Se essa rua…

Peter Rossi

A leitura do livro “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio, acendeu o meu pensamento. Afinal, qual a nossa relação com ruas que foram importantes em nossas vidas, e ainda são?

Meu impulso é dizer que, a exemplo do que ocorre com os cães e os gatos, todo ser humano deveria adotar uma rua, como se sua ela fosse – sua rua de estimação. Pouco importa se morou por ali ou não.

Basta escolher a rua, as razões nos impelirão naturalmente a aponta-la nos mapas. Ops! Mapas não, hoje melhor dizer nos GPS.

Certamente alguma coisa importante aconteceu conosco em determinado local e esse local, por certo, é uma rua. A rua!

A gente escolhe e pronto! Em seguida, manda ladrilhar …

Minha escolha foi direta, sem qualquer ponto de dúvida. Minha rua fica na cidade que como minha adotei. Minha amada cidade, onde nasci, dia após dia, ao me formar homem, um homem feliz, ressaca de um jovem meio disperso, consequência de um menino com pernas finas de tanto correr por aí.

Escolhi a “Rua da Bahia”. É a mais linda, sem assim ser. Mas é! Do que me lembro, ela começa na beira do Rio Arrudas, que hoje nem beira mais tem. Está enterrado sob o asfalto quente e sujo. O rio corre por ali, sei disso, mas sonolento e silencioso.

Dizia que a Rua da Bahia surgia da beira do Arrudas, para desaguar na Avenida do Contorno. Depois, fora rebatizada de Rua Carangola.

E porque a Rua da Bahia? Porque lá vivi madrugadas, andei a pé botando reparo em cada esquina.
Ficava na Rua da Bahia a loja na tive meu primeiro emprego, e também outra, na qual fiz minha primeira compra à prestação. Uma cama de madeira medíocre e um rádio relógio daqueles que as horas caem em fichas, uma após a outra, fazendo um barulhinho pálido. Em pares, os números representavam, numa ficha, as horas, noutra, os minutos. Segundos não eram medidos… Em cima vários botões. Botão para acertar, para consertar, para despertar, para tocar música, aff.

Recebi a cama, que eu mesmo montei, e o rádio relógio, meus companheiros num quartinho de fundo sem janela, onde vivi por quase dez anos.

Na Rua da Bahia morei no vigésimo terceiro andar de um prédio que só tinha vinte e dois pisos! Isso mesmo: o elevador chegava ao topo e éramos obrigados a subir mais um lance de escada, abrir a porta e chegar numa cobertura clandestina. De lá víamos uma quantidade enorme de pessoas pequeninas a correr, de um lado para o outro, na Praça da Estação. Olhávamos os arcos do viaduto Santa Tereza e, se torcêssemos o pescoço, era um mar de verde – o Parque Municipal, ainda que em diagonal.

Um prédio que começava num cinema. Isso! A gente chegava em casa como se estivesse indo a uma sessão de cinema. Muito bacana! Só muito tempo depois me dei conta disso, mas aí não mais morava ali.

Como nossa tolice é descompassada. Anda em velocidade bem superior à sutileza do mundo ao nosso redor.

Quanta bebida na Rua da Bahia. Dezenas de bares enfileirados, entupidos de cerveja. Bares que nunca fechavam as portas e que nas madrugadas forravam nossos estômagos com um prato de arroz, ovo e linguiça, acompanhado de uma dose de cachaça. O nome do prato? Caol. Incrível não? Só quem comeu um “caol” às duas da manhã sabe o que é saciar uma fome desesperada, num corpo cansado de esquinas tantas, de meninas, de olhares, de muros, de escuros …

Na rua da Bahia também trabalhei na solidão de um banco. Na verdade, dois bancos. Nela descia em correria desabalada, uma marmita sob o braço. Deixava um emprego e corria bem uns dez quarteirões para chegar num prédio de seis andares logo após o cruzamento com a Avenida Afonso Pena.

Na Rua da Bahia jogava sinuca, bebia cerveja, apostava o que não tinha contra quem não conhecia.
Junto à Rua da Bahia ingressei na Faculdade. Tudo orbitava por ali. Calhou de conseguir outra morada, deixando de lado a “república” e passando a acoitar no quartinho de fundo, sem janela, do qual me lembrei há pouco. O mesmo quarto que recebeu minha cama e meu rádio relógio.

A próxima aquisição foi uma televisão em preto e branco, sem a tampa traseira, como toda televisão usada devia ser. Alguns parcos botões prá regular a vertical e a horizontal. Mas isso sinto preguiça em explicar. As pessoas mais jovens jamais entenderiam. Melhor não. Detrás da TV, válvulas, lâmpadas de uma luz fraca, a estalar a todo tempo. Como adorava assistir àquela televisão. A televisão estalava, a gente tomava pequenos sustos, mas seguia assim a nossa vida modorrenta, nas madrugadas cansadas.

Minha companheira cheia de tremeliques, mergulhada na fumaça gris do cigarro, outro inseparável. Em cima da TV dois espetos de metal com um pouco de Bombril nas pontas, para equilibrar a imagem.

É … a rua da Bahia era e é minha rua do coração, minha rua de estimação. Trago-a aqui, bem pertinho, devidamente marcada no GPS da minha alma. Percorrer aquelas esquinas é muito fácil, basta fechar os olhos e sonhar.

Minha rua menina, senhora da cidade, desde seus primeiros sóis. Veio antes de mim, mas me esperou para seguirmos juntos para a festa. Como me carregou essa rua amiga. Como me levou, sempre me trouxe.

Na Rua da Bahia, metido num safari azul marinho, vendi cartões de natal, num espaço entre uma loja e outra, que nada mais era que uma escada. Ali ficava, oferecendo os cartões, meio sem graça, imaginando estar incomodando as pessoas que apenas me ignoravam.

Acho que percorri toda a rua da Bahia com o violão em punho, esquecendo da noite silenciosa, e cantando só pra dizer que não falava das flores.

Rua da Bahia que ultrapassava tantas avenidas, que agasalhava a mais bela catedral e, de olhos enviesados, nos entregava na Praça da Liberdade, onde a felicidade se derramava por entre as árvores do jardim.

Poderia ficar aqui a enumerar cada esquina, cada loja, cada cinema, cada menina, cada sonho, cada escada.

Minha rua preferida. Rua minha amiga. Nunca se esqueça de meus passos, desfila como palco a me levar.
Certamente cada um de nós tem uma rua de estimação, uma rua que nos levava, nos trazia, nos conduzia, nos abraçava, ainda que em linha reta. De fato, a Rua da Bahia é uma solene linha reta, com alguns altos e baixos, com alguns pequenos sustos, muitos postes, dezenas de semáforos que, entretanto, para mim sempre estiveram abertos. Os olhos eram sempre verdes. E eu seguia. Achava lindo aquilo de subir e descer pelas mais diversas razões, nem que fosse para não fazer nada, apenas caminhar tranquilamente. Aliás, isso foi algo que muito fiz na Rua da Bahia. Acho que seguia por ali para não abandoná-la, não podia deixar de lado uma rua com aquela. Uma namorada que beijava a sola do meu tênis.

Me dou conta de quantas vezes parei nos diversos telefones públicos espalhados pela rua. Hoje os telefones são nossos. Não estão mais dependurados em pequenos postes a guardar fichas e cartões. Naqueles telefones quantas vezes chorei de saudade, de arrependimento, de tristeza mesmo. Quantas palavras de amor ficaram engasgadas porque a ficha era uma só e a ligação durava escassos dois minutos.

Saí da rua da Bahia sem olhar prá trás. Segui de mãos dadas com a vida. Fui para outros ares, por lá não passei por muito tempo. Mundos opostos, cenários diversos me levaram a rumos outros.

Mas saudade é coisa que trazemos sempre no embornal de nossas necessidades. Numa dessas voltei.

Achei motivo pra voltar. A livraria, o restaurante, o Edifício Maleta, um dos mais intrigantes. Não se conhece minha cidade se não percorrer corredores e sacadas do Edifício Maleta. E onde ele fica? Ora, na Rua da Bahia, é claro!

Ali, os namorados assistem a lua de prata, daquelas que deixam trilhas de cometa na água dos rios e das lagoas. O tempo sobe uma ladeira da rua que simplesmente termina abruptamente em uma perspectiva, para ressurgir, logo adiante, apinhada de jovens de mãos dadas, rostos e corpos colados, meninos ofegantes, escondidos sob a fumaça das madrugadas. Tudo isso, em plena Rua da Bahia.

A gente fala “Rua da Bahia” e não simplesmente “Rua Bahia” porque a primeira ideia é materna; ela agasalha. A rua tem mesmo que ser de alguém, não é uma rua em si.

Acho que se o paraíso existe, para chegar até lá, certamente deveremos passar por alguns quarteirões da Rua da Bahia. E não por acaso. Não é uma rua qualquer. Ela nos recebe a todos com tanto carinho que chega brilhar. Também pudera, é ladrilhada, do princípio ao fim, do fim ao começo, em seu todo lugar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *