A árvore

Peter Rossi

A árvore da vida tem suas próprias razões, que o esconder de suas raízes nas profundezas não nos permite ver a essência do seu florescer.

Aproveitamos as flores e os frutos, descansamos sob sua sombra, embalados pelo vai e vem dos seus galhos e folhas.

A árvore, por sua vez, embora com o tronco estático, mergulha a terra e suga sua seiva, permitindo que fique onde sempre esteve.

Essa é a vida. Nossas próprias essências se misturam com a árvores e é natural que quando ocorre uma súbita mudança de ventos, as sombras se desloquem e ficamos à disposição das intempéries, sentindo na pele uma dor.

Mas a árvore, assim como a vida, se vai aos pedaços, uma flor de cada vez, um fruto aqui, outro acolá, folhas pelo chão que derramadas emolduram a terra para novas vidas.

É assim que se completam os ciclos, na dispersão de tantos outros. Nos travestimos entre as cascas da árvore e assim, camada a camada, nos reinventamos em diversas gerações.

Mas existem momentos em que as rupturas são demasiado fortes e nos sentimos desamparados, atordoados, a princípio sem saber o que fazer. São nacos da nossa vida que simplesmente se vão e pensamos ser insubstituíveis, deixando-nos à mercê da não completude.

São momentos fortes que exigem de nós mais que podemos dar e assim, preferimos nos deixar ficar até que o tempo, com sua poeira indelével, venha tapar as feridas.

A árvore há de permanecer plena e, à sua sombra, havemos de continuar construindo as cascas de nós mesmos, robustecendo o caule de nossa essência e antevendo as flores e frutos que virão.

O tempo, satélite desse ciclo, nos diz que um dia fomos folhas, outras vezes flores, noutras,frutos. Alcançamos árvores diversas com o trasladar das sementes. Enxergamos novos bosques, visitamos florestas distantes.

A perda de um naco do caule da árvore nos obriga a mudar de função e passamos nós a sugar a seiva da terra quando antes a recebíamos fresca em nossas folhas.

O pedaço que se vai, apesar da dor inequívoca, nos orienta a reavaliar objetivos, alcançar atalhos e, principalmente redesignar a vida.

Que assim seja! Embalemos nossa saudade ao sabor do vento que nos assola, mas que, debaixo de nossos galhos, nos permite perceber pertencidos e acalentados.

Ainda que um tímido sol teime em tentar colorir o chão abaixo dos galhos e folhas, germinando as flores e novos frutos, temos que cuidar das raízes, refazer os conceitos, preencher os espaços, ainda que com a dor do vazio.

Sigamos, afinal somos árvore, sempre a germinar e oferecer frutos e sombra, solidez e bem-querência, amor em plenitude.

Haveremos de seguir. Seguiremos.

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