Aparências

Simplificar as coisas é talvez a melhor solução, já me dizia, eu ainda menino a escutar atentamente, a minha vó.

Tinha razão, absoluta razão! Sempre tivemos alma amplificadora. À exaustão cuidamos de criar nossos próprios fantasmas e, quando o dividimos, eles ficam maiores ainda, parecem fortalecidos, com o tônus muscular à toda prova, diante da opinião alheia. E o que é mais contumaz, a dita opinião do interlocutor, via de regra, só faz ressoar ainda mais alto o problema. E a razão é simples: o problema é alheio!

Como somos capazes de fingir que sofremos com os riscos dos outros! Essa perfídia humana se justifica, para alguns, em razão de que não conseguem, simplesmente não conseguem, viver sem um problema diante dos olhos. Talvez aí a razão do sucesso das palavras cruzadas. Sabe-se lá!

Enfim, a cada dia mais me convenço de que, como o ar, os problemas são essenciais para nossa sobrevivência. Daí talvez sobreviver seja um verbo mais conjugado do que viver. Sobreviver é o “viver, apesar de”, “viver sem saber porque”, “viver e apenas seguir vivendo”.

É um desperdício de tempo, momento, sentimento, enfrentamento e vários outros “mentos” à disposição. A vida tem ritmo próprio e, como damas, devíamos apenas nos deixar conduzir pelo salão. Deixar que a vida apoie sua mão em nossas costas e, em giros coordenados, nos pareça elevar do chão, deslizando silenciosamente.

Mas não! Nunca nos conformamos. Há sempre uma nota desafinada emergindo do fundo da orquestra a nos perturbar e, com aflição auricular, nos fazer perder o equilíbrio. Que alma tacanha essa que não se permite simplesmente deixar seguir, sem as entranhas expostas no asfalto da próxima esquina.

O que nos falta, sigo pensando ao lembrar das lições de minha avó, é a licença poética de apenas mergulhar nas miudezas da vida que são, a bem da verdade, aquilo que efetivamente importa. Mas nossa altivez não nos permite pensar assim. Somos dirigidos, e dirigidos nos deixamos levar, a reconhecer que somente os monumentais monolitos têm importância. Nos esquecemos dos gravetos de felicidade que sempre permearam nossos bolsos de menino. Nos permitimos deixar de ser crianças. Ah, isso não! Como podemos?

Atingir a maioridade longe está da plenitude. Ser adulto é cambiar a marcha, refrear o trote, perder o paladar para as coisas que realmente importam, o gosto doce na boca após corrermos sem nenhum destino a alcançar, com os pulmões em plena exaustão.O gosto doce da manga no pé, e ainda que verde, a fruta com sal, cortada em pedaços por um canivete.

E seguimos a matar os problemas. Fomos treinados assim: parimos os dragões diários e cuidamos de extirpá-los apenas para nos autoproclamar heróis! Quanta tonteria!

Melhor do que matar o dragão é sentar na arquibancada, em frente a lagoa, como disse o compositor baiano, e ver emergir outro monstro, e outro monstro e, como na arena romana, torcer contra nosso semelhante.

Problema alheio é mais divertido! Temos apenas que assistir e resenhar, fingindo que estamos consternados com a tristeza do outro. E nos convencemos disso, mesmo que a farsa dure apenas alguns minutos. Logo outras imagens chegam à nossa alma solidária e partimos para outro enfrentamento. Agora é um dragão diferente, que não tínhamos visto antes. – Mas, como é possível? Fulano fez isso mesmo? Jamais imaginaria …

E lendo as bulas dos venenos expelidos, vamos trapaceando com os sentimentos, buscando apenas preencher os vazios de nossas próprias vidas. É uma reposição de estoque em prateleiras esquálidas, com produtos em consignação!

Mas, por qual razão não pensamos em simplificar? Ah, porque o simples é negativo do filme daquilo que não exigiu muito trabalho e, por isso mesmo, é descartável, não justifica atos heroicos. É simples, porque simples é … simples assim. E nós precisamos sempre trazer compensações para fazer valer os altos preços que pagamos. Tíbios contribuintes de nossa própria hipocrisia.

E viver simples é viver sem grife. Como assim? Será que o outro dará valor à nossa vida sem uma logomarca dourada afixada em nossa alma? Qual a estirpe? Nenhuma, somos indivíduos desqualificados, sem estofo algum, perdidos na simplicidade de estarmos felizes, nus diante das vitrines, dos objetos e dos adjetivos.

Valer o que aparentamos é colocar o preço pelo qual somos vendidos a cada dia. Simples é coisa barata, “roscoff” como diriam os mais antigos. Vale a pena não.

É …minha vó, essa diferença de gerações não nos permite estender a toalha xadrez, numpiquenique, como fazíamos, e discutir a simplicidade das coisas. Que pena que não consegui te dizer, olho no olho, que você estava completamente certa…

Um comentário sobre “Aparências

  1. Lutamos cada dia com um leão, escalamos morros que nos mesmos impomos. Para descobrir, na idade de nossa avó, que viver deve ser simples, simplesmente.
    Vc disse toda verdade.

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