Pernilongo

Tais Civitarese

Eu adoro matar pernilongo. Principalmente se for no ar. E mais ainda se, após espalmá-lo, perceber uma gota de sangue nas minhas mãos. Sinal de que me vinguei com justiça do inconveniente sanguessuga da família.

Provavelmente, a sociedade protetora dos pernilongos virá me processar (ou algum amigo budista, a quem respeito, se incomode com esta declaração).

A verdade é que o bom senso não existe mais há muito tempo. Sequer o senso. Apenas a militância fútil e vazia dissemina-se como moscas, ou melhor, como pernilongos. Não há substância. Não há sangue por dentro. Apenas vazio. Palavras repetidas sem estofo. Convicções formadas em tuites de 15 palavras ou em vídeos de 15 segundos. Falta consistência. Desse jeito, não há mudança que se consolide. Fica parecendo um enxame, barulhento e incômodo.

Até os ideais são consumidos como balas de um drops. Creio que a militância não saiba o que é drops. Essa palavra é do tempo em que ainda havia livros.

Hoje, só há bobagens. E como!

Um dia, caiu uma pomba morta em nossa garagem. Alguém reclamou que não a levamos ao veterinário. Parece piada ruim, mas não é. Os cérebros da sociedade estão bugados. Será doença de pernilongo?

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Um comentário sobre “Pernilongo

  1. Pergunto-me como isso vai acabar. Imagino batalhões de seres robotizados repetindo chavões, palavras de ordem, totalmente esvaziados de sentido e de senso crítico. Dá medo. E pena também.

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