O Imprevisível

Rosangela Maluf Aquela menina bem poderia ser sua filha. Aos sessenta, ter uma filha de quarenta era uma possibilidade real. Ela, por sua vez, era pediatra, casada, com duas filhas, mas totalmente fora dos padrões. Layla parecia mesmo uma garota rebelde. Magrinha, miúda, cabelo curto, cor laranja. Tatuagens. Muitos brincos. Muito falante, muito divertida. Responsável no trabalho. Dona de casa exigente. Mãe dedicada de duas … Continuar lendo O Imprevisível

No Salão da Lena

Rosangela Maluf Poucas coisas me divertiam mais do que o salão Big Star; a começar pelo nome que, vamos e venhamos, não inspira muita coisa. Grande estrela, só se for ela, a Lena. Uma das pessoas mais espirituosas, engraçadas e de bem com a vida que já conheci. E ainda por cima, ótima profissional; cuidava dos cabelos como ninguém, fazia de tudo: anelava para quem … Continuar lendo No Salão da Lena

Jogo do Galo

Rosangela Maluf Quando se conheceram, ambos já sabiam das limitações e dificuldades que aquele início de romance teria. Ele, por ser casado, ter três filhos, trabalho sem horário fixo de saída, muito preocupado (e amedrontado) com as possíveis reações da mulher-fera: brava feito uma onça. Ela, solteira, maior de cinquenta, dentista, fazendo seu próprio horário, vivendo sozinha em um apartamento sem ninguém para lhe encher … Continuar lendo Jogo do Galo

A Moça de Oxford

Rosangela Maluf É muito comum aceitar novos amigos virtuais, baseando-se apenas no número de conhecidos em comum. Foi o que aconteceu quando ela me solicitou amizade, pelo Facebook. Em alguns finais de semana, por culpa dos algoritmos (ou não), o número de solicitações é muito grande, dá até preguiça. E naquele domingo foram muitos os pedidos de amizade, mais de quarenta. Aceitei vários e deletei muitos.  … Continuar lendo A Moça de Oxford

Não me chame de amor…

Rosangela Maluf Como sempre vem acontecendo nos últimos meses, ela acorda de mau-humor. Olha o relógio em sua mesinha de cabeceira e vê que ainda é muito cedo: 7h45. Resolve ficar mais um tempo na cama, mas sente-se mal. Quer respirar profundamente. Não consegue sem enorme esforço. Além disso, tem sede, muita sede. Talvez tenha sido o vinho que lhe acompanhara na noite anterior quando … Continuar lendo Não me chame de amor…

Sábado de manhã

Rosangela Maluf Era um sábado como qualquer outro. Ela fechou o livro, saiu da cama. Olhou para o relógio na mesinha de cabeceira e viu que já eram quase dez horas. Resolveu se levantar e abrir a porta para que a gata entrasse. A amiga dourada miou delicadamente. Era um bom dia, ela entendeu. Resolveu abrir as cortinas que, até então, continuavam fechadas. O sol … Continuar lendo Sábado de manhã

Uma Certa Loucura

Rosangela Maluf Durante os tempos da nossa bem vivida juventude, ele dera muito de si enquanto eu voltava sempre vazia, ao meu ponto de partida. Pouca esperança de avanços promissores. Faltava alguma coisa ainda por descobrir. Eu imaginava que haveria outros corpos sem carícias, outros olhares sem brilho, beijos sem sabor, até que surgisse o grande amor de que todo mundo falava – não era … Continuar lendo Uma Certa Loucura

Foto: (foto: Eugênio Silva/O Cruzeiro/Arquivo Estado de Minas - 26/8/1958 - EM)

Domingo no Parque

Rosangela Maluf Passeio minha solidão por alamedas molhadas do parque municipal Estendo minha tristeza em poças d’água criadas pela chuva de ontem Meu olhar procura por entre árvores seculares o turquesa do céu nesta manhã de verão Mergulho minha esperança no verde profundo destes lagos Renovo minha alegria no dourado dos peixes no cintilar das plantas Refaço meu caminho de volta pra casa plena de … Continuar lendo Domingo no Parque

Os Olhos Claros de João

Parte VRosangela Maluf – Sinto saudades, não. Lembrança boa ou ruim, nenhuma diferença me faz. Minha vida é como um livro de gravuras, umas coloridas, outras em preto e branco, e eu vou passando as páginas. Mas saudade, ter vontade de voltar ao passado, porque foi bom, porque foi gostoso, não tenho. De nada. Vejo fotos, e nem parece que sou eu. Não me vejo … Continuar lendo Os Olhos Claros de João