Envelhecer

Peter Rossi Estou ficando velho. Me dou conta disso quando me levanto. As costas não reagem bem ao ângulo de 90 graus da cadeira. Estou tendo dificuldades para escutar. Atribuo às máscaras que não me permitem perceber a leitura labial. Hoje percebo que sempre fiz isso. Vai ver nunca escutei bem, embora pensasse que tinha ouvido absoluto. Vai saber. Enfim, sozinho, me realizo observando essas … Continuar lendo Envelhecer

O velho e o menino

Peter Rossi Naquela lanchonete, o jovem entra esbaforido. Acabara de descer do ônibus. Fora uma longa viagem, queria uma água gelada e também ir ao banheiro. A porta, daquelas automáticas, dividiu-se em duas e uma galeria de cores se abriu. Geladeiras de refrigerantes, pilhas de salgadinhos, uma balconista sonolenta e no fundo, sentado na última mesa, um velho. Barba descuidada e olhar opaco. Girava uma … Continuar lendo O velho e o menino

A jaqueta

Peter Rossi Falo de um tempo em que “liberdade era apenas uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, na hora que quiser”. Numa locomotiva, em meio ao vapor, os jovens tocavam violão e balançavam os cabelos encaracolados.  Muitos se lembram dessa propaganda, que marcou época, de uma fábrica de roupas jeans. Eu também fui picado pela mosca azul e desejava, sob todas … Continuar lendo A jaqueta

Palavras antigas

Peter Rossi Mais um dia procurando o que fazer e encismado ao lembrar das risadas de um jovem com quem cruzei numa loja em um shopping, assustadíssimo ao me ouvir perguntar se havia ali algum lugar para tirar retrato, me peguei a recordar palavras antigas e o pouco ou nenhum significado que hoje possuem. São expressões agora soando engraçadíssimas, ou mesmo assustadoras, mas que povoaram … Continuar lendo Palavras antigas

Resgate

Peter Rossi A vida nos propõe revanches, que costumamos chamar de resgates. São derrotas anteriores que nunca esquecemos, mas que, quando menos esperamos, nos convidam a pisar no mesmo ringue. São revanches contra nós mesmos, oportunidades únicas de desenhar sobre o quadro opaco um cenário de novas cores. A vida sempre limpa o quadro-negro, esperando a próxima lição. As frases de amor, escritas com giz, … Continuar lendo Resgate

Árvore de Natal

Peter Rossi Na minha cidade, hoje muito mais perto da capital do que um dia foi, ao chegar o final do ano, todos corriam a buscar uma árvore de natal.  Nossas casas já eram ladeadas por enormes árvores, parecidas com pinheiros. Elas bailavam, costumeiramente, ao sabor dos ventos a desviar das montanhas que cercam o lugar. Vez ou outra, quando bem animadas, chegavam a cantar. … Continuar lendo Árvore de Natal

Rego Grande

Peter Rossi O tal GPS ainda não existia. Posso até garantir que sequer fora imaginado. Na minha pequena cidade, entretanto, um riacho cuidava de dar a direção a todos, serpenteando ao lado de uma estradinha de terra batida, ladeando cercas vivas que, por sua vez, escondiam casas invariavelmente brancas, algumas com barrados em azul, outras em verde. O Rego Grande. Nos barrancos existentes na outra … Continuar lendo Rego Grande

Meu gato branco

Peter Rossi Hoje, acariciando seu pelo, enquanto deitado na minha cama, me dei conta de que você foi meu primeiro novo amigo, no início de uma nova etapa de vida. São vários meses juntos. Levando em conta a sua expectativa de vida, mais de dez por cento você viveu comigo. E viverá tantos outros, quantos bastem. Me lembrei de quando nos vimos pela primeira vez. … Continuar lendo Meu gato branco

Maria Gadu

Peter Rossi Me peguei aqui assistindo um programa de música, sobre música, em que crianças fazem performances, cada uma melhor e maior que a outra. Vindo desses tímidos pulmões, ainda tenros e meninos, sobressaem suspiros que alcançam nossa alma. Como a música é boa! Como ouvir música é bom! Nessas horas aplaudir é desfraldar o coração no varal da nossa esperança. O mundo sempre é … Continuar lendo Maria Gadu

Caixinha da sorte

Peter Rossi Quando pequeno, na minha cidade natal, toda moeda que sobrava tinha o mesmo destino: comprar uma caixinha da sorte. Eram caixas, via de regra, amarelas e o seu conteúdo inesperado. Algumas vezes eram anéis de plástico, outras um simples bonequinho. Mas a ansiedade de menino ao pegar cada uma delas, dar uma chacoalhada para tentar imaginar o que tinha dentro era inesquecível. Numa … Continuar lendo Caixinha da sorte