Sobrevivendo na chuva e no sol

Eduardo de Ávila

Enquanto esperamos as águas de março para fechar o verão, sigo daqui – ora pela janela e noutra hora na rua – apreciando esse tempo exótico de casamento da viúva. Lá no Araxá era mais comum o dito de casamento da raposa. O diferente nos dias de hoje, sem intenção alarmista dessa paranoia ambiental, era que ocorria esse fenômeno simultaneamente. Agora, diferente, saímos de casa com o sol quente – queimando mesmo – e repentinamente somos surpreendidos por uma tempestade. E/ou vice versa. Temos obrigatoriamente de carregar a sombrinha, casaco e seja tudo o que Deus quiser. Deus? Não, isso é obra do homem. Sei lá!

E nesses tempos modernos, onde até no ponto do ônibus consta o horário e tempo para a chegada da condução (quem diria), recebemos o alerta da meteorologia. “Risco de tromba d’água nas próximas horas”. Esse aviso está se consagrando como aqueles alarmes falsos de condomínio, nas primeiras vezes acionado deixa todo mundo alarmado, se um dia for real vai pegar todos de camisola e pijama. E se dormir pelado, então que as coisas hão de ser mais cômicas e trágicas. Ando curtindo as chuvas e quero ainda, se possível, realizar meu desejo de retornar a infância na minha então pequena cidade. Andar de sandálias havaianas e calção de futebol pela enxurrada. Era delicioso!

Em meio a esse ambiente e clima bucólico, convivendo com o peso dos tempos, seguir com o otimismo que a vida sempre me sinalizou. Não realizei todos meus sonhos e desejos, mas aqueles que tive oportunidade foram intensamente bem curtidos. De toda ordem. Sentimento e material. Tenho quase cinco desafetos, muito mais que isso de gente que me odeia seja pelo meu time do coração, opções eleitorais, meu jeito de ser e levar a vida. Problema dessa gente. Já tenho cá meus embates pessoais com minhas contas a pagar, saúde fragilizada, não vou me ocupar com dar reciprocidade. Até porque quando acionado para isso, costumo ser impiedoso. Não me faz bem, não aprecio, mas é a única maneira eficaz que encontrei para afastar de vez esse tipo de gente.

E tenho(mos) que me(nos) preparar para a empreitada e temporada de 2026. Tenho tentado estar em dia com meus “istas”. São tantos. Cardiologista, endocrinologista, urologista, oncologista, radiologista, ortopedista, proctologista, oftalmologista, dermatologista, parece exagero, mas é real. Posso até ter esquecido algum, mas se fosse necessário nomearia um por um. A maioria periódico. E deixando a vida me levar. Opa! Faltou o mais recente e fundamental. Geriatra! Acho que em função de não ser “geriatrista”, quase passa batido. Esse tem a difícil missão de equilibrar minha relação com os demais, relacionada a medicamentos e dosagens. Entre meus quase 10 diários, só faltam “para dormir” e “para acordar”. Se bem que eventualmente o primeiro se faz necessário. Sinal dos tempos. Importante é não perder o humor com as dores psicossomáticas ou somatizadas.

E a temporada promete fortes emoções. No futebol, meu time começou cheio de tropeços, em nove jogos duas míseras vitórias no ano. Se puxar com resultados do ano passado são apenas três em 15 confrontos. O rei do empate. A Massa Atleticana “P” da vida com elenco, treinador e gestão. Mas, que fazer, sou Galo sempre. Já festejei e já chorei. Quanto aos torcedores adversários, confesso que tenho limitação de curtição, seletivamente tenho os eleitos para gozação. Fora dessa bolha não abro espaço. Até porque nossos dois principais rivais, estadual e nacional, igualmente estão uma draga. Seria o sujo falar do mal lavado. O ideal seria que todos reagissem e motivassem seus torcedores, claro que especialmente o meu time do coração.

Ao final do ano novas eleições, de dois em dois anos é óóó do borogodó, deveria ser de cinco em cinco e geral para todos os cargos. Mas…, assim como está agrada aos dois extremos que seguem nesse teatro de péssima qualidade e que esgota sua plateia. Sim, em sentido amplo e duplo. Sempre optei, preferencialmente, por candidaturas que privilegiem o interesse social. Voto pelos mais esquecidos por governos. Na última, quatro anos passados, abri espaço para dois conservadores. Um deles me decepcionou, se mostrando um reacionário e – pior – aceitou ser transformado em personagem para agradar ao seu público alvo. Triste. Diante disso, antes que apareçam os fiscais de quarteirão – nas Ditaduras era comum esses algozes defensores da falsa moralidade -, doravante não farei mais concessões. Votar em quem não tem compromisso com o social, nunca mais. Aguentei quatro anos essa cobrança, não tenho mais disposição. No mais, sigamos com a opções de cada um, respeitando a divergência. Seja em qual campo for, até na questão da saúde, optei pelas longas esperas nas filas de consultórios. Assim seja!

11 comentários sobre “Sobrevivendo na chuva e no sol

  1. Que belo texto meu amiGALO. Voce sempre nos brindando com palavras sensiveis e proximas a nossa realidade, mostrando que a passagem do tempo pode ser assumida com leveza e maturidade.

  2. A vida é feita de escolhas e, não raramente, umas excluem outras. Ah, sim, em tempo, cuidado para não tomar umas chineladas pela escolha das sandálias. Rsssssss! Sigamos…

  3. Outubro de 1967 nascia a música Alegria Alegria, um hino à liberdade de expressão e à capacidade de encontrar alegria e seguir vivendo, mesmo em tempos difíceis. Portanto caro Amigo Temporão, 59 anos depois sigamos “CAMinhando contra o vento…sem lenço,sem documento( de bermuda e sandália havaianas)… no sol de quase dezembro… eu/nós vou/vamos…
    Sigamos!
    Forte abraço

  4. Bom Dia Eduardo de Ávila! Apreciei seu texto! Quanta transparência! O envelhecimento é um processo natural, nesta fase da vida, hoje com 66 anos, entendi a importância de focar no ” Hoje”. Envelhecer é um ato de coragem! Requer: fé, saúde acompanhada, sociabilidade saudável, uma renda básica, autonomia tecnológica e amor! Abraços Fraternos, Patrícia Lechtman.

  5. Eduardo, belo texto confessional! Você define bem a hipócrita “melhor idade” transformando numa idade possível e cheia de possibilidades! Bom de ler, bom de pensar e bem de imitar!
    Parabéns!

  6. Belo texto. Não espanto, vindo de você amigo Eduardo de Ávila. Tudo que escreve é lindo. Você é especial. Abraço da amiga de infância.

      1. É isso ai, meu amigo, um belo e verdadeiro texto. A vida é pra ser vivida, e na nossa idade, então, foda-se o mundo que eu não me chamo Raimundo. Na medida do possível, sem ofender ou prejudicar ninguém, primeiro eu, depois eu, em seguida eu, sem arrependimentos. Como dizem por ai, a gente só leva da vida a vida que a gente leva. Um abração procê!

  7. Eduardo, meu velho, – desculpe-me – antigo inspirador! No nosso tempo não existia sandália havaiana, brincavam eram descalços mesmos. A minha Esmeraldas/MG. Mas, só para matar as saudades, você não lembrou das bolinhas de gude, finquete, pega-pega, espanta coió, passa anel, e todas as delícias de brincadeiras. Salve a inocência! Ainda bem que pudemos “curtir” todas as nossas fases de nossa vida; assim, somos intimamente felikzes e contamos com bons e fiéis amigos e aconpanhantes. Digo que a vida, sem amizade, é um fardo. Abraços.

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