Mário Sérgio
Quando aquela mocinha linda, com seus 16 anos e ruiva, quis demonstrar à sua querida amiga uma forjada decepção, usou termos pesados. A amiga, que sabia de seu interesse por um jovem da outra turma, na mesma escola, no intuito de promover a aproximação, contou ao rapaz, esportista e inteligente, da admiração da jovem. Ele sorriu e dirigiu à pretendente um olhar conspirador que a iluminou como se o tom de seus cabelos ganhasse luz própria a emoldurar aquele rosto com sardas, timidez e contida alegria. “Eu vou te matar!…” Disse ela plenamente consciente de que se tratava apenas de uma expressão sem qualquer intenção de se cumprir a violência. Afinal, eram amigas e a ação não foi, de forma alguma, uma ofensa e, sim, mais uma prova de amizade. O resultado foi exatamente o que ambas queriam e, para alegria geral, veio ao encontro da vontade do pretendido.
Então, por que a ameaça de assassinato? Qual a razão para uma expressão tão dura para alguém que construiu uma ponte entre dois interesses alinhados?
Nossa cultura internalizou uma herança negativa que se consolidou, desde nossa infância, por expressões, cantos, palavras que parecem inofensivas, mas que se revestem de uma carga beligerante e reprovável. Outras tantas expressões direcionadas a pessoas amadas, principalmente crianças, geram a ideia de que está tudo bem falar dessa forma. Mas, como bem observado em algumas religiões e corroborado pela própria ciência, “a palavra tem poder”. Aquilo que se repete continuamente, ainda que, em princípio, não seja, passa a ter a conotação de verdade.
Atente-se, por exemplo, para canções de ninar, como “Boi da cara preta” que, ao invés de estimular um sono tranquilo e reparador ou promover valores morais e empatia, traz uma ameaça terrível às crianças. Cansadas e com sono, à noite, as crianças internalizam o pavoroso e ameaçador animal. E durante o dia, também são aterrorizadas pela imagem do “homem do saco”, que as rouba para fazer sabão… pela descrição do personagem, nem parece adepto a higiene pessoal ou limpeza de qualquer espécie.
Talvez descenda daí a desalentadora ingratidão expressa numa gema genuína da MPB, “Atiraste uma Pedra” (1958), composta por David Nasser e Herivelto Martins, que o magistral Nelson Gonçalves gravou e que diz: “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem…”. Como se pode esperar que a paga ao bem que se faz seja uma pedra arremessada? Ou que alguém, conscientemente, quebre um telhado protetor contra o frio; ou que fira um amigo?
Talvez – e não afirmo de pleno por não encontrar, ainda, cientificidade que corrobore o entendimento – estejamos vivendo um estágio limiar da humanidade. Talvez o amor ao próximo, propalado em várias vertentes religiosas, esteja cedendo sua aura ao poder pelo poder; ao escárnio com o mais frágil; com o deficiente; com o menos aquinhoado. Talvez, toda a tecnologia que simplificou os processos de produção tenha liberado o homem, não apenas do trabalho braçal, mas, de forma preocupante, dos princípios de bom senso.