Ele se foi

Silvia Ribeiro

Ele se foi.

Senti uma pontada no coração.

E agora?

Como vai ser sem ele?

Já estava acostumada com as suas manias, com a sua rebeldia, as suas frases clichês e rimas sem sentido. Até até mesmo, com os seus desaforos.

Também, gostava quando tudo parecia suspenso, e ele chegava com um giz na mão e me dava uma aula de perseverança. A minha sensação era de paralisia emocional e energética.

E ao fazer isso, abria portas que antes pareciam invisíveis.

A tranquilidade daquele afeto congelava o meu medo de fracassar e mudava todo o meu modo de planejamento.

Pensava: como era tamanha a sua sabedoria.

Sem perceber, eu sentia orgulho da conexão que construímos, e daquela “criatura” que só queria me ver crescer.

Era raro o dia em que eu não ouvia o estalo das minhas dores caindo ao chão. Feito chuva que quebra a vidraça impiedosamente, e se espalha por todos os cantos com uma perfeita discrição. 

Até isso, era gostoso.

Não vou negar que alguns episódios que foram vividos durante essa relação me chatearam profundamente.

Momentos que me fizeram responder que estava tudo bem, quando na verdade, o meu mundo desabava por dentro.

Não achei nada legal essa história de ter que diminuir o volume dos meus sentimentos, e tampouco, de aceitar a saudade passivamente.

Dizer “eu te amo,” com letras miúdas mata a minha intensidade.

E eu, sou mulher das letras grandes, dos estonteantes néons e das declarações vibrantes.

Quero que vejam o que não se pode ver dentro de mim.

O sangue que alimenta o meu coração, a minha alma sem blindagem, o meu abraço que adivinha pensamentos. E o meu sorriso, que encanta e segue o fluxo.

Se fomos felizes?

Fomos.

Sua presença bastou para ser casa na minha memória.

Todavia, existe o tempo da despedida. 

E lá se foi, 2025.

4 comentários sobre “Ele se foi

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