Olhos Que Condenam é indignação certa

por Marcelo Seabra

Produção original Netflix, Olhos Que Condenam (When They See Us, 2019) conta, em quatro episódios de mais ou menos uma hora, a história dos Cinco do Central Park (acima). Assim ficaram conhecidos os cinco garotos que foram presos e acusados do estupro e espancamento de uma corredora no Central Park em 1989. A moça ficou em coma por 12 dias e teve sequelas sérias, como dificuldade de andar e amnésia do dia fatídico. A polícia correu para esclarecer o caso e a forma como isso foi feito é abordada na obra.

Famosa pela resolução do caso e condenação dos acusados, a Promotora Linda Fairstein (abaixo) seguiu uma longa carreira que acabou terminando ao se tornar uma premiada escritora de suspenses policiais. Hoje, é vista como a principal causadora da injustiça que manteve os cinco presos, já que foi a pessoa que os transformou de possíveis testemunhas do crime em criminosos, vendendo uma ideia que não tinha qualquer tipo de suporte. Não havia provas materiais, nada que corroborasse o caso. A não ser a confissão de meninos de 15 e 16 anos, assustados e famintos, que posteriormente afirmaram terem sido coagidos.

Fairstein sustentou a hipótese e, como vemos na série, em momento algum teve dúvidas da culpa dos jovens. A necessidade de dar logo uma resolução a um caso que acabou tomando grandes proporções, chamando a atenção da mídia, misturou-se à vaidade da promotora, que gostava de estar debaixo dos holofotes. No papel, Felicity Huffman (de Cake, 2014) mais uma vez mostra o tamanho de seu talento, proporcional à indignação que causa no público. Outra que tem efeito parecido é Vera Farmiga (de Godzilla 2, 2019), na pele da outra promotora do caso, Elizabeth Lederer.

Tanto na primeira fase (abaixo) quanto quando adultos, os intérpretes dos cinco acusados foram muito bem escolhidos. Temos desde o mais experiente Jovan Adepo (de Operação Overlord, 2018) ao novato Asante Blackk, e o elenco ainda conta com mais nomes conhecidos. John Leguizamo, Michael Kenneth Williams, Joshua Jackson, Famke Janssen, William Sadler, Blair Underwood e Logan Marshall-Green são alguns dos rostos facilmente reconhecíveis. Entre os produtores, temos Robert De Niro e Oprah Winfrey, para ficar nos mais famosos.

À frente da atração, Ava DuVernay (de Selma, 2014) reforça seu poder de levar luz a fatos históricos importantes tirando deles a sensação de serem algo distante. Os envolvidos são gente como a gente, em grande parte minorias que sofrem preconceito no dia a dia e precisam se esforçar para continuarem lutando. É fácil perceber na obra da diretora, roteirista e produtora o lado humano, as relações familiares e os laços de amizade. DuVernay demonstra grande sensibilidade para tratar questões importantes de frente, sem apelar a sentimentalismos e sem esvaziar temas profundos. Seus trabalhos invariavelmente levam a reflexões necessárias e sempre atuais, mesmo narrando acontecimentos de trinta anos atrás.

A situação dos cinco é tão atual que uma das figuras que frequentemente aparecem no vídeo é ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos. Na época conhecido como um magnata excêntrico e dado a opiniões polêmicas, para não dizer burras, Donald Trump foi à televisão pedir a volta da pena de morte. A campanha envolveu anúncios pagos em revistas e jornais, nos quais ele gastou uma fortuna. Muitos americanos podem ter sido influenciados por esse mau-caratismo, e essa pressão sobre a mídia certamente teve papel importante no resultado dos julgamentos. Em 2016, com o caso mais do que esclarecido, Trump seguiu contando suas mentiras, fingindo não ver que apoia uma injustiça. E foi eleito presidente de uma das principais potências do mundo.

Não foi à toa que Einstein disse que apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana – e do universo ele ainda não tinha certeza. Juntando a estupidez a outros pontos fracos da personalidade do ser humano, como preconceito, orgulho e vaidade, temos os causadores de muitas catástrofes históricas. Olhos Que Condenam trata de um desses episódios. Se você é do tipo que se envolve muito com o que assiste e fica se sentindo mal, cuidado. Mas de nada adianta se sensibilizar com uma série e seguir com piadinhas racistas no dia a dia, apoiando esse tipo de discurso.

A multidão se dividiu entre acusadores e defensores

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John Wick 3 não acrescenta nada

por Arthur Abu

Quem foi que pediu por uma sequência de John Wick? Ou melhor: duas? Eu pedi, e aparentemente muita gente também. O assassino também conhecido como Baba Yaga, que teve sua primeira aparição em 2014, retorna às telas em John Wick 3: Parabellum (2019).

Antes o caçador, John Wick (Keanu Reeves) se tornou a caça. Excommunicado por derramar sangue nas mediações do hotel Continental, quebrando a principal regra da alta cúpula, Wick agora tem pouco tempo, muitos inimigos e uma recompensa de 14 milhões por sua cabeça. A alta cúpula envia uma juíza (Asia Kate Dillon, de Billions) encarregada de investigar a situação de Wick e todos que o ajudaram, incluindo seu velho amigo Winstom (Ian McShane) e o “Rei dos Mendigos” (Laurence Fishburne). Dentre os incontáveis mercenários contratados para a caçada, Zero (Mark Dacascos, de Havaí 5.0) é o único que aparentemente tem habilidades equiparáveis às do perigoso fugitivo.

Queimando todas as fichas que tem, John vai colocar em perigo e cobrar favores de todos que um dia chamou de amigo, incluindo a chefe da máfia russa (Angelica Huston, de Ilha dos Cachorros, 2018) e a perigosa Sofia (Halle Berry, de Kingsman 2, 2017). A única vida que John não está disposto a arriscar é a de seu cachorro, de quem logo no início já garante a segurança – por um alto preço. Isso que é adoção responsável!

Dois dos criadores da franquia, o diretor e ex-dublê Chad Stahelski e o roteirista Derek Kolstad (que, nessa sequência, assina o roteiro com mais três colegas), mantêm a mesma linha que deu certo nos filmes anteriores. A história e os personagens continuam sem muita profundidade e quase nada é explicado. As coisas simplesmente acontecem, algumas com muita conveniência. A essa altura do campeonato, está faltando um antagonista mais interessante e talvez expandir esse submundo secreto em que todos os personagens parecem saber exatamente como tudo funciona, mas o espectador é mantido no escuro.

A fotografia varia um pouco entre os prédios e a chuva de Nova York, trazendo cor apenas numa passagem pelo deserto do Marrocos. O mais longo filme da franquia até o momento, tem também as cenas de luta e tiroteio mais extensas. São bem coreografadas, com efeitos visuais competentes, porém algumas são tão repetitivas que é quase inevitável não mexer no telefone no meio do filme.

Como mencionado em 2014, na crítica do primeiro filme, Keanu Reeves não sabia atuar na época e continua sem saber, mas sua reputação por ser fora das telas uma pessoa simples e escolher bons projetos (alguns) parece ser o suficiente para manter em alta seu carisma. Dacascos entrega uma atuação tão inconstante que parece um teste de elenco para o filme Fragmentado (Split, 2018). McShane, Fishburne e Huston são figurões cuja reputação os precede, todos seguros e confiantes. Berry traz a mesma confiança, mas ao contrário dos veteranos, precisa arregaçar as mangas junto a Keanu e se preparar para a guerra, caso queira ter paz.

Parabellum mostra que o personagem ainda tem muita lenha pra queimar e vai entreter os fãs da franquia e de filmes de ação. Mas terá que saber quando trocar as fichas e sair do cassino, pois está a um passo de se tornar John Wick: Veloz e Furioso. O filme é novo, mas não traz novidades.

A vingança chega a cavalo

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Fênix Negra encerra o arco dos X-Men

por Marcelo Seabra

A saga dos X-Men começou, no Cinema, em 2000, e teve algumas reviravoltas desde então. A trama voltou no tempo, conhecemos personagens rejuvenescidos, teve de tudo. Menos atores apenas cumprindo contrato e pagando as contas. Ao menos, não de forma generalizada. Isso, até Fênix Negra (Dark Phoenix, 2019), quando parece que uma apatia se abateu em todo o elenco. Um roteiro sem nexo, com vilões totalmente genéricos e nenhuma explicação, desperdiça uma das histórias mais importantes dos quadrinhos.

Com texto de Chris Claremont e arte de John Byrne e Dave Cockrum, o arco da Fênix Negra foi lançado entre 1976 e 1980, desenvolvido ao longo de várias edições. Alguns pontos já foram timidamente usados nos filmes anteriores, com Jean Grey conhecendo melhor a extensão de seus poderes e até mudando de lado, ficando má. Dessa vez, Simon Kinberg, depois de ter escrito três aventuras dos mutantes, decidiu partir para a direção e adaptar a Fênix Negra em sua totalidade. Teoricamente, é o último episódio dos X-Men como os conhecemos hoje.

O principal problema dessa franquia é a falta de um direcionamento, ou objetivo. No Universo Cinematográfico Marvel, por exemplo, cada filme nos levou mais perto de um clímax cuidadosamente construído ao longo dos anos, aumentando o escopo e a tensão pouco a pouco. Com os X-Men, isso não acontece. Cada filme é apenas mais uma aventura, uns sem conexão com os outros. Por isso, esse mais recente não tem cara de último, já que não encerra nada. E ele é fraco até como obra independente, com um argumento preguiçoso no qual as coisas acontecem por acontecer.

Para não dizer que tudo é uma lástima, é interessante ver como o Professor Xavier (James McAvoy) é retratado. Com o sucesso das missões de sua equipe e a ajuda que eles prestam à humanidade, Xavier ganha uma atenção e respeito inéditos, e fica vaidoso. Até o presidente dos Estados Unidos (Brian d’Arcy James, de 13 Reasons Why) o recebe em cerimônias de homenagem. Isso faz com que atritos internos surjam e acabem com a paz que reina na escola para jovens superdotados. Nesse contexto, temos Jean (Sophie Turner) arriscando a vida em uma missão, quando ela recebe uma carga de energia solar e se torna ainda mais poderosa.

Fora Xavier e Jean, todos os demais mutantes são coadjuvantes, com raros e isolados momentos importantes. Ao invés de cada um ter seu peso, como nos Vingadores, todos parecem igualmente irrelevantes. Os vilões, liderados por uma apática Jessica Chastain (de Perdido em Marte, 2015), surgem repentinamente e não sabemos nada sobre eles. Não há regras estipuladas, apenas conveniências do roteiro de Kinberg e diálogos sofríveis. E, assim, Xavier e sua turma chegam a um fim melancólico, longe do brilhantismo de episódios anteriores. Vai ser difícil ter saudades.

Difícil saber quem está mais apático

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Meu Eterno Talvez é a diversão bobinha da vez

por Arthur Abu

Depois de tantas inconstâncias nas produções originais Netflix, comentar em voz alta que irá assistir a um de seus filmes é similar a pedir um canudinho de plástico em uma lanchonete: tem uma boa chance de receber olhares reprobatórios até de quem não conhece. E não é pra menos, já que pra cada acerto do serviço de streaming, estreiam três outros que não valem a pena nem assistir ao trailer. A comédia romântica Meu Eterno Talvez (Always Be My Maybe, 2019) chega sem muito alvoroço, mas pode agradar quem espera ansiosamente o fim de semana apenas para assistir a algo divertido e sem muito compromisso.

A história é centrada no relacionamento de Sasha (Ali Wong, de American Housewife) e Marcus (Randall Park, de Aquaman, 2018), vizinhos de porta na bela São Francisco. Os pais de Sasha são muito ausentes, praticamente abandonando-a em casa o dia todo. Ela se refugia na família de Marcus, junto a seu bem-humorado pai, Harry (James Saito), e a mãe, Judy (Susan Park), uma cozinheira de mão cheia. Os dois jovens se mantêm melhores amigos por anos, até que após a morte da mãe de Marcus, Sasha o beija e os dois acabam fazendo sexo pela primeira vez. A experiência evidentemente desconfortável no banco de trás de um Corolla Toyota e o sentimento de perda levam os dois a uma discussão, quando Marcus afasta Sasha de sua vida.

Dezesseis anos se passam sem se falarem, vivendo vidas bem distantes um do outro. Sasha, uma chef celebridade residente em Nova York, volta temporariamente a São Francisco para abrir um novo restaurante. Com a ajuda de Veronica (Michelle Buteau), uma amiga em comum de ambos, ela reencontra Marcus, que continua morando com o pai e cantando com sua banda de colégio, sem perspectiva ou ambição de sucesso. Apesar do rancor, diferenças socioeconômicas e de estarem em relacionamentos com pessoas diferentes, eles tentam uma aproximação que no começo parece bem forçada, mas que aos poucos os faz lembrar porque já foram tão próximos.

O roteiro, assinado pelos protagonistas, Wong e Park (que também são amigos de longa data na vida real), e por Michael Golamco (de Grimm) segue a linha das comédias românticas da década de noventa. Wong disse certa vez que queria fazer a sua versão de Harry e Sally – Feitos um Para o Outro (When Harry Met Sally…, 1989). As piadas são leves e flertam com alguns estereótipos – vale mencionar que os três roteiristas e a diretora são descendentes diretos de imigrantes asiáticos. A direção da estreante Nahnatchka Khan mantém o filme em um ritmo fácil de levar, mas sem arriscar muito. Ponto para a fotografia, que tira proveito das paisagens de São Francisco.

 A Netflix parece não ter confiado na história ou no carisma de Wong para chamar os espectadores, pois precisou de um ás na manga. Keanu Reeves (de John Wick) faz uma participação nada discreta, seu rosto aparece em qualquer pesquisa que se faça sobre o filme e o trailer já entrega o que poderia ser usado como uma surpresa. A presença de Reeves cria uma contradição, pois o filme parece querer dar peso e relevância a um elenco majoritariamente asiático, sem a ajuda de uma estrela hollywoodiana já conhecida. Fica a impressão de que as intenções iniciais eram ousadas, mas no fim mudaram de ideia e decidiram pegar emprestado um pouco do brilho do Neo de The Matrix. Vale mencionar outra obra que fez o mesmo por não confiar em um elenco predominantemente asiático: o malsucedido 47 Ronins (2013), também com Reeves. Coincidência, não?

Ali Wong é uma comediante e roteirista talentosa. No portfólio da Netflix, encontramos seus dois especiais de stand up, que são muito bons, nos quais ela brinca com sua cultura asiática, feminismo, sexo, seu casamento e vários outros assuntos, sem tabu ou papas na língua. Faltou um pouco disso em Meu Eterno Talvez, essa irreverência teria apimentado mais essa obra que ficou com medo de ser algo além de uma comédia romântica divertidinha.

Os amigos se divertiram divulgando o longa

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David Harbour é o novo Hellboy

por Marcelo Seabra

Muita gente fez cara feita automaticamente ao saber que outro filme de Hellboy seria feito, mas sem Guillermo del Toro à frente e com outra equipe. Afinal, ninguém mais faria o personagem em carne e osso de maneira tão perfeita como Ron Perlman e o diretor. Mas o projeto foi adiante e já está nos cinemas o novo Hellboy (2019), desconsiderando os longas iniciais (de 2004 e 2008). Agora, o público já pode fazer cara feia com conhecimento de causa.

Como nas revistas em quadrinhos sempre ocorre trocas na equipe criativa, de escritor e desenhista, não é estranho ver o personagem ligeiramente diferente do que estávamos acostumados. O Super-Homem, por exemplo, já teve várias encarnações, e Batman, Homem-Aranha… Por isso, não há problema algum em termos David Harbour (de Stranger Things) como Hellboy, numa versão uma pouco mais tosca, rude, algo que combina bem com a criatura. Harbour conseguiu sair ileso de uma tarefa que parecia ingrata: substituir Perlman.

Nem toda história em quadrinhos é um clássico a ser lembrado. Pelo contrário, a maior parte cumpre tabela e acaba ofuscada pelas grandes tramas de autores renomados. O roteiro do novo Hellboy é original, mas mistura alguns arcos e deixa essa impressão: poderia ter sido baseado em uma dessas edições que nunca chegariam ao Cinema, tamanha a sua falta de atrativos. Fazendo sua estreia num longa-metragem, o roteirista Andrew Cosby (da série Eureka) joga a celebridade da editora Dark Horse no meio de uma bagunça envolvendo clubes secretos, uma bruxa milenar e gigantes vingativos. Todos eles com zero carisma.

Outro que não acrescenta nada é o diretor. Tendo demonstrado talento no filme que o projetou, Abismo do Medo (The Descent, 2005), Neil Marshall parece apenas seguir o caminho de del Toro, longe do brilhantismo do colega mexicano. A direção segue no piloto automático e não nos proporciona nenhuma cena memorável, nada que indique uma grande preocupação na elaboração. Do primeiro filme para o segundo, del Toro criou todo um universo que rapidamente cai nas graças do público, que passa a torcer por todos aqueles seres estranhos. Nesse novo, Hellboy está mais sozinho e só interage com gente chata – pra dizer o mínimo.

Entre os destaques do novo elenco, Ian McShane (de Deuses Americanos) é a grande atração, calçando os sapatos que já foram do falecido John Hurt. Ambos têm presença e vozes muito parecidas, a diferença sendo a idade deles. McShane, por ser mais jovem, é mais ativo, mas o Professor fica prioritariamente nos bastidores. E a grande vilã é vivida por Milla Jovovich (da franquia Resident Evil), uma bruxa boboca que nunca mostra a que veio. Igualmente inexpressivo é o agente interpretado por Daniel Dae Kim (de Havaí 5.0), previsível até mandar parar. Quem consegue um resultado melhor é Sasha Lane (de Docinho da América, 2016), que confere vivacidade à sua Alice.

Por si só, esse novo Hellboy já não mereceria elogios. Nem a trilha sonora roqueira ajuda. Em comparação com as obras de del Toro, aí é que ele perde mesmo! A trilogia poderia ter sido finalizada antes do anti-herói seguir adiante, mas não foi possível. Então, fica essa sensação de algo incompleto, e Marshall pegou o bonde andando. Na queda, perdeu a alma do personagem e a capacidade de inovação dos primeiros episódios.

Harbour é um bom Hellboy, o problema não é ele

 

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Egerton brilha como Elton Rocketman John

por Marcelo Seabra

Cinebiografias musicais são um ótimo filão, as músicas e as histórias do biografado automaticamente levam público aos cinemas. Se for alguém do peso de um Elton John, então, a expectativa aumenta muito. Mas Rocketman (2019) vai muito além de simplesmente retratar uma vida. Ele trata de vários temas, preocupando-se mais com a fluidez das cenas do que com a cronologia. Longe de ser uma aula de História, é um espetáculo para olhos e ouvidos.

O jovem Reginald Dwight se mostrou um prodígio no piano desde cedo, e a descoberta de Elvis e do rock ‘n’ roll o roubou da música clássica. Integrando bandas de apoio, ele viu que precisaria se reinventar para ter sucesso. É quando o tímido Reggie se desfaz praticamente de sua personalidade e se transforma no espalhafatoso Elton John, que se tornaria o monstro da música que conhecemos hoje. Mas essa persona é apenas o que aparece para o público.

O maior atrativo de Rocketman é explorar a dualidade de Elton: em frente ao público ou às câmeras, ele faz valer o valor do ingresso, proporcionando um grande show; em sua intimidade, é ainda introvertido e em busca de amor. Crescendo com um pai frio e ausente e uma mãe frívola e pouco atenciosa, ele só tinha a avó para incentivá-lo. O fato de ser gay também não ajudou, dificultando suas relações românticas, o que levou a mãe a lhe dizer que ele nunca encontraria o amor.

Na descrição, o material pode parecer muito pesado. De fato, o roteiro de Lee Hall aborda assuntos sérios, como fez em dramas mais sisudos, como Cavalo de Guerra (2011), Victoria e Abdul (2017) e em sua estreia, Billy Elliot (2000). Mas o diretor Dexter Fletcher (de Voando Alto, 2015) tem uma forma bem lúdica de trazer tudo para a obra, tornando o resultado leve e divertido, entretenimento de primeira qualidade. As pessoas começam a cantar de repente, remontando aos antigos musicais, e isso funciona muito bem. E há as músicas ouvidas nos shows, além do que toca como trilha.

No papel principal, Taron Egerton se mostra um artista completo, se entregando de tal forma que o ator some e é possível ver Elton em vários momentos. Famoso pela franquia Kingsman, ele esteve no trabalho anterior de Fletcher, Voando Alto, e a relação entre eles deve envolver bastante confiança. O parceiro de composições, Bernie Taupin, é vivido por Jamie Bell, lembrado até hoje por Billy Elliot, apesar de ter muitos outros bons filmes. A dupla formada por Elton e Taupin (abaixo) é um dos pontos altos do longa, a relação entre eles é bem crível.

O elenco é completado por gente boa serviço. Os pais de Elton, interpretados por Bryce Dallas Howard (dos novos Jurassic Park) e Steven Mackintosh (de Wanderlust), são muito bons, mas o destaque é a ainda melhor Gemma Jones (a mãe de Bridget Jones), como a avó carinhosa e incentivadora. Tate Donovan (de Manchester à Beira-Mar, 2016) parece interpretar uma versão de Austin Powers, bem a cara dos anos 60, e Charlie Rowe (de Vanity Fair) e Stephen Graham (de Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar, 2017) são os empresários iniciais, todos muito bem. E não podemos nos esquecer dos garotos que fazem Elton mais jovem, muito competentes.

Outra figura real retratada em Rocketman é John Reid, empresário e amante de Elton. Na pele de Richard Madden (o Rob Stark de Game of Thrones), ele é mostrado como alguém calculista que sabe exatamente como ganhar dinheiro em cima de seus clientes. Reid foi personagem recentemente também em Bohemian Rhapsody (2018), coincidentemente vivido por Aidan Gillen – também de GoT. A relação com Elton, por ser mais pessoal, é mostrada de forma mais abusiva, e Madden vai do charmoso ao inescrupuloso em segundos (ambos estão abaixo, nos extremos).

Reid não é a única ligação entre as duas cinebiografias. Fletcher assumiu o projeto do Queen após o afastamento de Bryan Singer e o finalizou, mas por exigência do sindicato ganhou crédito apenas como produtor. Em Bohemian, ouvimos as músicas em suas versões originais, diferente de Rocketman, que traz números elaborados cantados pelo próprio elenco. Além de ser mais inovador, o filme de Elton trata de frente as questões mais polêmicas, como a homossexualidade e os vícios de seu protagonista, além de não se preocupar em cobrir toda a cronologia do cantor – e não bagunçá-la. E Egerton procura viver um personagem inspirado em uma figura real, ao contrário de Rami Malek, que estudou os maneirismos de Freddie Mercury para imitá-lo à risca. Enquanto Malek se prende, Egerton voa.

Portanto, em uma comparação entre as duas obras, Rocketman ganha de lavada. A música de Elton é usada para ajudar a contar a história, e não o oposto. E ele é apresentado como o ser humano que é, com falhas, e não um mito irretocável, como no caso de Freddie. Se Malek ganhou o Oscar, Egerton merece no mínimo uma indicação. E, em categorias como figurino, maquiagem e som, seria apenas justo que o longa levasse. Mesmo que não leve, o filme já é vitorioso.

Elton e Egerton parecem ter se tornado bons amigos

PS: Logo abaixo você encontra uma edição do Programa do Pipoqueiro inteiramente dedicada a Rocketman, com diversos comentários e músicas de Elton John.

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Programa do Pipoqueiro #40

por Marcelo Seabra

A 40ª edição do Programa do Pipoqueiro traz sucessos de Elton John, biografado em Rocketman (2019), e vários convidados dão suas opiniões sobre o filme. Aperte o play abaixo e divirta-se!

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Godzilla se arrisca a perder a majestade

por Marcelo Seabra

Quem vai ao cinema ver um filme do Godzilla espera muita destruição, mortes e lutas entre monstros. E é exatamente isso que traz Godzilla 2: Rei dos Monstros (Godzilla: King of the Monsters, 2019), dando aquela inflada no número de criaturas estranhas e poderosas. Começando cinco anos depois do primeiro filme, a trama nos mostra que nosso amigo é apenas um entre vários monstros adormecidos ao redor do planeta, e alguns estão acordando. Se, antes, a cidade de São Francisco foi dizimada, agora quem corre perigo é o mundo todo.

A Dra. Emma Russell (Vera Farmiga, de Invocação do Mal) trabalha para a corporação Monarca, responsável por conter e estudar os vários espécimes descobertos pelo globo. Com muitos “Titãs” já catalogados, bases são montadas com o objetivo de ter a situação sob controle. Mas terroristas ecológicos (liderados por Charles Dance, de Game of Thrones) têm outra ideia: comercializar o DNA, que serviria para muitos propósitos e, por isso, seria muito caro. A doutora logo se vê em perigo, e a filha (Millie Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things) a acompanha.

Para ajudar no caso, as sumidades científicas do primeiro filme (acima), Dr. Serizawa (Ken Watanabe) e Dra. Graham (Sally Hawkins), vão atrás do ex-marido de Emma, Mark Russell (Kyle Chandler, de A Noite do Jogo, 2018). Russell participou da elaboração, ao lado da ex, de um aparelho que simula os sons das criaturas e consegue, dependendo da situação, atraí-las ou enxotá-las. Mark é o Indiana Jones da vez, o sujeito que reúne inteligência e aptidão para armas e combates. Contando com um reforço paramilitar da Monarca, eles vão tentar resgatar Emma e a filha do casal.

Não é preciso uma história mais elaborada ou uma direção afiada quando o que o público quer é destruição. E o filme já começa acelerando, com uma boa dose de adrenalina. E segura assim um pouco, para logo entrar no piloto automático. Daí em diante, vai revezando entre trechos de ação e paradeza total. E, assim como no longa anterior, cai numa mesmice que mesmo a luta melhor orquestrada não consegue empolgar. Com duas horas e dez minutos, a sessão vai cansar alguns e deixar outros apáticos. A não ser quando o personagem de Watanabe abre a boca. Ele é uma metralhadora de bordões e frases de autoajuda que desanima qualquer um.

Relembrando seus tempos de galã em King Kong (2005), Chandler encontra outra monstruosidade, mas dessa vez ele parte para a briga. O roteiro exige certo heroísmo e ele nos presenteia com umas caras e bocas que beiram o risível, enquanto Farmiga e Brown passam mais veracidade, carregando nas expressões de preocupação. Com elenco indo do correto para o exagerado, podemos ao menos aproveitar umas cenas bonitas proporcionadas pela câmera de Lawrence Sher (de Cães de Guerra, 2016). Mas, então, vem a trilha de Bear McCreary (de Rua Cloverfield, 10, 2016) e nos joga num filme de terror, ficamos na expectativa de ver um ritual satânico ou algo do gênero. E ano que vem tem mais, com Godzilla vs. Kong e outros quebra-paus de monstros.

Vem aí…

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Brightburn traz um Superboy mau

por Marcelo Seabra

Todo mundo que leu revistas em quadrinhos quando pequeno, em algum momento, deve ter pensado como seria se o Super-Homem fosse mau. A nave cai na cidadezinha e o casal bonzinho cria o alienígena, que cresce e se descobre muito poderoso. E decide tomar o planeta. Essa é mais ou menos a ideia em Brightburn – Filho das Trevas (2019), longa que leva essa premissa clássica em outra direção usando elementos comuns nos quadrinhos.

Assim como fez a série Smallville, este longa tem o nome da cidade onde a ação se passa. A pequena Brightburn vê os dias caminharem lentamente e o casal Breyer vive tranquilamente em seu casarão, criando galinhas e tudo o mais que fazendeiros fazem. Até o dia em que um estrondo os leva a uma luz no meio do mato e descobrem lá um bebê. Após um salto no tempo, estamos ao início da adolescência do garoto. Objetividade é uma característica do longa, que mal chega aos 90 minutos.

Ao contrário do universo criado por M. Night Shyamalan, concluído com Vidro (Glass, 2019), Brightburn não se parece uma fábula quadrinhística. Ele parte desse ponto para rumar ao terror, passando a ter um clima tenso e a mostrar cenas bem explícitas de violência e mutilação. Esses trechos são, ao mesmo tempo, criativos e nauseantes. Assim como acontece nas revistas, o garoto tem uma amiga que rapidamente se torna uma antagonista, algo como Clark Kent e Lex Luthor. Mas as relações aqui, claro, são bem diferentes. Essa lógica lembra mais Poder Sem Limites (Chronicle, 2012), que faz um estudo do impacto dos poderes sobre garotos e tem um resultado mais instigante.

Vividos por Elizabeth Banks (das franquias A Escolha Perfeita e Jogos Vorazes) e David Denman (de Logan Lucky, 2017), o casal de fazendeiros é simples e amoroso. Tentam ter uma criança há algum tempo e imaginam o acontecido como um presente divino. Sem maior alarde, criam o garoto, que sabe ser adotado, mas desconhece sua verdadeira origem. Ao fazer 12 anos, os poderes de Brandon começam a aparecer, bagunçando ainda mais um período que já é naturalmente conturbado. É, o menino já nasceu com nome artístico: Brandon Breyer – os quadrinhos adoram uma aliteração!

Além de Banks e Denman, outro que faz um ótimo trabalho é o jovem Jackson A. Dunn (o Scott Lang aos 12 anos de Vingadores: Ultimato, 2019). Ele consegue nos convencer nos dois extremos: como um filho dócil e obediente e como um psicopata sanguinário, falando pouco e usando bastante suas expressões faciais. As vozes que ouve não ajudam muito e se mostram um recurso totalmente desnecessário. Tim Williams (de Deadpool 2, 2018), responsável pela trilha sonora, consegue se segurar, compondo faixas que casam bem com as cenas, sem passarem do limite do invasivo. A montagem também é bem-sucedida, deixando as coisas ágeis.

Como o diretor David Yarovesky não é dos mais conhecidos e este é apenas seu segundo longa (depois de A Colmeia, 2014), o nome principal a aparecer no cartaz de Brightburn é o do produtor, James Gunn. Irmão e primo dos roteiristas (Brian e Mark Gunn, respectivamente, ambos de Viagem 2, 2012), James aproveitou sua fama, adquirida com Os Guardiões da Galáxia, para chamar um pouco de atenção para o projeto. Como o orçamento foi baixo e a bilheteria está se mostrando expressiva, não é difícil prever que os Gunns voltarão a esse universo em breve.

James Gunn, o produtor, apresenta o projeto com a atriz Elizabeth Banks

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Programa do Pipoqueiro #39

por Marcelo Seabra

Esta edição do Programa do Pipoqueiro traz os destaques da trilha sonora do filme Bumblebee (2018), além de diversos comentários sobre produções originais Netflix para assistir em casa! Aperte o play abaixo e divirta-se!

 

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