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Guilherme Scarpellini
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Acordou com o pé dormente. Foi pulando no pé bom até a pia e enxaguou o rosto. Mal havia escovado os dentes e pegou o celular para checar os e-mails. Ao servir o café amargo, já havia olhado outras três vezes. Os primeiros minutos se passaram. Depois, a primeira hora. Então, a segunda… Sem e-mails. Não gostava de manhãs tranquilas. Ao sair de casa não mereceu sequer um bom dia do porteiro. O cachorro da rua não abanou o rabo. O mendigo passou sem pedir esmola. Caminhar despercebida pelo mundo era um talento que não pediu a Deus. Já pensou em andar pelada. Enfiar uma melancia na cabeça. Certa vez chegou a tingir o cabelo de rosa, como uma punk dos anos oitenta. Mas só atraiu aquilo que era ainda pior do que o desprezo velado: o desprezo na cara dos outros. Chegou ao seu trabalho e o maldito pé ainda não havia chegado. Era um membro fantasma: estava ali, mas não estava. A merda de um pé dormente debaixo da mesa. Sua mesa era distante das outras. Isso ela até gostava. A prevenia daquele papo furado, com bafo de café, típico dos escritórios. Talvez por isso, trabalhava mais que os outros. Acreditou que arrancaria uns elogios do chefe qualquer dia desses. Acreditou porque era idiota. Uma idiota invisível. Foi embora sem elogio. Precisou caminhar arrastando o pé dormente no caminho de volta para casa. Já estava escuro quando ela chegou. Três minutos para encontrar a chave dentro da bolsa. Estava morta de cansada. Abriu a porta e foi direto para o quarto. Foi quando acendeu a luz que tomou um susto enorme. Havia alguém deitado em sua cama. Susto maior ainda foi perceber que era ela mesma que estava deitada. Como pode isso? Ela não saberia explicar. A única certeza é que já fazia algum tempo que ela estava ali, pálida, dura e gelada. Morta. Um dos pés estava completamente carcomido por larvas gordas.

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