Das memórias e das artes, o inconsciente se reinscreve

Sandra Belchiolina


Há emoções que nos atravessam como ventos antigos. Elas chegam do mundo, pelas frestas da pele e do olhar, e se misturam às paisagens internas onde moram as lembranças. O que nos toca, o que nos enlaça, é sempre filtrado — pela consciência, pelo inconsciente, por aquilo que insiste em deixar marcas. As experiências da infância, longe de passadas, seguem em nós como ecos que se confundem com o presente.

Três acontecimentos desta semana me lançaram a pensar sobre as artes e seus efeitos — esses lampejos que abrem passagens entre tempos, corpos e palavras.

O primeiro foi o show “Arrepio da Lei”, de Chico César e Zeca Baleiro, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A canção que nomeia o espetáculo me transportou, num só acorde, para as matinês de domingo no Cine Vera Cruz, em Lagoa da Prata. Meu pai, amante da sétima arte, levava-me pelas mãos — e, com ele, eu adentrava os faroestes que projetavam heróis e vinganças na tela.

A música de Chico e Zeca fez reverberar essa memória como quem reacende um filme guardado na alma:

 “Ao arrepio da lei comecei a ir ao cinema / ver faroeste sem idade pra entrar…”

Os versos falam do menino que mergulha na cacimba da justiça, da vingança, e dali emerge para enfrentar o mundo. Heróis sinceros, francos, zumbis poéticos — Trinity, Zorro, Django — todos reaparecem em mim, em nós, no desejo de dizer, cantar, resistir. A própria canção é um retorno do recalcado: infância e arte se encontram na palavra que faz laço.

Na mesma semana, o mundo despedia-se de Alain Delon — outro espelho de tantas projeções. Sua companheira de cena, Brigitte Bardot, disse que ele representou “o melhor do cinema de prestígio francês”. Um vídeo circulou nas redes: Delon e Dalida cantando Paroles, Paroles — “palavras, palavras, palavras…”. Que voz era aquela! Um erotismo que falava antes mesmo da fala, que mostrava o corpo da linguagem em sua potência de sedução.

E, como se o tempo insistisse em costurar seus próprios fios, outra presença me arrebatou: Fernanda Montenegro, aos noventa e quatro anos, no Parque Ibirapuera, diante de quinze mil espectadores. O verbo ainda aceso nela — sujeito, verbo e predicado inteirinhos, como ela mesma disse — é um manifesto da vida pulsando.

 “Os olhos já não são os mesmos… mas ainda está tudo aqui dentro. Enquanto isso funcionar, vão me aguentar. É impossível parar. É uma vocação.”

Entre a criança que mergulhava nos faroestes e a mulher que se deixa arrebatar pela arte, há uma mesma linha de força: o desejo.

Seguimos todos assim – sujeitos atravessados por palavras (paroles, paroles…), por versos derramados no chão, por notas que acordam o inconsciente. Seguimos cantando, escrevendo, representando, tentando, com cada gesto, sustentar o fio tênue que nos une à vida.

As artes, afinal, não apenas refletem o humano: elas o reescrevem – como um sonho que insiste em ser lembrado.

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