A vida se ampara em pequenas delícias, balas de prazer que revolvem em nossa boca e tingem de morango nossos sentidos. Pequenos atos constroem um dia melhor. Rotinas que, a princípio, nos parecem simples rotinas, na verdade são orações épicas à nossa felicidade.
Falo, por exemplo, de levar nossos filhos, no princípio de uma manhã, para a escola. Quantas vezes fiz isso! Nossas espevitadas crianças, coladas ao banco do carro pelo cinto de segurança, sentadas em pequenos tronos. Quão banal é um pai ou uma mãe, conversando pelo espelho retrovisor, conduzindo o carro com seus filhos no banco traseiro. Será mesmo?
No meu caso específico, ali era um momento mágico, um tempo próprio e individual em que podia trocar ideias com meu pequeno, mesmo que ele não as entendesse todas.
A gente selecionava aquele CD de músicas infantis e saíamos cantando desenfreadamente, para felicidade dos demais, com os vidros do carro absolutamente fechados. O itinerário era o que menos importava. A vida acontecia somente dentro do carro. Mandava beijos um para o outro, daqueles de entregar com a palma da mão, pelo pequeno espelho.
Fico me perguntando por que consigo me lembrar de coisas tão miúdas e, num primeiro olhar, comuns …
Não consigo concluir de forma diversa, senão atinar que foram tempos de muita importância. A condução das crianças, a bem da verdade, completava o nosso tanque de amor e alegria, nos abastecia até quase transbordar.
Aquele era um mundo muito particular. O carro, a nossa nave espacial. Voávamos sempre, e muito! Eu, ao volante, e meus meninos, cada um a seu tempo, como ilustres passageiros, atentos aos vidros das janelas, vendo planetas, asteroides, estrelas. Sempre com sorrisos no rosto, participando intensamente da trilha sonora.
Nossa nave a mais prateada de todas, brilhava intensamente no sol do início de cada manhã.Enganávamos nossos problemas. Saíamos rapidinho e os deixávamos numa prateleira da garagem. Afinal, para os que não sabem, toda garagem tem prateleiras justamente para que esqueçamos sobre elas algumas caixas dos mais variados problemas, escondidos por entre ferramentas e latas de óleo.
Certo é que o certo itinerário não tinha qualquer relevância, até porque, apesar de trilhar as mesmas ruas e avenidas, não estávamos ali. Seguir aquela rota era o menor de nossos problemas. Estávamos em outra dimensão, mergulhados num sentimento bom de cumplicidade, cultivando a paz que emana de corações que se amam e se querem bem.
Sinais fechados, trânsito engarrafado, mão na buzina, qual o quê? A estrada na qual rodamos tinha o fim que não terminava em nós, no que vivíamos naquele momento. De fato, atravessamos túneis, pontes e desvios de nossa imaginação, de nosso mundo particular, impenetrável por qualquer coisa, sobretudo um dilema entre os veículos. Eles passavam. A rua seguia, as pessoas atravessavam, o barulho da cidade insistia em penetrar nos nossos ouvidos. Totalmente desligados, com o piloto automático devidamente acionado, brincávamos de ser feliz um com o outro. Sorríamos, cantávamos, gritávamos, fingindo ser tudo o que queríamos ser: cantores, astronautas, bombeiros, jogadores de futebol …
O carro seguia seu rumo, num GPS imaginário, mas por dentro, os matizes se alternavam em razão das conversas em tons infantis, dos beijos, dos olhares refletidos, das músicas de rima fácil e refrões banais.
Nossos olhares, embora mergulhados um no outro pelo retrovisor, eram completamente apaixonados, cúmplices.
Meu menino devia achar que aquele era um dos melhores momentos do dia. Eu, do meu lado, tinha certeza que era.
Levá-lo a escola, um gestual tão repetido, se renovava a cada dia, mesmo que as músicas fossem as mesmas, que o trânsito fosse igual, que tivéssemos que enfrentar os mesmos sinais fechados, afinal, como disse antes, nosso mundo estava a parte de tudo aquilo. No caótico início de manhã de uma cidade grande, encontrávamos esquinas em nossos pensamentos só pra esperar um pelo outro. E o tempo? Ah, esse literalmente parava! Dentro da nossa nave o tempo jamais fez parte. Ele só agiu quando, inexoravelmente, tive arrancada a companhia do meu menino em razão da idade. Minha nave já não era a mesma, os interesses dele, bem diversos, mas daquelas viagens me recuso esquecer. Estão arraigadas na minha alma, forjadas na minha história, que de resto se forma de momentos assim. Gestos pequenos que completam o mosaico de toda uma vida, me dando a lúcida e inesquecível certeza de que valeu a pena, valeu muito a pena!
A gente cultiva o estereótipo de que ser sério é o melhor. Nos esquecemos de que jamais podemos deixar de brincar com o mundo. Não é justo pensar que a vida se perfaz apenas em condutas erráticas, perdidas na conveniência da sobrevivência em comum. Melhor do que se portar da maneira mais convencional é nunca esquecer que ser piloto de nave espacial, trocando beijos pelo retrovisor, numa manhã comum de um dia de escola é a melhor escolha. Afinal, somos tudo que podemos ser, já dizia o poeta. E não há nada a mais querer que conduzir nossos meninos, por ruas já conhecidas, experiências já vividas, mas iluminadas pelos sorrisos daqueles pequenos.
São essas oportunidades que de corriqueiras, nos ofuscam a entender que são raras, imprescindíveis à nossa felicidade. A felicidade mora dentro do carro, com as janelas fechadas, e sai de nossas gargantas desafinadas, mas completamente inebriadas de tanto amor.