Sandra Belchiolina
Depois do fio da barba do Papai Noel — aquele detalhe que faz a criança desconfiar, mas ainda assim desejar sustentar a fantasia — e depois da crença de que o calendário possa inaugurar, por si só, um ano novo, é possível avançar um pouco mais.
A fantasia não é um erro da infância nem algo que se abandona com o tempo. Para a psicanálise, desde Freud e de modo mais decisivo em Lacan, a fantasia é uma engrenagem fundamental da vida psíquica. Ela não encobre a realidade; organiza a forma singular como cada sujeito se relaciona com ela.
Desde muito cedo, ao ingressarmos no mundo da linguagem, somos lançados em uma cena. Há um outro que nos olha — pais biológicos ou não, cuidadores, figuras de referência – e esse olhar nos convoca. Antes mesmo de sabermos falar, já tentamos responder a uma pergunta silenciosa que nos atravessa: o que ele deseja de mim?
A criança observa, experimenta, inventa modos de se fazer existir para esse outro. Um sorriso, um choro, um gesto, um desempenho. Não se trata de cálculo consciente, mas de uma construção delicada: a fantasia como resposta possível ao enigma do desejo do outro. Freud mostrou que a criança fantasia para se situar no mundo; Lacan avança ao indicar que a fantasia estrutura a posição do sujeito diante do desejo, do amor e da falta.
Algumas crianças tentam ocupar o lugar do que acreditam completar a mãe; outras se oferecem como resposta à sua ausência; outras ainda fazem do sintoma um modo de inscrição. Não há modelo nem caminho universal. Cada sujeito constrói sua fantasia com os elementos disponíveis, para sustentar um lugar no laço com o outro.
Por isso, crescer não significa abandonar a fantasia, mas reconhecer sua função. O fio da barba aparece, o calendário revela sua repetição, e algo se desloca: já não se trata de acreditar ingenuamente, mas de saber que ali há uma construção necessária.
A travessia da fantasia não é sustentá-la como ilusão, nem destruí-la como engano. É poder reconhecê-la como aquilo que organizou nosso modo de desejar e, a partir daí, seguir em frente. Não ficamos fora da fantasia, mas deixamos de estar inteiramente capturados por ela.
É nesse ponto que a psicanálise opera: não para retirar o encanto do mundo, mas para permitir que cada sujeito reconheça a cena que o estrutura e encontre outras formas de se posicionar diante do desejo, do amor e da falta.
Fantasia é uma palavra mágica.
Quando uma criança tímida, retraída, veste uma fantasia no sentido de roupa de um super herói, ela se transforma.
Aí ela brinca, imagina, faz de conta usando a fantasia para se equilibrar internamente.
No adulto, o real e o imaginário costumam brigar.
Principalmente qdo confunde desejo com expectativa.
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