Escritor tenta negar a História na Netflix

por Marcelo Seabra

Numa época em que alguns acham aceitável negar a gravidade de um vírus que vem matando milhares de pessoas pelo mundo, ou que é questão de opinião se determinado remédio é ou não eficaz contra o tal vírus, um filme como Negação (Denial, 2016) se faz imprescindível. Nele, tomamos conhecimento de um caso judicial que parece ficção e chegou ao fim em 2001. Ele reafirma que apenas ter convicção de algo não prova nada, a não ser talvez a imbecilidade ou falta de caráter de quem insiste em lutar contra os fatos.

Vivida com muita paixão por Rachel Weisz (de A Favorita, 2018), a professora de História Deborah Lipstadt lançou um livro no qual chama um escritor, David Irving, de negador do Holocausto, e usa outros adjetivos não muito lisonjeiros. Isso era uma descrição perfeita para o sujeito, mas ele não gostou da menção e a levou à justiça. Lipstadt se viu em uma situação em que precisava provar o que disse. Ou seja: se Irving mentiu, o Holocausto aconteceu. Seriam necessárias evidências. Por incrível que pareça.

No papel do pretenso historiador, temos o ótimo Timothy Spall (o Churchill de O Discurso do Rei, 2010), uma escolha fantástica da produção. Spall traz a falsa impressão necessária de credibilidade ao personagem, sempre muito amável e cordial, escondendo debaixo desses modos e da erudição uma pessoa odiosa e manipuladora. Ou, como em determinado momento ele é descrito, simplesmente um mentiroso. Afinal, já inventaram termos como pós-verdade e vemos frequentemente falarem em fake news para todo lado. Como o diabo, a mentira tem vários nomes.

Na equipe jurídica que representa Lipstadt, temos dois ótimos atores liderando. Nas práticas jurídicas inglesas de tribunal, há sempre dois advogados envolvidos: o que estrutura toda a parte teórica, no papel, e o que dá voz a tudo a isso. Andrew Scott (de Fleabag) é o solicitor, que é contratado pela professora, e Tom Wilkinson (de Titã, 2018) é o barrister, aquele que teria que olhar na cara de Irving. O escritor ainda se aproveita dessa diferença entre equipes – do lado dele é só ele – para se colocar como o Davi que luta contra Golias, tentando puxar para si a simpatia da opinião pública.

A justificativa de Irving para a ação é o prejuízo financeiro que ele teria tido, já que editores não se interessaram por suas ideias após ele aparecer nos escritos da professora. Ele chega a dizer que, para o público em geral, a definição de negador do Holocausto é como uma comparação com assassino ou pedófilo, o que teria destruído a reputação dele. A questão é que um criminoso como David Irving nunca deveria ter tido espaço para divulgar suas mentiras preconceituosas e sua reputação deveria ser exatamente essa: como a de um assassino ou pedófilo. Afinal, ele tenta reescrever a história tentando expiar e ocultar a culpa dos vilões. Já pensou se tentam fazer isso com a ditadura militar brasileira?

Scott e Wilkinson lideram o time legal

A memória em xeque

por Lívia Assis

Usualmente, um réu se apresenta em um processo contestando a ação pela qual está sendo julgado, apresentando uma defesa. Em Negação, Lipstadt é acusada por defender a verdade, ao passo que o autor da acusação deturpa acontecimentos reais. Esse drama histórico coloca em xeque o tema da memória.

A memória do Holocausto tem um duplo propósito: ao mesmo tempo em que serve como lembrança sobre o então maior crime contra a humanidade já cometido, funciona como mecanismo de construção de uma identidade coletiva entre o povo judeu. Mais do que um filme sobre um julgamento entre o que é moralmente certo ou errado, Negação mostra que negar uma memória coletiva de abrangência global é, acima de tudo, negar o discurso da história de um povo historicamente perseguido.

Fugindo do padrão de filmes com temática nazista-judaica, no qual são apresentadas as visões das vítimas e dos vilões, o drama baseado em fatos inova ao deixar a história falar por si só: as evidências são, em última instância, a verdade não deturpada.

Auschwitz-Birkenau vai sempre assombrar a humanidade

Publicado em Adaptação, Filmes, Homevideo, Indicações, Personalidades | Com a tag , , , , , , , , | Deixe um comentário

Netflix homenageia diplomata Sérgio

por Marcelo Seabra

Em agosto de 2003, um atentado a bomba contra a sede da ONU em Bagdá fez 22 vítimas. Um dos funcionários que estava presente era Sérgio Vieira de Mello, então detentor do título de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Com 34 anos de trabalho na organização, ele era conhecido pela simpatia, humildade e por defender seus valores. E era também o provável sucessor do Secretário Geral Kofi Annan. Depois de um documentário lançado em 2009, o diretor Greg Barker partiu para a versão ficcionalizada, já disponível na Netflix.

Sergio (2020) começa no fatídico desabamento do prédio usado pela ONU na capital iraquiana. O país vivia um conflito sangrento e Sérgio vinha de uma vitória diplomática no Timor Leste, já independente da Indonésia. A equipe estava no país desde maio e ficaria apenas mais seis semanas. Partindo desse dia, o longa vai e volta no tempo, visitando vários momentos da vida de Sérgio – como o diplomata fazia questão de ser chamado por todos. Essa montagem truncada acaba sendo um artifício para tornar as coisas mais interessantes, como se isso fosse necessário, tratando-se de Vieira de Mello.

No papel principal, temos o também produtor do longa Wagner Moura, um dos maiores nomes do Brasil no Cinema hoje. Com um jeito muito afável, ele cria um personagem de sorriso fácil, que conversa com todos e dispensa a mesma atenção a presidentes, guerrilheiros e artesãos. Logo, conhecemos Carolina Larriera, economista argentina vivida pela cubana Ana de Armas (de Entre Facas e Segredos, 2019). O romance entre Sérgio e Carolina toma boa parte do filme, buscando mostrar um outro lado do diplomata.

Quando a moça entra em cena, não sabemos como é a situação marital de Sérgio, e aos poucos recebemos mais informações. Ainda nesse esforço de humanização, descobrimos que ele tem dois filhos com os quais não tem tanto contato. Ao mesmo tempo em que mostra algo que pode ter uma conotação de defeito, o roteiro se desequilibra pintando quase um super-herói, alguém que parece resolver atritos internacionais sérios contando apenas com sua presença de espírito. Todo o trabalho de estudo e preparação se torna desnecessário, já que as saídas vêm invariavelmente de inspirações divinas. Basta olhar pela janela e a solução brota.

As situações profissionais que Sérgio precisa intermediar ficam em segundo plano quando é revelado como ele e Carolina se conheceram, e os programas que os dois faziam, e até os dois na cama – o que fica totalmente deslocado. Aí está a principal diferença entre esta adaptação do livro da escritora Samantha Power e o documentário anterior, também baseado na obra de Power: o foco. O roteirista Craig Borten tem experiência com histórias reais, ele assina Os 33 (The 33, 2015) e Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013). Aqui, no entanto, ele perdeu a mão.

Falando português, inglês, espanhol e francês, Moura exibe a segurança de sempre, e de Armas vem se mostrando uma atriz bem interessante. Os demais membros do elenco compõem bem o conjunto, com destaque para Brían F. O’Byrne (atualmente na série do Colecionador de Ossos), como o braço direito de Sérgio, e Garret Dillahunt (de As Viúvas, 2018), que vive o bombeiro que tenta ajudar nos escombros. Além dos bons atores, um mérito de Sergio é mostrar que seu protagonista não abaixava a cabeça para países, por mais poderosos que fossem. Não por orgulho ou vaidade, por buscar atingir um bem maior, coletivo. Sérgio Vieira de Mello merecia um filme à sua altura.

Mesmo sem ter passado pelo Itamaraty, Vieira de Mello é o maior nome da diplomacia brasileira recente

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Homevideo, Personalidades | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

Jessie Buckley brilha em As Loucuras de Rose

por Marcelo Seabra

Uma ótima oportunidade para conhecer o trabalho de Jessie Buckley é assistir a As Loucuras de Rose (Wild Rose, 2018), disponível no Amazon Prime Video. A atriz despontou no Reino Unido em um reality show e se revelou uma cantora de mão cheia. Por isso, nada mais coerente que vê-la interpretando uma encrenqueira que sonha em ser uma estrela da country music. O inusitado é ela ser escocesa e ter o sonho de ir a Nashville, mesmo sem nunca ter pisado nos Estados Unidos.

A famosa cidade do Tennessee, capital mundial do gênero musical, é o objetivo de Rose-Lynn, mas o máximo que ela consegue é ir em cana. Quando a conhecemos, ela está saindo da cadeia e voltando para a casa da mãe (Julie Walters, de Brooklin, 2015), onde vai encontrar os filhos pequenos dos quais ficou um ano afastada. Como se tivesse passado apenas um dia desde sua prisão, Rose tenta retomar sua rotina, reencontrando o namorado e buscando de volta seu emprego como cantora em um bar. Mas tudo fica mais difícil com uma tornozeleira eletrônica e um passado.

Passando rapidamente por essa complicada questão da reinserção social, o roteiro de Nicole Taylor (vinda de várias séries) foca nas bobagens que a impulsiva e sem noção Rose faz, mas enfatiza a energia da personagem, que não desiste facilmente do que busca. Ela é um pouco como uma criança, obstinada e sem medo, sempre em frente rumo ao seu sonho. A mãe é uma espécie de superego, que tenta freiá-la. Na maioria das vezes, sem sucesso.

Se o roteiro apresenta muito bem as personagens, peca no segundo ato. As situações parecem pré-fabricadas apenas para nos conduzirem ao terceiro ato. Problemas forçados, reações exageradas e consequências pouco críveis testam um pouco a paciência do espectador. Mas logo as coisas voltam ao normal para a conclusão, que retoma a essência da personagem principal e capta novamente a nossa atenção. E, nessas idas e vindas, quem segura a onda é Buckley, totalmente em sintonia com sua Rose, com suporte da ótima Walters. Tendo chamado a atenção em séries como Fargo e Chernobyl, Buckley mostra ter cacife para levar um longa nas costas.

Com direção do não muito experiente Tom Harper (de A Mulher de Preto 2, 2014), As Loucuras de Rose tem uma fotografia competente, mostrando a Glasgow que sufoca a protagonista por não ser muito receptiva ao estilo country, e uma edição competente e enxuta, que se resume ao necessário. A trilha ajuda a cativar o espectador, que acaba comprando a briga de Rosie e desejando a ela o melhor. Mesmo que, vez ou outra, dê vontade de lhe dar umas palmadas e umas lições.

Jessie Buckley tem a oportunidade de soltar a voz

Publicado em Filmes, Homevideo, Indicações, Música | Com a tag , , , , , , | Deixe um comentário

La Vingança é uma divertida viagem à Argentina

por Kael Ladislau

A comédia é uma zona perigosa. Aquela máxima de “até onde vai o humor” tem respostas das mais diversas e, muitas vezes, estúpidas. Longe dessa celeuma, alguns nomes e obras se arriscam a realizar um humor sagaz e de fato engraçado, sem apelar para a ofensa. Um ótimo exemplo pode ser encontrado em La Vingança (2016), filme brasileiro-argentino dirigido por Fernando Fraiha.

O longa conta a história de Caco (Felipe Rocha), um dublê que está em vias de pedir Júlia (Leandra Leal) em casamento. No dia do pedido, Caco encontra a namorada com outro. Um argentino. Para ajudá-lo a sair da fossa, o amigo Vadão (Daniel Furlán) resolve levá-lo à Argentina para “se vingar”, ficando com o máximo de mulheres possível. Argentinas.

Com essa premissa meio besta, o filme é um grande road movie com os dois personagens percorrendo de São Paulo a Buenos Aires a bordo de Opala 72, o Jorge, e se metendo em algumas confusões além da fronteira. Ainda que possa parecer mais um filme sobre o universo masculino recheado de misoginia e machismo, a obra consegue encontrar o tom quase perfeito do humor, aquele que não se preocupa em ofender, mas sim em brincar com as situações.

Isso se deve muito a Furlán. O ator, muito popular graças ao sucesso de Choque de Cultura (em que vive o motorista Renan), parece fazer o mesmo personagem de outras coisas conhecidas pela turma da TV Quase (a trupe do Choque). O que não chega a ser um problema. Vadão é o típico amigo babaca, mas que consegue tirar sarro da situação com um humor natural e um sarcasmo bem ácido, que lhe é bem peculiar. Ele consegue divertir com situações inusitadas, e sempre se dá mal.

Já Caco se remói pela descoberta da traição e se pergunta se vale a pena mesmo aquela aventura. Mais contido que o parceiro e vendo a enrascada em que se meteu, vive numa falsa esperança de ficar novamente com a (ex) amada. De coadjuvante, merece atenção Constanza (Aylin Prandi), uma cantora argentina meio hippie que a dupla encontra ao longo do caminho e que acaba tirando os dois do sério (ou o contrário).

Como o nome entrega, La Vingança brinca com a rivalidade Brasil x Argentina. Em algumas horas, essa tônica se excede e fica repetitiva – com os personagens insistindo na discussão “quem foi melhor: Pelé ou Maradona”. Não chega a cansar, mas emperra em determinados momentos.

O formato road movie é bem trabalhado. Conta com diferentes cenários e cidades, time lapses que ditam o ritmo da jornada e com personagens variados, em boa parte argentinos e que, com seu espaço, conseguem dar uma dinâmica interessante à obra. Isso resulta em situações que fazem o público rachar de rir. Os diálogos rápidos trazem pérolas que surpreendem.

A trilha merece uma atenção especial. Plinio Profeta consegue conversar o tempo inteiro com a obra como um todo. Faz um ótimo uso do clássico Raindrops Keep Falling on My Head (de B. J. Thomas, trilha de Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969), sem parecer piegas, e emprega uma trilha instrumental com uma pegada Ennio Morricone que dá um clima de vingança meio western, que casa muito bem com o argumento do filme.

La Vingança é uma mistura hermana em um road movie bem feito, uma trilha impecável e piadas que podem fazer chorar de rir, quando bem dosadas, sem parecer ofensivo. E o melhor: está disponível na Netflix. Vale o garimpo!

Jorge, o Opala, é um dos personagens da comédia

Publicado em Filmes, Homevideo, Indicações, Nacional, Sem categoria | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Netflix joga seus espectadores no Poço

por Marcelo Seabra

Uma das mais recentes atrações na Netflix a estrear e a causar um certo barulho, O Poço (El Hoyo, 2019) é o filme que ocupa atualmente o primeiro lugar entre os mais vistos na plataforma. E vem causando um nó na cabeça de quem assiste, já que não é exatamente claro. Ele usa metáforas e simbolismos para deixar muita coisa no ar. Mas é bom chamar a atenção dos mais sensíveis: enquanto ele nos joga em discussões interessantes, usa uma certa dose de violência que pode chocar.

Na linha dos melhores exemplares da ficção-científica, O Poço aponta para alguns problemas da nossa sociedade e propõe uma reflexão. Mas logo se bandeia para o suspense, deixando seu público aflito pelo futuro daquele sujeito que acabamos de conhecer e com quem já nos preocupamos. Goreng (Ivan Massagué, de Os Últimos Dias, 2013) acorda em um andar de algo que parece ser um enorme fosso de elevador, mais amplo e com vários lances acima e abaixo. No meio, um buraco por onde a comida desce. E, do outro lado, o “colega de cela” (Zorion Eguileor, de O Tempo Entre Costuras), um sujeito mais velho que, mesmo irritante, consegue estabelecer um bom convívio com Goreng.

A grande sacada é que a superfície que desce com a comida segue um caminho reto, sem voltas. Só há reabastecimento na próxima volta, e o mesmo rumo é percorrido. Há comida para todos (teoricamente), mas a questão é: as primeiras pessoas lá dentro comerão apenas o suficiente? Elas pensarão no próximo? Conceitos como solidariedade, ética, empatia e responsabilidade social se misturam aqui. Seria o Poço um experimento sociológico? Ou apenas um reflexo da nossa sociedade capitalista? Ou um retrato do que é a relação divino x humano?

O diretor Galder Gaztelu-Urrutia, que faz sua estreia em longas, deu entrevistas contando detalhes da trama, como de onde surgiu a ideia ou para onde ela se desenvolveria. Até um outro final foi filmado, um mais definitivo. Mas só importa o que está na tela e o que conseguimos tirar dali. Se os roteiristas (David Desola e Pedro Rivero) quisessem dar uma explicação, teriam o feito. Para uns, o confinamento no Poço é um castigo. Para outros, parece ser uma opção. Na prática, é a mesma coisa. Todos passam pelas mesmas provações.

No primeiro andar do Centro Vertical de Autogerenciamento, nome pomposo do complexo, estão a administração e a cozinha. Seriam o equivalente a Deus? O chef, responsável pela produção da comida, é extremamente criterioso, zelando por “seus filhos”. Mas é, no mínimo, ingênuo, já que a comida é bagunçada pelos primeiros que a tocam. Seria uma crítica ao Senhor? Ao sistema econômico, que privilegia o 1% de cima em detrimento dos demais? O roteiro não se preocupa em entregar uma resposta pronta. Se o que você procura é uma distração leve, não é aqui que deve procurar.

Seria Trimagasi o personagem mais interessante? Óbvio!

Publicado em Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações | Com a tag , , , , , | 3 Comentários

Fleabag é a pérola de Phoebe Waller-Bridge

por Marcelo Seabra

Dificilmente uma série vai te fazer rir e chorar como Fleabag. Ainda mais com tão poucos episódios. E com tanta frequência. Duas temporadas, cada uma com seis episódios curtos, provam a genialidade de Phoebe Waller-Bridge, criadora da atração e intérprete da protagonista. Como vários outros personagens lá, ela não tem nome, sendo creditada como Fleabag. A exemplo de muitos de nós, ela é uma jovem confusa, sarcástica e espirituosa. Popularmente, diriam que ela está na lama.

Surgida numa esquete teatral em 2013, Fleabag chegou à BBC em agosto de 2016 e foi comprada pela Amazon, que disponibilizou a temporada em seu serviço de streaming. Em 2019, foi produzida a segunda temporada, que leva os personagens adiante e acaba de deixar o público apaixonado por eles. Mesmo que não passemos tanto tempo com eles, logo nos afeiçoamos e Waller-Bridge é cirúrgica ao apresentar o que precisamos saber.

A protagonista é uma londrina em seus trinta e poucos anos que gerencia um café enquanto busca seu lugar no mundo. A irmã, Claire (Sian Clifford), é uma executiva que parece trabalhar muito para ficar longe do marido insuportável (Brett Gelman, de Stranger Things). O pai (Bill Paterson), um ser amável que parece incapaz de terminar uma frase, se envolveu com uma amiga da falecida esposa e a relação causa atritos com as filhas, de quem ela é madrinha. A curiosa mulher em questão é vivida por Olivia Colman, vencedora do Oscar de Melhor Atriz por A Favorita (The Favorite, 2018). E o interessante é que ela é apenas uma dos vários ótimos intérpretes na série.

Todos se integram muito bem e temos a sensação de estarmos vendo velhos conhecidos em cena, tamanha é a familiaridade entre eles. Na segunda temporada, temos a ótima adição de Andrew Scott (de 007 Contra Spectre, 2015), que chega como um padre descolado que bebe e fala palavrão. Mas o show sempre foi e segue sendo de Waller-Bridge, que parece ter o público na palma da mão, conduzindo-o como lhe convém. Cada olhada cínica para o lado, quebrando a quarta parede, reforça a cumplicidade entre os dois lados da câmera. Torcemos por ela mesmo sabendo que suas decisões podem não ser as melhores. Ela é apenas humana.

Com a bolsa cheia de prêmios (entre eles Globos de Ouro, Baftas, Emmys e os dos sindicatos de roteiristas americanos e britânicos) e outras dezenas de indicações, Fleabag já se provou um sucesso de crítica e público. Waller-Bridge, que escreve outras séries (como Killing Eve) e participa como atriz aqui e ali (como em Han Solo: Uma História Star Wars, 2018), fez seu nome definitivamente com essas tramas inusitadas e esses diálogos incisivos e brilhantes. E ela ainda arrumou tempo para coescrever o novo longa de James Bond. Para nossa tristeza, só não deve colocar em sua agenda uma nova temporada de Fleabag. Para ela, “foi uma bela despedida”.

Andrew Scott, o Padre, é um dos destaques da segunda temporada

Publicado em Adaptação, Indicações, Personalidades, Séries | Com a tag , , , , , , | 2 Comentários

Pacote Amazon Prime de Quarentena

por Marcelo Seabra

A exemplo do último post, que girou em torno da Netflix, esta é mais uma lista de indicações para se conferir durante esse período de isolamento social. No entanto, desta vez o serviço de streaming em questão é o Amazon Prime, que também reúne muitas obras interessantes. Não que não seja possível encontrar os filmes em outro lugar. Mas, lá, é certo achá-los.

A lista abaixo se divide em duas partes: os primeiros dez filmes têm suas críticas publicadas no Pipoqueiro – basta clicar no título para conferir. Os outros vinte são mais antigos, não têm crítica aqui, mas nem por isso não merecem a indicação. São longas fantásticos, nos quais você pode investir o seu tempo sem medo de errar, em gêneros variados para agradar a todos os gostos. Confira os 30:

Ilha do Medo (2010)

Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011)

Meia-Noite em Paris (2011)

A Caça (2012)

O Homem da Máfia (2012)

As Vantagens de Ser Invisível (2012)

Os Suspeitos (2013)

Na Mira do Atirador (2017)

The Post (2017)

Querido Menino (2018)

E os filmes a seguir são indicações seguras:

O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) + sequências

Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, 1975)

A Hora da Zona Morta (The Dead Zone, 1983)

A Caçada ao Outubro Vermelho (The Hunt for the Red October, 1990) + sequências e série

Fogo Contra Fogo (Heat, 1995)

As Duas Faces de Um Crime (Primal Fear, 1996)

Los Angeles – Cidade Proibida (LA Confidential, 1997)

O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998)

O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998)

Amnésia (Memento, 2000)

Náufrago (Cast Away, 2000)

A Mão do Diabo (Frailty, 2001)

A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002) + sequências

Minority Report – A Nova Lei (2002)

O Senhor das Armas (Lord of War, 2005)

Rejeitados Pelo Diabo (The Devil’s Rejects, 2005)

O Nevoeiro (The Mist, 2007)

O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2007)

Trovão Tropical (Tropic Thunder, 2008)

Watchmen: O Filme (2009)

Watchmen ganhou uma série-sequência na HBO

Publicado em Filmes, Homevideo, Indicações, Listas | Com a tag , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Pacote Netflix de Quarentena

por Marcelo Seabra

Pode ser bem trabalhoso ficar procurando algo para assistir em um serviço de streaming. Além do risco que se corre, já que há muita porcaria misturada a ótimas produções. Acaba batendo aquela sensação de tempo perdido, enquanto há tanta coisa boa para se descobrir.

Mas não tema, ó espectador desprevenido. O Pipoqueiro preparou uma lista de 15 bons filmes (e duas minisséries de bônus) cujas críticas já foram publicadas, basta clicar no título para conferi-las. Todas as obras estão disponíveis na Netflix, podendo aparecer em outros serviços também. Quem quiser conferir todas as críticas do Pipoqueiro de produções Netflix pode clicar aqui. Se preferir o caminho curto, confira abaixo:

12 Anos de Escravidão (2013)

O Ano Mais Violento (2014)

O Convite / The Invitation (2015)

Divertidamente (2015)

Aquarius (2016)

Até o Último Homem (2016)

A Chegada (2016)

O Cidadão Ilustre (2016)

Lion: Uma Jornada para Casa (2016)

Manchester à Beira-Mar (2016)

Sully: O Herói do Rio Hudson (2016)

1922 (2017)

A Livraria (2017)

Dois Papas (2019)

Jóias Brutas (2019)

 

Minisséries Bônus:

Safe (2018)

Olhos Que Condenam (2019)

Olhos Que Condenam é indicada a quem diz que racismo não existe

Publicado em Filmes, Indicações, Listas, Séries | Com a tag , , , , | 2 Comentários

Netflix acerta com Sex Education

por Marcelo Seabra

Com duas temporadas completas e uma terceira já em produção, Sex Education é uma ótima opção para quem procura entretenimento leve e, ao mesmo tempo, inteligente. O maior acerto da série é mostrar adolescentes como seres humanos reais, fugindo de estereótipos e encarando o óbvio: eles se interessam por sexo, com dúvidas, anseios e inseguranças. Fingir que a questão não existe pode sair muito caro para os adultos envolvidos.

Muito bem interpretado por Asa Butterfield (inesquecível em A Invenção de Hugo Cabret, 2011), que vai do seguro ao perdido em segundos, Otis Milburn tem 16 anos, vive numa cidadezinha inglesa onde todos se conhecem e a bicicleta é um meio de transporte muito comum e tem uma mãe especialista em sexo. Por conviver com a Dra. Jean Milburn (Gillian Anderson, a eterna Agente Scully de Arquivo X), ele acaba sendo bom em resolver os problemas sexuais dos colegas.

Agenciado pela inteligente Maeve (Emma Mackey – acima) e apoiado pelo inseparável Eric (Ncuti Gatwa), Otis começa a cobrar pelas consultas e, assim, conhecemos melhor os frequentadores da escola Moordale. E o que ninguém sabe é que o próprio Otis tem seus traumas. Tratar os outros é fácil, ele constata, enquanto luta com seus problemas. Paralelamente, temos tramas bem trabalhadas envolvendo vários outros alunos, como os recorrentes Adam Groff (Connor Swindells), Jackson Marchetti (Kedar Williams-Stirling) e Aime Gibbs, vivida pela ótima Aimee Lou Wood, que mistura uma cara de boba fantástica com uma sensibilidade enorme e tem um arco muito interessante na segunda temporada.

O elenco jovem de apoio é praticamente estreante, com poucos e desconhecidos trabalhos anteriores, e todos mostram grande competência. E os mais velhos também são marcantes, capitaneados pela veterana Anderson (ao lado). Variando dos menos famosos (como Mikael Persbrandt, de Rei Arthur, 2017) aos mais conhecidos (como James Purefoy, de The Following), eles se mesclam bem uns aos outros, dando grande naturalidade à série que, hoje, é a mais vista na Netflix. Com apenas oito episódios por temporada, é rápido e prazeroso acompanhar os dramas desse pessoal.

É de se espantar que a criadora de Sex Education, Laurie Nunn, tenha pouca experiência na TV ou Cinema. Com uma peça elogiada e alguns roteiros de curtas, ela partiu logo para um sucesso estrondoso no serviço de streaming, fazendo seu nome no showbiz. A tática de colocar um nome grande à frente do elenco, o experiente Butterfield, cercado de novatos, podia dar muito errado se eles não fossem escolhidos a dedo. Mackey e Gatwa, por exemplo, frequentemente roubam a cena, fazendo com que o público se importe genuinamente com seus personagens. E aguarde ansiosamente pela próxima temporada.

Os coadjuvantes também têm histórias interessantes

Publicado em Homevideo, Indicações, Séries | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário

Lost Girls traz luz a assassinatos misteriosos

por Marcelo Seabra

É triste constatar que determinadas pessoas parecem ter menos valor aos olhos da sociedade. A mesma prostituta que o cidadão de bem chama à noite, ele condena de dia. E, se ela misteriosamente sumir, não fará falta. Esse é o resumo do que trata Lost Girls – Os Crimes de Long Island (2020), versão ficcionalizada de um fato que começou a ser noticiado em dezembro de 2010, quando uma garota desapareceu e a mãe notificou a polícia.

Quando Shannan marca de jantar com a família e não dá notícias, a mãe não se preocupa, num primeiro momento. Mari Gilbert (Amy Ryan, de Querido Menino, 2018) estava acostumada com a filha ser um pouco distante, até relapsa. Elas moravam em cidades diferentes e encontros não eram muito frequentes. Mas a situação perdurou e Mari, com as outras duas filhas, buscou a polícia. Ao investigarem a história, eles acharam quatro cadáveres na costa de Long Island.

Desde o primeiro chamado, os policiais se mostram desinteressados, e o comissário e sua cara de cansado representam isso muito bem. Interpretado com a competência habitual por Gabriel Byrne (de Hereditário, 2018), o chefe da equipe parece bem intencionado, mas sem um pingo de vontade ou pró-atividade. Ele só se preocupa com sua vindoura aposentadoria, e um caso barulhento e mal resolvido só traria uma projeção indesejada.

Vários crimes notórios já chegaram aos cinemas – a própria Amy Ryan esteve em Sem Evidências (Devil’s Knot, 2013), no qual três adolescentes são logo apontados como culpados apenas para aplacar a opinião pública. Lost Girls faz parte do filão que mostra a polícia como incompetente ou, no mínimo, preguiçosa. É revoltante ver a pouca atenção que é dada para o caso e as possibilidades de esclarecimento que são descartadas sem o menor pudor. E policiais fazendo pouco das vítimas, “apenas umas prostitutas”. Enquanto isso, um possível serial killer está à solta.

Baseado no livro de Robert Kolker, o roteiro é assinado por Michael Werwie, que escreveu também Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile, 2019), sobre outro psicopata famoso. O argumento foi trabalhado com muita sensibilidade por Liz Garbus, diretora e produtora com larga experiência em documentários (como What Happened, Miss Simone?, 2015, também bancado pela Netflix). O foco se mantém na família da desaparecida, fazendo o espectador participar um pouco da dor e da dúvida quanto ao destino de um ente querido.

A verdadeira Mari Gilbert, que lutou muito para descobrir o que houve com a filha

Publicado em Adaptação, Estréias, Filmes, Homevideo, Indicações | Com a tag , , , , , , , | Deixe um comentário