe, o Doria da trama não tem parentesco com um certo prefeito teatral da vida real.

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Pacote de filmes – julho

por Marcelo Seabra

O Círculo

Adaptando um livro de Dave Eggers, com roteiro do próprio e do diretor, James Ponsoldt, O Círculo (The Circle, 2017) parece querer apontar dedos e mostrar para onde estamos indo com o uso de tanta tecnologia e com cada vez menos privacidade. Mas a crítica é tão datada e superficial que lembra um longa de 1999, Ed TV, que fazia uma versão rudimentar do que O Círculo faz.

O público do Big Brother tem um novo alvo: a jovem Mae (Emma Watson), que se oferece à companhia onde trabalha, O Círculo, para ter sua vida filmada o dia todo, com pequenos intervalos para banheiro e dormir. É claro que vai dar problema, e situações exageradas são enfileiradas apenas para conduzir a história. A personalidade de Mae é ditada pelos fatos que a cercam, assim como suas ações, e ela parece levada, sem vontade própria.

Tom Hanks e Patton Oswalt são os empresários por trás das inovações tecnológicas do Círculo e fica claro o tempo todo que eles têm interesses escusos por trás. Se o público não entendeu isso, não tem problema: o personagem de John Boyega (dos novos Star Wars) está lá para avisar. A ironia é ter Ellar Coltrane no elenco, o rapaz que cresceu fazendo Boyhood (2014), praticamente uma versão ficcional e a longo prazo de um reality show.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

A crítica completa, do Rodrigo Monteiro, está publicada aqui, então farei apenas alguns comentários.

A melhor forma de definir esse De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) é dizer que trata-se de uma volta às origens. Apesar de atualizar alguns elementos, como o uniforme dele, é o filme que melhor utiliza o humor despretensioso do herói dos quadrinhos, um garoto imaturo e bem intencionado que dispara piadas e teias com a mesma velocidade. Peter é um colegial que vive todos os dramas da idade, de bullying até ter uma queda por uma menina aparentemente intocável. E evitar uma nova história de origem foi uma ótima decisão.

Em meio aos deveres de casa, Peter tenta fazer a sua parte mantendo segura a vizinhança. Uma grata surpresa é o vilão principal, vivido pelo ótimo Michael Keaton. Ele tem os pés no chão e suas motivações trazem uma simpatia e uma dimensão a ele que outros não tiveram. Esse mundinho é bem inserido no universo Marvel, com participações saudáveis de Jon Favreau e Robert Downey Jr., que repetem seus personagens (Happy Hogan e Tony Stark) numa dose suficiente para serem importantes sem roubarem a cena.

Entre tantos acertos, o grande trunfo do diretor Jon Watts é seu protagonista. Mais uma vez comprovando o talento dos produtores na escolha do elenco, Tom Holland é um Peter Parker perfeito. Ao contrário de Tobey Maguire e Andrew Garfield, ele não parece um trintão vivendo um adolescente. Holland tem os traços que esperamos: otimismo, bom humor, insegurança e até medo. E, como ele tem apenas 15 anos, é normal que coadjuvantes esperados não apareçam, o que pode acontecer no futuro.

A Autópsia

O longa de terror (The Autopsy of Jane Doe, 2016) exibido há algumas semanas é bem sucedido em sua proposta: não preocupado em explicar muito, ele parte para a criação de um clima de suspense. Seria fácil cair nos clichês do gênero, já que a história se passa toda numa funerária, mas as situações são bem aceitáveis e os personagens, inteligentes.

Como pai e filho, Brian Cox e Emile Hirsch funcionam bem, o que seria imprescindível para um filme focado nos dois. Com diálogos discretos, os conhecemos melhor, enquanto coisas estranhas vão acontecendo após o corpo de uma desconhecida chegar para autópsia. Os outros coadjuvantes importantes, o policial (Michael McElhatton) e a namorada (Ophelia Lovibond), também casam bem com a trama. Ah, e tem a menina (Olwen Kelly) que fica nua, pálida e imóvel o filme todo, numa atuação fantástica de morta.

A casa é bem explorada, os cantos escuros se tornam ameaçadores até para os Tilden, que moram lá e estão habituados com os cadáveres. Ponto para o diretor norueguês André Øvredal, que viu o seu O Caçador de Trolls (Trolljegeren, 2010) virar cult e fez a ponte aérea para os Estados Unidos. Com roteiro da dupla de Dead of Summer (Ian Goldberg e Richard Naing), série de terror, Øvredal sedimenta uma boa carreira, que merece ser acompanhada.

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