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Quando minha avó faleceu, herdei sua cadeira de balanço. Assento e encosto de palha, modelo Thonet. A cadeira de balanço tinha sido da mãe dela, minha bisa Ceci. A cadeira em que ela cochilava depois do almoço. Quando criança, eu gostava de me balançar nela de olhos fechados e cada vez mais veloz. Minha avó bradava: “cuidado para a cadeira não virar para trás”.
Quando ela faleceu, levei a cadeira para minha casa e coloquei na sala, perto das plantas. Gostava de ler e me balançar de olhos fechados lembrando do cheiro e das memórias dela. A cadeira serviu de cadeira de amamentação quando muita filha nasceu. Mandei fazer almofadas removíveis para o assento e o encosto, em tom de branco e floral. A cadeira embalou sonecas da tarde e longas mamadas da Laura que, quando maiorzinha, gostava de brincar do mesmo jeito, enquanto eu bradava: “cuidado para a cadeira não virar para trás”.
Ontem eu assisti ao filme “Valor sentimental”, que me fez lembrar a minha história com a cadeira de balanço e o amor da minha avó.
Um filme lento, delicado e de grande densidade dramática em que numa casa que serviu de moradia a diversas gerações de uma mesma família em Oslo, na Noruega, vai se revelando aos poucos as relações, os afetos e os conflitos após uma morte.
Na aparente simplicidade dos atos banais da rotina vão se desvendando memórias, experiências e traumas que ligam passado e presente, deixando para o futuro algo que fica oculto e carente de resignificação. Os não ditos. As tragédias. Os lutos. As emoções represadas. Os desencontros.
O valor do que é inestimável. Imensurável.
Um filme que conecta vida, arte e memória. Vale cada segundo. Ah, e segundo o Google, uma cadeira de balanço Thonet custa hoje algo em torno de 2500 a 3500 reais.
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