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O mau olhado da dona Filó

Rosangela Maluf

Parte I

Aos meus olhos de criança, dona Filomena – por ser tão velhinha – deveria estar bem perto da morte. À época, nós, crianças, pensávamos que só gente velha morria. Sempre que o sino tocava e o triste badalar indicava uma morte, a criançada logo imaginava que um de nós perdera um avô. Sim, morriam mais avôs do que avós. A estatística era do próprio grupo ao qual eu pertencia, e sendo assim, pensávamos que dona Filó não demoraria muito, seria uma exceção, mas era o que comentávamos entre nós.

A fama daquela velhinha era terrível. A mãe do Caco contou pra minha mãe que viu, com seus próprios olhos, a morte de um passarinho: morto pelo mau-olhado da dona Filó. Sim, todos diziam que ela possuía um mal no olhar, e que podia matar plantas, passarinhos e até gente! Era só chegar perto. Minha mãe não dizia nada e quando eu perguntava querendo saber mais, ela mudava de assunto. Não era assunto pra crianças. Ela não dizia que era verdade, mas também não desmentia a história que eu ouvira.

Dona Tica, a mãe do Caco jurou que a dona Filó foi visitá-la. Ao andar pelo quintal para apanhar couve, pararam as duas em frente a uma das gaiolas que Seu Nico, o marido, cuidava com imenso cuidado. Dona Filó parou. Olhou por uns segundos para o canarinho belga. Os outros passarinhos na gaiola começaram a voar pra lá e pra cá, numa confusão só. Dona Filó chegou bem perto colocando o nariz no buraco da tela que cercava o viveiro. Falou alguma coisa, bem baixinho. Tão baixo que a mãe do Caco não conseguiu ouvir. Dali saíram, as duas, pra tomar um cafezinho antes que a dona Filó fosse embora.

Na manhã seguinte, Geleia, irmão do Caco e também meu amigo, dá um berro quando chega pra colocar alpiste pros passarinhos. O canarinho belga morto: amarelinho, lindo, duro, esticado no chão da gaiola, as patinhas pra cima. Gritos. Choro. 

Mãe, vem cá procê vê!!! 

Dona Tica não podia acreditar. Nem falaria nada pro Geleia nem pro Caco, mas só podia ter sido o mau-olhado da dona Filó. Depois do almoço, chamou minha mãe no portão. Contou tudo e disse não ter dúvidas. 

Foi mesmo o mau olhado da velha bruxa! 

Minha mãe, sempre discreta, ouviu calada e nenhum comentário fez!

Mas, pelo sim pelo não, colocou em seus vasos figas de madeira, compradas na venda do Seu Juquinha e que teriam o raro poder de “neutralizar forças negativas”… e maléficas. Um punhadinho de sal grosso para impedir a força do mal. O vaso de renda portuguesa não poderia jamais sucumbir a nenhum olhar maléfico. Nem as avencas. Nem os antúrios, nem as samambaias presas no teto. E um Pai Nosso, bem rezado com fé. Com bastante fé.

Batem palmas no portão. Minha mãe vai atender:

– Bom dia, comadre. Vim buscar uns raminhos de salsinha e cebolinha, posso entrar?

E a velha bruxa abre o portão...

Seja o que Deus quiser!

Parte II

A comadre dona Fia chegou bem perto da hora do café da tarde. O cheiro de erva-doce, da broa ainda assando, inundava toda a casa. As duas foram conversar no sofá da sala enquanto, discretamente, eu deixava aberta a porta do meu quarto “para ouvir conversa de adulto”! 

– Já tá sabendo da última?

– Não! O que foi desta vez?

– Celinha…

– O que tem Celinha? Fala mulher…

– Lembra quando ela pediu ao seu filho Pretinho que cercasse o pé de mamão? Ela mesma nos contou. Estava animada com o tanto de mamão que o pé daria nesta temporada. Contou pra nós que cada uma, aqui na rua, iria ganhar um fruto. Doce de mamão ralado com abacaxi, já pensou?

– Pois bem, o que foi que ela me disse ontem? Na terça-feira bateram palma em sua porta. Ela mesma foi atender. Era Dona Filó. Fora levar uma dúzia de ovos. Ovos caseiros, das suas galinhas. Daqueles da gema bem amarelinha. 

Celinha disse que fez entrar a dona Filó. Foram, as duas, caminhando até o quintal. Ela queria salsinha e cebolinha. Apanharam um punhadinho de cada. Quando passaram em frente ao pé de mamão, dona Filó olhou e disse: 

– Benzadeus, que beleza de mamoeiro. 

Ficou olhando por alguns minutos e então, se apoiou no pé de mamão. Poucos segundos e subiram a escadinha. Chegaram à cozinha. 

Celinha disse que serviu um café com broa e ela se foi. Isto foi na terça-feira desta semana. Não tem nem três dias, mulher!

Você acredita que ontem, Celinha foi lá em casa e me contou uma coisa que você não vai acreditar. Disse ela que olhou da janela e achou muito estranha a cor dos mamões. Antes estavam verdinhos e saudáveis e agora pareciam cinzentos e murchos. Ela então resolveu olhar de perto. Desceu a escadinha e chegou ao quintal.

– Você pode adivinhar!

– Já sei, a bruxa matou o pé de mamão!

– Olha, matar não matou não. Mas os pobres dos mamõezinhos estão secos, murchos, como se alguém lhes tivesse tirado toda a seiva. Extirpado as suas vidas. Cruz credo. Estou ficando com medo desta velha. 

Minha mãe vai buscar algo lá dentro. E eu só ouvindo e observando!

Olha, eu tenho certeza que funciona! Toma aqui, leva procê. Um pacotinho de sal grosso, uma figa de madeira. Você usa sua fé e reza o Pai Nosso, peça com muita vontade para que isto consiga espantar o mau olhado desta velhota. 

– E vamos continuar rezando pra que o Sagrado Coração de Jesus (e de Maria também) continuem nos ajudando. 

Amém.

Parte III

Ah, não! Nesta história eu não acredito! Ninguém tem este poder de fazer o mal. Vocês estão sonhando, todas vocês, fracas das ideias. É só uma coincidência! A morte do canarinho belga, a secura do mamoeiro, isto acontece todo dia. Pobre dona Filó, sendo injustamente acusada de realizar coisas comuns que acontecem a qualquer hora, em qualquer dia. 

Meu pai estava irritado com os casos que a minha mãe contava sobre a Dona Filó. Ele achava impossível que a pobre senhora pudesse ter nos olhos uma energia ruim que causasse estragos. Superstição, só pode. E muito me admira, vocês três acreditando em tanta bobagem. Que tolice!

– Mas, não pode ser coincidência. A Celinha falou a mesma coisa que a Tica. E eu, mais do que depressa, fui dar um jeito de me prevenir… já te falei, arrumei um monte de espanta-o-mal e espalhei pelo quintal, pela horta, não posso facilitar.

Que coisa, hein! A pobre senhora, já idosa, rezadeira, cheia de terços dependurados no pescoço. Só vocês mesmo pra pensarem numa bobagem tão grande

Minha mãe nem responde e vai atender o portão. É ela, bem na hora do almoço. Um respiro bem profundo.

 – Vamos entrar, dona Filó.

É rapidinho, minha filha. Vim pegar as bananas que você me prometeu. Vim antes do almoço. Você sabe, os meninos adoram banana com a comida. E o seu marido, já chegou pro almoço?

Meu pai vem chegando do quintal. Ele vem do galinheiro onde foi ver um galo que andava babando. Volta com um cotonete embebido em uma solução arroxeada, indicada pelo Seu Nico, um profundo conhecedor das doenças das aves!

– Oi, seu Jaime. Há quanto tempo não vejo o senhor. Tá bonitão, tá forte. Tudo na paz do Senhor, né? 

Lequinha termina de por a mesa. Avisa pra mamãe que grita pro papai que fala pra eu lavar as mãos e me sentar pra almoçar. Sim, vamos todos almoçar. Uma terça-feira absolutamente normal, até que, após o almoço, o papai resolve ele mesmo ir até o fogão, se servir do cafezinho recém-coado pela Lequinha.

Ninguém conseguiu entender como foi que ao pegar a cafeteira ela escorregou de suas mãos. Pra evitar que ela caísse ao chão ele se lançou a uma série de malabarismos e contorcionismos terminando por se espatifar no chão. 

Lequinha olhou pra minha mãe com os olhos arregalados. 

Minha mãe olhou pra mim, com aquela habitual cara de paisagem. 

Eu olhei pro meu pai e pensei, mas nada falei.

Só pensei…

*
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