Dia do Rei

Li que o governo brasileiro cogitou trazer o coração de Dom Pedro I, que está preservado em formol e guardado em uma igreja de Portugal, para as comemorações do bicentenário da Independência. O que me levou a recordar a história do povo de São Benedito do Padecimento, um pequeno povoado na divisa com o fim do mundo, onde as antigas tradições são firmes, arraigadas e, vá lá, um pouco estranhas também.

Lá, todos os anos, assim que as folhas das árvores adquirem aquele tom amarelado, antes de padecer, comemora-se o Dia do Rei.

No último outono, foi a vez de homenagear o rei Manjar, cujo reinado durou pouco: quarenta e oito anos. Era ainda jovem quando morreu espetado pelas vértebras de uma truta que lhe entalou na garganta numa dessas suas extravagâncias. Apesar da fama de glutão e preguiçoso, era um homem inteligente e um rei eficiente. Foi ele que instituiu a sesta após o almoço. E por essa façanha, tida por todos como genial, preservaram-lhe a cabeça durante todos esses anos.

Então as comemorações do Dia do Rei foram realizadas em torno da cabeça do majestoso Manjar, um pouco desfigurada pela ação do tempo, devemos concordar, mas preservada o bastante para se constatar a expressão de angústia e aflição, típica de quem morre com uma espinha de peixe atravessada na garganta.

Constam ainda dos anais de São Benedito do Padecimento as celebrações de 1837. Eram tempos de abundância aqueles, pois a população ainda gozava os frutos da descoberta de um sábio e sombrio rei chamado Cujo. Foi o rei Cujo que descobriu que matar um boi em lua cheia, banhar-se do sangue do pobre animal e dançar em volta da fogueira, fazia prosperar as lavouras no dia seguinte.

Ele mesmo tratou de escrever manuscritos, em que ensinava esta e outras liturgias macabras, em prol do povo de São Benedito do Padecimento. Não por acaso, preservaram-lhes as mãos. E em torno das mãos empalhadas do rei Cujo, que pareciam dois galhos secos, celebraram-se o dia do Rei de 1837.

Assim se sucedeu com os olhos do rei Sentinela, os quais, hoje, assentados no fundo de um pote de formol, outrora vigiaram as fronteiras de São Benedito do Padecimento contra o resto do mundo; também se sucedeu com os pés mumificados do rei Salvador, que um dia percorreram pelas estradas afora até alcançar um padre corajoso o bastante para celebrar uma missa onde se dançava em volta da fogueira coberto de sangue. E também aconteceu com os ossos dos braços do rei Bravo, que no passado, quando havia ali um bocado de músculos, empunharam espada e escudo para defender o seu reinado contra alienígenas comunistas.

Curioso mesmo foi o que aconteceu no Dia do Rei do outono de 1890. Era vez de celebrar o longo reinado do rei Titica, que perdurou entre 1822 e 1910. Então trouxeram um lindo vaso de porcelana, repleto de bolotas pretas, que pareciam carvão. Quando aquele peculiar objeto foi colocado no topo de um altar, todos lançaram olhares curiosos e irrequietos. Ao que um dos populares, que mastigava despretensiosamente um ramo de tomilho, tratou de explicar:

— Vixe! Esse aí só fez merda.

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