Mãe

Rosangela Maluf Ah, bem que você poderia ter ficado mais um pouco; só um pouquinho mais. Tenho ainda tanto a dividir com você, tanto a compartilhar para celebrarmos e comemorarmos juntas. Tanto caso pra contar, algumas tristezas e muitas alegrias para repartir com você. Lembranças divertidas ou nem tão divertidas, mas que nos fariam rir ou chorar. Neste curto espaço-tempo, eu não morri, mas sofri … Continuar lendo Mãe

Na folha de inhame

Rosangela Maluf Não me lembro de ter feito outras vezes uma viagem sozinha com o meu pai. Quero dizer, só ele e eu. Todas as minhas fotos e lembranças são da família inteira reunida. Em férias, a bordo da Rural Willys, cor de café com leite, éramos então cinco pessoas, pois os gêmeos só chegariam algum tempo depois: papai, mamãe, meus dois irmãos e eu. … Continuar lendo Na folha de inhame

O banco na árvore

Rosangela Maluf Todos os meses, ao apresentar aos meus pais a caderneta do colégio, minha barriga doía, num misto de preocupação e medo. Por mais que eu fosse boa aluna, estudiosa, com ótimas notas, havia um problema sério: quando o aluno se comportava mal, fazia coisas que não devia, conversava demais ou perturbava as aulas, a nota em “Comportamento” vinha em vermelho, nota sete. Eu … Continuar lendo O banco na árvore

O missal de madrepérola

Rosangela Maluf Um dia fui criança. E, no primeiro ano escolar, junto às outras crianças de sete anos, faria a primeira comunhão em conjunto. Naquele tempo, comemorava-se a ocasião em grande estilo. Era motivo de orgulho para os pais e grande alegria para todos nós. Lembro-me bem do vestido lindo feito pela tia Ruth: era branco, de organdi bordado, com nesgas de tecido furadinho e … Continuar lendo O missal de madrepérola

O Imprevisível

Rosangela Maluf Aquela menina bem poderia ser sua filha. Aos sessenta, ter uma filha de quarenta era uma possibilidade real. Ela, por sua vez, era pediatra, casada, com duas filhas, mas totalmente fora dos padrões. Layla parecia mesmo uma garota rebelde. Magrinha, miúda, cabelo curto, cor laranja. Tatuagens. Muitos brincos. Muito falante, muito divertida. Responsável no trabalho. Dona de casa exigente. Mãe dedicada de duas … Continuar lendo O Imprevisível

O Impossível

Viviam na mesma cidade. Moravam no mesmo bairro e estudavam na mesma escola. Seu irmão e ele eram seus melhores amigos. Nadavam no mesmo clube. Dançavam nos mesmos bailes. Jogavam vôlei no mesmo time. Os outros amigos eram comuns aos três: a ela, ao irmão e a ele. De colegiais, passaram a sonhar com a universidade. Mudaram-se para a capital. Cursinho. Ele queria ser advogado. … Continuar lendo O Impossível

Jogo do Galo

Rosangela Maluf Quando se conheceram, ambos já sabiam das limitações e dificuldades que aquele início de romance teria. Ele, por ser casado, ter três filhos, trabalho sem horário fixo de saída, muito preocupado (e amedrontado) com as possíveis reações da mulher-fera: brava feito uma onça. Ela, solteira, maior de cinquenta, dentista, fazendo seu próprio horário, vivendo sozinha em um apartamento sem ninguém para lhe encher … Continuar lendo Jogo do Galo

A história de Laurita

Rosangela Maluf O sol apareceu depois de uma semana de chuva exagerada, quase um dilúvio. Muita gente nas ruas naquela tarde. Muita gente fugindo do sol escaldante. Muita gente espremida naquele ponto de ônibus, esperando com impaciência o ônibus A130. Do meu lado uma senhorinha, sem dentes, mal vestida, cabelo sujo, uma sacola de plástico nas mãos, querendo de todo jeito passar à minha frente. … Continuar lendo A história de Laurita

Juarez, volta pra mim!

Rosangela Maluf Volta Juarez! Todo esse tempo longe de você me abriu os olhos: não serei mais aquela mulher chata que te incomodava tanto. Não mais reclamarei do sagrado chopp com seus amigos; às sextas-feiras, vou procurar um curso de canto na Igreja Três Reis Magos, onde a gente se casou. Enquanto você toma sua cervejinha, quem sabe converso um pouco com o Padre Laércio … Continuar lendo Juarez, volta pra mim!