Embate de culturas marca A Garota Ocidental

por Marcelo Seabra

Para seu terceiro filme, o belga Stephan Streker se inspirou em um fato ocorrido na Bélgica, em 2007, sempre mantendo seu interesse nos personagens e na cultura deles. O resultado, A Garota Ocidental – Entre o Coração e a Tradição (Noces, 2016), chega aos cinemas essa semana e oferece uma visão de dentro de uma família paquistanesa que segue suas tradições mesmo sem estar em seu país. É preciso deixar de lado qualquer percepção etnocentrista para entender como aquelas pessoas vivem.

Diretor e roteirista, Streker tem um ponto de vista interessante. Ele parece conseguir mostrar as emoções e os pensamentos de seus personagens acompanhando-os em tomadas longas e, muitas vezes, silenciosas. Nesse filme, ele nos apresenta a Zahira (Lina El Arabi – ao lado) uma garota que chega aos 18 anos e precisa enfrentar um dilema. Como seus pais e sua irmã mais velha, ela precisa se casar com alguém que não conhece, o que é corriqueiro no Paquistão.

Morando na Bélgica, em contato com ocidentais na escola, nas ruas, em todo lugar, Zahira não manteve a forma de pensar de seus compatriotas. Tanto que ela já tem seus romances com garotos locais, algo que os pais não podem nem sonhar. Tudo é escondido, já que as meninas muçulmanas devem ficar em casa, recatadas. Boates e bares só são permitidos aos rapazes. Pela internet, Zahira precisa conhecer seus três pretendentes e escolher um, que ela só conhecerá próximo ao casamento.

Nas mãos de alguém menos habilidoso, o material se tornaria um dramalhão arrastado e cartunesco. Mas não é o caso, já que Streker sabe lidar com esse conflito como alguém com conhecimento de causa. Seria muito fácil demonizar os pais e colocar a garota como vítima do destino. Ele opta por uma protagonista forte, decidida, vista em casa como rebelde. E nem por isso menos amorosa, tanto com os pais quanto com os irmãos. A estreante Lina El Arabi carrega o filme com tranquilidade de fazer inveja a muito veterano.

Babak Karimi (de O Apartamento, 2016) e Nina Kulkarni (de O Exótico Hotel Marigold, 2011) vivem os pais de Zahira com muita competência, se alternando entre o amor pela filha e a dependência da religião. A honra familiar é mostrada como ela é de fato: uma hipocrisia entre várias pessoas com problemas particulares que mostram total felicidade e perfeição para os demais. Pode ser percebida aí uma crítica às redes sociais, que se igualam à religião ao sustentarem esse tipo de ilusão.

Um outro grande destaque de A Garota Ocidental é o francês Sébastien Houbani (de Geronimo, 2014 – acima), que lembra muito um jovem Al Pacino. Amir está dividido entre o amor à irmã e a obediência à família, e o ator mostra esse turbilhão pelo olhar. Confidente de Zahira, ele entende os anseios dela, mas vê a tradição como algo maior. Ele não quer os pais mal falados na comunidade. Todos da família Kazim são críveis e têm laços fortes entre eles, o que torna o desenrolar da história pungente. E marca mais um acerto da Cineart Filmes, que distribui o longa no Brasil.

Streker demonstra muita sensibilidade na condução

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Ao Cair da Noite mantém alta a tensão

por Marcelo Seabra

Alguma coisa aconteceu, não sabemos o que é. Uma família se refugiou numa casa numa floresta, não sabemos onde fica. O que sabemos é que, o que quer que esteja acontecendo, é mortal. E não será fácil sobreviver. Se a premissa não é das mais originais, a condução e o resultado são e garantem a satisfação do público. Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017) é uma ótima surpresa num gênero que passa longe do gol com tanta frequência que cria certa desconfiança.

Todos os anos, temos observado alguns destaques isolados entre filmes de terror, aqueles que fazem com que conservemos a nossa fé nesse filão. Depois de The Babadook (2014), Corrente do Mal (It Follows, 2014) e A Bruxa (The Witch, 2015), parecia que o destaque seguinte seria o pouco criativo Corra (Get Out, 2016), sucesso absoluto de bilheteria e crítica que faz uma grande mistura de referências e não atinge uma identidade própria. Mas eis que o diretor e roteirista Trey Edward Shults, seguindo seu elogiado Krisha (2015), emenda outro grato petardo.

Quem tem um animal de estimação e já o viu fitando a escuridão compenetradamente sabe o pânico que isso pode causar. E é exatamente essa sensação que o cartaz do filme traz. Não sabemos o que ele está vendo, mas é melhor que fique longe. E essa tensão permanece por toda a sessão, com a opressão dos quartos sendo tão explorada pela fotografia quanto a vastidão da mata. Não importa onde você estiver, o perigo está próximo, esperando apenas uma derrapada. E é por isso que a família toma muito cuidado com qualquer movimento, sempre de luvas e máscaras.

Com poucos minutos de projeção, percebemos que esse não será um terror habitual. A dedicação aos personagens é algo que não se vê sempre. Não conhecemos bem o histórico deles, mas logo entendemos as relações e o carinho entre eles. O pai, a mãe e o filho vivem em uma rotina bem controlada, a melhor forma de evitar problemas. Todos imaginam o que pode vir a acontecer, mas é melhor se concentrar nas pequenas coisas do dia a dia do que pensar no pior. As interpretações seguras de Joel Edgerton (de O Presente, 2015), Carmen Ejogo (de Alien: Covenant, 2017) e Kevin Harrison Jr. (de O Nascimento de Uma Nação, 2016) se encaixam perfeitamente, dando muita vida a seus personagens.

Em pouco menos de uma hora e meia, Shults constrói uma atmosfera que poucos diretores conseguem e deixa uma impressão forte e duradoura. De forma enxuta e direta, ele segue uma das mais antigas recomendações quando o assunto é o Cinema de terror: menos é mais. Quanto menos o público vê, mais aterrorizado fica. Com a ajuda de uma trilha sonora comedida e pontual, melhor ainda. Não surpreenderia que o universo de Ao Cair da Noite desse origem a uma série interminável de filmes para a televisão. Afinal, ele deixa esse gosto por mais.

Todo cuidado é pouco

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Tudo e Todas as Coisas é mais um romance adolescente

por Marcelo Seabra

À primeira vista, Tudo e Todas as Coisas (Everything, Everything, 2017) parece ser um romance adolescente corriqueiro. E ele até começa assim, conquistando pela riqueza dos recursos que utiliza para contar a história. Mas, à medida em que as coisas caminham, ele deixa de ser plausível e suas inconsistências vão aparecendo. Ao final, temos a prova de que apenas o carisma dos atores não segura um filme com tantos buracos.

Na trama, conhecemos uma garota que comemora seus 18 anos tendo vivido sempre dentro de uma casa esterilizada, sob os cuidados da mãe e de uma enfermeira. Ela sofre de uma doença imunológica rara e nunca sai ou tem contato físico com outra pessoa. “Mas a mãe a abraça e beija”, você pode apontar. “Por que a mãe e a enfermeira podem entrar, e mais ninguém?”, é uma pergunta que pode surgir. Na verdade, a parte do “mais ninguém” é imprecisa: a filha da enfermeira também pode. Teriam todas passado por exames? Ou recebido vacinas? Vai saber.

A vida da menina sai da mesmice de escrever resenhas literárias (cheias de spoilers) e de fazer um curso à distância de arquitetura (com direito a maquetes) quando vê o novo vizinho. Alguém poderia se levantar contra a ideia de que é preciso um homem para mudar a vida de uma mulher. Para evitar controvérsias, digamos que o catalisador da mudança foi o amor, mesmo que à primeira vista. Mas eis que surge a dúvida: “O material para as maquetes é esterilizado? A cola não causa reações?”. A mãe recusa um bolo de política da boa vizinhança exatamente por causa da segurança da filha, mas todo o resto pode entrar. E há um novo conceito de cartão de crédito: basta pedir um pela internet e fazer compras, os boletos nunca vão chegar.

Como dá para perceber, as inconsistências são várias e vão se multiplicando, cada vez mais rápido. Ao chegar ao final, o público deve se perguntar como foi possível chegar tão longe. “Será que ninguém viu a bagunça?” Se o roteiro fosse uma estrada, a suspensão do carro já teria quebrado há tempos. Cortesia do roteirista de filmes melosos como A Incrível História de Adaline (2015) e O Melhor de Mim (2014), J. Mills Goodloe. Mas sejamos justos: o livro que deu origem ao filme, de Nicola Yoon, não deve ser grandes coisas. Consegue ser bem pior que A Culpa É das Estrelas (The Fault in Our Stars, 2014), obra bem similar em tema, forma e até no ator principal.

Vivendo Maddy, Amandla Stenberg mostra que cresceu bastante desde os tempos de Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012). Apesar de parecer que se embolou em alguns diálogos, ela segura bem a peteca, e a química funciona com Nick Robinson (de Jurassic World, 2015), o que é fundamental para aguentar a sessão – mesmo o filme tendo apenas uma hora e meia de duração. Anika Noni Rose (de Bates Motel), como a mãe de Maddy, faz milagres para tornar a personagem menos antipática, e muito é exigido dela mais adiante.

As situações que se desenrolam a partir do meio e principalmente no final não serão discutidas para evitar spoilers (o que Maddy não faz em seus textos). Basta dizer que é bem sem pé nem cabeça e as reações esperadas não aparecem. A diretora Stella Meghie emprega bastante criatividade, esperando que isso sirva para costurar os retalhos. Recursos como o astronauta e as conversas dramatizadas são interessantes, mas um pingo em um oceano de conveniências e absurdos.

A missão de Rose é das mais indigestas

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Colossal brinca com o Cinema de monstros

por Marcelo Seabra

Gloria é uma jovem escritora que pode estar desempregada por beber demais ou pode estar bebendo demais por estar desempregada. A bagunça que ela faz de sua vida acaba afastando o namorado e ela se vê sem dinheiro e onde morar, não tendo outra opção a não ser voltar para a casa vazia onde cresceu. Lá, reencontra um amigo de infância, vai trabalhar no bar dele, e ainda se interessa por um local. Por essa premissa, Colossal (2016) pareceria mais um filme independente bonitinho, mas é aí que aparece um monstro gigante.

Com um conceito estapafúrdio, que mais parece uma ideia errada de um programa de comédia, o diretor e roteirista Nacho Vigalondo (do elogiado Crimes Temporais, 2007) criou seu próprio Godzilla – comparação que já deu até processo na justiça. E o mais surpreendente: o projeto deu certo e foi bem recebido nos dois festivais por onde passou, Toronto e Sundance. Traz à mente outros vários filmes, como O Nevoeiro (2007), Poder Sem Limites (2012) e Hora de Voltar (2004), mas consegue ter personalidade.

No papel principal, Anne Hathaway (de Interestelar, 2014) torna crível a situação de Gloria, com uma expressão perdida e um cabelo armado, despida de vaidade. É interessante reparar nos tiques da personagem, como pegar o cabelo pelo meio, o que denota uma composição detalhada. Como sua inesperada dupla, temos Jason Sudeikis (dos dois Quero Matar Meu Chefe), figura habitual em comédias bobas, mas que volta e meia prova ser capaz de mais. Juntos, eles convencem como amigos de longa data, e essa química vai permitir que o roteiro avance.

Vigalongo consegue conduzir as coisas de modo que, sem o público perceber uma ruptura, o filme parece mudar de gênero. O roteiro não pira tanto quanto poderia, ou prometia, mas dá umas voltas loucas que prendem a atenção do público. Uma criatura enorme começa a atacar Seul, a capital da Coreia do Sul, e Gloria fica devastada, mesmo a catástrofe estando do outro lado do mundo. Ela logo descobre uma ligação com o monstro e começa a entender o que está acontecendo.

A satisfação com a conclusão de Colossal vai do entendimento de cada um quanto às regras daquele universo. Uma vez criada, a regra deve ser seguida, o que permite ao espectador comprar a ideia. Ter personagens que lembram seres humanos reais, com qualidades e falhas, ajuda muito. Além dos principais, há o namorado, vivido por Dan Stevens (de Legion), e dois amigos, na pele de Tim Blake Nelson (de Quarteto Fantástico, 2015) e de Austin Stowell (de Ponte dos Espiões, 2015). Com todas essas peças bem encaixadas, nem percebemos quase duas horas passarem.

Vigalondo lançou o filme em Toronto com seu elenco

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Novo Baywatch morre na praia

por Marcelo Seabra

Várias séries de décadas passadas já ganharam vida nova no Cinema. Muitas, com premissas interessantes que poderiam ser modernizadas ou ganhar nova roupagem, caso de Anjos da Lei e O Agente da UNCLE. Mas o que dizer de Baywatch, ou SOS Malibu, no Brasil? Que a motivação é dinheiro, todos sabemos, mas será que realmente parecia uma boa ideia? Quem quiser tirar sua própria conclusão poderá conferir o longa a partir dessa semana, quando o novo Baywatch (2017) estreia.

Com um orçamento perto dos US$ 70 milhões, o filme acaba de chegar aos 80 milhões, reunindo bilheterias americanos e internacionais, o que é considerado um desempenho bem abaixo do esperado. O volume de trailers e vídeos promocionais mostram que os executivos estão correndo atrás do prejuízo, o que permite ao público ver o filme praticamente todo antes da estreia. Até o final é mostrado em partes, basta juntá-las, e não sobra muito para a telona. Alguém queria ver Zac Efron vestido de mulher? Basta entrar no YouTube.

Como na série, o longa acompanha o chefe de um grupo de salva-vidas, Mitch Buchannon (Dwayne Johnson, de Velozes e Furiosos 8, 2017), enquanto ele toca a equipe e garante a segurança na praia Emerald Bay, Flórida. É impressionante como acontecem coisas lá, e os banhistas parecem todos desastrados. Mas evitar afogamentos não é o principal para Mitch: sempre que pode, ele se mete a policial e investiga situações. Uma nova droga tem aparecido com frequência na praia, o que leva o sujeito a querer saber mais.

Ao mesmo tempo em que acredita que a empresária Victoria Leeds (a estrela indiana Priyanka Chopra, de Quantico) tem algo de suspeito, Mitch precisa treinar novos recrutas, entre eles o convencido e burro Matt Brody (Efron, de Os Caça-Noivas, 2016), um medalhista de natação em desgraça. É bacana como Efron aceita fazer graça com sua aparência e sua fama, ele responde por muitos dos momentos engraçados. Há, inclusive, uma referência a um de seus papéis mais famosos. O humor do filme, na maioria das cenas, funciona, o que permite ao público dar boas risadas. E há uma parcela bem apelativa, relacionada a sexo e partes do corpo, que chega a constranger.

O grande problema de Baywatch é quando ele resolve partir para seu fiapo de trama, o que teoricamente deveria acontecer num tom mais sério. Isso não chega a acontecer e é muito estranho ver os personagens fazerem piada em momentos potencialmente perigosos, o que não permite que o filme engrene. O roteiro, com créditos para inacreditáveis seis roteiristas, é dos mais furados e tem aqueles momentos em que o capanga do vilão fica esperando, com a arma apontada, que o mocinho escape. Não tem outra explicação! Há cenas que parecem ser a versão Velozes e Furiosos de jet ski e barco, pegando o que há de pior dessa outra franquia.

Como a série original foi produzida entre 1989 e 1999, havia aquelas características da década de 90 que hoje são consideradas bregas, como penteados, roupas e maneirismos ao filmar. Como o filme brinca com isso, não falta a famigerada câmera lenta, o que é motivo de piada, pulos heroicos de lanchas em movimento e closes nos corpos sarados na praia, principalmente nos das meninas. Acompanhadas de perto pelo cinegrafista, não é apenas o cabelo delas que balança, ressaltando todos os seus atributos físicos. E não faltam atrizes lindas, como Ilfenesh Hadera (de Master of None – à esquerda), a modelo Kelly Rohrbach (centro) e Alexandra Daddario (de Terremoto, 2015 – à direita). O alívio cômico, como se o longa precisasse de um, é Jon Bass (de Loving, 2016), contratado exclusivamente para passar vergonha.

Já que há tantos clipes de Baywatch disponíveis na internet, alguém poderia ter a ótima ideia de cortar apenas os momentos que funcionam e juntá-los. De quase duas horas, o filme cairia para uns 15 minutos, mais ou menos. Esse novo trabalho não fica nada bom para o currículo do diretor Seth Gordon (de Uma Ladra Sem Limites, 2015). Mas, como não há muita coisa lá que se salve (talvez Quero Matar Meu Chefe, 2011), será apenas mais um tropeço. As participações especiais, que deveriam ajudar, só causam constrangimento. A certeza que fica é de que o longa, ruim desse jeito, ainda é melhor que a série.

A equipe original era capitaneada por David Hasselhoff e Pamela Anderson

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A Múmia inaugura um mundo de deuses e monstros

por Marcelo Seabra

Entrando na onda dos universos compartilhados, da qual as aventuras baseadas em quadrinhos já se aproveitam, a Universal Pictures resolveu relançar seus monstros clássicos e uni-los, de alguma forma. Para dar o pontapé inicial, chega A Múmia (The Mummy, 2017). Devido à importância dessa primeira investida, que busca estabelecer um rumo e tem que fazer muito barulho nas bilheterias, o estúdio não deixou barato: escalou Tom Cruise e Russell Crowe.

A personagem Múmia é um pouco genérica, cada filme traz uma explicação por trás. Por isso, ela já foi Imhotep (na pele e ataduras de Boris Karloff e Lon Chaney Jr., além do mais recente Arnold Vosloo), Kharis (Christopher Lee) ou apenas “a múmia”, sem nome próprio. São setenta aparições listadas, entre filmes, séries e animações, e boa parte delas é paródia, como as versões de Scooby-Doo e Frango Robô. Dessa vez, ela é a Princesa Ahmanet, vivida por Sofia Boutella (famosa por Kingsman e Star Trek: Sem Fronteiras).

Quando a história começa, nos vemos no meio de atos de terroristas iraquianos contra monumentos milenares, algo que até na ficção corta o coração, de tão sério. Mas a produção não pretende se aprofundar no assunto, apenas se apropria dele para dar um contexto ao anti-herói Nick Morton (Cruise), um militar que aproveita as horas vagas para roubar itens históricos valiosos para futura venda no mercado negro. Ao lado da arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis, de Rei Arthur, 2017), ele encontra a tumba de uma múmia egípcia que vai se mostrar um grande perigo para a humanidade. E será também uma ótima oportunidade para copiar vários filmes, a cada minuto vem um à mente – principalmente Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London, 1981), algo que fica descarado.

Pelas linhas acima, dá para perceber que mulheres, nessa trama, só têm dois papéis: vilãs malignas ou mocinhas em perigo. O peso recai todo sobre os mocinhos: o sargento de moral duvidosa que, lá no fundo, parece ser boa gente; e o chefe de Halsey, o Dr. Henry Jekyll (Crowe, de Dois Caras Legais, 2016), do qual se pretende fazer algum suspense, mas lhe dão o nome de um dos mais famosos personagens da literatura mundial. Como O Médico e o Monstro já caiu em domínio público, foi possível juntá-lo ao caldo – que, tendo em vista o catálogo da Universal, já é grosso. Ele deve transitar pelos diversos filmes, como uma espécie de Nick Fury, em referência ao Universo Marvel. E, por falar em Marvel, não espere em A Múmia por uma cena pós-créditos.

Os exageros, entre tiroteios, explosões e demais cataclismas, estão presentes o tempo todo. Quem espera por sustos ou clima de terror vai se desapontar. Não faltam cenas de Cruise correndo, como não poderia deixar de ser, e por vezes esperamos que ele revele ser o agente Ethan Hunt (de Missão: Impossível), ou mesmo Jack Reacher. Não à toa, um dos roteiristas aqui é Christopher McQuarrie, que dirigiu Cruise nas duas franquias, além de ter escrito outros dois filmes do astro. Alex Kurtzman, o terceiro diretor a aceitar a tarefa, tem uma carreira longa como roteirista e produtor, mas apenas um crédito anterior como diretor, e parece ser apenas uma escolha pro forma, alguém para assinar, já que produziria o longa de qualquer jeito.

Na expectativa de fundar o Dark Universe, a Universal dispensou aquele Drácula da História Nunca Contada (de 2014), que não teve uma aceitação muito boa, e colocou as fichas nesse A Múmia. Mas não se espante caso Luke Evans venha a frequentar a nova franquia, o que é totalmente possível. No futuro próximo, teremos um filme solo do Dr. Jekyll, o Homem Invisível (Johnny Depp) e o monstro de Frankenstein (Javier Barden), já escalados, além de outro Drácula, outro Van Helsing, O Monstro da Lagoa Negra, O Fantasma da Ópera, O Corcunda de Notre-Dame e a Noiva de Frankenstein. E a Universal ainda pode enfrentar uma briga judicial com a D.C., que pretendia usar o título para sua Liga da Justiça Sombria.

Três deles já conhecemos em A Múmia

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Neve Negra reúne Darín e Sbaraglia

por Marcelo Seabra

Mais um longa argentino a conquistar grande público e chegar ao Brasil é Neve Negra (Nieve Negra, 2017). O suspense reúne alguns dos maiores nomes de hoje do Cinema do país: Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia, além de uma participação do veterano Federico Luppi. Num clima sombrio de isolamento, cercado por árvores e neve, conhecemos uma família marcada por segredos em vias de começar uma disputa por herança.

Sbaraglia (que fez, com Luppi, o ótimo No Fim do Túnel, 2016) vive Marcos, um de quatro irmãos que iam sempre caçar, tradição da qual o pai fazia questão. Uma tragédia os afasta e, anos depois, após a morte do pai, Marcos volta à região para reencontrar o irmão mais velho, Salvador (Darín, de Relatos Selvagens, 2014). Eles precisam decidir o que fazer com a casa e o chalé que herdaram, e a conversa não será fácil. Marcos e Salvador ficaram mais de vinte anos sem se verem e muita coisa virá à tona. Luppi (abaixo) vive o advogado e amigo da família, que tenta mediar a situação.

Depois de dividir a direção de O Sinal (La Senal, 2007) com o amigo Darín, Martin Hodara assume seu primeiro longa sozinho. Com roteiro assinado por ele e Leonel D’Agostino (de Caída del Cielo, 2016), Hodara demonstra ter um bom domínio de câmera e sabe conduzir a tensão crescente. As reações dos personagens são compreensíveis e, à medida em que a ação se desenrola, entendemos melhor o que se passa. Laura (Laia Costa, de Palmeiras na Neve, 2015), a esposa de Marcos, ganha mais destaque e completa um trio bem interessante de se acompanhar.

Ambientado na Patagônia argentina (mas filmado nos Pireneus, no Principado de Andorra), Neve Negra faz um ótimo uso do cenário. A fotografia de Arnau Valls Colomer (de Tarde para la Ira, 2016) consegue tornar um terreno aberto claustrofóbico, dando a impressão de que os personagens estão cercados pela vegetação e não poderão sair. Marcos, com sua vivência na Espanha, parece não se adaptar novamente ao chalé, enquanto Salvador está exatamente onde deveria, num local que combina com a personalidade dele.

O elenco prestigiou o lançamento do filme

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Franquia Piratas do Caribe se arrasta para mais um

por Marcelo Seabra

Uma boa arrecadação nas bilheterias nunca prova nada, já que qualidade e dinheiro nem sempre se encontram. Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales, 2017) é um atestado disso, uma aventura insossa que ocupa atualmente o primeiro lugar nacional e que já leva mais de 365 milhões de dólares em caixa pelo mundo. Mesmo sendo cansativo e desnecessário, o longa garante a produção do próximo episódio.

Em sua quinta aventura, a franquia mostra claros sinais de cansaço. A grande atração, desde a primeira, é a caracterização de pirata de Johnny Depp, algo como um rockstar dos trópicos que não valia nada. Sempre tentando levar vantagem e passar os outros para trás, Jack Sparrow acaba tendo que confrontar os muitos inimigos que acumulou pela vida, e eles vão se enfileirando a cada filme. Agora, é a vez do Capitão Salazar, um espanhol malvado que navega pelos mares num navio fantasma, liderando uma equipe igualmente amaldiçoada.

Com Javier Bardem (o Silva de Operação Skyfall, 2012 – acima) no papel, Salazar desperta interesse, mantendo a tradição da série de sempre contar com bons atores como coadjuvantes (como Bill Nighy e Chow Yun-Fat). O que mais chama a atenção no filme é o interessante efeito nos cabelos do vilão, que se mexe como se estivesse dentro da água. O que é muito pouco para manter a graça por mais de duas horas. E Depp, depois de voltar tantas vezes a Sparrow, o interpreta como um bêbado infantilizado que lembra Mr. Magoo, aquele velhinho cego que se metia em confusões desavisadamente. Até o grande Geoffrey Rush, o Capitão Barbossa, está fora do tom, exagerado até!

Outras duas adições neste novo Piratas são Brenton Thwaites (de Deuses do Egito, 2016) e Kaya Scodelario (da franquia Maze Runner), uma dupla previsível que se une para encontrar um certo Tridente de Posseidon. O rapaz, Henry, é filho do nosso velho conhecido Will Turner (Orlando Bloom) e quer livrar o pai de uma maldição. E Carina, fugindo de uma condenação à morte por ser considerada bruxa, entra na missão de Henry por saber encontrar o tal tridente, que acabaria com os feitiços dos mares.

Os elementos mágicos da trama vão aparecendo à medida em que são necessários, o que transforma o filme em uma bagunça de conveniência. As regras são escritas enquanto a ação se desenrola, o que torna tudo uma mesmice. Fica difícil até achar posição na cadeira. Os noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg (de Expedição Kon Tiki, 2012) disseram se inspirar no primeiro filme, A Maldição do Pérola Negra (2003), e contaram com uma história de Terry Rossio, da equipe original. Mas ela foi descartada e o experiente Jeff Nathanson (de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008), novato nesse universo, e o próprio Depp reescreveram tudo, e não conseguiram dar frescor ao material. Mesmo assim, Rønning, Sandberg e Nathanson já estão contratados para Piratas 6.

A carreira de Depp precisa de gás urgentemente

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DC finalmente acerta a mão com a Mulher-Maravilha

por Rodrigo “Piolho” Monteiro e Marcelo Seabra

Finalmente, depois de três fracassos consecutivos, a DC ganha um novo fôlego na construção de seu universo cinematográfico. Curiosamente, com aquela que historicamente é considerada a personagem mais fraca – em termos comerciais – da chamada Trindade da DC. Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017), que chega agora às telas brasileiras, é um filme que supera as expectativas e mostra que, apesar da resistência inicial de muitos, Gal Gadot é a melhor coisa surgida na WB desde que a produtora resolveu seguir os passos da Marvel e transferir seu universo dos quadrinhos para a tela grande.

Não era muito difícil fazer melhor que os filmes anteriores da DC. O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), Batman vs Superman (2016) e Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) foram um desastre em termos de crítica – principalmente o terceiro. O boca a boca não teria ajudado em nada se já não se tratasse de personagens consagrados, em filmes recheados de celebridades. As bilheterias garantiram a continuidade do Universo DC nos cinemas, e hoje temos que comemorar essa sobrevida. E, além de toda a ação e efeitos visuais fantásticos, é a primeira vez que temos o amor e a esperança como presença forte, uma mudança muito feliz. Ao invés de um maníaco desiludido vestido de morcego ou de um alienígena com uma eterna sensação de não pertencimento, temos uma guerreira forte e otimista.

Há diversos acertos em Mulher-Maravilha e o primeiro deles está no fato de a essência da personagem ter sido respeitada – não seguindo a tendência sombria de Christopher Nolan. Como nos quadrinhos, a Diana do filme é a princesa da ilha de Themyscira (ou Temisciria, na tradução no cinema), filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen, de 3 Dias Para Matar, 2014), que a moldou do barro e rogou que o deus supremo Zeus a desse vida. Pedido concedido, a bela Diana foi criada na ilha, um pequeno arquipélago escondido do mundo graças à magia de Zeus, onde apenas mulheres habitam. Assim como na criação de William Moulton Marston, ela é curiosa, ética, apaixonante e destemida.

Vindo de uma longa raça de guerreiras, Diana desde criança queria se tornar uma e, apesar do incentivo de Antíope (a ótima Robin Wright, de House of Cards), seu desejo seria repetidamente refreado por sua mãe. Na adolescência da princesa, Hipólita finalmente deixa que a filha seja treinada para ser uma guerreira Amazona. Ela estaria pronta caso, um dia, elas precisassem enfrentar a ameaça de Ares, o Deus da Guerra e filho de Zeus que foi banido após se rebelar contra a humanidade.

Diana segue treinando para um conflito que parece improvável até que um outro tipo de guerra chega às margens da Ilha de Themyscira. Com o avião avariado, o Capitão Steve Trevor (Chris Pine, o Capitão Kirk da trilogia Star Trek – acima) rompe o campo de força místico que protege a ilha e cai em sua costa. Junto com ele, vem a guerra: barcos alemães cujos soldados vão matar sem hesitação todas aquelas que aparecerem pela frente. Steve é um espião e está tentando chegar a Londres com informações que podem mudar o rumo do conflito. Estamos perto de 1918 e a Primeira Guerra Mundial não parece dar sinais de chegar a um final tão cedo, principalmente se depender da vontade do General Erich Ludendorff (Danny Huston, de Hitchcoch, 2013) e da Dra. Isabel Maru (Elena Anaya, de A Pele Que Habito, 2011), uma química que está a ponto de desenvolver uma arma que pode garantir a vitória alemã.

Ao tomar consciência do que acontece lá fora, Diana resolve que é hora de deixar seu isolamento e partir para o mundo dos homens, com o intuito de encontrar aquele que, em sua visão ingênua das coisas, é o responsável pela guerra: Ares. Ela acredita que, matando Ares, a guerra acabaria e a paz reinaria no mundo. Apesar de suas crenças e de ter crescido em certo isolamento, Diana não é boba e logo vai entender como esse mundo funciona. E a reconstituição da época é excepcional, o que facilita para o público comprar a ideia.

Um dos grandes acertos de Mulher-Maravilha é justamente o fato de sua história ter conseguido misturar elementos místicos com outros bastante reais de maneira bem orgânica. É bem interessante ver como Diana reage à guerra de verdade, bem diferente daquela presente em seus sonhos juvenis. É interessante a reação da personagem quando ela sai de sua ilha paradisíaca para a feia Londres da guerra, um lugar frio, nublado e parcialmente destruído. Outro acerto foi a história se passar durante um conflito mundial, de forma que foi possível mostrar não apenas o lado guerreiro, mas também o heroico de Diana, da pessoa que se preocupa não só em vencer o inimigo, mas também em poupar os inocentes do sofrimento, algo muito presente na Mulher-Maravilha dos quadrinhos. Mais um ponto para Gadot, que já tinha convencido como Diana em Batman Vs Superman e se reafirma aqui, passando com segurança toda a ternura e fúria presentes na personalidade de Diana Prince.

Ponto também para a diretora Patty Jenkins (de Monster: Desejo Assassino, 2003) e para o roteirista Allan Heinberg (de séries como Grey’s Anatomy e Scandals), que trazem a bem-vinda visão de uma mulher e de um profissional acostumado a escrever sob um viés feminino. A história foi concebida por ele, Jason Fuchs (de Peter Pan, 2015) e Zack Snyder, um dos produtores do filme. Podemos ver a influência de Snyder aqui e ali, especialmente nas cenas de lutas, onde há um certo abuso no uso da câmera lenta. Fora isso, Jenkins parece ter tido bastante liberdade para trabalhar. Do contrário, o sol não apareceria tanto quanto aparece. Também podemos destacar o fato de Jenkins ter tido a oportunidade de lançar algumas mensagens de cunho feminista, reforçando a importância da mulher para qualquer universo. Longe de ser um manifesto, Mulher-Maravilha é um filme cuja única mensagem política é que a guerra é um inferno e o ser humano não é tão bom quanto deveria ser.

Mulher-Maravilha tem muitos paralelos com Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), não só pelo fato de ambas as histórias se passarem durante um conflito mundial. Isso, no entanto, não traz qualquer demérito ao filme. Muito pelo contrário, tendo em vista a importância do primeiro longa do Capitão para a construção do Universo Marvel no cinema. Ele crava o primeiro acerto da DC no cinema desde a trilogia de Batman de Nolan. O problema é que o próximo na lista é o longa da Liga da Justiça, mais um dirigido por Zack Snyder. O que faz as nossas esperanças afundarem um pouco.

Com alterações pontuais, o figurino dos quadrinhos foi mantido

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Netflix vai à guerra com duas produções

por Marcelo Seabra

Em meio à polêmica que surgiu no Festival de Cannes, sobre filmes não exibidos em um cinema concorrerem a prêmios (assista aqui à problematização com a Larissa Padron), a Netflix segue firme distribuindo e produzindo, e a qualidade não deixa nada a dever para produções de outros estúdios. Com intervalo de pouco mais de um mês, dois longas chegaram ao serviço dividindo o tema: episódios próximos de reais em guerras recentes.

Desde 21 de abril, o público pode conferir o novo trabalho de Fernando Coimbra, diretor do ótimo O Lobo Atrás da Porta (2013). Ao contrário desse outro projeto, Castelo de Areia (Sand Castle, 2017) não é algo pessoal, Coimbra entrou com a produção andando, substituindo um colega que saiu. O roteiro, de Chris Roessner, é baseado nas experiências do próprio roteirista como atirador no Iraque. Ele diz ter tido a ideia de escrever a respeito após assistir a Platoon (1986), longa passado na guerra do Vietnã protagonizado coincidentemente por um Chris (Charlie Sheen).

Castelo de Areia não é um filme de grandes emoções, ou sobre um episódio especialmente relevante. É mais sobre o dia a dia dos soldados, sobre a banalidade da guerra e a falta de sentido em norte-americanos irem em massa para outro país visando salvar a população deles mesmos. Até que ponto essa invasão é justificável? Essa é uma questão que o mundo todo se fez. E os locais ressaltando o tempo todo que queriam que os americanos fossem embora, deixando-os resolverem seus próprios conflitos.

O protagonista criado por Roessner, que funciona como um alter-ego, é Matt Ocre (Nicholas Hoult, o Fera dos X-Men – acima), um jovem que se alista no exército para juntar dinheiro para a faculdade e é recrutado para o Iraque. Ele até tenta se safar, mas não consegue e logo se vê naquele calor escaldante, tendo que lidar com ataques terroristas e com a população, gente de bem que passa por apertos devido à situação de guerra. São poucos os que se metem em tiroteios e bombardeios, mas todos pagam por isso. Em meio a uma ação, o exército ainda faz o favor de interromper o fornecimento de água da cidade, o que obriga os soldados a trabalharem duro para restabelecê-lo.

Com um bom elenco (destaque para Logan Marshall-Green e Henry Cavill) e uma ótima fotografia (de Ben Richardson, de A Culpa É das Estrelas, 2014), Coimbra constrói um filme de pouca tensão, mas de um desenvolvimento de personagens bem adequado. As mudanças pelas quais Ocre passa são muito interessantes e parecem retratar bem a realidade – até onde podemos imaginar. É algo como Short Cuts (1993) ou mesmo Paterson (2016): o que importa não é a explosão ou o efeito especial, mas o que se passa naquela cabeça e as relações entre os personagens.

Outro a chegar na Netflix, este em 26 de maio, é War Machine (2017) – e não é da Marvel, não confundir com o colega do Homem de Ferro. Com roteiro e direção de David Michôd (de Reino Animal, 2010), o longa nasceu de um premiado artigo da revista Rolling Stone, de 2010, que acabou virando um livro dois anos depois. Ambos são de autoria do jornalista Michael Hastings, que teve a oportunidade de acompanhar a equipe do General Stanley A. McChrystal durante uma viagem pela Europa enquanto ele era comandante das forças militares no Afeganistão. Michôd achou melhor abandonar o nome real do general para evitar possíveis problemas legais, além de dar liberdade para criar ou alterar situações.

No papel principal, Brad Pitt (de Aliados, 2016) é o General Glen McMahon, um sujeito muito otimista e, ao mesmo tempo, bem limitado intelectualmente. A sua visão simplista de mundo, do tipo “se quisermos, vamos conseguir”, faz com que ele assuma uma missão impossível e seja alvo de críticas e piadas. Ele foi o sujeito encarregado pela administração Obama para “resolver” a situação no Afeganistão, país ocupado pelos americanos há oito anos que não demonstrava sinais de melhora.

Desde o início, a narração de Sean Cullen (a versão fictícia de Hastings, vivida por Scoot McNairy, de Batman vs Superman, 2016) deixa claro a forma de agir das autoridades políticas: ao esbarrar em uma situação impossível de ser resolvida, eles demitem o responsável e colocam outra pessoa no lugar. McMahon, recebendo a bomba no colo, reúne seus homens de confiança e ruma ao olho do furacão. Qualquer soldado raso é capaz de ver o problema que os Estados Unidos criaram, mas o general segue confiante de que vai entregar uma vitória e receber, como agradecimento, desfiles nas ruas de seu país.

Tecnicamente impecável, a produção derrapa por não definir um tom. No início do projeto, seria um drama sério, mas acabou virando algo como uma paródia, ou fábula. E Pitt assume uma forma de falar e de mexer a boca que uma pessoa normal só faria se estivesse imitando e ridicularizando alguém. Algo bem diferente, por exemplo, que o amigo dele, George Clooney, faz em Os Homens Que Encaravam Cabras (2009): uma interpretação séria em uma farsa divertida na qual todos parecem se levar a sério.

Pitt já se mostrou hábil em criar figuras patéticas, como em Bastardos Inglórios (2009) e Queime Depois de Ler (2008), e teve muito sucesso com elas. Mas, aqui, esse tipo não se encaixa, e fica um tanto estranho ter esse sujeito responsável por tanto. Isso, além de não ser crível. Apesar desse erro de cálculo de Pitt, os demais nomes do elenco estão muito seguros em seus papéis – principalmente Anthony Michael Hall (de Foxcatcher, 2014), que faz um general explosivo ainda menos brilhante que McMahon. Há outros nomes bem interessantes, como Ben Kingsley, Alan Ruck, Griffin Dunne, Topher Grace, Will Poulter e Emory Cohen, além de duas pontas ótimas.

Em meio a algumas bobagens simpáticas (como Mindhorn, 2016) e outras que são só bobagens (Adam Sandler…), a Netflix tem trazido e produzido obras de grande valor, o que aumenta a discussão que ficou acalorada em Cannes. Alguns têm chamado a atenção para o fato de que filmes sem um apelo claro, como uma celebridade no elenco, acabam soterrados por diversos outros, o que complicaria as chances deles de serem apreciados por um público maior. As perguntas são muitas, mas o que é inegável é que a Netflix tem colocado cada vez mais produções dentro das casas, o que resolve o problema de muita gente de acesso aos cinemas. E na língua que você escolher.

Este é o General Stanley McChrystal, que se tornou Glen McMahon

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