Achar a palavra

Sempre briguei com as palavras e frequentemente sinto dificuldade em encontrá-las quando quero dizer algo. Parece que remexo uma vasta prateleira de itens dos quais não consigo escolher um. A autocrítica me perturba, nunca considero nada bom ou suficientemente eficaz para alguma comunicação exata. A palavra falada é ainda pior, pois preciso revesti-la de tom, entonação, momento, voz e oportunidade. São muitas variáveis que meu cérebro custa a coordenar. Penso que se expressar é como fazer uma poda em que se removem espinhos, arestas, pragas, partes mortas e deixa-se aquilo que precisa nascer e resplandecer ao sol. É difícil e, para mim, nada intuitivo. A espontaneidade vinda sem cuidado pode machucar, falhar ou ser nula, é o que minha cabeça repete.

Isto posto, por muito tempo guardei coisas só para mim, digerindo-as com meu metabolismo ou, no máximo, expurgando-as por escrito em um diário. Meus cadernos de escrita eram uma extensão de algum órgão em que analisava coisas, desenhava, pensava e escrevia o que me vinha à mente. Quando completos, queimava-os por medo de alguém ler e desvendar meus segredos – ou tomar para si conclusões precipitadas (como já aconteceu, sendo esta uma constrangedora violação).

É inevitável pensar que minha dificuldade de falar somada à ruminação excessiva também são resultantes de um silenciamento mais profundo, sobretudo cultural, em que a palavra feminina é pouco encorajada e bastante reprimida.

Há várias forças que nos inibem, dentre elas o silenciamento moral, a lei, o protocolo comportamental que não nos deixa reclamar, os dogmas religiosos remotamente absorvidos, o machismo, a vergonha, o medo do que vai acontecer. Entretanto, refletindo junto a uma amiga, me dei conta de que a fala minimamente consciente pode proporcionar justiça e isso já é suficiente para que se corra o risco de cometer erros e dizer besteiras, ainda que se tenha que pedir desculpas depois.

Um “não” pode mudar toda uma vida, assim como uma denúncia.

Falar sendo mulher é uma questão de honra. É falar também pelas que não podem ou não puderam. Sigo vasculhando a prateleira para, mesmo com dificuldades, continuar a encontrá-las.

Um comentário sobre “Achar a palavra

  1. Que orgulho de você, amor! Dissertou maravilhosamente bem sobre a fala oculta, de nós, mulheres, que ainda não conseguimos falar!

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