Programa do Pipoqueiro #44

por Marcelo Seabra

Um jovem inglês acorda para a vida ouvindo as músicas de Bruce Springsteen, e o Programa do Pipoqueiro aproveita a estreia de A Música da Minha Vida para trazer uma seleção do Boss! Clique no play abaixo e divirta-se!

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Netflix adapta mais Stephen King

por Marcelo Seabra

“Se você construir, ele virá”. Esse era o lema de Campo dos Sonhos (Field of Dreams, 1989), uma bela fábula sobre o perdão, sobre resolver pendências. Com algumas similaridades quanto ao tema, mas por um caminho bem diferente, temos uma novidade no gênero horror: Campo do Medo (In the Tall Grass, 2019). Por trás, há uma dupla que dispensa apresentações: o mestre Stephen King e seu filho, Joe Hill, que nunca precisou do sobrenome famoso para chamar atenção.

O conto foi publicado em 2012, em duas partes, e em 2015 o diretor e roteirista Vincenzo Natali manifestou o desejo de levar a história ao Cinema. Tanto ele insistiu que conseguiu um financiamento com a Netflix, que produziu duas boas adaptações recentes da obra de King: Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017) e 1922 (2017). Famoso desde o lançamento de Cubo (Cube, 1997), Natali se interessa por essa atmosfera de tensão de personagens presos em uma realidade da qual eles não conseguem sair – o que também lembra seu Assombrada Pelo Passado (Haunter, 2013).

A trama, escrita por King e Hill, nos apresenta a um casal de irmãos (acima, Laysla de Oliveira) que viaja pelos Estados Unidos e, ao pararem perto de um campo de grama alta, ouvem um grito de socorro de uma criança. Ao entrarem no mato, começa o pesadelo. O lugar vira um labirinto do qual não há saída. Quando a criança aparece, a semelhança com Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984) aumenta, recuperando outro recurso caro a King, que volta e meia envolve menores em suas histórias. Logo, um viés religioso entra no quadro e a situação piora.

Esteticamente, o filme já começa com cara de novela americana, o que incomoda bastante. À medida em que entramos junto com os personagens pela grama alta, outro incômodo surge: a expectativa constante de que algum vilão, ou algo mau, vá aparecer. Há bons momentos tensos que prendem o público. Mas a história parece um pouco esticada, trabalhada para passar da duração de curta-metragem. E essa expectativa acaba cansando.

Ajuda ter Patrick Wilson (o Ed Warren de Invocação do Mal) em cena. Mas, por incrível que pareça, a participação mais interessante é a de Will Buie Jr. (da série Acampados), um garoto extremamente expressivo que mantém uma certa dubiedade por toda a exibição. Os demais membros se revezam entre interpretações corretas e expressões exageradas, como o dublê de Jon Cryer (de Two and a Half Men) Avery Whitted. O elenco é pequeno e a trama os aproveita bem, dividindo de forma equilibrada o tempo em cena.

As idas e vindas do roteiro dão a entender que Natali quis ser mais esperto que os autores, inventando reviravoltas que terminam por não fazer sentido – e que não estavam no livro. Alguns elementos promissores são jogados na tela e logo desperdiçados. A falta de explicações ou, no mínimo, de coerência, pode deixar o público com a triste sensação de ter sido enganado. Ao contrário de Campo dos Sonhos, aqui nada vem porque nada é construído.

O garoto Will Buie Jr. é a melhor coisa do filme

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Música de Springsteen muda uma vida

por Marcelo Seabra

A música certa, no momento certo, pode mudar o nosso dia. Até, quem sabe, a nossa vida. Isso é o que fica muito claro após uma sessão de A Música da Minha Vida (Blinded By the Light, 2019) longa que nos apresenta a um adolescente que tem toda a sua visão de mundo mudada quando tem contato com as canções de Bruce Springsteen. A diretora e co-roteirista Gurinder Chadha mistura vários temas e sabe bem do que fala quando toca na questão do racismo na Inglaterra.

Baseado no livro Greetings from Bury Park – Race. Religion. Rock ‘n’ Roll, do jornalista Sarfraz Manzoor, o roteiro nos leva à Inglaterra de 1987, mais especificamente à cidade de Luton, a 50 km de Londres. Lá, os paquistaneses invariavelmente se tornam taxistas. Se a vida não está fácil para os ingleses, imagine para os asiáticos que moram e sofrem todo tipo de preconceito. Por isso, Malik Khan (Kulvinder Ghir, da série Beecham House), buscando uma vida diferente para seu filho, controla a rotina de Javed (Viveik Kalra, também de Beecham House) com mão de ferro.

Aos 16 anos, estudando e trabalhando como pode para ajudar a família, Javed não vê propósito em sua vida. Obrigado a levar adiante as tradições da terra de seus pais e proibido de participar festas ou farras, ele tem como único escape escrever poesias que o amigo tenta aproveitar em sua banda de synth-pop, mas julga deprimentes. Além de ter uma banda, Matt (Dean-Charles Chapman, de Antes de Dormir, 2014) também se dá melhor com as garotas, o que traz mais frustração para Javed, que não pode ser como o amigo.

No meio dessa rotina entediante, Javed ganha do outro paquistanês da escola duas fitas cassete com o trabalho inicial de Bruce Springsteen. Não dando muita importância para aquele cantor americano, que aparentemente vive em outra realidade e não poderia acrescentar nada, Javed dá uma chance ao material, tão bem recomendado pelo colega. E é aí que seu mundo vira. Letras tão viscerais, que descrevem tão bem seus anseios e frustrações, cantadas de forma tão enérgica, trazem conforto e servem de alavanca para Javed.

Enquanto acompanhamos o drama do rapaz e de sua família, conhecemos os costumes dos paquistaneses e o modo de vida na pequena Luton. A crise econômica da época de Margaret Thatcher é duramente sentida, com muito desemprego, e as bandas em alta na época, como Pet Shop Boys e a-ha, traziam diversão sem grandes pretensões. A música de Springsteen se mostra universal, mostrando a Javed que seus questionamentos eram os mesmos feitos em vários outros países. Quem vivia na região do Bury Park, em Luton, não pensava tão diferente dos habitantes de Asbury Park, Nova Jersey, cidade do cantor americano.

Mesmo entrando em tantos assuntos espinhosos, A Música da Minha Vida mantém um clima leve, até de fábula. Surpreende saber tratar-se de uma história real, do próprio Manzoor. Com um elenco bem equilibrado e uma trilha sonora fantástica, que funciona até para quem não é familiarizado com a obra do “Chefe” (ou Boss), o filme foge da onda de cinebiografias de artistas para focar em gente como a gente. E se afasta das armadilhas de um Yesterday (2019), mantendo-se simples e amável.

Enfim, Sarfraz Manzoor conheceu seu ídolo, Springsteen

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Coringa ganha o filme que merece

por Marcelo Seabra

Dos muitos heróis dos quadrinhos, somando-se aí as várias editoras que já os publicaram, Batman é provavelmente o que tem uma galeria de vilões mais interessante. É impressionante como aparece criminoso naquela cidade! E um dos mais marcantes sempre foi o Coringa, o Palhaço do Crime. Um psicopata que tem um senso de humor totalmente distorcido, que comete as maiores atrocidades com um sorriso no rosto. E é exatamente ele o protagonista do longa que entra em cartaz essa semana: Coringa (Joker, 2019).

Não à toa, o Coringa foi o escolhido para ser o vilão do primeiro longa do Batman a ser levado a sério no Cinema – que este ano completa 30 anos de seu lançamento. Um ator do porte de Jack Nicholson foi o escolhido para a missão, e não é por acidente que ele rouba a cena. Outra aparição marcante do personagem na tela grande foi na pele de Heath Ledger, duelando com o herói em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), pelo qual o ator levou um Oscar póstumo como coadjuvante.

Pois chegou a vez de o Coringa ser o personagem principal e é difícil pensar em quem seria melhor que Joaquin Phoenix. Ele já foi Jesus Cristo (em Maria Madalena, 2018) e Johnny Cash (Johnny & June, 2005) e trabalhou com diretores do porte de Woody Allen (em O Homem Irracional, 2015) e P.T. Anderson (O Mestre, 2012, e Vício Inerente, 2014). Mas é com o mediano Todd Phillips, mais lembrado pela trilogia Se Beber, Não Case, que ele chegou ao auge. Não é arriscado supor que muito de Coringa não estava no roteiro: Phoenix trouxe ao papel. São vários momentos introspectivos que permitem a ele brilhar. E sua criação parece conversar com as de Nicholson e Ledger, quem sabe até com a de Mark Hamill (do desenho).

Se Ledger já havia dominado o papel, o amigo Phoenix levou a tarefa além, criando toda uma psiquê para o personagem. Não costuma funcionar esse recurso de criar um passado para vilões para justificar a maldade (alguém se lembra de Hannibal – A Origem do Mal?). Colocá-los como protagonistas costuma diminuir o peso deles (caso de Venom, 2018). E a DC/Warner tem um histórico terrível ao dar protagonismo a vilões, Esquadrão Suicida está aí para comprovar (sem falar em uma certa Mulher-Gato). A dupla Phoenix/Phillips mudou o jogo.

O brilhantismo do roteiro de Phillips e Scott Silver (de O Vencedor, 2010) é desenvolver o personagem sem colocar panos quentes. Arthur Fleck é vítima da sociedade, tem um distúrbio mental, veio de um lar abusivo… Tudo o que se possa imaginar! Mas a maldade está nele como em um Dexter Morgan (da série de TV). Ele não é um bonzinho que se perdeu. Na clássica revista A Piada Mortal, ele sustenta a teoria de que qualquer pessoa está a um dia ruim de se tornar um psicopata. Mas isso só é verdade para ele mesmo. E a Gotham City do filme é a cidade perfeita para dar vazão a essa loucura. E ela infelizmente não está muito longe da nossa realidade.

A comparação com o mundo real nos leva a outra possível discussão: estaria o filme incentivando pessoas a agirem com violência? Claro, tanto quanto Clube da Luta (1999), o videogame GTA ou toda a franquia do Rambo. O filme mostra exatamente o contrário: para querer sair com uma arma pelas ruas, você não pode ser normal. A propensão à violência já está aí. Arthur é o herói do filme porque é o filme dele! Isso não significa que ele seja mostrado como normal, modelo ou líder. Pelo contrário, a crítica está presente o tempo todo. A sociedade te joga para baixo o tempo todo, mas isso não é desculpa para sair matando pessoas. E o problema, para Arthur, não são as mulheres, os negros ou os pobres. Pelo contrário: são os ricos.

Outro ponto impossível de ser esquecido aqui é a proximidade do longa com a obra de Martin Scorsese. Mais especificamente com Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1982). Por isso, a escolha acertada e proposital de trazer o excepcional Robert De Niro, parceiro frequente de Scorsese, para o elenco. A fotografia, assinada por Lawrence Sher (também de Se Beber…), ressalta a crueza das ruas, a tristeza dos cenários dos anos 80 para as minorias, para os marginalizados, e o contraste entre as áreas pobres e a parte rica, o centro comercial. E os subúrbios, onde encontramos a Mansão Wayne.

Os paralelos entre Arthur e os personagens icônicos de De Niro são claros, não cabe ficar apontando. E o veterano, aqui, muda de lado e se torna o bem estabelecido astro da TV, o que pode levar também à questão da espetacularização dos programas, do uso dos menos favorecidos na luta pelo Ibope. Com todo o seu pessimismo e a sua violência, Coringa nos faz pensar em vários pontos. Em momento algum, incita ou encoraja comportamentos destrutivos. É o filme que o personagem merecia, um retrato de alguém doente que chega ao extremo. Perturbador, incômodo, icônico, um provável clássico para as próximas gerações.

As encarnações do palhaço: Nicholson, Hamill, Leto, Romero e Ledger

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Brad Pitt ruma às estrelas

por Marcelo Seabra

Acostumado a dramas familiares e pessoais mais intimistas, o diretor e roteirista James Gray já havia partido para um projeto de proporções maiores com Z: A Cidade Perdida (2016). Três anos depois, ele mistura as duas propostas: um filme caro, visualmente ambicioso, mas ainda sim uma história totalmente focada em um sujeito e suas questões. Ad Astra (2019) tem, além de qualidades técnicas, a presença de um Brad Pitt maduro, segurando a obra nas costas.

Um dos destaques de Era Uma Vez… Em Hollywood (2019), Pitt emplaca outro trabalho no mesmo ano, este como protagonista. O início promissor nos avisa que se trata de um futuro próximo, com diferenças pontuais para o nosso hoje. No meio de uma situação misteriosa e catastrófica, conhecemos Roy McBride (Pitt) e suas qualidades. O astronauta é capaz de se manter tranquilo no caos e reage bem sob pressão. No entanto, não é por isso que ele é escolhido para sua próxima missão.

McBride descobre no susto, sem mais informações, que seu pai há muito desaparecido pode estar vivo. H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones, de Homens de Preto) foi um dos membros mais brilhantes do serviço espacial e liderou um projeto secreto para Netuno. Algo deu errado e nunca mais tiveram notícias dele. Agora, há razões para acreditar que ele seja o responsável pela tal situação catastrófica e Roy é convocado para fazer um apelo ao pai.

Até esse ponto, já conseguimos apontar furos no roteiro, que dá informações e não se preocupa em embasá-las, ou explicá-las. Daí para frente, Gray e seu parceiro Ethan Gross (da série Fringe) vão se perdendo de forma acelerada, entregando um roteiro que não respeita as próprias premissas. As informações que temos dos personagens são abandonadas tão logo seja necessário, e eles tomam providências que não batem com o que sabíamos.

A relação entre Roy e H. (ninguém se preocupou em dar um primeiro nome ao sujeito) e tudo o que aconteceu ao veterano lembra muito Apocalipse Now (1979). Ao considerarmos as relações familiares e o pano de fundo espacial, nos aproximamos de Interestelar (2014). E há cenas que nos remetem diretamente a Gravidade (2013). Ou seja: pouca coisa em Ad Astra é original. As metáforas, além de rasteiras, já foram vistas antes. E não ajuda em nada ter um subtítulo – Rumo às Estrelas – que repete o título, apenas traduzindo do latim.

Pitt de fato está muito bem como Roy, um cara distante que não consegue ter qualquer proximidade com os colegas de trabalho, que nunca passam disso. Nem com a esposa (uma pequena participação de Liv Tyler, de A Tentação, 2011), ele consegue estabelecer algo íntimo, e o ator convence evitando possíveis armadilhas, como a apatia. Além do protagonista, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland (de Jogos Vorazes) e Ruth Negga (de Warcraft, 2016) fazem o melhor que podem com o que cabe a eles. Acabam perdendo destaque para os efeitos especiais, esses sim as maiores atrações da obra.

Ruth Negga tem uma personagem bem inverossímil

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Luta de Hebe pela democracia chega ao Cinema

por Marcelo Seabra

O Brasil passa por uma grande recessão. A instabilidade política é enorme. Fala-se em democracia, mas a censura impera. E a classe política faz pouco ou nada para resolver a equação. Podia estar falando de hoje, mas o período em questão é 1985, época em que Hebe Camargo comandava um programa de auditório e era uma das mais populares comunicadoras do país. Esse é o ponto de partida de Hebe – A Estrela do Brasil (2019), longa que acertadamente se propõe a acompanhar um período curto ao invés de tentar abraçar toda uma vida.

Muito lembrada por 2 Filhos de Francisco (2005), a roteirista Carolina Kotscho parte para uma abordagem mais próxima de outro trabalho seu, Não Pare na Pista (2014). Focada em um recorte temporal relativamente pequeno, ela consegue desenvolver melhor seus personagens e os temas tratados. E é uma surpresa feliz constatar que a obra tem como principal alvo a defesa da democracia, algo extremamente atual. Da forma como tudo é mostrado, o título deveria ser Hebe – A Campeã da Democracia.

Politicamente confusa, ou no mínimo ingênua, Hebe dizia que não era de direita ou de esquerda. Sabemos que, em 100% desses casos, a pessoa se posiciona à direita. Um grande amigo da apresentadora, por exemplo, era Paulo Maluf, O Dr. Paulo, e a esposa. Mesmo assim, com essa miopia ideológica, Hebe sabia reconhecer uma injustiça quando a via. Ela se colocava a favor dos excluídos, como gays, aidéticos e transsexuais. Juntando isso aos convidados polêmicos que ela trazia ao seu sofá, mais o palavreado bem à vontade, o resultado não podia ser outro: fazer raiva nos censores.

Quando encontramos a personagem, ela fazia seu programa ao vivo na Rede Bandeirantes. Profundamente incomodado com o teor da atração, um censor (curiosamente parecido com um político da extrema direita) entra em embate com o produtor Walter Clark. A partir daí, a ação se desenrola e temos uma homenagem a Hebe e a sua luta pelas minorias. Apesar da pouca semelhança física, os atores fazem um ótimo trabalho. Andréa Beltrão usa os trejeitos de Hebe para de fato construir uma figura tridimensional, e não se restringe a fazer uma cópia pálida.

Vários membros do elenco estão acostumados a trabalhar juntos e o mesmo acontece com o diretor, Maurício Farias. São muitas as obras em que ele trabalhou com a esposa, Beltrão, e isso deve proporcionar uma confiança grande entre a equipe. Tudo parece funcionar bem, da recriação da época ao retrato daquelas pessoas que, até pouco tempo atrás, estavam na mídia – algumas ainda estão. Figuras famosas, como Roberto Carlos, Silvio Santos, Dercy Gonçalves, Roberta Close e as amigas Nair Bello e Lolita Rodrigues, aparecem na tela, ajudando a contextualizar os fatos.

É interessante perceber que Hebe tinha grande resistência a trabalhar na Rede Globo, e de fato nunca passou por lá. Ela temia ser tolhida e enquadrada no padrão da casa. E a gigante Globo Filmes é uma das empresas por trás de Hebe – A Estrela do Brasil. E a atração ainda será lançada como série em janeiro de 2020, com várias cenas a mais, como tem sido costume o canal fazer. Veremos se o resultado será tão satisfatório quanto o do filme.

A apresentadora e a atriz: uma bela homenagem

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Midsommar é terror para os mais fortes

por Marcelo Seabra

Após o sucesso de Hereditário (Hereditary, 2018), o diretor e roteirista Ari Aster passou a ser um nome a se acompanhar. Seu novo trabalho, Midsommar (2019), chega aos cinemas essa semana com a mesma promessa: bagunçar a cabeça do espectador com uma trama de terror que explora bem o clima de tensão, evitando sustos fáceis. Mas os dois filmes seguem caminhos totalmente diferentes, e o mesmo pode-se dizer do resultado atingido.

Fugindo dos cenários fechados e noturnos, como é costume em filmes do gênero, Aster nos proporciona uma obra clara, ensolarada, em campos abertos, o que gerou o subtítulo nacional O Mal Não Espera a Noite. O Sol mal se põe na região da Suécia onde a trama se passa. Um grupo de quatro amigos, três deles americanos, combina passar uns dias lá, na terra natal do quarto, para participarem de um festival local tradicional. Um deles acaba levando a namorada, que passou por traumas e está muito abalada.

 O relacionamento do casal obviamente já passou da data de validade, os dois parecem continuar juntos por inércia. Mas a viagem pode ser uma oportunidade para se divertirem. Os amigos não parecem muito felizes com a notícia, mas não há opção. A partir daí, Aster mostra seu domínio sobre a linguagem cinematográfica, fazendo metáforas visuais e brincando com as expectativas do público. Importante mencionar que até o trailer deve ser evitado, ou qualquer outro material que traga spoilers.

Assim como fez em Hereditário, Aster leva sua premissa o mais longe possível, e dificilmente o público vai ficar impassível. Os mais sensíveis terão uma experiência complicada, quase traumática. E esses caminhos podem não agradar a todos. E não por causa de violência ou hipocrisia puritana, mas por ver inconsistências naquelas situações. Cabe aqui uma observação em comum com o filme A Cura (A Cure for Wellness, 2016): você pode não gostar dos rumos, mas nunca se pode dizer que faltou coragem ao realizador. Talvez, tenha faltado amarrar melhor.

Como não poderia ser diferente, a maior parte do elenco é sueca, com destaque para Vilhelm Blomgren, que vive o amigo que convida os demais. Na ala americana, temos rostos mais conhecidos, como William Jackson Harper (da série The Good Place), Will Poulter (de Maze Runner) e Jack Reynor (de Detroit em Rebelião, 2017). A atração principal é Florence Pugh (de Lady Macbeth, 2016), uma grande atriz que acompanha muito bem as ações nem sempre coerentes de sua personagem.

Mais do que assustar, Midsommar deixa seu espectador incomodado. O clima de desconfiança naquele cenário idílico lembra o já clássico O Homem de Palha (The Wicker Man, 1973). O diretor de fotografia Pawel Pogorzelski (também de Hereditário) faz um ótimo uso das paisagens de Budapeste, que se passam pela vila sueca Hälsingland. A montagem, assinada por Lucian Johnston (adivinhe de qual filme), faz com que quase duas horas e meia passem relativamente rápido, num ritmo ágil na maior parte da sessão. O embrulho no estômago é que vai demorar a passar.

Florence Pugh é o destaque do elenco

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Aos leitores do Pipoqueiro!

por Marcelo Seabra

Caros leitores,

Aproveito a marca dos mil posts, atingida com a crítica de Bacurau, para agradecer a todos que têm visitado O Pipoqueiro, lido os textos, comentado, elogiado e descido a lenha. Comecei o blog em 2011 sem nenhuma pretensão de trazer A verdade e sigo assim, com textos claros, diretos e sem spoilers. Fico muito feliz com os retornos de leitores e estou sempre de olho nos comentários.

Para mim, o trabalho do crítico é alimentar discussões e trazer elementos para essas conversas. Se ele passa a servir como referência ou norte, é uma opção do leitor. Mas a crítica publicada não pretende ser a palavra final sobre a obra. É apenas uma visão, compartilhada por alguém que estudou, pesquisou e tenta embasar ao máximo suas opiniões.

Felizmente, o time de colaboradores ocasionais tem crescido, com alguns nomes novos aparecendo no blog. O meio da crítica cinematográfica também traz amizades e posso me orgulhar de ter feito algumas. Não é sempre que sobra tempo para assistir a filmes ou para escrever e a frequência dos textos não necessariamente é a que eu gostaria. Além de movimentarem as coisas, os colegas trazem pontos de vistas diferentes, sempre agregando mais valor.

Além dessa marca simbólica dos mil posts, é exatamente agora que o Programa do Pipoqueiro comemora dois anos de existência, com 43 edições – e contando. Sou também grato a quem acompanha meus palpites em áudio, e curte as músicas que seleciono com muito carinho. Para quem não sabe, gosto de Cinema e de Música na mesma medida e o programa me permite misturar essas duas paixões. Várias participações enriqueceram algumas edições do programa e me levam a expandir meus horizontes, trazendo uma mais que bem-vinda diversidade.

O blog tem atingido um público cada vez maior – no que a parceria com o Portal UAI ajuda muito. Agradeço também a quem o divulga aos amigos. Volta e meia, tenho retornos nesse sentido, de uma pessoa que indicou a outra e assim foi. A palavra do momento é, de fato, agradecimento. Sigo na luta, tentando trazer produções variadas e relevantes, além das bobagens divertidas e até de qualidade duvidosa. No Pipoqueiro, não temos um nicho. A ideia é celebrar a sétima arte. Que bom que você celebra junto comigo.

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Cinebio de Divaldo vai além do espiritismo

por Daniela Costa

Chegando aos cinemas essa semana, Divaldo – O Mensageiro da Paz (2019) traz à tona questões polêmicas e curiosas sobre a tão falada doutrina espírita. Contudo, apesar do cunho religioso, é uma obra que diz mais sobre a caridade do que de dogmas. A história de vida de um dos mais conceituados médiuns brasileiros, discípulo do lendário Chico Xavier, é contada pelo diretor e roteirista Clóvis Mello sem a pretensão de ser um documentário ou biografia. E muito menos de santificar a figura do professor baiano.

O longa-metragem mostra de forma leve, até cômica, os percalços enfrentados por um garoto que, desde a infância, é atormentado por visões de pessoas mortas. Fenômeno que ninguém conseguia explicar, especialmente por ele pertencer a uma tradicional família católica. Ironicamente, o espírito obsessor que o persegue até a sua fase adulta e quase o leva ao suicídio é de um padre, interpretado por Marcos Veras (de Tudo Acaba em Festa, 2018). Em contrapartida, Joanna de Ângelis (Regiane Alves, de O Menino no Espelho, 2014), sua guia espiritual, é uma freira.

Algumas cenas mostram o quanto a mediunidade pregava peças em Divaldo e até mesmo o colocava em apuros. Um exemplo é quando a avó materna, já desencarnada, chama do lado de fora da casa e exige que o menino avise a sua mãe, Dona Ana, brilhantemente interpretada pela atriz Laila Garin (de 3%), que ela estava ali para lhe falar. Outra cena o traz em conversa animada com o amigo índio que ninguém conseguia ver.

O elenco conta com belas atuações, com destaque para os três Divaldos: o ator mirim João Bravo, que faz a primeira fase do personagem, com toda a sua inocência e espanto diante dos fatos inexplicáveis; o jovem Ghilherme Lobo (de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014), que o representa em sua juventude, quando inaugura a Mansão do Caminho e arranca boas risadas dos telespectadores; e, por fim, o experiente Bruno Garcia (de O Amor Dá Trabalho, 2019 – abaixo), que mostra a fase adulta do médium, período em que lança o seu primeiro livro psicografado.

O cenário do filme é bem realista, gravado em cidades como Itu, Salto, Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Rio de Janeiro e Salvador. Figurino e maquiagem impecáveis mostram o apuro técnico dispensado à obra. Com produção de Raul Doria e Sidney Girão e apoio da Federação Espírita Brasileira, conta com coprodução dos estúdios FOX, as produtoras CINE e Estação Luz Filmes.  O roteiro, que tem como base o livro Divaldo Franco: A trajetória de um dos maiores médiuns de todos os tempos, da autora Ana Landi, também usa fatos e informações de relatos do médium e de obras espíritas de Joanna de Ângelis.

Indo além das questões religiosas, a trama é um exemplo de como a fé transforma e salva vidas. Em 72 anos dedicados ao próximo, e contando, Divaldo Franco já acolheu e abrigou mais de 40 mil crianças e adolescentes. Ao todo, o médium publicou cerca de 285 livros, com mais de 13 milhões de exemplares traduzidos para 19 idiomas. Todo esse trabalho é mostrado claramente, resultando num filme bem amarrado que faz justiça a uma pessoa que, entre erros e acertos, tem um saldo muito positivo.

Lobo posa com o verdadeiro Divaldo Franco

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Bacurau traz o melhor do Cinema nacional

por Marcelo Seabra

Quando o barulho promocional começou, parecia se tratar de um longa complexo, hermético. Um dos diretores vinha de obras conceituais, reflexivas. E muito elogiadas. Essa mistura, somada à ótima recepção em festivais, fez com que Bacurau (2019) fosse muito aguardado. Só que ele se mostrou bem diferente do esperado. Uma trama simples, objetiva e bastante carregada politicamente. Mesmo tendo sido pensado há anos, sobre um futuro hipotético, o filme se mostra extrema e tristemente atual.

Kleber Mendonça Filho (de O Som ao Redor, 2012, e Aquarius, 2016) se uniu ao parceiro habitual Juliano Dornelles (de O Ateliê da Rua do Brum, 2016) para fazer algo que ele sabe bem como fazer e que é muito necessário para a época em que vivemos: crítica. Tudo em Bacurau é muito claro e direto, com comentários facilmente extraíveis das cenas e situações vividas pelos personagens. Entrar em detalhes pode atrapalhar a experiência da sessão, mas pode-se adiantar que não há nada encriptado ou de difícil entendimento.

O roteiro, também assinado pela dupla de diretores, nos leva à pequena Bacurau, distrito no interior do Recife que amarga uma falta de água. Um caminhão-pipa resolve precariamente o problema e o prefeito se aproveita para aparecer e fazer promessas eleitoreiras. Acompanhamos as vidas dos moradores do povoado até que cheguem os acontecimentos que mudarão as coisas. Não é necessário relatar mais sobre a trama para que fiquem claras as várias críticas que são feitas à nossa sociedade. A ideia era misturar ficção-científica nesse caldo, mas é triste constatar o tanto que o que vemos se aproxima da realidade.

Um diálogo que particularmente bate com força em quem estiver assistindo é travado em inglês, com a participação de brasileiros. A escolha cuidadosa de cada palavra e a violência que se segue nada deixam a dever a um Tarantino. Se o diretor americano se metesse a filmar no nosso nordeste, certamente o resultado seria próximo. A trilha sonora tampouco deixa a desejar, com seus sintetizadores à John Carpenter causando estranheza e estabelecendo o clima.

Dentre vários talentos pouco conhecidos no elenco, tem-se que destacar a participação de Sônia Braga (de Aquarius). A veterana tem um peso natural em frente às câmeras e faz pouco esforço para brilhar. Outro nome famoso é o de Udo Kier (de Pequena Grande Vida, 2017), igualmente competente. Dentre os menos conhecidos, os destaques ficam por conta de Thomas Aquino (de 3%), Barbara Colen (também de Aquarius) e Silvero Pereira (de Serra Pelada, 2013), nomes a se acompanhar.

A trama de Bacurau não é exatamente inédita. Lembra muito um longa de 93, estrelado por figurão do gênero ação cujo penteado é homenageado aqui. Mas, tecnicamente, tudo funciona, e tem muito valor o comentário social que é feito. Kleber e Juliano seguem extremamente relevantes, conseguindo o difícil feito de fazer um filme divertido e, ao mesmo tempo, essencial a quem tem noção do que está acontecendo no mundo, mais especificamente no Brasil. Tudo indica que nosso futuro é trágico, mas não cairemos sem lutar.

Os diretores (esq.) levaram parte do elenco a Cannes e ganharam o Prêmio do Júri

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