Taís Civitarese
No livro “A esquerda não é woke” a filósofa Susan Neiman argumenta que o wokismo não é uma tendência da esquerda.
Ela diz que o desejo de inclusão de grupos notoriamente marginalizados pela sociedade – por quem o sentimento de empatia seria classicamente um atributo da esquerda – tende a suplantar os valores morais desta corrente e a divergir à direita, com o foco cada vez mais centrado em tribos, suas concepções próprias e seus direitos individuais.
Segundo ela, é como se tivesse havido uma deturpação dos princípios morais esquerdistas no melhor estilo “o sonho do oprimido é oprimir”.
Isso estaria nos levando a consequências nefastas como a relativização de crimes cometidos por parte da camada oprimida (vide o Hamas), além de gerar uma total intolerância moral contra os grupos opressores (alô homem branco).
Uma tendência citada pela autora e com a qual concordo é o fato de o wokismo mascarar ações inclusivas verdadeiras, como se apenas por usar uma linguagem neutra quiséssemos nos mostrar alinhados com um ideal enquanto continuamos tratando mal o garçom e sendo racistas. Já vi muito disso por aí.
Outro problema citado é a resistência ou o deboche de grupos pertencentes ao centro ou à direita por conta de reivindicações woke que soam exageradas ou radicais. Aproveitando-se amplamente desse sentimento, coroou-se a vitória de Trump nos EUA.
Um bom exemplo que ela dá sobre o assunto é quando conta sobre o lançamento de um livro de sua editora cujo slogan dizia: “este livro vai abrir seus olhos” e que recebeu amplo rechaço da comunidade de deficientes visuais. É absolutamente impossível se expressar com todas as possíveis ressalvas existentes.
Muitas vezes já me questionei se toda mudança não começaria através da linguagem. A resposta que encontrei foi: nem sempre. No contexto atual de superficialidade extrema favorecido pelas redes sociais, o maior risco do wokismo é restringir-se a ela. Outro incômodo é a apropriação de pautas woke para o comércio ou para demonstrar inserção em um clubinho ideológico – o que é bastante ridículo. Chega de se instrumentalizar a dor alheia para favorecer egos. Precisamos de ações reais.
É irritante o consumismo da ideologia do momento. O wokismo infelizmente virou um produto cultural frequentemente vazio e com ares de modismo muito mais do que uma proposta de mudança verdadeira.
Susan ainda passeia por terrenos perigosos dizendo que nem toda vítima é letrada politicamente a ponto de fazer reivindicações justas. Respeita o direito ao “lugar de fala”, mas explicita que nem todos fazem bom uso do mesmo. Não é mentira…
Estar do lado oprimido da história não nos torna automaticamente superiores do ponto de vista moral. Dependendo da maneira como se age, o que ocorre depois é apenas uma mera inversão de posições. Que se fale de inclusão e que se trabalhe verdadeiramente e, de preferência, dignamente por ela.