A Livraria e Mary Shelley já estão na Netflix

por Marcelo Seabra

Dois lançamentos na Netflix têm uma coisa em comum: são realizações de mulheres, sobre mulheres. Isso, além da qualidade. Já estão disponíveis A Livraria (The Bookshop, 2017) e Mary Shelley (2017), dramas de época com histórias bonitas sobre personagens fortes que fizeram seu próprio caminho, sem depender de maridos ou qualquer outro suporte masculino. Histórias bonitas, mas não necessariamente felizes, já que houve muita luta por parte delas.

Depois de uma rápida passagem pelos cinemas nacionais, trazido pela Cineart Filmes, A Livraria chega ao serviço de streaming e é uma ótima oportunidade para quem deixou passar da primeira vez. Escrito e dirigido por Isabel Coixet (do delicado Minha Vida Sem Mim, 2003), o longa é baseado num livro de Penelope Fitzgerald, escritora rapidamente homenageada nos segundos finais. No final dos anos 50, numa cidadezinha da costa inglesa, uma viúva (Emily Mortimer, de A Invenção de Hugo Cabret, 2011) se prepara para realizar um sonho: abrir uma livraria.

Em meio à abertura da loja e aos esforços de Florence para prestar o melhor serviço à comunidade, Fitzgerald e Coixet aproveitam para fazer críticas sociais e até políticas, além de contarem uma história interessante. Uma socialite desocupada (Patricia Clarkson, de Maze Runner: A Cura Mortal, 2018) inventa que um casarão antigo no meio da cidade deveria virar um centro cultural. É exatamente a casa que Florence comprou para morar e montar sua livraria. Casa que estava vaga há meses e não despertava interesse. Basta alguém tomar a frente para acender a intriga local.

Tanto Mortimer, como a educada e tolerante protagonista, como Clarkson, como sua antagonista arrogante, estão muito bem. Enquanto uma evita “coitadismos”, mantendo sempre uma postura digna e bondosa, a outra não cai no estereótipo fácil da megera, mantendo uma fachada de filantropa que pensa no bem-estar de todos. E, correndo por fora, chega o excepcional Bill Nighy (de Questão de Tempo, 2013), que vive um viúvo recluso que decide entrar na briga para reforçar o lado que julga correto. Um poço de ética, Mr. Brundish escancara a hipocrisia de seus pares, um bando de fofoqueiros que gostam de alimentar mentiras.

O usual diretor de fotografia de Coixet, Jean-Claude Larrieu, aproveita as paisagens do litoral inglês, contrastando a paz do mar sem ondas com a dureza das pedras da praia, a aparência de calmaria com a real aspereza que se revela aos poucos nos cidadãos. Com simplicidade, a diretora nos conduz pela intriga que cerca Florence, nos fazendo torcer por ela não por ser mulher, mas por seus valores e sua coragem. Só queremos entrar na cena e dizer algumas palavras de incentivo.

Outra mulher interessante, que defende com garra preceitos feministas, é Mary Shelley, interpretada com serenidade por Elle Fanning (de O Estranho Que Nós Amamos, 2017). A atriz, mesmo sem grandes arroubos, mostra que Mary não era uma mocinha convencional, daquelas que se resignam a seguir ordem dos homens. A falecida mãe era conhecida por ser uma feminista batalhadora e o pai (Stephen Dillane, de O Destino de Uma Nação, 2017) é um escritor e livreiro respeitado. Mary cresce num meio que favorece sua veia literária e desde sempre escreve aqui e ali.

Aos 16, a garota conhece o envolvente poeta Percy Shelley (Douglas Booth, de O Destino de Júpiter, 2015), e se apaixona, optando por um amor dentro dos padrões, acreditando que cada um possa fazer suas próprias escolhas. Com Shelley, Mary foge de casa e, juntos, eles desfrutam um estilo de vida luxuoso e sem preocupações. Isso, até que Shelley é deserdado pelo pai e passa aplicar golpes para manter as benesses. Fugir de credores passa a ser uma comum e, numa dessas escapadas, o casal vai parar na mansão de outro escritor bem de vida, Lorde Byron (Tom Sturridge, de Longe Deste Insensato Mundo, 2015).

É desse encontro que nasce um dos mais clássicos romances de terror: Frankenstein. É notória a aposta que é feita entre os presentes de que eles combateriam o tédio escrevendo, e ganharia a melhor história. O filme oferece uma visão do que teria acontecido, diferindo bem do que é mostrado em Gothic (1986), de Ken Russell, já que o foco é em Mary. A diretora Haifaa Al-Mansour, que escreveu o roteiro com Emma Jensen, é lembrada como a primeira cineasta da Arábia Saudita, tendo feito sua estreia com o elogiado O Sonho de Wadjda (2012).

Al-Mansour pela primeira vez conta essa história tirando o foco dos homens presentes (Shelley, Byron e o Dr. Polidori, vivido por Ben Hardy), valorizando Mary e sua irmã (Bel Powley, de Diário de Uma Adolescente, 2015). Dessa forma, entendemos melhor o que se passava na cabeça delas, que tinham qualidades, defeitos e paixões como qualquer um de nós. Mary, assim como a Florence de A Livraria, toma suas decisões e arca com as consequências. É ótimo ter a oportunidade tão cômoda, na Netflix, de conhecer essas duas obras feitas por mulheres num meio que não as valoriza como deveria.

Além de Fanning, Booth e Powley, o elenco traz Maisie Williams, de GoT

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Aquaman é quase um filme da Marvel com personagens da DC

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Apesar de gostar do trabalho de Zack Snyder em filmes como 300 e Watchmen (ainda que ambos não sejam boas adaptações), nunca gostei da forma como ele resolveu trabalhar o Universo DC quando recebeu da Warner essa difícil tarefa. Snyder e os executivos da Warner viram o que os estúdios Marvel estavam fazendo e resolveram que a melhor forma de obter o mesmo sucesso seria trabalhar de uma maneira bem diversa. Se os filmes da Marvel eram cheios de humor e esperança, os da DC deveriam ser sombrios, soturnos e até meio cínicos.

Com isso em mente, Zack trabalhou em Homem de Aço (2013) e Batman v Superman (2016), conseguindo boas bilheterias – ainda que abaixo do esperado pelo estúdio – mas uma enxurrada negativa de críticas. Esquadrão Suicida (2016), de David Ayer, seguiu a mesma toada: bons números de bilheteria e péssimas críticas. Isso fez com que a cúpula da Warner decidisse por uma mudança de direção, dando a Geoff Johns, uma das principais mentes criativas da DC, mais poder no que dizia respeito à forma como os personagens da empresa seriam adaptados para a telona. Mulher-Maravilha (2017), de Pat Jenkins, já trouxe um pouco dessa filosofia e Aquaman, de James Wan (2018), que chega às telas brasileiras hoje, leva esse direcionamento ao extremo. Ele é quase um filme da Marvel.

Um dos grandes méritos de Aquaman está em seu roteiro, escrito por David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall, com base na história de Geoff Johns, James Wan e do próprio Beall. A presença de Johns na equipe criativa foi fundamental aqui, já que foi ele o responsável por comandar a reformulação do personagem na iniciativa que a DC chamou de Os Novos 52 e partes de seu trabalho nos quadrinhos, especialmente nos arcos As Profundezas e A Morte de Um Rei, serviram de base (ou inspiração) para o que vemos nas telas.

Aquaman é um filme de origem que difere levemente de produções dessa seara, já que o personagem foi apresentado ao mundo em Liga da Justiça (2017). Aqui, no entanto, conhecemos mais detalhes de sua vida pregressa. Sabemos, por exemplo, que Arthur Curry (Jason Momoa) é filho do humano Tom Curry (Temuera Morrison, de Lanterna Verde, 2011) com Atlanna (Nicole Kidman, de Big Little Lies), soberana do lendário reino submerso da Atlântida. Atlanna some da vida de Arthur quando ele ainda é uma criança e ele passa a se culpar por isso. Em sua mente, a mãe sumiu porque ele nasceu em uma união não permitida entre humanos e atlantes.

A herança materna de Arthur faz com que ele tenha capacidades sobre-humanas. Além de super-força e semi-invulnerabilidade, ele consegue nadar a velocidades absurdas, respirar tanto dentro quanto fora da água e “conversar” com criaturas marinhas. Arthur passa boa parte de sua vida combatendo a pirataria nos sete mares, sempre de maneira razoavelmente anônima, ainda que isso acabe tornando-o uma espécie de celebridade em sua cidade natal.

A sociedade submarina é dividida em sete reinos, quatro dos quais ainda têm alguma importância. Cansado de ver como os habitantes da superfície andam tratando os mares, o soberano da Atlântida, Orm (Patrick Wilson, da franquia Invocação do Mal), meio-irmão de Arthur, quer declarar guerra à humanidade. Para isso, ele precisa unir os quatro reinos e inicia seus planos recrutando a ajuda do Rei Nereus (Dolph Lundgren, um dos Mercenários).  A filha de Nereus, Mera (Amber Heard, de Magic Mike XXL, 2015), e o conselheiro real, Vulko (Willem Dafoe, de Assassinato no Expresso Oriente, 2017), querem impedir essa guerra. A solução: convencer Arthur de aceitar seu papel e conquistar o trono da Atlântida. Essa tarefa, claro, não será nada fácil, especialmente quando a dupla precisa também enfrentar um inimigo que Arthur arrumou em sua luta contra a pirataria.

Aquaman é um filme divertido e um verdadeiro festim para os olhos, especialmente nas sequências passadas debaixo da água. Impressiona a precisão técnica apresentada na tela, com um trabalho de computação gráfica quase perfeito. Há um erro aqui e ali, mas nada que traga demérito ao filme. Outra coisa que impressiona é como os cenários do filme são iluminados. Mesmo Atlântida, localizada bem abaixo da superfície, é um show de luzes e cores e as sequências de ação que se passam nesse cenário, ao contrário de muitos filmes do gênero, são bem definidas e poucas são as cenas onde a falta de iluminação é utilizada para esconder possíveis falhas nos efeitos visuais e especiais.

Apesar da história de Aquaman não ser nada de mais e de uma tentativa de encaixar piadas que, na maioria das vezes, não funciona, o elenco faz seu trabalho de maneira competente. Jason Momoa diminuiu bastante seu jeito de “mano da quebrada” apresentado em Liga da Justiça, enquanto que Mera teve um bom tempo de tela, emulando bastante a personalidade de sua contraparte quadrinhística. Da mesma forma, Patrick Wilson e Willem Dafoe (ao lado) foram fiéis a seus personagens, tornando-os críveis. O Orm de Wilson, inclusive, se não é um primor de tridimensionalidade, também não cedeu ao clichê do cara que faz tudo para obter o poder supremo. Há pelo menos uma passagem no filme em que Orm poderia muito bem cair nesse clichê, mas os roteiristas optaram por não fazê-lo.

Durante boa parte do terceiro ato, Aquaman traja o seu uniforme clássico dos quadrinhos, ou seja, calças verdes e armadura escamada amarela, deixando de lado o visual desleixado apresentado em Liga da Justiça. Já os visuais tanto de Orm quanto do Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II, de The Get Down) também refletem aqueles aos quais os fãs dos quadrinhos estão acostumados.

É seguro dizer que Aquaman é uma bola dentro da DC. Não é um filme no nível de Mulher-Maravilha, nem tampouco pode ser comparado com Batman: O Cavaleiro das Trevas, como alguns críticos gringos fizeram. É, no entanto, uma bela produção que nos dá esperança de que o universo cinematográfico da DC finalmente entre nos trilhos. Mesmo que, para isso, tenha que seguir as pegadas de sua maior concorrente. E, como é costume, Aquaman tem uma cena após o final e ela se encontra no meio dos créditos. Portanto, assim que ela for exibida – e a Warner ainda precisa tornar essas cenas relevantes, porque todas até agora foram bastante dispensáveis – você pode sair da sala sem esperar o fim dos créditos.

Wan e o elenco principal de Aquaman

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Programa do Pipoqueiro #37

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz três trilhas de cinebiografias bem diferentes entre si: Ray, Johnny e June e A Vida É Dura – A História de Dewey Cox. Conheça os filmes e suas músicas apertando o play abaixo!

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Spike Lee conta a inacreditável história do Infiltrado na Klan

por Marcelo Seabra

Uma história tão absurda só poderia ser verdadeira! Dizer que um policial negro conseguiu se passar por um supremascista branco que chegou ao líder da Ku Klux Kan seria algo muito louco, e é exatamente o que Ron Stallworth conta em sua autobiografia, que chega agora aos cinemas comandada por Spike Lee. Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018) é ambientado nos anos 70, mas está mais atual do que nunca, já que temos visto e ouvido discursos de ódio que pareciam superados e movimentos racistas crescendo em plena luz do dia.

Quase sempre um cineasta relevante, Lee dá muita ênfase à luta do movimento negro, contando histórias importantes, que precisam ser conhecidas. De Faça a Coisa Certa (1989) a Verão em Red Hook (2012), passando por Malcolm X (1992) e A Hora do Show (2000), ele tem várias obras que vão nessa direção, e esta nova conta outro episódio importante. Para o papel principal, ele escalou o filho de seu colaborador frequente, Denzel Washington, e pode-se dizer que o talento corre nas veias da família. John David Washington (da série Ballers) passa a confiança e a audácia necessárias ao papel, e tem uma presença de cena forte.

Vendo um anúncio de recrutamento no jornal, Stallworth liga pro escritório da KKK e consegue marcar um encontro com o responsável local. Para ser a cara do personagem que criou, ele precisa contar com um colega por uma razão simples: ele é negro, o primeiro da força policial de Colorado Springs. Por isso, recorre a Flip Zimmerman (Adam Driver, de Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017), policial de origem judaica que encarna a persona e destila discursos raivosos, na medida em que os outros querem ouvir. Dessa forma, em dupla, eles conseguem informações valiosas sobre possíveis atentados, salvando vidas e mostrando aos espectadores como é grotesco e raso o pensamento daquela gente.

Numa participação muito bem escolhida, Topher Grace (de Máquina de Guerra, 2017 – abaixo) vive David Duke, então Grande Mago do Cavaleiros da Ku Klux Klan – sim, esse cargo existe e é levado a sério por eles. Duke participou de diversas eleições e chegou até às primárias para ser candidato à presidência dos Estados Unidos, tentando por ambos os partidos principais: os democratas e os republicanos. Nunca passou de cargos locais e ainda arrumou confusão mundo afora, tendo sido expulso da Itália quando vivia no norte do país e preso na República Tcheca sob suspeita de “negar ou aprovar o genocídio nazista e outros crimes nazistas”, acusações depois retiradas.

Duke é a figura que liderava a “Organização”, como eles próprios se chamavam. Em seu discurso, ele alerta para o perigo de demagogos que usam a retórica para fazer a cabeça das pessoas, e sem perceber se descreve perfeitamente. O gestual calculado de Grace é muito acertado, sempre passando a impressão de uma pessoa fina, educada, gentil, incapaz de qualquer ato de violência e de quem seria impossível discordar. Ele só cresce quando é hora de sustentar seus preconceitos em frente a seus comandados, e tudo o que sai de sua boca é vazio. Ele chega a afirmar que poderia, por telefone, diferenciar um branco de um negro pela forma como eles falam. Algo que lembra a atroz eugenia nazista.

Expondo o ridículo das filosofias supremacistas brancas, Lee conta uma história interessante e divertida, com pontuais momentos de humor, e lança mão de suas marcas registradas, como a tomada em um corredor em que dois personagens avançam aparentemente sem se mexerem. Um elenco competente, com merecido destaque para Driver, além dos já citados Washington e Grace, completa um quadro firmemente pintado por Lee. Infiltrado na Klan tem sido apontado por críticos ianques como o primeiro filme de autor a se posicionar contra Trump, e o faz diretamente, sem subterfúgios. Para muitos, é para isso que o Cinema existe: divertir e fazer pensar.

Spike Lee levou seu elenco a vários festivais, como Cannes

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Steve McQueen reúne ótimo elenco para As Viúvas

por Marcelo Seabra

Viola Davis, sempre que tem oportunidade, mostra que é uma senhora atriz e que segura tranquilamente um filme nas costas. Mesmo que o resto do elenco seja bem interessante, ela sempre se sobressai. O veículo do momento para mostrar seu talento é As Viúvas (Widows, 2018), novo trabalho do elogiado diretor Steve McQueen. Com uma dupla dessas, não tinha como dar errado, e o resultado prende e diverte o público.

De cara, vemos o grupo encabeçado por Liam Neeson (de Noite Sem Fim, 2015) realizando um assalto que não dá muito certo. A personagem de Davis (de Um Limite Entre Nós, 2016), a viúva do sujeito, é procurada pelos donos originais do dinheiro roubado e recebe um ultimato para devolver tudo. É daí que parte uma trama que envolve vários tipos, e McQueen (de 12 Anos de Escravidão, 2013) escolhe a dedo que interpreta cada um. Temos, por exemplo, Robert Duvall (de O Juiz, 2014), um veterano que sempre faz bonito frente às câmeras, assim como Jacki Weaver (de O Rei da Polca, 2017), num papel menor.

Escrito por Lynda La Plante, o livro Widows já ganhou duas adaptações para a TV. Dessa vez, temos várias alterações na fonte. Além da pura diversão de acompanhar os desdobramentos do crime mal-sucedido, McQueen e sua co-roteirista, ninguém menos que a escritora Gillian Flynn (que escreveu o livro e o roteiro de Garota Exemplar, 2014), aproveitam para meter o dedo em algumas feridas. A política é alvo de várias críticas, são escancaradas algumas jogadas desse universo que envolvem não só conchavos e ameaças, mas crimes mais óbvios, como assassinatos. As relações familiares também são examinadas e temos como conhecer um pouco melhor cada um dos envolvidos.

O elenco mais do que competente traz Michelle Rodriguez (de Velozes e Furiosos), Elizabeth Debicki (de Guardiões da Galáxia 2, 2017) e Carrie Coon (de Vingadores: Guerra Infinita, 2018) como as outras viúvas do título, fechando um quarteto diversificado e forte. Na disputa política, temos o embate de Colin Farrell (de Animais Fantásticos, 2016) e Brian Tyree Henry (de Hotel Artemis, 2018), este último auxiliado pelo irmão gângster vivido por Daniel Kaluuya (de Corra!, 2017 – ao lado). Farrell faz o filho de Duvall e os diálogos entre os dois são dos mais marcantes e cortantes, tamanha a brutalidade com que se tratam. Entre os nomes mais famosos, temos ainda Jon Bernthal (o Justiceiro), Lukas Haas (de O Primeiro Homem, 2018) e Manuel Garcia-Rulfo (de Assassinato no Expresso Oriente, 2017).

É impressionante a habilidade que McQueen tem de passar informações e situar o público sem precisar de diálogos expositivos. Ele, inclusive, volta no tempo sem sobreaviso, e não causa qualquer tipo de confusão. Alguns enquadramentos nos permitem melhor compreensão do espaço físico, e nem precisamos ver os personagens para acompanharmos uma conversa. Todos esses elementos costurados por uma montagem ágil fazem duas horas passarem em um minuto. E, logo, estamos novamente torcendo por um novo filme do diretor.

Elas vão ter que se virar

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Garoto autista é o foco de Po

por Marcelo Seabra

Um filme que toca uma música da dupla Burt Bacharach e Hal David nos primeiros minutos já começa ganhando a simpatia de seu público. Logo descobrimos tratar-se de um ponto de partida triste, com a morte de uma mulher que deixa para trás o marido e o filho pequeno. E a criança é autista, assim como os filhos do diretor e do roteirista do longa. Po (A Boy Called Po, 2016), que chega agora aos cinemas brasileiros pela Cineart, se propõe a mostrar um retrato mais real do autismo.

A ideia de John Asher ao comandar o filme era mostrar para quem não está próximo como se comporta alguém que está no espectro do autismo, como seu Evan, hoje com 14 anos. O próprio Bacharach, que assina a trilha sonora, tinha sua Nikki, que acabou tirando a própria vida aos 40. É comum vermos no Cinema crianças autistas decifrarem códigos e montarem bombas e afins. Não é usual vermos como se organiza uma família, ou o impacto nos pais, quando chega um filho com essas características.

Ao escrever o roteiro, Colin Goldman também pôde colocar algumas experiências familiares, o que torna bem reais as atitudes e reações do personagem-título. Após a perda da mãe, Patrick (Julian Feder, de Community) se fecha cada vez mais e o pai (Christopher Gorham, de 2 Broke Girls) se desdobra para vencer o luto, criar Po (como ele prefere ser chamado) e finalizar o projeto no qual trabalha. Reconhecer que pode não dar conta de tanto não é uma opção para David, que se esforça e vê sua vida sair dos trilhos.

Se o tom é sensível, a ideia é promissora e a intenção, nobre, Po peca nos desdobramentos. O roteiro só vai soar original para quem nunca vê filmes. A sequência de obstáculos, o fundo do poço e a redenção seguem um caminho bem tradicional, para não dizer clichê, e as soluções são muito convenientes. É comum filmes deixarem a impressão de que os realizadores sabiam aonde queriam chegar, mas não como, e é esse o caso.

Produção independente bancada pela Commonwealth Film Manufacturing e pela New Coast Productions, Po não deve ter tido um orçamento muito polpudo, isso fica claro. Os cenários são muito simples, não há nada visualmente elaborado – com exceção talvez dos devaneios do garoto, que se imagina em lugares diferentes. Esse talvez seja o maior mérito de Po (o filme): tentar desvendar o que se passa na cabeça de uma criança autista usando como base a experiência de adultos neurotípicos que conhecem o assunto de perto.

A imaginação do garoto vai longe

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Irmãos Coen atacam na Netflix com Buster Scruggs

por Marcelo Seabra

Depois de muitos e elogiados filmes na tela grande, os irmãos Coen se associaram à Netflix e lançaram The Ballad of Buster Scruggs (2018). Nos Estados Unidos, houve uma rápida exibição nos cinemas, mas não tivemos essa sorte no Brasil. O filme já está disponível no serviço de streaming e é daqueles que não se pode deixar sumir no mar de opções que aparecem. O prêmio de Melhor Roteiro em Veneza não foi à toa.

Dividido em seis segmentos, o longa não conta uma história apenas. As seis partes nos levam a lugares diferentes que compõem o velho oeste, com todos os grandes momentos que podemos imaginar. O que vem à cabeça quando se pensa em faroestes? Execução na forca, assalto a banco, caravanas viajando pelo deserto, a caça ao ouro, embates com índios, duelos em ruas empoeiradas e até cantores com seus violões. Tem de tudo nessa obra. E a transição entre drama e humor é bem feita, marcando os dois momentos.

Para citar o histórico dos Coen é preciso decidir se começamos pelos mais premiados (Onde os Fracos Não Têm Vez, 2007, e Fargo, 1996), pelos mais recentes (Ave, César, 2016, e Inside Llewyn Davis, 2013), ou qual será o critério. Seus filmes são dos mais diversos, e há no mínimo um grande faroeste: Bravura Indômita (True Grit, 2010). The Ballad of Buster Scruggs vem reforçar esse gênero, trazendo personagens interessantes e inusitados como só os irmãos sabem fazer. As histórias que se sucedem têm sido desenvolvidas há anos, e uma delas inclusive é baseada em um conto de Jack London (conhecido por Caninos Brancos) – aquela em que um prospector solitário tenta achar ouro.

Além da presença de todos esses elementos, temos os diálogos afiados dos Coen. Alguns dos segmentos nos deixam até inquietos, de tanto que se fala. Mas nada do que é dito é dispensável. Todas as palavras são escolhidas a dedo, inclusive as das animadas canções country entoadas pelos personagens. A trilha instrumental de Carter Burwell, frequente colaborador dos diretores, é outro ponto a ser destacado, casando muito bem com cada situação e ajudando muito na ambientação.

Para seis histórias distintas, seria necessário um grande elenco, e a sensação que temos é que todos querem trabalhar com os Coen. Como as filmagens foram rápidas e em lugares mais distantes dos grandes centros, como Nebraska e Novo México, os nomes usuais mais chamativos, como George Clooney, Tom Hanks ou Brad Pitt, ficaram de fora. Há nomes repetidos da filmografia dos diretores, como Tim Blake Nelson, Clancy Brown e Stephen Root, mas aparecem também muitas novidades, como James Franco, Liam Neeson, Tom Waits, Brendan Gleeson e Zoe Kazan, entre muitos outros. Todos muito bem inseridos e caracterizados.

Mas falar de um longa dos Coen sem citar a fotografia seria um crime impensável – principalmente The Ballad of Buster Scruggs. O experiente Bruno Delbonnel faz sua segunda colaboração com os irmãos (depois de Llewyn Davis), além de trabalhar constantemente com Tim Burton. Suas imagens chegam a ser poéticas, com belas paisagens em contraluz, tornando possível longas passagens sem diálogos, já que podemos ver as informações necessárias, evitando explicações chatas. Tudo bem costurado pela montagem de Roderick Jaynes, pseudônimo dos próprios diretores.

Esses são alguns dos personagens criados pelos Coen

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Programa do Pipoqueiro #36

por Marcelo Seabra

Bohemian Rhapsody é o filme que conta a história do Queen e do Freddie Mercury, com muita música boa na trilha, que o Programa do Pipoqueiro traz mesclando com vários comentários de gente bacana! Aperte o play abaixo e se divirta!

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Novo Animais Fantásticos corre sem sair do lugar

por Marcelo Seabra

Um sujeito carismático, perigoso e mal-intencionado vai reunindo seguidores para liderar um levante, enquanto cumpre uma agenda secreta. Não se trata do crescimento da extrema direita no mundo, mas do novo Animais Fantásticos. Conhecemos melhor o personagem de Johnny Depp, revelado no final do filme anterior, e Os Crimes de Grindelwald (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, 2018) gira em torno das ações dele.

Depois de comandar os quatro últimos filmes da série de Harry Potter, David Yates se tornou o diretor oficial dessa nova franquia, que tem as partes 3, 4 e 5 já anunciadas. Como ele, J.K. Rowling também está de volta como roteirista, adaptando sua própria obra. O elenco, que ganhou reforços, também está lá novamente, com Eddie Redmayne à frente. Com tantos retornos, uma coisa se foi: a novidade. O frescor do primeiro filme, onde tudo era inovador e criativo, ficou lá, com a fórmula sendo repetida aqui.

Tudo parece no lugar esteticamente, e até o efeito 3D funciona bem. Mas a sensação que dá é que passamos mais de duas horas sendo enrolados, esperando por uma revelação que chega no final e é isso. Resta aguardar o próximo. Na aventura anterior, Newt Scamander (Redmayne) vai a Nova York comprar um presente, se vê envolvido em situações perigosas e acaba proibido de viajar. O que, claro, ele fará de qualquer forma. Scamander volta a afirmar que não existem animais estranhos ou feios, o que existe é gente preconceituosa. Essa defesa da diversidade continua, e ainda há a luta entre os dois lados dos magos, um que defende a paz com os não magos e outro que se julga superior, algo que já vimos acontecer até com os mutantes de X-Men.

Para tentar fugir dessa sina de “mais de mesmo”, Rowling joga mais um punhado de personagens na cena, sem se aprofundar em nenhum. Para os fãs de Potter, são dadas várias piscadelas com referências, o que deve satisfazê-los. Mas deixa os demais entediados, e o sono fica rondando, esperando para fincar pé. Quem ganha um pouquinho de profundidade é Alvo Dumbledore, que aparece em uma versão bem mais jovem, vivido por Jude Law (de Rei Arthur, 2017). A sexualidade do professor levantou polêmica, já que mais nada no filme o fez. Mas fica bem claro que ele teve uma forte relação com outro personagem masculino. Para ficar mais claro que Dumbledore é gay, só tocando I Will Survive.

Assim como no episódio anterior, sabemos pouco do jovem Credence (Ezra Miller), e todo o mistério do filme gira em torno dele – o que deixa claro que nesse mato tem cachorro. E a história dele, como também a de Grindelwald (Depp), não parece caminhar para lugar nenhum. E onde estariam os tais crimes de Grindelwald? Outra pergunta sem resposta. O mago é muito malvado, como as expressões exageradas de Depp e todos os diálogos tornam óbvio, mas só o vemos maquinando e fazendo discursos. E de onde tiraram de misturar Nicolau Flamel nesse caldo?

O começo promissor da franquia Animais Fantásticos acabou não se sustentando, mesmo que Rowling continue trazendo assuntos espinhosos para discussão. Quanto Scamander diz, por exemplo, que não vai optar por um lado, a metáfora política é óbvia: se você não escolhe um lado numa batalha, um será escolhido para você. Mas boas intenções não sustentam um projeto. Se não teve mais sucesso, não foi por ter sido ofuscado pelas acusações de violência doméstica contra Depp. Foi por ser vazio mesmo. E se Rowling e Yates não conseguem entregar um bom filme do Universo Bruxo, quem conseguirá?

Mesmo com 135 minutos, é muita história para contar

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Operação Overlord traz o horror da guerra

por Marcelo Seabra

Você chega ao cinema esperando ver um filme de guerra. Começa tudo de forma tradicional, ainda que muito bem feito. Cenas realistas, você fica até com vertigem enquanto nossos heróis são atacados e acabam pulando do avião. Fica aquela sensação de O Resgate do Soldado Ryan (1998), com a violência da guerra ganhando contornos palpáveis, o sangue quase espirrando da tela. De repente, as coisas começam a tomar outro rumo e Operação Overlord (Overlord, 2018) mostra a que realmente veio.

Os eventos que precederam o famoso Dia D, também conhecidos como Operação Netuno ou o desembarque na Normandia, envolviam cortar as formas de comunicação dos nazistas, impedindo que eles se reorganizassem ou chamassem reforço. A Operação Overlord foi essencial para o sucesso da empreitada dos Aliados. Mas, para todos os efeitos, tratou-se apenas de um esforço de guerra normal, com tiros e explosões definindo quem seriam os vencedores.

O longa, já em exibição nos cinemas, leva essa passagem histórica em outra direção, acrescentando camadas que nunca imaginaríamos. Para não estragar nenhuma surpresa, pode-se dizer apenas que o horror da guerra nunca foi tão terrível. Temos um elenco bem equilibrado de quase desconhecidos, sendo o principal nome o sargento vivido por Bokeem Woodbine (de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, 2017). Conhecido dos fãs de The Leftovers, Jovan Adepo é o cadete novato que nos conduz pela história, quase como o Chris de Platoon (1986).

Depois de saltar do avião, Boyce (Adepo) busca se reencontrar com seu pelotão para poderem levar a missão adiante: derrubar uma torre de comunicação nazista. O especialista em explosivos Ford (Wyatt Russell, de Shimmer Lake, 2017) é o responsável pela execução do plano e um trio de outros soldados os acompanham. É interessante perceber como o roteiro (de Billy Ray, de Capitão Phillips, 2013, e Mark L. Smith, de O Regresso, 2015) trata os personagens de maneira equilibrada, com tempo de cena e importância bem divididos entre eles. Logo, passamos a nos importar com todos eles, mesmo sabendo pouco do histórico de cada.

A imagem calculada de filme B pode ser responsabilidade do produtor, um certo J.J. Abrams, que já fez o mesmo em outras oportunidades (como no ótimo Super 8, 2011). Se bem utilizado, o dinheiro do orçamento, nada menos que US$38 milhões, pode passar a imagem de algo mais barato, mas muito bem cuidado. Essa é a definição perfeita para Operação Overlord: um filme B bem feito e divertido. Ponto para o diretor Julius Avery, que até então só tinha Sangue Jovem (Son of a Gun, 2014) no currículo. A arrecadação está na casa dos US20 milhões. Vamos torcer para que se pague, e Avery tenha novas oportunidades de se destacar.

Mathilde Ollivier vive a francesa que ajuda o pelotão

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