Billie Holiday ganha voz na pele de Andra Day

Gravada em 1939 pela fantástica cantora americana Billie Holiday, a música Strange Fruit fala claramente da perseguição a negros, que eram mortos e pendurados em árvores, sendo eles próprios as “frutas estranhas”. Considerada hoje uma das canções mais importantes de todos os tempos, nos anos 40 ela trouxe muitos problemas a Holiday, que fazia questão de cantá-la sempre e chamar atenção para a causa. Este é o foco de The United States vs. Billie Holiday (2021), lançado pelo Hulu.

Na verdade, este deveria ser o foco do filme, que logo cai na mesma armadilha de outras cinebiografias e abraça o mundo. Outro problema comum a este tipo de obra é a necessidade de se adotar um vilão, uma figura que atormenta a protagonista e é rasa como um pires (o agente de Garrett Hedlund, de Operação Fronteira, 2019). Dessa forma, o roteiro de Suzan-Lori Parks (baseado no livro de Johann Hari) vai pulando entre os eventos que considera mais relevantes, construindo um quadro por vezes confuso que dificilmente envolve o espectador.

Em meio a tantas falhas, o grande trunfo do diretor Lee Daniels (de Obsessão, 2012) é sua atriz principal, merecidamente lembrada no Oscar, no Globo de Ouro e em diversas outras premiações. Andra Day teve poucas e rápidas participações como atriz até então, como em Marshall (2017), o que explica o receio de Daniels em contratá-la. Ela tem uma carreira mais estabelecida como cantora, já tendo inclusive sido indicada a Grammys. Se tratando de um filme sobre Billie Holiday, esse era um talento necessário – outra a ter interpretado Holiday foi a também cantora Diana Ross (em O Ocaso de Uma Estrela, 1972).

Como acontece em diversas outras cinebios, a intérprete da protagonista é muito superior ao filme. Se vale a conferida em The United States vs. Billie Holiday, é muito devido ao trabalho de Day. A voz, os movimentos, a aparência, tudo devidamente calculado para emular Lady Day, apelido de Holiday (coincidentemente). O figurino e a recriação dos anos 40 são impecáveis, pontuados por uma trilha interessante e salpicada de clássicos de Holiday, como Strange Fruit e All of Me. Na voz de Andra Day.

Constantemente abusada pelos homens de sua vida, a Holiday do filme fica numa espécie de meio do caminho. O roteiro quer que a vejamos como uma mulher forte, dona de seu destino. Ao mesmo tempo, tem diversas recaídas nas drogas e corre atrás de sujeitos que a agridem e a exploram. O tom segue indefinido do início ao fim. Um ponto positivo a se ressaltar é a situação vivida por Jimmy Fletcher (Trevante Rhodes, de Caixa de Pássaros, 2018). Buscando uma oportunidade profissional, ele se deixa usar contra sua própria raça. Não é algo muito explorado pelo roteiro, mas tem seus momentos.

Lembrado no Oscar apenas pela indicação de Day, The United States vs. Billie Holiday é muito menos do que a cantora merecia. Ao final da sessão, dá vontade de fazer uma busca na internet e entender melhor a biografia dela. E é bastante indicado que se conheça mais músicas que ela imortalizou, como You’ve Changed, Blue Moon e muitas outras.

A semelhança é grande e o talento de Andra Day, também

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Bebendo como um Shelby

Peaky Blinders é uma série de televisão britânica exibida pelo canal BBC Two desde 2013, um conto épico de uma família gangster, os Shelby, ambientado em Birmingham, na Inglaterra, em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial. É inspirada em eventos reais, na história de uma associação criminosa de Birmingham.

Criada por Steven Knight, a série conta até o momento com cinco temporadas de seis episódios cada, disponíveis na Netflix. A sexta temporada está sendo gravada e deve estrear em breve. A série já esteve no Pipoqueiro – clique aqui para ler a crítica e aqui para ouvir o Programa do Pipoqueiro com comentários e músicas da trilha.

Com um estilo visual fashionista, a série tem influenciado inclusive a forma de vestir das pessoas desde o início de sua exibição. Não é difícil encontrar, em uma busca por Peaky Blinders pela internet, artigos com repostas a perguntas como: “Como se vestir como um peaky blinder”, “Estilo dos Peaky Blinders”, “Cortes de cabelo dos Peaky Blinders” etc. O sucesso da série é tão grande que fez inclusive com que Birmingham batesse seu recorde de turismo em 2018, com números 26% superiores aos de quando a série estreou.

Neste contexto, porque não um “Bebendo como os Peaky Blinders”? Ou ainda, de maneira mais intimista, um “Bebendo como um Shelby”?

A série possui um pano de fundo perfeito para falarmos um pouco sobre a escola inglesa de cervejas, que teve importantes acontecimentos em anos que antecederam a série e que possivelmente estavam fervilhando e definindo as características das cervejas dessa escola justamente naquele período. Ainda relacionado ao tema, a série tem referências reais aos pubs de Birmingham, como o Garrison, onde ao longo da história vários pints de boas cervejas inglesas são servidos.

Ainda que durante praticamente todas as temporadas os membros da família Shelby passem boa parte do tempo bebendo, na maioria dos momentos eles consomem whisky (habitue-se ao “scotch or irish?”). No entanto, não é incomum ver os personagens bebendo cervejas no Garrison. Aqui começa a nossa missão de te explicar como beber como um Shelby.

A Inglaterra tem uma das principais escolas cervejeiras do mundo e o período histórico da série é bastante importante para as características que hoje marcam as cervejas dessa escola. Até meados do sec. XV, não se utilizava lúpulo para “temperar” as cervejas britânicas, mas ervas e condimentos locais. Essa mudança ajudou a estabelecer algumas das características das cervejas da escola inglesa. A invenção do tambor torrador, em 1817, também influenciou muito a produção das cervejas escuras, bastante icônicas nessa escola cervejeira.  As duas principais são as Porters e as Stouts.

O estilo Porter foi originado em Londres na primeira metade do século XVII. O nome está associado aos trabalhadores dos portos e das regiões litorâneas de Londres (os porters), que tinham o hábito de consumir esse estilo. Existem teorias de que inicialmente esta cerveja era feita através da mistura de cervejas mais leves com outras mais envelhecidas e, dada a sua popularidade, os cervejeiros passaram a produzi-la com uma receita própria, não sendo mais necessárias as misturas.

Na sequência da história, aparecem as Stout Porters, uma versão mais forte, encorpada e alcoólica da Porter, que em algum momento passam a ser chamadas apenas de Stout. Muitas receitas de Porters na época de fato eram idênticas às receitas de Stouts e a distinção não era tão evidente.

Ainda que boa parte das publicações da internet sejam bastante taxativas sobre a história destas duas cervejas, existe bastante imprecisão sobre desenvolvimento real desses dois estilos, sobre as características originais deles e até mesmo sobre as datas oficiais. Com o passar dos anos, surgiu a necessidade de se separar estes dois estilos porque eles começaram a se diferir muito. Hoje, existe uma definição sobre as características de cada estilo, mas é importante lembrar que existem muitos sub-estilos de Porters e Stouts, cada um com suas características únicas.

A Porter normalmente assume tons de castanho escuro, podendo conter notas avermelhadas, e é opaca. Pode ter notas de café torrado, mas nunca como uma Stout. Já as Stouts tendem a ser ligeiramente mais escuras, indo desde o castanho até o preto. Devem ter alguma parcela de café super torrado, mesmo que não seja muito intenso.

Tá…mas e daí? Como eu bebo como um Shelby?

Abaixo, seguem quatro indicações de belas cervejas para se sentir um sabor parecido com o que se bebia em Birminghan, e que podem ainda ser sentidos nos pubs ingleses. Em primeiro lugar, indico duas cervejas de uma ótima cervejaria inglesa, a Fuller´s, que são referências do estilo – que eu gosto bastante. Depois, duas das terras mineiras, mas que são ótimas expressões de sub-estilos das cervejas da escola inglesa.

FULLER’S LONDON PORTER– É uma releitura das cervejas originais do estilo Porter. Apresenta coloração marrom, rica em aromas e sabores do malte, com notas levemente tostadas de chocolate amargo e café.

ESTILO: Brown Porter

ABV: 5,4%

IBU: 37

EBC: 60

ORIGEM: Inglaterra

FABRICANTE: Fuller’s

FULLER’S BLACK CAB STOUT – É uma cerveja preta de perfil complexo, mas com boa drinkability e baixo teor alcoólico (4,5%), que ajuda a quebrar o estigma das cervejas escuras tidas pelos brasileiros como muito alcoólicas. Elaborada com maltes torrados, traz notas de café e chocolate amargo, como de café expresso. Seu corpo é médio e de final seco. Cerveja muito agradável.

ESTILO: Classic Irish-Style Dry Stout

ABV: 4,5%

IBU: 40

EBC: 172

ORIGEM: Inglaterra

FABRICANTE: Fuller’s

KÜD FEAR OF THE DARK EXTRA STOUTFear of the Dark é uma canção escrita por Steve Harris, baixista e compositor principal da banda britânica de heavy metal Iron Maiden, e faz parte do álbum homónimo de 1992. A música é homenageada nesse rótulo da cervejaria Kud. Ela é uma cerveja do estilo Foreign Extra Stout, que tem como característica principal ser extremamente escura e um pouco mais forte do que as Stouts tradicionais. A torra dos maltes utilizados na receita deixa sabores de café expresso e chocolate amargo bem presentes e mais intensos que as demais cervejas recomendadas aqui.

ESTILO: Export-Style Stout

ABV: 6,4%

IBU: 50

EBC: –

ORIGEM: Brasil

FABRICANTE: Cervejaria Kud

KRUG DRY STOUT -Essa cerveja tem um sabor de cereal torrado, como café expresso, e final bastante seco, com excelente balanço entre o amargor e a doçura. Assim como a Guiness (outra Stout icônica), essa cerveja leva nitrogênio na sua mistura de gaseificação, produzindo uma sensação macia e encorpada na boca. A sensação de boca aveludada e a excelente formação de espuma são conferidas também pelo uso de aveia na receita. Todos esses elementos levam a uma cerveja com textura bastante particular e muito interessante de ser experimentada. Vale a comparação com a Fuller´s Black Cab em relação principalmente à textura.

ESTILO: Classic Irish-Style Dry Stout

ABV: 4,4%

IBU: 30

EBC: –

ORIGEM: Brasil

FABRICANTE: Cervejaria Krug Bier

Agora, é se munir com estas cervejas, maratonar Peaky Blinders antes da estreia da próxima temporada e se sentir bebendo como um Shelby no Garrison!

Mas, se beber, lembrem-se: “No fuckin’ fighting!

Tommy Shelby já é um ícone cultural

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Família coreana busca o sonho americano em Minari

Nos anos 80, Jacob Yi e a esposa, Monica, saíram da Coréia em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos. Trabalhando muito e ganhando pouco na Califórnia, eles decidem se mudar com os filhos para a zona rural do Arkansas, onde Jacob poderá plantar alimentos característicos de sua terra natal e atender uma demanda existente. Ele vê nesse comércio o futuro de sua família, mas Monica é contra viverem ali, isolados. Ainda mais quando o filho pequeno tem uma condição cardíaca e o hospital fica a uma hora de distância.

Por essa trama básica, percebe-se que Minari (2020) não tem o roteiro mais original de Hollywood. O ótimo Terra de Sonhos (In America, 2002), por exemplo, vem à cabeça quando o assunto é tentar viver o “sonho americano” sendo de outro país. Assim como o colega irlandês, Minari tem alguns elementos que o alçam a outra categoria: a daqueles filmes sensíveis, poéticos, que ficarão na memória de seu público por um bom tempo.

A química entre os atores que vivem a família Yi é ótima. Não à toa, dois deles estão indicados ao Oscar, entre outros prêmios. Steven Yeun (de Okja, 2017) faz o pai, com Yeri Han como a mãe e Noel Kate Cho e Alan Kim como os dois filhos. A mãe de Monica logo se junta ao grupo, interpretada por Youn Yuh-jung (de Sense8), e fecha o núcleo familiar. De fora, temos o americano que ajuda Jacob com a plantação, o ex-combatente Paul (Will Patton, de Halloween, 2018). Yeun e Yuh-jung concorrem à estatueta careca (ator principal e atriz coadjuvante), mas todos funcionam muito bem, com destaque também para o pequeno Kim, assustadoramente maduro para a idade.

Além das interpretações, a fotografia de Minari é linda e explora bem o ambiente. Dentro do trailer ou pela natureza afora, a fotografia de Lachlan Milne (de Stranger Things) nos situa e enriquece o roteiro bem amarrado de Lee Isaac Chung, que ocupa também a cadeira de diretor – e foi indicado a Oscars nas duas funções. E as belas imagens são pontuadas pela discreta trilha de Emile Mosseri (de Homecoming), também indicado, totalizando seis menções no Oscar – a última categoria é Melhor Filme.

Com boa parte dos diálogos em coreano, o filme acabou indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, e levou o prêmio. No Bafta, uma das seis indicações é exatamente essa, mesmo se tratando de um filme americano. Nascido no estado americano Colorado, Chung colocou um pouco de suas próprias experiências no roteiro, como o uso da tradicional planta Minari na culinária em sua casa. Essas memórias tornam o filme mais autêntico e os personagens, mais críveis.

É essa a planta que dá nome ao filme

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Zack Snyder apresenta sua versão da Liga da Justiça

Em novembro de 2017, tivemos o lançamento de Liga da Justiça (Justice League) nos cinemas e o início de um longo imbróglio. Zack Snyder seria o diretor do longa, dando sequência ao universo que estava criando com O Homem de Aço (The Man of Steel, 2013) e Batman Vs. Superman (2016). Um problema familiar sério o afastou do projeto e Joss Whedon, pouco prestigiado na Marvel, acabou assumindo a cadeira. Um resultado duvidoso iniciou uma campanha fervorosa e curiosa: os fãs de quadrinhos queriam ver a versão de Snyder, aquela que não chegou a se concretizar.

Por um lado, pode-se dizer que foi criada uma pressão para que a Warner permitisse a Snyder lançar o seu próprio corte, o tal Snyder Cut. Por outro, os produtores perceberam que havia demanda e eles poderiam ganhar mais dinheiro sendo que a maior parte das filmagens já estava pronta. Algumas cenas novas foram gravadas, mais uns efeitos especiais e uma montagem totalmente independente da vista anteriormente. Outra trilha foi encomendada a Junkie XL, descartando a do eficiente Danny Elfman, e o resultado ficou mais poderoso. A trilha sonora da Mulher-Maravilha continua bem marcante nas cenas em que ela aparece.

A primeira conclusão óbvia é que, com quatro horas de duração, fica bem mais fácil desenvolver melhor os personagens. O longa é dividido em capítulos, o que reforça sua cara de minissérie e torna mais fácil uma ida ao banheiro. Batman parece ser o único a ficar na mesma, não ganhando uns minutinhos adicionais de palco – porque já os tinha. A história do Superman é melhor desenvolvida, com maior participação tanto da mãe, Martha, quanto da Lois Lane. A luta das amazonas contra o Lobo da Estepe é muito mais detalhada, mas Diana também fica na mesma.

O Ciborgue ganha uma importância muito superior e sua história é contada com maior riqueza, o que por outro lado o enfraquece: é mais um com trauma paterno, numa eterna repetição de padrões. Ele, que é sempre muito discreto, de moletom e cabeça baixa, chega para se encontrar com Diana no meio da rua causando, o que é bem forçado.

O Flash, que parecia ser gay, agora tem um interesse amoroso feminino, evitando qualquer inovação que fosse irritar os fãs xiitas. A garota é apenas salva de um acidente, mas há muita troca de olhares e sabemos que se trata de Iris West (Kiersey Clemons), sua futura paixão em um vindouro filme solo. Com os poderes que tem, Barry deixar o pai na cadeia é quase como o Clark ter deixado o pai sumir num tornado: ridículo.

O encontro de Diana e Bruce Wayne deveria ser mais caloroso, já que os dois certamente eram muito solitários e são almas próximas. Um toque de uma mão na outra fica até meio constrangedor, indicando que algo poderia surgir ali. Isso se ambos não fossem extremamente problemáticos nessa área. Aquaman continua pouco desenvolvido, já que seu filme solo só viria no ano seguinte a esses acontecimentos. Se tira a camisa sempre que vai entrar no mar, ele precisa de um Alfred só para ele, para catar as camisas, ou uma hora não vai ter mais nenhuma. E quebrar a garrafa de whisky ao ir pro mar continua sendo excesso de estilo.

A representatividade feminina segue forte, com a Mulher-Maravilha dizendo a uma garotinha que ela pode ser o que quiser quando crescer. O visual do Lobo da Estepe ficou bem mais arrojado, com melhores efeitos, e ele ganhou mais destaque. Lobo diz que não há Lanternas ou kryptonianos para defender o mundo, ou seja: nada de Supergirl, que está na TV, e nada de Hal Jordan, já que o filme do Lanterna Verde foi um fracasso. Mas é possível ver um verdinho sendo morto numa batalha.

A semelhança de Darkseid com Thanos (da Marvel) é inevitável. Alfred, inclusive, trabalha numa manopla que usa material kryptoniano, o que lembra aquela luva do Thanos com as pedras. Não deixa de ser interessante finalmente conhecer Darkseid (abaixo), um personagem tão importante nos quadrinhos que foi prometido por muito tempo e acabou não aparecendo na versão de 2017. E fique de olho que outro velho conhecido dos iniciados vai aparecer.

Snyder parece mais interessado em produzir pôsteres que em dirigir um filme. Seus maneirismos são bem cansativos: os closes nas expressões, as cenas em câmera lenta, os golpes que demoram uma eternidade para acontecerem, diálogos excessivamente expositivos. As amazonas são a versão feminina dos 300 de Esparta (do longa de 2006), repetindo a tara de Snyder de mostrar abdomens trincados e físicos perfeitos. Zeus é a mistura de Leônidas com Thor.

Pontuados os vários problemas, é importante ressaltar que este Liga da Justiça é bem mais satisfatório que o anterior. Whedon, que ainda foi denunciado como abusador psicológico, vai custar a conseguir outro grande projeto. Já Snyder sai ileso desse circo, atingindo a expectativa dos fãs que queriam conferir a visão dele. Com uma série de zumbis engatilhada na Netflix, ele pode não voltar ao Universo Cinematográfico da DC. Sua falta não será sentida. Seus filmes continuam não honrando a essência dos heróis, tornando opções bem mais espertas nomes como os de Patty Jenkins, James Wan ou de alguém novo.

Snyder finalmente conseguiu lançar sua versão de Liga da Justiça

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Da Guatemala temos uma versão assustadora da Chorona

É comum acompanhar dramas pesados sobre guerrilhas, crimes de guerra, esse tipo de coisa, com muitas injustiças e mortes. Grandes diretores se enveredaram por esses caminhos, como Oliver Stone, Costa Gavras, entre outros. Mas um filme de terror nessa linha é algo raro e, no caso de La Llorona (2019), muito bem-vindo. A produção da Guatemala surpreende trazendo o sobrenatural para uma história muito humana: a busca por uma condenação de um ditador em seus últimos dias.

Quando La Llorona começa, conhecemos Enrique Monteverde (Julio Diaz), ex-ditador da Guatemala acusado de comandar um genocídio de nativos no início da década de 80. O veredicto de culpado foi contestado e ele saiu livre do tribunal para casa. Indignada, parte da população vai para a porta em protesto e os muitos empregados da mansão ficam com medo da multidão e saem. Só a fiel Valeriana (María Telón) fica e recruta uma novata (María Mercedes Coroy, as duas abaixo) para ajudá-la.

A família Monteverde ainda conta com a resignada esposa do general, Carmen (Margarita Kenéfic), a filha deles, Natalia (Sabrina De La Hoz), e a neta pequena, Sara (Ayla-Elea Hurtado). O que precisamos saber a respeito deles vai sendo mostrado ao mesmo tempo em que descobrimos os fatos do tal massacre. O pano de fundo político faz com que o longa vá mais longe em seu impacto que a maioria das produções atuais, principalmente as de terror. E a outra versão recente da história da Chorona, A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona, 2019), não chega nem no dedinho do pé desta.

Se, por um lado, a fotografia do filme fica restrita à casa, por outro, o diretor Jayro Bustamante aproveita para explorar bem o imóvel e criar suspense dali. Bustamante ainda acumula os papéis de corroteirista, produtor e montador, sendo o responsável direto pelo sucesso do longa. O clima de tensão é palpável, as situações são críveis e não há nenhum personagem burro fazendo coisa errada – tipo correr sozinho pela floresta. Temos a questão política se misturando à lenda local, Bustamante trabalha o papel do “cidadão de bem” e traz elementos da cultura local, inclusive a língua kaqchikel, muito falada na região central do país.

O terror de ver um ditador sair livre é o pior de todos

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Dobradinha Zhao e McDormand nos dá Nomadland

Um dos filmes mais comentados da temporada, Nomadland (2021) já levou alguns prêmios e não dá sinais de cansaço rumo a outros. Dois nomes se sobressaem na obra: a consagrada Frances McDormand, que pode levar seu terceiro Oscar como Melhor Atriz, e a diretora e roteirista Chloé Zhao, extremamente elogiada e com as mesmas chances de ganhar uma estatueta careca. Lembrando a estrutura de um documentário, o filme mostra de forma crua o outro lado do sonho americano.

Fern, a personagem de McDormand, é uma viúva na casa dos 60 anos que vive numa cidade devastada economicamente. Procurando por oportunidades de trabalho, ela entra na van e deixa tudo para trás, levando consigo o essencial. As viagens pelas estradas americanas são uma muito bem exploradas pela fotografia de Joshua James Richards, parceiro de Zhao já no terceiro trabalho juntos (após Songs My Brothers Taught Me, 2015, e Domando o Destino, 2017).

Enquanto pula de uma cidade para outra, Fern faz amizades com figuras bem interessantes, cada uma com uma história triste – e, muitas vezes, real. Várias pessoas vistas, inclusive, usam seus nomes verdadeiros, Zhao frequentemente trabalha com não-atores. Um deles é Bob Wells, espécie de líder dos acampamentos de nômades que conta sua história no filme numa cena não programada que acabou entrando e emocionando. Outros, como Swankie, vivem versões de si mesmos. A autora do livro no qual o roteiro se baseia, a jornalista Jessica Bruder, passou meses vivendo numa van, colhendo informações.

Como numa espécie de versão madura de Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007), Fern não precisa se conhecer, mas superar os percalços impostos pela vida. McDormand, como de costume, está ótima, já é uma daquelas atrizes que merecem prêmios por lerem a lista telefônica. E ela ainda tem como colega de cena o grande David Strathairn (de Godzilla II, 2019), que tem algumas boas oportunidades e ainda levou o filho com ele.

Além de se focar na jornada da personagem, Nomadland também mostra claramente a situação econômica desesperadora dos Estados Unidos. O pano de fundo é o fechamento de empresas e o êxodo que isso força, já que as pessoas se veem obrigadas a saírem de suas casas em busca de uma renda. A chinesa Zhao adotou o país como seu lar e, por isso, aponta os problemas que vê, sem glamourizar ou exagerar o estilo de vida viajante. McDormand compra totalmente a ideia, se entrega e faz uma bela dupla com a diretora.

Zhao comanda McDormand e Richards registra na câmera

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Superman ganha nova e criativa série no CW

Mais uma vez, temos um dos maiores heróis da DC Comics saindo das páginas dos quadrinhos para alçar voos em carne, osso e efeitos especiais. Superman & Lois é a nova atração do canal CW a compor o chamado Arrowverse, o universo televisivo de séries criado a partir de Arrow que reuniu os demais supers da editora. Mais uma vez, temos na produção o Midas do CW, Greg Berlanti, que bateu recordes de audiência.

Mesmo tendo escrito e produzido o fracassado Lanterna Verde (Green Lantern, 2011), Berlanti comandou séries elogiadas (lembra de Dawson’s Creek?) e acabou ganhando a confiança da DC para criar, com os colegas Andrew Kreisberg e Marc Guggenheim, a série do Arqueiro Verde. Ele aproveitou o sucesso de Arrow para introduzir um novo personagem, o Flash, que logo ganhou sua própria série. E assim foi com os vários personagens de Legends of Tomorrow, a Supergirl e, finalmente, o primo dela, o Superman. Isso, fora outros personagens que não fazem parte desse universo e também têm o dedo de Berlanti.

Geralmente, os produtos audiovisuais com o azulão nos mostram a juventude dele em Smallville (antigamente, chamada de Pequenópolis) ou a chegada em Metropolis, quando ele começa a trabalhar no Planeta Diário e conhece sua cara-metade, a premiada jornalista Lois Lane. Em 1993, tivemos a estreia de Lois & Clark, série que focava mais o relacionamento dos protagonistas, com vilões aparecendo ocasionalmente apenas para atrapalhar o romance dos dois. Clark frequentemente tinha que sumir, para que seu alter ego pudesse salvar o mundo, e Lois era deixada na mão.

Superman & Lois também se propõe a fugir do lugar comum. A diferença aqui, que promete tornar as coisas mais interessantes, é que essa nova série nos mostra Clark e Lois alguns anos à frente, mais velhos e com dois filhos adolescentes passando pelos conflitos da idade. Uma mãe presente, conciliando a família com sua carreira bem sucedida, e um pai que dificilmente participa dos eventos e se vê distante dos filhos. Isso tudo na velocidade do mundo de hoje, em uma grande metrópole, com os problemas que todos enfrentam.

Pelos primeiros episódios já exibidos nos Estados Unidos, podemos perceber que a trama familiar vai sempre ocupar um espaço grande na série. E não deixa de ser curioso acompanhar esse lado de Lois e Clark, um ao qual não estamos acostumados. Não se observa aqui o tom juvenil das demais séries do CW, que acabam agradando um público mais novo e torna o resultado restrito. Temos os gêmeos, com um ponto de vista próprio da faixa etária, mas temos também os adultos e os demais conflitos que afligem a comunidade.

Ao contrário do usual, o bilionário de caráter duvidoso de plantão, que compra as empresas e as pessoas por toda parte, não é Lex Luthor, mas Morgan Edge, também originado nos quadrinhos. E um vilão superpoderoso é apresentado no final do primeiro episódio, fazendo frente aos poderes do Superman. A série, ou ao menos a primeira temporada, deve rodar em torno desses antagonistas, além de desenvolver as questões familiares do casal principal.

Vistos inicialmente em Supergirl, temos novamente Tyler Hoechlin e Elizabeth Tulloch representando Clark/Superman e Lois. Hoechlin ainda deve ser lembrado por alguns como o filho de Tom Hanks em Estrada Para Perdição (Road to Perdition, 2002), mas já construiu um nome com outros trabalhos e tem a competência necessária pra um papel duplo complexo – além de ser fisicamente parecido com Christopher Reeve. E tem uma ótima química com Tulloch (de O Artista, 2011), que entende bem a essência de Lois e evita torná-la um estereótipo, a jornalista intrépida que vez ou outra é arrogante.

Outro destaque no elenco são os rapazes que vivem a nova geração dos Kents. Alex Garfin e Jordan Elsass (de Pequenos Incêndios Por Toda Parte, 2020) vivem dois irmãos bem diferentes, mas com uma cumplicidade própria de gêmeos. Quem já leu meia dúzia de revistas em quadrinhos na vida consegue prever o que o futuro pode guardar para eles. Completando o time, temos alguns nomes um pouco mais famosos, como Dylan Walsh, Emmanuelle Chriqui, Adam Rayner e Angus Macfadyen, como o grandioso Jor-El.

Com 15 episódios nessa primeira temporada e uma segunda já aprovada, Superman & Lois consegue a proeza de, mesmo se afastando do retrato usual de seu herói, ser mais fiel à fonte que outras produções mais badaladas. Berlanti, ao contrário de um Zack Snyder, deixou sua vaidade de lado e se voltou aos quadrinhos. Misturou vários elementos que encontrou com uma boa dose de criatividade e criou algo inusitado e, ao mesmo tempo, facilmente reconhecível. Se o fôlego se mantiver por todo o caminho, acompanhar será uma experiência agradável.

Com a estreia da nova temporada de Supergirl, Superman & Lois terá uma pausa

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Rosamund Pike se importa muito e dá show de interpretação

Dividindo crítica e público, Eu Me Importo (I Care a Lot, 2020) chegou à programação da Netflix entre elogios e acusações. Trazer Rosamund Pike como uma vilã fria e calculista evoca na hora memórias de Garota Exemplar (Gone Girl, 2014). Mas, aqui, ela é a protagonista que se aproveita da brecha entre Estado e iniciativa privada para explorar idosos. Humor negro do início ao fim, com diversas situações politicamente incorretas e nem um personagem eticamente admirável. Ou seja: uma ótima diversão.

Eu Me Importo acompanha uma personagem completamente canalha, que usa o nome bem construído como uma espécie de assistente social particular para se responsabilizar por clientes idosos que não dão mais conta de cuidar de suas próprias vidas. Ao invés de assegurar os interesses dos clientes, ela trata de vender todas as posses deles e pegar os valores como o salário que ela merece por olhar por eles. E os esquece em alguma clínica ou asilo.

Antes de entrar em detalhes sobre o filme, é necessário esclarecer que não tenho a menor ideia de como funciona essa questão de tutela de incapazes acima de certa idade. Se o que vemos ali é possível, não sei dizer. Se é, é fato que se trata de um buraco gigantesco no cumprimento dos direitos do ser humano. O pé atrás de alguns quanto ao filme pode começar aí. Teria que ser um juiz muito incompetente e um Estado totalmente complacente com a possibilidade real de golpe. Nada disso é impossível, claro.

Os problemas de Marla Grayson (Pike) começam quando ela assume as responsabilidades sobre uma cliente (a ótima Dianne Wiest, de A Mula, 2018) que aparentemente é perfeita: rica e sem parentes para reclamarem herança. Logo, aparece um advogado defendendo a suposta pobrezinha e a vida de Grayson começa a correr riscos. A dela e a da parceira de crime Fran (Eiza González, de Alita, 2019), que a auxilia em todas as etapas do golpe. Até nas pessoais. Todos os envolvidos no esquema passam a correr riscos, como por exemplo a médica responsável pelos atestados falsos (Alicia Witt, da série O Exorcista).

Com a chegada em cena do personagem de Peter Dinklage (o Tyrion de Game of Thrones), nos certificamos de que ninguém ali presta. E reside aí uma das maiores e mais frequentes críticas a Eu Me Importo: não há ninguém para torcer nessa trama, já que todos são criminosos e capazes das jogadas mais baixas. Como se isso fosse razão para dar nota baixa a um filme. Eu, como espectador, quero mais é que o pau quebre e que gere muitas situações interessantes e divertidas. Se não há um único ser íntegro, que eu torça para o roteiro, a montagem, a trilha sonora, o figurino, as interpretações…

Quem assina roteiro e direção de Eu Me Importo é J. Blakeson, responsável pelo também interessante O Desaparecimento de Alice Creed (The Disappearance of Alice Creed, 2009). Os dois longas têm um tom parecido, a cada personagem falta caráter e sobram intenções escondidas. Em Eu Me Importo, no entanto, algumas saídas são fáceis e peças se encaixam com uma tranquilidade questionável. À medida que a trama avança, essas estranhezas vão aparecendo e podem incomodar. Mas segue sendo um prazer ver os talentos de Pike, Dinklage e Wiest em cena até o final, que faz todo sentido.

O show é desses três: Dinklage, Wiest e Pike

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Judas e o Messias Negro é mais uma história forte e revoltante

Já em desenvolvimento há alguns anos, finalmente em 2019 a cinebiografia de Fred Hampton conseguiu sair do papel. O presidente da filial de Illinois do Partido dos Panteras Negras teve uma história muito interessante de luta, militância e traição e era questão de tempo até chegar aos cinemas. Quase que fazendo uma dobradinha tardia com Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7, 2020), chega Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah, 2021).

Assim como no filme de Aaron Sorkin, Judas traz uma história com grande força política ambientada no final da década de 60. Hampton também aparece no outro filme (vivido por Kelvin Harrison Jr.), orientando o colega Pantera Negra Bobby Seale, cofundador do partido. Agora, ganha o protagonismo na pele do ótimo Daniel Kaluuya (de Corra!, 2017), que compõe um personagem calmo, que calcula bem suas ações para evitar reações explosivas e dar um bom exemplo para seus liderados.

Além de Hampton, a outra figura marcante que conhecemos no início do filme é William O’Neal, vivido por LaKeith Stanfield (de Jóias Brutas, 2019). Ladrãozinho de rua, dos mais rasteiros, ele é preso e cooptado pelo FBI para se infiltrar nos Panteras Negras. Stanfield faz um grande dueto com Kaluuya: ambos têm personalidades fortes, sabem se colocar e fazem um trabalho fantástico. Enquanto Hampton é idealista e incorruptível, O’Neal é o sujeito que quer livrar a própria cara não se importando com o que terá que fazer ou sacrificar. Duas pessoas como as que conhecemos pela vida, que conseguem ser amigos apesar de suas diferenças.

Muito objetivo e bem montado, o longa não tem gorduras. O diretor e roteirista Shaka King (de Newlyweeds, 2013) demonstra ter a sensibilidade mais apropriada possível para a história e o teor político. Ele não foi o primeiro envolvido na produção, mas certamente foi uma escolha acertada. Duas ideias para um longa surgiram em paralelo, uma com os irmãos Kenny e Keith Lucas e outra com Will Berson, e os três se uniram a King para irem adiante. Nenhum dos quatro tem muita experiência no Cinema, mas aparentemente eles tinham muita paixão pela projeto, que fica clara na recriação da época e das situações.

Os registros da luta da população negra por seus direitos ganham aqui um grande reforço, ao lado de ótimos filmes recentes como Detroit em Rebelião (2017), Infiltrado na Klan (2018) e Uma Noite em Miami… (2020). Kaluuya já saiu na frente ganhando estatuetas e Judas e o Messias Negro ainda deve causar muito barulho na temporada de premiações. Merecido, por todas as suas qualidades técnicas e por fazer justiça a um grande líder do século XX que teve um fim injusto e violento. Uma tragédia que segue sendo muito atual.

Jesse Plemons representa o FBI

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O “filme do Pelé” chega à Netflix mostrando um rei soberano e com defeitos

Pelé foi incontestavelmente um dos maiores brasileiros do século XX. E o mais novo documentário da Netflix mostra como isso aconteceu, principalmente na seleção brasileira, sem omitir as falhas de uma pessoa que foi símbolo de um país em ascensão.

O documentário Pelé (2021), em seus mais de 1h40, não esconde a predileção em retratar a grandeza de Edson Arantes do Nascimento construída à base de talento e superação, mas suscetível a erros. Por sua importância ao longo de mais de 14 anos na seleção brasileira e participação direta em duas conquistas de Copas do Mundo – mais uma, machucado – Pelé tem sua história contada por ele mesmo e por nomes de peso do futebol, do jornalismo, da música e da política.

Nomes como os dos jogadores Zagallo, Rivelino, Paulo Cézar Caju, dos jornalistas Juca Kfouri, José Trajano, do cantor Gilberto Gil, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e até mesmo um dos responsáveis pela assinatura do Ato Institucional Número 5, Antônio Delfim Netto, ajudam a situar Pelé no mundo em que ele vivia ao longo de sua carreira, quando ele próprio parecia meio inerte. O local nesse mundo, para ser mais específico, era o Brasil.

O documentário se inicia com trechos de glórias do jogador e, num corte seco, mostra Pelé hoje com dificuldades de se manter em pé e com um andador. Quase que o retrato de um Brasil da década de 50, que perdeu a final de uma Copa do Mundo por 2×1 para o Uruguai, em casa, e que causou um grande choque na sociedade, no famigerado episódio conhecido como Maracanazo, aquela final no Maracanã.

Mas não é só. Conforme conhecemos a história de Edson Arantes do Nascimento, vemos que o país estava mudando. As belas imagens daquela época mostram essa evolução até chegar em 58, quando o jovem Pelé, recém-descoberto no Santos, ganha sua primeira Copa do Mundo na Suécia, aos 17 anos, sendo protagonista e responsável por aniquilar a síndrome de vira-latas que assolava o imaginário do brasileiro, como nomeou o escritor Nelson Rodrigues.

Não é de se estranhar que os diretores britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas optem por exaltar Pelé, obviamente por ser o protagonista da obra, da maneira que o fazem. Porém, a história do jogador é grande e magnífica o suficiente e o documentário acaba relevando outros nomes importantes dessa trajetória.

Pelé, ao lado de Manuel Francisco dos Santos (acima), o Mané Garrincha, jogou 30 partidas, com 26 vitórias e quatro empates. Os dois jamais perderam um jogo quando estiveram juntos em campo. Garrincha foi o grande nome da seleção em 62, no bicampeonato no Chile, quando o Rei se lesionou na segunda partida daquela copa.

O documentário sequer cita Garrincha. Pior: dá a entender que Amarildo, substituto de Pelé e importante personagem daquele mundial, foi o grande responsável pela conquista, mostrando um gol seu e logo depois o Brasil levantando a taça. Um esquecimento no mínimo bizarro, bem como pôr o período errado do governo FHC em determinado momento da obra.

O Santos, time que consagrou e foi consagrado por Pelé, também tem sua participação muito tímida. Ainda que seja acertadamente mostrado como o time mais relevante do país na década de 60, o documentário é muito pontual ao falar do clube paulista. Aliás, ainda que fosse realmente o time a ser batido naquela época, o Santos foi superado em alguns momentos, como pelo Cruzeiro de Tostão em 66. E, nisso, o documentário não toca, mostrando, mais uma vez, que Pelé parecia reinar sozinho.

Ainda sobre omissões, o ritmo é apressado ao ponto de o filme suprimir parte da ascensão de Pelé no Santos, mostrando-o sendo apresentado no time e logo depois já partindo rumo à Suécia conquistar a primeira copa. A pressa talvez seja justificada para se dedicar com mais calma à Copa de 70, no tricampeonato da que é chamada de maior seleção de todos os tempos. Essa parte é a que traz as melhores cenas, puro deleite para os fãs do esporte e do audiovisual, com depoimentos de época e imagens belíssimas daquela que foi a primeira copa televisionada em cores no Brasil.

Voltando a falar do Brasil, aliás, a obra não esconde a participação da ditadura militar na escolha dos nomes daqueles que iriam ao México em 70. Aquela sociedade em transformação culmina, em 64, no golpe militar e no terrível período de 21 anos sob esse regime. Pelé, como grande personagem da época, foi cobrado por seus posicionamentos, mas jamais foi contra os militares no poder. O documentário da Netflix não esconde isso, nem mesmo o jogador, que assume que não se importava com isso e que se preocupava (ou parecia se preocupar) apenas com o futebol. Um paralelo justo é feito por Juca Kfouri, entre Pelé e o boxeador Muhammad Ali, que não se omitiu em repreender a política dos EUA e se colocar contra a guerra do Vietnã.

Pelé, como um documentário, pode ser visto como uma obra que registra, de fato, um personagem que foi símbolo de uma época que é mostrada seja pelo viés do futebol, político, cultural ou social – ainda que não tão bem dosados assim. Um merecido registro de alguém que jamais deixou de estar nos holofotes – para o bem ou para o mal.

Peca como uma obra documental ao omitir nomes que são relevantes não só para Pelé, como também outros personagens importantes dessa história: da seleção e do futebol brasileiro. O espectador precisa recorrer a outros registros históricos para reconhecer essas pessoas e sacramentar que sim, Pelé foi gigante, mas não sem outros grandes nomes ao seu lado. O que só aumenta o talento e a dimensão do papel do Rei do Futebol dentro das quatro linhas.

Foto publicada no último Natal mostra Pelé hoje

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