Bom Dia, Verônica decepciona já no segundo episódio

Dois nomes famosos na literatura brasileira decidiram se unir e lançar um livro sob um pseudônimo. Foi criada a misteriosa Andrea Killmore, uma ex-policial com a identidade protegida devido a seu passado. A obra que saiu daí, bem vendida e comentada, é Bom Dia, Verônica, cuja adaptação acaba de chegar à Netflix em oito capítulos curtos. Dá para assistir à temporada completa em um domingo e passar o resto da semana com raiva.

O visual da série era promissor. Um elenco competente, uma produção bem cuidada. Por trás da atração, o próprio Raphael Montes, 50% de Andrea Killmore, contando no roteiro com sua colega Ilana Casoy, os outros 50. Com um envolvimento tão grande dos dois, e com a Zola Filmes por trás, era de se esperar algo fiel e inovador. Talvez, arrojado como O Doutrinador (2018), ou descolado como Mandrake. O que temos é uma sequência de situações constrangedoras que fazem o público se arrepender de ter começado.

No primeiro episódio, conhecemos a escrivã da polícia Verônica Torres (Tainá Müller, de Bingo: O Rei das Manhãs, 2017), uma mãe de família tranquila que faz seu trabalho com o máximo de discrição. Isso até uma desconhecida aproveitar uma confusão para pegar uma arma e meter uma bala na própria cabeça. O que levaria uma mulher a se matar, que desespero levaria uma pessoa a um ato tão extremo? Verônica começa a investigar e descobre um golpista que dopa e rouba suas vítimas, que obviamente saem disso humilhadas.

No segundo episódio, uma cena de violência mais gráfica pode afastar os mais sensíveis. Se você insistir, logo verá uma das personagens mais burras da televisão nacional, do tipo que para de carro na frente de um restaurante onde um flagrante – sem a participação dela – está armado para acontecer, prestes a estragar tudo. Daí em diante, é fácil ficar irritado com as coisas que se seguem, personagens se alternando entre momentos de sagacidade e de pura estupidez.

Uma parte da história que é bem construída e pode fazer com que o espectador se motive a continuar é a do casal que vive uma relação perversa de dominação e crime. Camila Morgado (a eterna Olga, 2004) e Eduardo Moscovis (de Corações Sujos, 2011) mais do que convencem como o militar psicopata e a esposa torturada que acaba servindo de cúmplice, mas nunca deixa de ser vítima.

Se esse núcleo parece ter uma profundidade psicológica maior, o resto da história segue no raso de sempre. A protagonista, claro, precisa ter questões mal resolvidas que acabarão numa teia de coincidências bem forçadas e sempre mal explicadas. Tudo acontece por que mesmo? Não sabemos, já que explicações não são o forte da série. Depois de chamar seu público de idiota, Bom Dia, Verônica termina como as piores produções norte-americanas, aquelas que você já critica de antemão, dizendo que nunca assistirá a uma bobagem dessa.

Ilana Casoy e Raphael Montes são os autores

Sobre Marcelo Seabra

Marcelo Seabra - Jornalista e especialista em História da Cultura e da Arte, é o criador de O Pipoqueiro. Tem matérias publicadas esporadicamente em sites, revistas e jornais. Foi redator e colunista do site Cinema em Cena por dois anos e colaborador de sites como O Binóculo, Cronópios e Cinema de Buteco, escrevendo sobre cultura em geral. Pode ser ouvido no Programa do Pipoqueiro e nos arquivos do podcast da equipe do Cinema em Cena. Twitter - @SeabraM | Instagram - @opipoqueiroseabra
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7 respostas para Bom Dia, Verônica decepciona já no segundo episódio

  1. Silva de Paula disse:

    Tô pra ver crítica mais preguiçosa!

  2. Grazi disse:

    Discordo. Assisti achando um bom entretenimento, apesar de cair no plot preguiçoso do ”Brasil não tem justiça”. Veronica realmente toma algumas decisões estúpidas, mas ela é escrivã e como tal, não tinha treino para as situações e agia com sentimentos, não treinamento. Mas lembro de apenas 4 cenas que me irritaram pela falta de profundidade para trabalhar essa falta de conhecimento da protagonista. Ela estava no escuro e agindo por vontade de salvar as mulheres. Não acho que o passado não trabalhado dela seja algo ruim – nós esperamos isso de todo protagonista desse tipo de gênero, pois ele precisa se ligar com a trama de alguma forma e justificar sem envolvimento emocional. Todas as melhores história de serial killers que já li e assisti tÊm protagonistas traumatizados ou ligados os assassino de alguma forma. Acho que você é que não está familiarizado com essa narrativa. Sua crítica tem pouquíssima profundidade para taxar a série de decepção. No geral ela funciona muito bem. Qual a produção que não tem uns deslizes no meio ? Personagens não são perfeitos e os que são irritam. Eu esperava um pouco mais da parte investigativa por causa do livro e por ser ILANA CASOY, mas ainda assim o roteiro é bom, apesar da UMA conveniência, o elenco é bom, a ambientação é ótima, trilha, figurino, direção… não vejo porquê essa decepção toda. Mas cada um com seu gosto né?

    • Marcelo Seabra disse:

      Grazi, obrigado por tomar um tempo para ler a crítica e argumentar. Entendo que o esforço por não dar spoilers e estragar a experiência do espectador possa ser visto como preguiça, já que opto por não entrar em certas partes, como as quatro cenas que você menciona. Citei a passagem do flagrante no restaurante para exemplificar o que digo a respeito da decepção. E, se há decepção, é porque de fato esperava algo superior. Todos os envolvidos têm carreiras interessantes, a produção é bem cuidada, indico vários elementos que merecem elogios. E já são três décadas assistindo a todos os tipos de filmes, estudando a respeito e escrevendo – para dar um exemplo, escrevi sobre Dexter, uma das minhas séries favoritas, estrelada exatamente por um serial killer. “Qual produção não tem deslizes?”, você pergunta. Pois é, se esses deslizes mostram um roteiro preguiçoso marcado por várias conveniências, que alternam a protagonista entre burra e inteligente apenas para poder seguir, tendo a não apreciar o resultado. E sempre vejo gente criticar produções norte-americanas pela falta de verossimilhança e exageros, e essa cai exatamente nesses erros. Isso, sem falar da total falta de esclarecimentos a respeito da tal rede que envolvi personagens tão diferentes e sem contato algum entre si. A série deixa o público no escuro.
      De qualquer forma, obrigado pela visita!

  3. mateus disse:

    ”personagens se alternando entre momentos de sagacidade e de pura estupidez”
    resumiu a raça humana, acho que todos oscilam entre momentos de lucidez e estupidez.
    todo drama é assim, policial, hospital. assiste alguma série CHICAGO da UNIVERSAL que vai ver, não tem como fugir.

  4. danielle disse:

    Eu concordo 100% com a sua crítica. Na minha opinião, faltaram explicações, não só da rede misteriosa da polícia, mas também sobre a motivação do serial killer. Concordo também que, exceto pelo núcleo do casal, Camila Morgado e Eduardo Moscovis, o resto da série foi rasa, sem emoção. Mas acredito que há mais problemas de direção do que de roteiro.

  5. Ana disse:

    Achei a série bem produzida, Camila morgado e o Eduardo Moscovis são ótimos. As falhas que achei na trama são decisões bizarras da personagem principal tipo entrar em uma casa do nada depois de uma Ligação pra delegacia, prender o cara do encontro sem alegação nenhuma, mandado de busca na casa do cara mais fácil que já vi…. (pra todos os efeitos era um encontro virtual, sem provas, queria imaginar qual juiz autorizado a isso) fora a escrivã que sai de arma com treino e a porta toda. Ah….. pega o IP de alguém na Deep web tb….. pagar peitinho numa cena aleatória….. triste. Triste.

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