O Último Azul — o desejo que resta

Sandra Belchiolina

Fomos presenteados, em 2025, com um vigor renovado da cinematografia brasileira. Entre as obras que nos atravessaram, Filhos de Mil Homens, adaptação do livro de Walter Hugo Mãe, trouxe uma delicadeza humana rara, sustentada por uma fotografia em tons ocres que permanece na memória como quem guarda um entardecer. O próprio autor declarou-se surpreso com a potência da transposição de sua escrita para o cinema.

O Agente Secreto, por sua vez, não nos deixa esquecer a ditadura que vivemos no Brasil. O filme reabre as fissuras da memória histórica e nos devolve à experiência do medo, da vigilância e do silêncio imposto — lembrando que certos traumas coletivos não prescrevem.

Mas é em O Último Azul que quero me deter.

Dirigido por Gabriel Mascaro, com roteiro de Gabriel Mascaro e Tibério Azul, o filme constrói uma distopia inquietantemente próxima do presente. Não se trata de um futuro longínquo, mas de um Brasil plausível, onde a velhice passa a ser tratada como excedente social. Sob o discurso de cuidado e eficiência, o Estado recolhe idosos para colônias afastadas, organizando o que não quer mais ver — aquilo que passa a considerar improdutivo, descartável, um peso.

No centro da narrativa está Tereza, vivida por Denise Weinberg de Carvalho com uma força contida e luminosa. Sua personagem não é heroína de gestos grandiosos; é mulher comum, ainda ativa, ainda pulsante, subitamente rotulada como alguém que deve “sair do sistema”. Ou melhor: ser engaiolada por ele e nem pesar andar no “cata velho”.

Mas há algo que o sistema não consegue capturar: o desejo.

Quando tudo parece decidido de fora, quando a vida é enquadrada por protocolos e datas, Tereza faz um gesto mínimo e radical — decide seguir aquilo que ainda deseja. E é desse resto que nasce a travessia. O desejo aqui não é capricho nem nostalgia; é afirmação de existência. É o que impede que alguém se torne apenas número, estatística, sobra.

É nesse percurso que surge a personagem de Rodrigo Santoro, como uma figura de contorno quase mítico. Não exatamente salvador, não exatamente guia, mas presença que espelha e sustenta o movimento interno de Tereza. Ele não conduz seu desejo — ele o reconhece. E, ao reconhecê-lo, o legitima. Sua entrada no filme opera como essas aparições simbólicas que, na literatura antiga, surgem na travessia do herói: não para decidir o destino, mas para alinhá-lo.

No fluxo das águas amazônicas, entre um barco e encontros que deslocam certezas, o azul deixa de ser o da clausura e torna-se o da imensidão. A paisagem amplia o horizonte interno da personagem. O que parecia fim revela-se passagem.

O Último Azul nos lembra que envelhecer não é deixar de desejar. O desejo pode mudar de ritmo, pode tornar-se mais silencioso, mais íntimo — mas não se extingue. E enquanto houver desejo, há sujeito. Há movimento. Há possibilidade.

Talvez seja isso que o cinema brasileiro de 2025 nos ofereça: memória, crítica e a insistência delicada — e política — de afirmar a vida quando tudo parece querer encerrá-la.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *