Textos curtos da meia noite

Márcio Magno Passos
Medalha

Sonhou que disputava uma prova de ciclismo. Desceu embalado, sempre aumentando a velocidade, forçando o corpo para um lado e outro buscando equilíbrio, achando que não ia dar conta, mas insistindo, passando um concorrente e mais outro, até que uma violenta câimbra no pé direito o joga no chão e o tira da disputa, do sonho e do sono.
Levantou com muita dificuldade porque a câimbra era real, fez dez minutos de alongamento e voltou a dormir. Quanta pretensão!

Teste de amor

Beeem, você ainda me ama?, perguntou a esposa.
– Claro que te amo!, respondeu o marido.
– Então me diz em que dia começamos a namorar?
– Nossa, faz tanto tempo que nem me lembro!
– Que perfume estou usando?
– É aquele que dei no seu aniversário?
– Não, esse é novo. Eu comprei ontem! Fala o que você está vendo diferente em mim hoje?
– O perfume…
– Não!
– Deixe-me ver. Uai, pra mim tem nada diferente não!
– Cortei o cabelo, bem!
– Ó, é mesmo! Ficou muito bom!

Diabético

Mal começa urinar e vê uma daquelas formigas cabeçudas girando no interior do vaso sanitário que nem aquelas motos no globo da morte daquele circo do interior. Ele dá descarga e a cabeçuda escapa serelepe e faceira.
No dia seguinte, quando repete o ritual, já são duas formigas cabeçudas girando em alta velocidade como se estivessem fugindo do jato do líquido caindo sobre a louça. Ele redireciona o jato para atingi-las, molha a borda do vaso e elas fogem e desaparecem.
No terceiro dia foi como ele já imaginava. Eram três cabeçudas, uma correndo atrás da outra. O diabético acabou de urinar tranquilo, deu descarga e, toda vez que elas tentavam subir, ele batia a tampa do vaso. Até entrarem pelo cano e desaparecerem da vida dele.
As cabeçudas que vão caçar açúcar no raio que as partam.

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