Sandra Belchiolina
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“Nunca fui um bom exemplo, mas sou gente boa.” Foi com essa frase — meio confissão, meio provocação — que Rita Lee abriu o filme Ritas. E foi também com essa ironia desarmante que ela arrancou risos na plateia.
Assisti ao documentário como quem folheia um álbum de fotografias de alguém que nunca conheci, mas que sempre esteve presente em bons momentos de.minha vida. Bastou o primeiro acorde, o primeiro olhar por trás dos óculos extravagantes, e eu soube: Rita Lee não era só uma artista. Era uma força da natureza travestida de mulher, com cabelo vermelho e alma inquieta.
Ver o filme foi como entrar em um universo onde o rock era apenas a trilha para algo maior — um grito de liberdade, um convite à ousadia, uma gargalhada no rosto do conservadorismo. E ali, no centro do furacão, Rita. Não a Rainha do Rock, como tantos insistiam. Isso era pouco. Ela era a anarquia do som, o deboche da estética, a poesia do escracho. Um espírito livre demais para qualquer coroa.
Sua história, contada entre imagens de arquivo e depoimentos cheios de afeto, me lembrou que Rita não era feita de moldes. Era feita de excessos — de talento, de coragem, de humor. Ela não marchava com os feminismos de cartilha, mas com seus próprios pés descalços, firmes, entre guitarras e panelas. Fazia feminismo de ação, como quem troca a teoria por um riff bem tocado.
A cada cena, fui entendendo que Rita interrogava não só os costumes, mas a própria vida. Como se perguntasse, com seu sorriso debochado: “É isso mesmo que vocês chamam de normal?” E ria. Ria muito. Ria de si, dos outros, do sistema. E assim, entre risos e refrões, transformava o mundo ao seu redor — um mundo que ela ajudou a pintar com as cores mais do improvável e, por isso mesmo, mais lindas – uma mulher no rock!
E depois, quando a música deu lugar à escrita, ela ainda soube se reinventar. Em livros infantis, que foram inspirações para os netos, em memórias cheias de sinceridade e confissão, ela se despia das personagens, sem perder a graça. Contava dos parafusos soltos na juventude, e como foi achando uns de volta, sem nunca apertá-los demais — porque, talvez, a graça estivesse mesmo em deixar alguns soltos.
No fim, quando ouvi suas palavras ditas ao Bial — “fiz pessoas felizes” —, entendi tudo. Ela fez mesmo. Fez quando cantou, quando escandalizou, quando escreveu, quando sumiu e depois voltou. Fez até quando partiu, deixando a gente com esse nó na garganta e essa certeza: Rita era muitas. E todas elas cabiam em nós.
A irreverência, afinal, nunca sai de moda. Ainda mais quando tem trilha sonora.
Bravo. Gostei de sua crônica.
Linda Rita, nunca pode ser extinta!