O fio da fantasia

Sandra Belchiolina

O Natal chega sempre sustentado por um fio invisível. Uma promessa de renascimento que nem sempre se cumpre, mas insiste. É um tempo que testa as relações: para alguns, reencontro e magia; para outros, esforço e silêncio. Ainda assim, o Natal acontece — e a vida segue, tentando não romper esse fio.

Há famílias em que a noite escorre leve, entre risadas e lembranças. Em outras, o encontro é quase um acordo silencioso: estamos aqui porque é Natal. As redes sociais juram que a magia aconteceu — e talvez tenha acontecido mesmo, em alguma medida. O certo é que o Natal se faz. E a vida continua, ano após ano, ensaiando renovação.

Na minha família, o encantamento resistiu ao tempo. Herdamos dos nossos pais o gosto pela tradição e o transmitimos quase sem perceber. Hoje, já da geração mais velha, vejo os filhos assumirem espontaneamente a decoração, os detalhes, a alegria espalhada pela casa. Este ano, arrasaram. Arranjos improváveis, risadas soltas, um cuidado coletivo que dizia muito sem precisar explicar.

Com a chegada dos netos — cinco, até agora — Papai Noel voltou a circular com suas renas e sacolas. Para os maiores, expectativa e brilho nos olhos; para os bebês, espanto diante daquele homem vermelho que insiste em existir. Em cada olhar curioso, a pergunta muda, mas é sempre a mesma: o que ele tem para mim?

Deixei de acreditar em Papai Noel aos nove anos. João, o mais velho da turma, ainda acredita. Ou quase. No dia seguinte ao Natal, comentou com seriedade: — A barba do Papai Noel estava amarrada atrás da orelha.

Talvez crescer seja isso: perceber o fio que sustenta a fantasia — e, mesmo assim, decidir deixá-la ali por mais um tempo.

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