Mário Sérgio
Você, caro leitor, também se sente um tanto desconfortável, aos moldes do que nos traz a ótima música “Precipício” (1975) de Carlinhos Vergueiro? Veja o que essa pérola nos apresenta, desde a década de 1970, um ano antes do brutal assassinato da linda “Pantera de Minas”, Ângela Diniz:
“Tudo já foi dito, já foi dito tudo,
…
Que maldito meu tempo
Que maldito nosso tempo
Não, não, não, não, não, não me deixem
…
Não me deixem mudo, pelo amor de Deus!”
Já há meio século, o poeta já se preocupava com a dificuldade de conseguir escrever alguma coisa que fosse nova, que outros ainda não houvessem proposto. E, profético, já previa que seria a cada dia mais difícil criar textos que descrevessem as emoções, o romantismo, a saudade, até o amor. Não só pela quantidade de pessoas dedicadas a tal ofício, mas também pela distinção dos humanos em documentar quase tudo: descobertas, conhecimentos, sentimentos, sonhos.
Fui informado do prêmio literário, outorgado a uma pessoa muito querida, por uma mensagem recebida via WhatsApp. Claro que comemorei bastante, declarei minha alegria e orgulho a alguém tão próximo que foi contemplado com um importante prêmio de literatura.
Trata-se de um romance leve, o livro laureado. Uma estória ambientada em importantes cidades brasileiras dos dias atuais, com personagens jovens e de classe média alta, pessoas de aparência bem cuidada, bem-educadas e trabalhadoras. As características são, a meu ver, de um recorte social mais bem aquinhoado. O que não implica que não se mostrem, às vezes, passionais, românticos, ou que não sofram, eventualmente, de carências amorosas.
O que causou certa curiosidade foi a linguagem utilizada. Uma mistura de português de várias origens: Portugal, Brasil, Angola. Também a reiteração de alguns termos e expressões incomuns para os textos nacionais da atualidade.
Textos de nicho, como é o caso de livros como “Sobre viver com Pólio” (I e II), ambos de minha autoria, têm uma “pegada” diferente dos romances passionais. E, talvez por isso, não causem tanto interesse quanto aqueles. É natural e, claro, não há qualquer problema quanto a isso.
Em conversa com outras pessoas sobre literatura, especialmente a contemporânea, fico sabendo, por meio de dois dos interlocutores, que a obra agraciada com o prêmio, na verdade parece ter sido produzida por um software muito conhecido e amplamente utilizado como suporte à escrita. Foi um baque. Não é que tenha sido utilizada a ferramenta como suporte. A informação é que todo o conteúdo, a forma, o texto e praticamente tudo foi produzido por um programa de computador. Uau! E ainda ganhou um prémio importante.
Se o ótimo e competente músico paulistano, já demonstrava inquietação quanto ao futuro das composições, há meio século, imagino qual deve ser a sua leitura atual do quadro em que nos inserimos a partir “inteligências” capazes de memórias e pesquisas em velocidades inimagináveis para montar uma estrutura textual.
A tecnologia é uma realidade inelutável e será cada vez mais constante em nossas vidas. Precisamos nos adaptar ou sucumbiremos.