Faroeste ganha fôlego com Godless

por Kael Ladislau

Um dos exemplos mais recentes de um faroeste reinventado, Godless é uma minissérie criada por Scott Frank (roteirista de Logan, 2017) para a Netflix em 2017. Ainda que seja um western clássico, não podemos dizer que a série se prende aos pieguismos do gênero. A cidade de La Belle, no Novo México, sofreu com um acidente em sua mina de carvão, que matou os 83 homens que trabalhavam nela. Sobraram poucos homens e muitas mulheres, que tiveram que se virar. E é aí que Godless se difere das demais obras clássicas do gênero.

Longe de serem meras mocinhas, as cidadãs do pequeno povoado tocaram o barco de suas vidas. Nesse contexto somos apresentados a Alice Fletcher (Michelle Dockery, de Sem Escalas, 2014), uma rancheira exilada do restante do povoado que cria cavalos ao lado do filho mestiço e da mãe índia de seu falecido marido. Alice e as cidadãs de La Belle são surpreendidas com a presença do caçador Roy Goode (Jack O’Connell, de Invencível, 2014). Ferido, Goode foge de seu pai de criação e bandido sem escrúpulos, Frank Griffin, interpretado pelo excelente Jeff Daniels (sim, o Harry de Debi & Loide, 1994). Jack promete – e cumpre – dizimar todos que protegerem o seu filho adotivo, que lhe roubou uma baita quantia.

Os sete episódios da série mostram a perseguição de Griffin a seu filho, escondido em La Belle com outro nome, dado pelo xerife com fama de acovardado – e míope – Bill McNue (Scoot McNairy, de Narcos México). A única que sabe da verdadeira identidade do forasteiro é Alice, que o contrata como domador de seus cavalos, mas sem saber do perigo que esse “asilo” lhe traz.

Ainda que seja esse o principal mote da série, Godless ainda conta os diversos problemas que a cidade enfrenta por não ter mão de obra qualificada para trabalhar em sua mina de carvão. E nesse plano que vemos personagens excelentes, como Mary Agnes (Merritt Weaver, da série Nurse Jackie), irmã do xerife e espécie de líder entre as viúvas de La Belle. Os contextos da série são diversos.

O expectador fica atento a cada minuto dos episódios, afim de saber como todos os eventos se relacionam e como se dará o eminente embate entre Griffin e Goode. Ou, então, como se sairá o xerife míope, que vai provar suas qualidades indo atrás de Griffin, temendo sua reação ao descobrir que o filho estava escondido na cidade.

A história é contada por ótimas paisagens e uma cenografia que faz jus ao faroeste. Sem falar da opção de se contar em preto e branco os flashbacks que vez ou outra são mostrados, que trazem uma colorização em elementos fundamentais para a narrativa, como sangue num corpo. Há também referências a clássicos westerns, como Rastros de Ódio (The Searchers, 1957), de John Ford.

Mesmo com uma trama bem sólida entre os protagonistas masculinos, Godless se destaca por dar um novo papel às personagens mulheres no gênero: elas dão tiros, resolvem seus próprios problemas, tomam decisões e se apaixonam. Bem diferentes do retrato da mocinha indefesa e dependente de seu pai ou marido, visto em outros clássicos westerns.

As mulheres são a grande força de Godless

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A Rede Vespa e Os Últimos Soldados da Guerra Fria

por Marcelo Seabra

*O texto abaixo foi escrito em 2011, ano de lançamento do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais. Esta semana, o cartaz da adaptação para o Cinema, Wasp Network, foi divulgado, concretizando uma previsão de oito anos atrás. O roteiro e a direção são de Olivier Assayas.

Os Últimos Soldados da Guerra Fria – A Resenha

É muito interessante conhecer a história de perto. Uma coisa é ler em um livro, ouvir alguém contar. Outra, é ir ao lugar, conversar com as pessoas, ver as evidências de perto. O novo livro do prestigiado Fernando Morais, autor de Olga, Chatô – O Rei do Brasil, A Ilha e outros, chama-se Os Últimos Soldados da Guerra Fria e revela fatos até então desconhecidos sobre os chamados Cuban Five, ou Cinco de Cuba. Na verdade, sobre toda a rede Vespa. No meu primeiro contato com essa história, não tinha ideia do que significava tudo isso.

No início da década de 90, Cuba se recuperava da crise que a queda de sua parceira econômica, a União Soviética, trouxe através do turismo. Hotéis de luxo eram construídos na ilha, milhares de pessoas visitavam o país. Por isso, empregos eram criados e a receita que entrava ajudava a manter a economia cubana em dia. O problema é que Fidel Castro e seus partidários tinham muitos inimigos morando nos Estados Unidos, sediados principalmente na Flórida. E esse pessoal não estava nada satisfeito vendo Castro e o país se recuperarem.

Os grupos anticastristas da Flórida já promoviam ações para tentar minar o governo cubano, como jogar pragas nas plantações e interferir nas transmissões do aeroporto de Havana. Com o crescimento do turismo em Cuba, o foco passou a ser outro: atacar aviões, hotéis e até navios em águas internacionais. Várias mortes foram causadas, o terror estava se instaurando e a ameaça à economia voltou a pairar sobre a ilha.

Foi aí que se formou a rede Vespa. Foi reunido um grupo de 12 homens e duas mulheres que se fingiram de desertados e se dirigiram aos Estados Unidos. A missão era se infiltrar em grupos de extrema direita e descobrir os planos de ataques para poder preveni-los. Desta forma, muita informação foi passada, muitas vidas foram salvas, muitas bombas foram desarmadas. Em 1996, dois aviões de um destes grupos, o Hermanos al Rescate, foram abatidos pela artilharia cubana em espaço aéreo internacional, com o saldo de quatro cidadãos americanos mortos.

O FBI já vinha investigando atividades de cubanos na Flórida há anos, e esse era o momento propício para o ataque. Buscando os 14 membros da rede Vespa, o FBI invadiu as casas onde eles moravam e conseguiu prender 10 dos 14. Dos 10, cinco se renderam às ofertas dos americanos e, em troca de detalhes das operações, entraram em programas de proteção à testemunha. Os cinco que ficaram presos se tornaram conhecidos como Cuban Five, ou Los Cinco de Cuba. Em Cuba, são vistos como heróis nacionais; nos Estados Unidos, são considerados culpados por espionagem, conspiração para cometer assassinato e outras atividades ilegais.

Todos foram condenados, após um julgamento que durou sete meses, e as penas vão de 15 anos a duas penas de prisão perpétua. Gerardo Hernandez ainda brincou com Fernando Morais, em um contato intermediado por familiares e autoridades, dizendo que, por ser comunista, não acreditava em Deus e, por isso, cumpriria apenas uma das penas. O escritor contou esta e outras histórias em uma palestra em Belo Horizonte, realizada para a promoção do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Foram 40 entrevistas, divididas entre Cuba e Estados Unidos – além de uma no México. Somadas ao material escrito levantado e aos vários depoimentos colhidos em off, elas deram condições a Morais de detalhar bem as situações e mostrar, mais uma vez, o apuro de sua técnica jornalística e a imparcialidade de seu texto, que busca sempre comprovação por fatos e documentos.

Tive a fantástica oportunidade de conhecer Cuba, onde passei férias em 2009, e foi quando tomei conhecimento da história dos cinco. Havia cartazes em diversos estabelecimentos pedindo a libertação deles. Sempre que eram mencionados, a aura de mártires pairava, e era difícil para mim e para meu colega viajante separarmos a verdade do exagero. Confesso que, até bem recentemente, eu não conhecia a situação a fundo e não saberia dizer quem estava certo: o povo cubano ou as autoridades americanas. Com o livro de Fernando Morais, fica fácil tirar conclusões e entender melhor a história.

O elenco de Wasp Network conta com Edgar Ramírez, Gael García Bernal e Wagner Moura

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Costner e Harrelson caçam Bonnie e Clyde

por Marcelo Seabra

No início de 1934, Bonnie Parker e Clyde Barrow eram um casal procurado em vários estados norte-americanos por assaltos e assassinatos. Há quem diga que foram injustiçados e se revoltaram, cometendo crimes estrada afora como Robin Hoods modernos. Mas há também quem afirme que tratava-se de criminosos da pior espécie, não merecendo qualquer piedade. Uma história como essas teria que chamar a atenção do Cinema.

Em 1967, Arthur Penn criou um clássico que até hoje faz escola: Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas. Com os memoráveis Faye Dunaway e Warren Beatty (abaixo) nos papéis principais, o filme elevou a carga de violência dos padrões de então e marcou com suas perseguições de carros. No entanto, fora a excelência cinematográfica, teve quem questionasse a romantização dos fora-da-lei. Agora, um novo filme pode ser visto como o outro lado: Estrada Sem Lei (The Highwaymen, 2019). E comete exatamente esse pecado: a romantização de um lado.

Em seu trabalho, Penn buscou mesclar o glamour com que a dupla era vista pelos moradores das cidades por onde passavam com a crueza de uma bala entrando na carne e a ferindo seriamente, com sangue jorrando. Se a visão que se tinha era de dois anti-heróis jovens e bonitos escapando das autoridades, na realidade eles eram dois fugitivos que não tinham sossego e pulavam de esconderijo em esconderijo, com um pequeno escorregão significando sua queda.

A nova produção da Netflix inverte os lados: os protagonistas, dessa vez, são os caçadores. Os Texas Rangers, espécie de xerifes das estradas, tinham sido debandados e não mais existiam, por serem difíceis de serem controlados. Frank Hamer era um dos mais famosos, de muitas habilidades e praticamente infalível. Já após os 50 anos, que antigamente pesavam bem mais do que hoje, Hamer é convidado a sair de sua aposentadoria, deixar a esposa rica em casa e sair entre as cidades atrás do famoso casal. Para a missão, ele convoca um antigo companheiro, Maney Gault.

Nos papéis de Hamer e Gault, temos dois atores irretocáveis: Kevin Costner (de Estrelas Além do Tempo, 2016) e Woody Harrelson (de Han Solo, 2018). É bem verdade que eles são capazes de cumprir a tarefa amarrados e vendados, mas isso não tira nada do mérito deles. Costner, inclusive, já contribuiu muito com o gênero faroeste, com filmes como Dança com Lobos (Dances With Wolves, 1990) e Wyatt Earp (1994), além de incontáveis policiais, como Os Intocáveis (The Untouchables, 1987), para ficar nos exemplos mais famosos.

O problema do roteiro de Estrada Sem Lei é se propor a ser um contraponto ao clássico de 67 e, por isso, não ter uma alma própria. Em tempos de regimes totalitários e violência policial crescente, não é nada interessante ter um filme que exalte figuras que aceitam que precisarão matar para resolver a questão. Dá a impressão de que, por mais que a sociedade queira fazer a coisa certa, é preciso ter à mão quem faça a coisa errada. OK, eles sentem um peso nas costas. Mas, ainda sim, estão prontos a fazerem tudo de novo. Bonnie e Clyde eram violentos sim, e talvez a força fosse necessária. Mas, com um plano bem bolado e um número superior de oficiais, talvez não fosse preciso se equiparar ao casal apelando para o massacre como primeira opção.

Apesar da experiência e de trabalhos como A Encruzilhada (Crossroads, 1987) e Os Jovens Pistoleiros (Young Guns, 1988), seus primeiros, o roteirista John Fusco assina bobagens como A Cabana (The Shack, 2017) e é esse lado que fica evidente em certas passagens dessa nova obra. O clichê que rege a relação entre os personagens principais, com o chefe bruto e calado e o colega mais leve e falastrão, é o problema inicial. John Lee Hancock, que comandou outra adaptação de um momento importante da história de seu país, O Álamo (The Alamo, 2004), não demonstra nada próximo do brilhantismo de Penn, o que reforça a sombra sobre seu filme.

Apesar dos problemas, Estrada Sem Lei tem seus méritos e diverte. A bela fotografia contemplativa de John Schwartzman (de Um Pequeno Favor, 2018) tem seus momentos, pontuada pela trilha discreta de Thomas Newman (de Spectre, 2015). A montagem poderia ser mais enxuta, Robert Frazen parece mais acostumado a filmes com pouca ação, como Fome de Poder (The Founder, 2016), também de Hancock. Mas, além de Costner e Harrelson, temos participações menores de Kathy Bates (de Feud), John Carroll Lynch (também de Fome de Poder) e William Sadler (de O Duelo, 2016), gente sempre interessante de acompanhar.

Kathy Bates, mesmo com pouco tempo de cena, é muito boa

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Warner/DC acerta o tom com Shazam

por Rodrigo “Piolho” Monteiro

Quando a Warner/DC anunciou que faria um filme do Shazam (antigamente conhecido como Capitão Marvel), era para ficar com os dois pés e uma mão atrás. Afinal, Shazam sempre foi um personagem leve, quase infantil, e a ideia da empresa de um universo sombrio, cínico e soturno não combinava em nada com essa essência. Felizmente, os fracassos (nesse caso, o retorno financeiro abaixo do esperado pelo estúdio) de público e crítica de Homem de Aço, Esquadrão Suicida e Batman vs Superman acenderam o sinal amarelo no estúdio. Ao invés de tentar fazer algo diametralmente oposto ao que a principal concorrente – a Marvel Studios – estava fazendo, porque não seguir a mesma fórmula?

O principal movimento da Warner na direção certa foi diminuir os poderes de Zack Snyder, até então a mente por trás de toda a iniciativa da criação de um universo cinematográfico da DC, e trazer Geoff Johns a bordo. Para aqueles que o desconhecem, Johns é uma das principais mentes criativas da editora. Atuando como roteirista de quadrinhos, ele foi o responsável por reformular personagens como o Lanterna Verde, Aquaman e o próprio Shazam, só para citar alguns, antes de passar um tempo como chefe criativo da empresa e, finalmente, abrir uma produtora exclusivamente para cuidar das adaptações da DC para a telona.

A influência de Geoff como produtor pode ser sentida inicialmente em Mulher-Maravilha (2017), que já se diferenciava bastante dos filmes de Snyder. Ao invés de um sentimento de desesperança e cinismo, com personagens atuando de forma sombria e, muitas vezes, descaracterizados em relação aos quadrinhos, vimos no filme da Amazona um primeiro sinal do que estava por vir. Filmes mais leves, mais divertidos e, porque não?, mais coloridos, onde a esperança é o sentimento mais presente.

Se, em Aquaman (2019), os fatores diversão e cores se fizeram bastante presentes, em Shazam eles chegam a limites jamais explorados em um filme da DC. Sim, fãs da DC que acham que os filmes da Warner só podem ser sérios: Shazam é o filme da DC que mais segue a fórmula da Marvel Studios. E, considerando todos os elementos que giram em torno do personagem, nada funcionaria melhor do que isso.

Para não estragar surpresas, o que pode-se dizer sobre Shazam (2019) é que se trata de um filme de origem. É um filme sobre como o orfão Billy Batson (Asher Angel, da série Andi Mack), por uma série de acasos, acaba sendo agraciado com os poderes do Mago Shazam (Djimon Hounsou, de Capitã Marvel, 2019) e assume o posto de campeão da magia. Ao dizer o nome do mago, Billy se transforma no mortal mais poderoso da Terra (vivido por Zachary Levi, da série Chuck).

Shazam é um filme que trata, de maneira bem condizente com seu material de base, como um menino rebelde de 14 anos se comportaria se, de repente, adquirisse capacidades super-humanas e como ele tiraria proveito delas. As sequências em que a versão adulta de Billy testa seus poderes, com a ajuda do “especialista em heróis” Freddy (Jack Dylan Grazer, de It, 2017), um dos adolescentes que mora na mesma casa de acolhimento de Billy, são hilárias. Freddy, aliás, é um dos grandes trunfos do elenco. Ele incorpora o nerd fã de super-heróis que, muitas vezes, não sabe muito o que diz, mas, graças ao seu conhecimento a respeito de seres poderosos, é fundamental na jornada de Billy para se tornar o campeão que deve ser.

Shazam é, principalmente, um filme sobre o valor da família. Sendo um órfão que sempre se virou sozinho, família é uma das coisas que o menino menos valoriza. Mas, na hora em que o bicho pega, quando a cidade da Filadélfia – e o próprio mundo – está sendo ameaçada pelo Dr. Silvana (Mark Strong, dos dois Kingsman – abaixo), que quer os poderes de Shazam para si, Billy descobre que apenas com o apoio de sua família, mesmo que emprestada, é o que fará a balança do poder pender a seu favor e colocá-lo devidamente na jornada de herói.

Shazam é, de longe, o filme mais divertido dessa safra de produções da Warner. E não poderia ser diferente, já que ele conta a história de um menino que, do nada, se transforma em um adulto superpoderoso e volta a ser menino bastando dizer uma palavra. Tanto a personalidade de Billy quanto a de Shazam foram muito bem trabalhadas e, se alguém tinha dúvidas a respeito da capacidade de Zachary Levi para o papel, elas se dissipam logo de cara. Claro, o filme tem aqueles problemas que a maioria das produções desse gênero carregam em seu DNA, como personagens tomando decisões que servem apenas à trama, o abuso da suspensão de descrença em algumas passagens e um terceiro ato um tanto quanto mais longo do que o necessário. Isso, no entanto, não tira em nada seus méritos.

A exemplo de praticamente todas as adaptações de histórias em quadrinhos atuais, Shazam tem duas cenas após seu final, uma no meio dos créditos e uma logo após eles. E, para aqueles que ficaram intrigados com o grande trecho aqui dedicado a Geoff Johns, sugiro que, após assistirem ao filme, leiam o encadernado estrelado pelo personagem de autoria de Johns. Ele foi lançado no Brasil há algum tempo pela Panini, mas, caso você tenha certa fluência em inglês, pode conferir online aqui.

Devagarzinho, Shazam chegou e passou na frente dos colegas

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Tim Burton dá vida a Dumbo

por Marcelo Seabra

Na onda do que parece ser um novo subgênero cinematográfico, as adaptações live action de clássicos Disney, chega às telas Dumbo (2019), novo trabalho do criativo diretor Tim Burton. Numa tentativa de fazer uma obra com os pés no chão, os animais falantes foram cortados e o elenco humano cresceu, buscando compensar essas faltas. O problema de ter muitos coadjuvantes é não poder dar muita atenção a nenhum, e eles ficam longe de atingir o mesmo pico emocional que os ratinhos engraçadinhos do original.

No meio de tantos personagens, até o próprio Dumbo perde espaço. O elefantinho adorável é criado por uma computação gráfica eficiente, como também os demais efeitos visuais do longa. Outro ponto positivo é a reunião de Burton com atores de produções passadas. Temos na tela ninguém menos que Michael Keaton, que viveu Batman (1989 e 1992) e Beetlejuice (1988), além do “Pinguim” Danny DeVito e da “Miss Peregrine” Eva Green. DeVito, inclusive, viveu outro dono de circo do diretor em Peixe Grande (Big Fish, 2003). Encabeçando o elenco, temos um correto Colin Farrell (de As Viúvas, 2018) como um viúvo que volta da guerra para se reconectar aos filhos e à vida civil.

A história do filme é basicamente a mesma do desenho de 1941: um elefantinho nasce num circo que anda meio capenga e é a esperança de dinheiro entrando. Num primeiro momento, todos fazem pouco do bichinho pela estranheza de suas orelhas enormes. Mas eles logo entendem que aquele é o grande trunfo de Dumbo: ele pode voar. Há muitas diferenças entre as duas obras e não vale a pena entrar nesses detalhes, já que uma independe da outra. Mas os temas permanecem os mesmos: aceitação, relações familiares, o mal da ganância.

Como é costume nas produções de Burton, a riqueza dos cenários é espantosa. Tudo é colorido, mas de um jeito meio sombrio, como a Gotham de Batman (1989). O parque Dreamland, inclusive, lembra muito o esconderijo do Coringa em A Máscara do Fantasma (1993), com invenções que vislumbram um futuro bem tecnológico. A diferença de Dumbo para os demais trabalhos do diretor é o tom infantil. Filmes como O Lar das Crianças Peculiares (2016), Frankenweenie (2012) e até Alice no País das Maravilhas (2010) são protagonizados por crianças e as têm como público principal, mas não deixam de agradar os adultos também, revelando camadas que podem ser percebidas por diferentes faixas etárias.

Alguns enquadramentos em olhares e expressões soam forçados e, por vezes, diálogos são excessivamente expositivos. Há situações irreais até para esse universo de fantasia. E esse clima de fábula é constantemente esfregado na cara do espectador, com ênfase até da trilha sonora. Ehren Kruger, roteirista de longas pesados como O Suspeito da Rua Arlington (1999), O Chamado (2002) e A Chave Mestra (2005), também tem suas derrapadas, como três dos Transformers, Os Irmãos Grimm (2005) e Ghost in the Shell (2017), além do constrangimento adolescente Sangue e Chocolate (2007). Dumbo é mais um ponto contra nessa carreira irregular.

As produções de Burton sempre têm cenários maravilhosos

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A história do Mötley Crüe contada pela própria banda

por Arthur Abu

Não é sobre sexo, drogas e rock ‘n’ roll. É sobre muito sexo, abuso de drogas e rock ‘n’ roll do início ao fim. The Dirt (2019), nova produção original da Netflix, estreou recentemente no catálogo. A cinebiografia não é necessariamente uma homenagem ao Mötley Crüe, mas uma confissão relevante de seus quatros membros sobre a história da banda, incluindo vários episódios controversos.

Dois minutos é o suficiente para meros curiosos mudarem de canal e se desculparem com a família (como se tivessem caído no infame gemidão do WhatsApp) ou se empolgarem ao se darem conta de que essa não é uma cinebiografia chapa branca estilo Bohemian Rhapsody (2018), apesar de que comparações serão inevitáveis.

Nikki Sixx (Douglas Booth, de Mary Shelley, 2017), Tommy Lee (Colson Baker, de Bird Box, 2018) Mick Mars (Iwan Rheon, de Game of Thrones) e Vince Neil (Daniel Webber, de O Justiceiro) são quatro rebeldes sem causas ou calças que se juntam para formar uma banda de rock que atinge o sucesso quase instantaneamente. O quarteto tem personalidades tão marcantes que elas chegam a ser caricatas. Logo na introdução, fica claro que veremos em cada um os distintos excessos da vida de um rockstar.

Cada um dos personagens poderia ser a estrela de sua própria história e, por isso, temos um filme sobre uma banda, e não sobre destaques individuais. O elenco jovem e sem rostos muito conhecidos (exceção para Rheon, de Game of Thrones) deixa a caracterização mais natural. Decepcionante é ver praticamente todas as mulheres retratadas como “groupies”, até os relacionamentos mais significativos são superficiais. Fazem parte também do elenco Kathryn Morris (de Fica Comigo, 2017), como a mãe de Sixx, Rebekah Graf faz a famosa atriz Heather Locklear e David Costabile (de The Post, 2017), que vive Doc McGhee, o empresário da banda.

Jeff Tremaine faz sua estreia na direção de uma obra ficcional. Apesar de novato nesse segmento, sua experiência com as bizarrices de Jackass o tornaram a pessoa ideal para levar às telas uma história que não vai jogar a poeira para debaixo do tapete. Fica clara a lição aprendida com Bohemian: eventos e datas da vida real modificados para darem mais dramaticidade à obra irritam não apenas os fãs de carteirinha. E o diretor tem conhecimento de causa, já que produziu também o documentário Mötley Crüe: The End (2016).

Quebras na quarta parede tentam tranquilizar o espectador quanto à veracidade da história, mas ao mesmo tempo são saídas um pouco preguiçosas. Ver outras lendas do rock inseridas na trama, alguns até mais loucos que o próprio Crüe, é um dos pontos positivos. Acertada também foi a decisão de distribuição pela Netflix, e não pela Paramount, que queria lançar um filme mais limpo e apropriado para audiências em geral. Se fosse esse o rumo tomado, provavelmente o filme passaria despercebido em meio a produções musicais mais relevantes.

O figurino e a maquiagem retratam muito bem os “fucking 80s”, como diz Sixx. A resolução disponível em Ultra HD 4K deixa bem viva a pluralidade de cores da época, tornando a estética bem confortável. O roteiro de Amanda Adelson e Rich Wilkes (de Triplo XXX, 2002) é baseado em The Dirt: Confessions of the World’s Most Notorious Rock Band, best seller assinado pelos próprios membros da banda – auxiliados por Neil Strauss. Recheado de clichês, o texto segue uma fórmula já esperada e não surpreende em momento algum.

O foco aqui é a viagem, e não o destino. Incluindo vários sucessos, como Kickstar My Heart e Home Sweet Home e ainda três novas canções feitas para o filme, The Dirt é um presente para os fãs da banda. Para aqueles não tão familiarizados, talvez o sentimento seja o mesmo que senti ao ver o show deles no Rock in Rio 2015 (sem conhecê-los bem): é um espetáculo divertido. Não vai emocionar, mas talvez convença a ler um pouco mais sobre os caras ou adicionar uma música ou outra nas playlists mais agitadas. Afinal, o próprio diretor admitiu que gostava da banda, mas que não era um super fã.

Os membros da banda prestigiaram o lançamento da Netflix

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Basquete voa alto na Netflix

por Marcelo Seabra

Sempre lembrado por ser um artista inconformado, que busca inovações e projetos variados, Steven Soderbergh dominou a forma de filmar com um Iphone e seu longa mais recente está na Netflix. High Flying Bird (2019) é praticamente um teatro com cenários variados, com diálogos densos e uma série de personagens inteligentes que constantemente se desafiam. E o bônus é a mensagem que fica, contra a ganância que cerca o esporte, que muda o foco do que realmente importa.

Depois da marcante estreia, com o independente e elogiado Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies and Videotape, 1989), Soderbergh enfileirou muita coisa boa, de filmes para o Cinema grandiosos e premiados a séries de TV. Ganhou um Oscar de Melhor Diretor por Traffic (2000), quando concorria também por Erin Brockovich (2000). O também premiado Tarell Alvin McCraney, roteirista de Moonlight (2016), se juntou ao diretor para desenvolverem uma história criada por André Holland (de Castle Rock). Não poderia ser diferente: o ator vive o protagonista de High Flying Bird.

Ray Burke é um agente esportivo em meio a um lockout, uma espécie de greve de patrões. Os dirigentes dos times brigam por mais dinheiro dos canais de TV, que pagam pelos direitos de transmissão das partidas. No fogo cruzado, estão os jogadores, que ficam com suas carreiras paralisadas. O principal cliente de Ray é o novato Eric Scott (Melvin Gregg, de American Valdal), que teve seu sonho de jogar na NBA colocado em espera. Entre o agente e o jogador está a assistente vivida por Zazie Beetz (de Velvet Buzzsaw, 2019), uma atriz a ser acompanhada.

O ritmo sofre algumas quedas e o meio do filme se torna um pouco monótono. Mas os diálogos afiados seguram a onda, incluindo na lista de bons intérpretes o cartola de Kyle MacLachlan (de Twin Peaks) e a sindicalista de Sonja Sohn (de Luke Cage). Outras duas participações que merecem ser mencionadas são as de Bill Duke (de Raio Negro), ótimo veterano que vive um técnico de basquete da comunidade local, e Zachary Quinto (o Spock de Star Trek), sempre eficiente como o chefe engomadinho de Burke. E há ainda alguns interessantes depoimentos de astros do esporte.

Alternando-se entre imagens urbanas simples e eficazes e cenários fechados, de escritórios e até elevadores, Soderbergh usa seu IPhone 8 de forma bem satisfatória, creditando sua fotografia e montagem aos pseudônimos de sempre, Peter Andrews e Mary Ann Bernard. Esse formato deve trazer muita agilidade ao projeto, facilitando sua chegada à Netflix. Quando você assusta, o filme, cuja produção foi anunciada há pouco, já está disponível.

Soderbergh conduz as filmagens com seu IPhone

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Netflix reúne veteranos para uma Operação Fronteira

por Arthur Abu

Um grupo de ex-soldados de operações especiais se reúne para uma última missão. O alvo? O chefe de um dos maiores cartéis de drogas da América do Sul. O propósito? Ficarem ricos.

Apesar dos dias de glória dos “guerreiros”, como se intitulam, terem ficado para trás, o elenco de Operação Fronteira (Triple Frontier, 2019) está longe de ser um grupo de veteranos esquecidos. Os amigos são recrutados por Santiago “Pope” Garcia (Oscar Isaac, de Star Wars – Os Últimos Jedi, 2017) e liderados pelo relutante Tom “Redfly” Davis (Ben Affleck, o atual Batman).

Eles são levados à tríplice fronteira da América do Sul inicialmente apenas para uma missão de planejamento estratégico. Mas a oportunidade de voltarem para suas vidas monótonas com os bolsos cheios de dinheiro certamente vai complicar não apenas a missão, mas a confiança entre eles. Com os personagens aos poucos mostrando suas verdadeiras facetas, nos questionamos se queremos ou não que eles completem a missão.

Completando o time de soldados, temos o palestrante do exército e condecorado capitão William “Ironhead” Miller, interpretado por Charlie Hunnam (do novo Rei Arthur, 2017). Apesar de, em seus últimos projetos, ter feito o papel de líder rebelde, Hunnam entrega uma performance mais discreta e deixa a liderança para a experiência de Affleck e o carisma de Isaac.

Pedro Pascal (de Narcos) está bem como o problemático piloto Francisco “Catfish” Morales e Garrett Hedlund (de Mudbound, 2017) fecha o time, como o irmão mais jovem de Ironhead. Sua interpretação varia de jovem irresponsável ao mais humano entre um esquadrão treinado para matar. Fora o quinteto, temos Reynaldo Gallegos (de Logan, 2017) como o chefão do tráfico, Lorea, e a bela Adria Arjona (de Círculo de Fogo 2, 2018), que faz o contato de Pope no cartel.

Decepcionam-se aqueles que assistem querendo apenas explosões e tiros do começo ao fim. O filme não é tão raso. A Netflix volta a abordar a lealdade entre “irmãos de armas” e o sentimento de rejeição sentido pelos ex-combatentes, temas recorrentes na recém-cancelada série O Justiceiro. Mas mesmo essa lealdade é testada e a ganância pode transformar essa fortuna em um Tesouro de Sierra Madre (como no filme de 1948).

A trilha sonora, empolgante desde o início, vai do Trash Metal, com Pantera e Metallica, aos clássicos de Bob Dylan, Creedence Clearwater Revival e Fleetwood Mac. O roteiro demora a retomar o ritmo explosivo do começo, com a sequência numa favela, e utiliza a trilha recheada de sucessos talvez para manter interessados os espectadores em momentos mais monótonos.

A produção sofreu vários atrasos e mudanças no elenco. Inicialmente, a vencedora do Oscar Kathryn Bigelow (de Guerra ao Terror, 2008) estava cotada para dirigir um elenco que cogitou Tom Hanks, Johnny Depp, Channing Tattum, Tom Hardy e Mahershala Ali. Bigelow acabou ficando com a produção executiva, mas seu parceiro constante Mark Boal se manteve como roteirista. A direção de J. C. Chandor (de O Ano Mais Violento, 2014), como sempre, nos presenteia com um bom filme, com uma história ambiciosa. Aqui, o porém é o ritmo inconstante.

Durante as filmagens, o elenco fez a festa de funcionários de um restaurante no Havaí

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Repescagem Oscar 2019: Querido Menino Anulado

por Marcelo Seabra

À medida em que os filmes vão estreando nos Estados Unidos, começa o barulhinho de Oscar, com previsões e suposições. Quando as indicações são reveladas, a carreira internacional dos que não estrearam ainda é diretamente afetada. Tivemos, esse ano, duas produções muito boas que passaram batido por terem sido esnobadas no prêmio. Ambas sobre famílias, focando no filho e suas questões. Enquanto Querido Menino (Beautiful Boy, 2018) mostra um rapaz se afundando em drogas, Boy Erased – Uma Verdade Anulada (2018) nos apresenta a um jovem que entra num programa de conversão de gays.

Com duas interpretações muito marcantes, Querido Menino traz a família Sheff, da qual o pai é um escritor que mora numa casinha afastada da cidade. O filho, em seus 17, 18 anos, começa a usar drogas e rapidamente perde o controle ilusório que viciados pensam ter. Steve Carell (de Vice, 2018) e Timothée Chalamet (de Me Chame Pelo Seu Nome, 2017) vivem os personagens principais e demonstram uma química enorme, funcionando muito bem como pai e filho.

O fato de o roteiro, escrito por Luke Davies e Felix van Groeningen (também diretor do longa), ser baseado nos livros dos verdadeiros David e Nic Sheff traz muito veracidade ao projeto. Nada é idealizado e acompanhamos de perto o buraco em que o menino se enfia, e acaba aprisionando toda a família. Groeningen vem do elogiado Alabama Monroe (2012), e seu co-roteirista, Davies, fez sua estreia também com um filme sobre drogas: Candy (2006).

Em Boy Erased, um pastor batista percebe que seu filho possa ser homossexual, o que ele considera ir contra suas crenças. Por isso, oferece uma escolha ao jovem: participar de um programa de conversão da igreja, para “resolver o problema”, ou se afastar da família e ser deixado de lado. Não é difícil imaginar o que ele escolhe. E é igualmente fácil se colocar no lugar dele e sentir toda a angústia que se instaura em sua cabeça. E o roteiro também é baseado no livro do personagem, Garrard Conley.

No papel principal, Lucas Hedges (ao lado) mais uma vez mostra que não brinca em serviço. Apesar da pouca idade (nascido em 1996), ele já coleciona ótimos trabalhos, como Manchester à Beira-Mar (2016). E ajuda, claro, ser filho (na ficção) de Russell Crowe (de A Múmia, 2017) e Nicole Kidman (de Aquaman, 2018), dois atores com um grande domínio de sua arte. O bom roteiro, somado ao talento deles, afasta qualquer possibilidade de clichê ou maniqueísmo, mostrando pessoas reais que, mesmo metendo os pés pelas mãos, estão tentando acertar.

A grande surpresa de Boy Erased é descobrir que, além de atuar nele, Joel Edgerton o escreveu e dirigiu. Ele fez sua estreia atrás das câmeras em O Presente (The Gift, 2015), um suspense surpreendente que mostrou que ele sabia bem o que estava fazendo. Aqui, Edgerton dissipa qualquer dúvida que possa ter ficado, se mostrando um diretor correto que entrega um filme bem amarrado, enxuto e poderoso. Ele fica na cabeça por um longo tempo e, assim como Querido Menino, rende boas discussões.

Edgerton brilha em frente e atrás das câmeras

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Tex é faroeste italiano nos quadrinhos

por Kael Ladislau

Adaptar histórias em quadrinhos para o cinema não é coisa nova. Na verdade, é uma prática que se inicia junto do século XX, quando a sétima arte ainda engatinhava, mas já levava o personagem Krazy Kat, de George Herriman, dos jornais para a telona. Hoje dominado pela DC e Marvel, o segmento das HQs no Cinema está cada vez mais seguro e ganhando mais e mais adeptos.

Mas a chamada “nona arte” não tem apenas suas representações pelas gigantes americanas e não conta apenas histórias de ficção-científica. Sua trajetória ao longo da história também perpassa pelo velho oeste americano, contadas por italianos. Sim, o Western Spaghetti também tem seu representante no cinema – e nos quadrinhos. Estamos falando de Tex Willer.

Tex é um personagem de HQ criado em 1948 pelos italianos Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepinni. O fascínio dos europeus pelo gênero puramente americano não era novidade e ele já vinha de décadas. Não diminuiu quando a ditadura fascista boicotava tudo quanto era produto importado. Inclusive os filmes. Foi aí que começou a crescer a produção de faroestes, que contavam histórias passadas nos EUA, mas tudo gravado na Europa. Esse vislumbre também era visto fora dos cinemas, em jornais que publicavam histórias de personagens que se aventuravam pelo Novo México, Arizona, Texas…

É nesse contexto que surge Tex Willer, que teve uma meteórica ascensão e passou pela década de 50 firme e forte e chegou na década de 60 como o principal nome das HQs italianas (os Fumettis). Ele fez com que Bonelli se tornasse uma espécie de Stan Lee macarrônico, criando mais e mais personagens, sempre com Tex de carro-chefe de sua editora. Dado o sucesso do personagem e os faroestes em pleno vapor, é claro que a ideia de levar o mocinho para as telonas surgiu, mas sempre foi postergada. Foi só na década de 80 que finalmente Tex teve suas aventuras contadas nas salas de Cinema, mas…

A década de 80 já não via mais no faroeste o seu maior expoente audiovisual. Na verdade, a ficção-científica ganhava as bilheterias mundo à fora desde o final da década de 60, com Star Wars e 2001, de Kubrick. Se a gente segmentar mais, os faroestes à italiana já não tinham fôlego nenhum: os filmes de Sérgio Leone, maior representante desse subgênero, foram os mais bem recebidos pelo público mundial, isso também em 60 e só. Fora ele, foram poucos cineastas italianos devidamente reconhecidos fora da velha bota ou mesmo na Europa.

Mas o nosso mocinho dos Fumettis chegou aos cinemas em 1985 com a história Tex Willer e os Senhores do Abismo (Tex e il Signore Degli Abissi). Tex é apresentado de forma fiel a seu cânone: um ranger do Texas – uma espécie de polícia da fronteira – que também é chefe indígena da tribo Navajo, posto herdado de seu sogro falecido e devido ao tremendo respeito que os nativos têm pelo branco. No Cinema e nas HQs, Tex é acompanhado por Kit Carson, outro ranger, e seu fiel parceiro Jack Tigre, um navajo que cavalga ao lado do nosso mocinho. Nas HQs, ainda existe Kit Willer, mas ele não aparece no filme.

Tex é chamado pelo comando dos rangers para desvendar o sumiço de um carregamento de armas militares em pleno deserto. Tex, Carson e Tigre vão investigar esse desaparecimento e descobrem que ele faz parte dos planos de uma espécie de revolta por parte de índios que vivem no México, liderados por uma divindade que se utiliza de pedras vulcânicas para matar seus inimigos.

A história que o filme apresenta é adaptada de uma das inúmeras histórias que Tex vive ao longo desses pouco mais de 70 anos de vida editorial. Mas está longe de ser a melhor ou a mais ideal para ir às telas. A pegada um pouco fantástica não caiu no gosto nem dos fãs, nem do público que não conhecia o personagem e nem mesmo de seus criadores, que detestaram o resultado.

Assinado por Duccio Tessari, que assina a direção de clássicos do bangue bangue italiano como Uma Pistola para Ringo, de 1965, o filme é mal dirigido e tem efeitos pobres. Infelizmente, ele não representa a força que Tex tem na Itália e no Brasil – onde é publicado há quase 50 anos ininterruptamente. Os pontos fortes do filme existem e um deles está no nome de Giuliano Gemma (de O Dólar Furado, 1965 – acima), talvez o maior ator italiano do faroeste. O galã vive o protagonista e sua caracterização é bem satisfatória, tendo o apreço de fãs até hoje.

O elenco ainda tem nomes como William Berger, que interpreta o rabugento, mas divertido, Kit Carson. A maneira como Berger atua, fazendo as caretas e as piadinhas típicas do personagem boneliano é outra atração que caiu nas graças dos fãs. As atuações em si são pontos fortes sobretudo por conta de Gemma e Berger. Mas as locações também merecem menção e os devidos créditos. Os italianos sempre fizeram questão de caprichar nos espaços utilizados e que remetem bem ao Velho Oeste Americano. Ainda, elas lembram bem os cenários vistos no papel em traços como os de Galeppinni, Giovani Ticci, Guglielmo Lettèri, entre outros.

Infelizmente, Tex Willer e os Senhores do Abismo sofreu com a demora em ser realizado, a escolha da história e o pouco caso de seus idealizadores. Mas o ícone Tex Willer vive forte nas bancas da Itália, Brasil e Portugal – por exemplo – e tem ganhado muito público, outrora chamado de velho. Com a “redescoberta” do gênero no Cinema – com novos clássicos como Django Livre (Django Unchained, 2012), Os 8 Odiados (The Hateful Eight, 2015), ambos de Quentin Tarantino, e Bravura Indômita (True Grit, 2010) e o recente A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs, 2018), dos irmãos Coen, para citar os mais famosos – sopra um fio de esperança no fã de Tex para ver seu herói novamente no Cinema. Quem sabe surfando na onda do sucesso da Marvel? Dessa vez, a época é a ideal.

O que não faltam são histórias de Tex para serem adaptadas

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