O não-leitor

Dias atrás conversava com algumas pessoas, em torno de uma mesa de restaurante, quando uma delas pediu a palavra para, com inconfesso orgulho, dizer que nunca tinha lido um só livro em sua vida.

E ainda completava, dizendo que não conseguia entender qual o benefício que a leitura lhe traria.

Devemos reconhecer que algumas justificativas não são necessariamente honestas, outras tem forma líquida e existem ainda as que têm serventia apenas para ocultar ressentimentos e frustrações.

Num primeiro momento, indignado, levei comigo a conversa e passei a refletir: em que mundo vive esse não-leitor?

Olhava para as estantes da minha casa, todas elas recheadas de livros e tentava compreender se o louco era eu. Se bem que ser louco longe está de ser um defeito. Mas faria sentido tudo aquilo?

Como desperdicei tempo com aquelas palavras. Mas, ao longo da divagação, me permiti viajar acima das nuvens, no Olimpo do conhecimento e compreendi que a fala do não-leitor era uma releitura mambembe e às avessas (me perdoem o sarcasmo) do que disse Sócrates: só sei que nada sei.

Falar de amor sem antes ter lido Vinicius de Moraes é tarefa árdua. Poucos, como ele, foram capaz de registrar em palavras e versos sentimentos tão caros à alma humana: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Ah, me perdoe, não-leitor, mas se engana em hipérbole. A leitura não é só recomendável, é essencial à formação do ser humano. É dela que ressurge o conhecimento, a plena percepção do próprio posicionamento no mundo em que se está inserido.

Como imaginar a infância sem ler Mário Quintana? São só memórias que se encontram apenas na saudade. Pois o poeta foi além, ele pintou com rimas e versos a infância de cada um de nós, refletida pela sua própria.

Trago como argumento, nesse momento, a visão de Manuel de Barros: é possível se atentar às miudezas da vida e do que nos cerca sem a sensibilidade desse grande autor? Claro que não!

Me pergunto, então: deveria ter levado à discussão Vinícius de Moraes, Manoel de Barros e Mário Quintana? Esses não seriam argumentos a enterrar de vez a premissa do não-leitor? Bobagem, no fundo, no fundo, ele sabe que existem. Pode até não se dar conta de que os lê diariamente em diversos momentos da vida. É lamentável, apenas, que não se dê conta disso.

O que penso como absolutamente dispensável é o seu orgulho em cacarejar que nunca leu. Mentira! É alfabetizado! Não o seria se não tivesse lido uma página sequer.

Fico a ruminar o que levaria um sujeito a pensar assim e, mais, se orgulhar de não reconhecer a importância dos livros na nossa vida.

Repelir a convivência não seria a melhor solução, até porque as coisas boas da vida hão de ser sempre compartilhadas. Assim, me convenci que o tema leitura será obrigatório em nossas próximas conversas. De uma forma ou de outra, se não o convencer, pelo menos refletirei a felicidade de se ter um livro em mãos. E como a vida é feita de observação e repetição, quem sabe não alcanço meu objetivo? E se o fizer, um “viva”, mais um exemplar adotado pelas mãos humanas. Ou seria o inverso?

Um comentário sobre “O não-leitor

  1. “Ler afina o olhar. Você passa a enxergar camadas que antes passavam despercebidas. Você não lê livros, você se lê através deles.”

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