Orfandade - Fonte: pixabay

Orfandade

Daniela Piroli Cabral
danielapirolicabral@gmail.com

É, chegou a hora. Chegou a hora de despedir de você, papai.
Que susto. Que golpe mais inesperado. Você se foi tão “de repente”.
Mas a verdade é que você era uma pessoa “de repente”.
Chegou a hora que, a despeito da gente saber que a morte e a única certeza da vida, não estamos prontos.
Tudo muda quando a morte nós toca. Ela revira o tempo, muda as coisas de lugar.
Desestabiliza o nosso mundo, nos tira teto e chão.
No luto, a vida alheia vira ofensa. O pai alheio também.
Estou no escuro. Dolorida, perdida e sem energia. Às vezes, parece que estou dormindo e vou despertar em breve com a certeza de que foi só um pesadelo.
Meu coração está partido. E dói de um jeito que me faz perder o ar.
Mas a verdade, pai, é que, olhando em breve retrospectiva, você se foi da melhor forma, sem sofrimento e cercado de amor.
A verdade é que passa um filme na cabeça.
Estou lidando com emoções inesperadas e uma avalanche de lembranças: 
da casa da vovó Lourdes e do vovô Mário, do sítio do tio Joel em Betim, das viagens a Cabo Frio, búzios, Caldas novas, das cachoeiras da Serra do cipó e de Rio Acima. Do seu antigo escritório na Rua dos Dominicanos.
De você me ensinando a andar de bicicleta e me ajudando a aprender física e cinemática.  Da gente no mineirão para torcer pelo Galo. Sim, você já foi atleticano e eu posso provar.
Do seu medo de agulhas e exames de sangue. Do seu jeito largado e teimoso. Do seu amor pela natureza.
Que privilégio foi poder dividir essa dimensão com você por 43 anos.
Aprendi muito com você.
A verdade é que vc me ensinou a como ser e também a como não ser. Sabemos que vc não era exatamente uma pessoa fácil.
Sabemos que há feridas nos caminhos por onde passou… mas, ironicamente, vc era muito amoroso, carinhoso…
Hoje entendo que você não era exatamente forte, como de pequena eu acreditava.
Hoje entendo que na verdade você tinha um medo enorme de encarar suas próprias vulnerabilidades, suas dores, seus traumas.
Nosso consolo hoje é saber que não sofreu, que não estava sozinho. Que Estava cercado de amor e cuidado.
Nosso consolo é saber que temos com quem compartilhar o pesar e a dor e que estamos cercados do carinho e companhia de amigos e familiares nesses dias duros.
A verdade é que sempre é cedo pra despedir de quem a gente ama.
Nosso consolo é o luto e a certeza que poderemos contar a beleza e a ambiguidade das nossas histórias com você.
Pai, saiba que  preservaremos as boas memórias e transformaremos, com nosso luto e nossas ações, aquilo que não foi tão bom assim.
Pai, sabemos que somos a maior herança que vc deixou. A nossa fraternidade: eu, beto, luiz, joao e gabriel.
Pai, te amaremos pra sempre.
Até breve.

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