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Música em silêncio

Daniela Mata Machado

Relendo os últimos textos que escrevi para o Mirante, me dei conta tde que estou quase sempre falando de música. Isso é bem curioso porque nunca tive bom ouvido, não toco nenhum instrumento e meu nível de afinação não permite que eu cante na presença de desconhecidos ou na ausência de álcool. A música, no entanto, é o meu lugar seguro. Eu preciso de música para trabalhar – quem já participou dos processamentos de memória que conduzo sabe que a música popular é parte crucial do processo –, para acalmar a alma, para sorrir, para chorar, para lembrar e para esquecer.

Agora de manhã, as notícias sobre a disseminação rápida da variante Delta no Brasil me lembraram do estado de alerta em que estamos vivendo (ok, como se fosse possível esquecer, né?). Chamei o trompete de Miles Davis para me socorrer. E um cheirinho do óleo essencial de hortelã-pimenta, que também ajuda a dispersar o horror.

Sabe esses fones de ouvido enormes que os adolescentes usam e que parecem transportá-los para uma outra dimensão, para desespero dos pais? Então, eu sou a mãe de uma adolescente, mas infinitas vezes eu e minha filhanos refugiamos em mundos parecidos… embora seja provável que o universo dela toque Now United, enquanto o meu revive o rock nacional dos anos 1980.

Não estamos – nenhuma de nós duas – fugindo das nossas realidades. Estamos apenas criando maneiras possíveis de lidar com elas. A música – como o silêncio – é terapêutica. E muitas vezes essas canções que ecoam somente nos fones de ouvido e ao resto do mundo revelam apenas o silêncio são também uma forma de nos organizar por dentro.

O trompete de Miles segue me trazendo calma para lidar com o resto do noticiário, que não me parece melhor do que as manchetes sobre a disseminação da variante Delta. Now United faz minha filha dançar com fones de ouvido enquanto os amigos continuam distantes, a vida pede máscaras e os dias da adolescência seguem ameaçados por um vírus mortal para o qual já existem vacinas que ainda não chegaram para todos. Ali na sala, meu companheiro também tem fones de ouvido, provavelmente entregues a alguma cantora de samba que despontou na Lapa antes que as portas dos bares fossem fechadas, há pouco mais de um ano. No quarto, quase inaudível, a caçulinha dedilha um violão maior do que ela.

Seguimos. Com música. Em silêncio. Até que todos os sons possam novamente ecoar em ambientes festivos, celebrando a vida que há de romper este tempo e voltar a brilhar, em múltiplos acordes.  Em breve, há de ser carnaval.

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