Puerpério de recém-adolescentes

Taís Civitarese

Tenho vivido um terceiro puerpério e não se trata de um terceiro filho. É o puerpério de mãe de recém-adolescentes. Há pouco tempo, abriu-se em minha casa a cortina desta nova maternidade. Ainda não requer noites em claro e a alimentação das crias consegue se dar de forma mais independente. No entanto, exige muito, mas muito, mas muito exercício de escuta e de apoio emocional. Muita escuta, muita paciência e muitos momentos de aconselhamento.

Felizmente, nesta fase (ao contrário de outrora) não estou sozinha. O “leite materno” deste período consiste basicamente em sermão. No nosso caso, paterno, que é o principal referencial de autoridade dos meus filhos. Envolve muitos balizamentos de conduta, a luta eterna contra o excesso de telas e que lhes recordemos daquilo que é aceitável e do que não é.

É um tipo de educação diferente da educação de crianças em idade pré-escolar e escolar. Os meninos são mais argumentativos. São questionadores, têm ideias apaixonadas e alegações cheias de lógica. No entanto, em outro minuto, irrompem  em risadas ou em choros infantis. Isso exige de nós mais ponderação, disposição para negociar e criatividade no vocabulário. A autoridade não consegue se fazer de cima para baixo e ser facilmente acatada. Haja conversa.

O esforço é bem mais mental do que físico. Eles fazem tudo sozinhos, mas têm dilemas existenciais insolucionáveis que acabam por despertar os nossos próprios. Acordam fantasmas enterrados há anos e temos que lutar tanto com esses quanto com os assombros da realidade dos nossos filhos. Não é fácil. 

Recaio sobre a mesma ladainha, sobre o bálsamo universal de todas as relações humanas que diz que na falta da possibilidade de uma solução, devemos acolher. É quase irresistível querer transmitir a eles nossa experiência para os conflitos com amigos, conflitos pessoais, questionamentos, dúvidas e medos. Experiência essa por vezes vivida nos exatos mesmos cenários e com personagens muito similares aos de nossa época. Isso torna tentador pender para a vingança e elaborar para eles um ’plot twist’ tardio e magistral. Mas não é o caminho. Acalmemo-nos e sigamos em frente. Eles não são nós, embora se pareçam conosco. São melhores em muitas coisas (piores em outras) e querem sobretudo amor, apoio e validação. Precisam também de boa dose de orientação e de ensinamentos repetidos, mesmo que já os saibam. O medo de agora é que, por algum motivo, já os tenham esquecido.

Pensando bem, não há tanta diferença entre esta e as outras fases. Continuamos a ser pais e mães cautelosos e que tentam acertar. Embora “modernos”, permanecemos em parte crianças como eles. E muito provavelmente, o que eles vão ser quando crescerem. 

4 comentários sobre “Puerpério de recém-adolescentes

  1. Thaís,
    Se ainda não publicou um livro sobre sua experiência enquanto médica/psiquiatra de crianças e adolescentes, está na hora.
    Com afeto,

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