Por essa e mais uma ou duas terças, ainda vou me ocupar com minha rica experiência de voltar às origens. Não tanto quanto o entusiasmo desses dias sugere, até porque na verdade meus dias de outrora eram em Araxá e as férias sim na fazenda bem pertinho desse delicioso arraial. Lá íamos papai (em algumas ocasiões mamãe), meu amigo (até hoje) Alonso, primo Randolfo e outros com menor frequência passar as férias de julho e o longo período sem aulas entre dezembro e fevereiro.
Se as aventuras eram estimulantes, hoje as lembranças são registros que não saem dessa ainda boa memória. Campear e juntar o gado, levar sal nos pastos mais distantes, pescaria no rio São João e – hoje não repetiria essa parte – armar alçapão e armadilha para “pegar passarinho”. Meu saudoso pai contava em tom de curtição que o gado esparramava, o leite caia, os peixes escondiam e até os passarinhos evitavam o entorno da sede tamanha era a algazarra que fazíamos nessas ocasiões. Ah! E o futebol no campo da Ginita, onde igualmente aos campos de Araxá, desfilava com minha pouca habilidade com a bola.
E nesses cinco dias e quatro noites, algumas situações me transportaram no tempo. Os velhos daquela ocasião já não existem entre os moradores da Argenita (nome real do distrito de Ibiá), os idosos de hoje são as crianças daquela época. Algo muito estranho a minha pessoa, já que insisto em resistir ao envelhecer. Porém, embora toda asfaltada, a localidade segue no mesmo e exato tamanho de mais de meio século passado. As mesmas ruas, a mesma praça, igreja, coreto e as mesmíssimas casas. Doces lembranças, até de um fogo alcoólico – com 15 anos – que me valeu uma inesquecível bronca e devida punição. Contemplei cada metro quadrado, permitindo viajar nesse hiato temporal.

Entre os idosos dessa temporada, algumas crianças de 50 a 60 anos atrás. Zé dos Reis (73), um eclético e doublé de contador de estórias e músico, me distraiu tanto com as assombrações quanto tocando sanfona e pandeiro. Convivia destemidamente com pessoas vestidas de branco, que pegavam ele pela cintura e mudava seu corpo de lugar; em outras ocasiões andarilho noturno encontrava com casais ou dupla de condutor de gado (sempre com vestimenta branca) ao longo das estradas de acesso ao arraial. Horripilante para menores que ouviam suas ousadias. Teve outro contador de casos que enfrentava cobras. Em 15 a 20 minutos de prosa, entre cascavel, jiboia, jararaca, cobra-cipó, coral, muçurana e talvez outras, tinha matado dezenas ao longo dos tempos. Noutros tempos, eu teria voltado para a cidade.
O calor não era tão diferente do que estamos experimentando nas cidades – BH ou Araxá e outras -, embora a terra e árvores aliviassem (o asfalto agrava) e sugerissem tomar água “no lombo”. Essa e outras expressões de um vocabulário riquíssimo e ignorado pela nossa pseudo intelectualidade. Foi assim que Zé Pedro me alertou sobre a “trabuzana” que anunciava. E não deu outra, sem o uso do auxílio da metrologia, o sol sumiu e o a quase escuridão encobriu nossa Ginita. Foi rápida e refrescou a todos que seguiam cantando e tomando cerveja e cachaça no bar da Sônia. Eu, juro, água e sorvete. Passou “librinando”, comentou um dos companheiros da agradável roda masculina, permitindo as mocinhas retornarem ao footing (essa foi minha) em direção à praça da igreja.
Assim passei essa curta temporada no arraial, que entre tantas boas lembranças me fez um bem danado. Além das recordações, foi ainda terapia e descanso. A agitação dos últimos tempos tem invadido o reservatório da minha memória e guardando tanta coisa boa e prazeres do passado. Se resgatei muitas lembranças, tanto quanto ou até melhor pude experimentar dias de absoluta paz. Sem rádio e sem notícia da terra civilizada, conforme cantávamos Luiz Gonzaga na adolescência em Riacho do Navio. E não parou por aí, pretendo ainda contar mais um pouco desse aprazível lugarejo das terras mineiras. E também da minha redescoberta de Araxá e seus encantos nos outros dias desse meu final e virada de ano. Sigamos!
Muito prazeroso , reviver o passado. Parabéns! Abraço
Sigamos, sim! Vai, vai… vai que eu tô te olhando!
Só falta escrever seu livro de memórias, amigo.
Bom Dia Eduardo de Ávila! Seu texto está encantador! Imagino que tenha tido nesta estadia bucólica momentos perfumados de memórias inesquecíveis. Você é um escritor adornado de esperanças. Prossiga em sua linda missão de transmitir boas ideias. Abraços Fraternos! Patrícia Lechtman
Boa noite Eduardo!
Lendo o seu texto, me dá vontade de viajar até a cidade de Luz, onde fui várias vezes na minha infância. Aí, eu penso os meus tios, (todos já falecidos), nos meus primos (nenhum mora mais lá), e não encontro nenhum motivo pra voltar. Como já dizia o poeta, cada caso é um caso, ou como a música, ‘ o lar não mais existe ninguém volta ao que acabou ‘.
Grande abraço procê e manda um abraço pro Marcílio.