Repescagem 2019: 1/3

por Marcelo Seabra

Parasita (Gisaengchung, 2019)

Certamente um dos filmes indispensáveis do ano, Parasita propõe um cenário de luta de classes muito rico. Tudo começa quando o professor de inglês de uma garota rica indica um amigo para substituí-lo na vaga. Esse sujeito entra na casa chique e logo vai se acostumando àquele estilo de vida. O diretor e roteirista Bong Joon Ho (de Okja, 2017) faz uma crítica muito interessante às acentuadas diferenças sociais que vale para sua Coréia do Sul, mas também para o resto do mundo capitalista. A forma de ver a chuva, por exemplo, varia muito entre quem tem uma casa boa e bem estruturada e quem não tem.

Dor e Glória (Dolor y Gloria, 2019)

Escrito e dirigido pelo prestigiado Pedro Almodóvar, Dor e Glória é um bonito drama com toques autobiográficos. Numa atuação fantástica de Antonio Banderas, conhecemos um diretor de Cinema que passa por um período de baixa criativa e reflete sobre as escolhas que fez. Outros três atores que fazem um belo trabalho são Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia e Penélope Cruz, ajudando a compor um quadro sensível que visita a infância de Salvador Mallo para nos ajudar a entender sua vida adulta.

Kardec (2019)

Com uma estrutura das peças teatrais mais convencionais, Kardec mostra a jornada do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail na chamada decodificação do Espiritismo. A princípio respeitado na sociedade parisiense, o educador logo se vê perseguido por quem o considerava um farsante. As duas atuações principais, de Leonardo Medeiros e Sandra Corveloni, seguram o longa que, apesar de um pouco cansativo, traz luz para uma figura interessante. Fatos são apresentados sem se pretender converter ninguém, mesmo com um diretor (Wagner de Assis) bem ligado a temas esotéricos.

Luna (2019)

Focado em questões importantes para o mundo adolescente, Luna acaba enumerando-as sem se aprofundar. E o pior: muitas vezes deixando pontas soltas sem a menor preocupação, como quando a menina pergunta para a mãe a respeito do pai e fica no vácuo. A equipe do longa está claramente empenhada e o diretor, Cris Azzi, busca abordar os assuntos de forma séria. As interpretações são de muita entrega, um comprometimento grande. Mas escolher poucos temas e enfrentá-los a fundo teria sido melhor que fazer uma lista e ir cortando.

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Netflix conta a história dos Dois Papas

por Marcelo Seabra

A final da Copa do Mundo de futebol de 2014, no Brasil, ficou com um duelo entre Alemanha e Argentina. Anos antes, os dois países já haviam protagonizado outro embate: eram deles dois dos principais candidatos a Papa. Começando desse ponto, em 2005, Dois Papas (The Two Popes, 2019) nos leva a conhecer Joseph Ratzinger e Jorge Bergoglio, figuras proeminentes na Igreja Católica que passam a ser candidatos ao cargo deixado pelo falecido Papa João Paulo II.

Como a história é amplamente conhecida, não importa tanto como acabará. O mais interessante é acompanhar os diálogos afiados entre os dois, pessoas inteligentes e razoáveis que buscam, dentro de suas convicções, o que é melhor para a Igreja. O roteirista, Anthony McCarten, tem experiência com histórias reais: são dele os roteiros de A Teoria de Tudo (2014), O Destino de Uma Nação (2017) e Bohemian Rhapsody (2018). Detalhe: todos os três foram vencedores de diversos prêmios para o ator principal, entre eles o Oscar.

Se as conversas são a parte mais saborosa do projeto, precisaríamos de dois grandes intérpretes para dar vida a elas. E é exatamente o que o diretor Fernando Meirelles (de 360, 2011) garante. Com uma semelhança física impressionante, Jonathan Pryce (de A Esposa, 2017) vive Bergoglio, o futuro Papa Francisco. As piadas e memes relacionando os dois apareceram desde o início do pontificado de Francisco, ainda mais com Pryce fazendo um líder religioso em Game of Thrones. E coube a Anthony Hopkins (de Westworld) interpretar Ratzinger, que logo se torna Bento XVI e enfrenta graves crises na instituição.

Sem entrar tanto nos escândalos de pedofilia envolvendo padres, o filme foca nas diferenças entre as duas referências. Enquanto o alemão é conservador e sofisticado em seus hábitos, o argentino é progressista e humilde, fazendo questão de dispensar os luxos dedicados a ele. Nada do que vemos difere muito do que era divulgado sobre ambos, apenas confirmando impressões. Mas Pryce e principalmente Hopkins conseguem humanizar seus retratados. Se Francisco era visto por todos com simpatia desde o início, o mesmo não pode ser dito de Bento, que exibia frequentemente uma expressão de gênio do mal. Hopkins é muito bem-sucedido ao buscar a humanidade do personagem.

Outro mérito do roteiro de McCarten é trazer luz para a vida de Bergoglio antes de se tornar um cardeal. Na pele do ótimo argentino Juan Minujín (de Golpe Duplo, 2015), o padre faz algumas escolhas questionáveis e vemos as consequências. Enquanto o passado de Ratzinger fica para escanteio, com apenas algumas menções a possíveis ligações nazistas, Bergoglio fica bem em evidência durante a sangrenta ditadura na Argentina. Além da dificuldade de lidar com um texto profundo e ágil, os atores ainda precisaram se alternar entre línguas. Italiano, inglês e latim era comum aos dois, com Pryce falando também em espanhol com sotaque argentino. O alemão de Hopkins ficou bem superficial, o que deve ter sido um alívio para ele.

Ainda muito lembrado pela obra-prima Cidade de Deus (2002), Meirelles mostra mais uma vez ter o domínio do trabalho. Uma trilha discreta, uma fotografia que explora bem o Vaticano e os demais cenários utilizados, tanto campos abertos quanto quartos e salas, uma montagem objetiva e figurinos bonitos e funcionais são qualidades de Dois Papas. E o longa traz luz sobre a transição entre os Papas, ponto que pode não ter ficado claro para muitos na época. Mais um ponto para a Netflix, que bancou a produção e já a disponibilizou aos assinantes.

Estes são Francisco e Bento da vida real

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A Ascensão Skywalker fecha a nova trilogia Star Wars

por Marcelo Seabra

Em 2015, tivemos nos cinemas um novo episódio da saga Star Wars após um longo hiato. Coube a J.J. Abrams a grande responsabilidade de conduzir personagens tão amados, além de apresentar os novos responsáveis por darem continuidade à série. O Despertar da Força (The Force Awakens, 2015) foi muito bem recebido por fãs e novatos. No entanto, o episódio seguinte, Os Últimos Jedi (The Last Jedi, 2017), teve uma recepção dividida, o que levou a Lucasfilm a fazer uma escolha mais segura: trazer Abrams de volta.

Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker, 2019) acabou tomando um rumo diferente do que parecia que aconteceria. O roteirista e diretor Rian Johnson usou em Os Últimos Jedi a nostalgia que cerca os personagens clássicos, mas os levou adiante, indo corajosamente aonde nenhum homem jamais esteve. Abrams parece ter puxado o freio de mão, ficando com decisões mais óbvias e convenientes. O que não torna o longa ruim. Frustrante seria a palavra apropriada.

A Ascensão Skywalker, primeira vez na franquia em que se usa no título o icônico nome dos protagonistas, continua a história da batalha da Resistência contra a Primeira Ordem de onde havíamos parado. Enquanto Rey (Daisy Ridley) segue em seu treinamento para se tornar uma Jedi, Poe (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) cumprem missões visando enfraquecer a Primeira Ordem. Kylo Ren (Adam Driver), líder supremo, busca descobrir de onde veio uma transmissão que dá a entender que o Imperador Palpatine está vivo.

Nenhum dos atores chega a oferecer algo de diferente. Tudo que vemos aqui em termos de interpretação é a manutenção do que foi visto antes. Talvez um destaque seja as tentativas de humor com Poe. Temos algumas novidades, das quais a principal é Richard E. Grant (de Poderia Me Perdoar?, 2018 – ao lado) como um general formado na escola Peter Cushing de maldade. O fato que mais emociona o espectador é saber que Carrie Fisher se foi, o que obviamente torna sua participação menor. Abrams aproveita certos momentos para fazer um afago nos fãs de longa data, homenagens que, ao mesmo tempo, fazem sentido, pontuadas pela marcante trilha de John Williams.

O roteiro, escrito por Abrams e Chris Terrio (de Argo, 2012), apresenta fatos que não chegam a contradizer o que vimos antes, mas chegam perto disso. Enquanto antes tínhamos a sensação de que todos poderiam ser heróis, aqui a atenção se volta para os principais. É como se Abrams estivesse desautorizando as liberdades tomadas por Johnson. A maior surpresa, estragada pelo trailer, é a participação de Billy D. Williams, que volta ao papel de Lando. O problema é que muita gente na sala parecia nem se lembrar dele. Outro hiato, até o inevitável próximo filme, fará bem para o universo de Star Wars.

Parece que ficaremos uns anos sem ver esse pessoal

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Programa do Pipoqueiro #48

por Marcelo Seabra

O Programa do Pipoqueiro traz diversos convidados falando sobre seus filmes de Natal favoritos, com comentários e músicas para fechar bem o ano! Aperte o play abaixo e divirta-se!

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25 frases marcantes do Cinema

por Mais Mensagens

Muitas das frases marcantes que conhecemos vieram do Cinema. Trechos que, de tão impactantes (carregados de significado ou simplesmente cômicos), viraram jargões entre os fãs de produções cinematográficas – e até mesmo para quem não é tão fanático.

Às vezes, basta escutarmos a tal frase para imediatamente lembrarmos do filme. O que mostra como um roteiro inteligente, bem escrito e trabalhado consegue levar a obra para muito além das telas, perpetuando sua popularidade.

Entre tantas frases inesquecíveis, destacamos e listamos vinte e cinco delas. Confira:

1 – PS: Eu Te Amo (2008)

Créditos da imagem: mais mensagens

Original: “You were my whole life, but I … I was just a chapter of yours”.

Tradução: “Você foi a minha vida inteira, mas eu… Fui só um capítulo da sua”.

 

2 – Star Wars – Episódio V: O Império Contra-Ataca (1980)

Original: “I am you father.”

Tradução: “Eu sou o seu pai.”

 

3 – Apollo 13 (1995)

Original: “Houston, we have a problem.”

Tradução: “Houston, nós temos um problema.”

 

4 – Sociedade dos Poetas Mortos (1989)

Original: “Carpe diem. Seize the day, boys.”

Tradução: “Carpe diem. Aproveitem o dia, garotos.”

 

5 – De Volta Para o Futuro (1985)

Original: “Roads? Where we’re going we don’t need roads.”

Tradução: “Estradas? Para onde vamos não precisamos de estradas.”

 

6 – O Poderoso Chefão – Parte II (1974)

Original: “Keep your friends close, but your enemies, closer.”

Tradução: “Mantenha seus amigos próximos, mas seus inimigos, mais próximos ainda.”

 

7 – Procurando Nemo (2003)

Original: “Just keep swimming.”

Tradução: “Continue a nadar.”

 

8 – O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002)

Original: “My precious.”

Tradução: “Meu precioso.”

 

9 – As Aventuras de Sherlock Holmes (1939)

Original: “Elementary, my dear Watson.”

Tradução: “Elementar, meu caro Watson.”

 

10 — Último Tango em Paris (1972) 

Original: “Go, get the butter.” 

Tradução: Vá pegar a manteiga. 

 

11 — Forrest Gump (1994) 

Original: “Run, Forrest, run.” 

Tradução: Corra, Forrest, corra. 

 

12 — Os Suspeitos (1994) 

Original: “The finest trick of the devil is to persuade you that he does not exist.” 

Tradução: O melhor truque que o diabo inventou foi te convencer de que ele não existe. 

 

13 — Crepúsculo dos Deuses (1950) 

Original: ”I am big. It’s the pictures that got small.” 

Tradução: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos. 

 

14 — Cidadão Kane (1941)   

Original: “Old age… It’s the only disease, Mr. Thompson, that you don’t look forward to being cured of”. 

Tradução: “Velhice… É a única doença, Sr. Thompson, da qual não se espera ser curado”. 

 

15 — Cidade de Deus (2002) 

“Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra!” 

 

16 – Tropa de Elite (2007)

“Você não é caveira. Você é moleque!”

 

17 — Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977)

Original: “May the Force be with you.”

Tradução: “Que a Força esteja com você”. 

 

18 – Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001)

Original: “It is not worth living dreaming and forgetting to live”.

Tradução: “Não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver”.

 

19 — Cobra (1986) 

Original: “You’re the disease, and I’m the cure.” 

Tradução: “Você é a doença, e eu sou a cura!” 

 

20 – Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

Original: “You either die a hero or live long enough to see yourself become the villain”.

Tradução: “Ou você morre herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão.” 

 

21 – 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999)

Original: “I hate not being able to hate you no matter how hard I try or how little you do”.

Tradução: “Odeio não conseguir te odiar por mais que eu tente ou por menos que você faça”.

 

22 – A Culpa é das Estrelas (2014)

Original: “You gave me an eternity within our numbered days”.

Tradução: “Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados”.

 

23 – Simplesmente Amor (2003)

Original: “You’re perfect to me”.

Tradução: “Para mim, você é perfeita”.

 

24 – Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994)

Original: “Life is like a box of chocolates. You never know what you will find”.

Tradução: “A vida é como uma caixa de chocolates. Você nunca sabe o que vai encontrar”.

 

25 –  Clube da Luta (1999)

Original: “The first rule of Fight Club is: You do not talk about Fight Club.”

Tradução: “A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta.”

*Observação: uma regra que claramente ninguém seguiu o filme inteiro.

Ufa! Que lista de peso, não é mesmo?

É uma frase mais icônica do que a outra, e isso porque listamos apenas vinte e cinco, sendo que há milhares de outras frases que também marcaram gerações inteiras e que, com certeza, marcarão também as que ainda estão por vir.

Afinal, um bom filme nunca é esquecido. E ainda estrearão outros pela frente.

O cinema é muito mais do que uma forma divertida de passar o tempo. Aprendemos com o enredo das obras, nos envolvemos com a história e os personagens e, claro, somos pegos sempre por uma frase de destaque que chama a nossa atenção e queremos compartilhar com a família e os amigos – e, às vezes, até a incorporamos em nosso dia a dia.

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Netflix escancara as dores de um divórcio

por Marcelo Seabra

Variando do artificialmente descolado ao retrato pungente do cotidiano, os roteiros de Noah Baumbach costumam se beneficiar das escolhas do diretor Noah Baumbach. Em sua lista de feitos, há até uma boa atuação de Adam Sandler (em Os Meyerowitz, 2017), o que nos leva a uma conclusão óbvia: se ele consegue um bom trabalho de um careteiro contumaz, do que seria capaz com um elenco competente? História de um Casamento (Marriage Story, 2019) é mais um longa que responde essa pergunta.

Querido no circuito independente, Baumbach não costuma ser criticado. Ele é geralmente tão incensado que qualquer adjetivo abaixo de genial pega mal para o crítico. Mas a verdade é que ele já realizou muita coisa mediana e até irritante, do correto Mistress America (2015) ao incipiente Frances Ha (2012). Mas, justiça seja feita, volta e meia aparece um A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 2005) que equilibra a balança. O já citado Meyerowitz também joga nesse time, marcando o primeiro ponto da dobradinha Baumbach/Netflix.

Também bancado pelo serviço de streaming, História de um Casamento fica tematicamente próximo de A Lula e a Baleia. Tanto que deveria se chamar A História de um Divórcio. Acompanhamos o relacionamento de um casal, com seu filho pequeno, entre altos e baixos. Logo, eles descem o morro e uma disputa começa a se mostrar. O roteiro envolve toda a família e as consequências de cada decisão dos dois. O que faz a diferença é o trabalho dos dois atores principais, bem conduzidos pelo diretor, ou o filme teria sido apenas mais um “destaque da semana na TV”.

Scarlett Johansson (a Viúva Negra da Marvel) e Adam Driver (o novo Darth de Star Wars) demonstram uma ótima sintonia. Cada um é bastante competente em seus momentos de brilhar, mas é quando estão juntos que mostram ainda mais peso. Suas atuações se complementam, eles têm uma química rara e evitam estereótipos em suas composições. Nenhum dos personagens é perfeito ou infalível. Muito menos um canalha puro e simples. Vemos vários lados de cada um. Suas ações falam alto, e às vezes um aponta um defeito do outro. Acaba sendo uma representação bem possível de um casal que já teve seus dias de paz e companheirismo.

Outros nomes do elenco também merecem confetes. Apesar de estar praticamente se repetindo, tamanha é a proximidade de sua personagem com a Renata Klein de Big Little Lies, Laura Dern (acima) está ótima. Talvez, com uma carga extra de doçura que faltou à dondoca da série. Alan Alda (de Ponte dos Espiões, 2015) e Ray Liotta (de Os Bons Companheiros, 1990) completam a lista de advogados, todos muito bem em suas obrigações. Merritt Wever, que parece ser a onipresente do momento (da minissérie Inacreditável, 2019), também está lá, se virando bem com o pouco que lhe cabe.

Muitos que já passaram por situações familiares parecidas vão se identificar, às vezes ao ponto de doer. Talvez por isso o filme esteja arrancando tantos elogios e burburinho em premiações. Driver e Johansson merecem os elogios, e o diretor Baumbach conduz com suavidade um texto que poderia ficar piegas ou pesado em mãos menos hábeis. Filmes como esse fazem valer a pena pagar a mensalidade da Netflix. Pena que são tão raros!

Diretor e elenco entre as filmagens

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Programa do Pipoqueiro #47

por Marcelo Seabra

O Irlandês, novidade na Netflix, é a nona colaboração entre Robert De Niro e Martin Scorsese e o Programa do Pipoqueiro te leva para um passeio por todos esses longas. Confira comentários sem spoilers e músicas das trilhas. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Edward Norton dirige e estrela policial noir

por Marcelo Seabra

Um detetive durão, de coração mole, investiga uma trama que envolve gente poderosa e encontra pela frente uma bela mulher de intenções dúbias. Essa é a sinopse básica das principais histórias clássicas da era de ouro da literatura policial. Autores renomados, como Chandler e Hammet, andaram por esse caminho, e Jonathan Lethem aprendeu bem sua lição. Seu livro Motherless Brooklyn, lançado em 1999, finalmente chega aos cinemas pelas mãos de Edward Norton, que acumula direção, roteiro e produção, além de atuar.

Dez anos depois de adquirir os direitos de adaptação do livro, Norton consegue lançar o filme, chamado no Brasil de Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe, e a insistência valeu a pena. Ele criou uma obra com clima noir, com todos os elementos que o gênero pede: uma mulher misteriosa, um clube de jazz, um político sombrio, capangas bons de briga. No entanto, ele adicionou pontos interessantes que fizeram o resultado se destacar. A política é forte na história, assim como temas como racismo e gentrificação, algo raro de se ver na ficção.

De cara, entendemos que há quatro ajudantes trabalhando no escritório de um detetive, Frank Minna (Bruce Willis, de Vidro, 2019). Dois saem em uma missão que acaba com Minna baleado. Um deles, Lionel (Norton, de Beleza Oculta, 2016), não vai deixar barato e começa a investigar por conta própria o que teria levado o chefe à morte. Os personagens que cruzam seu caminho são bem desenvolvidos, com seus dramas sendo revelados aos poucos. O próprio Lionel é bem curioso: ele tem um problema que o faz ter espasmos, tiques e até a falar coisas impróprias. Hoje, sabemos se tratar da Síndrome de Tourette, mas ele nunca soube.

Outra variação desta para outras histórias mais famosas de detetive é o fato de o chefe ser Minna, e não Lionel. Isso torna Brooklyn praticamente um filme de origem, com o protagonista aprendendo suas lições enquanto apanha da vida (literalmente, inclusive). Norton, sempre um ator de muitas qualidades, não está menos do que ótimo, e traz veracidade a uma doença que não é muito retratada nas telas. Gugu Mbatha-Raw (de Um Homem Entre Gigantes, 2015) também está muito bem, fugindo do estereótipo da dama em perigo. Ela é uma mulher forte que se impõe num mundo machista e racista.

O elenco, que inclui nomes como Alec Baldwin, Willem Dafoe, Bobby Cannavale, Michael Kenneth Williams, Cherry Jones e Leslie Mann, é bem competente. A estilosa fotografia do veterano Dick Pope (de O Ilusionista, 2006, também estrelado por Norton) cria uma ambientação que ajuda a carregar no suspense, além de transformar a cidade de Nova York em um personagem. E isso tudo é perpassado por uma trilha deliciosa composta por Daniel Pemberton (de Yesterday, 2019). A faixa principal foi composta pelo líder do Radiohead, Thom Yorke, e aparece na versão dele e em uma outra, inspirada pelo mestre Miles Davis, com Wynton Marsalis à frente de um grupo brilhante.

A história do livro é contemporânea ao lançamento, mas o roteirista espertamente a transportou para o final da década de 50. Não há problema em fazer uma história de detetives nos dias de hoje, como escritores como Michael Connelly e Lawrence Block provam. Só que a combinação anos 50, jazz e policial noir tem um apelo imbatível. Norton, que dirigiu um longa pela primeira e única vez em 2000 (a comédia Tenha Fé), mostra que domina bem a função. Nada melhor para ele, conhecido pelo gênio difícil, que cuidar de todas as etapas da produção.

Norton e Lethem aprovam os cenários construídos para o longa

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Scorsese convoca elenco dos sonhos para O Irlandês

por Marcelo Seabra

“Fiquei sabendo que você pinta casas”. Assim teria começado a amizade entre Frank Sheeran e Jimmy Hoffa. Pintar casas, no jargão da época, significava matar, espirrar sangue nas paredes. Isso é o que Sheeran contou a seu biógrafo e a frase dá nome ao livro que serviu de fonte para O Irlandês (The Irishman, 2019), longa produzido pela Netflix já disponível no serviço. Se você precisa de um bom motivo para assisti-lo, aqui vão cinco: De Niro, Pacino, Pesci, Keitel e Scorsese. No mínimo.

Com um elenco fabuloso, Martin Scorsese conta a história de um homem que pode ser descrito como uma espécie de Forrest Gump da máfia. Ele parece estar envolvido em todos os eventos criminosos importantes das décadas de 60 a 80, inclusive o desaparecimento do líder sindical Jimmy Hoffa. É importante ressaltar que nada do que vemos é comprovadamente verdade, é a palavra de um criminoso. Nos papéis principais, dois dos melhores atores de todos os tempos: Robert De Niro vive Sheeran, enquanto Al Pacino empresta seus trejeitos a Hoffa. Eles já contracenaram juntos antes (no ótimo Fogo Contra Fogo, 1995, e no fraco As Duas Faces da Lei, 2008), mas este é certamente um ponto mais alto em suas carreiras.

Velho, debilitado e esquecido pela família em um asilo, Sheeran conta sua história para o advogado. Foi à guerra, onde teria matado pela primeira vez. Ao voltar, dirigir um caminhão não pagava o suficiente, e começou a fazer bicos não necessariamente legais. Foi quando conheceu um figurão da máfia, Russell Bufalino (Joe Pesci, colaborador frequente de Scorsese e de De Niro), e entrou para esse mundo. Foi logo apresentado a outro chefão, Angelo Bruno (Harvey Keitel), e ao presidente do sindicato dos caminhoneiros, Jimmy Hoffa. Sheeran, Bufalino e Hoffa são os pilares do longa, mas há vários personagens muito interessantes, assim como seus intérpretes.

Apesar da estranheza dos olhos claros e dos efeitos digitais rejuvenescedores, De Niro (acima) está em um grande momento. O personagem é de poucas palavras, dando a oportunidade ao ator de se expressar de várias formas. E como o seu olhar fala! Pacino (abaixo), conhecido por seus estouros e berros pausados, abusa desses recursos, somando vários outros para compor um quadro rico, desmistificando Hoffa, que teria tomado parte em muita coisa errada. Pesci, como “a voz da sabedoria”, dá sempre a impressão de uma falsa calma, com um vulcão interior pronto a irromper.

O roteiro de Steven Zaillian (de Êxodo, 2014) não é curto, mas é enxuto. Ele aproveita a maioria dos acontecimentos narrados no livro de Charles Brandt e a montagem de Thelma Schoonmaker, brilhante como de costume, dá agilidade suficiente para que as três horas e meia de exibição passem rapidamente. A câmera de Rodrigo Prieto nos dá informações importantes apenas com seus enquadramentos, dispensando diálogos. Há um momento específico, por exemplo, em que a câmera se afasta, deixando um personagem pequeno e “preso” numa espécie de moldura.

Scorsese costuma voltar aos mesmos colaboradores – como Schoonmaker, que trabalha com ele desde 1967. Robbie Robertson, que assina a trilha, é ex-membro da Band, protagonistas de O Último Concerto de Rock (The Last Waltz, 1978), e o músico ainda produziu o longa. Essa familiaridade deve tornar o trabalho mais fácil, simplesmente não conseguimos achar nada fora do lugar.

Além dos tiros, assassinatos e intrigas, O Irlandês fala também de lealdade, de família, de temas caros a mafiosos. Apesar de serem brutamontes violentos, Scorsese vai fundo na mente deles, abordando até a incapacidade de comunicação e de demonstrar afeto, o que mantém uma filha afastada de seu pai. O diretor tem uma carreira variada, com dramas históricos, comédias, documentários. Mas ninguém é melhor ao contar uma história como essa.

Sheeran, Hoffa e Bufalino, na ficção e na vida real

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Longa nos leva de volta a Downton Abbey

por Marcelo Seabra

Poucas pessoas no meio artístico falam do estilo de vida britânico com tanta propriedade quanto Julian Fellowes, o oscarizado roteirista de Gosford Park (2001). Em 2010, ele criou uma série para a televisão que segue por um caminho parecido com o do longa que escreveu. Downton Abbey, em suas seis temporadas e cinco especiais de Natal, acompanhou o dia a dia de uma família de nobres e dos serviçais da enorme casa. No Natal de 2015, os fãs ficaram órfãos, sendo recompensados em 2019 por mais um episódio da saga, agora em longa-metragem e na tela grande.

O novo filme, chamado simplesmente Downton Abbey, nos leva de volta àquele universo com o mesmo clima da televisão. A diferença é o escopo: uma história mais longa, de maior fôlego, com a oportunidade de jogar luz em vários personagens, dando continuidade às jornadas deles. Não se trata de apenas empurrá-los adiante, mas de presentear o público com algumas conclusões. O diretor, Michael Engler, se mostra à vontade, o que se deve a também ter trabalhado na série. O resultado, mais do que satisfatório, atende também os não iniciados, já que é possível acompanhar sem experiência prévia.

Na TV, os Crawleys nos são apresentados a partir de 1912, ano do naufrágio do Titanic. A série segue até o fim de 1925, mostrando os percalços da família e a dificuldade para manter o casarão que dá nome à atração. O filme se passa em 1927, quando uma visita real vai movimentar os habitantes de Downton Abbey. O Conde de Grantham, Robert Crawley (Hugh Bonneville), recebe uma carta do Palácio de Buckingham e os preparativos começam, mobilizando os personagens, cada um dentro de suas atribuições.

Para os fãs mais antigos, é a oportunidade de rever vários rostos conhecidos. Para quem caiu de paraquedas, é a chance de conferir uma obra bem amarrada, com um roteiro muito interessante que explora magnificamente os costumes dos ingleses do entreguerras. Cenários idílicos, figurinos perfeitos e até toques de suspense são bônus para o espectador. Isso tudo além de um elenco fantástico, com nomes como Maggie Smith, Imelda Staunton, Elizabeth McGovern, Michelle Dockery, Jim Carter, Mark Addy e vários outros. E Matthew Goode, que anda muito ocupado, conseguiu apenas fazer uma ponta.

Os diálogos afiados confeccionados por Fellowes trazem, além de tiradas espirituosas distribuídas por toda a sessão, uma discussão muito rica a respeito de expectativas. O tempo todo aparecem situações em que alguém espera algo de alguém, e é criada uma sinuca em que o envolvido fica sem saber o que fazer. Tudo isso, com um sotaque irresistível e pontuado por uma trilha grandiosa. Personagens inteligentes, tridimensionais, nos conduzem por intrigas palacianas entre as várias classes envolvidas. Os ciúmes entre as duas equipes de empregados são impagáveis! Mal podemos esperar por um novo episódio da saga de Downton Abbey.

Nobres e empregados ganham o mesmo destaque

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