Vidro conclui a trilogia de Shyamalan

por Marcelo Seabra

Em 2000, M. Night Shyamalan se reuniu com Bruce Willis, seguindo o sucesso de O Sexto Sentido (1999), para Corpo Fechado (Unbreakable), uma fábula sombria inspirada no universo das histórias em quadrinhos. Em 2016, o diretor comandou Fragmentado (Split), e deu um jeito de conectar os dois longas, dando a entender que teríamos em breve a união desses dois mundos. E ela de fato chegou aos cinemas: Vidro (Glass, 2019) é a conclusão que todos esperávamos para essa improvável trilogia.

Se o primeiro filme focava em David Dunn, o inquebrável personagem de Willis, o segundo nos apresentou a Kevin Wendell Crumb, cujas 24 personalidades são vividas por James McAvoy. A ideia do diretor e roteirista era juntar os dois, agora dando destaque à mente brilhante por trás de tudo: Elijah Price, mais conhecido como Sr. Vidro (Samuel L. Jackson). Foi Price que, após matar muita gente em desastres calculados, descobriu que Dunn era resistente de maneira sobrenatural.

Cuidando de uma empresa de segurança com o filho (novamente Spencer Treat Clark), David Dunn tem o costume de sair para caminhadas, quando tem a oportunidade de esbarrar em desconhecidos e descobrir criminosos nas ruas. Além de superforte e resistente, ele tem essa espécie de sexto sentido. Seu objetivo é encontrar o psicopata conhecido como Horda (McAvoy), de preferência salvando as garotas sequestradas. Logo de cara, os dois são presos e levados para o hospício onde Price está há anos. E isso é tudo que pode ser dito sobre a trama de Vidro.

Para quem está se perguntando se vale a pena conferir Vidro, a resposta é bem simples: é uma ótima conclusão para a trilogia iniciada pelos dois outros. Ou seja: quem não gostou de Corpo Fechado e Fragmentado dificilmente ficará feliz agora. O roteiro é bem coerente com o que Shyamalan fez antes, e o nível de nerdice é ainda maior. Como no primeiro filme, as regras das histórias em quadrinhos são observadas, com as reviravoltas que já esperamos do diretor.

Além de nossos três velhos conhecidos, revemos também Anya Taylor-Joy (de Fragmentado), Charlayne Woodard e Spencer Treat Clark (ambos de Corpo Fechado), respectivamente a vítima de Crumb, a mãe de Price e o filho de Dunn. É importante apontar que temos uma novidade no elenco: Sarah Paulson (de The Post, 2017), sempre uma ótima atriz a se acompanhar. Ah, e não deixa de ser curioso ver o diretor repetir sua ponta de Corpo Fechado.

Os responsáveis pela trilha sonora (West Dylan Thordson) e pela fotografia (Mike Gioulakis) são os mesmos de Fragmentado, o que ajuda a manter uma unidade. Os editores (Luke Ciarrocchi e Blu Murray) claramente têm Shyamalan à frente, guiando o resultado. Como de costume, o corte final é longo, com seus 129 minutos, mas nunca é cansativo. A montagem ágil garante o interesse do espectador e divide bem o tempo de tela entre Willis e McAvoy, e há ainda o outro desafio: McAvoy vive personalidades diferentes e bem marcadas, e essa divisão é clara. E Sam Jackson, quando aparece, mostra serviço, provando o porquê de ter seu nome no título do filme.

Elijah Price é o astro da vez

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Glenn Close brilha como A Esposa

por Marcelo Seabra

Em meio a tantas discussões sobre a óbvia necessidade de valorização do papel da mulher na sociedade, chega aos cinemas um longa que enfia o dedo na ferida. A Esposa (The Wife, 2017) mostra uma situação que, com variáveis, pode acontecer em várias famílias: a da mulher que faz tudo pelo marido e filhos e acaba ficando sempre à sombra deles. E, de quebra, presenciamos atuações fantásticas.

Com várias indicações a prêmios e um Globo de Ouro na bagagem, Glenn Close (a Nova Prime de Guardiões da Galáxia, 2014) tem roubado todos os holofotes para si. Com uma carreira sólida, iniciada no começo da década de 80, a veterana tem recebido merecidos aplausos por uma atuação contida, mas que deixa transparecer algo logo abaixo da superfície. Não cabe entrar em detalhes aqui, mas fica claro desde o início que há muito mais em Joan Castleman do que ela deixa aparecer.

Não tão aplaudido, mas igualmente competente, é Jonathan Pryce (o High Sparrow de Game of Thrones). De vilão de James Bond a Papa Francisco, é um ator de muitos recursos cuja qualidade se encaixa muito bem com a de Close. E o casal ainda tem uma versão mais jovem, vista em flashbacks, vivida pelos ótimos Annie Starke e Harry Lloyd. Starke é filha de Close, o que a torna uma escolha óbvia para o papel. Lloyd (também de GoT) e ela formam um casal explosivo, e as duas histórias são contadas em paralelo até se encontrarem.

Do elenco, ainda é preciso exaltar a presença de Christian Slater (de Ninfomaníaca, 2013), que anda sumido da tela grande, fazendo pequenas participações. Seu crescimento como ator é claro, precisando apenas do papel certo para aparecer mais. Quem destoa é Max Irons (de A Dama Dourada, 2015), que fica sempre com cara de coitado, andando pelos cantos. Não deixa de ser apropriado para o filho mimado do casal, mas passa da conta no quesito irritar o espectador.

A Esposa nos apresenta aos Castleman, casal formado por um escritor famoso e sua devotada esposa, enquanto eles aguardam a confirmação de uma grande notícia: Joe é o mais novo Nobel de literatura. Eles são convidados à entrega do prêmio e vão a Estocolmo, onde a maior parte da ação se passa. A paisagem fria e chuvosa da cidade se alterna com os cenários internos luxuosos, do quarto do hotel ao teatro onde o Rei sueco agracia os vencedores.

Com uma trilha que se mantém a postos, invadindo a cena e sumindo rapidamente, acompanhamos diálogos afiados e ressentimentos vindo à tona. Close e Pryce enriquecem o roteiro de Jane Anderson (de Olive Kitteridge, 2014), que é baseado no livro de Meg Wolitzer. Nada mais acertado, para uma trama como esta, que ter duas vozes femininas por trás, cabendo ao diretor Björn Runge amarrar tudo. Com tantos talentos envolvidos, deve até ter sido fácil.

A versão mais jovem do casal também é ótima

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Cobra Kai é nostalgia da melhor qualidade

por Marcelo Seabra

A lembrança não é muito nítida. Afinal, eu era bem pequeno. O que sei é que fui ao cinema com meu pai e irmãos ver Karatê Kid – possivelmente o segundo, que estreou no Brasil em 1986. Isso me deixa com quatro anos de idade na época, o que provavelmente significa que não devo ter entendido muita coisa. Mas, ainda assim, as imagens me causaram tamanha impressão que saí pela rua, ao final, dando chutes e socos no ar.

A franquia de Daniel San ainda durou bastante tempo, com três sequências – a última sem ele, de 1994. Em 2010, foi a hora de recomeçar a história, colocando Jaden Smith e Jackie Chan nos papéis que haviam sido de Ralph Macchio e Pat Morita. O básico da história todo mundo sabe: um garoto que sofre bullying na nova escola conhece um vizinho mestre no caratê e vira aluno. Enquanto apanha dos “mauzinhos”, aprende conceitos sobre defesa pessoal e equilíbrio, lições para a vida (abaixo).

Numa onda de saudosismo que invadiu Cinema e televisão (Stranger Things que o diga!), viu-se a oportunidade de reviver a saga dos personagens criados pelo roteirista Robert Mark Kamen, que andava mais preocupado com suas novas franquias: Carga Explosiva e Busca Implacável. Daniel LaRusso e Johnny Lawrence (Macchio e William Zabka) voltariam a se encontrar, o que não devia acontecer com frequência, mesmo com eles morando em regiões próximas.

Há alguns anos, a finada série How I Met Your Mother cantou a pedra. Barney Stinson, personagem de Neil Patrick Harris, dizia que o verdadeiro Karatê Kid do título era Johnny, vivido por Zabka, o grande herói do longa. Algo assim acabou se tornando verdade em Cobra Kai, nova atração distribuída pelo YouTube Premium dividida em 10 capítulos curtos, mas muito divertidos. Daniel termina o filme de 84 consagrado campeão e a vida é gentil com ele, que se torna um empresário do ramo automobilístico.

Johnny, no entanto, torna-se uma nota de pé de página, um fracassado que pula de serviço em serviço e invariavelmente acorda de ressaca. Mais do que depressa, ele se torna nosso novo herói, enquanto Daniel não vira exatamente um vilão. E essa dualidade mantém-se por toda a jornada: ninguém é só bom ou só ruim. São dois seres humanos, com suas falhas e qualidades, tentando acertar. Criada a oportunidade, Cobra Kai se torna um novo dojo de caratê e Johnny, um sensei.

O humor da série é de uma leveza que você se pega com um sorriso no rosto por todo o episódio, além de ocasionais gargalhadas. Os acenos aos filmes da década de 80 são constantes, fazendo referência e reverência a determinados momentos. Quem se lembra de Daniel lavando os vidros do carro com movimentos circulares, por exemplo, vai se deliciar com pequenas homenagens. A essência dos personagens é respeitada e mesmo quem não conhece o cânone vai se afeiçoar a eles.

Algumas situações são esperadas, como um óbvio torneio e seus desdobramentos, mas outras quebram totalmente a expectativa do público. Participações especiais, como a de Randee Heller (a mãe de Daniel), são a cereja do bolo. Ver Macchio e Zabka, ambos com mais de cinquenta, reviver os papéis que os tornaram famosos em seus vinte e poucos anos é uma experiência fantástica. Se a nostalgia atual acabou nos trazendo algumas atrocidades, como remakes e sequências desnecessários de filmes e séries (até McGyver ganhou nova roupagem!), também nos presenteou com a ótima Cobra Kai. Uma nova geração de garotos e garotas poderá sair dando piruetas no ar.

Os cinquentões Macchio e Zabka voltam a se enfrentar

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Paul Schrader leva seus personagens ao Coração da Escuridão

por Marcelo Seabra

Tendo crescido em uma igreja protestante reformada, o roteirista e diretor Paul Schrader sabe exatamente do que está falando em No Coração da Escuridão (2017), título que recebeu no Brasil First Reformed, seu trabalho mais recente. Temos aqui um conto de fé abalada com toques metafóricos e muita dor, de causas variadas. E Ethan Hawke mais uma vez prova que segura tranquilamente um filme nas costas, dizendo muito com o olhar.

Os diálogos de Schrader são cirúrgicos. Nada está ali gratuitamente, por acaso. Ao contrário de alguns de seus roteiros anteriores, como Taxi Driver (1976), este não segue num crescendo de desesperança. Temos momentos alternados, mais leves e mais densos, carregados de silêncios e ações que dizem mais que palavras. A fotografia, que valoriza construções sóbrias e paisagens geladas e sem cor, reforça a falta de perspectiva dos personagens.

Como o protagonista, Hawke (de Uma Noite de Crime, 2013) traz um peso contínuo nos ombros, o sofrimento de ter perdido um filho e ter visto seu casamento desmoronar. Sua segunda chance, ou castigo, dependendo do ponto de vista, é assumir a liderança de uma igreja protestante numa cidadezinha americana. Como reverendo, ele conduz os cultos diários para meia dúzia de devotos, leva os curiosos a conhecerem a estrutura de 250 anos e ainda tenta vender uns souvenirs na lojinha de presentes.

Em meio a essa rotina monótona, com dias que invariavelmente terminam numa garrafa de whisky, o reverendo Toller conhece um casal jovem, que espera o primeiro filho. Mary (Amanda Seyfried, de Anon, 2018) anda triste com o pessimismo do marido (Philip Ettinger, da série O Nevoeiro), um ativista do meio ambiente que não vê futuro para o planeta e, por isso, acha errado gerar outra vida. A relação de Toller com os dois o fará pensar sobre pontos antes ignorados. E não falta uma crítica ao capitalismo desenfreado, que destrói nossa natureza buscando lucro.

Os trabalhos mais recentes do diretor foram solenemente ignorados. The Canyons (também chamado de Vale do Pecado, de 2013) nem teve um lançamento apropriado por aqui, causando zero barulho – o longa traz Lindsay Lohan e James Deen em cenas de sexo que deveriam ser tórridas, mas ficam apenas em monótonas. Com First Reformed, Schrader restaura um resto da fé que ainda tínhamos nele, mostrando que ainda sabe escrever diálogos como poucos. E ele achou em Hawke um grande intérprete para as questões que levanta. O final pode desapontar alguns, mas não deixará ninguém impassível.

O Reverendo se junta a alguns dos personagens marcantes de Schrader.

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Programa do Pipoqueiro 38

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz a trilha sonora de The Wonders – O Sonho Não Acabou e explica porque o filme é a melhor cinebiografia de todas – além de alguns comentários sobre os Globos de Ouro! Aperte o play abaixo e divirta-se!

Curiosidades sobre o filme:

– Mike Viola (o verdadeiro vocalista) e Adam Schlesinger (o compositor da música) fazem uma versão de That Thing You Do! – clique aqui para assistir!

– Três dos atores membros originais da banda se reencontram em 2018 e tocam That Thing You Do! – clique aqui para assistir!

– The Making of That Thing You Do! (em inglês)  – clique aqui para assistir!

– Comentários dos críticos Gene Siskel & Roger Ebert sobre o filme – clique aqui para assistir!

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Pacote de repescagem 2018

por Marcelo Seabra

Dos filmes que chegaram ao país em 2018, cabe aqui comentar alguns que me passaram batido no lançamento. Confira o pacotão da repescagem 2018.

Marjorie Prime (2017): drama de ficção-científica discreto, sensível, que levanta questões de vida e morte. A adaptação da peça de Jordan Harrison nos apresenta a um conceito interessante: uma empresa fornece serviços de holograma para que pessoas aceitem melhor a partida de entes queridos. É como se o falecido ainda estivesse ali, e a idosa Marjorie (Lois Smith) continua em contato com o marido, Walter, mas em uma versão mais jovem dele (vivido por Jon Hamm). O recurso permite esmiuçar as relações familiares, trabalhar traumas passados e ainda dá oportunidade para ótimas interpretações de Geena Davis e Tim Robbins, além de Smith e Hamm.

Bird Box (2018): muito comentada produção da Netflix, traz um conceito quase original de terror que consegue sim criar uma boa atmosfera de tensão, mas não se desenvolve totalmente e leva a um final imprevisível de tão bobo. Duas boas atuações são garantidas, de Sandra Bullock e Trevante Rhodes, além de ótimas participações de Sarah Paulson e John Malkovich. O autor do livro adaptado, Josh Malerman, bebeu em várias fontes e teve certa dificuldade para amarrar, o que fica ainda pior ao ser transposto para as telas, virando uma mistura de Um Lugar Silencioso e Fim dos Tempos.

Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here, 2017): longa pesado, enxuto e violento de Lynne Ramsay – que já havia nos dado Precisamos Falar Sobre Kevin, entre outros. Joaquin Phoenix está ótimo na pele de um veterano de guerra caladão e aparentemente traumatizado que pega trabalhos como mercenário. O conhecemos quando ele é incumbido de resgatar a filha de um político importante e as consequências dessa missão vão chacoalhar o sujeito. Você nunca vai olhar para um martelo da mesma forma novamente.

Springsteen on Broadway (2018): o premiado Bruce Springsteen nos leva a uma retrospectiva de sua carreira, passando por versões acústicas de suas músicas mais famosas enquanto conta histórias de sua vida e até da concepção das canções. Suas reflexões são sinceras e interessantes e nos dão uma amostra de como funciona seu processo criativo, com ideias pulando da relação com o pai e até com a sua cidade natal. Ele, inclusive, esclarece que não teve todas as experiências sobre as quais escreve, como trabalhar em fábricas, mas não é nada difícil de imaginar para quem tem um histórico como o dele. O show, filmado em um teatro na Broadway para menos de mil pessoas, é bem intimista, e o diretor Thom Zimny faz boas opções de cortes e enquadramentos, que nos levam praticamente para dentro do espetáculo.

Podres de Ricos (Crazy Rich Asians, 2018): comédia leve de costumes contrasta os estilos de vida nos Estados Unidos e de Singapura quando um casal viaja de um país para o outro para um casamento. Rachel (Constance Wu) descobre, ao chegar, que seu namorado (Henry Golding) é o solteiro mais cobiçado da região, herdeiro de uma das famílias mais ricas e tradicionais de lá. E, exatamente por isso, não vai ser fácil lidar com a sogra (Michelle Yeoh). Festas milionárias, em ilhas paradisíacas, onde só se chega de helicóptero, são comuns nesse meio, e é dessas situações que surge a graça do filme, além da boa química entre os protagonistas e uma trilha sonora descolada.

O público chegou pertinho de Springsteen

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O melhor e o pior do Cinema em 2018

por Marcelo Seabra

O ano de 2018 teve pouca coisa memorável no Cinema. Muitos filmes da lista de melhores só chegaram aqui esse ano, mas foram lançados no ano passado. E evitei as bombas claras, aqueles filmes que você nem precisa ver para saber que são ruins. Por isso, a lista de piores é pequena – ainda bem! Confira abaixo os dois grupos e clique no título para conferir a crítica completa (quando tiver).

Melhores de 2018

Três Anúncios para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

The Post: A Guerra Secreta

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name)

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi

A Forma da Água (The Shape of Water)

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Nasce uma Estrela (A Star Is Born)

Viva – A Vida É uma Festa (Coco)

Hereditário (Hereditary)

The Ballad of Buster Scruggs

Um Lugar Silencioso (A Quiet Place)

Piores de 2018

Vende-se Esta Casa (The Open House)

The Titan

Rampage: Destruição Total

Arranha-Céu: Coragem Sem Limite (Skyscraper)

A Casa do Medo (Ghostland)

Dívida Perigosa (The Outsider)

Senhoras e senhores, temos um vencedor!

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Surpresas e decepções de 2018

por Marcelo Seabra

Por mais que tentemos não criar expectativas sobre novos filmes, basta um trailer, ou uma campanha de marketing mais insistente, para surgir aquela ansiedade. Se o filme é bom, todos ficam satisfeitos e o problema está resolvido. Mas, se o filme não é bom, é aquela decepção – caso de A Freira, aguardado ansiosamente por fãs de terror! Não necessariamente o pior do ano, mas um golpe nos espectadores.

Outros projetos parecem ser desenvolvidos na surdina, sem elementos que chamem muito a atenção. Ou, às vezes, são baseados em material não muito querido, do qual se espera pouco. E eles chegam arrebentando, crescendo na propaganda boca a boca e viram inesperados sucessos na temporada.

Abaixo, como é tradição no Pipoqueiro desde 2013, seguem as cinco maiores surpresas e decepções de 2018, em ordem de lançamento e com uma rápida explicação do porquê de estarem na lista. Para a crítica completa, clique no título.

Surpresas de 2018

Mudbound – Drama pesado, sobre as relações entre duas famílias no sul racista dos Estados Unidos, tem um elenco afiado, uma ótima trilha sonora e uma fotografia excepcional. Dee Rees, que costurou todas essas qualidades, merecia maior reconhecimento, assim como o filme, que não foi tão comentado quanto deveria.

Pantera Negra – Unindo ótima bilheteria e elogios da crítica, um personagem de quinta classe do Universo Marvel conseguiu superar os colegas mais famosos e ainda levantar a bola da luta por diversidade no Cinema, com elenco predominantemente negro e muitas mulheres fortes. Já era esperado que Pantera Negra tivesse sucesso, mas o resultado superou expectativas.

Hereditário – Uma família nos é apresentada, nos afeiçoamos a eles e logo coisas estranhas começam a acontecer. Um dos destaques do ano, o longa tem um ótimo elenco e uma história que não se importa em chutar convenções e enlouquecer, montando na hora as regras daquele universo e evitando sustos gratuitos, com um clima de terror que poucos conseguiram atingir.

Buscando… – Mostrando o que pode vir de ruim das interações pela internet, Buscando… materializa os medos de um pai quando uma garota desaparece. Totalmente montado através de telas, seja de notebook ou celular, a edição é ágil e os recursos tecnológicos não distraem, mas ajudam na construção da obra.

Operação Overlord – Com um realismo muito interessante, simulando até a tensão dos soldados antes de um salto de um avião, o longa rapidamente monta o quadro que teremos entrar no mundo do terror e das supostas experiências que os nazistas faziam com prisioneiros. Com um pé na realidade e outro na loucura, Overlord diverte e assusta, com personagens carismáticos e igualmente importantes para a trama.

Decepções de 2018

Projeto Flórida – Uma crítica social interessante e importante se perde em um longa cansativo e sem propósito. Crianças de muito talento vivem uns pestinhas mal criados que passam seu tempo causando problemas para os adultos, levando a um final impactante, para quem insistiu e perseverou até chegar a ele.

Aniquilação – Um filme de Alex Garland, seguindo o lindo Ex-Machina (2014), com Natalie Portman, baseado num best-seller de ficção-científica, não precisou fazer esforço para criar expectativa no público. Se as coisas começam promissoras, criando uma ótima atmosfera de tensão, logo caem num lugar-comum de terror sem lógica, dando a impressão de que a pretensão de Garland o tirou dos trilhos.

Oito Mulheres e Um Segredo – Um elenco feminino inimaginável não consegue melhorar um roteiro medíocre, cheio de clichês e piadas fracas, além de referências cansativas à trilogia de Danny Ocean – como se isso apenas pudesse salvar o longa. A necessidade de ser cool soa forçada, o que torna uma opção bem mais interessante buscar os originais, seja com Clooney ou com Sinatra.

A Outra Mulher – Uma comédia com cara de teatro com três dos grandes nomes do Cinema francês, um deles também na direção, deveria ter dado um resultado bem superior. O roteiro se perde em devaneios longos e de tom equivocado, tornando uma sessão de 80 minutos algo próximo de tortura. Se os personagens fossem menos babacas, talvez a história ficasse mais digerível.

A Freira – Derivada de um universo interessante e bem estabelecido, a freira poderia ter sido um personagem bem mais assustador. Mas a necessidade de buscar clichês e sustos fáceis foi maior e o produtor James Wan não conseguiu manter o padrão – que já havia variado, mas não tanto quanto aqui. A total falta de tensão ou apreensão garante o fracasso do projeto.

Menção (des)honrosa:

Bohemian Rhapsody – por um lado, o longa é ótimo ao passar por vários episódios marcantes da história de uma das melhores bandas de todos os tempos. Interpretações, figurino e trilha sonora são alguns dos elementos que ganham o público de cara, mostrando que o jogo estava ganho de início.

Por outro lado, a bagunça cronológica desnecessária tira do filme o público que tem uma mínima noção da história do Queen. Vários momentos são forjados e o resultado é uma bagunça, soa forçado e apelativo – talvez devido à mão forte dos produtores Brian May e Roger Taylor, que contaram a história como quiseram, e não como aconteceu.

Resultado: entre pontos positivos e negativos, a produção é ruim e divertida ao mesmo tempo, uma surpresa e uma decepção.

Ótima interpretação, bagunça de filme

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Cuarón se supera com Roma

por Marcelo Seabra

Depois de uma vitoriosa passagem por festivais e tendo arrecadado alguns milhares de dólares nos cinemas americanos, o novo trabalho do diretor Alfonso Cuarón chega à Netflix. Arrancando elogios também nas redes sociais, Roma (2018) foca em uma família para falar da vida. Aparentemente trazendo a banalidade do dia a dia, o roteiro, também de Cuarón, tem espaço para desenvolver seus personagens e as sutilezas falam mais que qualquer efeito especial. De forma bem delicada, o mexicano nos entrega a provável melhor obra distribuída pela Netflix.

Distanciando-se do vencedor de dois Oscars Gravidade (Gravity, 2013), com sua ambição e computação gráfica, o diretor se aproxima de um de seus primeiros trabalhos, E Sua Mãe Também (Y Tu Mamá También, 2001), um projeto de menores proporções que se preocupou mais com as relações humanas. Este novo trabalho acompanha uma empregada (a ótima estreante Yalitza Aparicio) de uma família de classe média-alta residente na Colônia Roma, bairro a oeste do centro histórico da Cidade do México. Sua vida é cuidar da casa, quatro filhos e do casal de patrões, aproveitando as poucas folgas para ir ao cinema e namorar.

O roteiro bem poderia ser baseado na infância de Cuarón, tamanho é o frescor com que os fatos são tratados – e, em partes, é. A fotografia em preto em branco, também assinada por Cuarón, nos proporciona essa proximidade. Mesmo se passando em outro país, em outro idioma (ou outros, contando o dialeto), a história poderia ser ambientada aqui. Algo como vimos em Que Horas Ela Volta? (2015), apenas sem a ênfase na diferença das classes sociais. A separação também ocorre aqui, principalmente quando Cleo se sente mais à vontade entre os meninos e logo é lembrada de seu lugar, mas não tem tanto espaço.

Mais trabalhada aqui é a questão da mulher e suas lutas diárias. Cleo tem seus problemas a resolver, assim como a patroa (Marina de Tavira), que está claramente passando por uma crise em seu casamento. É interessante notar que Cleo parece nutrir amor e gratidão por aquela família, mesmo quando ouve as insatisfações do patrão, mal disfarçadas pela esposa, que logo fecha a porta do quarto. Para nós, os espectadores, a impressão que fica é a de humilhação e submissão. Ou ela é muito inocente, ou escolhe aceitar a situação para ter um emprego e um teto, o que seria perfeitamente normal.

A casa onde eles moram é praticamente um personagem, ocupando um papel de importância. Sua geografia é bem delimitada e é até importante para certos trechos. A longa e estreita entrada de garagem nos causa riso, tensão, comoção. Resumindo: nos traz mais emoção que alguns dos humanos. O Ford Galaxie, carro sedã que sempre passa apertos para entrar na garagem, é outro “personagem” interessante, com quem nos preocupamos tanto quanto com as crianças.

Ao receber o Leão de Ouro de Melhor Filme em Veneza, Cuarón agradeceu a Libo, a empregada que cuidou dele em sua infância. O nome Cleo foi inspirado em Cléo das 5 às 7, longa de 1962 de Agnès Varda. Qualquer que seja o nome, ela é aquela pessoa quase da família que fica num limbo perigoso, meio lá meio cá. Só é considerada da família quando conveniente. Mas é ela quem frequentemente cuida de crianças pelo mundo, por necessidade ou por luxo dos pais.

Cuarón levou o Leão de Ouro em Veneza, em setembro

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A Livraria e Mary Shelley já estão na Netflix

por Marcelo Seabra

Dois lançamentos na Netflix têm uma coisa em comum: são realizações de mulheres, sobre mulheres. Isso, além da qualidade. Já estão disponíveis A Livraria (The Bookshop, 2017) e Mary Shelley (2017), dramas de época com histórias bonitas sobre personagens fortes que fizeram seu próprio caminho, sem depender de maridos ou qualquer outro suporte masculino. Histórias bonitas, mas não necessariamente felizes, já que houve muita luta por parte delas.

Depois de uma rápida passagem pelos cinemas nacionais, trazido pela Cineart Filmes, A Livraria chega ao serviço de streaming e é uma ótima oportunidade para quem deixou passar da primeira vez. Escrito e dirigido por Isabel Coixet (do delicado Minha Vida Sem Mim, 2003), o longa é baseado num livro de Penelope Fitzgerald, escritora rapidamente homenageada nos segundos finais. No final dos anos 50, numa cidadezinha da costa inglesa, uma viúva (Emily Mortimer, de A Invenção de Hugo Cabret, 2011) se prepara para realizar um sonho: abrir uma livraria.

Em meio à abertura da loja e aos esforços de Florence para prestar o melhor serviço à comunidade, Fitzgerald e Coixet aproveitam para fazer críticas sociais e até políticas, além de contarem uma história interessante. Uma socialite desocupada (Patricia Clarkson, de Maze Runner: A Cura Mortal, 2018) inventa que um casarão antigo no meio da cidade deveria virar um centro cultural. É exatamente a casa que Florence comprou para morar e montar sua livraria. Casa que estava vaga há meses e não despertava interesse. Basta alguém tomar a frente para acender a intriga local.

Tanto Mortimer, como a educada e tolerante protagonista, como Clarkson, como sua antagonista arrogante, estão muito bem. Enquanto uma evita “coitadismos”, mantendo sempre uma postura digna e bondosa, a outra não cai no estereótipo fácil da megera, mantendo uma fachada de filantropa que pensa no bem-estar de todos. E, correndo por fora, chega o excepcional Bill Nighy (de Questão de Tempo, 2013), que vive um viúvo recluso que decide entrar na briga para reforçar o lado que julga correto. Um poço de ética, Mr. Brundish escancara a hipocrisia de seus pares, um bando de fofoqueiros que gostam de alimentar mentiras.

O usual diretor de fotografia de Coixet, Jean-Claude Larrieu, aproveita as paisagens do litoral inglês, contrastando a paz do mar sem ondas com a dureza das pedras da praia, a aparência de calmaria com a real aspereza que se revela aos poucos nos cidadãos. Com simplicidade, a diretora nos conduz pela intriga que cerca Florence, nos fazendo torcer por ela não por ser mulher, mas por seus valores e sua coragem. Só queremos entrar na cena e dizer algumas palavras de incentivo.

Outra mulher interessante, que defende com garra preceitos feministas, é Mary Shelley, interpretada com serenidade por Elle Fanning (de O Estranho Que Nós Amamos, 2017). A atriz, mesmo sem grandes arroubos, mostra que Mary não era uma mocinha convencional, daquelas que se resignam a seguir ordem dos homens. A falecida mãe era conhecida por ser uma feminista batalhadora e o pai (Stephen Dillane, de O Destino de Uma Nação, 2017) é um escritor e livreiro respeitado. Mary cresce num meio que favorece sua veia literária e desde sempre escreve aqui e ali.

Aos 16, a garota conhece o envolvente poeta Percy Shelley (Douglas Booth, de O Destino de Júpiter, 2015), e se apaixona, optando por um amor dentro dos padrões, acreditando que cada um possa fazer suas próprias escolhas. Com Shelley, Mary foge de casa e, juntos, eles desfrutam um estilo de vida luxuoso e sem preocupações. Isso, até que Shelley é deserdado pelo pai e passa aplicar golpes para manter as benesses. Fugir de credores passa a ser uma comum e, numa dessas escapadas, o casal vai parar na mansão de outro escritor bem de vida, Lorde Byron (Tom Sturridge, de Longe Deste Insensato Mundo, 2015).

É desse encontro que nasce um dos mais clássicos romances de terror: Frankenstein. É notória a aposta que é feita entre os presentes de que eles combateriam o tédio escrevendo, e ganharia a melhor história. O filme oferece uma visão do que teria acontecido, diferindo bem do que é mostrado em Gothic (1986), de Ken Russell, já que o foco é em Mary. A diretora Haifaa Al-Mansour, que escreveu o roteiro com Emma Jensen, é lembrada como a primeira cineasta da Arábia Saudita, tendo feito sua estreia com o elogiado O Sonho de Wadjda (2012).

Al-Mansour pela primeira vez conta essa história tirando o foco dos homens presentes (Shelley, Byron e o Dr. Polidori, vivido por Ben Hardy), valorizando Mary e sua irmã (Bel Powley, de Diário de Uma Adolescente, 2015). Dessa forma, entendemos melhor o que se passava na cabeça delas, que tinham qualidades, defeitos e paixões como qualquer um de nós. Mary, assim como a Florence de A Livraria, toma suas decisões e arca com as consequências. É ótimo ter a oportunidade tão cômoda, na Netflix, de conhecer essas duas obras feitas por mulheres num meio que não as valoriza como deveria.

Além de Fanning, Booth e Powley, o elenco traz Maisie Williams, de GoT

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